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Tuesday, August 03, 2004

..sou apenas uma garota fodida

Muito se tem falado do filme “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”. Realmente o filme é fantástico, rico em interpretações e fala ao coração de muita gente. O mote principal é a benção do esquecimento. Fala em quanto seríamos mais felizes se tivéssemos a oportunidade de esquecermos tudo aquilo que nos feriu a alma e nos impede de prosseguirmos. Porém, além deste belo aspecto utópico, o filme também me marcou por uma fala da personagem Clementine (Kate Winslet) em uma das muitas brigas com o namorado Joel (Jim Carrey).

Ela diz : “ Joel, I'm not a concept. I want you to just keep that in your head. Too many guys think I'm a concept or I complete them or I'm going to make them alive, but I'm just a fucked-up girl who is looking for my own peace of mind. Don't assign me yours.”.

Tradução livre : “Joel, eu não sou um conceito. Eu quero que você entenda isto. Muitos caras acham que eu sou um conceito ou que eu os completo ou que eu vou mantê-los vivos, mas eu sou apenas uma garota fodida procurando paz.....

Achei sensacional esta fala. Me fez pensar nas armadilhas que armamos para nós mesmos quando, ao nos apaixonar por alguém, podemos acabar, mesmo sem querer, conceituando o outro dentro das nossas expectativas emocionais. Que tipo de conceitos seriam estes ? ..exemplos : “vc é tudo prá mim”, “ meu príncipe encantado”, “homem da minha vida”, “minha princesa”, ”minha rainha”, “salvação da minha vida”, etc...

O incrível é que temos a capacidade de rotular o outro mesmo sem perguntar se ele (ou ela) está disponível ou interessado em assumir algum papel diante de nós. Porém achamos estes títulos bonitos, importantes e os criamos de acordo com nossa vaidade e necessidade emocional. É claro que, se isto acontece, passamos a esperar que o objeto da nossa paixão exiba apenas comportamentos adequados ao personagem que lhe designamos. Mas quem consegue viver um personagem para sempre ? Por isto acredito que estes “tratamentos” estejam condenados ao fracasso - eles duram o tempo exato do príncipe virar sapo ou a princesa, perereca-. E depois ? Nos sentimos enganados e traídos ou então percebemos a auto-ilusão ?

Talvez o que deva ser percebido é que nossa necessidade de buscar portos-seguros pode nos fazer cegos diante da necessidade do outro. Talvez, como disse Clementine, o que o outro esteja buscando seja apenas um pouco de paz e não esteja disposto a assumir o papel de nosso salvador. Talvez tenhamos que conceituar menos e enxergar mais.

Ps : O fala reproduzida acima foi retirada do site http://sfy.iv.ru/sfy.html?script=spotless_mind que traz uma prévia do script escrito por Charlie Kaufman, Michel Gondry e Pierre Bismuth. Pode não estar idêntica à proferida no filme, mas a idéia é a mesma.

3 comments:

Mariana said...

Oi amado!!
esse filme é uma obra prima. Os chamados "conceitos" estão presentes no relacionamento das pessoas. Por 6 longos anos, assumi um papel q demorei pra me dar conta, o de suporte emocional. muita coisa pode ser dita, mas eu prefiro não falar nada. acho q tu me entende bem.
beijo

Anonymous said...

Teus comentários calaram no fundo da minha alma e tenho que concordar sim, com tudo que escreveste pois realmente, colocamos no outro, tudo aquilo que está nos faltando. Todas as nossas carências, sem ao memso perguntar se o outro (a) está preparado(a) para assumir este papel.
Existem muitas armadilhas os relacionamentos e nós mesmos as ativamos para depois dizermos : foste tu o culpado(a)....
Beijo e sempre te amando

Anonymous said...

Vou assistir ao filme hoje, mas já sei que a obra vai ser marcante, assim como ocorreu com "Quero ser John Malkovich".

Quanto aos papéis em que nos colocam, ou colocamos as pessoas com quem nos relacionamos, é meio que inevitável numa sociedade acostumada a rotular ou classificar as pessoas como se fossem personagem de novela.

[]s
Murilo