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Hino do Blog : " ...e todas as vozes da minha cabeça, agora ... juntas. Não pára não - até o chão - elas estão descontroladas..."
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Sunday, February 12, 2006

Brokeback Mountain (caminhos do desejo)

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Antes de iniciar a sessão de Brokeback Mountain eu e uma amiga estávamos discutindo sobre as dificuldades de vida das pessoas que não assumem suas emoções, paixões ou desejos.

Refletíamos que estas pessoas, além de causarem mal a sí próprias, acabam também por afetar seu meio social (casamento, filhos, amigos, etc); sendo que, muitas vezes, este meio não percebe ou não entende o que está acontecendo. Ou então percebe, mas faz questão ou prefere manter-se calado ou neutro a fim de não suscitar embates ou dores.

Falávamos de duas situações específicas : gays mal assumidos que acabam, por força do preconceito, buscando um relacionamento “normal” e pessoas casadas -ou comprometidas- que acabam tendo histórias ou até mesmo grandes paixões paralelas – muitas vezes por toda a vida-.

Mas eis que o filme começa. Não vou falar sobre o enredo pois acredito que todo mundo já tá careca de saber que a princípio –e vendo de uma forma bem simplista- Brokeback conta uma história de amor entre dois cowboys que nasce quando eles passam alguns meses retirados em uma bela montanha cuidando de ovelhas..

Mas a coisa não é bem assim. Sim, eles se apaixonam; sim, eles transam; sim eles se separam; sim, eles se reencontram, e assim por diante (até parece um novelão). Mas a obra começa a tomar uma dimensão épica emocional a partir do momento em que estes cowboys voltam para a sociedade “normal” e começam a constituir famílias, ter filhos, desenvolver relações profissionais, sociais,etc.

Então, gradativamente (num ritmo quase oriental), o filme passa a acompanhar a saga de cada um e cresce muito. A penosa necessidade de ocultar um amor proibido e, ao mesmo tempo, desenvolver uma vida social regrada é mostrada com uma riqueza de nuances e situações que perturbam.

Econômico nas falas, e sabiamente fugindo do estereótipo do bem e mal, Brokeback Mountain contempla as ações dos personagens, mostra suas ações e motivações sem julgar. É impressionante o universo emocional que se vê na tela. Esposas, amantes, filhos, pais -e, obviamente, os protagonistas- são afetados, são feridos pelo romance proibido direta ou indiretamente.

E porque tudo isto? Porque todo este sofrimento? Neste ponto o filme é revelador: quando não assumimos nossos desejos, nossas vontades e necessidades acabamos, em maior ou menor grau, nos frustrando, nos machucando e arrastando nesta negatividade pessoas ao nosso redor.

Sim, mas e daí? Onde está a culpa? De quem é a culpa por isto acontecer?

A princípio pode-se pensar que aquele que não se apropria do seu querer e parte para a ação é o errado. Aquele que não busca sua felicidade de maneira concreta acaba se desviando do caminho correto. Mas isto pode ser assim tão simples? A resposta pode ser tão imediata?

Mesmo que se possa pensar ao contrário, vivemos numa sociedade que não nos assegura o direito de chamarmos para nós mesmos as rédeas da nossa satisfação de forma positiva. O peso do medo de ser alvo de preconceito –sexual ou moral- é enorme. O julgamento, a perseguição a hostilidade subjuga e traz temor. A força das tradições, das regras sociais é feroz.

E como fica então o embate entre o desejo e o preconceito? Como fica o querer individual e a opinião alheia? As respostas podem ser muitas: encontros fortuitos, amantes, traições, romances e paixões paralelas quando se busca algum tipo de realização. Ou então, frustração, sofrimento e doença, quando a luta é para abafar e ocultar os sentimento -às vezes até para nós mesmos-.

Brokeback Mountain mostra tudo isto –e muito mais- de uma maneira soberba. Mas definitivamente não é uma obra para o grande público. Com ritmo lento, com pouquíssimas cenas de explosões emocionais, Brokeback traça um turbilhão de sentimentos que nos leva a refletir sobre o caminho que damos aos nossos desejos reais..

E mostra que quando este caminho não foi escolhido por nós, acaba por nos enredar numa teia de frustrações, mentiras e sofrimento que nos traga e fere juntamente com quem está ao nosso redor.

Filmaço!!

16 comments:

greentea said...

andas fixado nos filmes!
Não tenho ido ao cinema por aqui pois o tempo é pouco e as ocupações várias. Hoje aproveitei o sol e o dia lindo a cheirar a primavera (daqui). Um abraço.

Anonymous said...

Não vi o filme, mas suas palavras estão realmente corretíssimas. A sociedade é medíocre e nos empurra a sermos medíocres também. A diferença (não apenas sexual, mas em todas as áreas), que deveria ser encorajada, é punida com escárnio e a marginalização.

Sinto-me pessimista com relação ao futuro deste
mundo.

Julio César Mulatinho

http://esfarrapado.blogspot.com

Anonymous said...

Iuri,
Suas considerações são nteressantes, muito interessantes. Ainda que a história da "culpa", foro íntimo, fique destoando do conjunto, mas tudo bem... são idiossincrasias!
Ainda não vi o filme, mas tenho colhido os mais diversos omentários.
Pode ser que no correr desta semana eu me anime a enfrentar, baldes coca-cola, convivendo com carrinhos de mão de pipoca e celulares tocando all the time.
Mas fazer o quê???
O tempo do "cinema" acabou... agora é salinha em shopping, cinemark,
multiplex, etc...
Uma coisa...
Obrigado por suas reflexões!
Abraço
José Luiz

Homossexual e Pai said...

Dentro do que vc falou, eu fiquei "passado" com a cena em que a esposa do Enis vê eles se "cumprimentando" depois de não 4 anos sem se ver...meu Deus, imagine vc ficar 4 anos casado com alguém e em segundos ter que rever tudo que sabe da pessoa...
E esta mulher ainda ficou com o cara por vários anos...fiquei morrendo de pena dela...

Alexis P. said...
This comment has been removed by a blog administrator.
Alexis P. said...

rokeback é realmente um bom filme. Cinematograficamente falando, não há inovações, somente uma boa história bem contada. Ora, mas é isso mesmo que faz um bom filme. Também escrevi sobre ele no meu blog. www.altazorblog.blogspot.com

Belo página a sua. Voltarei mais vezes. Um abraço.

hal said...

Olá,

Obrigado pela visita ao meu blog. Gostei muito do seu post sobre o filme "Brokeback". Não vejo a hora de assistir.

Se você me permitir gostaria de remeter os leitores do meu blog ao seu. Eu colocaria um link em um dos posts ? Posso?

Um abração,
Felicidades.

Hal

Anonymous said...

Oi gente, bom dia!!!

è, eu mesmo não gostei do filme, exatamemte por algumas caracteristicas mencionadas; filme muito parado, poucas falas...

O q tirei do filme, ja cansado, foi em relação as escolhas, nisso concordo.

Eles passaram 20 anos se amando e só se viram pouquissimas vezes, ate q um belo dia se morre, e nao se vive mais.

Talvez eu realmente nao esteja preparado pra esses Grandes Filmes, do tipo Dogville, q tb nao gostei, pelas mesmas coisas, filme longo e parado demais, mas claro q tb tirei as minhas conclusoes de tal.

Mesmo nao gostando, respeito e aplaudo.

Agora a vida é um complexo mesmo, cada pessoa interpreta vc de um jeito e ao mesmo tempo vc é unico e quer ser o q vc gostaria de ser realmente.

MAs vc nao é um individuo só, vc vivie em sociedade, uma sociedade q precisa ser melhor, menos egoista, menos vaidosa. Civilizações q se interessam apenas por desenvolvimento tecnologico, enquanto o ser humnso é cada vez mais esquecido.

Temos a Floresta Amazonica maravilhosa, "nossa", e não fazemsos nada para preserva-la, e temos a Maior Potencia q nao assina o protocolo de Kioto e gera 400 bilhoes ou mihoes em guerra.

E no meio disso tudo vc e eu. Nao da pra resolver os problemas do mundo, mas dá pra consertar algumas coisas.

Dá pra nao jogar lixo no chao (deixem no onibus se for o caso ), dá pra dizer q vc ama as pessoas q vc realmente ama, mesmo q vc nao consiga falar, expresse de algum jeito, um presente, um gesto, um sorriso, uma ligaçao. E se for necessario briga, fala a verdade, abre os olhos, isso nunca matou ninguem.

Dá pra gente ser um pouco melhor do q somos, e isso já ajuda pra caramba.

Engraçado q hj lembrei de uma musica assim " e meus amigos parecem ter medo de quem fala o q sentiu, de quem pensa diferente, nos querem todos iguais, assim é bem mais facil nos controlar, e mentir, mentir, mentir, e matar matar, matar, o q eu tenho de melhor, minha esperança. Q se faça o sacrificio e cresçam logo as criancas.".

Pois é, este é o nosso mundo, nossas vidas, e se hj nao fizermos alguma coisa para sermos mais amorosos, podem ficar despreocupados, nao dura muito nao.

Força Sempre!!!!

Rayf

Anonymous said...

"Se eu soubesse o lugar certo onde colocar o desejo..." (caetano???)

Eu não vi o filme mas não resisto a participar da discussão. Na maioria das vezes a gente acha que está fazendo o melhor, está atrás dos nossos desejos. Só depois é que mudamos de opinião. Então nem sempre a questão é de simplesmente ir atrás de nossos desejos. Se nós nem os conhecemos e frequentemente nos enganamos.

Tem outra frase:

O desejo satisfeito é um erro conhecido e o novo, um erro ainda desconhecido.
(Schopenhauer, em Preleções sobre a metafísica do belo)


Roberto

Camis said...

Saí do cinema com a mesma impressão que você. O filme é magnifíco, mas, definitivamente, não foi feito para o grande público.
E não estou falando isso pq acho que as pessoas são preconceituosas. Na verdade, são. E talvez por isso, os cinemas não estivessem totalmente lotados, nem mesmo na estréia no Brasil.
Mas nem todos podem compreender a força desse verdadeiro turbilhão de emoções que explodem e também se retraem em Brokeback Mountain.
O filme incomoda. Pelo menos a mim, incomodou muito.
Passei a noite toda em reflexões e confesso, a história ainda não me saiu da cabeça. Poucos filmes fazem isso. Poucos filmes como Brokeback Mountain, valem tanto a pena serem vistos.

Anonymous said...

Realmente o filme e muito bom, tive a oportunidade de ver um pouco da minha vida naquele filme Graça a Deus eu acordei a tempo e hoje quero assumir a minha grande paixao. o Luis

Carlos Jose Araujo

greentea said...

deixei um "filme " para ti no fasesdalua. Bjs

Marcelo Bastos said...

Cara,
Pasmo eu fiquei foi com certos comentários deste post. Como as pessoas ainda tem preconceitos.
Putz!
Tem um que alardeia de forma profético-escatológica que não é bem assim, que a gente não deve dar vazão a nossos desejos. E ainda cita de forma pedante um comentário recalcado de um certamente infeliz Schopenhauer, dizendo: O desejo satisfeito é um erro conhecido e o novo, um erro ainda desconhecido.(Oh my God!!!)
Oh meu Povo! Para demonstrar Preconceito, não precisa de tanto luxo e citações metafísicas sobre o "belo". Nem lançar dúvidas sobre o sucesso ou malogro daqueles que seguem seus sonhos em um artigo que trata sobre assumir sua essência de sexualidade.Ficou bem claro que o leitor não está lançando seus infortúnios e frustações de forma genérica, mas claramente querendo atingir os homossexuais, levantando dúvidas se essa seria a melhor "escolha". Certamente a sugestão melhor de nosso pobre leitor seria administrar a frustração e infelicidade. Falemos bom português. Assumam que são preconceituosos, e não fiquem querendo de forma "cult" manifestar seu atraso em entender que o ser humano é diferente um do outro, diferente inclusive para buscar o caminho de sua felicidade da forma que sente em seu interior. Ainda tem um outro que ficou mais preocupado com um momento de desencanto da mulher do Ennis, e foi incapaz de captar toda a dor e limitações pelas quais passaram os protagonistas, que é a história principal enfocada no filme. Brokeback tem que ser massificado ao máximo para começar a abrir a cabeça de muita gente. Sou Otimista e acredito em coisas impossíveis!Amém!

Noa said...

Oi!!! Estou contente por descobrir este blog. Vi o filme e tb fiquei com a mesma sensação que vc descreve. Concordo com tudo, tudo mesmo o que vc disse. Gostaria de colocar um link do que vc escreve sobre o filme no meu blog, onde eu tb referenciei o filme. Vc se importaria?
O filme ainda não saiu da minha cabeça. É realmente uma obra prima e como vc disse, não é para o grande público. Mas isso não interessa nada.
Só a título de curiosidade, aqui em Portugal passou com o título: "O segredo de Brokeback Mountain".
Saudações

Márcia Nestardo said...

Estava pesquisando o autor Lawrence Lipton e referências cruzadas me trouxeram até aqui. Lindo este lugar onde se pode pensar, falar e sentir, sem tentar esconder verdades atrás da cortina.
Estou apaixonada.
Voltarei.
Antes quero assistir ao filme, mas logo em seguida voltarei a este e outros artigos que vi com o cantinho dos olhos.

Ganhaste uma leitora assídua.

adriana valadares said...

Concordo com seu comentário, mas vejo muito além nesse filme, nao compreendi somente a impossibilidade do amor entre iguais, mas a impossibilidade do amor pelos preconceitos, pela prisão a valores, casamento, bens e filhos, e isso vemos ao nosso lado, mesmo entre heteros, onde se deixa de viver um grande amor devido a covardia.

E muito difícil ver a pessoa que vc ama fazer o que o Ennis fazia com o Jack, pelas convicções de que nao daria certo, pelo medo, e com certeza já fizemos isso, já fizeram isso comigo, aquela cena em que o Jack vai visitar o Ennis e ele está com as filhas e entao ele vai embora, já aconteceu comigo, chorei como ele, doí demais, a gente sofre por um sim ou um nao de quem amamos, infinitamente!!!!!