Hino do Blog - Clique para ouvir

Hino do Blog : " ...e todas as vozes da minha cabeça, agora ... juntas. Não pára não - até o chão - elas estão descontroladas..."
Clique para ouvir

Wednesday, September 29, 2004

Com a Bandeira Brasileira no ....



Domingo passado terminou o Décimo Primeiro Festival de Teatro Porto Alegre em Cena, sobre o qual eu já tinha falado no texto “Vá ao teatro mas não me chame...”. Naquele texto eu falava das porcarias a que assisti e falava que ainda esperava ver bons espetáculos no festival. Pois bem, para minha alegria consegui assistir peças ótimas que realmente valeram a pena. Também assisti à polêmica “Samba do Crioulo Doido” que, a princípio, poderia chocar alguns desavisados.

Breve comentário sobre alguns espetáculos.
-----------------------------------------

SAMBA DO CRIOULO DOIDO

Um espetáculo de dança que chocou o governo no Maranhão. No palco surge um cenário tomado por bandeiras do Brasil formando uma tela transparente iluminada por trás. O publico vê a silhueta de uma pessoa sozinha no palco, sem poder indentificar se é homem ou mulher. Um som lento e meio tribal vai tomando conta, ouve-se a voz poderosa da Elza Soares cantando, aos poucos, a frase “ A carne mais barata do mercado é a carne negra...”. A figura começa a se movimentar e percebemos que é um homem nu. O constrangimento toma conta da platéia. Logo as luzes se acendem e vemos que o homem é um negro vestido apenas com longas botas altas. A musica vai mudando –parte mecânica, parte executada ao vivo por um percussionista- e o dançarino vai mostrando com seu corpo várias fascetas do folclore, do estereótipo do negro na cultura brasileira e, porque não, mundial.. Vê-se então o “crioulo risonho” (tipo Lois Armstrong), a mulata exportação (tipo Sargenteli), o crioulo bem dotado (que aliás quase me causou um desmaio ao ver o artista manipular o próprio pênis com certa fúria), a valorização do bundão, do bocão, etc. Porém a auge da peça ficou reservada para o final quando o bailarino Luiz de Abreu pega um grande pano, todo estampado com a bandeira brasileira, e o enfia no ânus (ou pelo menos finge enfiar) para simular uma grande cauda de vestido ou esplendor carnavalesco. A público se arrepiou. Foi realmente “sui generis”, para dizer o mínimo. No final da peça, o meu urso foi abordado por um repórter do jonal Zero Hora que solicitou a impressão dele sobre o que tinha visto. Na verdade o que o reporter esperava era um depoimento de alguém chocado, mas o urso registrou que achou o espetáculo sério, bem feito e que conseguiu retratar, somente através da dança, alguns estereótipos ridículos que os brancos pensam a respeito dos afro-brasileiros (a entrevista foi publicada no dia 20/09/2004).

---------------------------------

O QUE DIZ MOLERO

Quatro horas e meia de espetáculo! A peça começou às 21 horas e terminou perto da 1 e 30 da manhã. Uma maratona! Mas que maravilha, que beleza. Não é uma peça convencional. O que se vê no palco é a “dramatização” do texto de um livro, um “romance encenado”, um "livro falado". O texto quase literal do livro “O que diz Molero”, de um autor portugues chamado Dinis Machado, é expressado através do talento de seis atores que se desdobram em mais de 200 personagens. Uma experiência única e inesquecível.

----------------------

AS BASTIANAS

Este é o tipo de espetáculo em que todos choram. No final, da platéia aos atores, todos uniram-se nas lágrimas. Realmente excepcional. Encenado em um albergue municipal a peça conta a simples história da busca por um nome para uma menina que precisava receber um nome de santa. Dito assim a coisa parece inócua, mas não dá para descrever o universo de sensações provocadas pelo trabalho apresentado. Música, fogo, comida, dança, cristianismo, umbanda, crendices populares, tudo misturado num efervescente caldeirão mágico. Com criatividade e talento incríveis as atrizes conseguiram congregar artistas profissionais, platéia, habitantes de rua e albergados no mistério do teatro. Todos interagiram participando ativamente no desenvolvimento da história. O que se vivenciou naquele albergue foi mais do que uma experiência teatral, foi um ritual de comunhão entre os corações presentes no qual as diferenças sociais e culturais ruíram diante da força e beleza transcendentes da encenação. Foi de arrebentar os sentimentos.

-----------------------------------

Enfim o festival terminou. O saldo foi positivo com certeza. Ano que vem tem mais..

E VIVA O TEATRO !!!

-------------------------------------
Segue abaixo alguns comentários sobre as peças retirados do programa oficial do evento e mais alguma coisa da internet.

O que diz Molero :
Aderbal Freire-Filho volta ao gênero romance-em-cena, mergulhando mais uma vez no universo literário para construir a cena teatral. Tendo redescoberto o escritor brasileiro João de Minas ao apresentar ao público A Mulher Carioca aos 22 anos, iniciando, então, seu trabalho à frente do Centro de Demolição e Construção do Espetáculo, Aderbal se diz culpado de ter inventado um gênero que tem estilo e técnica próprios. A peça é uma reconstrução da vida de um personagem, o Rapaz, por meio de episódios. Os fatos e acontecimentos que construíram a vida do Rapaz são colocados ao público por dois misteriosos investigadores, Austin e Mister DeLuxe, que fazem a leitura de um relatório escrito por Molero. A vida do Rapaz é repleta de diversos personagens, responsáveis por provocar emoções e sensações diversas. É assim que ele se expõe e experimenta sentimentos como o amor, a solidão, a esperança e o sofrimento. O espetáculo recebeu o Prêmio Shell nas categorias de Melhor Diretor para Aderbal Freire Filho e melhor ator para Orã Figueiredo.
O romance e o escritor :
Dinis Machado nasceu em1930, em Lisboa. Apesar de jornalista ligado ao esporte, fez diversas críticas e ensaios cinematográficos além de ter organizado diversos festivais para a Casa da Imprensa de Lisboa entre os anos de 1958 e 1966. Dedicou-se também a edição de histórias em quadrinhos, sendo chefe de redação da publicação Tintin e Spirou. Escreveu três livros policiais sob o pseudônimo de Dennis McShade: "Mão Direita do Diabo", "Mulher e Arma com Guitarra espanhola" e "Réquiem Para D. Quixote". Além de "O Que Diz Molero", escreveu: "Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel Garcia Márquez" e "Reduto Quase Final"
Na época do lançamento de O Que Diz Molero Dinis Machado declarou ser este seu primeiro e último romance, pois tudo o que precisava ser dito estava contido ali. Vinte e cinco anos depois confirma-se o propósito do autor: o romance O Que Diz Molero é considerado um dos maiores êxitos editoriais portugueses, com mais de cem mil exemplares vendidos, e traduzido para o francês, o alemão, o espanhol, o romeno e o búlgaro.


O samba do crioulo doido :
Entre os 12 espetáculos e duas performances apresentados através do projeto Rumos Dança 2004 do Itaú Cultural, O samba do crioulo doido foi o de maior repercussão. Engajado e dotado de humor cáustico, apropria-se de símbolos nacionais para abordar preconceito, dominação, desejo e (de)formação de valores, cruzando os universos de minorias étnicas e sexuais. O espetáculo aborda a resistência do corpo negro ao exercer a subjetividade para expressar as coisas do mundo. Repensa, dentro de um contexto brasileiro, a objetivação e a carnavalização deste corpo através da história. Assim, a bandeira do Brasil é o pano de fundo e o samba é o ritmo do corpo que transgride, resiste, afirma e aponta para dentro de suas questões e para o humano, independente de sua etnia ou gênero.

As Bastianas :
Baseada em contos do primeiro livro de Gero Camilo, A Macaúba da terra, As Bastianas fala da busca de uma nova identidade e do cotidiano de uma aldeia no sertão nordestino, com suas histórias e sua religiosidade. São as mulheres que nos falam da criação, da luta pela terra e da vontade humana de amor, sabedoria e sossego. A peça recebeu indicações ao Prêmio Shell 2004 nas categorias pesquisa e adaptação teatral. O eixo principal é dado por Mato Soou..., primeiro conto do livro A Macaúba da terra. Trata da história da formação de uma vila, na qual um dia nasce uma menina que não pode ser batizada por falta de um nome santo. Sem nome, a menina cresce esquecida por todos, até o dia em que o irmão caçula, Genésio, sai em busca de missionários que teriam a solução para o problema. A vila permanece com seu cotidiano e suas histórias até o momento em que Genésio, dez anos depois, retorna à vila e reencontra sua irmã.

9 comments:

Anonymous said...

Iuri,

Obrigado pelos seus textos, os de "Porto Alegre em
Cena" foram ótimos, como é bom deparar com pessoas com
tamanha sensibilidade e disponibilidade para
compartilhar experiências de vida.

Depois de seu "banho de cultura", me resta dizer-te
que amanhã canto Carl Orff (Carmina Burana) no Teatro
Municipal de Itajaí, acompanhado claro de grande coro
e uma sinfônica inteira aí te direi como foi.

Um abraço!

Evandro

Anonymous said...

uri,

Que legal que o Festival teve boas coisas. Aqui em Sampa também está acontecendo muitas peças a preços populares (R$5,00) inclusive já coloquei no ícone "Agenda Cultural" essa dica.

Eu ainda não fui assistir a peça da Denise Stoklos, mas ainda vou....depois eu comentou se gostei, se bem como escrevi naquela época, gostos são gostos

Helio

ICARO said...

Olá... eu simplesmente AMO teatro... entretanto moro em uma cidadezinha que nunca proporciona espetáculos desse tipo.. bom... encerro aqui com um enorme abraço pra vc.. valew.

Anonymous said...

Este espetáculo foi apresentado no Piauí, Parque Nacional da Serra da Capivara ( São Raimundo Nonato), vésperas do Dia da Proclamação da Independência, con todas as autoridades políticas piauiense, imagina o escâdalo causado, o povo na primeira fila de frete com aquele negão belíssimo pelado, a primeira dama é evangélica.

Resultado, parte do público não se manifestou, os artistas e espectadores mais atenados adorou e dias depois a responsável pela seleção dos espetáculos foi demitida pelo Governador.

O artista corre o risco de ser preso por uso indevido do Símbolo Nacional.

Sidney Conrad

Anonymous said...

Este espetáculo foi apresentado no Piauí, Parque Nacional da Serra da Capivara ( São Raimundo Nonato), vésperas do Dia da Proclamação da Independência, con todas as autoridades políticas piauiense, imagina o escâdalo causado, o povo na primeira fila de frete com aquele negão belíssimo pelado, a primeira dama é evangélica.

Resultado, parte do público não se manifestou, os artistas e espectadores mais atenados adorou e dias depois a responsável pela seleção dos espetáculos foi demitida pelo Governador.

O artista corre o reico de ser preso por uso indevido do Síbolo Nacional.

Sidney Conrad

Anonymous said...

Este espetáculo foi apresentado no Piauí, Parque Nacional da Serra da Capivara ( São Raimundo Nonato), vésperas do Dia da Proclamação da Independência, con todas as autoridades políticas piauiense, imagina o escâdalo causado, o povo na primeira fila de frete com aquele negão belíssimo pelado, a primeira dama é evangélica.

Resultado, parte do público não se manifestou, os artistas e espectadores mais atenados adorou e dias depois a responsável pela seleção dos espetáculos foi demitida pelo Governador.

O artista corre o risco de ser preso por uso indevido do Síbolo Nacional.

Sidney Conrad

Mariana said...

puxa q legal! ainda bem que o melhor ficou pro final né?
e aquela peça do albergue rendeu sim.. muuuuitas lágrimas... e vcs Palmas são realmente uns insensíveis, heheheh.

beijos!!!

ps: escrevi um baita comment no post anterior mas vi agora q não saiu. Mas não vou encrever tudo de novo.
+ bjo!!!!!!!!

Dayse said...

Meu moço, quando eu crescer quero ter tempo de ir tanto ao teatro, como tu :-(

Sendo tradutora, me "divirto" com os romances que traduzo, mas às vezes nem pro cinema dá tempo.

Pelo menos, fico me inteirando das coisas contigo!

Eita cabeça boa, a tua!

Beijão.

Anonymous said...

Houve um tempo no qual não se poderia ter colocado a Bandeira do Brasil...Hoje, novos tempos e nova mentalidade já é permitido.

Penso que se é o nosso símbolo, assim como a cruz é para os católicos, podemos utilizá-lo da maneira como nos aprouver....

Mas, voltando ao assunto principal, amei a sua explanação e agradeço imensamente pela partilha, pois é uma forma de nos inteirarmos do que está acontecendo em termos de teatro.

Sempre que lhe for possível, por favor, comente a respeito, não só de teatro como de cinema.

Penso que não precisamos, no grupo, comentar só a respeito das mensagens ou do que escrevemos, podemos ampliar os assuntos.

À propósito, assistiu Olga? Gostou da indicação?

Obrigada e se tiver alguém querendo tecer comentários, por favor, o faça.

Beijos

Cris