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Monday, January 07, 2013

Filme - Amour

Amour - Poster
Confesso que para mim não é fácil assistir a um filme do Michael Haneke.   

Só consigo "atacar"  seus longas após uma “preparação”, que inclui entre outras coisas, exercitar um reforço emocional  a fim de não sair arrasado do outro lado.
 

Sim, porque depois de assistir , por exemplo, “A professora de piano”, “Cache”, “O sétimo continente”, “A fita branca” e “Violência Gratuita”, dizer que saí “perturbado” é pouco.
 

O que seus filmes me causam são, digamos, “experiências bizarras”. Isto no sentido de que acabo revolvido, moído e remoído, meio zumbi  no deserto.
 

Então, sabendo disto, porque continuo a ver suas obras ? Porque insisto em praticar este jogo masoquista ?
 

Será por ele  ser  o maior diretor de cinema em atividade ? Será porque , dentro da sua coragem, suas obras transcendem em muito a “arte cinematográfica” e acabam fuçando de forma implacável nas patologias mais darks da alma humana ? Será porque de seus filmes sempre se esperam “supresas” – terríveis é certo – e elas sempre acontecem e nos detonam ?  Será porque ele não tem piedade dos seus espectadores – e nem de seus personagens - e isto acaba nos atraindo de uma forma meio medonha? Será porque ele, de forma absolutamente fria,  muitas vezes ultrapassa os limites do “suportável”  e, mais do que “chocar”, “acaba ” com os miolos das criaturas ? Será porque dentro desta “perversidade”, ele  escancara e joga na nossa cara “naturezas humanas” (instintos, sentimentos, emoções, taras, desvios  e outras amenidades do gênero), que muitas vezes negamos , fingimos desconhecer ?
 

Não sei.
 

Eu diria que é isto tudo e muito mais, e assim permaneço fiel entre a repulsa e a fascinação.
 

Então ao sentar para assistir  “Amour” eu tinha certeza de que não sairia incólume depois de duas horas.
 

E não deu outra.
 

Acabei o filme completamente em frangalhos, totalmente depenado.
 

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Haneke dirige Emanuelle e Jean-Louis
 Premiado com a Palma de Ouro em Cannes, “Amour”  é “apenas” sobre envelhecimento e morte. 
Assim, direto, sem maquiagem nem vaselina.
 

Haneke disse que começou a escrevê-lo depois que se perguntou :  "Como é lidar com o sofrimento de alguém que amamos ?”.
 

E isto é o que o longa explora de forma soberba ao contar  a história  (ou final da ) de Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva),  um casal de cultos músicos octagenários aposentados, que moram sozinhos em um amplo apartamento em Paris ( Eles têm uma filha  - Isabelle Huppert -  que mora no estrangeiro e ocasionalmente os visita).
 

Certo dia Anne sofre  um derrame e fica com um lado do corpo paralisado.  De volta ao lar ela faz Georges prometer que, aconteça o que acontecer, ele não a mandará de volta hospital e que a cuidará em casa.
 

Georges concorda e, a partir daí, - a medida em que a doença avança -  acompanhamos a declínio físico e psíquico de Anne,  ao mesmo tempo em que testemunhamos a luta dolorosa e infrutífera do esposo  para evitar a total decadência da amada.
 

Porém Anne torna-se  cada vez mais incapaz e passa a necessitar de auxilio (profissional ou não) para tudo.  

Aos poucos perde os movimentos, a fala, o raciocínio, a razão.  Gradativamente torna-se uma “criança assustada” e desamparada, que geme, chora e chama pela mãe.
 

George   acompanha atônito a decrepitude da esposa.  Sabe-se derrotado  diante da perda inevitável da companheira mas, mesmo assim, faz tudo o  que pode para ajudá-la.
 

Tudo obviamente inútil,  e o final já é revelado no início : morte.
 

Fim.

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Falar de “interpretação” aqui é quase uma ofensa.
 

Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva estão além de qualquer elogio.
 

Ele  (outrora um ator belíssimo) estampa uma máscara de perplexidade e dor absolutamente real.
 

Ela faz uma Anne  quase “documental “.
 

Não é uma atriz o que está em cena, e sim a explicitação terrível de uma dolorosa  verdade humana.
 

Algumas de suas cenas são quase “inaterpretáveis “ (sic). Então como ela conseguiu? Isto se chama “talento”? .. ou é outra coisa misteriosa?
 

Com Emmanuelle nós praticamente testemunhamos a morte de uma pessoa e não uma atriz interpretando a morte de uma pessoa.
 

Só vendo para acreditar - e dizer mais é desnecessário.

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Georges desperta de um pesadelo
 Haneke diz que seus filmes são “Mais fácil de fazer do que ver”.
 

Isto demonstra que o maldito sabe que o povo vai enfrentar uma barra punk com suas obras, que sabe que vai incomodar e mexer com as pessoas.
 

No caso de  “Amour” , não apenas incomoda e mexe,  mas também arruína corações e mentes dos espectadores.
 

Eu simplesmente chorei.
 

E o mais apavorante é que o filme não tem nenhuma cena piegas, daquele tipo com um personagem debulhado em lágrimas sob uma orquestra de violinos.
 

Muito pelo contrário
 

O estilo frio, lento e minimalista do bruxo é absurdamente eficiente em abrir um pequeno corte através do qual ele vai  pacientemente eviscerando o incauto assistente.
 

De repente tu te pega vazio, murcho, desossado, testemunhando uma tragédia,  e tão impotente quanto os protagonistas diante do inexorável fim da existência.
 

Então o que resta fazer ? Chorar.
 

Mas tu chora  por quem ? 

Pela Anne, pelo Georges, pela morte dos teus amados ou pela certeza da tua própria ?


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Trailer abaixo 

4 comments:

Ana Maria Motta said...

Demais...compartilhei no face

Iuri said...

Obrigado por passar aqui, guria.

Volte sempre

Giovanna Wanderley said...

Excelente resenha Iuri! Acredito que o objetivo de Haneke se concretizou pois o filme apesar de ter um roteiro com fim predeterminado, dá margem a amplas interpretações a depender do ponto de vista do expectador. Fui especialmente tocada pelo filme e confesso que me surpreendi com a impressão que ficou... aprendi mais de mim, penso eu.

Iuri said...

Obrigado por passar aqui, guria. Realmente o filme é fantástico e perturbador.