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Hino do Blog : " ...e todas as vozes da minha cabeça, agora ... juntas. Não pára não - até o chão - elas estão descontroladas..."
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Friday, January 19, 2018

Filme - Lady Bird


Receita de filme de bonitinho : 

1) Heroína meio maluquinha
2) Amiga da gordinha simpática (mas não popular)
3) Quer conquistar o bonitão da turma
4) Tem inveja da colega bonita e rica
5) Inventa mentiras para se tornar popular
6) Sonha com o baile da turma do colégio
7) Tem conflitos com os pais (que são tri compreensivos)
8) Se dá mal por causa dos seus atos interesseiros
9) No fim se redime e aprende o que é certo

Fim

Lady Bird é assim, um filme legalzinho que segue todos os clichês de uma historinha formatada para agradar.

Achei um saco.

Filme - Detroit



Detroit é um filme TENSO.

De ficar com o cú na mão.

A coisa é tão punk que, a partir de determinado momento, a barra pesa de um jeito que fica difícil de assistir tanto abuso e violência jogado sem piedade na nossa cara.

Sinceramente, eu fiquei tão angustiado que me deu vontade de ligar um fast forward e pular direto para depois do fim da porra toda.

Ponto para a diretora Kathryn Bigelow que conseguiu construir aos poucos um clima de terror que nos deixa paralisados, estarrecidos.

O filme já começa no bafão, mostrando os tumultos que tomaram conta das ruas da cidade do estado do Michigam entre 23 e 27 de Julho de 1967, quando os negros se rebelaram em protesto contra a perseguição policial, discriminação e exclusão social das quais eram vítimas.

Mas até aí tudo bem. Vemos o povo revoltado correndo pra lá e pra cá, gritando, incendiando, saqueando, e até mesmo levando alguns tiros.

Só que, a partir de uma estupidez causada por um desmiolado, toda a ação pula para dentro de um motel e a coisa descamba para o mais absoluto horror.

Forças policiais e militares invadem o local em busca de um suposto atirador e passam a interrogar um grupo de pessoas de forma cada vez mais abusiva e violenta que acaba em várias mortes.

Acompanhar o destino trágico deste povo inocente é um martírio pois assistimos impotentes a ação da polícia destruindo corpos, mentes e almas de forma sistemática, técnica, sem o menor traço de humanidade.

Mas o tenebroso desta história toda é saber que tudo foi baseado em fatos que ficaram conhecidos como o "incidente do Motel Algiers"

Que tristeza

Os atores estão magníficos.

Me caiu os butiá a performance do John Boyega (o Finn do Star Wars). O negão prova que é um ator do caralho e que tem potencial pra brilhar muito (me lembrou Sidney Poitier). Também o Will Poulter não fica pra trás como o policial psicopata e entrega uma atuação assustadora.

Filmaço, mas somente para quem estômago forte.

Wednesday, January 17, 2018

Direito dos Animais - Ética e direito animais


Temos o direito de torturar animais. Isto é eticamente correto?

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"Ética e direito não são sinônimos.

Eles até se casam, mas com separação de bens.

Ações éticas podem não encontrar respaldo em lei positiva alguma.

Já um direito exige sustentação legal positivada, mas não necessariamente as leis resistem a um juízo ético.

Um bom exemplo é o das leis que autorizam estuprar fêmeas de outras espécies, como éguas, para citar apenas uma prática, geralmente não divulgada, inseminá-las com a finalidade de reprodução, manejar sua dieta para melhor aproveitamento, manter a gestação até certo número de dias, extrair da égua o sangue carregado de hormônios, abortar os fetos equinos, inserir os hormônios extraídos do sangue das éguas prenhes em fêmeas suínas, para que se tornem férteis, e voltar ao procedimento inicial nas mesmas éguas.

Tudo isso para garantir a reprodução em massa de pequenos suínos destinados a virar presunto ou pernil.

Se a lei permite tais manejos, a ética não encontra neles o respeito a qualquer princípio moral digno de nota.

É legal. É antiético. "

Dr. Phil. Sônia T. Felipe – Doutora em Filosofia Moral e Teoria Política.

Monday, January 15, 2018

Filme - A Forma da Água


Já foi dito que se os animais falassem as pessoas não comeriam carne.

Mas como a coisa não é assim, os animais vão ser sempre rebaixados e utilizados ao bel prazer pelo homem simplesmente pelo fato de que não são “evoluídos como a espécie humana”.

Isto fica bem evidente no filme “A forma da água”, onde uma criatura “selvagem e aquática", capturada na América do Sul, é trancafiada e vira objeto de estudos num laboratório secreto nos EUA.

Como a tal criatura não se comunica e não colabora com cientistas – dentro daquilo que eles esperam, é claro -, é vista, cada vez mais, como um ser embrutecido e sem valor, virando alvo da fúria do desalmado Richard Strickland (Michael Shannon)

Só que no tal laboratório trabalha Elisa (Sally Hawkins),uma faxineira tímida, muda e solitária cuja única alegria é compartilhar filmes musicais antigos com seu vizinho gay (e também solitário) Giles (Richard Jenkins).

Elisa, com seu interesse e boa vontade, acaba conquistando a confiança da criatura e descobre então que, debaixo das duras escamas, habita um ser complexo, emocional e sábio.

O que é curioso é que nenhum dos dois fala, mas eles acabam encontrando formas de se comunicar através de toques, gestos, olhares e alguns conceitos de libra.

Logo, com sua presença discreta, Elisa fica sabendo que criatura corre perigo real, e então, com a ajuda de amigos, liberta o “monstro” e o esconde na sua casa.

A partir daí, não tarda para que coisa evolua para um romance verdadeiro com o "peixão" (com direito a trepadas e tudo o mais).

Só que as coisas não são tão fáceis e eles terminam por se envolver em perigos reais que podem levá-los à prisão ou à morte.

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Com um enredo calcado em fábulas – principalmente “A Bela e a Fera” – , “A forma da Água” pretende contar uma bela e improvável história de amor, mas acaba sendo mesmo um crossover entre os igualmente bizarros “A criatura da Lagoa Negra” e “ O fabuloso Destino de Amélie Poulain”.

Elisa é a cara da sonhadora e debilóide Amélie enquanto a criatura foi chupada diretamente do trash SCI-FI de 1954, conforme o próprio diretor Guillermo del Toro comentou.

No fim o filme é bonitinho mas nada do tipo extraordinário.

Vale a pena para quem tem tesão em “sereio”.

Direitos dos Animais - a Prática de Rodeios


Duas visões sobre a prática de rodeios publicadas na Zero Hora.

A questão é : uma prática que traga dor e sofrimento aos seres deve ser respeitada (e preservada) pura e simplesmente pelo fato de fazer parte da cultura de um povo?

Se sim, o que dizer da clitoridectomia ainda praticada em algumas regiões da África e Ásia?
Extirpar o clitóris de meninas deve ser respeitada por ser um costume ancestral de certos grupos humanos?

Pois então.

Enquanto a Maria de Nazareth diz que qualquer cultura pode (e deve) mudar se levar em consideração o sofrimento dos seres envolvidos em algumas de suas práticas, o Nairo Callegaro diz exatamente ao contrário.

Para ele, a cultura e a tradição está acima do sofrimento. Para ele, o importante é a “imagem”, os costumes, a ancestralidade.

O curioso é que a descrição do “tratamento humanitário" que os animais devem receber nos rodeios, registrado pelo Presidente do MTG, se parece muito com um roteiro passo a passo de aplicação de tortura.

Esta eu achei exemplar :

"Os animais utilizados nos eventos/provas poderão dar no máximo 20 voltas o boi e 30 a novilha, respeitando o descanso de 30 minutos entre as voltas nos lotes de animais."

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LIBERTAR ANIMAIS , UM DEVER HUMANO

Maria de Nazareth Agra Hassen – Doutura em Educação (UFRGS)

A maior parte destes necessários processos civilizatórios ainda está em curso: a extensão de direitos às mulheres, a proteção a crianças e a idosos, o reconhecimento das diferentes expressões da sexualidade humana, a inclusão de pessoas com deficiência e a compensação a vítimas de racismo.

Porém o mais lento dos avanços na moralidade parece ser o reconhecimento dos animais como detentores de direitos.

Assim como em outros casos, apresentam- se contra esse progresso moral: o lucro, obtusas tradições, comodismo, pouca empatia, a arrogância da supremacia, os limites no pensamento.

Não melhoraremos como civilização enquanto não vencermos mais essa barreira ética, isto é, enquanto seguirmos concebendo animais como coisas, objetos, propriedade, mercadoria.

Em toda terra, animais são desprezados e mortos, quando não subjugados, torturados, roubados cm sua dignidade, levados desde o nascimento a uma existência que nega sua natureza.

A exploração dos animais não humanos pelos humanos se dá nas fazendas, na indústria do vestuário, cm zoos, rodeios e outros tipos de diversão, nos laboratórios e no ensino, nas casas e nas ruas.

A paralisia moral vai ao ponto de acharmos que animais podem morrer para agradar a nosso paladar, desconsiderando que nossa saúde independe da ingesta de seus cadáveres ou de produtos derivados de seus corpos.

Felizmente, paralelas à tecnologia da exploração, crescem as sensibilidades à causa animal. Seguindo, em alguns posicionamentos, ideias já defendidas ao tempo de Pitágoras, foi nas últimas décadas que se adensou a massa crítica em torno dos direitos animais.

O avanço no campo da moral depende não só de sensibilidade e empatia, mas também da capacidade de pensar nos domínios da ética, o que exige rigor conceituai e condições de inferir logicamente, além, é claro, da coragem de romper a norma.

Os seres vivos são classificados pelo seu interesse em continuar a existir e pela sua capacidade de sentir dor, a senciência, em razão da qual devem ter reconhecidos os seus direitos a uma vida plena.

A noção de direitos animais é incompatível com qualquer uso, mesmo quando tal uso causa menos dor ou dor alguma.

A quem entende que a ausência de dor e desconforto legitima a posse e a exploração, cabe perguntar se aceitaria ser escravo se bem tratado, se desprezaria o fato de não poder ficar com seu grupo familiar, de não decidir quase nada do seu tempo, se bastaria não ser chicoteado.

Não ser escravo é desejo e direito de todos os seres sencientes.

Não sendo meios para fins humanos, eles devem ter garantido seu direito à vida e à satisfação de necessidades individuais e sociais.

Apenas no interesse dos próprios animais é que em alguns casos, a exemplo dos animais domesticados, cabe sua tutela visando à proteção.

Se não queremos cometer diariamente injustiças com seres inocentes, resta-nos o caminho de repensar e alterar práticas, tendo como horizonte o fato de que cultura alguma é imutável; todas são, a seu modo, dinâmicas.

É certo que o raciocínio ético se situa na base da mudança, mas de fato não é uma mudança fácil: é preciso ser verdadeiramente aguerrido e bravo para lutar pela liberdade alheia.

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O RODEIO É UMA MANIFESTAÇÃO CULTURAL

Nairo Callegaro – Presidente do MTG

A relação do homem com os animais é ancestral e no Rio Grande do Sul adquire contornos diferenciados, pela forte identificação do gaúcho com o campo e suas respectivas lidas.

A figura do homem rural no lombo de um cavalo, pastoreando gado ou ovelhas, e na companhia de seu "cusco", ocupa o imaginário popular e carrega em si forte valor simbólico.

Mas não só: essa imagem retrata fielmente a realidade das gerações que nos antecederam e também de atuais. É exatamente assim em muitos recantos do nosso Estado.

Por esta razão, o Movimento Tradicionalista Gaúcho não considera esporte as práticas de laço, gineteada, chasque e de rédeas, tão comuns por estes pagos, mas, sim, uma manifestação cultural.

O peão não laça para se divertir, mas porque é seu trabalho no campo, preservando o jeito herdado dos pais, dos avós, e contribuindo assim para a conservação da memória de nossos usos e costumes, não somente nos livros de História, mas também de maneira vivencial, no dia a dia.

Cabe, evidentemente, todo um cuidado e olhar especiais quando colocamos em pauta a realização de rodeios, que são eventos demonstrativos dessas práticas para públicos muitas vezes essencialmente urbanos.

Esses eventos estão consolidados no Rio Grande do Sul, com forte argumento econômico e turístico - argumentos, porém, que em hipótese alguma podem estar acima das garantias de bem-estar animal.

Nesse sentido, há alguns anos, juntamente com o Ministério Público e com o Conselho Regional de Veterinária, o MTG auxiliou na elaboração de um documento com diretrizes para o bem-estar animal para antes, durante e após a realização de cada evento. A cartilha elenca o que pode, o que não pode, também as penalidades para quem não cumprir as determinações e apresenta as considerações de entidades protetoras dos animais.

Alguns exemplos de determinações:

- O transporte dos animais deverá ser realizado em veículos apropriados e as instalações do local devem garantir a integridade física deles durante sua chegada, acomodação e alimentação.

- A encilha e demais peças utilizadas nas montarias, bem como as características do arreamento, não poderão causar injúrias ou ferimentos aos animais.

- As cintas, as cilhas e as barrigueiras deverão ser confeccionadas em lã natural ou em couro, com dimensões adequadas para garantir o conforto dos animais.

- Os laços utilizados deverão ser confeccionados em couro trançado, sendo proibido o ato de soquear o animal laçado.

- É proibido o uso de esporas com rosetas pontiagudas, nazarenas, ou qualquer outro instrumento que cause ferimento nos animais, incluindo aparelhos que provoquem choques elétricos.

- Os animais utilizados nos eventos/provas poderão dar no máximo 20 voltas o boi e 30 a novilha, respeitando o descanso de 30 minutos entre as voltas nos lotes de animais.

- A cancha deve ser de grama ou areia.

O Movimento Tradicionalista Gaúcho tem lutado arduamente para que os rodeios crioulos mantenham a autenticidade gaúcha, sem a incorporação de estrangeirismos ou do conceito de "esporte".

O bem-estar animal e a preservação da nossa mais essencial cultura regional dependem de todos os
segmentos da sociedade compreenderem que laço é cultura.

Thursday, January 11, 2018

Filme - Eu, Tonya




A patinadora Tonya Harding foi devidamente massacrada pela mídia mundial como uma boa duma vadia ambiciosa, sem cultura e sem classe, disposta a tudo para brilhar nos ringues olímpicos.

Sua “falta de caráter” era tanta (conforme se comentava à época) que acabou se envolvendo (involuntariamente ou não) no episódio de agressão à concorrente Nancy Kerrigan, quando da disputa das vagas, no time dos EUA. à olimpíada de 1994.

Esta má fama fez com que Tonya nunca fosse aceita pela asséptica e cor de rosa classe média americana e pelos juízes dos torneios de patinação, mesmo apesar dos seus evidentes méritos técnicos. 

Afinal, ninguém estava disposto a admirar uma roqueira, pobretona, semi analfabeta, abandonada pelo pai, filha de uma garçonete de quinta e casada com um agressor compulsivo.
Não, toda esta imagem “suja” não combinava com o que o americano médio esperava de um “herói olímpico”.

E ela pagou o preço.

“Eu, Tonya” narra, de maneira inventiva e “divertida”, a saga épica da patinadora rumo ao fundo do poço através do julgamento técnico, público e jurídico.

Os atores estão nada mais que espetaculares.

Margot Robbie (candidata ao Globo de Ouro por este papel - mas não levou - ) está magnífica como a desgraçada (porém durona) Tonya, e Allison Janney (vencedora do Globo de Ouro de melhor atriz coadjuvante e certamente candidata ao Oscar nesta mesma categoria) está soberba como uma das mãe mais filha da puta da história do cinema.

Sua LaVona Fay Golden (a mãe de Tonia) beira ao absurdo por tanto desamor, ambição e maldade. A coisa é tão punk que a “mamãezinha querida” acaba ficando hilária por conta de tanta ruindade explícita.

Além delas, o filme é um desfile de freaks e loosers que chega a ser inverossímil o conjunto de gente bizarra na tela.

Mas não.

Para deixar nossa cara no chão, o final de “Eu, Tonya” apresenta trechos de entrevistas verdadeiras com os envolvidos na história. E aí, para nosso espanto, vemos que tudo o que foi visto anteriormente foi uma representação fiel dos tipos medonhos da saga.

Absurdo, ultrajante, chocante e hilário.

Ótimo.

Wednesday, January 10, 2018

Filme - A Dark Song


Uma mãe (Catherine Walker), totalmente perturbada pela morte do seu único filho em um ritual de magia negra, contrata – em busca de vingança - um mago (Joseph Solomon), completamente fora da casa, para realizar um longo ritual mágico que a possibilitará (talvez) se comunicar com o espírito do seu filho.

O super ritual (cabalístico, demoníaco, cristão, etc) prevê a participação ativa de ambos, já que os dois poderão ter, cada um, um desejo atendido pela entidade invocada (se tudo der certo, é claro).
Como a pajelança pode levar meses, eles se encerram numa casa fantasmagórica da qual não poderão sair antes da função ter terminado.

Porém, como as coisas não rolam de forma rápida – pelo menos dentro do que a ansiosa mãe espera -, o que começa a ocorrer é um embate cada vez mais feroz entre as duas personalidades confinadas e estressadas.

A coisa fica tão agitada que o próprio ritual é deixado de lado várias vezes para que eles se estapeiem e se agridam das mais variadas formas (física, emocional, sexual, etc).

Só que, apesar de todo o bafão, aos poucos o tal ritual começa a dar frutos (mesmo que não sejam os que eles esperam) e daí a coisa descamba para atitudes casa vez mais insanas dos dois, o que os levará a encontrar cada um o seu destino.

O filme (Irlandês) não pode ser classificado como “terror” no sentido hollywoodiano do termo (aqui o lance é outro, apesar de ter uma das cenas mais assustadoras que vi ultimamente – realmente me deu vontade de fechar os olhos) pois, com um tom muito mais psicológico, “A Dark Song” se fixa mais na relação doente dos protagonistas do que no “sobrenatural”, e, por isto mesmo, tem grandes chances de frustrar os fãs do gênero.

Mas o conjunto é muito bom e a trama surpreende com um final inesperado (ou esperado?) que muda todo o tom da jogada e definitivamente engrandece o filme.

Monday, January 08, 2018

Filme - The Square


Na excelente peça “O Escândalo de Philippe Dussaert”, Marcos Caruso discute e ideia de que a arte contemporânea é somente “discurso”.

Que as obras de arte apresentadas hoje em galerias e museus não se sustentam por sua imagem (ou execução) e sim pelo discurso a ela agregado.
Assim, um caco de vidro atirado no chão de um museu acaba sendo um “retrato da desconstrução capitalista refletida na poética migratória do consumo espiritual do ser oprimido pela objetificação do sexismo contemporâneo”. 

Bah, que profundidade! Que sabedoria! Que lucidez!

“The Square” (de Ruben Ostlund e Palma de Ouro 2017) mostra, de forma sarcástica, este mundo de iluminados portadores de discursos herméticos e indecifráveis que fazem a alegria dos produtores e consumidores de muitas instalações e obras ridículas que permeiam a arte atual.

Acompanhando as peripécias (um tanto esdrúxulas) de Christian (Claes Bang), o curador do pomposo X-Royal Museum, “The Square” é uma sequência de acontecimentos surpreendentes e desconcertantes (des) conectados através de um fio de trama meio sem propósito.

Assim, vemos – aleatoriamente - o herói envolver-se num furto (que traz consequências absurdas), num relacionamento com uma americana misteriosa e meio assustadora, com problemas com uma instalação “artística” que não passa de montes de cascalhos no chão, lidando com suas filhas meio rebeldes, tendo que explicar os motivos de um vídeo chocante criado para promover o museu, etc.

Mas o grande lance do filme é mostrar todo o clima fake que envolve a arte contemporânea dominada por uma elite intelectual medonha

Então temos a tal instalação de montes de cascalhos que não atrai ninguém e que não pode ser fotografada.
Os discursos ridículos explicando as obras que não são entendidos nem mesmo por quem os proferiu.
Um evento super sofisticado no qual as pessoas estão mais interessadas em comer do que ouvir os palestrantes.
Uma apresentação de “um ser primitivo” que ocorre num jantar de gala e que descamba – de modo assustador – para o povo chique agindo de forma mais primitiva que o próprio ser primitivo.
O oportunismo do “chocar pelo chocar” criado apenas para atrair atenção da mídia e público.

Todo este caleidoscópio – com vários momentos lentos e outros inexplicados - desfila diante dos espectadores que, a partir de determinado momento, meio que ficam anestesiados com o estranhamento e acabam aceitando a proposta apresentada em mais de duas horas de projeção.

No final tu fica tipo, “Sobre o que é filme”? “Gostei”? “Não gostei”?

Sei lá

Filme - A Batalha dos Sexos



“Mulher é inferior”, “Mulher não atrai público”, “Mulher não dá espetáculo”, “Jogos entre mulheres são inferiores aos jogos entre homens”, “Mulher tem que ganhar menos”, “Lugar de mulher é na cozinha”.

Estas e outras pérola são ouvidas o tempo todo durante o filme “Batalha dos Sexos”, que mostra o embate ocorrido em 1973 quando Bille Jean King (tenista consagrada mundialmente, dona de títulos simples e em dupla no Grande Slam) enfrentou Bobby Riggs (número 1 do mundo na década de 40) no jogo que ficou conhecido, como diz o título do filme, “Batalha dos Sexos”. 

Bobby, um porco chauvinista e falastrão midiático com compulsão ao jogo, estava determinado a provar que ele, mesmo aos 55 anos, jogava melhor que qualquer super tenista feminina.

Antes do embate em questão, Bobby já havia derrotado a australiana Margareth Court e agora buscava consagração absoluta no jogo contra Bille.

Ela, já então uma ativista dos direitos femininos e chateada com a derrota de Margareth, entrou em quadra determinada a dar o troco em nome de todas as mulheres .

O que se viu, na batalha acompanhada por 50 milhões de pessoas, foi a derrocada do machão que saiu humilhado pela performance furiosa de Bille.

Paralelo a esta trama, o filme mostra Bille Jean casada com um cara meio pateta e descobrindo-se lésbica nos braços de uma cabelereira.

Emma Stone tá legalzinha fazendo uma Bille empoderada e frágil -no que diz respeito às suas questões intimas- , e Steve Carrel manda muito bem na pele do bobalhão chauvinista cheio de falhas de caráter.

Porém, apesar de todas as boas intenções, o filme apresenta diversas falhas, com personagens mal desenvolvidos (a espoca e o filho do Bobby são exemplos evidentes), diálogos caricatos e soluções fáceis (que marido aceitaria tão pacificamente descobrir que sua esposa é uma boa de uma sapatona?).

Mas o conjunto vale a pena, principalmente por trazer a discussão do direito da igualdade dos sexos ainda muito presente nos dias atuais.

Thursday, January 04, 2018

Filme - O Sacrifício do Cervo Sagrado


“O sacrifício do cervo sagrado” tem todos os requisitos para ser considerado um lixo.

História bizarra, ambiente irracional, personagens absurdos, falta de lógica, atitudes insanas, violência, sexo estrambótico, loucura generalizada, etc, tudo para construir uma trama inaceitável e chocante (pelo menos para o grande público).

Resumindo : Steve (Colin Farell) é um cardiologista casado com Anna (Nicole Kidman), que são pais de Kim (Raffey Cassidy) e Bob (Sunny Suljic).

Steve teria sido responsável pela morte do pai do adolescente Martin (Barry Keoghan) durante uma cirugia, o que lhe encheu de sentimento de culpa.

Martin então lança uma espécie de praga na família de Steve, dizendo que sua esposa e seus filhos irão morrer de uma doença degenerativa a não ser que ele escolha um dos membros e o mate.

Steve não acredita (é claro), mas realmente seus filhos acabam ficando doentes e ele, no final das contas, tem que escolher quem vai matar, um dos filhos ou a esposa.

Resumindo é isto.

Mas o filme é totalmente fora da casa, estruturado milimetricamente para agredir o bom senso, com cenas despropositadas e desconcertantes somando-se sem parar.

Esta estética inverossímil (parece que tudo acontece num mundo paralelo) me lembrou muito o clima do “Mãe”, que muita gente odiou (e eu amei).

Enfim, “O sacrifício do cervo sagrado” não foi feito para agradar ninguém e definitivamente o diretor Yórgos Lánthimos esmerou-se para entregar uma obra plenamente ofensiva (e obteve o prêmio máximo).

Eu gostei.