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Thursday, September 30, 2004

Olga - meio atrasado



Eu não ia comentar o filme "Olga" do Jaime Monjardim até porque sei que a imensa maioria do publico está adorando. Porém, a pedido de uma amiga querida, vou deixar algumas poucas impressões a respeito desta obra. Só peço que quem realmente tenha adorado a película pare por aqui ou então tente não ficar indignado com o que irá ler, ok ?

Li o livro do Fernando Morais quando foi lançado, acho que na década de 80. Fiquei impressionado com o trabalho de pesquisa jornalística e com a narrativa documentária-romanceada-cinematográfica alcançada pelo autor. Um livro inesquecível. Qual não foi minha surpresa e alegria ao saber que o livro seria filmado tendo no papel principal a Camila Morgado, uma boa revelação neste mundo de atrizes medíocres das telenovelas. Esperei ansioso e fui para o cinema com boas expectativas.

O filme começa com a Olga já no campo de concentração à espera da execução na câmara de gás no dia seguinte. Logo ali já comecei a ter uma má impressão, quando a personagem começa a se lembrar da sua trajetória com aquele tipo de tomada cinematográfica onde o ator olha para o infinito (de frente para a camêra), faz uma cara de quem está refletindo profundamente e diz-ou pensa- algo muito relevante e íntimo. Este tipo de técnica primária se vê muito em telenovelas, principalmente as mexicanas. Mas tudo bem, vamos adiante.

A narrativa segue mostrando a personagem no início da sua trajetória política na Alemanha. Em um discurso inflamado, frente a uma platéia de militantes comunistas, a Olga me sai com esta : "Eu quero fazer treinamento militar para construir a paz no mundo!!!". Quase caí da cadeira! Que absurdo! Comecei a rir com tamanha sandice! É claro que eu sei que existem ideologias que querem transformar o mundo -para melhor- através de armas e atos terroristas. Mas mesmo assim não aguentei a estupidez proferida.

Logo a Olga é chamada para a missão de conduzir Luiz Carlos Prestes clandestino e em segurança ao Brasil. Ao tomar conhecimento da lendária Coluna Prestes, novamente a personagem olha para o infinito (de frente para a câmera é claro) e diz "Eles caminharam 22 mil quilômetros...", com uma cara sonhadora. Corta para a casa da militante : ao romper com a família burguesa (pai compreensivo e mãe negativa) a garota problema abandona o lar com uma malinha básica numa noite de muita chuva, mas muuuuiita chuva mesmo. E ela sai sem guarda-chuva, e fica mais encharcada que a pequena sereia, para reforçar a idéia de desamparo -alías em todas as cenas no filme onde rola alguma tristeza o tempo sempre está fechado (muita chuva, muita neve ou muita noite)-.

Conhecendo o Cavaleiro da Esperança ela parte para a missão de proteção: para isto ambos têm que simular estarem casados durante a viagem de transatlântico que os trará para a América. No trajeto, o romance falso vira real e eles partem da simulação para as vias de fato. A cena do primeiro beijo é constrangedora com hiper closes e uma música ensurdecedora -aproveito para registrar que a trilha sonora, cheia de violinos, invade o filme sem sutileza alguma estragando o clima das cenas ao invés de emoldurá-las. Para despistar a polícia eles acabam viajando para vários lugares até chegarem ao Brasil de avião. Aí surge outra cena risível. O Prestes mostra sua terra natal para a companheira através da janela do avião. O que se vê então são praias e matas ensolaradas em vôo rasante. Uma coisa bem morena, bem tropical.

Finalmente chegam ao Rio de Janeiro e logo se enturmam com os comunistas locais. Começam a planejar a revolução sem saber que a polícia já desconfia da movimentação. Não vou me alongar mas todo mundo sabe no que dá. Quando a casa começa a cair o publico é brindado com uma das cenas mais imbecis. Me refiro àquela onde o Prestes, antes de fugir de um esconderijo, deixa em um cofre -com uma armadilha de bomba bem furreca- todos os documentos que podem incriminar os companheiros da revolução. Ele diz então à Olga : "Vou deixar estes documentos que podem incriminar a todos aqui neste cofre". E ela responde: "Você vai deixar estes documentos que podem incriminar a todos aí neste cofre?".... Hã?... Será que eu perdi alguma coisa? -break novamente : todo o roteiro do filme é construído assim, um personagem diz uma coisa e outro reforça. Também é usada aquela tática de um personagem conversar com o outro e já aproveitar para apresentá-lo, tipo na cena onde o Vargas diz "Filinto Muller, meu chefe de polícia"-. Só um ignorante de história não saberia disto. Mas é claro, para tornar o filme mais acessível ao publico médio, tudo tem que ser bem explicadinho.

Voltando: é óbvio que o tal cofre é aberto e todos os companheiros acabam presos, inclusive o casal central. Bem aí surge a cena mais constrangedora de todo o filme : quando o Prestes e a Olga são separados, num local onde deverão prestar depoimentos separados, os dois se agarram e começam a berrar, a urrar -e a música de violinos também-. O diretor, para intensificar a dor do momento, alterna tomadas de câmera das mãos entrelaçadas, que pouco a pouco vão se separando, com closes dos dois gritando de maneira ensurdecedora. E dá-lhe violino e mais violino.Ufa !! ....

Daí pra diante a coisa melhora pois passa a se concentrar na trajetória solitária da Olga presa e grávida. O filme torna-se mais denso ao acompanhar sua maternidade agredida. Também, diga-se de passagem, quem faz o filme crescer é a volta da Fernanda Montenegro, que faz a mãe do Prestes. Ela arrebenta na interpretação. Sem gritos e sem desespero, ela consegue transmitir, apenas com leves mudanças fisionômicas, toda a gama de emoções trágicas vividas pela personagem. Realmente uma diva. A Camila também cresce e consegue passar a dor da Olga frente aos acontecimentos. Mas, infelizmente, também não posso deixar de comentar outra piada do filme : quando as prisioneiras chegam no campo de concentração o tempo está fechado (é óbvio) com muuitta neve, muita neve mesmo. E o que se vê ? Um nazista com uma maquininha de escrever de nada, debaixo de toda aquela nevasca de fim de mundo, preenchendo fichas das prisioneiras. ...Sem comentários...

O resto história todo mundo sabe: Prestes acaba preso, a filha deles é entregue à avó e a Olga é executada. Aliás a cena da execução é absurda, com a personagem dentro da câmara de gás, cercada de prisioneiras que gritam desesperadas, e ela, indiferente, novamente olhando fixamente para a câmera.

Os comentários finais do filme traem o público ao não informar que, após sua libertação, o Prestes acabou se aliando politicamente a Vargas, o homem que entregou a Olga grávida aos nazistas.

Finalizando: no cômputo geral o filme é bom, principalmente por revelar ao grande publico a trajetória de uma grande mulher. Mas pra obra-prima que muita gente apregoa é muito pouco. De qualquer forma esta é minha impressão. Desculpem qualquer coisa...


12 comments:

Mariana said...

ui.. descascandoooo...literalmente.
Bom, eu não vi o filme, mas todo mundo disse que é tudo e não sei o que. Mas agora ja sei que se for ver algum dia, não vou levar a serio depois desses teus comentarios maldosos. Mas enfim, confio em tia pq nossas opiniões são quase as mesmas pra tudo, exceto é claro, no "The Village". Aliás, kd o comentario desse filme???

beijos!!!
Mari

Anonymous said...

Iuri, concordo com sua crítica a respíto de Olga, acredito que a Globo conseguiu levar suas novelas para as grandes telas, está saindo das telinhas...

Marcio Barreto

Anonymous said...

Iuri e Cris,

eu tenho para mim que ver filmes baseados em bons livros que já lemos é uma fria muito grande... Mesmo porque, NADA se compara com o trio: livro bom + história bem contada (real ou não) + imaginação sem limites do homem... Sendo assim, ocorre o que me já me ocorreu nas poucas vezes em que vi filmes após ter lido o livro: decepção total...
Mas... Eu não havia lido Olga! Portanto, eu vi o filme com os olhos da romântica incurável que sou... E amei, e chorei, e sofri com aquele casal lindo que, apesar de se amarem muito, não puderam ficar juntos... E chorei novamente ao ver o amor triunfar, na perpetuação do amor dos dois na criança que nasceu e foi ser criada - LIVRE - por aquela avó MA-RA-VI-LHO-SA (e quem não queria uma avó daquelas?)!
Enredo água com açúcar? Talvez... Mas nada apaga a felicidade com que saí do cinema, pensando, tendo a certeza de que, por amor, tudo vale a pena...
E depois do filme? Fui correndo à livraria Leitura comprar o livro... rs
Ainda não comecei a lê-lo, porque como toda boa geminiana, estou acabando de ler outros -quatro- livros... rssssss
Mas, assim que o ler, falarei a vocês, amigos, o que achei...

Beijos carinhosos,
interessada

Anonymous said...

Então a impressão não foi só minha. Ainda bem. Pensei que eu estava ficando maluca.
barbarapollac@yahoo.com.br

Anonymous said...

Iuri

Acho que o mesmo que ocorreu comigo aconteceu com você: havíamos lido o livro de Fernando de Moraes, rico em detalhes e com um trabalho intenso de pesquisas.

Outro detalhe que me chamou a atenção foi o fato de parecer que o Monjardim, habituado demais com a televisão, manteve alguns hábitos, como por exemplo, as músicas de fundo expressando o estado de espírito do personagem, dentre outros.

Obrigada pela partilha e ainda bem que você mostrou que não fui a única a não gostar de tudo.

Beijos.

Cris Lacerda

Anonymous said...

uri,

O filme "Olga" é tão ruim assim? Acho que seus olhos são muito técnico! (rs).

Eu não assisti, mas meus amigos adoraram.

De outra forma, porque ele foi escolhido para participar do Oscar como filme estrangeiro? Será que os técnicos do Minc são tão ruins assim?

Abraços,

Hélio

Anonymous said...

Iuri:
Sabendo de outros carnavais que os filmes baseados em livros dificilmente conseguirão igualar a versão escrita, fui assistir sem intenções outras que não a de mergulhar naquele clima sem igual de escurinho, privacidade, pipoca, chocolate e coca-cola... O resultado foi uma emoção muito forte que me acompanhou até o carro, uma vontade de chorar qu durou horas... de pensar que aquilo tudo e muito mais, aconteceu acontece e continua a acontecer com muitas, incontáveis pessoas idealistas. Minha reflexão foi por outro viés, resultando na conclusão de que o mundo caminha para a destruição, a humanidade não aprende à custa de tantos erros, a história só serve ao propósito de preencher currículos escolares, escrever livros e fazer filmes... bons ou não. Somos os mesmos homens da pré-história, na sanha de matar cegamente para sobreviver. Talvez com o auxílio da tecnologia e da cultura, os objetivos sejam mascarados... Mas os fatos estão aí, em qualquer jornal, revista, na esquina, nos bailes e bares, nos lares e bancos escolares, a demonstrar que o amor é só uma palavra bonita que não logra intento em se fazer real... Felizmente subsistem e espero que continuem a existir, os heróis anônimos sonhadores, os construtores de sonho, que acreditam no amanhã, esse Amanhã que nunca chega!!!...
Desculpem se pareço pessimista, é que sou mesmo... Ninguém que se atreva a abrir os olhos poderá ser de outro jeito... Mas luto para que o bem triunfe nessa eterna luta contra o mal. E que venham outros filmes, rasteiros, superficiais, que seja... mas que venham trazendo a Esperança, de que o mundo anda sempre à cata.
Seus comentários são pertinentes, não nego e nem vou seguir a trilha, já bem delineada por você. Apenas atrevo-me a opinar que são muitas as interpretações e diversificado o alcance de uma obra tão bem feita como o filme "Olga".
Abraço e parabéns por este espaço.
Regina Makarem

Anonymous said...

Caro Iuri,

Li Olga já faz um bom tempo. Foi um dos melhores livros que já li. O livro realmente prende você.

Fui ver o filme também. Confesso que fui com uma grande expectativa. Claro, que o filme deixa a desejar se compararmos com o livro. Aliás, é muito difícil os filmes superarem os livros mas, há exceções.

Só concordo com você em dois pontos, a cena da pequena máquina de escrever no meio daquela neve toda e a perfeita interpretação da grande Fernanda Montenegro.

Pelo seu texto, parece que voce tem conhecimento técnico da sétima arte. Mesmo assim não concordo com nas demais críticas.

Achei Olga um bom filme. Por ser um filme dramático ( com teor político) acho que cabe as cenas de olhares perdidos, as cenas de desperos, os violinos e outras que citou. Olga é um tipo de filme feito pra emocionar o telespectador. Chorei na cena de separação de mãe e filha.

O filme é interessante também por mostrar um outro Vargas que pouquíssimas pessoas conhecem.


Grande abraço

HUNTER

Anonymous said...

Bobagem essa história de dizer que depois de ter lido o livro é facil de se decepcionar com um filme feito a seu respeito, que nada supera a obra escrita, que a imaginação blá, blá, blá e não sei mais o quê. Penso que a pessoa que souber assistir a um filme que for baseado em um livro, entendendo que este é a leitura de outra pessoa (no caso, o diretor do filme), pode e deve fazer suas próprias considerações a respeito de como a segunda obra, o filme, foi conduzido dentro da arte em questão, o cinema, que, desta maneira, isoladamente, pouco tem a ver com literatura e as emoções por ela suscitadas. Entendo que o Luri, com esse texto, nada mais fez do que isso, falou de suas impressões sobre o filme e do que mais ele achou que o diretor através de sua obra poderia ter atingido além das obviedades e, na minha opinião, chatices, a que já estamos acostumados. Neste sentido a crítica dele, do Luri, é tão pertinente que pode ser entendida por mim, que vi o filme, mas não li o livro.

Abraço

Dedé

Anonymous said...

Olha só, não quero te chatear com esse negócio de ficar pedindo sua opinião sobre filmes mas,... tu já olhou o "Party Monster"? Fica a sugestão...

Dedé

Anonymous said...

Gente, sobre o Olga... acho que a produção, apesar de ter feito um baita trabalho bonito, exagerou e deixou o Olga com cara de Globo... o livro de fato é mais instigante... bem mais, na cena da prisão por exemplo, eu acho que foi um pecado não terem citado que a grande Doutora NIze da Silveira estava lá com a OLga... essa mulher é outra que merece um filme. Ela foi a pioneira da luta antimanicomial e de ver os sofredores de transtorno mental como artistas, possibilitando-os outros lugares a serem ocupados.

Mas, enfim, é um bom filme, peca apenas por um exagerado esmero de produção e a trilha do Marcos Vianna que me deu nos nervos... adoro o cara, mas não colou com a dramaticidade do filme...

Bem, povo, isso é tudo, beijos

Anonymous said...

Oi, Iuri !

Vi sua resenha sobre "Olga" na "Traças" e achei bem divertida e esclarecedora.
Bem, eu não li o livro de Fernando Moraes e, sinceramente, não tenho intenções de fazê-lo e muitíssimo menos de ver esse filme que, ao que parece pelas opiniões suas e de uma amiga minha -estudante de cinema da FAAP, parece novela do Jaime Monjardim.
Ah, dispenso essas coisas.

Beijos,
Ceres
http://cerestennyou.blogspot.com