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Friday, February 03, 2006

Mattew Sheppard - O Projeto Laramie

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Na noite de 6 de Outubro de 1998, Mattew Sheppard, um estudante de 21 anos foi sequestrado, brutalmente espancado, torturado e deixado para morrer amarrado a uma cerca num campo próximo a cidade de Laramie (Wyoming – EUA).

O motivo? ... Ser gay.

Nesta noite, Mattew estava em um bar (Fireside Lounge) quando encontrou Aaron McKinney e Russell Henderson (ambos com 21 anos). McKinney, um viciado em anfetaminas, estava buscando uma forma de conseguir mais drogas e Mattew, bem vestido e aparentando ter dinheiro (na verdade era de uma família abastada), parecia ser a presa ideal.

De acordo com McKinney, Mattew solicitou uma carona até sua casa pois tinha bebido demais. Porém ao entrar no carro dos rapazes o jovem teria se revelado gay e feito algum gesto de assédio em direção a McKinney. Isto bastou para McKinney agredi-lo com uma coronhada e exigir sua carteira.

Mattew entregou os 30 dólares que tinha consigo mas isto não foi suficiente para a agressão parar. McKinney continou a agredir o rapaz que acabou sendo levado para um local deserto no meio de um campo onde a selvageria cresceu, agora com a participação do motorista Henderson.

O garoto implorou por sua vida inutilmente. Alucinados, seus algozes o espancaram ao ponto de causar-lhe uma fratura craniana que se extendeu da parte posterior até a frente da sua cabeça.

Depois de satisfeitos, os dois torturadores partiram deixando Mattew amarrado a uma cerca sob uma temperatura enregelante.

Dezoito horas mais tarde um ciclista passou casualmente pelo local e descobriu o corpo de Mattew ainda vivo. A princípio o ciclista achou tratar-se de um espantalho, porém, para sua surpresa, ao chegar perto viu tratar-se de uma pessoa.

O rosto de Mattew estava totalmente sujo exceto nos locais onde as lágrimas escorreram.

Levado para um hospital, já em coma profundo e sem chances de recuperação, Mattew sobreviveu até o dia 12. O crime teve uma repercussão imensa na época causando polêmica em todos os EUA.

Esta história verdadeira é contada no excepcional filme “The Laramie Project” da HBO filmes que assisti ontem (mais uma vez baixei da Internet via Emule).

Com um elenco fabuloso, “The Laramie Project” , num misto de realidade e ficção, narra a história de um grupo de teatro que viaja até Laramie para entrevistar os moradores locais. A intenção do grupo é pesquisar e levantar material para a montagem de uma peça sobre o crime.

Assim, através de aproximadamente 200 entrevistas, pouco a pouco o grupo vai tomando conhecimento das várias posições e opiniões dos moradores a respeito do assassinato.

Dos que se dispõem a conversar, ninguém se revela a favor da brutalidade ocorrida porém vários demonstram fortes traços de homofobia ao criticarem, de forma velada ou ostensiva, o estilo de vida da vítima.

Por outro lado, outros tantos –amigos, professores e outros gays e lésbicas da cidade- refletem a maneira como foram afetados pelo crime com ações positivas. Militância, defesa dos direitos humanos e união acabam surgindo entre estas pessoas corajosas.

Com várias cenas comoventes (sim, chorei algumas vezes... fazer o que?), o filme revela-se um poderoso caldeirão de emoções (ódio, impotência, coragem, amor, perdão, etc).

É particularmente especial a cena onde o Padre da cidade conversa com um gay e uma lésbica do grupo teatral. Este padre revela que, na sua opinião, toda a vez que alguém usa as palavras “bicha”, "veado" e “sapatão”, de forma depreciativa, já está plantando uma semente de violência na sociedade (isto é muito verdade. Concordo integralmente).

Outra cena emocionante é quando o pai de Mattew apresenta-se diante do tribunal de julgamento de McKinney (Henderson já tinha sido condenado à prisão perpétua).
O julgamento já tinha sido encerrado, Mckinney recebeu o veredito de culpado e só estava aguardando a sentença do juiz (era certo que seria condenado à morte).

Diante de todos, o pai de Mattew lê a seguinte carta (fiz algumas adaptações):

“Meu filho Matthew não parecia um vencedor. Ele era um pouco descordenado e usou aparelho nos dentes dos 13 anos até o dia que morreu.

Entretanto, em sua vida tão breve, ele provou que era um vencedor (aqui o pai estaria se referindo às militâncias de defesas dos direitos humanos nas quais Mattew estava envolvido).

Em 6 de Outubro de 1998 meu filho tentou mostrar ao mundo que ele poderia vencer de novo. Porém em 12 de Outubro de 1998 meu primogênito e herói perdeu. Em 12 de Outubro de 1998 meu primogênito e herói morreu 50 dias antes de completar 22 anos.

Eu fico imaginando agora a mesma coisa que pensei quando o vi no hospital. O que ele se tornaria? Como ele mudaria sua parte do mundo para fazê-la melhor?

Oficialmente Matt morreu em um hospital em Fort Collins, CoIorado. Mas, na verdade, ele morreu nas cercanias de Laramie amarrado a uma cerca.

Você, Sr. McKinney, com seu amigo Sr. Henderson deixaram ele lá sozinho, mas ele não estava sozinho.

Estavam com ele velhos amigos. Amigos com quem ele cresceu.

Vocês devem estar pensando que amigos são esses.

Primeiro, ele tinha o belo céu noturno e a lua... e as mesmas estrelas que ele costumava ver pelo telescópio.

Então ele teve a luz da manhã e sol brilhando sobre ele. E todo o tempo ele estava sentindo o perfume dos pinheiros da Snowy Range.

Ele também ouviu o vento.... pela última vez ouviu o belo o sempre presente vento de Wyoming .

E ele tinha mais um amigo com ele. Ele tinha Deus.

E eu me sinto melhor sabendo que ele não estava sozinho.

O espancamento, a hospitalização e funeral de Matthew trouxeram a atenção do mundo para o ódio.

O bem está vindo do mal. As pessoas disseram: Basta!

Eu sinto saudade do meu filho mas eu tenho orgulho de poder dizer que ele era meu filho.

Judy, minha esposa, foi citada como sendo contra a pena de morte. Foi dito que Matt seria contra a pena de morte. Ambas afirmações estão erradas.

Eu também acredito na pena de morte. Não há nada que eu gostaria mais do que ver você morrer, Sr. McKinney.

Entretanto, chegou a hora de começar o processo de recuperação de mostrar piedade por alguém que se recusou a mostrar a menor piedade.

Sr. McKinney, eu vou lhe dar sua vida por mais difícil que seja fazer isso. Por causa de Matthew.

Cada vez que você comemorar Natal, aniversário, dia da independência, lembre que Matt não está.

Toda vez que acordar na sua cela na prisão lembre que você teve a oportunidade e a condição de parar seus atos naquela noite.

Você me roubou algo muito precioso e eu nunca lhe perdoarei por isso.

Sr. McKinney, eu lhe dou a vida em memória de alguém que não vive mais.

Que você tenha uma vida longa a qual deverá agradecer a Matthew por cada dia dela.

Muito obrigado.”

7 comments:

Ayala said...

O homem vai conseguir quebrar o átomo, mas não vai conseguir acabar com o preconceito!

wilson said...

aquele diálogo do filme é realmente perfeito... diz tudo.
coloquei um link lá pro seu blog, vou procurar outros que também falem desse assunto pra colocar lá tb.
flw

Homossexual e Pai said...

A Historia do Matew além de ser muito triste é uma página vergonhosa do preconceito, pela violencia e crueldade dos assassinos. Mas queria lembrar também do Aparicio Basilio da Silva, do Edson Neri e de outros homossexuais brasileiros que forma vitimas da mesma violencia, mas nunca ganharão um filme!
Iuri, excelente post e excelente descrição do filme!
parabens

Dora W said...

Sabe. Fico cansada de ler sobre preconceito, sobre violência contra homossexuais. Quem pensam que são os agressores? Eles acham que têm poder sobre nós...

Fico achando que não há solução.

Mariana said...

to bege.

quase chorei lendo isso...

Rodrigo Thor said...

muito bom o post, Iuri
tomara que esses filme cheguem
abraço

Anonymous said...

Sem comentários, tamanha eloquencia de cada letra em cada palavra e de cada palavra em cada frase.... Absolutamente comovente e sincero.
Estou chorando muito agora, ando numa fase meio difícil e ainda leio essa notícia ........
Abs, CADÚ !!!!!!!!!!!!!!