Hino do Blog - Clique para ouvir

Hino do Blog : " ...e todas as vozes da minha cabeça, agora ... juntas. Não pára não - até o chão - elas estão descontroladas..."
Clique para ouvir

Thursday, November 08, 2018

Saraus com amigos

Saraus Temáticos com amigos

SARAU CENA DE CINEMA



SARAU BREGA



SARAU BIZARRO



SARAU LIVRE



SARAU DIA DAS CRIANÇAS



Thursday, October 25, 2018

Bolsonaro e o Discurso de Ódio.



Texto de Marcos Natali (professor de teoria literária e literatura comparada na USP) publicado na Folha de São Paulo.


 [RESUMO] Enquanto parte importante da definição de fascismo depende do cumprimento de promessas, uma já foi realizada: a ampliação do espaço de verbalização e prática da violência, argumenta o autor, para quem não é preciso esperar a posse como presidente para definir o candidato do PSL como um fascista.
--------------------------------------------------------------
Na bibliografia sobre o fascismo, nas diversas tentativas de definição do fenômeno, geralmente aparecem referências à importância de aspectos como o elogio à violência, a xenofobia, a expressão do desejo de retorno a um estado anterior, a misoginia e o culto à hipermasculinidade, a vontade de punir e erradicar sexualidades periféricas, a narrativa de vitimização, a oposição à democracia e a louvação do autoritarismo.

Também é comum a menção à necessidade de identificar de maneira inequívoca culpados para o estado de coisas do presente, estimulando a passagem da ansiedade ao ódio, com esses mesmos responsáveis em seguida requeridos como o sacrifício necessário para a recuperação de uma pureza perdida.

A dificuldade de definição, então, não resulta de uma ausência de consenso sobre os elementos básicos a que se refere o termo, embora persistam divergências importantes entre a crítica (por exemplo, sobre a relação entre fascismo e liberalismo).

A dificuldade parece derivar de uma característica do próprio fenômeno que se busca delimitar. Composto por um conjunto de ameaças e promessas, o discurso fascista parece exigir do analista uma avaliação da probabilidade de que sejam cumpridos os juramentos feitos (e não apenas no contexto de uma campanha eleitoral).

Com a ampla circulação de discursos fascistas e falas de ódio na atualidade, orientados por ações políticas de força destrutiva, interpretar seu sentido seria um exercício inglório, pois requereria que se avaliasse quais, afinal, das numerosas ameaças deveriam ser levadas a sério.

O que pensar do brado que propunha fuzilar grupos de adversários políticos? E a garantia de que o ativismo seria exterminado? E o canto da torcida no metrô? E a inscrição de suásticas em portas, muros e peles?

Como escreveu Theodor Adorno em sua “Minima Moralia”, o dilema daquele que se vê diante da necessidade de determinar o alcance efetivo de ameaças é que não há exame razoável e ponderado de proposições que, sendo capazes de produzir movimentos paranoicos, serão necessariamente deslizantes e expansivas, gerando sempre novas presunções causais e culpabilizações.

Não há, sobretudo, como ter confiança de que se sabe quais serão exatamente os limites de uma manifestação paranoica qualquer, ou quais os limiares que não serão ultrapassados. (Como no romance “Graça Infinita”, de David Foster Wallace, a pergunta aqui também é: claro, sou paranoico, mas como saber se estou sendo suficientemente paranoico?)

Entretanto, se é verdade que só poderá haver certeza da existência de uma base real para um receio extremo num momento posterior, não há, ao mesmo tempo, a opção de aguardar para descobrir se as bravatas eram apenas isso, ou se algumas sim e outras não. (Mas quais?)

Mas há outro aspecto que caracteriza o discurso fascista que permite uma avaliação mais segura a respeito do movimento em curso no país.

Entre as possibilidades de significação desse discurso, está o fato de que a promessa principal é justamente a abertura de um espaço para a multiplicação vertiginosa de novas promessas de violência, contra sujeitos diversos, e nesse caso a promessa em si já deve ser entendida como um acontecimento.

No caso da variante contemporânea, seria importante reconhecer, tanto para entender suas características principais como para determinar o tipo de resposta que ela exige, que sua principal promessa já foi cumprida, com o alargamento do espaço disponível na sociedade para a prática e a verbalização crua da violência, neste caso com a repetição de convenções que incluem alusões à morte, à desaparição e à expulsão do território de grupos sociais vulneráveis.

Nesses termos, por mais relevante que seja aquilo que Bolsonaro pode fazer caso seja eleito à Presidência, não é necessário aguardar uma eventual posse para julgar se ele pode ser definido como fascista.

Uma característica adicional desse discurso é que a atração que ele gera se deve precisamente a seu excesso.

Em relação à ditadura, então, o que se ouve agora não é uma defesa ambivalente e envergonhada que busca tergiversar, afirmando, de modo já familiar entre nós, que o regime militar cometeu erros, mas também teve seus acertos, ou que era necessário naquele contexto porque a ameaça era grave. Não, a forma do discurso é a celebração do suplemento excessivo, do elemento mais brutal do regime: a tortura.

Da mesma forma, em vez da argumentação aparentemente razoável ressaltando o suposto caráter brando da ditadura brasileira, se comparada às de países vizinhos, o que se encontra é a asseveração infernal de que o erro da ditadura foi ter sido insuficientemente violenta, isto é, o equívoco foi não ter matado mais.

Um dado da construção do discurso a ser compreendido, aquele que parece ser responsável pela adesão arrebatada, é esse gesto excessivo, o prazer presente nesse excesso, mais do que uma noção convencional de “interesses” que seriam satisfeitos ou não após uma eleição.

Como tem escrito a respeito de Donald Trump o antropólogo William Mazzarella, não é, então, que os eleitores estivessem enganados ao preferi-lo, votando contra os próprios interesses (embora isso também ocorresse). É que seu desejo era pelo gozo do excesso, algo que se revela na disposição para até mesmo botar fogo no circo todo.

(Existem, certamente, algumas semelhanças entre Trump e Bolsonaro; a diferença decisiva, no entanto, como tem sugerido Marcos Nobre, entre outros, é que Trump, quando quer elogiar regimes autoritários, não consegue encontrar exemplos na história de seu país e precisa apontar para a Coreia do Norte e a Rússia. No Brasil, o apelo a voltar 50 anos no tempo encontra na história nacional uma ditadura militar plenamente instaurada.)

É esse o ponto em que o vínculo criado nessas relações pode parecer imune à crítica que aponta um erro no cálculo feito pelos envolvidos a respeito de seus verdadeiros interesses. A oposição ao fascismo precisaria também buscar intervir nessa experiência afetiva, substituindo-a por outra, contrária a ela, uma experiência baseada em outras possibilidades afetivas, algo diferente das comunidades criadas a partir do exercício da crueldade com os mais vulneráveis.

Também está programada na operação paranoica a possibilidade de sempre acusar o outro de exagero; primeiro provoque a raiva da vítima, para então acusá-la de reagir com exagero. E é por isso que a ascensão do humor machista, homofóbico e racista nos últimos tempos parece agora uma antessala para a situação atual.

Exigindo para si não exatamente o direito à expressão, embora assim se apresentasse, mas o direito a um dizer monológico, a um dizer sem resposta, a piada ofensiva também se reservava o direito de, diante de qualquer reação à violência implícita nela, agir explicitamente.

Como também ocorre com a lógica do humor, o discurso fascista busca se blindar com seu caráter excessivo, com sua fachada caricaturesca, até com a figura do bufão, que, convenhamos, certamente não poderia estar falando sério (ou, mesmo que estivesse, não teria a competência necessária para a implementação das políticas destrutivas que prega).

Nesse sentido acaba sendo útil que o líder fascista tenha algo de jocoso, até mesmo algo de risível, aumentando ainda mais o prazer que gera entre seus seguidores, sobretudo se esse mesmo elemento cômico (a cena de um tripé mimetizando uma metralhadora) gerar não o riso, mas a ira de seus opositores.

Como escreveu Lili Loofbourow, as proposições de rebaixamento e humilhação do diferente, configuradas em excesso, permitem provocar dor nos outros e ainda deslegitimar ou zombar de seu sofrimento, em cenário em que a crueldade parece ser um fim, não um meio.

A promessa não é evidentemente a de fornecer uma solução para a crise; é, na verdade, o compromisso com o provimento de bodes expiatórios, esses elementos estranhos e estrangeiros que na estrutura sacrificial estariam impedindo uma restauração do que teria sido perdido.

Essa promessa será infinitamente renovável, pois, dada a permanência da sensação de falta, o dedo que aponta os culpados poderá passar dos índios aos LGBTs aos imigrantes bolivianos aos negros aos ambientalistas às mulheres aos professores... Em contextos de crise, a fixação no obstáculo, e o prazer derivado dessa fixação, também ajuda a evitar que a energia crítica se dirija a esforços que busquem modificar o quadro existente.

Assim, embora indefinições e incertezas possam existir em relação, por exemplo, à extensão do programa de privatizações a ser implementado, ou quanto aos tipos de reforma pelas quais passará a educação, e por mais que a captura do Estado pelo movimento paranoico seja relevante, num aspecto crucial, aquele que não é negociável nesse quadro e o que tem se mantido estável ao longo da campanha, é possível dizer que já sabemos o que pode ocorrer com a eleição.

Inclusive porque essa forma de estimular e disseminar a destruição, que é velhíssima, já foi instaurada por todo o país nas últimas semanas, com a propagação de episódios de violência contra grupos específicos da população.

Foi cumprida a promessa, reorganizando o campo de tal maneira que um homem se sente autorizado a gritar da janela do ônibus, no meio de uma quinta-feira de sol em São Paulo, ameaças de morte às travestis que caminham pela calçada. No mesmo dia, mais tarde, numa feira perto dali, uma freguesa dirá à imigrante haitiana que trabalhava lá que o Bolsonaro estava chegando e ia mandá-la de volta ao Haiti.
Como responder à lógica do fascismo sem se tornar paranoico, sem espelhar a paranoia? Afinal, é preciso habitar o delírio para tentar antecipar seus próximos alvos. A violência que ecoa discursos fascistas que já estavam em circulação, mas legitimada hoje pelo nome de Bolsonaro (enunciado em muitos atos de violência), permite antecipar um fluxo de violência cada vez maior no país nos próximos anos.

Só depois saberemos quanto estávamos certos, mas o custo de subestimar o seu alcance é alto (e se descobrirmos, tarde demais, que a proposta meio tosca de implementar educação a distância no ensino fundamental —que essa, sim— era de verdade?).

A estudante sentada ao lado do homem que se debruçara para fora da janela do ônibus para gritar seus vitupérios fecha o volume da “História da Sexualidade” que vinha lendo, esconde-o discretamente na mochila. O que tinha que começar já começou.

Marcos Natali é professor de teoria literária e literatura comparada na USP.

Friday, August 24, 2018

Filme - Apostasia





Para orientar sua filha a recusar determinados auxílios médicos, caso necessite em algum momento para salvar sua vida, a mãe entrega à criança um livro com fotos coloridas e festivas de crianças que preferiram “ir para Jesus” ao invés de serem ajudadas pela medicina.

Esta cena, carregada de “amor materno”, define “Apostasia”, um filme que apresenta de forma crua a aniquilação de corações e mentes perpetrada pelas Testemunhas de Jeová.

Ivanna (Siobhan Finneran ), uma mulher separada, vive com duas filhas : Luisa (Sacha Parkinson) e Alex (Molly Wright).

Devotas das “Testemunhas”, as três vivem numa redoma religiosa apartada do “mundo de pecado”.

Alex, a mais nova, sofre de anemia. Quando nasceu foi submetida a uma transfusão de sangue, realizada à revelia da mãe, que salvou sua vida. Hoje vive com o peso de carregar em si o “sangue de outra pessoa”, o que a define como uma “contaminada pelo pecado”. Alex deve estar atenta, pois em algum momento – devido a sua condição - pode ter necessidade de outra transfusão, o que representaria sua condenação eterna.

A garota é uma devota exemplar : estuda um dialeto árabe para “evangelizar” nos “locais que mais precisam” nos subúrbios de Londres, participa de cultos, estudos, encontros e festas Jeovás. Conhece um “irmão de fé” que apresenta as qualidades para se tornar seu esposo (que fica chocado ao saber que ela está “contaminada com sangue alheio” ), e fala todo o tempo com Deus (vive quase num “estado de oração”).

Alex não tem uma única opinião própria.

Qualquer questionamento ou dúvida que surja é rapidamente esclarecida através dos “mistérios da fé” e sua vida se resume a obedecer a Deus e testemunhar as alegrias e verdades da religião.

Luisa, a mais velha, já faz faculdade, o que a coloca em contato com os “mundanos” (ou “iníquos” - qualquer pessoa de fora da organização das Testemunhas. São aqueles que encontrarão um terrível destino no momento do Armageddon) e os “injustos” (os que ainda não puderam receber o testemunho cabal das "verdades" teológicas das Testemunhas).

Devido a uma “pisada na bola” Luisa torna-se uma apóstata (alguém que desrespeita uma crença ou regra religiosa) e é expulsa da congregação.

Nesta condição, ela torna-se uma desassociada (excomungada) , o que acarreta o afastamento de sua mãe e irmã (afinal as crentes não podem se contaminar com a filha e irmã pecadora).

Só que as coisas não são bem assim e -depois de uma tragédia- Luísa quer voltar ao núcleo Jeová.

A partir deste momento, o filme, que já era perturbador, torna-se uma obra de terror.

São simplesmente inacreditáveis os atos do Conselhos dos Anciões, órgão Jeová responsável pelo tratamento das reintegrações. Travestidas de bondade, as ações do tal Conselho são um continuum de opressão e esmagamento da mente e espírito da garota.

E o chocante é saber que o roteirista e diretor Dan Kokotajlo foi um devoto das Testemunhas, o que dá veracidade a todo absurdo e maldade vista no filme.

As atrizes estão soberbas, especialmente Siobhan Finneran (de Downton Abbey). Sua Ivanna é o retrato perturbador de uma mãe destruída pela fé, que coloca os “desígnios de Deus” acima das necessidades das próprias filhas.

O final é assustador.

------------------------------
Dados Técnicos :

Dirigido por
Daniel Kokotajlo
   
Escrido por
Daniel Kokotajlo
----------------------------

Elenco

Siobhan Finneran ... Ivanna
Robert Emms ...    Steven
Bronwyn James ... Chloe
Sacha Parkinson ... Luisa
Steve Evets ...    Brother Terry
James Quinn ...    Elder Brian
Claire Hackett ... Deborah
Aqib Khan ... Umar
Molly Wright ... Alex
Jessica Baglow ... Michelle
James Foster ... Elder Alan
James Puddephatt ... Consultant
Clare McGlinn ... Aunty Linda
Jacqueline Pilton ... Sister Murphy
Lewis Fletcher ... Brother on Stage
Wasim Zakir ...    Brother Jatin
Peter Slater ... Documentary film maker
Poppy Jhakra ... Doctor
Kathleen Robb ... Young Girl
Daisy Cooper-Kelly ...    Young Girl 2
Christian Foster ... Cousin Barry
Harrison Newell-Parker ... Boy Solomon
Chris Lindon ... Rory
Claire Hackett ... Deborah

--------------------------
Produced by
Andrea Cornwell ... producer
Josh Dynevor ... line producer
Christopher Granier-Deferre ... executive producer
Marcie MacLellan ... producer
Christopher Moll ... executive producer

Thursday, June 28, 2018

Padre Jean Meslier - O Ateu Revoltado




O padre francês Jean Meslier (1664 – 1729) deixou para a posteridade escritos que revelavam seu ateísmo e seu ódio aos poderosos de todos os tipos.

Sua filosofia da revolta era oriunda do seu testemunho e vivência numa sociedade na qual o povo era explorado e ludibriado através de “verdades” pregadas e impostas pelas autoridades dominantes (estado e religião).

O livro “Ateísmo e Revolta – Os Manuscritos do Padre Jean Meslier”, de Paulo Jonas de Lima Piva, traça, de modo relativamente acessível, um panorama sobre a vida e ideias de Meslier, o que nos permite ter contato com a filosofia deste homem extraordinário.

Em “Ateísmo e Revolta” Paulo Jonas revela a verdadeira origem da frase "O homem só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre", erroneamente atribuída a Diderot ou ao próprio Meslier.

 
Reproduzo aqui trecho do Capítulo III, “Deicídio e Materialismo : o Ser segundo Jean Meslier”, do livro de Lima Piva, que dá uma geral na filosofia do padre e apresenta o verdadeiro autor da famosa frase (na verdade uma corruptela da frase original), com alguns comentários meus, assinalados com **

No final do texto publico alguns links para quem quiser saber mais sobre Meslier e mais algumas fontes
 
Jean Meslier
Deicídio e Materialismo : o Ser segundo Jean Meslier”,

Crer em Deus é acreditar em Papai Noel, mas na enésima potência, ou antes, na potência infinita.
André Comte-Sponville, Apresentação da filosofia.

Com base sobretudo na crítica ao dualismo metafísico do século XVII e no combate aos principais dogmas da escolástica e do cristianismo, Jean Meslier e os demais pensadores da primeira geração francesa dos escritores clandestinos das Luzes ( ** anteriormente no livro, Lima Piva traça um histórico dos textos clandestinos anteriores ao Iluminismo) elaboraram uma importante filosofia pessoal, não menos ambiciosa, aliás, do que as doutrinas tradicionais e consagradas. 

 [...]

(** a seguir Piva apresenta todos os textos legado por Meslier)

Paulo Jonas de Lima Piva - Doutor Filosofia USP
Como vimos, as reflexões de Meslier que chegaram até nós encontram- se reunidas nas Oeuvres complètes, a qual compreende a Memória dos pensamentos e dos sentimentos de Jean Meslier, as Cartas aos curas da vizinhança, e o conjunto de notas de leitura referentes à Demonstração da existência de Deus, de Fénelon, e às Reflexões sobre o ateísmo, do padre Tournemine, intitulado posteriormente de Anti-Fénelon.

Nesses textos, o autor registrou o que poderíamos chamar seguramente de sua filosofia, valendo-se de sua experiência existencial e das ponderações resultantes das suas leituras [...]. 

O propósito deste capítulo é expor finalmente os argumentos mais relevantes do materialismo ateu e anticristão de Meslier desenvolvidos ao longo de sua obra, esta, de acordo com Maria das Graças de Souza  "um conjunto de textos de conteúdo muito radical, e, embora escrito com pouca elegância e nem sempre com rigor, procura efetuar a crítica de toda a tradição metafísica dualista, de todas as religiões, sobretudo o cristianismo, e manifesta um ateísmo cujas fontes são heterogêneas [...].

Isto posto, adotaremos como ponto de partida um exame minucioso da Memória (ou Testamento), obviamente o seu texto mais denso e expressivo. 

[...]
 

MEMÓRIA DOS PENSAMENTOS E DOS SENTIMENTOS DE JEAN MESLIER

O título completo da "Memória" é bastante elucidativo em seu excesso de extensão, esta, aliás, uma característica comum aos tratados da época. 

Trata-se, na verdade, de um título que é ao mesmo tempo um abstract, no qual são anunciados os escopos do autor, e, por isso, vale ser ressaltado:

"Memória dos pensamentos e dos sentimentos de Jean Meslier, padre, cura de Etrépigny e de Balaives, sobre uma parte dos erros e dos abusos da conduta e do governo dos homens, onde se vê demonstrações claras e evidentes da futilidade e da falsidade de todas as divindades e de todas as religiões do mundo, para ser dirigida aos seus paroquianos após a sua morte e para servir-lhes de testemunha da verdade e a todos os seus semelhantes".

O texto é constituído de dez partes, sendo uma longa e muito importante apresentação, oito seções ou "provas", cada uma delas demonstrações subdivididas em vários capítulos ou tópicos, e uma conclusão geral. 

Em tais "provas", as quais percorrem os três volumosos tomos da obra, o padre aborda fundamentalmente temas relacionados à religião, à metafísica e à política. 

 [...]  na divisão mais detalhada das provas [...] encontramos as seguintes teses, assim resumidas: 

1* Prova: as religiões são invenções humanas; 
2* Prova: a fé é um princípio de erro;
3* Prova: as pretensas visões sobrenaturais e revelações divinas são falsas;
4" Prova: as promessas e profecias são ilusões;
5* Prova: a doutrina cristã em sua teologia e em sua moral é absurda;
6* Prova: a religião em conluio com a política é a verdadeira causa histórica da opressão e da miséria;
7* Prova: a ideia da existência de uma divindade é quimérica, ou seja, Deus não existe;
8* Prova: a alma não é espiritual tampouco imortal, mas material/corporal e mortal.


"APRESENTAÇÃO"

Três partes compõem a "Apresentação" [...] da "Memória".

Na primeira delas, "Desígnio da Obra", Meslier anuncia os objetivos do seu empreendimento, assinala o seu caráter testamental, esforça-se para justificá-lo, e manifesta o seu profundo mal-estar, trazendo à tona o seu drama de consciência em ter de cumprir contra a própria vontade os deveres da sua condição de padre, o principal deles, o de inculcar na consciência dos seus paroquianos, todos eles ignaros e ingênuos camponeses, os dogmas bíblicos, dos quais discordava com radicalidade e veemência. 

Por temer as represálias dos seus superiores eclesiásticos, a perseguição do senhor do vilarejo onde habitava e pregava e a condenação das implacáveis instâncias repressivas do Antigo Regime, Meslier fez, como já é sabido (** em capítulo anterior o autor discorre amplamente sobre a tenebrosa situação social na qual Meslier viveu), a angustiante opção de não tornar públicas, em vida, as suas opiniões acerca dos governos, das religiões e dos costumes da humanidade, todas elas, aliás, de uma impressionante contundência para um cura, o que poderia custar-lhe não apenas a excomunhão e a perda do ofício, mas sobretudo a própria vida. 

Meslier contava então com quase sessenta anos e já pressentia a falência do seu corpo e a iminência da sua morte. De modo que guardou para si, no mais absoluto segredo, registrados em manuscritos, as suas reflexões e os seus sentimentos mais profundos de indignação e de repugnância em relação à opressão e às injustiças sociais promovidas pelos poderosos contra os humildes, e em relação aos erros doutrinários e aos embustes políticos cometidos historicamente pelas religiões, em particular pela Igreja Católica. 

A solução mais sensata e segura encontrada por ele em face das adversidades daquele momento foi tornar póstumo o conhecimento dos seus sentimentos e das suas ideias.

[...]

Dados os motivos que o levaram a sucumbir às obrigações do seu ofício [...] Meslier volta-se para a natureza humana e relata a sua experiência de convivência com os homens. 

No seu entender, a paz, a bondade, a equidade, a verdade e a justiça, ou seja, os valores humanistas tradicionais, seriam as características mais amáveis e desejáveis do universo humano, "fontes inestimáveis de bens e de felicidade".

Em contrapartida, a mentira, a injustiça, a impostura e a tirania seriam o que pode haver de mais odioso, de mais detestável e pernicioso no coração dos homens, causas estas de divisões, de depravações e gênese de todos os vícios, de todas as maldades, misérias e infortúnios que sempre afligiram a humanidade.

Meslier constata que é esse lado detestável e pernicioso do ser humano, infelizmente, que sempre tem preponderado nas relações sociais. 

Quanto mais velhos ficamos, quanto mais experiência e conhecimento acumulamos, argumenta o padre, mais nitidamente percebemos a cegueira e a maldade dos homens, os malefícios do obscurantismo e das superstições e as injustiças dos governos inescrupulosos. 

Verificamos cotidianamente, de forma inequívoca, uma infinidade de pessoas inocentes e desditosas perseguidas sem razão e oprimidas injustamente, sem ninguém para protegê-las. 

Meslier acusa os "maus ricos" e os "grandes da terra" por essa tirania e por tal abandono. 

O tom do texto passa então da indignação para o desalento, em última instância, da indignação para um certo pessimismo antropológico: "As lágrimas de tantos justos aflitos e as misérias de tantos povos tão tiranicamente oprimidos pelos maus ricos e pelos grandes da terra deram tanto a mim quanto a Salomão, tanto desgosto e tanto desprezo pela vida, que eu estimava como ele a condição dos mortos muito mais feliz do que a dos vivos [..].

Para piorar ainda mais essa atmosfera humana sombria, aqueles que se passam por sábios e piedosos, os quais, no seu entender, teriam o dever de censurar e de se manifestar contra esses abusos, mostram-se indiferentes, postura esta que na prática contribui decisivamente para a manutenção e para o fortalecimento da ordem de iniquidades e de miséria. 

Mas qual será a razão de tanta indiferença, de tanta omissão e cumplicidade por parte dos sábios e dos pretensos piedosos? Por que tais homens aprovariam uma ordem tão odiosa e desumana?

Perscrutando detidamente a conduta dos seres humanos e os "mistérios secretos da fina e astuciosa política" Meslier concluiu que muitos são os homens que ambicionam cargos de poder e de prestígio para se sentirem honrados e respeitados, que muitos são aqueles que desejam governar, que querem comandar com uma autoridade soberana e absoluta. 

Dentre eles estão os mais esclarecidos e os aclamados os mais samaritanos. 

Em outras palavras, os sábios e os "protetores caridosos" calar-se-iam diante da ordem de injustiças movidos essencialmente pelo interesse egoísta de compô-la e dela se beneficiar. 

A primeira parte da "Apresentação" da "Memória" finda-se com um vínculo estabelecido por Meslier entre a instrução e a ambição, entre o esclarecimento e a vaidade.

A maioria dos sábios seria ambiciosa e vaidosa, isto é, seria ávida por poder e por adoração, tendo como objetivo supremo a reverência servil dos humildes e a condução de um governo sem limites.

Isto faria deles santos ou até mesmo deuses.
 
A ambição como uma paixão determinante é, portanto, a constatação inicial de Meslier em relação ao comportamento social dos homens. 

Em última instância, é mediante a crítica de tal paixão que ele constrói toda a sua refutação religiosa e política.


A questão da ambição continua na segunda parte da "Apresentação", intitulada "Pensamentos e sentimentos do autor sobre as religiões do mundo". 

Nela, Meslier aprofunda a sua ponderação sobre essa paixão e os seus desdobramentos. 

No seu entender, a ambição seria a "verdadeira fonte e a verdadeira origem" de todos os males que afligiram e que continuam a afligir a humanidade, a causa fundamental das imposturas religiosas e das atitudes tirânicas dos grandes da terra. 

Ou seja, a ambição seria a raiz do ardil e da força de alguns homens esclarecidos, porém, inescrupulosos, cujas vítimas são sempre os povos ignaros, crédulos e indefesos, os quais se submetem pela fraqueza à violência e pela falta de instrução aos embustes das superstições.
Impelidos por um desejo cego de poder, esses homens astutos e desumanos tornam-se opulentos, poderosos, temidos e adorados, abusando assim da ignorância, da credulidade e da pusilanimidade dos subjugados. 

No caso específico da religião, a ambição estaria na base das piores imposturas e embustes, tais como as idolatrias, a criação de divindades, a consolidação de cerimônias absurdas, a sustentação de falsos mistérios, a invenção de leis e de condenações divinas, as promessas de paraísos, a consagração de santos, e a elaboração de teologias que procuram legitimar os poderes eclesiástico e temporal.
Sem instrução, crédulos e tementes, os povos dão assentimento a essas mentiras com facilidade e passam a ter suas fés manipuladas não apenas pelos sacerdotes, mas também pela nobreza, em particular pelos monarcas, cuja autoridade encontra um sólido respaldo em tais embustes. 

Dito de outro modo, eclesiásticos e nobres, papas e reis, tornam-se sócios na exploração da boa-fé e da submissão dos humildes. 

Utilizando o bem comum e a necessidade pública como pretextos, os reis tornam-se truculentos tiranos. 

Alegando vontade divina e prometendo a garantia de felicidade eterna numa outra vida, padres, bispos e o papa apropriam- se dos escassos bens temporais dos seus fiéis na forma de dízimos e de outras dissimuladas usurpações, recursos estes que poderiam ser melhor desfrutados em vida pelos seus sofridos possuidores. 

Nobreza e clero, política e religião, portanto, irmanar-se-iam na espoliação dos povos.

Não há céu nem inferno, não há penas nem recompensas em outra vida.  Aliás, não há outra vida além desta. Tais representações não passariam de pura invencionice.

 De acordo com Meslier, padres e bispos usariam esses expedientes para explorar o medo e a esperança popular a fim de manterem intactos os seus privilégios. 

Isto explica a adaptação das pessoas esclarecidas e pretensamente sábias à ordem do tirano. 

Outros partícipes dessa exploração e aliados do tirano seriam os oficiais, intendentes, magistrados e membros do fisco, todos eles pagos com o dinheiro dos impostos, isto é, com o dinheiro do povo, para defender a autoridade absoluta constituída. 

Tais pessoas, no fundo, desempenhariam um papel estratégico e precípuo na manutenção e no funcionamento do aparato de dominação. 

Ao defender os interesses da coroa, esses funcionários protegeriam ao mesmo tempo os seus próprios interesses. 

Trata-se de um exemplo expressivo de pessoas esclarecidas que não se opõem às arbitrariedades do regime, pois, caso o fizessem, obviamente perderiam, no mínimo, os seus cargos e, no limite, a própria vida. 

Não obstante, havia os esclarecidos como Meslier que repudiavam as iniciativas tirânicas e se sensibilizavam com o infortúnio alheio. Todavia, a discordância desses poucos se dava apenas em sentimento e em lucubrações silenciosas, afinal, enfrentar toda essa estrutura seria temerário demais.

Assim, aos mais esclarecidos que não desejavam perder a vida não restava outra escolha: adequar-se ao regime como parte direta ou indiretamente integrada dos abusos da tirania ou como um pacato e resignado servo. 

Meslier fez a sua opção.

Outro produto da ambição apontado por Meslier é a bajulação. 

Os aduladores existem aos montes e procuram obter privilégios e ascensão por meio de favores e de negociatas com os poderosos. Por isso, são sempre os primeiros a aplaudir tudo o que os tiranos realizam. Eles não se atrevem a rechaçar a injustiça porque dela se beneficiam.

Quem então poderia combater efetivamente a tirania? 

Qual seria esse personagem redentor concretamente falando? 

Os miseráveis, por carecerem de ciência e de autoridade, e por encontrarem-se iludidos com os ensinamentos, com as promessas e com as ameaças da religião, seriam fracos, logo, impotentes.
Os esclarecidos, dentre eles os membros do clero, por serem ambiciosos e por pensarem apenas nos seus próprios interesses, não se arriscariam a tal ousadia. 

Os bajuladores e os "devotos hipócritas", parasitas por natureza, menos ainda. 

Meslier percebe então uma rigorosa hierarquia, um inquebrantável encadeamento de subordinação, de dependências, invejas e perfídias entre os diferentes estamentos. De onde se segue que seriam os mais odiosos vícios o sustentáculo de toda tirania. 

E a ausência de resistência a essa lamentável realidade, argumenta Meslier, faz as superstições e os abusos dos tiranos se alastrarem e se perpetuarem no mundo.

Da ambição e de seus males a reflexão de Meslier caminha para a relação entre a religião e a política.
Na sua concepção, a religião, historicamente fonte de toda ética, deveria, por coerência, condenar as desumanidades de um governo tirânico. 

O governo, por sua vez, deveria proibir as imposturas e os embustes da religião, visto que tem como missão salvaguardar o bem dos seus súditos. 

Nesse sentido, religião e política deveriam ser instâncias "reciprocamente contrárias e opostas uma à outra". 

Entretanto, ambas convivem, entendem-se e agem na história como "dois gatunos". 

Elas se sustentam mutuamente por meio da mentira, da opressão e da manipulação do povo. 


 Os bispos e os padres intimidam os seus fiéis com a mentira do inferno e com a fábula do direito divino dos reis a obedecer cegamente aos intendentes, aos magistrados e aos tiranos (comentário : tipo Cristo dizendo “dai à Cesar o que é de Cesar, e dai à Deus o que é de Deus”). 

Os tiranos, por sua vez, além de concederem aos bispos e aos padres boas rendas, constrangem o povo a respeitá-los como santos e como representantes de Deus na Terra. 

Desse modo, a ordem política e social constituída pela aliança entre a tirania e a superstição enraíza-se.

Do ponto de vista institucional, é a Igreja Católica e o Antigo Regime que Meslier indubitavelmente tem em mente quando procura demonstrar a relação de promiscuidade e de sordidez entre a religião e a política. 

Já no âmbito propriamente teórico, o alvo principal da sua crítica é o cristianismo apostólico romano, o qual, no seu entender, impõe-se como a doutrina da pura verdade, do verdadeiro Deus e da verdadeira salvação, isto é, como uma religião infalível e superiora a todas as outras. 

Contudo, para Meslier, não somente o cristianismo oficial da Igreja, mas a religião cristã como tal, seria tão ilusória, tão supersticiosa, tão falsa, absurda, mendaz e ridícula quanto às demais religiões que a humanidade pôde criar em outras épocas e lugares.

Tal similaridade seria nítida, justifica Meslier, nos seus rituais.  A idolatria existente na religião cristã, por exemplo, não diferiria essencialmente em nada da idolatria pagã.

No fundo, as ideias de milagre, mistério, vida eterna, entre outras, seriam meras ilusões, mentiras e erros grosseiros, fábulas e imposturas com fins estrategicamente políticos. 

A história é testemunha do modo sórdido como os governantes utilizam a religião para satisfazer seu insaciável desejo de poder, como eles abusam impunemente da autoridade de um deus imaginário e das doutrinas teológicas que os representam como enviados divinos para serem temidos e servilmente obedecidos na Terra. 

As causas das injustiças, por exemplo, o clero e o tirano encobrem com o dogma do mistério ou as justificam com o mito do pecado original. Com isso, isentam-se da responsabilidade dos seus atos. 

E quando Meslier fala em povo pobre e injustiçado, ele se refere obviamente a todos os oprimidos e explorados do mundo, a todos aqueles desamparados pelos santos e por Deus que funcionam como "minas de ouro" para reis e padres, e não só aos camponeses da França ou da sua paróquia.

Não só o medo e a resignação caracterizariam a alma popular sob a tirania. 

Meslier demonstra que, apesar do obscurantismo, a consciência dos abusos praticados pelos tiranos e, por conseguinte, a indignação e o desejo de justiça, também pulsavam tácitos no coração e nas mentes de alguns homens do povo de sensibilidade e de inteligência naturalmente mais apuradas. 

 Ele cita o caso de um homem simples e sem estudo, porém incrivelmente cônscio do funcionamento da sociedade em que vivia, que certa feita disse com toda a sinceridade e singeleza que se pode esperar de um camponês embrutecido pela opressão que "desejava que todos os grandes da terra e que todos os nobres fossem enforcados e estrangulados com as tripas dos padres".

Essa passagem, como já tivemos a oportunidade de destacar e de tecer comentários a seu respeito, (comentário : anteriormente o autor discorre amplamente sobre esta frase, com suas alterações, adaptações e falsas atribuições de autoria) tornou- se a mais célebre de toda a sua obra. 

E com razão. 

A metáfora que o desabafo do camponês lança sugere que nos regimes fomentados ideologicamente pela teoria do direito divino dos reis haveria um elo visceral - e visceral aqui na acepção mais orgânica e fisiológica da palavra, convém enfatizar - entre o poder temporal e o poder espiritual.

O padre admite que o desejo manifesto pela frase é rude, grosseiro e afrontoso, porém, enaltece-o com indisfarçável entusiasmo. 

Segundo ele, este homem simples do povo expressou com imagens precisas o que os tiranos e o clero realmente mereceriam como condenação. 


E estimulado pelo desejo, pela aspiração desse homem sofrido e a seu modo consciente, Meslier revela: "eu desejaria ter o braço, a força, a coragem e a massa de Hércules para purgar o mundo de todos os vícios e de todas as iniquidades, e para ter o prazer de derrear todos esses monstros tiranos de cabeças coroadas, e todos os outros monstros, ministros de erros e de iniquidades que fazem gemer tão impiedosamente todos os povos da terra".

Contudo, embora Meslier denote concordância com o tiranicídio e com o extermínio de eclesiásticos inescrupulosos, ele ressalta que é o amor pela justiça e pela verdade e não o ressentimento e a sede de vingança que o faz simpatizar-se com a metáfora das tripas e cobiçar a força desse mito pagão, o que nos reporta ao pensamento revoltado de Albert Camus. 

Recordando, em O homem revoltado, Camus distingue o sentimento da revolta do sentimento de vingança. 

(** anteriormente o autor diferencia o que seria um ateu “revoltado que se revolta” e um ateu “revoltado que quer vingança”, último seria o ressentido

Na revolta, o revoltado, cujo valor maior é a solidariedade, recusa terminantemente a injustiça e a humilhação, sem exigir, por outro lado, que o injusto e o opressor provem da desumanidade que praticaram. 

Quanto a um dos antípodas do revoltado, a saber, o ressentido, seu desejo é que a injustiça e a humilhação da qual foi ou é vítima recaia maximizada sobre o seu verdugo. 

Nesse sentido, podemos dizer que Meslier é um revoltado e não um ressentido, pois, a despeito de exprimir em vários momentos um sentimento regicida e anticlerical, propugna o fim das injustiças e da opressão, e não a inversão dos seus alvos. 

Exemplo de autoria errada encontrada na Internet
Meslier retoma na "Apresentação" a problemática do parasitismo social 

Além dos poderosos e dos funcionários e aduladores destes, outra espécie de parasita destacada pelo padre ateu é a dos charlatães, aqueles indivíduos que exploram a ignorância e a simplicidade do povo, por exemplo, persuadindo pessoas enfermas e ingênuas a comprar falsos remédios e medicamentos milagrosos. 

Esses "infames enganadores", julga Meslier, devem ser caçados e banidos, como devem ser todos os ladrões, assassinos, e aqueles que dominam o corpo e a consciência dos desvalidos. Mais: eles devem ser odiados pelo povo.

No entanto, os "maiores enganadores do povo" são mesmo, no seu entender, os sacerdotes. 

Ao sustentar isso, Meslier não se exclui da própria sentença, atingindo assim a sua própria incumbência e, o mais dolorido, a sua própria pessoa. 

Como vimos, ele tem consciência e amarga a sua condição contraditória. 

Todavia, ele denuncia, mesmo que para a posteridade, as mazelas da sua profissão. 

Meslier não esconde em nenhum momento que ele exerceu o seu papel de sacerdote dentro de uma certa regularidade, que difundiu os ensinamentos da Igreja, que recebia o dízimo, e que, mesmo contra a vontade, aterrorizou e iludiu os seus fiéis com a mitologia dos evangelhos. 

Contudo, ressalta que nunca fora supersticioso, beato ou fanático, e que entrou para a carreira eclesiástica para satisfazer a vontade dos seus pais e para ter uma vida materialmente mais segura, tranquila e digna numa época de muitas privações.

Mesmo tendo a subsistência garantida e outras vantagens concedidas ao clero, ele confessa nunca ter amado o seu ofício, que sentia por este uma profunda ojeriza. 

As cerimônias e os rituais religiosos, por exemplo, enfastiavam-no profundamente por suas futilidades e absurdos. 
 
 Com a consciência torturada, ele se lamenta e pede desculpas aos seus paroquianos por tê-los enganado. E insiste que assim agiu contrariando os seus mais francos princípios, ao contrário do que faziam os demais sacerdotes, os quais se divertiam e lucravam sem nenhum remorso com a boa-fé dos seus fiéis. 

Papas como Júlio III, Leão X e Bonifácio VIII são citados por ele como exemplos de religiosos que zombavam da credulidade popular, e que, entre os íntimos, repetiam que tinham se enriquecido graças à fábula de Jesus Cristo.

Tanta hipocrisia e tanta exploração ao mesmo tempo entristecia e indignava Meslier. 

Como era o povo que proporcionava o seu sustento, como era do trabalho dos seus paroquianos que saíam os seus privilégios de sinecura, o clero deveria ter mais consideração por eles, enfim, ser mais solidário à miséria do seu rebanho. 

Numa explícita crise de consciência moral, Meslier esforça-se para se diferenciar dos seus colegas de batina declarando que sempre fora sensível à aflição do seu povo, que nunca o explorou, e que, ao contrário, sempre lhe deu muito mais do que dele recebeu. 

Nesse ponto, curiosamente, o padre ateu assinala ter seguido com rigor a recomendação de Cristo para que tivéssemos mais consideração pelos pobres do que pelos ricos. 

Mais uma vez Meslier reitera que não foi um beato ou um fanático, que cumpriu as tarefas do seu ofício com muito dissabor, repete a cantilena que foi coagido pelo medo das represálias a difundir os erros, os disparates e as futilidades da religião. 

Num tom de mea-culpa, admite e pede desculpas à posteridade por ter abusado da boa-fé dos seus fiéis. 

Sua repugnância pelo que era forçado a fazer era tanta que quase o levou a revelar, numa de suas missas, a sua indignação com as injustiças e a sua insatisfação com a sua ocupação. 

Entretanto, para não se expor à fúria do clero e à crueldade dos tiranos, escolheu para si a alternativa não menos martirizante, ou seja, o silêncio, o qual foi mantido até o último dia de sua vida.

A despeito do silêncio sob o qual foi obrigado a pensar e escrever, Meslier não economizou palavras em suas denúncias e diatribes póstumas. 

Uma das primeiras diz respeito ao papel histórico da religião e do poder político. 

Meslier argumenta que desde os primórdios da civilização os pobres e humildes sempre foram engabelados e manipulados pela superstições religiosas, além de oprimidos e explorados pelos ricos e poderosos. 

Paulo Jonas de Lima Piva
 Em outras palavras, Meslier entende historicamente a religião como uma "rédea", como um expediente dos poderosos para domar as massas pelo medo e pela esperança, e, por conseguinte, para fortalecer a preservação dos seus privilégios. 

Em contrapartida, a vontade e o objetivo principal de Meslier era desiludir o povo, fazê-lo ver, mediante a razão, a "verdade das coisas".

Tal compromisso, segundo o padre, todos os homens esclarecidos e de bem deveriam assumir. 

Revelando as causas e as estruturas das injustiças, o ódio pela tirania poderia ser despertado no coração dos injustiçados, condição necessária para que um dia os alicerces da ordem pudessem ser destruídos e a justiça enfim realizada. 

Os mais instruídos deveriam convencer os povos de "duas importantes e fundamentais verdades":
1) para aperfeiçoar-se nas ciências e nas artes os homens deveriam seguir unicamente "as luzes da razão humana"; 2) as boas leis devem ser engendradas e fundamentadas na prudência, na probidade, na "eqüidade natural", enfim, também na razão.

[...]

Entretanto, como vimos, poucos foram os que se dispuseram a esclarecer os desvalidos. Os livros voltados para esse fim não eram publicados ou, quando o eram, a censura e a perseguição os aniquilavam.

Meslier já previa o escândalo que a sua obra ocasionaria nos meios clericais quando fosse descoberta após a sua morte. 

Ao que parece, escandalizar era mesmo a sua intenção. 

Do mesmo modo eram previstos por ele os ataques e as difamações que surgiriam não só dirigidas à sua obra, mas sobretudo à sua reputação. 

Ele sabia que seria chamado "de ímpio, de apóstata, de blasfemador e de ateu". 

Mas o padre parece não se importar com os seus detratores tampouco com o que farão com o seu cadáver, como podemos ler no término da "Apresentação" da "Memória": "façam então com o meu corpo tudo o que eles quiserem; que eles o dilacerem, que eles o cortem em pedaços, que eles o assem ou que eles o misturem com legumes, e que eles o comam se quiserem [..]".

A única preocupação séria de Meslier parece ser com a integridade dos seus familiares e amigos, os quais poderiam ser vítimas de perseguição ou sofrer alguma retaliação por parte dos religiosos. 

Mesmo assim ele deixou como que de presente aos homens de bem e de espírito o seu testamento filosófico e político, pois acreditava que a verdade, a justiça, a liberdade e o bem público deveriam se realizar no porvir em todas as partes onde o obscurantismo e a opressão imperassem. 

[...]

Na terceira e última parte da "Apresentação", as religiões são definidas por Meslier como erros, ilusões, abusos e imposturas.

Tanto os deuses pagãos quanto o deus com "d" maiúsculo do cristianismo, juntamente com todos os seus rituais, cultos, explicações, leis e ordenações seriam, no seu entender, "invenções humanas" com finalidades puramente políticas.

E aqui vale mencionar que Meslier emprega propositadamente letra minúscula para aludir-se ao deus cristão e maiúscula para se referir ao deus pagão.

Seja como for, tais divindades são interpretadas pelo padre como falsidades, artifícios oriundos de raciocínios tolos que são apropriados pelos tiranos para dominar e espoliar mais facilmente os povos.
Meslier vai mais além e assevera que a religião cristã seria ainda mais falsa e vã do que as demais, visto que seria constituída de rituais ridículos, de crueldades, de princípios absurdos, bem como de preceitos contrários à natureza e à razão. 

Em suma: seria uma religião repleta de mentiras, como a ameaça do inferno e a promessa do paraíso.
Após a morte, contesta Meslier, não há nada para esperar, nenhum bem ou mal. Céu e inferno não passariam de fábulas, invencionices de supersticiosos, fantasmagorias de fanáticos. 

Somente uma vida seria concebível, ou seja, esta vida, em sua finitude, efemeridade e precariedade.
Diante disso, ele recomenda que a apreciemos ao máximo, aproveitando com sabedoria os bens que os dias e a natureza nos proporcionam, como, por exemplo, desfrutar com comedimento e de modo fraterno os resultados do nosso trabalho. 

Mas adverte: gozar a vida não significa entregar-se à libertinagem.

A morte, por seu turno, é interpretada da maneira mais natural, simples e empírica possível. 

Aos seus olhos, a morte é concebida em sua obviedade imediata, isto é, como o fim da vida, em outros termos, como o término irreversível da consciência, do conhecimento, das paixões, das necessidades, dos sentimentos morais, enfim, do funcionamento do corpo. 

A "Apresentação" finda-se com uma conclamação de Meslier para que as reflexões desenvolvidas na "Memória" não sejam entendidas de forma dogmática ou passivamente aceitas pelo seu leitor, mas que este utilize judiciosamente a sua razão para obter as suas próprias conclusões e, assim, conhecer a verdade, a qual, para ele, jamais poderá ser desvelada pela fé tampouco por uma fabulosa revelação. 

Em última análise, a "Apresentação" exerce um papel estratégico e fundamental na "Memória" na medida em que anuncia e sintetiza os tópicos a serem desenvolvidos nas oito provas que se seguem.

"PRIMEIRA PROVA"

[...]


--------------------------------------------------------------------------------------------

 Links : 

Para saber mais sobre Jean Meslier :




4. Artigo "O estranho testamento de um vigário de província -  as memórias de Jean Meslier" de Maria das Graças de Souza : http://www.scielo.br/pdf/trans/v8/v8a07.pdf


6. "O último rei e o último padre". Texto de Giba Assis Brasil sobre a célebre frase falsamente atribuída a Diderot. No texto, Giba afirma que a frase é na verdade de Meslier, o que é errado segundo Piva.