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Sunday, August 29, 2004

Já que não tem tu, vai tu mesmo....



No início dos 90´s, a empresa onde eu trabalho, numa readequação interna, abriu a possibilidade dos empregados optarem pela transferência para outra organização, com as mesmas condições de cargo e salário anteriores. O alvoroço foi enorme pois a maioria do pessoal vislumbrou na mudança a conquista de melhores condições de trabalho e aposentadoria. Eu não concordava com esta idéia mas também optei pois me sentia estagnado, sem qualquer perspectiva de alteração na função que exercia. Porém um gerente me chamou para conversar e, (in)diretamente, aconselhou que eu desistisse da transferência pois, segundo ele, depois que os optantes saíssem, alguma coisa poderia acontecer e minha situação poderia melhorar. A partir daí, mesmo não tendo nenhuma garantia, decidi permanecer onde estava. Dito e feito. Com a debandada, fui convidado a assumir um cargo de gerência que havia vagado. Porém, aquilo que era para ser uma alegria se tornou um grande incômodo. Explico : na época eu estava lendo um livro do Otto Lara Resende que trazia a seguinte frase : "Não há mérito onde não há escolha". Fiquei chocado. Acabei associando esta frase ao fato de ter sido convidado a assumir a gerência numa situação no mínimo estranha. Na minha cabeça, recebi o convite apenas porque a empresa não tinha outra alternativa -eu achava que todos os bons tinham alçado vôo-. Então, onde estava o mérito? Fiquei com um gosto amargo de vitória-derrota na boca.

Nesta neura, acabei conversando com uma amiga que afirmou que eu estava errado, que havia a possibilidade de escolha sim - citou exemplos- e que realmente eu teria méritos para receber tal proposta. Parei, refleti, concordei, relaxei, aceitei o cargo e segui na nova função. Porém esta frase me marcou e sempre relembrei-a todas as vezes em que me deparei com situações onde uma escolha -de qualquer tipo- parecia ter sido feita no estilo "já que não tem tu, vai tu mesmo...".

Semana passada voltei a ter a mesma sensação. O que aconteceu foi que eu e um colega tínhamos que entrevistar três candidatos para uma vaga de estágio na nossa área. Dois não tinham nenhuma experiência prática. O outro, além da experiência, apresentava um currículo superior de cursos e formação escolar. Assim, facilmente concluímos que tal candidato não possuía concorrentes e o selecionamos. Ao deliberarmos, imediatamente lembrei-me da frase do Otto - cheguei a citá-la ao meu colega-. Só que, desta vez, avancei no exame da afirmação.

Pensei que tá certo que às vezes podemos nos deparar com situações onde o resultado de uma seleção demonstra um esvaziamento de alternativas, uma falta de opções. Se isto ocorre, pode surgir a sensação de que este resultado não possui muitas qualidades; portanto, pode ser considerado, de certo modo, inferior. Isto está correto ? Não. Na minha reflexão concluí que se houve uma diferenciação, uma escolha, esta aconteceu sobre critérios positivos que a justificam e dignificam - mesmo que, na nossa opinião, esta escolha tenha ocorrido através de critérios não muito elevados. Este raciocínio serve para qualquer tipo de opção (amor, emprego, política, etc).

Assim, todo e qualquer objeto eleito possui atributos superiores que o torna merecedor da distinção. Ele traz em si uma definição de acerto obtida através da apreciação e afirmação das suas qualidades únicas, do seu diferencial. Ele é o melhor em determinado momento. Portanto, hoje discordo do Otto e digo que qualquer escolha é carregada de méritos.

PS : Mesmo que mais tarde caia a ficha e se descubra a m... cometida...







4 comments:

Mariana said...

Eu me lembro bem... vc andava com gravatas do pernalonga e do frajola. Eu tmb penso assim q nem tu has vezes. Mas várias coisas ao longo do tempo me mostraram q eu sou capaz.
Quero só ver o parecer do Guga a repeito do estagiário... heheheheh.

assim como a Niara é a melhor tia do mundo, tu é o melhor tio do mundo tmb tá??
beijos, tmb te amo. Muito.
Mari

Anonymous said...

Concordo com você quando afirma que houve mérito na escolha sim, uma vez que, mesmo sem perceber, já havia optado pela escolha de capacitar-se a fim de que viesse a preencher a vaga de gerente que um dia poderia surgir.

Assim como o estagiário que optou por ser o mais preparado.

Como em todos os seguimentos da vida, optamos por determinadas coisas e poucos são os capazes de ousar.

Admiro muito as pessoas que buscam o aprimoramento, quer sejam os morais ou intelectuais.

Conheci uma senhora que era dona de casa e quando os filhos começaram a pedir que cuidasse dos netos, ela estava já na meia idade, decidiu-se por fazer o magistério, uma vez que não tinha tido oportunidade de estudar.

Voltou aos bancos escolares e não só concluiu o curso de magistério como também fez o curso de pedagogia.

Conseguiu um emprego, hoje é uma pessoa realizada e dá sábios conselhos a todos os jovens.

Obrigada pela partilha e parabéns pela crônica.

Beijos em seu coração.

Cris Lacerda

Dayse said...

Lúcido e sensível como sempre.
Te admiro -- mas olha, se quiseres muito, essa discussão de mérito ou não pode levar dias, semanas, séculos.
Tens razão -- houve mérito na escolha do "menos pior". Mas ainda assim, é uma situação do tipo "Catch 22" -- se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Num universo tão gigantesco, escolher o menos ruim entre três parece... desconfortável. No mínimo. E discutir isso, como já disse, é para filósofos. Na prática, muitas vezes temos de nos contentar com "o amor menos ruim", não com "o melhor amor" ou o amor que sonharíamos, só como um exemplo. Triste, não?
Beijo da fã.

Anonymous said...

Existe em Administração o paradigma: Marketing
Pessoal. Nem sempre você deva ser escolhido, mais
escolher. Algo próximo a letra daquela música que
virou ícone da ditadura: "Quem sabe faz a hora, não
espera acontecer". Só você traz em si o que pode se
caracterizar missão e profissão para você ou quando
você é que pode afirmar: "Ainda pagam para eu fazer o
que gosto".

Sucesso. Anderson.