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Hino do Blog : " ...e todas as vozes da minha cabeça, agora ... juntas. Não pára não - até o chão - elas estão descontroladas..."
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Tuesday, August 17, 2004

O inferno está cheio de bem intencionados



Há alguns anos, durante 8 meses, trabalhei como voluntário no CVV (Centro de Valorização da Vida).Para quem não sabe, o O CVV é uma organização não governamental de voluntários, existente em vários países, que tem como objetivo principal a prevenção do suicídio. A idéia do CVV é aparentemente simples : o que os voluntários devem fazer é escutar o desabafo e as angústias de uma outra pessoa sem emitir seus próprios conceitos e preconceitos. É praticar o acolhimento incondicional da verdade alheia, seja ela qual for, sem conselhos e nem lição de moral. Dito assim, a coisa parece simples mas o exercício real desta idéia pode ser muito dificil.

Antes de conhecer o CVV de perto, eu achava que a entidade era uma espécie de central de conselhos. E eu, imbuído da "motivação de ajudar", tinha a pretensão de que estava pronto para auxiliar o próximo com toda minha sabedoria adquirida em anos de prática religiosa e filosófica. Que piada ! Que orgulho ! Minha soberba caiu logo no início do curso de preparação para o atendimento, quando nos foi ensinada a regra básica : ouvir e aceitar. E só. Como assim? E toda a minha bagagem de conselhos que eu imaginava que as pessoas estavam ansiosas para ouvir ? E toda a minha experiência de voluntariado? -que na verdade era muito pouca-. Mas mesmo assim fui em frente e completei o curso de preparação..

Iniciei o trabalho nos plantões e logo comecei a viver um universo de emoções : tristeza (muita, diante de situações mais ou menos trágicas); impotência (em não poder resolver vários dramas); raiva (ao ouvir -é verdade- confissões de atos criminosos); tédio (ao ouvir longos monólogos -às vezes de mais de uma hora- de pessoas que apenas queriam falar, falar e falar) mas também vivi muitas felicidade e alegrias. Foi um período no qual experimentei um precioso crescimento pessoal e onde se iniciou um definitivo "turning point" na minha vida (talvez um dia fale sobre isto). Aprendi várias coisas fundamentais para qualquer ser humano, porém a mais importante de todas foi entender que, a despeito da nossa vontade, somos limitados na nossa capacidade de ajudar quem quer que seja.

Aprendi que, por mais que queiramos auxiliar alguém a resolver um problema, nossa ação é limitada. Este limite pode surgir diante de situações reais (uma doença, por exemplo) ou -e é aí que a coisa complica- o limite pode surgir quando o outro não enxerga nenhuma possibilidade de solução para sua própria questão, mesmo que, aparentemente, esta solução esteja evidente para nós. Quando isto acontece, diante da falta de ação do outro, nossa tendência é começar a dar conselhos, dizer coisas do tipo : "vc deve fazer isto, ou aquilo", ou "se fosse comigo, eu faria tal coisa" ou -esta é clássica e terrível- "isto vai passar". Ou então começamos a questionar : "como pode aguentar tal coisa?", ou "porque você não reage ?". Começamos a tagarelar como se fôssemos a perfeição em pessoa e tivéssemos resposta para qualquer problema da humanidade.

Na intenção do auxílio não percebemos que não temos o direito de desrespeitar quem quer que seja com nossa sabedoria de almanaque. Mas não, o que queremos é que o outro aceite imediatamente nossos sábios conselhos e rapidamente encontre o caminho da salvação. Mas a verdade é que as soluções, dependendo da realidade alheia, podem ser muito difíceis ou impossíveis de alcançar, e, neste caso, quanto maior for nosso esforço para influenciar o outro, mais ficaremos frustrados pela falta de resultados. E dai ? Do que vai adiantar nosso inútil poder iluminado ?

É claro que o drama do outro pode diminuir ou acabar mais cedo ou mais tarde (seja por uma reação positiva ou pela passagem do tempo, por exemplo), mas existe um momento onde o sofrimento é grande e real e nada do que possamos dizer irá amenizar a dor sentida.

No momento da revelação da sua angústia a pessoa pode estar vivenciando uma situação terrível e o que quer, o que precisa, é simplesmente alguém para escutá-la, alguém para partilhar sua dor, e não alguém que a com um discurso de soluções ou questionamentos fáceis.

9 comments:

umamulher said...

Meu Rei!Tarefa difícil o voluntariado né? Achamos que pelo simples fato de dizermos "EU SOU VOLUNTÁRIO" as portas da sabedoria abrem-se e saímos como se estivéssemos comandando um exército, cheios de razão, soberba(como te referes), quando na verdade os que "nos procuram" na ânsia de aliviar suas dores é que acabam nos ajudando a transformarmos nossas vidas, poi depois de uma vivência de voluntário, passamos a viver de maneira diferente, eu diria até q."achamos a chave da casinha...". Bjo no Urso! Te amando ! Themis

Anonymous said...

Oi Iuri
Interessante seu texto... ouvir é mesmo uma arte! e exercitar essa arte sem omitir opiniões é ainda mais difícil quando nos julgamos "os conselheiros"... é impressionante a carencia de escuta que vivemos... não ouvimos nem a nós mesmo, não temos tempo, quem dirá aos outros!!! Lendo seu texto veio a cabeça uma frase de um professor que diz: "O pior cego é aquele que não quer ouvir"! Abraços. M.M.

Mariana said...

pois é né dindo?? eu vou ter q fazer uma reuniãozinha familiar domingo... vai ficar do meu lado pra segurar a minha mão?? hehehehehe
beijosssssssssssssssss!!!!!!!!!! I love you!!!!!

Anonymous said...

Oi Amado
Enquanto lia o teutexto me lembrei de um comentário do Dalai Lama sobre a compaixão que muitas vezes é confundida com as palavras dó ou pena. Ele diz que há muita diferença nestes conceitos:
* o primeiro possui uma relação horizontal, ou seja, vemos a dor do outro sabendo que ela poderia ser a nossa dor em outros momentos.
* o segundo tem uma relação vertical pois nos sentimos superiores a quem está sofrendo, como se pudéssemos ser imunes àquele tipo de dor por sermos mais evoluídos cultural ou espiritualmente.
Mesmo quando as intenções são as melhore possíveis, é sempre importante não esquecer a humildade.

Beijos
Niara

Anonymous said...

Concordo...adorei seu texto Iuri !
Abraços
Thiago

Anonymous said...

Meu amor,

Acredito que ao nos solidarizarmos com o sofrimento alheio, devemos ter o máximo cuidado em não inferir valores pessoais da nossa construção de vida ao outro. O que pode parecer simples e positivo para alguém, para outra pessoa pode significar algo negativo e complexo. Portanto, respeito é a palavra chave nesse processo assitência. Saber lidar e não intervir em realidades diferentes daquelas que achamos a ideal é uma virtude. Li, em algum lugar, um ensinamento de um cara chamado Tierno Bokar e acho apropriado repetí-lo aqui: "Não há uma só verdade, mas três: a minha, a sua e a do mundo."

Bjo,

Luciano

Anonymous said...

Oi Iuri,

o que acontece é que a decisão de mudança
será sempre da pessoa necessitada. Ao ajudar uma
pessoa devemos ao ouví-la levá-la a refletir sobre o
que ela disse, ou seja, nos problemas as pessoas
culpam sempre aos outros e não ve que de repente não
tenha feito a sua parte. No início deste ano ao
relatar uma situação familiar uma pessoa me perguntou
qual seria minha decisão frente aos fatos por mim
relatados e por ela interpretados, ou seja, a maldade
do mundo é grande e muito comum hoje a inveja, a
ganância e o egocentrismo, então qual seria minha
atitude: mudar ou me acomodar. Se as coisas em nossa
vida não estão de acordo o primeiro passo para a
mudança deve ser nosso. Nunca devemos deixar que as
pessoas tentem governar nossa vida (nos anular) mas
devemos nós vivê-la, afinal neste mundo temos uma
missão espiritual, dons que Deus nos concede para
deixarmos para a humanidade nossa contribuição
profissional em prol das necessidades humanas e
naturalmente a busca por sermos felizes, amando e
permitirmos sermos amados.

Sucesso.

Anderson

Anonymous said...

Boa noite, Iuri!
Que linda msg a sua...
Precisamos de mais ouvidos e menos boas intenções!
Um abraço apertado,

Rita

Anonymous said...

Puxa está de Parabéns por esse texto, eu passei para todos os meus contatos e todos elogiaram muito, é verdadeiramente uma lição para nós que achamos que sabemos de mais.


Moacir.