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Monday, September 13, 2004

Vá ao teatro, mas não me chame...



Teatro ! Teatro ! Quanta porcaria se cria em teu nome!

Agora aqui em Porto Alegre está acontecendo o Décimo Primeiro Festival Porto Alegre em Cena, um festival que se propõe a apresentar espetáculos teatrais nacionais e internacionais a preços populares.

Sou um apaixonado por teatro e, por isto, acompanho o festival há vários anos. Nas realizações deste evento já tive o prazer imenso de assistir peças extraordinárias encenadas com talento e competência. Mas é verdade que também já vi muita porcaria, muita droga que algum imbecil qualquer teve a pretensão de chamar de espetáculo e o displante de torná-lo público.

No Em Cena deste ano, que iniciou no final de semana passado, tive o desprazer de assitir, na seqüência, dois lixos teatrais. Um foi Otelo, de Shakespeare, encenado pelo grupo Folias d´Arte de São Paulo, e outro foi Hilda Hilst in Claustro -que apresentava um grupo de freiras ensandecidas-, encenado pelo grupo gaúcho Depósito de Teatro.

O que é engraçado, ou triste, é que estes dois espetáculos parecem ter sido originados da ignorante cartilha do teatro de vanguarda mais tosco - aquele tipo de teatro que mascara incompetência e falta de aptidão com uma proposta ridícula de transgressão e ousadia.

Esta cartilha se pauta pela obviedade, pela mesmice, mas parece que ainda tem seguidores. Ela diz que qualquer criador que queira chocar o público - e, às vezes, ser chamado de gênio- deve seguir as 11 lições seguintes :

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Lição 1 - Gritos e gemidos.

Os personagens devem gritar muuuiitoooo ou então gemer como se estivesem parindo. Devem emitir berros ensurdecedores, devem uivar, ladrar, relinchar. Emitir o texto claramente? Fazer com que o público entenda as falas? Ué? Porque?.. o que importa é a densidade dos personagens.

Otelo : a peça têm mais de três horas de duração. Deu pra entender o que os atores falavam, no máximo, uns 30 minutos.

Hilda Hilst : consegui entender uns 30% da peça.
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Lição 2 - Nudez.

Isto é imprescindível em qualquer peça moderna de vanguarda. Atores e atrizes devem aparecer nús para provar que não têm pudores. O que importa é a arte, a proposta do trabalho.

Otelo : homens nús com capa de chuva transparente, homens de fio dental, mulheres nuas se roçando nas paredes, entre outros

Hilda Hilst : seios, vaginas e nudez completa à vontade.
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Lição 3 - Sexo.

Muito sexo deve ser jogado na cara do recatado público.

Otelo : masturbação e roça-roça

Hilda Hilst : garota aprendendo fazer sexo oral, freiras lésbicas em pleno ato.
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Lição 4 - Palavrão.

Muita boca suja, muito baixo calão, aos berros na frente da audiência.

Otelo : Shakespeare realmente não merecia isto. Foi de arrebentar os nervos ver os personagens falarem tantas obcenidades.

Hilda Hilst : as freiras deveriam lavar a boca com sabão.
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Lição 5 - Cristianismo.

Para mostrar que são transgressores mesmo, estes espetáculos devem associar algum tipo de baixaria à nossa inocente moral cristã.

Otelo : não apresentou algo neste sentido, pelo que me lembro.

Hilda Hilst : muita cruz e muito Jesus associados à podridões e baixarias generalizadas.
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Lição 6 - Sangue.

De preferência espirrado pela boca. É para chocar, ainda não entendeu?

Otelo : personagem com o sexo decepado, tortura com afogamento num balde de alumínio. É óbvio que Otelo tem sangue, guerras e assassinatos, mas deram um jeito de inserir cenas sanguinolentas totalmente gratuitas.

Hilda Hilst : freira se auto-mutilando com uma tesoura, freira chicoteando outras.
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Lição 7 - Necessidades fisiológicas.

Escatologia é básica.

Otelo : personagem defecando

Hilda Hilst : freiras urinando.
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Lição 8 - Outros fluídos.

Pra mostrar que os atores se entregam mesmo à arte.

Otelo : vômito e baba bovina em vários momentos.

Hilda Hilst : vômito e baba bovina em vários momentos.
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Lição 9 - Drogas.

Dependência química dá ibope.

Otelo : personagem cheirando cocaína aos montes. Álcool também.

Hilda Hilst : nada neste sentido, mas as freiras comiam batatas como loucas (e se babavam, é claro).
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Lição 10 - Adeus palco.

Deve ser quebrada a quarta parede. O público deve ser inserido na cena; é o chamado teatro interativo.

Otelo : as arquibancadas se moviam, aproximando e afastando o público das cenas.

Hilda Hilst : a peça foi encenada no pátio de um hospital psiquiátrico. O público não sabia para que lado olhar para acompanhar a ação (ou falta de).
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Lição 11 - Mensagem.

É claro que um espetáculo destes é bem metafórico, bem simbolista. Assim, cabe ao público expremer seu próprio cérebro para captar a proposta, a mensagem, a revelação nas entrelinhas da peça.

Otelo : confesso minha ignorância, não entendi nada. Principalmente a abertura e fechamento da peça com a canção New York, New York

Hilda Hilst : confesso minha ignorância, não entendi nada. Principalmente a cena das três irmãs siamesas grudadas pela vagina.
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E o público?

Me desculpem mas também não entendo.

No Otelo teve alucinados aplaudindo em pé e gritando "bravo".

No Hilda Hilst, pelo menos as atrizes não ficaram para esperar a reação do público - cada uma se fechou num quartinho e por lá ficou-, mas mesmo assim duas pessoas aplaudiram o cenário vazio.

Acho que eles entenderam a arte...
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Ainda bem que o Em Cena ainda não terminou. Espero ver coisas boas nos próximos dias...


10 comments:

Dayse said...

Querido!
Me deste a mais saudável risada do dia.
Então não sabes, meu caro, que Porto Alegre é a cidade mais metida a intelectual e mais idiota do país com seu suburbanismo, desbundamento e teatrinho de vaidades?
Por que não te contentas com os livros? Eu tenho o Othelo aqui, posso te mandar ou te entregar pessoalmente. Anyway, seria uma delícia curtir tua ira.
A novidade do teu post, hoje, é que não há novidade nenhuma no front porto-alegrense. Como já dizia um amigo meu: "Dayse, tu não pareces gaúcha, muito menos brasileira!".
É.
Nem tu, inteligente amigo. Agora pega a chibata, castiga a ti mesmo. Depois toma um banho quente, uma aspirina, vai dormir e promete a ti mesmo que nunca mais perderás teu tempo assim.
BEIJO

Pikena said...

Nossa, Iuri... que samba do Stanislawski doido!!! *risos*
Tipo... as cenas de sexo e obscenidades do "Hilda Hilst" ainda, vai, se esforçando (muito) dá pra entender. Afinal de contas, a poesia de Hilda levava à esse clima, mesmo...mas Otelo??? Shakespeare deve ter se virado no túmulo!!!

Boa sorte nas próximas peças... :)

Anonymous said...

Oi Iuri!!!

Meu nome é Vanderson. Sou de Brasília e estou no 3º semestre do Curso de Bacharelado em Artes Cênicas.

Confesso que ao iniciar a leitura de sua msg eu pensei que me depararia c/ mais um desses metidos a entendido de teatro mas que, no fundo, não sabem diferenciar uma produção de colegial de uma produção profissional.

Posteriormente eu notei o contrário. O que vc estava relatando é muito sério. Ultimamente estou estudando Teatro Contemporâneo na facul e tenho me perguntado muito sobre para onde estamos caminhando. Se tudo o que vc disse aconteceu mesmo, isso me entristece muito.

Sempre acreditei q o teatro poderia, de uma certa forma, chocar. Afinal o pensamento humano reproduzido no teatro é capaz dessas reações. Mas parece que, nessa busca, muitos artitas estão perdendo a noção de estética, exibindo coisas vazias que não tem o mínimo de proximidade com o contexto ao qual se proporam inserir. O pior é que noto isso em artistas e companhias que possuem grande reconhecimento no cenário artístico.

Mas a sua experiência em presenciar estes espetáculos não deve ser descartada. Afinal, nós aprendemos a formar nossas opiniões dessa maneira, não é mesmo?

Um grande abraço,

Vanderson. (XIKITO).

Anonymous said...

Oi Iuri,

Vc me fez ficar morrendo de vontade de ir a Porto
Alegre para ver essas peçaas. Eu iria adorar ve-las.:-)
Pena que estou t?o longe.

Aqui em BH j? vi muitas cenas de nudez nas pe?as, mas
infelizmente nunca ningu?m transou de verdade.:-( Acho
que faltava isso nessas pe?as para eu viajar para
Poa.:-)

Abracos,

Rodrigo

Mariana said...

oi titio!!!

eu postei falando um pouco sobre isso, mas juro q estou vendo o teu post so agora, hahahahhaah... q sincronia heim???

beijosss!!!!

Mari

Mariana said...

só agora consegui ler todfo o teu post!
ai que medo!!!! ainda bem q eu não comprei ingresso pra nenhuma! lembra ano passado?? seja assaltada e vá ao teatro para esfriar a cabeça.... uiui...

beijossss!!!!!!!!!!!!!!!

Anonymous said...

Olá Iuri,

Parabéns pela crítica bem feita. Pela primeira vez, em muitos anos, vejo alguém escrever desmistificando a áurea de deuses que paira sobre o chamado “templo da cultura”.

Hoje ainda é possível ouvir artistas contando dos malabarismos que faziam para driblar a censura, na época do regime militar, e produzir um espetáculo que escapasse do habitual “pão e circo”. Reclamam que a censura os impedia de levar ao público propostas culturais densas e não alienantes. Acabou o regime militar e com ele a censura e o que é que aparece??? Espetáculos que não informam, não formam, não transformam, não divertem e se quer alienam, cujo único mérito é tirar o dinheiro do espectador.

E o público então?? Aplaude até arroto ou entrada do contra-regra que foi arrumar a cortina. Tenho assistido alguns concertos em que a qualidade da apresentação fica inferior a um ensaio medianamente sério e mesmo assim o público aplaude de pé e aos gritos de “bravo” igualando a indecência musical a uma obra de arte. Isso para não falar das produções teatrais onde os atores passam a maior parte do tempo em trajes mínimos e se arrastando pelo chão feito lagartos em alegorias que nem eles mesmos sabem explicar o que é.

Precisamos urgentemente recuperar nossa capacidade de vaiar até mesmo para valorizar aqueles produtores que trabalham com seriedade e nos brindam com trabalhos de incontestável qualidade.

Uma vez mais parabéns pela crítica bem feita e oportuna.

JotaC

Anonymous said...

Caro Iuri,

aqui no Rio de Janeiro, nas Lonas Culturais estamos com um festival parecido, o FESTIVAL DE TEATRO DAS LONAS, apoiado pelo Fundo de Apoio ao TEatro da prefeitura.
Houve um certo cuidado no selecionar das peças e produções, mas é óbvio que houveram algun pequenos desastres teatrais.
Cito-os:
.VERDES! - uma peça que trata da vida de um casal gay. poderia ser bem humorada, se a linguagem da diretora não fosse total mete hermética (crio que só ela entendia). No final da peça eu dizia para os amigos:"Eu juro, nós gays não somos tão chatos assim!"

.UM SOLDADINHO DE CHUMBO - sinceramente eu não sei onde foi que a produção enterrou R$ 25.000 para apresentar-se com bonecos de 3cm atrás de caixas de papelão pegas na hora, com o texto colado nelas
Fora a maioria em que se explicava previamente antes da apresentação: "não estamos com todo o cenário pois é muito grande e está no tetaro onde estamos em temporada"; "esta é só uma mostra do que temos no teatro em que estamos em temporada"; "nós esstávamos lendo o texto devido ao cansaço das gravações, mas no teatro em que estamos em temporada..."
Como se vê, tentativas existem aos montes. Grupos consagrados fazem uma pantomima de aplicação secular que acreditam ser ótimo e "em time que está ganhando..."; e por aí vai. Mas tivemos apresentações memoráveis como:
.AURORA DA MINHA VIDA - atores ótimos e produção melhor ainda;
.HAVANA CAFÉ - não tinham o cenário mas adaptaram da melhor maneira possível,
.RYOKAI - fizeram nevar dentro das Lonas,
.POMBA ENAMORADA - monólogo com atriz desconhecida, mas intenso e apaixonante,
.CHARLES BAUDELAIRE e INDECÊNCIA CLAMOROSA - onde atores se dedicavam com coração para a platéia,
. ORLANDO SILVA - um musical completo onde o público interagia naturalmente.

Ou seja, hão joi e trigo em tudo quanto é lugar. Cabe a nós separarmos e degustarmos o melhor. Quando não gosto de uma peça, reclamo mostrando minha indignação. É o mínimo que podemos fazer, certo?..

Alberto

Até mais e conversemos mais sobre teatro!!!!

Anonymous said...

Transcrição de um debate via mail entre o Tiago e o Jota C.

Achei muito bom e reproduzo aqui.

Iuri

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Jota C,

Gostaria de saber qual espetáculo o fez pensar assim.
A ditadura acabou, mas ainda continua a falta de incentivo à Cultura!

A maioria das cias (pelo menos aqui em São Paulo), ainda sofrem com a deficiência política na área da cultura. O Sindicato pouco faz para que essa situação minimize e a Cooperativa tenta, mas ainda é muito pouco.
A culpa não é dos artistas, o povo ainda quer "pão e circo"!
A arte não tem a função de transformar, e sim de fazer refletir. Estudo Teatro há uns 4 anos, e digo que a estética sempre tem que ser estudada antes de experimentada, não podemos fazer algo sem ter um objetivo. Existe o nada pelo nada (dadaísmo...), mas até este nada, tem que ser estudado e bem pesquisado.

Existem muitos problemas que levam as pessoas a se revoltarem com as manisfestações artísticas, seja uma exposição de pláticas, um espetáculo de teatro ou um concerto, o propósito do artista não é agradar o público e sim fazê-lo refletir sobre o trabalho...as influências pessoais, externas, estéticas...etc, muito contribuem para a crítica do público...mas isso já é
uma outra história..

Valeu! Eu achei o máximo essa discussão aqui!

Thy

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Oi Thiago,

Para nosso desespero são vários os espetáculos que são colocados na praça com essas características. Concordo com vc em quase tudo, mesmo porque eu não disse que a única função da arte fosse transformar, muito embora possa ter esse enfoque também. Afinal ninguém provoca uma reflexão apenas para passar o tempo. Toda reflexão exige uma decisão, seja ela qual for. Entretanto, temos também aqueles que querem apenas divertir ou propor uma nova modalidade estética. Nada contra. Sobre a arte não ter obrigação de agradar o público eu também concordo com você. Entretanto dinheiro público para ser gasto tem que ter a aprovação desse público. Eu não gasto o meu dinheiro com coisas que não me gratifiquem de alguma forma e acho que dinheiro público tem que produzir alguma coisa mais do que sustentar os devaneios do artista. Se alguém quer produzir obras que não são do interesse de mais ninguém que o faça às suas próprias custas. A arte pela arte é muito bom para a vaidade do artista, mas quem pagará por ela?

É possível sim encontrar caminhos para o financiamento de obras que sejam significativas para todos. O problema, e ai discordo de você, em grande parte é da classe artística sim e do narcisismo egoísta que domina grande parte deles. Tentei por diversas vezes reunir setores diferentes de artistas para que se unissem em prol de objetivos comuns. Sabe o que consegui? Brigas apoteóticas de grupos se degladiando com quirelas que nem eles mesmos sabiam de onde tinham surgido.

Houve segmentos, que para conversar, tivemos que chamar um de cada vez por conta de ódios e ressentimentos cuja origem quase sempre era tentativas de serem os únicos no segmento. Ou ainda os que conseguiam algum financiamento se consideravam donos do pote de ouro e não desejavam que ninguém mais conseguisse qualquer tipo de recurso. Por isso, deliberadamente mantinham o segredo de como obtê-lo. E os demais querem apenas que o recurso caí nas mãos deles sem qualquer cobrança.

Basta olhar para os orçamentos públicos e veremos que existe dinheiro para a cultura. Obviamente não é tudo o que se espera ou julgamos ser necessário. Mesmo assim, e incompreensivelmente, grande parte dos recursos disponibilizados não são acessados por conta da insuficiência de organização de produtores e artistas em virtude da falta de profissionalismo empresarial da classe artística.

Não tenho dúvidas quanto ao talento do artista brasileiro. Mas não há como negar que, por conta de um estrelismo injustificado, grande parte deles é desarticulada e presunçosa. Quem freqüenta os bastidores da produção cultural brasileira sabe muito bem do que estou falando. Agora, querer que a platéia pague pra se chatear (e que ainda aplauda) ou que o dinheiro público sustente devaneios de quem quer que seja, na minha opinião é pedir demais.

Um abraço,

JotaC

Zé Ninguém said...

concorod com tudo que disse..ahco que por aqui ond emoro acontece também a mesma coisa..no festival de teatro