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Nereida Vergara |
No domingo passado, dia 18, o jornal Zero Hora publicou um texto da jornalista Nereida
Vergara com o título "Meu filho é gay e eu estou bem", onde ela assume,
defende e celebra a sexualidade do filho.
O efeito, como não poderia
deixar de ser, foi bombástico no coração e mentes dos leitores.
Nas
respostas à jornalista deu de tudo, o que mostra que tipo de assunto
mexe com os conceitos e preconceitos das pessoas.
Reproduzo abaixo o texto da Nereida.
Após, postei o link
para a página onde estão os comentários dos leitores.
Inclusive um meu
que foi publicado na edição de hoje da ZH.
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MEU FILHO É GAY E EU ESTOU BEM (Nereida Vergara)
A frase do título faz parte de uma brincadeira entre mim e o meu filho
de 18 anos, que é gay. Ele sempre diz que vai mandar fazer uma camiseta
com essa mensagem, para eu andar por aí, mostrando que se pode ter um
filho gay e não ser infeliz. Chegamos a essa conversa depois de fazer
uma generalização de que há um grupo grande de pessoas que sempre olha
pra mim, a mãe, como alguém que deu à luz uma coisa de outro mundo. Não
posso sair de braço com o meu filho, ou ir com ele ao shopping, ou sair
para jantar sem que alguém observe e pense: bah, coitada, que esforço
está fazendo. Pois aqui, sem nenhuma pretensão de pregar moral a quem
quer que seja, digo, posso dizer: eu estou bem.
Há motivos, é claro, para eu ter essa visão. Como não sou cega, sempre
vi no meu menino características que não eram comuns nos outros. Desde
antes dos três anos, mostrava interesse pelos brinquedos da irmã, por
roupas e coisas de menina. Sempre foi sorridente, faceiro e amigo.
Na
escolinha, fez aulas de balé junto com as meninas (o que me rendeu uma
porção de caras feias de pais de outros meninos que achavam que o gosto
dele podia "contaminar"). E eu fui assim desafiando a ordem, colocando
meu filho em aulas de balé, de patinação artística, de desenho. Nunca
proibi que brincasse de Barbie, da mesma forma que não proibi que a irmã
brincasse de Power Rangers ou gostasse de álbuns de figurinhas de
futebol.
Teve uma época, na pré-adolescência, que meu menino fez o papel do
conquistador! Me contava de meninas que havia beijado, teve um grupo de
amigos só de meninos (a maioria ainda amigos dele até hoje, e todos
héteros, salvo alguma surpresa de que eu não tenha sido informada). Eu
ouvia o que ele dizia, me divertia até, mas os meus olhos não me
enganavam. Sempre vi a natureza dele, e amei essa natureza. Assim como
amo a irmã dele, hétero, linda, rebelde, tatuada, de cabelo raspado,
colorido. E eu nunca vi anormalidade em mim ao aceitar isso dentro do
meu coração, porque pais aceitam filhos portadores de deficiências,
aceitam filhos dependentes químicos, filhos mulherengos, alcoólatras,
porque, enfim, são filhos, nasceram de nós.
Estar bem com o meu filho gay é saber que criei um ser saudável, que tem
um bom coração, que vai ter respeito por quem amar, pelos filhos que
tiver.
Acho que se a gente se preocupasse apenas em enxergar o que está na
frente dos nossos olhos já seria um grande passo para que um filho
homossexual fosse encarado como qualquer filho. Pois é o que ele é.
Nasce assim. Como eu nasci cabeçuda e baixinha e sou muito grata por meu
pai e minha mãe terem me amado mesmo assim. Enganar-se a respeito dos
outros é uma escolha que a gente faz e a frustração decorrente disso
atormenta muitos pais de homossexuais. Não adianta esperar o que não vai
acontecer, nem querer que seu filho que gosta de menino case com uma
linda moça para fazer a infelicidade de ambos e a sua felicidade.
Quem chegou até aqui na leitura deste texto pode estar pensando: o que
essa mulher está pretendendo ao se expor assim e ao expor seu filho?
Explico. Sou partidária da ideia de que dizer a verdade em voz alta nos
liberta. Sempre tive a certeza de estar protegendo o meu menino, de
estar dando a ele o direito de crescer e se desenvolver como a pessoa
que ele nasceu. Seria hipócrita da minha parte dizer que o aceito da
porta para dentro e ensinar que da porta pra fora deveria ser outro, com
base naquilo que a sociedade convencionou como aceitável. Acredito que
antes de a gente discutir as camadas de aceitação das pessoas ditas
normais às pessoas gays (se são discretos, travestis ou transformistas)
ou o direto das pessoas gays (a união homoafetiva, a adoção de crianças,
a criminalização da homofobia) em relação aos nossos, os ditos normais,
nós, os pais de gays, devemos, enfim, abandonar o tal do armário
(estereótipo social dos mais revoltantes).
Quero muito que um dia essa minha visão predomine, que os meus filhos
possam ser admirados pelo caráter, inteligência e originalidade, e que
os filhos deles, os lindos netos que eu ainda vou ter, vivam num mundo
em que a homossexualidade, entre outras milhares de diferenças que nós,
humanos, temos, não precise ser uma causa.
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