Remexendo em arquivos antigos (tipo aqueles esquecidos em pen drives), achei as fotos de um viagem que fizemos a São Paulo em 2010 para assistirmos o Musical Mamma Mia e o show do Scissor Sisters, do qual éramos tri fãs.
Aproveitamos também para assistirmos a peça “O amante” (do Harold Pinter), com a Paula Burlamarqui.
Tirando a peça, que não era lá grande coisa, o resto dos programas foram ótimos.
O Musical foi excelente e o show do Scissors um sonho realizado.
Infelizmente o grupo acabou (ou deram um tempo, sei lá) , mas ficou o registro desta noite inesquecível.
Tiago Abravenel detonou em Porto Alegre na sexta passada. Num Araújo Vianna lotado, o over size performer estreiou seu show nacionalmente para uma platéia que acabou aos seus pés.
As luzes se apagam, os músicos entram no palco e um vídeo captado nas ruas de São Paulo (aparentemente), mostra várias faces anônimas revelando seus gostos musicais. E dá de tudo : rock, mpb, sertanejo, pagode, samba, jazz, funk, musica evangélica, dance, eletrônica e tudo o mais.
No final, ouve-se a voz poderosa de Tiago dizendo “E eu sou eclético (ou “gosto de tudo”, não me lembro). Sendo que o nome do show é “Eclético”
Anyway, esta é a deixa para o fofo pular (sim, pular !) para o meio do palco e começar a tocar fogo na noite. Todo de branco (a mesma cor do figurino da banda), com uma agilidade física exemplar e uma voz poderosíssima, Tiago logo arrebata a massa enfileirando um petardo atrás do outro.
Então dá-lhe Tim Maia, Seu Jorge, Chico Buarque, John Lennon, Ivete Sangalo, Sidney Magal, Psy, Funk, Jota Quest, Roberto Carlos, Chitãozinho e Xororó, Beyonce, Alcione, Gabi Amarantos, Elis Regina, Só Prá Contrariar, e muito mais, num mix alucinante e atordoante.
Chorei pelo menos duas vezes. Uma com a interpretação poderosa de “Sorrir” (música do filme “Tempos Modernos” do Charlie Chaplin, com letra de John Turner e Geoffrey Parsons) e outro no dueto entre ele e a Kesia Estácio em “Um dia de domingo”.
Tiago é um show man pronto. Simpático, sensual, cínico, divertido, dramático, irônico, debochado, atrapalhado, seguro e teatral, sua presença de palco é magnética e ele não deixa a peteca cair em ne
nhum momento.
E ele fala muito. De suas influências, da sua carreira, do seu nervosismo, da sua alegria e por aí afora. Sensualiza um monte e joga um bolão com a platéia.
O figurino é um achado. O fino terno branco do início, transforma-se num modelito brega para acabar num uniforme moleque de funkeiro. Isto passando por um visual malandro e até uma coisa traveca. Genial.
A iluminação é ótima, mas acho que poderia ser melhor explorada em alguns momentos. Os vídeos projetados sublinham diversas canções, mas confesso que meus olhos seguiam mais a figura do Tiago do que as cenas de fundo.
A banda é perfeita, com um destaque fantástico para os metais. As backings Késia e Suzana, arrebentam nos seus momentos de destaques. Isto sem falar nas coreografias divertidíssimas delas com o Divo.
O show é longo e energético. Uma tour de force para poucos, e o garoto mostra que está com todo o gás para firmar-se como um dos maiores artistas do país.
No final o Araujo transformou-se num bailão, com o povo aos berros e aos pulos acompanhando a pajelança-geléia-geral comandada pelo feiticeiro.
Não teve como não se render. Diversão e emoção total numa noite inesquecível.
A esta altura todo mundo sabe que o show
iniciou com mais de três horas de atraso.
Eu até pensei que por
aqui esta josta não ia rolar, mas que nada.
Ainda bem que estávamos
relativamente confortáveis e deu pra aguentar a espera de maneira
razoável.
A galera, como não
poderia deixar de ser, ficou puta e chamava a diva à cena entoando
“Uh, Madonna, vai tomar no cú !” , num belo gesto de carinho dos
fâs a sua rainha.
Mas, claro, todo o
stress acabou quando as luzes se apagaram e o teatrão começou.
Sim, “teatrão”, pois o que se viu no palco foi muito mais um
musical do que um show pop ou rock.
Cada passagem, cada
música é milimetricamente desenhada, detalhadamente ilustrada com
vários recursos de cena (figurinos, coreografias, cenários,
imagens, efeitos, etc). É tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo
que é impossível prestar a atenção em tudo.
É evidente o
trabalho, o cuidado, o estudo da construção dos detalhes dos diversos conceitos
apresentados.
No lado musica propriamente dito, o repertório apresenta
basicamente as canções do "MDNA" , um disco com algumas
canções poderosas e outras nem tanto. É claro que o povo
queria as mais antigonas, mas neste quesito “la cantante”
apresentou pouca coisa.
O show inicia com uma
espécie de ritual monástico, com os encapuzados cantando algo gótico e sacudindo
incensos.
O povo pira quando a Deusa surge de um confessionário
gigante e ataca de “Girl Gone Wild”.
Eu simplesmente amo a
junção de imagens sagradas com profanas (quando bem executadas), e
o início do “MDNA” é recheada delas.
Entrei em êxtase logo de
cara.
O clima se mantém lá
em cima na sequência de “Revolver” e Gang Bang”.
O teatrinho
que ela faz de “assassina” num quartinho de hotel de quinta é
matador.O que espirra de sangue a cada tiro nas cabeças dos boys é
quase surreal.
Depois ela mistura alguma coisa das antigas (como
"Papa Don’t Preach" - que é executada só pela metade,
"Hung Up", do álbum "Confessions on a Dance Floor"
(2005) - e a nova (e chata) "I don’t give A...", do
"MDNA". Do telão, a Nicki Minaj faz uma participação e
decreta : "Só há uma rainha, e ela é Madonna". O povo e
a protagonista concordam, of course.
"Express Yourself" entra arrebentando.
"Vamos lá, garotas
Vocês acreditam no
amor?
Porque tenho uma coisa
para dizer sobre ele
E é mais ou menos
assim
Não aceite o segundo
lugar, baby
Ponha seu amor à prova
Você sabe, você sabe
que tem que
Fazer com que ele
expresse o que sente
E talvez então você
saberá que o amor dele é verdadeiro
Se expresse !"
Lindo ! A citação ao "Born This Way"
no “Express..” pode ter duas interpretações : ou é uma
homenagem à “monstra”, ou é uma “denúncia” de plágio da
“monstra”. Anyway, o mash-up ficou tri bom.
Mais uma troca de roupa e a cheerleader manda
"Give Me All Your Luvin", "Turn Up the Radio" e
outras.
O lance dos integrantes da banda tocando suspensos é
fantástico (parecem soldadinhos de brinquedo)
Em “Masterpiece”, Madonna projeta imagens do
seu filme “W.E”, uma bobagem que fantasia o romance da Wallis Simpson e Edward VIII - na
verdade dizem que ele era uma biba enrustida (e simpatizante do
nazismo) e ela uma expert em segredos sexuais aprendidos em bordéis
da Ásia que deixavam a Edward siderada … (abafa !) - Mas as
imagens idílicas do casal ficaram lindas.
Particularmente especial para “moi” foi o
bloco com citações de “Justify My Love”, “Erotic” e a
completa “Human Nature”, músicas que representam (evocam) um
período de vivência, reconhecimento e afirmação de alguns aspectos sombrios da minha sexualidade.
O dança entre os espelhos que ela apresenta
na “Human...” , mostra brilhantemente uma persona em conflito entre a condenação
e o desejo (repulsa e atração no reflexo). Show de bola ! Babei novamente.
“Vogue” foi bem, mas achei o encerramento
truncado, e o pique cai muito com "I'm Addicted" e "I'm a
Sinner".
A função continua assim, com altos e baixos.
Mas o grand finale é com "Like a Prayer"
.
Aí a coisa aconteceu, o bicho pegou de verdade.
O Olímpico
virou uma catedral com o povo aos berros acompanhando a Deusa e o
coral Gospell que surgiu no palco.
Absolutely Fabulous !
E festa termina com “Celebration”, executada
vigorosamente, com a massa mandando ver na rave estrelada.
Bem, poderia ser melhor ?
Sim, no sentido de que
seria muito legal se mais das antigas fossem apresentadas.
Mas esta
não era a proposta do espetáculo e, por isto, a apresentação
“deixou a desejar” para os fâs que queriam mais clássicos
presentes (eu concordo com isto)
Mas é inegável a força da música, da imagem e
da mensagem da periguete.
O que tivemos aqui em Porto Alegre foi a presença
de uma ARTISTA, no mínimo corajosa, que sempre buscou
manifestar-se (porém nem sempre acertando), através de vários
meios - até livro infantil ela tem - na busca de discutir / trabalhar / expor de forma aberta
todos os temas que lhe são caros.
Pode-se até não gostar da sua música, da sua
dança, da sua imagem, e sei lá mais o que, mas não reconhecer sua
influência para a construção de uma realidade onde as mulheres e
os gays passaram valorizar cada vez mais seus desejos e natureza, é
ignorância.
Salve a santa.
Notas :
Madonna fez um belo discurso em homenagem às
mulheres do mundo que são aprisionadas, violentadas, torturadas,
aprejadas, só porque ousam “se expressar". Um belo recado.
Falar sobre sua forma física é redundância. Só
vendo pra crer.
Palavras que “aprendeu” em português :
caralho, safada, gostosa e periguete.
Disse que não estava muito disposta por causa
das mudanças climáticas que enfrentou por aqui, mas que, ao ver o
sorriso dos fãs tudo mudou e que estava ali para detonar.
A bandeira do Brasil que ela pegou no final do
show foi jogada ao palco pela minha sobrinha Mariana, uma fã
fanática (sic) pra dizer o mínimo.