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Sunday, November 17, 2013

(Autor : Iuri) O Rei do Camarote - Receita de Felicidade

Exibicionismo e ostentação ( R$ 50.0000,00 gastos em uma balada) .

Tudo jogado na cara de um país onde existem famlias que dependem de programa de bolsa-auxílio para comer. 

O autor desta façanha é o empresário Alexander Augusto de Almeida, de 39 anos, que, numa inspiração bíblica, definiu os “Dez Mandamentos do Rei do Camarote”. Ou seja, quais são as regras para “brilhar” na noite (e ser feliz).

Numa mistura patética de megalomania, exposição e asnice, Alexander lista “o que as pessoas devem fazer para ser invejadas”, como se isto fosse um bom sentimento para ser alvo.

É claro que se entende que ele vive numa sociedade onde a aparência, a vitrine, o superficial e o vazio é sinônimo de felicidade. Nesta – como todo mundo já sabe -, o que importa não é quem você é, e sim o que você tem.

Então, meu lindo, dá-lhe frustração por você (que é pobre) não ter os objetos - de grife- dos seus sonhos. 

Sim, lhe falta tudo aquilo que faz você cobiçar a situação, o status de quem pode tê-los. 

Então você -totalmente frustrado – mira com olhos desesperançados todo o luxo e riqueza do outro (cuspida na sua cara) e, ao invés de se indignar com tamanha pavonice, lamenta  :  "nunca vou ter a vida glamorosa deste cara”,  “nunca vou ter este carrão”,  “nunca vou ter esta mulherada",  “nunca vou ser o “Rei do Camarote””, “nunca vou ser tão .... f-e-l-i-z...”

Que merda, hem, meu filho? 

Veja que, de acordo com os mandamentos do Rei, seu barzinho com amigos, suas reuniões com a família, seu passeios, seu esporte, seu lazer, seu hobby, seus filhos – e tudo mais que o diverte, o emociona e lhe dá prazer– não vale nada se você não estiver montado em grifes, se você não for dono de possantes carrões, se não tiver mulheres gostosas a seu pés, se não tiver serviçais ao alcance das suas gordas gorjetas, se você não tiver um cortejo de amigos o seguindo como cachorrinhos.

O que você tem é lixo, o que você usufrui não vale nada.

O que realmente “vale para você valer alguma coisa” (sic) é a mise-en-cene, a aparência, a pirotecnia, o estardalhaço proporcionados pela grana.

Resumido, seu pobre, o que vale, o que importa para você “ser alguém” é quanta inveja, despeito e insônia que você provoca nos outros.

Portanto, vá tratar de endividar-se e ser feliz.





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Links :


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Vídeos :

Vídeo Original : O Rei do Camarote


Video versão Laz Bibaz from Vizcaya : Beesha pobre que quer causar (dar close) na balada


Friday, May 03, 2013

Livro–Pulmão de Aço / Eliana Zagui

capaEm qual gênero de literatura “Pulmão de Aço – uma vida no maior hospital do Brasil” (Editora Belaletra, 2012) e enquadra?
 
A primeira vista parece ser uma coisa tipo “auto-juda”, pois é óbvio que Eliana (e de lambuja seu grande amigo Paulo e outros mais)  é (são) um exemplo de superação, e nós, os “saudáveis”, não nos damos conta de quanto somos abençoados só pelo fato andarmos eretos.

Então ao tomarmos conta da difícil condição física dos protagonistas logo nos vem a mente frases do tipo ”se eles estão neste estado e ainda conseguem ser “felizes”, porque eu tenho que reclamar de qualquer coisinha”?

Isto é verdade, e não há  leitor que não imagine como seria sua vida se seu corpo estivesse  em alguma das  várias situações de restrição física ou de doenças relatadas no “Pulmão”.

E o livro é um compêndio de  males do organismo.  Até mesmo porque este é universo, é o dia a dia comum onde a garota (hoje uma mulher) foi criada desde os dois anos de idade. Ou seja, sua paisagem de vida, seu mundo é um quarto de hospital e tudo o que ali acontece.contracapa

Então somos introduzidos facilmente a termos do seu cotidiano, tais como poliomelite, paralisia, traumatismo, broncopneumonia, atalectasia, traqueostomia, necrose, incubação, placa mioneural, vírus,aspiradores de secreção, aparelhos respiratórios,  tapotagem, displasia crania, disformidade congênita, óbitos e muitos outros dos quais queremos manter distância eterna (ou nem saber o que são).
Isto sem falar no relato da dor, muita dor e agonia que envolvem diversos  procedimentos.

Este é um lado.

Pelo outro,  temos pela frente um ser humano na sua totalidade. Com preferncias, manias, surtos, raivas, birras, esperanças, desejos, sonhos, depressão, tristeza, alegrias, euforia,  enfim uma criatura normal.

Mas nós enxergamos um “deficiente”  assim?

Não sei.

Creio que a tendência é  não, pois  de um modo absolutamente digamos, “arrogante”, podemos olhar um corpo paralisado e, na sequência, já definir o que alguém em tal situação poderá atingir ou não em termos de “vida”;  podemos julgá-lo “incapaz” e assumir que sua intimidade (emocional, espiritual e intelectual) está automaticamente “comprometida”.

Eliana ousa e  vem para, de um modo direto e sem óbvias armadilhas emocionais, provar que as coisas não são assim.

3 anos

Em “Pulmão de Aço”, ela  compartilha sua vida (e a de vários de seus companheiros) trancada dentro do Grande Hospital das Clinicas de São Paulo (seu lar) e revela uma trajetória que, tirando a restrição motora, é semelhante a qualquer uma de nós.

Neste sentido, tirando todo um lado verdadeiramente “lacrimoso” (mas sem pieguismo) de algumas passagens – e não há quem não se emocione com várias (confesso que chorei em algumas ) -, o que me conquistou foi sua bravura em discutir determinados “tabus”, e “assuntos delicados”,  tipo a explosão de hormônios na puberdade, suas tentativas de suicídio, sua vontade de “encontrar alguém”,  o  reconhecimento da sua ingenuidade por acreditar no próximo, sua vontade de ser beijada, o reconhecimento da dura verdade sobre sua família, seu desejo de ser adotada, de ter um lar “normal” e outros mais.

Caipirinha_02
Tudo discutido de forma terna,  porém madura e segura.
Mas nem tudo são mazelas. Eliana abre espaço para as piadas, brincadeiras e acontecimentos hilários que rolam no HC e, de forma magistral descreve os sentimentos quase sufocantes de preparativos, expectativas, descobertas e alegrias que envolvem cada passeios e visitas externas.

Isto sem falar num lance tri sinistro envolvendo uma visita do Airton Senna ao local - (que mêda!!) -  quase fiquei sem dormir – Um troço bem “Premonição”.

Hospital Racho Los Amigos 1950

Quando ela fala de religião, o que mais me chocou e que me deixou salivando de ódio, foi a explicação dos “espíritas” (uma das denominações que circulam por lá para “dar apoio”) que afirmaram (em sua “mensagem de amor”) que ela e seus companheiros presos às máquinas estavam “apenas” pagando carma por terem sido “maus” em outras vidas.

Que agora estavam “em fase de resgate” para, na próxima vida,  reencarnarem felizes (alguém pode me explicar o que é reencarnar feliz? ) – e que, por isto deveriam agradecer ao Senhor pelo privilégio de estarem nesta existência. condenados a  pulmões de aço.  Só digo uma coisa: quem é o filho da puta que tem coragem de  dizer uma barbaridade  destas diante de alguém em tal situação? Com que direito estes escrotos religiosos do mal  chegam e vomitam uma … (nem sei dizer o que ), destas diante do outro?

Mas como disse o tal de Jesus: ”Pai, perdoai-os. Eles não sabem o que fazem”.... ou sabem ?

Paulo palhacinhoInfelizmente este não é o único exemplo de maldade a que eles foram exposto. A garota registra agressões, furtos e outras “maldades menores” que partiram de pessoas (profissionais) de dentro do próprio HC.

Vejam só...

Mas, felizmente, uma coisa que me caiu os butiá (em termos gaúchos : “fiquei surpreso”) foi perceber – e reconhecer – que existe sim bondade no mundo.

Eliana relata inúmeras situações onde a ação do próximo (sobre si e seus companheiros)  revela nada menos do que a bondade nua e crua.Bondade esforçada, desinteressada, direta, sem firulas.
Bondade de alguém que abre mão do seu conforto, do seu lazer, da sua preguiça e do seu umbigo para agir concretamente. Alguém que olha para o outro, se compromete e age.

Isto faz toda a diferença.

Médicos, enfermeiros, ajudantes, religiosos, visitantes, professores, celebridades, familiares (mas não no caso dela. Aliás a família sanguínea dela é muito uó) - e muitos mais.

Quanta gente realmente nobre. Parabéns a todos.

Abaixo alguns.
Dr GiovaniDr Takeda
Dr Fernando FlaquerPintando com a ajuda da professora Ursula
Tia LuAnderson e sua super mae
Zeze di CamargoFormatura Suzana
Paulo e Carlos Saldanha RioPaulo Ju Silvia e Osvaldo

Não me coloco neste patamar. E estaria sendo tri hipócrita se me comparasse com qualquer um dos “verdadeiros anjos”  que Eliana, Paulo e demais companheiros conheceram durante os anos.

Reconheço e afirmo que eu estaria muito mais para os tais de “anjos temporários”, que eles manjam muito bem.

Aquele tipo de criatura que chega toda da “vibe da luz”, cheio de jesus na cachola, prometendo ficar “para sempre ao seu lado”, só para depois de um certo tempo “cansarem” e simplesmente sumirem. Eliana não poupa estes “missionários de vitrine” que mais causam mal do que ajudam.

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Eliana e Paulo, os dois sobreviventes e amigos que ainda estão na área (vistos como exemplos de perseverança e determinação – e até utilizados como modelos de videos motivacionais).  Primeiro passeio a praia
Ela faz parte faz parte da “Associação dos Pintores com a Boca e os Pés”, com sede na Suíça. Só de dizer isto, fica claro “até onde ela chegou” ( e ela não quer parar por aí, não senhor)
Paulo faz trabalho de Web Designer e teve a oportunidade de conhecer o Carlos Saldanha, criador da série “Era do Gelo” e “”Rio”.

Por meu lado, - e isto concretamente – me obriguei a refletir sobre minha infância (60,70), onde o fantasma da poliomelite era real no Brasil. Fui poupado, mas muitas outras crianças não. Eu e Eliana somos contemporâneos. Eu cresci “caminhando”, ela cresceu “deitada”. Eu, como se diz, tô por aí (“realizado” e muitas vezes sofrendo por abobrinhas). E ela onde está? Quem de nós foi “mais longe”? Quem de nós realmente superou as dificuldades e conquistou seu sonho?
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EspatulaEliana encerra o livro de forma absolutamente grandiosa.
Sem medo de se expor, revela seu maior desejo, seu maior sonho, porém,  ao mesmo tempo, oferece uma sólida reflexão sobre as implicações e obstáculos a tal realização.
Não é um final feliz, mas é uma conclusão iluminada pela razão.
Uma conclusão alicerçada na certeza da preservação e continuidade da vida.

Recomendadíssimo.






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Abaixo, excerto do trecho que inicia o livro.

 

uso de espelhos— Voltem quando ela estiver melhor.

O casal se entreolhou. Não era a primeira vez que Thereza e Carlos Zagui levavam a filha para ser vacinada no posto de saúde de Guariba e ali ouviam a mesma história. Com febre, nada feito. Parecia uma sina. Sempre que era levada, a menina estava com dor de garganta e febre. Garganta, aliás, era seu ponto fraco. Desde os primeiros meses de vida virava e mexia aparecia uma inflamação. Vivia tomando antibióticos.

Naquele dia, o quadro febril foi o argumento dos médicos para negar-lhe as duas gotinhas contra a poliomielite. Achavam melhor não aplicar a vacina em criança com sinais de inflamação. Uma decisão hoje considerada sem embasamento científico. E, como se verá, um terrível engano.

Desde a chegada da pequena, em março de 1974, o casal não cabia em si de felicidade. Era o sonho do pai. Logo depois do nascimento do primogênito, Luiz Carlos, em 1971, ele disse à mulher que se sentiria plenamente realizado se tivessem também uma menina. Mas havia um senão. Thereza encerrara a primeira gravidez com um problema comum a muitas mães: varizes. Teve de passar por uma cirurgia. Dois médicos a advertiram de que uma nova gestação seria arriscada. Era preciso evitar. Mas aconteceu.

Caipirinha_01
Quando a gravidez acidental e inesperada se confirmou, o casal se cercou de cuidados. Thereza passou a maior parte do tempo em repouso. O obstetra sugeriu uma cesariana, a fim de evitar os esforços do parto normal. Mas a menina, afobada, por pouco não nasceu a caminho do hospital
.
Pressa foi sua marca registrada. A pequena, loirinha e de olhos claros, era esperta. Começou a andar e a falar antes de um ano. Não queria saber de colo. Preferia caminhar. De preferência, de mãos dadas com Carlos.

banhoA não ser pela garganta frágil, era saudável. Foi exatamente por isso que Carlos e Thereza estranharam quando a viram quieta demais. Como a febre persistisse, a mãe a levou ao hospital Santa Isabel, em Jaboticabal, interior de São Paulo, em busca de atendimento médico mais acurado que o dos postos de saúde da pequena Guariba.
Mãe e filha passaram a noite no hospital sem que os médicos chegassem a um diagnóstico. No dia seguinte, Carlos deixou Luiz Carlos com familiares e foi ao encontro das duas, em busca de informações. Encontrou a filha incomodada com a agulha do soro:

—     Pai, tira! Dodói!

As mãozinhas irrequietas haviam sido imobilizadas para evitar que ela removesse a agulha. Instintivamente, Carlos examinou a filha. Estranhou a falta de mobilidade, principalmente nas pernas, e chamou o médico.

Francisco Iglesias, o dr. Chiquinho, ficou preocupado:

—   Vocês precisam ir com urgência para Ribeirão Preto.

Distante 60 quilômetros de Jaboticabal, Ribeirão é historicamente uma das cidades mais bem aparelhadas e com mais recursos médicos do interior paulista. Fazia todo o sentido buscar assistência por lá. Mas a ida a Ribeirão consumiria um tempo precioso. Precioso e decisivo para o futuro da menina. Alertado pelo tom aflito na voz do dr. Chiquinho, Carlos colocou mulher e filha num táxi. A corrida até Ribeirão consumiu praticamente todo o dinheiro que tinha.Primeiro Computador

Chegaram à cidade por volta do meio-dia. Na clínica dos pediatras Mariano, Achê e Raya, o dr. Mariano suspeitou da gravidade do caso e os encaminhou ao pronto-socorro do Hospital Santa Lydia. Depois de examinar o líquor da medula espinhal, a médica que os atendeu em caráter de urgência não teve dúvida do diagnóstico: paralisia infantil.

— Não temos recursos para tratá-la aqui — disse a médica. — Vocês precisam levá-la para o Hospital das Clínicas, em São Paulo. Ela tem no máximo mais oito horas de vida...

A doença avançava depressa. A paralisia já atingira mais de 60% do corpo.
O estado de São Paulo vivia uma epidemia de poliomielite. O último grande surto antes da moléstia ser erradicada do Brasil, em 1989. Doença viral, transmitida pelo contato com fluidos corporais do doente ou por meio de água ou alimento contaminado, a pólio ataca o sistema nervoso e paralisa a musculatura. Só existem dois meios de prevenção: vacinação ou sorte.

Ginasta LigiaNas cidades menores, contava-se mais com a sorte. A vacina era rara. A imunização dependia da boa vontade das prefeituras em avisar a população e dos pais em levar as crianças para serem vacinadas.

Por ignorância, muitos pais e até profissionais da saúde deixavam a vacinação de lado. Quando os surtos ocorriam, logo se disseminavam. Um grupo de médicos que trabalhou no HC de São Paulo contou 5.789 internações entre 1955 e o final da década de 1970.

Conseguir evitar que a filha engrossasse as estatísticas de morte por pólio era questão de tempo. Pouco tempo. Não havia ambulância disponível em Ribeirão Preto. O hospital recomendou que a família retornasse a Jaboticabal e lá buscasse transporte para a capital. Vendo o desespero dos pais, um dos médicos tirou do bolso 200 cruzeiros[1] e ofereceu a Carlos. Com o dinheiro, ele pagou o táxi de volta.Casamento do Irmao

Quando os Zagui conseguiram retornar ao Santa Isabel, já passava das quatro da tarde. O quadro era grave e estava piorando. As más notícias não paravam de surgir. A única ambulância pública da cidade fora deslocada para a zona rural, para atendimento a feridos num acidente. O hospital mobilizou assistentes sociais e até a enfermagem para tentar uma solução. O próprio Carlos telefonou para o prefeito de Guariba, a quem pensava conhecer, e pediu ajuda. A resposta soou como um soco no rosto:

— Não conheço nenhuma família Zagui em Guariba.

A enfermeira Josefina Aparecida Saccani, que naquela tarde trabalhava na recepção do hospital, tentou ajudar. Inconformada, repetiu a ligação para o prefeito e ouviu a mesma resposta.
Conhecida como Fininha — não só pelo nome, mas também pela compleição magérrima —, a enfermeira não sabia o que fazer. Mesmo assim fez — e acabou se transformando no primeiro dos dois anjos que entraram na vida da família Zagui naquela tarde. Eram quase cinco horas, seu turno já havia acabado, mas ela estava determinada a não deixar o hospital enquanto o caso não fosse resolvido.

Quase em pânico, nervosa, ainda pensando sobre como agir, Fininha esbarrou no segundo anjo. No corredor do hospital, encontrou o produtor rural Tercílio Sitta.
Pedro e Paulo
A família Sitta e Fininha eram vizinhos. Moravam — e ainda moram — a poucas quadras um do outro. Fininha estudou na mesma escola que os filhos do fazendeiro. Tercílio estava no Santa Isabel por acaso. Havia levado um funcionário para suturar um corte na mão. A enfermeira o cumprimentou e arriscou:

—     Seu Tercílio, estamos com um problema. Vou pedir uma coisa, mas sei que o senhor pode me dizer não. Eu vou entender.

—    Você nem pediu ainda. Se eu puder, eu faço.

—    Temos uma menina com pólio que precisa ir urgentemente para São Paulo. Se não chegar lá até a meia-noite, ela vai morrer.

O homem estava suado, cansado de um longo dia de trabalho. Olhou nos olhos da enfermeira e respondeu:

—     Eu levo. Mas antes vou até em casa tomar um banho e avisar a família.

Tercílio conhecia a pólio de perto. Seu filho Tercilinho contraíra a doença anos antes. Tinha como sequela uma redução na mobilidade das pernas.luciana

Voltou pouco depois, de banho tomado. Passava das sete da noite quando acomodou os pais e a menina no banco traseiro da Ford Belina recém-comprada e voou para a capital. Os 350 quilômetros entre Jaboticabal e São Paulo foram cobertos em velocidade máxima. Tercílio ainda parou no primeiro posto da polícia rodoviária e avisou que iria correr muito. Explicou o motivo e pediu para não ser interceptado.

—    Peça para seus colegas da rodovia me deixarem passar — disse ao policial.

—    Está bem. Mas tenha cuidado. Além da sua, o senhor está colocando em risco a vida dessa família.

Mesmo sem estarem totalmente duplicadas, as rodovias Oswaldo Cruz e Anhanguera eram um bom caminho. Principalmente porque não tinham o volume de tráfego, os radares e os postos de pedágio de hoje. Àquela hora da noite, as pistas estavam praticamente livres.

Chegar a São Paulo foi fácil, mas encontrar o Hospital das Clínicas é que seria difícil. O fazendeiro não conhecia a cidade e decidiu não perder tempo. Ao entrar na capital, parou um táxi e pediu que o guiasse até o HC. Às 23h30, o casal deu entrada nas Clínicas com a filha nos braços e o diagnóstico na ponta da língua.

—    É paralisia infantil. Ela tem pouco tempo.

Com atendimento dedicado quase exclusivamente à doença, o socorro no Instituto de Ortopedia e Traumatologia do HC foi imediato.

Primeira ComunhaoMissão cumprida, o fazendeiro seguiu o táxi de volta até a entrada da Anhanguera, pagou a corrida e regressou para casa. No dia seguinte, voltou logo cedo ao hospital, já com outro funcionário. Fininha espantou-se a vê-lo:

—    O senhor não levou a criança pra São Paulo, seu Tercílio?

—     Levei, Fininha. Deixei a menina lá com os pais e vim embora.

Na capital, encerrados os procedimentos de internação, Thereza olhou para o relógio na parede do HC: duas e meia da manhã do dia 10 de janeiro de 1976.

Enquanto isso, os médicos corriam para salvar a vida da menina. Conseguiram evitar que a doença progredisse, mas o tempo havia sido implacável. Quando a família Zagui chegou ao hospital, pouco restava a fazer. A mobilidade do pescoço para baixo estava comprometida.

Dispensado pelos médicos, o casal voltou para Guariba pela manhã, de ônibus. Não demorou a que um vizinho os procurasse — Carlos e Thereza Zagui não tinham telefone. A filha tivera uma crise, e o hospital os chamava de volta. Era preciso correr, caso quisessem ver a filha viva.

Carlos apanhou o primeiro ônibus e voltou sozinho. Chegou ao HC à meia-noite, informou-se da situação e passou em claro a segunda madrugada seguida. Pela manhã, a menina já havia melhorado. Fora colocada num dos muitos pulmões de aço, antigos respiradores mecânicos, em funcionamento ininterrupto.

Banho de Piscina
As idas e vindas se repetiram algumas vezes. Os telefonemas não paravam e, num deles, por engano, a menina foi dada como morta. Mas foi só na quarta ou quinta corrida ao HC que Carlos Zagui se deu conta de que a batalha contra a doença estava perdida. O pulmão de aço não havia sido suficiente: pelo vidro da UTI, viu que a frágil garganta de sua filha agora tinha um orifício e uma cânula. Ela acabara de passar por uma traqueostomia.

A menina alegre não voltaria mais para casa. Correr e brincar pelo quintal eram coisas do passado. Acabara de entrar para outro universo. Um mundo em que pai, mãe, irmão, tios e avós praticamente deixavam de existir. Passaria a integrar uma nova família. Uma família formada por médicos, enfermeiros e um grupo de crianças internadas.

Passados 36 anos desde a internação, a menina é hoje, ao lado do amigo Paulo, um dos dois sobreviventes das dezenas de vítimas graves da poliomielite internadas no Hospital das Clínicas de São Paulo. O HC tem sido sua casa desde então.

Seu nome é Eliana. E esta é sua história.

Os editores

Hoje










dedicatoria
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Algumas pinturas da Eliana

































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POST ATUALIZADO EM 26/11/2013

Vejam que bacana. Não sei por que caminhos, mas todo o ano recebo um pacote de cartões natalinos do "Pintores com as Bocas e Pés". Este pacote é acompanhado de um doc que pode ser pago e, deste modo, enviar uma contribuição aos artistas. Para mim foi super legar identificar um dos cartões como da Eliana. Parecia que ela estava enviando diretamente a mim. (Vejam abaixo)

O Site da Organização pode ser acessado no link : Pintores com a Boca e os Pés


Cartão 2013 - Eliana Zagui













































































































































Saturday, January 31, 2009

Eu e Cida Moreira














Assisti o primeiríssimo show que Cida apresentou em Porto Alegre. Acho que era na primeira década dos 80´s e foi anunciado no jornal Zero Hora que uma cantora paulista estaria fazendo show com músicas da Janis Joplin naquele mesmo dia no Instituto Cultural Brasileira, “de grátis”. E só. Ninguém sabia mais nada sobre ela.


Eu e meu irmão, como fãs incondicionais da Janis, resolvemos arriscar e ver se a coisa rendia. O show foi tipo umas 18 horas e por incrível que pareça a pequena sala do cultural ficou cheia de curiosos. De repente me entra no palco uma figura –uma garota- tri esquisita com umas plumas na cabeça, uma roupa psicodélica, um cabelão acho que puxando pro vermelho. Bem freak mesmo, bem na linha Janis. Pois a tal moça era a cantora obviamente pois dirigiu-se ao piano (único instrumento em cena) e sentou-se. Ninguém aplaudiu; afinal ninguém a conhecia, ninguém nunca a tinha ouvido. A desconhecida, visivelmente nervosa, acomodou-se do jeito que pôde, sorriu, suspirou, atacou as teclas e começou a mandar o repertório.


E que repertório! Só pérolas. Coisas de Billie Hollyday (My man), Jards Macale (Vapor Barato), Beatles (Shes leaving home), e Janis obviamente (Kozmic Blues, Summertime, etc). E a medida em que ela desfiava estas e outras pérolas a magia acontecia naquela pequena sala. Ali, diante de nossos olhos, uma desconhecida transmutava-se. Tal qual uma Kali, uma Lilith, uma Morgana, o que se via era uma bruxa, uma feiticeira, uma sacerdotisa, mexendo no seu caldeirão e oferecendo sua poção sedutora a todos. E quanto mais bebíamos mais tínhamos sede daquele sortilégio. E ela abria sua boca e nos saciava diretamente com sua saliva, com sua baba, com seu grito, com sua língua, com seu som. No final estávamos rendidos, os espíritos capturados, o pacto estabelecido e a comunhão realizada.


Nem é preciso dizer que viramos fãs. E ela também gostou de Porto Alegre pois começou a vir muito pra cá. E a cada destas vezes, eu e meu irmão estávamos lá. Assistimos a vários shows, compramos os long-plays (vejam só que coisa mais arcaica) e nos interessávamos em acompanhar tudo o que surgia dela. Depois de alguns anos meu irmão morreu e eu meio que a abandonei. Obviamente vê-la me lembrava ele e eu procurava evitar maiores dores.


O engraçado é que depois de algum anos eu a vaiei em cena aberta no teatro da UFRGS. Calma, explico : o que ocorreu foi que fomos assistir a um “grande espetáculo” da famosíssima Denise Stoklos que seria o “grande encerramento” de uma edições do festival de teatro Porto Alegre em Cena, e este tal “espetáculo” teria a participação da Cida. Não me lembro o nome de tal peça (fiz questão absoluta de esquecer), mas me lembro que foi uma das coisas mais horrendas já apresentadas nos palcos dos pampas. Denise, certamente coadunada com seu ego absoluto, juntou de modo absolutamente amador e medíocre uma colagem estrambólica de referências que não levava a nada. Uma coisa totalmente patética. De repente estourou uma vaia estrondosa que imediatamente incorporamos. Gritávamos coisa do tipo “Fecha o pano!” e outras amenidades. Denise, muito atriz, muito “forte”, veio à boca de cena e agradeceu o xingamento. Cida estava no palco e quando Denise a apontou, a vaia tornou-se numa ovação (até que rimou). Ou seja, jogávamos pedra na cabeça de pinto (muito loura e espiaçada) e flores na diva Cida....


E o tempo passa, e muita coisa muda.


Chegamos ao novo século e ontem a noite eu e meu companheiro fomos ao Studio Clio para assistir o show "A dama indigna", com músicas de clima de cabaré. Chegamos lá e não tinha mais ingresso. A casa já estava lotada e o que tinha era uma lista de espera de 26 pessoas. Desistimos é claro. Porém a Amanda, secretária do Studio, nos disse que possivelmente a Cida faria um show extra e pegou nosso telefone para nos avisar caso isto acontecesse.


Voltamos para casa e quando estávamos na garagem a Amanda nos liga para informar que tinha conseguido dois ingressos para a aquela noite naquele momento. Voltamos correndo ao Studio. Os tais ingressos eram para um local de onde só poderia se ver o piano e nem sombra da Diva. Decidimos sentar nas escadas – de onde teríamos uma visão melhor – e por fim a incrível Amanda nos conseguiu dois lugares legais.


Depois de um atraso de uns 30 minutos Cida entra em cena. Que maravilha ! Agora totalmente consagrada, aplaudida, bajulada. E ela, muito deusa, senta-se ao piano (novamente o único instrumento) e larga o vozeirão. E a fascinação continua, a bruxaria permanece. O povo gritava e ela sorria. Em um determinado momento a diva comenta que o povo da platéia baixa estava aplaudindo mais. E eu gritei que não, que o povo da platéia de cima também estava gritando. Ela pára o show e pergunta quem tinha dito isto, e eu respondo “Iuri”. E ela pergunta de onde eu falo, e eu respondo “do poleiro”. Ela ri e ergue um brinde a minha pessoa. Que máximo!.


E a função continua.Eu não conhecia várias das músicas, mas ela – ciente da sua missão- apresenta cada canção, conta histórias dos autores, aproximando a platéia de cada detalhe do show.


Numa das sequencias ela começa a cantar mais uma do Tom Waits - que nunca foi um artista que tenha me interessado em particular -. Mais uma para mim desconhecida, porém bela como todas as demais. Mas esta trazia na letra as seguintes frases : “In a land there's a town / And in that town there's a house /And in that house there's a woman / And in that woman there's a heart I love / I'm gonna take it with me when I go”. O que ?! Estou ouvindo bem ! Jesus do céu, que maravilha! As lágrimas explodiram nos meus olhos. E a Cida, implacável, fez questão de lamber cada uma destas frases. Agarrei a mão do meu companheiro e meu coração se encheu de amor (que coisa mais cafona e piegas, mas fazer o que ??). - Depois descobri que a música chama-se "Take it with me".


E o evento avança. Lá no final – depois de uma versão arrasadora do Back do Black da fenomenal Amy – ela ataca de Summertime. Aí eu desabei geral. O tempo, o agora, o futuro e o ontem sumiram e eu estava novamente com meu irmão na pequena sala do Cultural assistindo ao primeiro show dela em Porto Alegre. Então eu senti a presença dele ali comigo revivendo aquele momento único nas nossas vidas. A cada nota emitida meu espírito voava, dissolvia-se num céu de lembranças de dor e alegrias.Cida nos aproximou novamente. Através dela uma memória de melancolia, de resgate, aflorou embaralhando meus sentimentos. A água agora escorria bochecha abaixo (ainda bem que tudo na maior discrição) e eu nem conseguia ver mais a cantante. Que coisa maluca.Certamente só arte pode fazer isto.


No bis, para arrematar minha destruição, a dama indigna encerrou com “Vapor Barato”.

E o que fazer depois disto? ...


Só me restou ir para casa e encher a cara de vinho.


Salve Cida !