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Tuesday, August 12, 2014

Filme – Linha de Frente (Homefront)

imagesUm filme que, a princípio, seria mais um da linha “Jason Statham”, sou seja muita pancadaria e pouco cérebro.

Só que não.

Com produção roteiro do Sylvester Stallone, (baseado num livro de Chuck Logan, um autor meio sazonal), “Linha de Frente” revela-se acima da média com uma história com um toque original e personagens interessantes.

Senão vejamos.

Phil Broker (Statham) é um ex-agente da DEA que entra em crise após uma ação contra uma gangue de motoqueiros que deu terrivelmente errado e custou a vida do filho do chefão (que jura vingança, é claro). Para completar ele perde a esposa e então decide se afastar da vida turbulenta e violenta da metrópole. Com sua filha Maddy de 9 anos (Izabela Vidovic) parte para uma pequena cidade esperando levar uma existência tranquila perto da natureza e das coisas simples. Só que a tal cidadezinha bucólica na verdade esconde um antro de viciados e marginalidade que acabam jogando o tira num espiral de violência insuspeitado.

Dito assim parece que a coisa é simples, direta e decerebrada.

Só que não (again).

Com um toque de “Fargo” (mas puxado pro Rambo) , o filme vai na linha dos “caipiras ignorantes” e a consequência dos seus modos brutos e sonhos de “se dar bem”, o que na verdadade só da merda, of course.

O legal do “Homefront” é que vários personagens não são lineares, do tipo ou tu é do bem ou tu é do mal, o que enriquece a trama e modifica a percepção do espectador em vários momentos. E os atores respondem bem. Todos estão ótimos. images

No desenrolar da história fica evidente que o livro de origem oferece muito mais, pois os “characters” (principalmente os marginais) são consistentes e bem desenhados . Pena que o filme – dentro do formato proposto – não tenha espaço para desenvolver o possível potencial do livro.

Mas, de qualquer forma, o resultado do filme é muito bom.

Abaixo, entrevista (em minha tradução livre) com Chuck Logan, o autor de Homefront

Link original aqui

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Chuck Logan é um autor veterano, que já tem nove livros pulicados, a maioria deles dedicada às aventuras de Phil Broker, um policial disfarçado da mais longínqua e nevada Minnesota. A força da justiça e o pai devotado está prestes a receber sua primeira adaptação para a tela grande com "Homefront", um filme de ação com script de Sylvester Stallone e estrelado por Jason Statham como Broker. O elenco também inclui Winona Ryder, Kate Bosworth e James Franco. Recentemente, o crítico de Blu-ray.com Brian Orndorf teve a oportunidade de sentar-se com Logan para discutir sua experiência com "Homefront" e seus planos futuros para publicação enquanto a revolução do e-book cresce.

 

chuck logan and jason sthatan

Chuck Logan e Jason Sthatam

P. "Homefront" foi publicado originalmente em 2006. Quando foi sua primeira aproximação com a idéia de transformar o romance em um filme?

Logan. A opção original foi em 2006, o que, eventualmente, expirou. A próxima foi em 2008, que expirou também. E então esta recente recente surgiu no ano passado, muito por acaso no meu caso.

P . O quão perto chegou do filme ser feito nessas duas primeiras vezes?

Logan. Eu não penso “muito perto”. Houve várias outras opções discutidas sobre outros livros e eu meio que fiquei cansado com a possibilidade de isso acontecer. Neste caso Stallone é um cara do tipo completo. Ele pode dirigir, produzir, escrever, atuar, e em muitos casos, é alguém que as pessoas enxergam como opção quando estão à procura de elenco, produtor e dinheiro. O fato de "Os Mercenários" ter sido um sucesso e os "Rambo´s" e "Rocky´s" também, lhe dá poder, mais poder ainda com a Millennium Films. E ele quis fazer o filme mas seu tipo (físico) não encaixava. E assim ele chamou Statham.

P. Qual foi sua reação quando soube que Stallone estava interessado?

Logan. Ele sempre foi interessado, mas quando ouvi que eles estavam fazendo o filme, entrei em êxtase. Um ano e meio atrás, eu praticamente perecera na espiral da morte do escritor midlist (nt : escritor que não é best-seller mas que justifica publicação – maiores informações aqui) . E agora Harper Collins está reeditando o livro, e eu estou trabalhando numa prequel (história prévia) da série. Eu gostaria de fazer um livro sobre a filha como adolescente, fazer dela a personagem principal. Então sou apenas um cara feliz.

P. Você preferiria que produtores começassem do princípio (da série) ?

Logan. Você pode lidar com os fatos do que está acontecendo. É difícil especular ou adivinhar este processo (de como o filme está sendo feito). Mas as chances são astronômicas que isto aconteça quando se sabe que um filme está sendo feito. Ainda mais em um um filme com bom orçamento e com algum poder de estrela. Eu estou muito satisfeito com o que está acontecendo, e, pelo que ouvi (eu não vi o filme), dizem que estão fazendo um bom trabalho. Muitas vezes as pessoas se idenficam com Jason Statham em posters onde ele está apontando armas, mas, neste caso (em Homefront) , ele está abraçando uma criança. Espero que este idéia frutifique. Considerando que muita coisa mudou do romance para o filme, a regra de ouro da adaptação é : " eles permanecem fiéis ao espírito da história?" . Na caso trata-se da força de um pai, e eles mantiveram isso, e todo o cenário por trás.

P. Quanto a este ponto (o cenário), a história foi transportada do Norte de Minnesota para a Louisiana. Como é que você aceita isso?

Logan. O que eu aprendi sobre o aparelho cultural norte-americano é que, quando o seu livro é lançado no universo paralelo de Hollywood, nem todos os personagens, nomes e locais o seguem. Assim , o meu desgrenhado policial de Minnesota é agora um britânico careca na Louisiana. O personagem principal do livro, a esposa, está totalmente fora do jogo. O que eu vou dizer: "Não, não vamos fazer este filme, porque eu quero total controle artístico?" Acho que eu poderia ter dito isso, mas não fiz.

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P. Stallone tem reputação de alguém que procura um monte de entrada para seus scripts. Há uma piada que diz que seu jardineiro merece crédito por escrever "Rambo" e "Rocky Balboa". Ele lhe procurou durante o processo de desenvolvimento do roteiro ?

Logan. Falei com ele no ano passado sobre um assunto diferente, sobre escrita de argumentos, e toda a vez que falávamos dei-lhe alguns toques sobre "Homefront". Então eles mudaram todo o quadro, rapidamente. Houve uma entrevista com Gary Fleder, o diretor, e Fleder disse que ele e Stallone queriam para Statham o mesmo rumo de Stallone em "Copland", onde ele fez um papel mais dramático, com 50 quilos a mais ( eu acho que ele se deu mal neste filme pois o personagem não condizia com o que o publico esperava dele). E eles (Stallone e Fleder) criaram uma mistura interessante de estrelas, como Franco, que foi uma surpresa. E ouvi que Kate Bosworth tem realmente uma bela atuação neste filme. E Winona Ryder. Então você está atraindo interesses fora do usual "vamos chutar e socar e quebrar os ossos" , típico do gênero. Isso é o que é interessante sobre o filme

P. Alguém da produção teve alguma interação com você? Statham lhe procurou para buscar algumas dicas ?

Logan. Não, nada disso. Acho que eu poderia ter ido até Louisiana, mas a menos que lhe convidem parece tipo uma pressão, como pressionar seu nariz contra o vidro (para espiar). O único feedback verdadeiro até agora é o que leio em vários blogs por aí. Você sabe, a internet é uma espécie de microcosmo da cultura, um bar de fronteira onde não se limita idade para beber, e onde você lê de tudo, e cá e lá vi alguns comentários bem interessantes. O USA Today fez uma entrevista sobre o filme em rede nacional. O que eles disseram foi que Statham estava tentando algo diferente. E se você ver o que ele fez em "Redenção", percebe-se que ele está buscando um papel dramático mais complexo, com mais camadas. O que eu acho bom.

P. Você mencionou ter falado com Stallone sobre roteiros. Você tem algum interesse em prosseguir nessa linha de negócio ?

Logan. Eu estava lançando outra história, outro livro, e há mais dois livros mencionados no contrato como possíveis sequências. Mas isso é especulação.

P. Voce se interessa em ligar-se à maquina Hollywoodiana ?

Logan. Não. Há uma citação famosa, não sei se de Fitzgerald ou Hemingway, que diz : "Você vai até a borda e joga o livro, e eles jogam o dinheiro de volta, e você corre como louco." Estou curioso. Estou ansioso para ir a uma estréia posando de garoto do campo entre as pessoas bonitas. Para mim será um campo de pesquisa

P. Tem planos para o Broker ? Voce mencionou uma prequel (história prévia).

Logan. Por causa do filme, o meu editor e eu estamos conversando novamente. A única coisa lógica a fazer, uma vez que você tem uma estrela de cinema e cartazes de publicidade, é escrever um livro chamado "Broker", e torná-lo uma prévia onde o herói é um cara mais novo. Vai ser confuso na cronologia dos livros atuais, onde Broker está prestes a se candidatar ao Medicare. No filme ele é totalmente diferente. A maneira mais fácil é voltar para quando ele era jovem, solteiro, e como ele chegou a ser um policial disfarçado, ou algo assim ..

P. Se fizerem outro filme com sua obra, lhe interessa ter mais controle ? Ou voce prefere os bastidores ?

Logan. Tenho certeza de que há um milhão de histórias sobre caras brilhantes que vão cheio de planos para Hollywood e acabam decepcionados. Penso que estou muito confortável onde estou agora. Eu posso continuar a escrever romances, e eles podem fazer o que quiserem com eles.

P. Fora “Broker” o que mais está em seus planos agora ?

Logan. Logo após o lançamento do filme e eles reeditarem "Homefront", vou lançar um e-book chamado "Fallen Angel". Tenho vários livros que não pude publicar antes, e agora o mundo mudou com o aumento da edição eletrônica. Planejo reprisar obras antigas, reescrevêndo-as, republicando-as como e-books. Eu gostaria de fazer um livro sobre a filha como protagonista em uma outra história, mas eu não sei onde que acabaria. Estou muito animado

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Elenco :

Jason Statham ... Phil Broker
James Franco ... Morgan 'Gator' Bodine
Kate Bosworth ... Cassie Bodine Klum
Marcus Hester ... Jimmy Klum
Clancy Brown ... Sheriff Keith Rodrigue
Winona Ryder ... Sheryl Marie Mott
Omar Benson Miller ... Teedo
Rachelle Lefevre ...Susan Hetch

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Trailer abaixo

Sunday, November 24, 2013

(Autora : Niara) Bjork

Bjork e Niara
Nesses últimos dias passei por um tratamento complicado nos olhos e ainda terei duas cirurgias pela frente. Claro que isso me deixa mais sensível do normal.

Esse preâmbulo é somente para contextualizar a verdadeira história que quero tratar nesse post. Na verdade o assunto é outro, mais singelo, mais puro.

No dia 16 de novembro, estava em casa repousando e tentando assistir a televisão. Estava, como de hábito, recostada no sofá quando senti um leve toque no meu ombro. Era minha gata Bjork avisando que estava ali. Era como se ela dissesse "você não está sozinha mamãe, estou aqui contigo, te fazendo companhia"

Eu estava com o celular à mão e quis tirar uma foto daquele momento. Quem conhece gatos sabe que tirar uma foto dessas é praticamente impossível, pois eles mudam de ação de forma muito rápida. Mas nesse dia não, ela permaneceu fazendo carinho com o focinho o tempo suficiente para que eu pudesse tirar a tão desejada e rara foto.

Postei a foto no Facebook e uma coisa inédita aconteceu : tive 37 curtir. Talvez possa parecer pouco, mas além do número, o que me surpreendeu foi a manifestação de amigos que nunca antes haviam curtido minhas fotos. E isso aconteceu de forma muito rápida também.

Comecei a pensar no motivo pelo qual essa foto tinha se tornado tão especial. A beleza da gata siamesa? O inusitado do tipo de foto sendo uma gata a personagem principal? O carinho demonstrado?

Talvez contando a trajetória da minha relação com a Bjork, o motivo fique mais claro :

Ela não foi minha desde pequena. Antes disso foi comprada por amigos e minha sobrinha Ana escolheu seu nome. Quando soube, pensei, sendo também fã dessa cantora : “porque não pensei nisso antes? Que nome legal!”

Durante algum tempo recebi notícias de longe e fiquei sabendo que ela tinha dado à luz a seis gatinhos, estava muito magra e que em um determinado dia tinha chegado a desmaiar.

Uma bela noite, eu, meu irmão Iuri e meu cunhado Luciano fomos convidados pra jantar na casa de nossa sobrinha Ana e, para nossa surpresa, nossos amigos haviam deixado a Bjork na casa dela, pois estavam viajando e pensavam na possibilidade de doar a gatinha.

Quando vimos aquela gata com extrema magreza, eu e meu cunhado conspiramos para levá-la para minha casa, pois decidi na hora adotá-la. Pegamos uma toalha de nossa sobrinha, enrolamos e sequestramos minha nova filha levando-a para meu apartamento. Pedi à Ana que avisasse aos nossos amigos o acontecido.

Em casa, os primeiros dias foram uma tragédia. Minhas gatas mais velhas e maiores batiam na nova irmã e eu vivia apartando as brigas. Por medo de banho, ela não entrava no banheiro onde fica a caixa de areia e, para meu horror,  fez necessidades em um lugar que eu não descobria. Minha família foi contra, disse que minha casa estava inabitável - brigas, uma confusão total.

Com o tempo as coisas se ajeitaram, ela aprendeu a utilizar a caixa de areia, as brigas felinas reduziram  e ela foi se recuperando com a comida especial que eu passei a preparar para que ela (fígado de frango grelhado). 
Bjork

Com o tempo ela tornou-se  uma gata realmente linda, chamando a atenção de quem me visitava, chegando ao ponto de me pedirem ela de presente.

Ela começou a se relacionar comigo de forma diferente das outras, pois sempre foi mais brincalhona. Adora até hoje que eu jogue papel de bombom para ir buscar correndo e trazer de volta, como se fosse um cachorro. Quando vou dormir, corre para a cama para brincar de se esconder sob as cobertas.

Nos últimos tempos, entretanto, seu comportamento se modificou. Ela, que sempre dormiu nos meus pés ou fora da cama,  em virtude dos lugares mais nobres (ao lado do meu travesseiro e em cima de mim) serem ocupados pelas gatas mais velhas - a malvada Nicky e a malhada Jackye Brown -, começou a brigar para mudar a posição. Eu disse aos meus familiares e amigos: "A Bi (apelido carinhoso) perdeu o amor à vida! Desafiou a hieararquia e começou a brigar com a Nicky para poder deitar ao meu lado!"

E tanto incomodou que conseguiu. Hoje ela dorme ao lado do meu travesseiro em cima da minha mão, de preferência. Eu não imaginava no início de nossa relação que essa iria evoluir para um amor tão profundo, tanto  que lhe deu coragem de desafiar as irmãs que têm o dobro do tamanho dela. E principalmente a Nicky (Nicole Kidman Palma), que é arisca e malvada!

Dei-me conta então que a atração da foto citada no início da história, e que é o motivo desse post, é a demonstração de um amor construído de forma conturbada, inesperada, com valentia e coragem por parte dela.

A foto conta toda essa história, mesmo que as pessoas não a conheçam. O que aparece ali, não é um tipo de sentimento que nasce de uma hora para outra e penso que quem viu e curtiu, sentiu isso,  mesmo que inconscientemente,  pela expressão sua e a minha alegria em receber esse amor puro no momento de fragilidade pelo qual estou passando, apesar do apoio da família e dos amigos queridos.

Bjork Palma é uma companheira como poucas e hoje sinto que, apesar dos tropeços iniciais, foi a decisão mais correta que eu poderia ter tido.

Dedico esse Post a todos os amantes de felinos que sabem reconhecer nessas criaturas nobres e independentes a  felicidade que podem trazer às suas vidas.

(Autor : Iuri) Elis a Musical - Teatro Oi Casa Grande /RJ

É difícil descrever o que senti ao assistir “Elis a Musical”.

Por um lado testemunhei um conjunto de talentos excepcionais unidos para apresentar um dos melhores espetáculos que já vi. Por outro assisti a um filme da minha vida embalado pelas canções apresentadas.

Não teve como não me emocionar aos cântaros.

O resultado foi que saí do espetáculo zonzo, abobado, não conseguindo assimilar bem o que tinha acabado de vivenciar naquelas três horas  no Casa Grande.

Voltei ao hotel e demorei a pegar no sono.

O Musical :

A peça inicia por volta do final da década de 50 com Elis (Laila Garin) garota ainda em Porto Alegre.

Vemos sua “travada” em uma apresentação no programa “Clube do Guri”, mas, logo em seguida ela dá a volta por cima e manda ver, conquistando o sucesso na capital dos Pampas.

Eu, como “gaúcho natural”, estranhei o sotaque forçado dos atores (que acaba ficando hilário), porém o inaceitável foi o inaceitável (sic) “erro” de conjugar perfeitamente o verbo na segunda pessoa, tipo “Tu vaiS, guria”, quando todo mundo sabe que o gaúcho fala “Tu vaI, guria”. De qualquer modo o que achei legal foi ouvir falar do Bairro IAPI e, é claro, da minha querida Porto Alegre. Muito bom.

Mas, tudo bem. Felizmente o “gauchês” é logo abandonado assim que Elis é convidada por Carlos Imperial para ir ao RJ gravar  alguns discos no “estilo Cely Campelo” (a sensação musical dos jovens de então).

Neste formato pré-programado para o sucesso, a garota grava três discos (a peça fala só gravadora CBS, mas Elis grava seu primeiro LP, “Viva a Brotolândia” pela Continental), que resultam em nada.

Porém estes “fracassos” não intimidam a guria e, na data (talvez mentirosa) de 31 de Março de 1964 (data do golpe militar), Elis chega com o pai, Romeu ao Rj para assinar um contrato de gravação com a Philips.

Na cidade maravilhosa ela acaba conhecendo a noite do Beco das Garrafas, local em Copacabana com várias boates (algumas tipo inferninho de má reputação). Os espaços ali eram mínimos, mas rolava muita criatividade e bom gosto musical.

Ronaldo Bôscoli (Felipe Camargo) e Míéle (Caike Luna), famosos bambambâns na noite carioca produziam e dirigiam shows em algumas das casas noturnas do Beco. 

Ali eles montaram o primeiro show de sucesso de Elis, porém as coisas aconteceram debaixo de mau tempo devido à personalidade, digamos, “forte” da cantora (reclamação sobre a espera para ensaios, suas faltas às apresentações – por estar fazendo shows em outros locais, etc).

No Beco, Elis conhece Lennie Dale (Danilo Timm), um coreógrafo da Broadway que amava o Brasil e  que transforma sua expressão corporal.

Aqui acontece o primeiro grande número da noite com o Danilo dando um show com o clássico bossanovista “O pato”. O cara canta e dança pra caralho. O povo vem abaixo.

Boscoli não gostou das “mexidas” da cantora e foi reclamar com Miele. A resposta de Miele é célebre : “Deixa, Bôscoli, assim ela enterra a bossa nova de vez”

Atrás de caches mais polpudos Elis “caga” para o Beco e parte para Sampa. Bôscoli, puto, manda botar uma tarja preta sobre o nome da estrela nos cartazes da entrada da boate em Copa, numa declaração de guerra à desafeta.

Salta para a consagração nacional no “I Festival de Musica Popularda Excelsior” onde ela conquista o primeiro lugar defendendo, de forma inesquecível “Arrastão”.

Icaro Silva (Jair Rodrigues)  e Laila Garin (Elis)
Segue a proposta da montagem de um show com o compositor e violinista Baden Powel, o que não acontece. Então ocorre o encontro com JairRodrigues (Ícaro Silva) que resulta nos sucessos de “Dois na bossa”, “Fino da Bossa” (shows, disco, programa de tv).

O pout-pourri de samba apresentado por Laila e Ícaro é matador.

O clima esquenta (no bom sentido) com o Bôscoli e logo eles estão casados, num affair bem “entre tapas e beijos”.

Elis parte para Paris, onde se apresenta com Pierre Barouh (Samba Saravah) e no Olimpía.

Na volta para o Brasil descobre as puladas de cerca do marido galinha e, numa performance "tô lôca", agarra a coleção de long plays do Frank Sinatra do varão do lar, e promove uma festa tipo "disco voador".

Porém eles logo voltam aos beijinhos numa felícidade bélica.

No lado público, não fica de fora a “mancha política” na trajetória da diva, quando, em plena ditadura militar, foi obrigada a cantar na famigerada Olimpíadas do Exército.

Isto lhe causou um patrulhamento do combativo "O Pasquim". Henfil (Peter Boos), numa charge histórica,  a “enterrou” no cemitério dos Mortos-Vivos do Cabôco Mamadô, lugar para onde ele mandava todos aqueles que, na sua opinião, colaboravam com a ditadura.

Inicio da Charge - Os quadrinhos avançam até Elis reencarnar como Chevalier num show para os nazistas em 45

Na tranquilidade do lar, discussão vai, discussão vem, e fica claro que o os anos felizes definitivamente vão por ralo abaixo, situação onde ocorre o momento mais “estranho” do espetáculo.

Senão vejamos :

Abandonada, Laila começa a cantar, de forma bem trágica, “Atrás da Porta”, que todo mundo sabe ser um hino à dor de corno. Porém, durante a música, ela vai se afastando fisicamente de Bôscoli e nas frases finais que repetem .”...eu ainda sou tua...”, ela já está meio de arreganho com o Cesar Camargo Mariano (Claudio Lins).

Achei ... “diferente”.

De qualquer forma o primeiro ato encerra-se de forma magistral com “Casa no campo

Intervalo.

O segundo começa grandioso com “Nada Será Como Antes”, “Canção da América”, “ Fé Cega, Faca Amolada” e “Maria Maria

O que vemos a seguir são principalmente as inquietudes artísticas de Elis através da sua busca de formas para trabalhar e reinventar sua arte.

Assim, logo estamos em Los Angeles onde aconteceu um dos encontros mais brilhantes da música universal e que resultou no clássico “Elis e Tom”.

A número com “Aguas de Março” é simplesmente assustador e quem está no teatro é transfigurado pela magia da cena.

Mas, como a coisa é pra acabar mesmo com todos os pagantes, ao apresentar o conceito e uma passagem do “Falso Brilhante”, o torpedo “Como nossos pais” não deixa pedra sobre pedra.


Já, para ilustrar o “Transversal do Tempo” - o espetáculo mais político da Elis, que expressava a idéia de “uma sinaleira que nunca abre”, montado corajosamente ainda durante a ditadura, - temos pela frente “Querelas do Brasil” e “Deus lhe pague”. Algo tipo “sem comentários”

Laila / Elis
Um momento íntimo com Mariano resulta numa das cenas mais lindas talvez já mostras no teatro nacional, com os bailarinos dançando com manequins ao som de “Dois pra lá dois prá cá”. Mágico e emocionante (novamente)

A reaproximação dela com Henfil, como não poderia deixar de ser, se dá através de “O bêbado e a equilibrista” - o Hino da Anistia - numa cena “para chorar”, o que inevitavelmente ocorre no palco e na platéia.

A poderosa “As aparências enganam” emendada com a bela letra de “ O trem azul” mostra o final do casamento com Mariano. E o Claudio Lins prova que não é apenas um corpinho bonito, soltando a voz e destruindo corações.

O final é catártico com uma colagem de falas da Elis apresentadas em forma de depoimento diretamente à platéia, que é seguida pela absurda “Aos nossos filhos”.

Sem mentira, o cara ao meu lado perdeu o controle de forma nada discreta e, sim, ... s-o-l-u-ç-a-v-a ... (que horror).

Eu, na minha fleuma britânica, deixei escorrer apenas uma lágrima elegante. Mentira, borrei o rímel todo ( e dei umas fungadas discretas, espero).

Redescobrir” encerra a noite num clima apoteótico,  e isto me lembrou que uma das acusações que o Saudades do Brasil” sofreu é de que era “muito Broadway” - sendo que o espetáculo encerrava exatamente com esta música.

Então vejam só que o críticado “final Broadway” do “Saudades” é retomado, bem Broadway mesmo, no final de “Elis a Musical”. Que ironia...

E o povo vai na onda e delira em ovação total

Fim.

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... pausa...
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De volta ao início

Voltando ao meu estado catatônico inicial, percebi que, num nivel pessoal, o que diferencia “Elis a Musical” de “Piaf” (por exemplo) é a contemporaneidade dos presentes no teatro em relação ao que está sendo apresentado no palco.

Posso ver uma peça sobre Piaf, Maria Callas, Billie Hollyday, etc, e  entender, digamos, os momentos históricos de cada história (sic), e assim fruir a noite.

Posso até ter algumas “músicas antigas” como referência da minha própria história; mas certamente não tenho a riqueza de referências de quem viveu (n)as épocas apresentadas

Já no caso de “Elis”, “Tim Maia” e outros, o que ocorre é uma relação da minha vida com as tais “músicas antigas”.  É impossível ouvir as canções e não viajar no tempo.

Isto faz muita diferença e é pavorosamente emocionante.

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Elenco :

Seria maldade dizer que os melhores são fulano, sicrano e beltrano. Maldade e mentira, pois todos estão ótimos, mesmo em intervenções, digamos, minúsculas. Por exemplo, a garota que faz a Marilia Gabriela com apenas três frases faz o teatro explodir em gargalhadas, e o rapaz que faz o Paulo Francis tembém (infelizmente não sei o nome deles). Os papéis maiores estão em mãos de talentos irretocáveis, com destaque óbvio para Laila Garin.

Laila Garin :

Laila Garin
Bem, a pequena (em tamanho veja bem) tem uma presença “apenas magnética”.

Quando está em cena é impossível deixar de segui-la. Percebe-se que todo seu ferramental (corpo, voz, gestual) está concentrado para dar carne à personagem.

E a linda não se traveste de Elis, não a imita,  e sim recria-a, inventa-a e reinventa-a com coragem e humildade ímpares.

Nas primeiras canções fiquei com
mêdo tipo “.. será que ela alcança?”. E não é que a danada alcança mesmo?

Assim, mesmo sem estarmos ouvindo a voz original da imortal, chega a ser sinistro, pois logo estamos vendo Elis no palco.(..mêda total...).

Elis Vive :

Na década de 80, me lembro que Porto Alegre ficou pichada de “Elis Vive” durante algum tempo após sua morte. Aquilo de certa forma preenchia o vazio deixado em seus fâs. Depois as pichações pararam e muito foi esquecido.

Agora parece que estamos numa fase de “retomada” e mais coisas vêm por aí para saudar a memória de uma das melhores cantoras do mundo. “Elis, a Musical” certamente é parte deste momento e definitivamente merece todos os elogios que vêm recebendo.

Só espero que a turnê nacional, prometida para o segundo semestre de 2014, traga esta maravilha para Porto Alegre.

O bacana é que também está sendo prevista uma transmissão do musical via internet. Veja aqui.

Alguns Vídeos :







 

Sunday, November 17, 2013

(Autor : Iuri) O Rei do Camarote - Receita de Felicidade

Exibicionismo e ostentação ( R$ 50.0000,00 gastos em uma balada) .

Tudo jogado na cara de um país onde existem famlias que dependem de programa de bolsa-auxílio para comer. 

O autor desta façanha é o empresário Alexander Augusto de Almeida, de 39 anos, que, numa inspiração bíblica, definiu os “Dez Mandamentos do Rei do Camarote”. Ou seja, quais são as regras para “brilhar” na noite (e ser feliz).

Numa mistura patética de megalomania, exposição e asnice, Alexander lista “o que as pessoas devem fazer para ser invejadas”, como se isto fosse um bom sentimento para ser alvo.

É claro que se entende que ele vive numa sociedade onde a aparência, a vitrine, o superficial e o vazio é sinônimo de felicidade. Nesta – como todo mundo já sabe -, o que importa não é quem você é, e sim o que você tem.

Então, meu lindo, dá-lhe frustração por você (que é pobre) não ter os objetos - de grife- dos seus sonhos. 

Sim, lhe falta tudo aquilo que faz você cobiçar a situação, o status de quem pode tê-los. 

Então você -totalmente frustrado – mira com olhos desesperançados todo o luxo e riqueza do outro (cuspida na sua cara) e, ao invés de se indignar com tamanha pavonice, lamenta  :  "nunca vou ter a vida glamorosa deste cara”,  “nunca vou ter este carrão”,  “nunca vou ter esta mulherada",  “nunca vou ser o “Rei do Camarote””, “nunca vou ser tão .... f-e-l-i-z...”

Que merda, hem, meu filho? 

Veja que, de acordo com os mandamentos do Rei, seu barzinho com amigos, suas reuniões com a família, seu passeios, seu esporte, seu lazer, seu hobby, seus filhos – e tudo mais que o diverte, o emociona e lhe dá prazer– não vale nada se você não estiver montado em grifes, se você não for dono de possantes carrões, se não tiver mulheres gostosas a seu pés, se não tiver serviçais ao alcance das suas gordas gorjetas, se você não tiver um cortejo de amigos o seguindo como cachorrinhos.

O que você tem é lixo, o que você usufrui não vale nada.

O que realmente “vale para você valer alguma coisa” (sic) é a mise-en-cene, a aparência, a pirotecnia, o estardalhaço proporcionados pela grana.

Resumido, seu pobre, o que vale, o que importa para você “ser alguém” é quanta inveja, despeito e insônia que você provoca nos outros.

Portanto, vá tratar de endividar-se e ser feliz.





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Links :


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Vídeos :

Vídeo Original : O Rei do Camarote


Video versão Laz Bibaz from Vizcaya : Beesha pobre que quer causar (dar close) na balada


Friday, May 24, 2013

Livro–Uma Prova do Céu (Dr. Eben Alexander III)

“ Cada vez que me via na esfera do Ponto de Vista da Minho­ca, eu podia me lembrar da reluzente Melodia Giratória que me conduzia ao Portal e ao Núcleo. Passei muito tempo - que paradoxalmente parecia tempo algum - na presença de meu anjo guardião sobre as asas da borboleta e uma eternidade aprendendo as lições do Criador e da órbita de luz nas profundezas do Núcleo.

Mas, em algum ponto da viagem, cheguei à beira do Portal e descobri que não podia entrar de novo. A Melodia Giratória - até então a minha chave para aquelas regiões mais elevadas - não me levava mais para lá. Os portões do Céu estavam fechados”

Assim o Dr. Eben Alexander III descreve suas andanças pelo Céu, enquanto esteve em coma durante sete dias em 2008, no livro “Uma Prova do Céu” (Sextante – 2013).

Alguém entendeu alguma coisa?

Piração total.

Mas esta piração adquire algum sentido se adotarmos o ponto de vista dele (ou seja lá no que ele se transmutou) durante sua tour pelo além

Antes desta visita ao Nosso Lar, o Dr. Eben desdenhava os lances de espiritualidade e pautava sua crença através daquilo que passava pelo crivo do experimento científico direto. O que não podia ser comprovado materialmente caía para o reino da ilusão, do delírio. 

Sendo um avançado neurocirurgião, encarava todas as tais de experiências místicas de seus pacientes,  e demais que tomava conhecimento, como não sendo mais nada do que respostas a reações e fenômenos naturais do cérebro.

Isto até contrair, de forma absolutamente inexplicável, um tipo raríssimo (um a cada 10 milhões de adulto são infectados) de Meningite que o levou ao coma,  período em que atingiu o fatídico 97% de chance de morrer. Mas eis que  de forma absolutamente inexplicável (seria um milagre?),  acordou e, de forma absolutamente inexplicável,  recuperou sua saúde plena.

É muito mistério para um cristão só.

Segundo o que o  doctor registra, nunca houve um caso igual ao seu registrado na história da medicina.

Ele então seria algum tipo de “escolhido”, um “eleito” , um Neo?  Alguém que deveria que passar por uma grave  provação do corpo, que resultou na  viagem do seu espírito às esferas celestiais,   das quais retornou com a missão de compartilhar sua experiência com todos os (ainda) encarnados?

Ele chega a cogitar isto e vai na linha de que um cientista materialista (e eu acrescento ocidental, norte-americano, branco, bem sucedido e de boa aparência), que passou por uma experiência profunda de EQM,  seria a persona ideal para revelar à humanidade a verdade sobre o mundo das almas.

O desconfiômetro sobe diante de tanta seleção e a tendência é tachar o livro de uma viagem na maionese, ou uma furiosa ego-trip.

Mas a coisa não é bem assim.

Com uma sinceridade e coragem impares, Eben arrisca destruir sua imagem de médico-cientista ao assumir sua verdade diante do que vivenciou durante o coma.

E suas vivências foram as mais bizarras. 

Confesso que foi difícil aceitar a descrição do tal “Região do Ponto de Vista da Minhoca”, do “Portal” e do “Núcleo” - ainda mais que ele tinha por guia “uma linda garota borboleta de olhos azuis” (a qual, lá pelo final do livro, foi responsável por me fazer embarcar numa constrangedora choradeira. Ou seja, vi a tal “garota borboleta” primeiramente com toda a descrença e ironia, mas a coisa muda totalmente de figura depois, acreditem).

Depois ele fala da sensação de unidade com o Todo, da consciência plena,   da “dissolvição” do ego, do esquecimento  da personalidade, e muitos outros conceitos já conhecidos em várias religiões e filosofias.

Nesta sentido o Céu é atemporalidade, presença (ausência do ego), universo, visão, sabedoria, conexão, unidade,  êxtase, plenitude. Tudo vivenciado num eterno aqui e agora amado e protegido.

Ben retorna do coma com a certeza da realidade das suas experiências e busca explicação para tais nas diversas teorias científicas baseadas nas reações químicas do cérebro. Porém chega à conclusão de que, diante da impossibilidade de aplicar qualquer uma delas ao seu caso (seu cérebro estava “morto” durante o coma) sua consciência só poderia estar em outro local.

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Felizmente o livro não fica “só” na descrição do Céu e as conseqüências do retorno à carne (dúvidas, crenças, desafios).

Também conta um grande drama íntimo / familiar do doutor, que acaba solucionado da forma mais inesperada possível. Fantástico.

O saldo da obra é muito bom e, mesmo que não concordemos com todo seu conteúdo, nos faz refletir sobre os mistérios da vida e da morte, sobre o que acreditamos ou não, sobre nossos medos, esperanças e fé.

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Excertos :

Eben descreve a Região do Ponto de Vista da Minhoca

“MUNDO SUBTERRÂNEO

Escuridão, mas uma escuridão visível - como estar submerso na lama, mas ainda assim poder ver através dela. Gelatina escura talvez seja a melhor descrição: transparente, mas turva, embaçada, claustrofóbica e sufocante.

Consciência, mas consciência sem memória nem identidade - como um sonho em que você sabe o que está acontecendo em volta, mas não tem ideia de quem ou o que você é.

Há som também: um golpear profundo e ritmado, distante po­rém forte, de modo que cada pulsação o atinge em cheio. Cómo uma batida do coração? Um pouco, só que mais sombrio, mais mecânico, como o som de metal contra metal, como se um gi­gantesco ferreiro subterrâneo estivesse martelando uma bigorna bem perto: golpeando tão forte que o barulho ecoa pela terra, pela lama, ou pelo que quer que seja aquilo onde você está.

(...)”

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Eben descreve O Portal

“A MELODIA GIRATÓRIA E O MUNDO NOVO

Alguma coisa apareceu no escuro. Movendo-se lentamente, ela irradiava uma luz dourada e, à medida que avançava, a escuridão à minha volta começava a se fragmentar e dissipar.

Então escutei um novo som: um som vivo, como a mais rica e complexa melodia que já tinha ouvido. Aumentando de volume enquanto uma diáfana luz branca descia, esse som anulou as ba­tidas mecânicas e maçantes que, aparentemente, haviam sido a minha única companhia até então.

A luz foi chegando cada vez mais perto, girando em torno de mim, produzindo filamentos de pura luz branca com raias douradas.

Então, no centro da luz, apareceu outra coisa. Eu me concen­trei ao máximo para descobrir o que era.

Uma abertura. Eu não estava mais olhando para a luz giratória, mas através dela.

No instante que compreendi isso, comecei a me mover. Eu ou­via um som sibilante. Quando atravessei a abertura, me vi em um mundo inteiramente novo. O mundo mais belo e estranho que eu já tinha visto.

(...)”

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Eben descreve O Núcleo

“O NÚCLEO

Agora eu estava em um lugar cheio de nuvens.

Nuvens grandes, fofas, brancas com tons rosados se des­tacavam no céu de anil.

Mais alto que as nuvens - imensuravelmente mais alto -, em um aglomerado de esferas transparentes, seres deslumbrantes se deslocavam em arco por todo o céu, deixando grandes rastros atrás de si.

Pássaros? Anjos? Estas palavras me ocorreram quando eu escrevia minhas recordações, mas nenhuma delas faz jus àque­les seres, que eram muito diferentes de qualquer coisa que eu tivesse conhecido neste planeta. Eles eram mais evoluídos. Superiores.

(...)

Ver e ouvir não eram coisas separadas naquele lugar. Eu podia ouvir a beleza dos corpos daqueles seres cintilantes e, ao mesmo tempo, ver a perfeição do que eles cantavam. Parecia que não era possível ver ou escutar qualquer coisa ali sem se tornar parte dela - sem se fundir com aquilo de alguma forma misteriosa.

(...)

Porém, nada disso era tão relevante porque eu já havia apren­dido a única coisa que realmente importava - aquela mensagem transmitida pela minha companheira de asas de borboleta na primeira vez que passei pelo Portal:

Você é amado e valorizado imensamente, para sempre.

Não há nada a temer.

Não há nada que você possa fazer de errado.

Se eu tivesse que resumir toda essa mensagem em uma frase, ela seria:

Você é amado.

E se tivesse que enxugar ainda mais, para apenas uma palavra, ela seria simplesmente:

Amor.

O amor é, sem dúvida, a base de tudo.

Não aquele amor abs­trato, difícil de entender, mas o amor cotidiano que todo mundo conhece - o tipo de amor que sentimos quando olhamos para nosso companheiro, para nossos filhos e até para nossos animais de estimação.

Na sua forma mais pura e poderosa, esse amor não é ciumento nem egoísta - ele é incondicional. Essa é a maior de todas as realidades, a gloriosa verdade que subsiste no centro de tudo o que existe. E nenhuma mínima compreensão de quem (ou do que) somos pode ser obtida por alguém que não inclua o amor em suas ações.

(...)”

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Belíssimo poema que Eben recebe de sua irmã :

"Quando o amanhã começar sem mim"  ( David M. Romano, / 1993)
 
Quando o amanhã começar sem mim,
E eu não estiver lá para ver,
Se o sol nascer e encontrar seus olhos
Cheios de lágrimas por mim,

Eu gostaria que você não chorasse
Da maneira que chorou hoje,
Enquanto pensava nas muitas coisas
Que deixamos de dizer.

Sei quanto você me ama,
E quanto amo você,
E cada vez que você pensa em mim,
Sei que sente a minha falta.

Mas quando o amanhã começar sem mim,
Por favor, tente entender
Que um anjo veio e chamou meu nome,
Tomou-me pela mão
E disse que meu lugar estava pronto
Nas moradas celestiais
E que eu tinha de deixar para trás
Todos os que eu tanto amava.

Mas quando me virei para ir embora
Uma lágrima escorreu-me pela face
Por toda a vida eu pensei
Que não queria morrer.
Eu tinha tanto para viver,
Tanta coisa por fazer,
E pareceu quase impossível
Que eu estivesse indo sem você.

Pensei em nossos dias passados,
Nos dias bons e nos dias ruins,
Em todo o amor que vivemos,
Em toda a alegria que tivemos.

Se eu pudesse reviver o ontem
Ainda que só por um instante,
Eu diria adeus e lhe daria um beijo
E talvez visse você sorrir.

Só então descobri
Que isso não aconteceria,
Pois o vazio e as lembranças
Ocupariam meu lugar.

Quando pensei nas coisas deste mundo
Vi que posso não voltar amanhã,
Então pensei em você
E meu coração se encheu de dor.

Mas quando cruzei os portões do céu
Eu me senti em casa
Quando Deus olhou para mim e sorriu
De seu grande trono dourado,

Ele disse:

"Isto é a eternidade
E tudo o que lhe prometi.
Agora sua vida na Terra é passado
Mas aqui uma vida nova começa.
Eu prometo que não haverá amanhã,
Mas que o hoje durará para sempre.
E como todos os dias serão iguais,
Não haverá saudades do passado.
Você foi tão fiel
Tão confiável e verdadeiro,
Embora tivesse feito coisas
Que sabia que não deveria.
Mas você foi perdoado
E agora finalmente está livre.
Então que tal me dar a mão
E compartilhar da minha vida?"

Logo, quando o amanhã começar sem mim,
Não pense que estamos separados,
Pois todas as vezes que pensar em mim,
Eu estarei dentro do coração.

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Site do Eben

“ETERNEA

A experiência de quase morte por que passei me inspirou a ajudar a fazer deste mundo um lugar melhor para todos, e Eternea - uma organização sem fins lucrativos que fundei com meu amigo John R. Audette - é o veículo que escolhi para realizar essa mudança.

A missão da Eternea é incentivar a pesquisa e os projetos que envolvam experiências espiritualmente transformadoras, assim como a relação entre a consciência e a realidade física. Trata-se de um esforço para colocar em prática as descobertas feitas a par­tir das EQMs e reunir ensinamentos de todos os outros tipos de experiências espirituais.

Acesse www.eternea.org para estimular seu próprio despertar espiritual, compartilhar histórias sobre experiências espirituais que você teve ou mesmo buscar ajuda se estiver sofrendo pela perda de um ente querido. Eternea também oferece subsídios va­liosos para cientistas, acadêmicos, teólogos e religiosos que este­jam interessados nesse campo de estudo.

Eben Alexander, M.D.

Lynchburg, Virgínia (EUA) 10 de julho de 2012”

Saturday, May 18, 2013

Gregório Duvivier e Olivia Byington

Ver o Gregório na turma do Porta dos Fundos (post anterior) me causou comoção.

Ele é filho da cantora Olivia Byington, que em 1978 gravou um disco seminal da MPB, o tal de “Corra o Risco”.

Esta verdadeira maravilha, trouxe, entra tantas outras coisas legais, uma música que foi tipo fundamental na minha vida.

A musica em questão é “Luz do Tango”, uma parceria demolidora do Geraldo Carneiro com o deus Astor Piazzolla

A letra é toda fragmentada com imagens fortíssimas.

Na época (ainda meio que dentro da ditadura militar), foi um choque ouvir um discurso tão seco e direto, gritado pela Olivia.

Pirei total.

Segue abaixo a letra e um vídeo que achei no YouTube com a musica.

As imagens do vídeo são bem, digamos, variadas.

Beatles, Salvador Allende, Clube da Esquina, Caetano, Rita Lee, Helio Oiticica (Marginália), Kubrick, Hair, Truffaut, Polanski, Secos e Molhador, Rock Horror Show, etc, etc… (uma super salada!),

Mas o resultado é tri bom.

Luz do Tango (Geraldo Carneiro e Astor Piazzolla)

o cravo a crise o crime
nas barbas da polícia a malícia
a miss a missa o dia dos mortos
o luxo o lustre a luz negra
do Hotel da lua a lua nua
e crua

o carnaval a corda
o coelho na cartola o cuba libre
o gosto da chacina o sinal a sina
o sangue na anágua
n'água n'água n'água n'água

a lira o franco o marco
a bolsa abriu em baixa
o berço o barco o barão
na corda bamba a muamba
o banquete do mendigo a ruiva
rumba a ruiva rumba

a trama a chama o drama
a desgraça da família o karma
a ilha a trombeta de arcanjo
o apocalipse não é o fim do mundo
o rum o rock o rádio
a cama

o sacramento extremo
o mal de sete pecados
os sete lados do conto do vigário
o terceiro páreo
o trato com o demo
o demo o demo

a fome a forca o frio
a falência do cinema
o poder a pena
o cheiro da morena
a viúva a uva as estrelas do passado
a farsa o furto o foxe o fado

canto secreto o cego
cantava na viola o sequestro
o sestro o bolero na vitrola
o terceiro mundo no fundo
quer é reco reco a porta o pau
o prego

o fogo o jogo o giro
o rastro do vampiro o traço
o tiro o programa de auditório
o circo a sanha
o sal não fica sem troco

o cravo a crise o crime
a desgraça da família o luxo o lustre
a luz do dia dos mortos
o peixe a porta
o pau não fica sem troco
o troco

a fome o fogo o frio
o banquete do mendigo
a muamba o mambo
nas barbas da polícia
a marca a mãe o mal
não fica sem troco

Monday, February 11, 2013

Filme - A Vida de Pi

A Vida de Pi
Magnifico.

Esta foi a palavra que resumiu meu sentimento em relação “A Vida de Pi”.

Saí embasbacado do cinema.

Zonzo com a beleza da história (as imagens nem se fala), atordoado com o alcance do discurso íntimo no que ele tem de mais real diante do desafio da transcendência humana

“Pi” mostra o homem, cheio de conhecimento, erudição e sabedoria, sonhos e esperança colocado nu e cru frente a frente com seus piores medos.

O que fazer com toda a sabedoria quando o horror da fraqueza da mente e da carne atacam ?

Nestes momentos, não há nada pior do que termos que enfrentar a nós mesmos.

Nossos traumas, nossos calafrios, nossos tremores de alma – nossas fobias

Diante deste horror, nossa fragilidade emocional nos leva à covardia ao receio;  à não sair da zona de conforto.

Mas realidades de dor são inevitáveis e rasgam, destroem nosso emocional e nos expõem ao desamparo, à perda e à desesperança.

Teoricamente podemos ter inúmeras saídas e ferramentas para “lidar com situações”.

Podemos “acreditar”, “ter fé”, “sermos fortes”, “segurar na mão de Deus” e várias outras formas “encarar os fatos”.

Sim, tudo muito lindo, tudo muito prático. Um discurso perfeito e recheado de boas intenções.

Mas como a coisa fica quando nos deparamos com a fragilidade da existência?

Livro - A Vida de Pi
Onde fica “Deus” e onde fica o “Homem”?

Deus existe e nos fortalece, ou esta força brota do próprio homem?

“AVida de Pi”, fala sobre tudo isto e muito mais.

Baseado  no romance Life of Pi de Yann Martel, o longa de Ang Lee, conta a incrível história do jovem indiano, Pi, uma zebra, uma hiena, um tigre e um orangotango, que lutam pela vida num bote salva-vidas, após serem os únicos sobreviventes de um naufrágio.

É claro que acontece muita coisa, e prefiro não dizer o que para não estragar o prazer de quem ainda não viu.

O que o longa oferece é testemunharmos o processo dilacerante pelo qual Pi passa, e que o conduz a experiências, descobertas, transformações, mortes e renascimentos que o desfazem e o reconstroem inúmeras vezes.

Seus embates com o Tigre Richard Parker são espetaculares e vão do pavor absoluto até encontros espirituais (de alma), onde ambos comungam entre si, com a natureza e com o firmamento.

O final é apenas soberbo.

Uma das reflexões que fiz na saída do cinema, é que filmes como “Pi” ou “Amor” dialogam diretamente com nosso íntimo, com nossa natureza

São obras que se originam e ecoam no espírito humano e, por isto, possuem aquela capacidade da arte de ir além do entretenimento e atingir nossos temores mais reais.

Obras primas.

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 Comentário : 

Max e os Felinos
Yann Martel  reconheceu ter se inspirado no livro "Max e os Felinos" de Moacyr Scliar para escrever "Pi".

Mas o escritor gaúcho não ficou muito satisfeito com os comentários de Yann..

Mais detalhes aqui.















Trailer do filme


Thursday, January 31, 2013

Doação de sangue

Hoje, eu e Luciano (meu companheiro), fomos ao Hemocentro de Porto Alegre, doar sangue por conta da tragédia de Santa Maria.

Esta foi a primeira vez que doei sangue “voluntáriamente”, pois “desmaio” até para coletar o tal “material” para exames de rotina (não posso nem ver agulha que já passo mal. Uma coisa fiasco mesmo).

Mas, diante do quadro, e até porque meu fator é o tal de O negativo (o mais raro de todos), me vi na obrigação de sair da teoria e partir para a prática.

Como não poderia deixar de ser, quase vi Jesus na sala de coleta. Aos poucos minha pressão foi baixando e eu fui saindo da casinha. Porem antes chamei uma atendente que, ao ver meu estado lastimável, perguntou se eu queria parar ou ir até o fim. Nem pestanejei e afirmei que iria ate o fim. Ela então me colocou minha cabeça num nível mais baixo e a coisa toda rolou tranquilamente até o final.

Foi tudo tri simples.

Mas o mais importante de tudo foi ver que não era só eu que estava em estado pré-pânico ali.

Me caiu os butiá ao ver um grupo de lindas garotas adolescentes que se reuniram e estavam ali para doar. Uma delas estava morta de medo, mas encarou a bronca. Ela entrou antes de mim. Quase agarrada num rosário, é verdade, mas não voltou atrás. As amigas riram, e ela foi em frente. Me identifiquei imediatamente com ela e segui seu exemplo.

Depois de tudo terminado, na saída nos deparamos com a sala de espera lotada e mais um grupo fora do prédio aguardando ser atendido. Isto demonstra que o povo realmente ta se solidarizando com o acontecido. Muito bom mesmo.

Finalizando, tenho a obrigação de comentar o comportamento do pessoal do Hemocentro. Não sei qual o tipo de orientação ou treinamento que recebem, mas, pelo menos os que ficaram perto de mim, demonstraram atenção e carinho. Muito legal mesmo. Parabéns.

Eu e Luciano aproveitamos para fazer nosso cadastro como doadores de medula.

Vamos ver se a coisa rola.

Wednesday, January 30, 2013

Santa Maria– O melhor e o pior no humano

santa-maria-marcha-9-2013-01-29-size-598É fato que nas grandes tragédias tomamos contato com o que há de melhor e de pior no humano.

Nestas situações testemunhamos os esforços de milhares para mitigar a dor dos atingidos (com voluntariado, doações, apoio, rezas, etc) e também, infelizmente, a ação de vilões miseráveis que aproveitam a oportunidade para revelar as sombras dos seus espíritos.

O incêndio da boate Kiss em Santa Maria, mais uma vez prova esta tese.

Se por um lado vemos manifestações de todo o mundo em solidariedade a dor dos feridos, das famílias, dos amigos, por outro vemos manifestações absolutamente incompreensíveis.

Acompanhando os comentários dos internautas sobre as notícias publicadas nos grandes portais, tipo Terra, UOL, Globo, etc, deparei com registros do tipo :
  • “Agora os gaúchos vão ficar muito tempo sem fazer churrasco pois estão com um grande estoque de carne queimada”
  • “Os que morreram, eram nazistas reencarnados que mataram os judeus na camara de gás. Vejam que a arquitetura da boate lembra o espaço de uma camara de gás. Além disto eles todos eram brancos, o que lembra os alemães. Conformem-se, pois eles apenas pagaram carma”
Gente o que é isto ? De onde tais pessoas tiram tanta maldade ? Onde está a compaixão com os familiares e amigos das vítimas ?

Será que estas pessoas que escrevem este tipo de mensagem tem noção do mal adicional que estão causando ?  Que tipo de ruína sentimental provoca este tipo de comentário ?

Outra coisa : qualquer celebridade ou pessoa publica que manifesta solidariedade é logo acusada de “querer aparecer”. 

Vejam o caso do Luan Santana.  O cara, certamente entristecido, fez uma homenagem a uma das vítimas que era sua big fâ, gravando um clip caseiro com uma musica em especial que ela gostava.  Foi o que bastou para muitos o acusarem de , conforme disse antes, “querer aparecer”.

Meu Deus, que classe de pessoa só tem olhos negativos ? Só consegue se manifestar com virulência, veneno, crueldade ?

Minha tese é que este tipo de gente é miserável emocionalmente.

Gente que não ama, não é amada e assim desconhece o que é compaixão e chafurda na aridez dos sentimentos.

Fico pasmo, realmente.
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Reproduzo abaixo entrevista que o psiquiatra inglês Colin Murray Parkes, autor do "Luto – Estudos sobre a perda na vida adulta (Summus, 1998)", concedeu a revista Veja.


VEJA ENTREVISTA Colin Murray Parkes

A dor da morte
 
O psiquiatra inglês diz o que alivia e o que agrava o sofrimento causado pela perda de alguém muito próximo

Na qualidade de um dos mais respeitados estudiosos do luto do mundo, o psiquiatra inglês Colin Murray Parkes, 79 anos, viu de perto grandes tragédias e o sofrimento que elas podem causar a populações inteiras. Em 2005, ele foi chamado pelo governo britânico para dar assistência psicológica a vítimas do tsunami que atingiu vários países banhados pelo Oceano Índico, matando um total de 225 000 pessoas. Três anos antes, havia trabalhado na assistência a parentes de vítimas dos atentados de 11 de setembro em Nova York, que resultaram na morte de quase 3 000 pessoas. Mas o trabalho de Parkes não se resume a apoiar as vítimas de grandes desastres: consultor até o ano passado do St. Christopher's Hospice, hospital inglês que é a maior referência mundial em tratamento de pacientes terminais, ele lidou por mais de quarenta anos com dramas cotidianos: aqueles vividos pelas famílias que perderam alguém no leito do hospital. Em entrevista concedida a VEJA, o psiquiatra falou sobre a dor de quem vai e de quem fica e como lidar com ela.

Veja – O que se pode fazer para ajudar uma pessoa que perdeu alguém?
 
Parkes Ficar próximo dela, abraçá-la, fazê-la sentir-se compreendida e segura. Para as pessoas que perderam alguém, especialmente se a morte estiver ligada a uma situação criminal, o mundo pode parecer um lugar bastante perigoso. Parentes de vítimas ficam assustados e chegam a ter medo de estranhos. Para ajudar essas pessoas, é preciso despertar sua confiança e transmitir-lhes segurança para começar a falar e a pensar naquilo que as faz sentir-se em perigo. Deixá-las expressar sua tristeza também é importante. Ouço muitas reclamações de enlutados. Eles dizem que a família não os deixa chorar – quer vê-los alegres o tempo todo. Não há nada pior do que alguém lhe dizendo: "Não quero ver você triste assim, por favor!". Outra coisa que devasta essas pessoas é quando elas percebem que os vizinhos e os amigos se afastam delas. Escuto muitas histórias de enlutados que afirmam que seus vizinhos mudam de calçada quando os vêem chegando. É evidente que eles não fazem isso de propósito. O fato é que ninguém sabe lidar direito com a morte.

Veja – E no caso de familiares de vítimas de grandes tragédias, como a do acidente da TAM, no Brasil? Como amenizar seu sofrimento?
 
ParkesNo período imediatamente posterior ao acidente, o que as famílias mais precisam é de informação e instrução. Psicologicamente, é mais fácil lidar com más notícias do que com a falta delas. Não se deve tentar proteger as famílias escondendo dados que possam machucá-las. As informações servem para que as pessoas tenham tempo para digerir o terror e organizar suas esperanças, assim como suas hipóteses sobre a tragédia. Já as instruções são fundamentais porque, nesse momento de aflição máxima, os familiares não têm condições de resolver nada e precisam de alguém que assuma o controle da situação. E isso tem de ser feito de forma bastante objetiva – não há espaço para debates democráticos, do tipo: "Familiares das vítimas, vocês preferem ficar aguardando informações em um hotel ou aqui no aeroporto?". É necessário que alguém passe ordens. O cuidado psicológico propriamente dito vem numa fase posterior.

Veja – Em que ele consiste?
 
ParkesEm casos de desastres que podem ter sido causados por leniência, descaso ou falha humana, é comum haver um sentimento generalizado de raiva entre os familiares. Os parentes querem, a todo custo, encontrar e, por vezes, agredir o culpado – ou os culpados – pelo desastre. Psicólogos e médicos destacados para cuidar dessas pessoas devem escutar suas queixas, mas, principalmente, tentar conter a instalação de um ciclo de raiva. O sentimento de ira não ajuda o enlutado a se organizar emocionalmente, nem mesmo alivia sua dor. É fundamental também trabalhar para que cada família tenha certeza de que seu caso será analisado – seja por psicólogos, seja por autoridades – de maneira individualizada. Em grandes desastres, as famílias tendem a achar, e não se pode tirar a razão delas, que a morte de seu parente está sendo banalizada. Isso acontece, entre outros motivos, porque as notícias veiculadas na imprensa, na maioria das vezes, falam do número total de mortes, e não especificamente do parente dela. Para um marido que perdeu a mulher, o que importa é a morte daquela mulher, não a de 200 pessoas.

Veja – É mais difícil aceitar a morte quando não se tem o corpo do morto?
 
ParkesSem dúvida. É difícil acreditar que aquela pessoa morreu quando não vemos o corpo dela e não realizamos os ritos fúnebres. No episódio do 11 de Setembro, muitas famílias britânicas, que nós assistimos, não conseguiram ter de volta os corpos de seus parentes. Um de nossos trabalhos foi ajudá-las a acreditar que eles tinham mesmo morrido. Estudei uma tribo de pescadores, nas Filipinas, que chega a fazer um ritual substitutivo para lidar com uma situação dessas. Quando um dos integrantes da tribo morre no mar e seu corpo não é resgatado, a família faz uma estátua e a veste com as roupas do morto. Eles acreditam que, assim, a alma do falecido encarnará na estátua. E é essa estátua que enterram.

Veja – Na escala da dor, qual é o pior tipo de morte para quem fica?
 
ParkesO que implica sentimentos de culpa pode ser considerado o pior. É o caso, por exemplo, do pai que vê o filho morrer em um acidente de carro e acha que poderia tê-lo socorrido, ou de uma pessoa que se sente responsável pelo suicídio de outra. Em segundo lugar, bem próximo do primeiro, eu diria que estão as mortes por assassinato.

Veja – Qual é o povo que lida melhor com a morte?
 
ParkesPenso que os orientais se preparam melhor para a morte do que nós. No Japão, eles fazem oratórios com sinos, que, segundo crêem, invocam a pessoa morta a cada vez que são tocados. Desse modo, acreditam manter-se em contato com o espírito de seus mortos. De certa maneira, é isso que a terapia tenta fazer com os enlutados: ajudá-los não a esquecer seus mortos, mas a achar um lugar para eles em sua vida.

Veja – Quem lida melhor com a morte, os homens ou as mulheres?
 
Parkes As mulheres, sem dúvida. Elas conseguem expressar seu sofrimento mais facilmente. E, uma vez vivenciado esse sentimento, elas podem fazer aquilo que se costuma chamar de "tocar a vida para a frente". Já os homens têm uma enorme dificuldade de mostrar sua fragilidade diante da morte. Por isso, têm também mais dificuldade de se organizar para continuar vivendo.

Veja – O que se deve dizer a um conhecido que acaba de perder alguém?
 
ParkesAs pessoas enlutadas, em geral, têm um alto grau de sensibilidade a tudo o que não seja sincero: elas percebem facilmente se alguém está fingindo tristeza ou dizendo uma palavra de conforto apenas porque foi instruído a fazê-lo. Por isso, o que quer que você diga nessa situação deve vir do coração.

Veja – Até o ano passado, o senhor trabalhava como consultor psiquiátrico de um hospital especializado no cuidado de pacientes terminais. Do ponto de vista psicológico, o que se pode fazer para amenizar o sofrimento desses doentes e de suas famílias?
 
ParkesAlém de tentar transmitir os mesmos sentimentos de amor e solidariedade, acho que dizer a verdade sempre ajuda. Quando alguém está morrendo, as pessoas, querendo ajudar, cometem erros clássicos. Um deles é fingir que a pessoa não está doente: "Você está com uma cara ótima hoje!", diz um parente. É evidente que é mentira, e o paciente sabe disso, mas compactua com o fingimento porque também quer proteger o familiar. Isso cria uma situação horrível! Certa vez, falei com uma senhora no dia em que o marido dela deu entrada no hospital em que eu trabalhava. Ela me disse: "O senhor não vai dizer ao meu marido que ele tem câncer, vai?". Eu havia acabado de conversar com o marido dela, que já me contara que tinha a doença! Eu perguntei: "O que faz a senhora achar que ele não sabe?". Ao que ela respondeu: "Ele sempre morreu de medo de câncer. Se o senhor lhe contar, ele vai morrer!". Eu falei: "Conversei com seu marido. Ele sabe". Ela: "Sabe? Por que ele não me contou?". Respondi: "Talvez esteja querendo protegê-la". Ela entendeu: "Como nós fomos bobos!". Voltamos à cabeceira da cama e eu deixei o casal conversando. Voltei meia hora depois. Eles estavam sentados com os braços entrelaçados. Ela chorava copiosamente e dizia: "Fomos tão bobos, não?". Mas, ao mesmo tempo, ela sorria. É que, finalmente, havia conseguido se comunicar com o marido.

Veja – O senhor foi chamado pelo governo britânico para cuidar de vítimas do tsunami. Como foi esse trabalho?
 
Parkes Estive na Índia um mês depois da tragédia. Peguei a fase da reconstrução do lugar. Como morreram mais mulheres e crianças, encontrei muitos homens devastados e entregues à bebida. Eles haviam perdido a mulher, os filhos e os barcos com que ganhavam a vida, mas tinham uma resistência muito grande em aceitar ajuda psicológica. Lá, homem não chora. Fiquei estudando qual o melhor modo de ajudar aqueles sobreviventes. Depois de alguns dias, concluí que a melhor forma seria estimulá-los a participar da reconstrução de suas vilas e casas. Coordenei, então, mutirões de obras. Organizava os grupos que fariam as casas e os barcos. E, evidentemente, dava apoio psicológico e individual quando era solicitado.

Veja – E como foi o trabalho com as vítimas do 11 de Setembro?
 
ParkesO governo do meu país me escalou para cuidar das famílias de vítimas britânicas que haviam 
morrido no atentado. Os melhores policiais da Grã-Bretanha foram enviados a Nova York para nos ajudar. Meu primeiro trabalho foi formar duplas constituídas por um policial e um terapeuta. Essas duplas receberam cada avião que chegou do Reino Unido. No total, foram 120 familiares de vítimas. Nesse caso, meu trabalho não foi propriamente o de um terapeuta, mas sim o de um grande produtor: tinha, por exemplo, de garantir que houvesse celulares suficientes, salas de entrevista, esse tipo de coisa. Mas logo fiquei conhecendo as famílias, já que estavam no mesmo hotel que nós. E o que eu e os outros psiquiatras da minha equipe percebemos foi que elas tinham uma grande necessidade de procurar seus mortos – ainda que a morte deles parecesse um fato inexorável. Os americanos haviam disponibilizado computadores que, operados por policiais, informavam o nome de todos os sobreviventes internados em hospitais de Nova York. Nós já tínhamos vasculhado esses registros e sabíamos que os parentes dessas famílias não estavam lá, mas elas insistiam em procurar por conta própria. Então, em vez de as obrigarmos a aceitar a informação de que as pessoas que elas amavam estavam mortas, ficamos ao lado delas, observando-as enquanto faziam a busca. Também as ajudamos a colar cartazes em postes com as fotos e os nomes dos parentes desaparecidos. Quanto mais fotos elas colavam, mais se davam conta de que não daria resultado. A compreensão foi vindo de forma gradual. Uma coisa que também ajudou nesse processo foi o fato de que muitas pessoas enlutadas passaram a se encontrar diariamente na Union Square, a área verde mais próxima do desastre. As famílias se sentiam bem lá, conversavam e choravam juntas. Isso colaborou para fazer com que, aos poucos, elas fossem entendendo que as pessoas que elas procuravam não voltariam mais. Foi uma boa terapia.

Veja – Por que o senhor decidiu trabalhar nessa área?
 
ParkesEu ainda era um jovem médico em Londres quando fui chamado para fazer meu primeiro parto. O médico-chefe me disse que o procedimento seria simples porque o bebê era anencéfalo e, por ter uma cabeça pequena, sairia facilmente da mãe. Ele me disse ainda para não mostrar o bebê à mãe. Fiquei chocado com isso. Também me incomodava o modo como os médicos tratavam os pacientes. Achavam que era perigoso se aproximar e se envolver emocionalmente com eles. Nunca chegavam muito perto do leito. Quando resolvi me especializar em psiquiatria, direcionei meus estudos para os piores tipos de sofrimento humano. Justamente nessa época, na clínica onde eu trabalhava, dois pacientes se suicidaram depois de passar por um forte stress causado por luto. A partir daí, foquei meu trabalho na recuperação de pessoas que haviam perdido alguém. Mas às vezes é muito difícil para mim fazer esse trabalho. Os grandes desastres, por exemplo, me deixam bastante abalado.

Veja – O que mais o abala nessas situações?
 
Parkes Ver o sofrimento em massa. É avassalador. Depois do 11 de Setembro, assim que voltei de Nova York, tirei férias e viajei com meus netos. Eles disseram que eu não era mais o avô de sempre. Disseram que eu estava longe – e estava mesmo. Minha cabeça não saía de lá. É difícil ser a mesma pessoa depois de ver uma tragédia dessas.