Hino do Blog - Clique para ouvir

Hino do Blog : " ...e todas as vozes da minha cabeça, agora ... juntas. Não pára não - até o chão - elas estão descontroladas..."
Clique para ouvir

Sunday, November 24, 2013

(Autora : Niara) Bjork

Bjork e Niara
Nesses últimos dias passei por um tratamento complicado nos olhos e ainda terei duas cirurgias pela frente. Claro que isso me deixa mais sensível do normal.

Esse preâmbulo é somente para contextualizar a verdadeira história que quero tratar nesse post. Na verdade o assunto é outro, mais singelo, mais puro.

No dia 16 de novembro, estava em casa repousando e tentando assistir a televisão. Estava, como de hábito, recostada no sofá quando senti um leve toque no meu ombro. Era minha gata Bjork avisando que estava ali. Era como se ela dissesse "você não está sozinha mamãe, estou aqui contigo, te fazendo companhia"

Eu estava com o celular à mão e quis tirar uma foto daquele momento. Quem conhece gatos sabe que tirar uma foto dessas é praticamente impossível, pois eles mudam de ação de forma muito rápida. Mas nesse dia não, ela permaneceu fazendo carinho com o focinho o tempo suficiente para que eu pudesse tirar a tão desejada e rara foto.

Postei a foto no Facebook e uma coisa inédita aconteceu : tive 37 curtir. Talvez possa parecer pouco, mas além do número, o que me surpreendeu foi a manifestação de amigos que nunca antes haviam curtido minhas fotos. E isso aconteceu de forma muito rápida também.

Comecei a pensar no motivo pelo qual essa foto tinha se tornado tão especial. A beleza da gata siamesa? O inusitado do tipo de foto sendo uma gata a personagem principal? O carinho demonstrado?

Talvez contando a trajetória da minha relação com a Bjork, o motivo fique mais claro :

Ela não foi minha desde pequena. Antes disso foi comprada por amigos e minha sobrinha Ana escolheu seu nome. Quando soube, pensei, sendo também fã dessa cantora : “porque não pensei nisso antes? Que nome legal!”

Durante algum tempo recebi notícias de longe e fiquei sabendo que ela tinha dado à luz a seis gatinhos, estava muito magra e que em um determinado dia tinha chegado a desmaiar.

Uma bela noite, eu, meu irmão Iuri e meu cunhado Luciano fomos convidados pra jantar na casa de nossa sobrinha Ana e, para nossa surpresa, nossos amigos haviam deixado a Bjork na casa dela, pois estavam viajando e pensavam na possibilidade de doar a gatinha.

Quando vimos aquela gata com extrema magreza, eu e meu cunhado conspiramos para levá-la para minha casa, pois decidi na hora adotá-la. Pegamos uma toalha de nossa sobrinha, enrolamos e sequestramos minha nova filha levando-a para meu apartamento. Pedi à Ana que avisasse aos nossos amigos o acontecido.

Em casa, os primeiros dias foram uma tragédia. Minhas gatas mais velhas e maiores batiam na nova irmã e eu vivia apartando as brigas. Por medo de banho, ela não entrava no banheiro onde fica a caixa de areia e, para meu horror,  fez necessidades em um lugar que eu não descobria. Minha família foi contra, disse que minha casa estava inabitável - brigas, uma confusão total.

Com o tempo as coisas se ajeitaram, ela aprendeu a utilizar a caixa de areia, as brigas felinas reduziram  e ela foi se recuperando com a comida especial que eu passei a preparar para que ela (fígado de frango grelhado). 
Bjork

Com o tempo ela tornou-se  uma gata realmente linda, chamando a atenção de quem me visitava, chegando ao ponto de me pedirem ela de presente.

Ela começou a se relacionar comigo de forma diferente das outras, pois sempre foi mais brincalhona. Adora até hoje que eu jogue papel de bombom para ir buscar correndo e trazer de volta, como se fosse um cachorro. Quando vou dormir, corre para a cama para brincar de se esconder sob as cobertas.

Nos últimos tempos, entretanto, seu comportamento se modificou. Ela, que sempre dormiu nos meus pés ou fora da cama,  em virtude dos lugares mais nobres (ao lado do meu travesseiro e em cima de mim) serem ocupados pelas gatas mais velhas - a malvada Nicky e a malhada Jackye Brown -, começou a brigar para mudar a posição. Eu disse aos meus familiares e amigos: "A Bi (apelido carinhoso) perdeu o amor à vida! Desafiou a hieararquia e começou a brigar com a Nicky para poder deitar ao meu lado!"

E tanto incomodou que conseguiu. Hoje ela dorme ao lado do meu travesseiro em cima da minha mão, de preferência. Eu não imaginava no início de nossa relação que essa iria evoluir para um amor tão profundo, tanto  que lhe deu coragem de desafiar as irmãs que têm o dobro do tamanho dela. E principalmente a Nicky (Nicole Kidman Palma), que é arisca e malvada!

Dei-me conta então que a atração da foto citada no início da história, e que é o motivo desse post, é a demonstração de um amor construído de forma conturbada, inesperada, com valentia e coragem por parte dela.

A foto conta toda essa história, mesmo que as pessoas não a conheçam. O que aparece ali, não é um tipo de sentimento que nasce de uma hora para outra e penso que quem viu e curtiu, sentiu isso,  mesmo que inconscientemente,  pela expressão sua e a minha alegria em receber esse amor puro no momento de fragilidade pelo qual estou passando, apesar do apoio da família e dos amigos queridos.

Bjork Palma é uma companheira como poucas e hoje sinto que, apesar dos tropeços iniciais, foi a decisão mais correta que eu poderia ter tido.

Dedico esse Post a todos os amantes de felinos que sabem reconhecer nessas criaturas nobres e independentes a  felicidade que podem trazer às suas vidas.

(Autor : Iuri) Elis a Musical - Teatro Oi Casa Grande /RJ

É difícil descrever o que senti ao assistir “Elis a Musical”.

Por um lado testemunhei um conjunto de talentos excepcionais unidos para apresentar um dos melhores espetáculos que já vi. Por outro assisti a um filme da minha vida embalado pelas canções apresentadas.

Não teve como não me emocionar aos cântaros.

O resultado foi que saí do espetáculo zonzo, abobado, não conseguindo assimilar bem o que tinha acabado de vivenciar naquelas três horas  no Casa Grande.

Voltei ao hotel e demorei a pegar no sono.

O Musical :

A peça inicia por volta do final da década de 50 com Elis (Laila Garin) garota ainda em Porto Alegre.

Vemos sua “travada” em uma apresentação no programa “Clube do Guri”, mas, logo em seguida ela dá a volta por cima e manda ver, conquistando o sucesso na capital dos Pampas.

Eu, como “gaúcho natural”, estranhei o sotaque forçado dos atores (que acaba ficando hilário), porém o inaceitável foi o inaceitável (sic) “erro” de conjugar perfeitamente o verbo na segunda pessoa, tipo “Tu vaiS, guria”, quando todo mundo sabe que o gaúcho fala “Tu vaI, guria”. De qualquer modo o que achei legal foi ouvir falar do Bairro IAPI e, é claro, da minha querida Porto Alegre. Muito bom.

Mas, tudo bem. Felizmente o “gauchês” é logo abandonado assim que Elis é convidada por Carlos Imperial para ir ao RJ gravar  alguns discos no “estilo Cely Campelo” (a sensação musical dos jovens de então).

Neste formato pré-programado para o sucesso, a garota grava três discos (a peça fala só gravadora CBS, mas Elis grava seu primeiro LP, “Viva a Brotolândia” pela Continental), que resultam em nada.

Porém estes “fracassos” não intimidam a guria e, na data (talvez mentirosa) de 31 de Março de 1964 (data do golpe militar), Elis chega com o pai, Romeu ao Rj para assinar um contrato de gravação com a Philips.

Na cidade maravilhosa ela acaba conhecendo a noite do Beco das Garrafas, local em Copacabana com várias boates (algumas tipo inferninho de má reputação). Os espaços ali eram mínimos, mas rolava muita criatividade e bom gosto musical.

Ronaldo Bôscoli (Felipe Camargo) e Míéle (Caike Luna), famosos bambambâns na noite carioca produziam e dirigiam shows em algumas das casas noturnas do Beco. 

Ali eles montaram o primeiro show de sucesso de Elis, porém as coisas aconteceram debaixo de mau tempo devido à personalidade, digamos, “forte” da cantora (reclamação sobre a espera para ensaios, suas faltas às apresentações – por estar fazendo shows em outros locais, etc).

No Beco, Elis conhece Lennie Dale (Danilo Timm), um coreógrafo da Broadway que amava o Brasil e  que transforma sua expressão corporal.

Aqui acontece o primeiro grande número da noite com o Danilo dando um show com o clássico bossanovista “O pato”. O cara canta e dança pra caralho. O povo vem abaixo.

Boscoli não gostou das “mexidas” da cantora e foi reclamar com Miele. A resposta de Miele é célebre : “Deixa, Bôscoli, assim ela enterra a bossa nova de vez”

Atrás de caches mais polpudos Elis “caga” para o Beco e parte para Sampa. Bôscoli, puto, manda botar uma tarja preta sobre o nome da estrela nos cartazes da entrada da boate em Copa, numa declaração de guerra à desafeta.

Salta para a consagração nacional no “I Festival de Musica Popularda Excelsior” onde ela conquista o primeiro lugar defendendo, de forma inesquecível “Arrastão”.

Icaro Silva (Jair Rodrigues)  e Laila Garin (Elis)
Segue a proposta da montagem de um show com o compositor e violinista Baden Powel, o que não acontece. Então ocorre o encontro com JairRodrigues (Ícaro Silva) que resulta nos sucessos de “Dois na bossa”, “Fino da Bossa” (shows, disco, programa de tv).

O pout-pourri de samba apresentado por Laila e Ícaro é matador.

O clima esquenta (no bom sentido) com o Bôscoli e logo eles estão casados, num affair bem “entre tapas e beijos”.

Elis parte para Paris, onde se apresenta com Pierre Barouh (Samba Saravah) e no Olimpía.

Na volta para o Brasil descobre as puladas de cerca do marido galinha e, numa performance "tô lôca", agarra a coleção de long plays do Frank Sinatra do varão do lar, e promove uma festa tipo "disco voador".

Porém eles logo voltam aos beijinhos numa felícidade bélica.

No lado público, não fica de fora a “mancha política” na trajetória da diva, quando, em plena ditadura militar, foi obrigada a cantar na famigerada Olimpíadas do Exército.

Isto lhe causou um patrulhamento do combativo "O Pasquim". Henfil (Peter Boos), numa charge histórica,  a “enterrou” no cemitério dos Mortos-Vivos do Cabôco Mamadô, lugar para onde ele mandava todos aqueles que, na sua opinião, colaboravam com a ditadura.

Inicio da Charge - Os quadrinhos avançam até Elis reencarnar como Chevalier num show para os nazistas em 45

Na tranquilidade do lar, discussão vai, discussão vem, e fica claro que o os anos felizes definitivamente vão por ralo abaixo, situação onde ocorre o momento mais “estranho” do espetáculo.

Senão vejamos :

Abandonada, Laila começa a cantar, de forma bem trágica, “Atrás da Porta”, que todo mundo sabe ser um hino à dor de corno. Porém, durante a música, ela vai se afastando fisicamente de Bôscoli e nas frases finais que repetem .”...eu ainda sou tua...”, ela já está meio de arreganho com o Cesar Camargo Mariano (Claudio Lins).

Achei ... “diferente”.

De qualquer forma o primeiro ato encerra-se de forma magistral com “Casa no campo

Intervalo.

O segundo começa grandioso com “Nada Será Como Antes”, “Canção da América”, “ Fé Cega, Faca Amolada” e “Maria Maria

O que vemos a seguir são principalmente as inquietudes artísticas de Elis através da sua busca de formas para trabalhar e reinventar sua arte.

Assim, logo estamos em Los Angeles onde aconteceu um dos encontros mais brilhantes da música universal e que resultou no clássico “Elis e Tom”.

A número com “Aguas de Março” é simplesmente assustador e quem está no teatro é transfigurado pela magia da cena.

Mas, como a coisa é pra acabar mesmo com todos os pagantes, ao apresentar o conceito e uma passagem do “Falso Brilhante”, o torpedo “Como nossos pais” não deixa pedra sobre pedra.


Já, para ilustrar o “Transversal do Tempo” - o espetáculo mais político da Elis, que expressava a idéia de “uma sinaleira que nunca abre”, montado corajosamente ainda durante a ditadura, - temos pela frente “Querelas do Brasil” e “Deus lhe pague”. Algo tipo “sem comentários”

Laila / Elis
Um momento íntimo com Mariano resulta numa das cenas mais lindas talvez já mostras no teatro nacional, com os bailarinos dançando com manequins ao som de “Dois pra lá dois prá cá”. Mágico e emocionante (novamente)

A reaproximação dela com Henfil, como não poderia deixar de ser, se dá através de “O bêbado e a equilibrista” - o Hino da Anistia - numa cena “para chorar”, o que inevitavelmente ocorre no palco e na platéia.

A poderosa “As aparências enganam” emendada com a bela letra de “ O trem azul” mostra o final do casamento com Mariano. E o Claudio Lins prova que não é apenas um corpinho bonito, soltando a voz e destruindo corações.

O final é catártico com uma colagem de falas da Elis apresentadas em forma de depoimento diretamente à platéia, que é seguida pela absurda “Aos nossos filhos”.

Sem mentira, o cara ao meu lado perdeu o controle de forma nada discreta e, sim, ... s-o-l-u-ç-a-v-a ... (que horror).

Eu, na minha fleuma britânica, deixei escorrer apenas uma lágrima elegante. Mentira, borrei o rímel todo ( e dei umas fungadas discretas, espero).

Redescobrir” encerra a noite num clima apoteótico,  e isto me lembrou que uma das acusações que o Saudades do Brasil” sofreu é de que era “muito Broadway” - sendo que o espetáculo encerrava exatamente com esta música.

Então vejam só que o críticado “final Broadway” do “Saudades” é retomado, bem Broadway mesmo, no final de “Elis a Musical”. Que ironia...

E o povo vai na onda e delira em ovação total

Fim.

-----------------------

... pausa...
-----------------------

De volta ao início

Voltando ao meu estado catatônico inicial, percebi que, num nivel pessoal, o que diferencia “Elis a Musical” de “Piaf” (por exemplo) é a contemporaneidade dos presentes no teatro em relação ao que está sendo apresentado no palco.

Posso ver uma peça sobre Piaf, Maria Callas, Billie Hollyday, etc, e  entender, digamos, os momentos históricos de cada história (sic), e assim fruir a noite.

Posso até ter algumas “músicas antigas” como referência da minha própria história; mas certamente não tenho a riqueza de referências de quem viveu (n)as épocas apresentadas

Já no caso de “Elis”, “Tim Maia” e outros, o que ocorre é uma relação da minha vida com as tais “músicas antigas”.  É impossível ouvir as canções e não viajar no tempo.

Isto faz muita diferença e é pavorosamente emocionante.

----------------------------

Elenco :

Seria maldade dizer que os melhores são fulano, sicrano e beltrano. Maldade e mentira, pois todos estão ótimos, mesmo em intervenções, digamos, minúsculas. Por exemplo, a garota que faz a Marilia Gabriela com apenas três frases faz o teatro explodir em gargalhadas, e o rapaz que faz o Paulo Francis tembém (infelizmente não sei o nome deles). Os papéis maiores estão em mãos de talentos irretocáveis, com destaque óbvio para Laila Garin.

Laila Garin :

Laila Garin
Bem, a pequena (em tamanho veja bem) tem uma presença “apenas magnética”.

Quando está em cena é impossível deixar de segui-la. Percebe-se que todo seu ferramental (corpo, voz, gestual) está concentrado para dar carne à personagem.

E a linda não se traveste de Elis, não a imita,  e sim recria-a, inventa-a e reinventa-a com coragem e humildade ímpares.

Nas primeiras canções fiquei com
mêdo tipo “.. será que ela alcança?”. E não é que a danada alcança mesmo?

Assim, mesmo sem estarmos ouvindo a voz original da imortal, chega a ser sinistro, pois logo estamos vendo Elis no palco.(..mêda total...).

Elis Vive :

Na década de 80, me lembro que Porto Alegre ficou pichada de “Elis Vive” durante algum tempo após sua morte. Aquilo de certa forma preenchia o vazio deixado em seus fâs. Depois as pichações pararam e muito foi esquecido.

Agora parece que estamos numa fase de “retomada” e mais coisas vêm por aí para saudar a memória de uma das melhores cantoras do mundo. “Elis, a Musical” certamente é parte deste momento e definitivamente merece todos os elogios que vêm recebendo.

Só espero que a turnê nacional, prometida para o segundo semestre de 2014, traga esta maravilha para Porto Alegre.

O bacana é que também está sendo prevista uma transmissão do musical via internet. Veja aqui.

Alguns Vídeos :







 

Sunday, November 17, 2013

(Autor : Iuri) Quem tem medo de Virginia Woolf ? - Teatro dos Quatro RJ

Zezé Polessa deu piti em cena. 

A certa altura da apresentação do clássico “Quem tem mêdo de Virginia Woolf?” ela parou o texto e disse “Assim não dá pra continuar”. 

O teatro silenciou geral. 

Ela então dirigiu-se a uma senhora na platéia : “Você está desde o inicio mexendo em papel de bala. O barulho me tira a concentração. Assim não dá. Ou você para de mexer ou se retira do teatro..... O que você vai fazer ? ... (tensão de espera).... A senhora responde : “Eu não tinha a intenção”. E a diva do palco responde : “Eu sei que não. A senhora pode colocar as balas na sua bolsa e deixá-las lá ou sair do teatro.... (pausa)..... Então, o que você vai fazer ?”. 
 
E o público bége também querendo saber como a “cena real” iria terminar 

Então a “abridora de balas”, pediu desculpas, e colocou todas suas delícias na bolsa. 

A diva agradeceu, respirou fundo, baixou a cabeça e voltou a incorporar Marta, um dos personagens imortais da história do teatro.

Sim, isto aconteceu na apresentação de “Quem tem medo...” que assisti no Teatro dos Quatro no RJ no dia 3 de Novembro. 

Foi constrangedor mas, ao mesmo tempo, coerente com muita coisa que tava rolando desde o incio da apresentação. Sim, as pessoas conversavam. Sim, celulares tocavam (e não pararam mesmo depois do “surto chique” da Zezé), Sim, as pessoas desembrulhavam guloseimas. E eu pensava  : “O que esta gente tá fazendo aqui?”.

Eu absolutamente não sou um espectador que diviniza o teatro, que acha que tudo que é mostrado em cena seja “arte”. Já vaiei, já xinguei, já debochei em cena aberta montagens canhestras, amadoras, ridículas.

Mas diante do texto primoroso do Edward Albee como as pessoas podem não se envolverem, não se entregarem? Será porque a peça é “longa” ? (mais de duas horas) . Será porque o texto é “difícil”, “pesado” e requer concentração e raciocínio da platéia? Será porque no embate travado no palco não se salva um personagem sequer? Todos são meio “feios, sujos e malvados”. Sabe-se lá.

O que eu sei é que “Quem tem medo..” é especialmente caro para mim por questões até familiares (os motivos obviamente não serão explicitados aqui). Só tinha visto o filme do Mike Nichols de 1966 (que é fantástico e traz interpretações matadoras de todo o elenco, com destaque óbvio para Elizabeth Taylor), e o meu sonho era ver uma montagem teatral do texto. Isto finalmente se concretizou naquela noite no RJ.

Então, mesmo incomodado com as “intervenções” da platéia, saí maravilhado com o que vi.

“Quem tem medo..”, mostra uma madrugada de bebedeiras e revelações envolvendo dois casais.

Um é George e Marta, ele professor de História, ela, filha do reitor da universidade em cujo campus moram.

Outro é Nick e Mel, casal recém-chegado ao local onde ele também vai trabalhar como professor.

Os veteranos George e Marta, chegando já meio calibrados de um jantar estilo oficial do campus, recebem em sua casa , a pedido do pai de Marta, o jovem casal para uma “pós-party” a fim de promoverem uma espécie de boas vindas.

Mas o que poderia ser uma “saideira light” se transforma num show de horrores com brigas, ataques, humilhações, revelações, traições, e “otras cositas más” que dilacera todos.

A “diversão” proporcionada pelos beligerantes George e Marta, com seus jogos e provocações mútuas, acaba arrastando o jovem e (nem tão) inocente casal para a mesma lama emocional na qual chafurdam.

No fim,como se diz, não sobra pedra sobre pedra. e a ruína humana é geral.

Zezé Polessa está impecável como a impiedosa, debochada e destemperada Marta,   brilhando numa interpretação sensual, carnal e intensa.

Ana Kutner (Mel) e Erom Cordeiro (Nick) dignificam a arte de atuar com desempenhos impecáveis..

Mas é Daniel Dantas quem, como se diz, “rouba o espetáculo. Seu George é nada mais nada menos que perfeito. Daniel consegue pintar / tocar de forma virtuosa todas as nuancias do professor naufragado numa armadilha de fracasso e frustração. Simplesmente impressionante.

Só espero que “Quem tem medo de Virginia Woolf?” saia em turnê pelo Brasil e pouse em Porto Alegre para eu ter novamente ter a oportunidade de me maravilhar com esta obra prima.

(Autora : Niara) O Rei Leão - O Musical

O Clico da Vida
Há alguns anos atrás, sendo uma fã dos filmes dos Estúdios Disney e apaixonada pelo filme “O Rei Leão”, comprei uma versão em DVD duplo, com o filme, novas músicas e o making off. 

Depois de curtir novamente essa maravilha, fui procurar os famosos “extras”.

De repente topei com o link “Musical da Brodway”, do qual havia ouvido falar, mas não possuía muitas informações. 

Tive a sorte de ter acesso à história da criação do Musical que, de um grande potencial, se tornou um enorme problema, pois como essa história seria passada para uma linguagem teatral sem perder a magia e a capacidade de envolvimento do público como tinha o filme?

Somente quando a Diretora e Artista Plástica Julie Taymor foi chamada para dirigir e desenvolver a “concepção artística” do espetáculo esse rico material pôde ser dramatizado ao vivo. 
 
Com soluções diversas para cada personagem, inspirando-se em técnicas teatrais, cenográficas e variados tipos de bonecos de diversas partes do mundo, ela trouxe ao palco um novo universo, com a savana africana viva, dançante, e a indumentária dos personagens permitindo a exposição necessária da interpretação dos atores.

 Naquele momento, assistir ao espetáculo parecia um sonho muito longínquo que guardei no coração. Quando tive a notícia de que o musical seria encenado em São Paulo, com atores brasileiros, vi o sonho chegar mais perto e nesse ano tive a imensa felicidade de compartilhar com meu irmão Iuri e meu amado cunhado Luciano esse momento mágico. Passei a noite da virada do meu aniversário assistindo ao Rei Leão.

Phindile Mkhise como Rafiky

O início já é um arrebatamento que leva crianças, artistas, informatas, arquitetos, todo ao mesmo patamar, vivenciando uma superprodução rica em detalhes que nos transporta a outro universo coroado pela interpretação primorosa de todos os atores e bailarinos. Mesmo se tratando de “leões”, a história que ali se passa é total e absolutamente humana, e isso é a base do fascínio que o filme e o musical tem mostrado por todo esse tempo.

Em uma história clássica como é a do Rei Leão, cujo argumento principal foi inspirado em Hamlet, o público tem que se apaixonar pelo personagem principal, a figura do herói, no caso, Simba.
 
O herói nesse caso representa todas as nossas fraquezas, inseguranças, tristezas e sensação de solidão diante da realidade que se coloca de maneira fria e, aparentemente, impossível de ser suplantada. O público então tem que se identificar com o personagem principal, tem que se apaixonar, sofrer, cair e criar coragem com ele. Isso não se consegue só com uma superprodução irretocável, como é o caso do Rei Leão. A interpretação dos dois atores que fazem o papel de Simba é fundamental nessa viagem na qual o acompanhamos desde o nascimento até a maturidade. 
 
Inicialmente Simba é apresentado como um bebê na Pedra do Rei em uma cena extremamente marcante, embalada pela bela canção “O Ciclo da Vida” interpretada pela atriz sul-africana Phindile Mkhise, que interpreta o personagem Babuíno Shaman Rafiky.

Mufasa e Simba
O tempo passa e o Simba criança é interpretado por Matheus Braga com um talento enorme e raro que nos torna fãs imediatos. Ele nos faz sentir a brincadeira cantando “Mal Posso Esperar para Ser Rei” com técnica apurada que só é suplantada pela alegria e a inocência que ele transmite. A inocência fica clara porque ele não entende que, para ser Rei, o pai que ele respeita, ama e tem como exemplo, deve morrer. 
 
Na morte de Mufasa, apesar de tudo o que já fora apresentado até então surge a expectativa e o susto do tipo “como eles fizeram isso?!!!”, porque se trata do estouro de uma manda de antílopes em cima do palco!!!!! 
 
Novamente é incrível como Matheus Braga, esse jovem grande talento passa toda a fragilidade da criança que se vê perdida diante de um momento tão triste e cruel. Ele consegue nos fazer sentir a sensação de culpa, tristeza e abandono, que só tem alívio na amizade inesperada com Pumba e Timão, terminando o primeiro ato com a célebre Hakuna Matata e tentando deixar o passado para trás, como se não tivesse existido. Novamente o jovem ator mostra uma força de renovação se adaptando à nova condição e se despedindo de um público totalmente cativado por ele.
Matheus Braga como Simba

Tiago Barbosa,o Simba adulto, é perfeito na interpretação, voz rara e também beleza, trazendo todas as dificuldades de um jovem procurando seu lugar na vida. Simba cresce tentando esquecer um passado traumático e vivendo de maneira despreocupada, um dia de cada vez.Tiago passa essa inquietação interna para o público com uma movimentação inspirada em movimentos felinos e posições de luta africana, trazendo inclusive, a brasileira Capoeira. Com o reencontro com Rafiky,Simba acaba tendo que tomar atitudes adultas que são exigidas dele, mesmo sem se sentir preparado. Quem não se identifica com isso? 
Tiago Barbosa como Simba
 
Simba encontra forças em um dos momentos mais emocionantes da história quando o Espírito de Mufasa volta e exige que ele se lembre de quem é na verdade e assuma seu lugar superando todos os medos. Nesse momento em especial a técnica teatral e a interpretação do ator se casam e trazem ao espectador novamente a sensação “como eles fizeram isso?!!!”.  Daí Tiago mostra cantando com vigor e expressão física a força e a coragem para resgatar seu passado.

Agora, para que todo o espetáculo tome forma, por mais incoerente que possa parecer, temos que nos apaixonar também pelo vilão. E Osvaldo Mil traduz todas as emoções humanas que temos e tentamos bravamente evitar que aflorem. Scar, como um típico viláo shakespeareano  tem sua humanidade distorcida revelando fraqueza de caráter, inveja, covardia e cobiça, que são traduzidas por um figurino maravilhoso inspirado em Samurais.

Scar enfrenta Mufasa
Sua máscara deformada, e sua interpretação que mescla momentos de maldade com humor conseguem transformar um ser covarde e desprezível, em uma figura absolutamente fascinante. O “Demônio da Perversidade”, como diria Edgar Allan Poe.
 
Scar
Essa história clássica tem sido contada por diferentes autores de diferentes formas ao longo do tempo. Mesmo conhecendo o filme, tendo lido sobre o espetáculo, ter durante minha vida inteira contato com a arte através da prática do desenho e da pintura, não estava nada preparada para o que iria vivenciar. 

Todas as pessoas deveriam ter acesso a essa celebração à arte, à música, à dramaticidade dos atores e aos efeitos visuais inacreditáveis, que nos levam a uma emoção tão intensa que fica, mesmo com todo o carinho dedicado a esse post, impossível de descrever.
 

Niara e Iuri

Bjo Iuri e Luciano, obrigada por compartilharem este momento comigo.

Iuri e Luciano

(Autor : Iuri) O Rei do Camarote - Receita de Felicidade

Exibicionismo e ostentação ( R$ 50.0000,00 gastos em uma balada) .

Tudo jogado na cara de um país onde existem famlias que dependem de programa de bolsa-auxílio para comer. 

O autor desta façanha é o empresário Alexander Augusto de Almeida, de 39 anos, que, numa inspiração bíblica, definiu os “Dez Mandamentos do Rei do Camarote”. Ou seja, quais são as regras para “brilhar” na noite (e ser feliz).

Numa mistura patética de megalomania, exposição e asnice, Alexander lista “o que as pessoas devem fazer para ser invejadas”, como se isto fosse um bom sentimento para ser alvo.

É claro que se entende que ele vive numa sociedade onde a aparência, a vitrine, o superficial e o vazio é sinônimo de felicidade. Nesta – como todo mundo já sabe -, o que importa não é quem você é, e sim o que você tem.

Então, meu lindo, dá-lhe frustração por você (que é pobre) não ter os objetos - de grife- dos seus sonhos. 

Sim, lhe falta tudo aquilo que faz você cobiçar a situação, o status de quem pode tê-los. 

Então você -totalmente frustrado – mira com olhos desesperançados todo o luxo e riqueza do outro (cuspida na sua cara) e, ao invés de se indignar com tamanha pavonice, lamenta  :  "nunca vou ter a vida glamorosa deste cara”,  “nunca vou ter este carrão”,  “nunca vou ter esta mulherada",  “nunca vou ser o “Rei do Camarote””, “nunca vou ser tão .... f-e-l-i-z...”

Que merda, hem, meu filho? 

Veja que, de acordo com os mandamentos do Rei, seu barzinho com amigos, suas reuniões com a família, seu passeios, seu esporte, seu lazer, seu hobby, seus filhos – e tudo mais que o diverte, o emociona e lhe dá prazer– não vale nada se você não estiver montado em grifes, se você não for dono de possantes carrões, se não tiver mulheres gostosas a seu pés, se não tiver serviçais ao alcance das suas gordas gorjetas, se você não tiver um cortejo de amigos o seguindo como cachorrinhos.

O que você tem é lixo, o que você usufrui não vale nada.

O que realmente “vale para você valer alguma coisa” (sic) é a mise-en-cene, a aparência, a pirotecnia, o estardalhaço proporcionados pela grana.

Resumido, seu pobre, o que vale, o que importa para você “ser alguém” é quanta inveja, despeito e insônia que você provoca nos outros.

Portanto, vá tratar de endividar-se e ser feliz.





-----------------------------

Links :


--------------------------------

Vídeos :

Vídeo Original : O Rei do Camarote


Video versão Laz Bibaz from Vizcaya : Beesha pobre que quer causar (dar close) na balada


Saturday, November 16, 2013

(Autor : Iuri) Musical - O Rei Leão (Teatro Renault São Paulo)

Em meio aos borbotões de emoções que foi assistir O Rei Leão no Teatro Renault ,uma particularmente resumiu para mim tudo o que estava sendo entregue no palco. De repente pensei : “é triste que isto só pode ser visto por poucas pessoas”.

Realmente, o espetáculo é tão grandioso, tão impressionante - uma mistura singular e primorosa de técnica e talento - que deveria estar ao alcance de todos, mesmo os fora de Sampa.

A coisa é estonteante.

Logo de início, na clássica “Ciclo da Vida”, o povo é arrebatado, com todo o teatro sendo tomado pelos animais que vêm saudar o nascimento de Simba.

É uma gritaria só.
O Ciclo da Vida

Imediatamente os presentes são nivelados pela capacidade de sonhar, de se encantar e emocionar com a arte mais pura e simples; aquela que fala direto à (perdão pelo clichê óbvio) “criança interior”.

Não tem como não se render.

A história - que todo mundo sabe qual é  /  e que pode ser lida aqui -, é universal nos seus temas.

Poder, inveja, covardia, culpa, bravura e coragem surgem a todo momento.

O trajetória de Simba vai do horror ao triunfo e possui todos os elementos que definem um clássico. E o que se vê no palco é uma montagem perfeita que dá aos diálogos e canções uma sustentação primorosa.

Os atores são magníficos. Matheus Braga (Simba Criança), Tiago Barbosa (Simba Adulto),Osvaldo Mil (Scar), Phindile Mkhize (Rafiki ),Josi Lopes (Nala adulta) ,Ronaldo Reis (Timão), Marcelo Klabin (Pumba), César Mello (Mufasa) dão um show.

Pra mim os melhores foram Matheus Braga, Tiago Barbosa e Osvaldo Mil.

Mufasa em cena
Matheus é, como se diz, um “guri de talento”. Impressionante como seu pequeno corpo consegue transmitir força, energia e vibração. Sua voz é abençoada e ele detona em cena, indo do garoto inconsequente e auto-centrado ao trauma do parricídio.

Tiago Barbosa é um absurdo e domina o palco a cada entrada. Voz, corpo e emoção num conjugado de talentos raro. É um privilégio termos um ator do seu nível entre nós.

Osvaldo Mil, faz um Scar nada menos que perfeito. Invejoso, malvado, traiçoeiro e covarde, é a própria expressão do ambicioso que não mede os atos para atingir seus objetivos.

As musicas são lindas cumprindo seu papel de alegrar, encantar e emocionar (só acho que as letras poderiam ter sido preservadas iguais às do filme por uma questão de empatia imediata).

Os bonecos e adereços estão além do elogio. Só vendo para acreditar (e mesmo assim a coisa é “inacreditável”),

De resto, coreografias dinâmicas e um corpo de baile impressionante complementam a grandiosidade de montagem.
Mufasa e Scar

É claro, sabe-se (e tem muito ranzinza de plantão que usa isto como argumento para diminuir os grandes musicais da Broadway) que tudo é milimetricamente estruturado, nada pode sair do formato.

Praticamente não há espaço para “criar”. Tudo tem que seguir a cartilha internacional das montagens. Mas, pergunta-se, qual é o problema ? Afinal, a “fórmula” é elaborada pelos maiores talentos da área no mundo. Tudo é erguido de forma a oferecer um show de padrão (outro clichê) “internacional”.

Então, meu filho, o lance é , repetindo, “deixar aflorar a criança interior” e se deixar tomar pelo encanto do magnífico “O Rei Leão”, reservado apenas para quem ainda preserva o dom de sonhar.

-------------------------------

Paginas :

Pagina oficial da montagem brasileira : O Rei Leao o Musical

Boa reportagem sobre a montagem (em inglês) : Black Women From Brazil  

Veja São Paulo :  O Rei Leão Musical 

Wikipedia - O Rei Leão Musical

-----------------------------------

Vídeos :


Partes do Musical



Musica "Estão em ti"



Reportagem sobre a montagem



-----------------------------------

Fotos do Programa :








 
Mal posso esperar para ser Rei

Monday, November 11, 2013

(Autor : Iuri) Ramiro - Ônibus Linha 584 / Rio de Janeiro

Passei alguns dias no Rio de Janeiro semana passada a trabalho. 

Fiquei hospedado em Copacabana e tinha que me deslocar diariamente ou para o Botafogo ou para o Cosme Velho.  Para isto utilizei o transporte publico. Para o Botafogo utilizei o metrô, e para o Cosme Velho utilizei ônibus urbano. 

Aí é que começa o choque. 

Ao utilizar as linhas 583 (para ir ao Cosme Velho) e a linha 584 (para retornar a Copa), tive o desprazer de testemunhar a absoluta falta de educação dos cobradores destas linhas.

Em uma viagem,  mesmo sabendo mais ou menos me localizar,  solicitei ao cobrador que me indicasse a parada mais próxima  do meu destino. Ele me olhou com má vontade e resmungou algo tipo “hum, hum” , que eu (ingenuamente) deduzi  como “ok”.   

O fulano tinha uma cara de má vontade,  uma cara de contrariedade que deixava claro que odiava estar ali trabalhando.  Mesmo assim acreditei que seria atendido.  Porem, a determinada altura da viagem, vi meu destino passar de relance, situação a qual me fez pular e “puxar a cordinha”.

O ônibus avançou mais uma quatro quadras (enormes) até a próxima  parada – neste meio tempo me dirigi até a porta, tropeçando e pedindo desculpas a quem estava em pé no corredor ( o que me fez, é claro,  ser alvo de  alguns palavrões).   Imagina se eu não estivesse ligado e não tivesse visto meu destino. Até onde eu viajaria sem que o cara se lembrasse de me avisar ? Fiquei  indignado e amaldiçoei o FDP.

Em outra viagem (no 583)  testemunhei coisa pior, porém não foi comigo. Vi um passageiro perguntar algo à cobradora e ela responder (ou resmungar) com a cara virada ao contrário. O  rapaz insistiu e ela continuou sem  a virar o rosto.  Então o cara ficou puto e xingou-a, pedindo que, pelo menos  ela olhasse para ele enquanto falava.  O que ela fez com desdém, tipo “foda-se”.  Ou seja, uma mulherzinha, como se diz, "totalmente desagradável".

Diante destas “pérolas”, rapidamente cheguei ao juízo de que os “cobradores” do RJ eram uns, com o perdão da palavra (afinal os animais não merecem isto),  “cavalos”. Ou seja, uns grossos, uns estúpidos, mal educados. Um bando de  fodidos  que odeiam  a profissão.

Mas eis que, no meu último dia na cidade maravilhosa, mais uma vez peguei o 584 para voltar a Copa e, realmente,  como se diz aqui no sul,  “me caiu os butiá” (traduzindo : fiquei pasmo, surpreso, chocado)   com o cobrador daquele horário.   

Por casualidade sentei próximo a ele, e acabei testemunhando algo mágico : qualquer um que embarcava era recebido  com um solar e belo “boa tarde”. Verdade, qualquer um.  E a saudação continuava com frases do tipo “tenha uma boa viagem” , “seja bem vindo”, etc.  

Aquilo me encantou de cara. 

Fiquei prestando a atenção e vi, durante a viagem,  pessoas subirem no lotação com ar abatido, desanimado, brochado   e mudarem a expressão ao  ouvir a saudação. 

Também vi outras, com cara de poucos amigos, que nem se davam o trabalho de responder, porém isto não tirava  o ânimo do cobrador, que continuava a saudar todos.. 

Vi sorrisos surgirem em algumas pessoas que entravam e reconheciam o rapaz.  Frases do tipo “Que tempo que eu não te via”, “Melhor agora que tu apareceu”, “Tava com saudades” e outras,  eram trocadas de lado a lado;  o que mostrava o quanto ele é querido por quem o conhece. 

Mas o melhor estava por vir.  

Alguns turistas pediam referência do local  de onde deveriam descer para ir ao Pão de Açucar. E ele deixava todos tranquilos “não se preocupem que eu aviso”.  Dito e feito. Quando chegou na parada próxima ao Rio Shopping ele anunciou  em voz alta (em português, inglês e espanhol !!!l) que era ali o local onde o povo devia desembarcar para pegar outro "bus" para o "Sugar Loaf", num “ênrrolêichon” fantástico.

Minha parada em Copa estava próxima. Rapidamente pensei : “nós somos pródigos em xingar e parcos em elogiar. Eis aqui um cara que merece elogio”. 

Decidido,  levantei  e me aproximei. “Como é teu nome ?”, perguntei. “Ramiro”, ele respondeu.  “Muito bem, Ramiro, eu quero te dar os parabéns pelo teu jeito.  Parabéns pela tua educação. Tenho um blog e vou postar um texto sobre ti. Acesse daqui a uns cinco dias que o texto vai estar lá”.   

Vi seus olhos umedecerem (e os meus também). Ele disse apenas : “Obrigado... obrigado”.

Logo desci do ônibus.   

Estava meio abobado.  Algo tinha mudado. 

Aquele breve trajeto tinha engrandecido a tarde de sexta-feira.   

Fui tomado por uma sensação de agradecimento por ter tido a oportunidade de testemunhar  o comportamento fascinante  do Ramiro.  Agradecer por conhecer sua educação, simplicidade,  disposição e  carisma.

O que testemunhei naquele ônibus redimiu toda uma classe que eu tinha julgado péssima.

É praticamente impossível que nos vejamos novamente, mas deixo registrado aqui  que o Ramiro está no mundo para fazer a diferença. 

Ramiro é alguém que enxerga sua profissão, não como um fardo e sim  como um meio de interagir e tocar a emoção das pessoas.

Ramiro sem dúvida é um artista, um talento capaz de iluminar e alegrar o dia  de quem tem o privilégio de viajar com ele na linha 584.

Parabéns mais uma vez, guri.

Saúde e felicidade pra ti.

-------------------------

Post Atualizado em 14/11/2013 


Vejam que maravilha : recebi um email do Thiago (filho do Ramiro) comentando o post.


Reproduzo abaixo :
 
"Olá, desde já agradecemos pelo carinho e elogios...
Meu Pai agradece pelas palavras e falou que se não fosse por vocês, o trabalho dele seria monótono.
Ele já recebeu elogios de outras pessoas e já fizeram entrevistas com ele.
Vou lhe enviar os Links para você dar uma olhada.
Entrevista para o Canal Educação

http://www.mobilidadetv.com.br/canal-educacao?start=27&videoid=45506133&gallerylist=1#youtubegallery

Entrevista para a Resvista Indo e Vindo " Entrevista da página 27 a 31 "

http://www.revistaindoevindo.com.br/flip/11/
Já teve outras só que não as encontrei.
Desde Já Agradecemos o Carinho e o Respeito.
Tenha um excelente dia na doce Paz.

Boas Energias.

Thi Ferques."
------------------------------
Reproduzo aqui o conteudo da Revista "Indo e Vindo".  

Vejam que o que registrei é absolutamente verdade.


POST ATUALIZADO EM 29/11/2013

REPORTAGEM COM O RAMILO NA GLOBO RJ