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Monday, November 11, 2013

(Autor : Iuri) Ramiro - Ônibus Linha 584 / Rio de Janeiro

Passei alguns dias no Rio de Janeiro semana passada a trabalho. 

Fiquei hospedado em Copacabana e tinha que me deslocar diariamente ou para o Botafogo ou para o Cosme Velho.  Para isto utilizei o transporte publico. Para o Botafogo utilizei o metrô, e para o Cosme Velho utilizei ônibus urbano. 

Aí é que começa o choque. 

Ao utilizar as linhas 583 (para ir ao Cosme Velho) e a linha 584 (para retornar a Copa), tive o desprazer de testemunhar a absoluta falta de educação dos cobradores destas linhas.

Em uma viagem,  mesmo sabendo mais ou menos me localizar,  solicitei ao cobrador que me indicasse a parada mais próxima  do meu destino. Ele me olhou com má vontade e resmungou algo tipo “hum, hum” , que eu (ingenuamente) deduzi  como “ok”.   

O fulano tinha uma cara de má vontade,  uma cara de contrariedade que deixava claro que odiava estar ali trabalhando.  Mesmo assim acreditei que seria atendido.  Porem, a determinada altura da viagem, vi meu destino passar de relance, situação a qual me fez pular e “puxar a cordinha”.

O ônibus avançou mais uma quatro quadras (enormes) até a próxima  parada – neste meio tempo me dirigi até a porta, tropeçando e pedindo desculpas a quem estava em pé no corredor ( o que me fez, é claro,  ser alvo de  alguns palavrões).   Imagina se eu não estivesse ligado e não tivesse visto meu destino. Até onde eu viajaria sem que o cara se lembrasse de me avisar ? Fiquei  indignado e amaldiçoei o FDP.

Em outra viagem (no 583)  testemunhei coisa pior, porém não foi comigo. Vi um passageiro perguntar algo à cobradora e ela responder (ou resmungar) com a cara virada ao contrário. O  rapaz insistiu e ela continuou sem  a virar o rosto.  Então o cara ficou puto e xingou-a, pedindo que, pelo menos  ela olhasse para ele enquanto falava.  O que ela fez com desdém, tipo “foda-se”.  Ou seja, uma mulherzinha, como se diz, "totalmente desagradável".

Diante destas “pérolas”, rapidamente cheguei ao juízo de que os “cobradores” do RJ eram uns, com o perdão da palavra (afinal os animais não merecem isto),  “cavalos”. Ou seja, uns grossos, uns estúpidos, mal educados. Um bando de  fodidos  que odeiam  a profissão.

Mas eis que, no meu último dia na cidade maravilhosa, mais uma vez peguei o 584 para voltar a Copa e, realmente,  como se diz aqui no sul,  “me caiu os butiá” (traduzindo : fiquei pasmo, surpreso, chocado)   com o cobrador daquele horário.   

Por casualidade sentei próximo a ele, e acabei testemunhando algo mágico : qualquer um que embarcava era recebido  com um solar e belo “boa tarde”. Verdade, qualquer um.  E a saudação continuava com frases do tipo “tenha uma boa viagem” , “seja bem vindo”, etc.  

Aquilo me encantou de cara. 

Fiquei prestando a atenção e vi, durante a viagem,  pessoas subirem no lotação com ar abatido, desanimado, brochado   e mudarem a expressão ao  ouvir a saudação. 

Também vi outras, com cara de poucos amigos, que nem se davam o trabalho de responder, porém isto não tirava  o ânimo do cobrador, que continuava a saudar todos.. 

Vi sorrisos surgirem em algumas pessoas que entravam e reconheciam o rapaz.  Frases do tipo “Que tempo que eu não te via”, “Melhor agora que tu apareceu”, “Tava com saudades” e outras,  eram trocadas de lado a lado;  o que mostrava o quanto ele é querido por quem o conhece. 

Mas o melhor estava por vir.  

Alguns turistas pediam referência do local  de onde deveriam descer para ir ao Pão de Açucar. E ele deixava todos tranquilos “não se preocupem que eu aviso”.  Dito e feito. Quando chegou na parada próxima ao Rio Shopping ele anunciou  em voz alta (em português, inglês e espanhol !!!l) que era ali o local onde o povo devia desembarcar para pegar outro "bus" para o "Sugar Loaf", num “ênrrolêichon” fantástico.

Minha parada em Copa estava próxima. Rapidamente pensei : “nós somos pródigos em xingar e parcos em elogiar. Eis aqui um cara que merece elogio”. 

Decidido,  levantei  e me aproximei. “Como é teu nome ?”, perguntei. “Ramiro”, ele respondeu.  “Muito bem, Ramiro, eu quero te dar os parabéns pelo teu jeito.  Parabéns pela tua educação. Tenho um blog e vou postar um texto sobre ti. Acesse daqui a uns cinco dias que o texto vai estar lá”.   

Vi seus olhos umedecerem (e os meus também). Ele disse apenas : “Obrigado... obrigado”.

Logo desci do ônibus.   

Estava meio abobado.  Algo tinha mudado. 

Aquele breve trajeto tinha engrandecido a tarde de sexta-feira.   

Fui tomado por uma sensação de agradecimento por ter tido a oportunidade de testemunhar  o comportamento fascinante  do Ramiro.  Agradecer por conhecer sua educação, simplicidade,  disposição e  carisma.

O que testemunhei naquele ônibus redimiu toda uma classe que eu tinha julgado péssima.

É praticamente impossível que nos vejamos novamente, mas deixo registrado aqui  que o Ramiro está no mundo para fazer a diferença. 

Ramiro é alguém que enxerga sua profissão, não como um fardo e sim  como um meio de interagir e tocar a emoção das pessoas.

Ramiro sem dúvida é um artista, um talento capaz de iluminar e alegrar o dia  de quem tem o privilégio de viajar com ele na linha 584.

Parabéns mais uma vez, guri.

Saúde e felicidade pra ti.

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Post Atualizado em 14/11/2013 


Vejam que maravilha : recebi um email do Thiago (filho do Ramiro) comentando o post.


Reproduzo abaixo :
 
"Olá, desde já agradecemos pelo carinho e elogios...
Meu Pai agradece pelas palavras e falou que se não fosse por vocês, o trabalho dele seria monótono.
Ele já recebeu elogios de outras pessoas e já fizeram entrevistas com ele.
Vou lhe enviar os Links para você dar uma olhada.
Entrevista para o Canal Educação

http://www.mobilidadetv.com.br/canal-educacao?start=27&videoid=45506133&gallerylist=1#youtubegallery

Entrevista para a Resvista Indo e Vindo " Entrevista da página 27 a 31 "

http://www.revistaindoevindo.com.br/flip/11/
Já teve outras só que não as encontrei.
Desde Já Agradecemos o Carinho e o Respeito.
Tenha um excelente dia na doce Paz.

Boas Energias.

Thi Ferques."
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Reproduzo aqui o conteudo da Revista "Indo e Vindo".  

Vejam que o que registrei é absolutamente verdade.


POST ATUALIZADO EM 29/11/2013

REPORTAGEM COM O RAMILO NA GLOBO RJ




5 comments:

Niara Palma said...

Lindo texto! Realmente um sorriso pode modificar o dia de uma pessoa. E coisas que parecem simples como educação, cordialidade, carinho, são a cada dia mais raros. Parabéns Ramiro, parabéns Iuri por se deixar contagiar pela cortesia de uma pessoa tão especial.

Magarrett Dias said...

Dá-lhe, Miroco!

Manolo Dias said...

Ramiro sem dúvidas deveria ser seguido como exemplo a nossa classe.Mas o que me incomodou foi o fato de que o narrador,ter se achado capaz de julgar uma classe conhecendo talvez, nem 5% dos profissionais.Em quantos ônibus sera que ele embarca por dia?2,3,4,5,6?E mesmo assim se acha na condição de julgar o ser humano atrás da roleta!Sou motorista,e transportamos em média 500 pessoas por dia.E muitos com seus problemas externos,acabam por descontar em nós "profissionais do transito".Logicamente isso não é uma justificativa pra que se atribua aos outros o mal que nos fizeram.Mas com certeza causa um desgaste emocional.E quanto a isso pouco se fala.Talvez seja mais fácil nos julgar...

Iuri said...

Beleza, Manolo. Concordo contigo e afirmo que não se pode julgar uma classe pela atitude de um ou dois. O texto quis passar mais a idéia de um preconceito que pode surgir sim através de uns poucos (maus) exemplos (infelizmente a coisa é assim). Então, me coloquei na postura de cara preconceituoso que muda de idéia a partir de um belo exemplo para reforçar a idéia (mensagem) do texto. Reafirmo que concordo com teu comentário e agradeço por ter passado por aqui.Abração.

Marcus said...

Hoje: 10 abril de 2017. Acabei de descer do 584, aqui em Copa. Procurei avidamente descobrir tel de contato da empresa justamente para elogiar o comportamento do cobrador. Para minha grata surpresa, descobri que Ramiro já é famoso por ter causado a outros a mesma boa impressão que acabei de ter. Parabéns a ele e às demais pessoas, não pir que pensaram igual a mim, mas por me fazerem perceber que não estou sozinho no mundo no quesito "sentir-se agradecido por ter o privilégio de encontrar um ser humano de verdade".
Valeu, GRANDE RAMIRO!