Eu não ia comentar o filme "Olga" do Jaime Monjardim até porque sei que a imensa maioria do publico está adorando. Porém, a pedido de uma amiga querida, vou deixar algumas poucas impressões a respeito desta obra. Só peço que quem realmente tenha adorado a película pare por aqui ou então tente não ficar indignado com o que irá ler, ok ?
Li o livro do Fernando Morais quando foi lançado, acho que na década de 80. Fiquei impressionado com o trabalho de pesquisa jornalística e com a narrativa documentária-romanceada-cinematográfica alcançada pelo autor. Um livro inesquecível. Qual não foi minha surpresa e alegria ao saber que o livro seria filmado tendo no papel principal a Camila Morgado, uma boa revelação neste mundo de atrizes medíocres das telenovelas. Esperei ansioso e fui para o cinema com boas expectativas.
O filme começa com a Olga já no campo de concentração à espera da execução na câmara de gás no dia seguinte. Logo ali já comecei a ter uma má impressão, quando a personagem começa a se lembrar da sua trajetória com aquele tipo de tomada cinematográfica onde o ator olha para o infinito (de frente para a camêra), faz uma cara de quem está refletindo profundamente e diz-ou pensa- algo muito relevante e íntimo. Este tipo de técnica primária se vê muito em telenovelas, principalmente as mexicanas. Mas tudo bem, vamos adiante.
A narrativa segue mostrando a personagem no início da sua trajetória política na Alemanha. Em um discurso inflamado, frente a uma platéia de militantes comunistas, a Olga me sai com esta : "Eu quero fazer treinamento militar para construir a paz no mundo!!!". Quase caí da cadeira! Que absurdo! Comecei a rir com tamanha sandice! É claro que eu sei que existem ideologias que querem transformar o mundo -para melhor- através de armas e atos terroristas. Mas mesmo assim não aguentei a estupidez proferida.
Logo a Olga é chamada para a missão de conduzir Luiz Carlos Prestes clandestino e em segurança ao Brasil. Ao tomar conhecimento da lendária Coluna Prestes, novamente a personagem olha para o infinito (de frente para a câmera é claro) e diz "Eles caminharam 22 mil quilômetros...", com uma cara sonhadora. Corta para a casa da militante : ao romper com a família burguesa (pai compreensivo e mãe negativa) a garota problema abandona o lar com uma malinha básica numa noite de muita chuva, mas muuuuiita chuva mesmo. E ela sai sem guarda-chuva, e fica mais encharcada que a pequena sereia, para reforçar a idéia de desamparo -alías em todas as cenas no filme onde rola alguma tristeza o tempo sempre está fechado (muita chuva, muita neve ou muita noite)-.
Conhecendo o Cavaleiro da Esperança ela parte para a missão de proteção: para isto ambos têm que simular estarem casados durante a viagem de transatlântico que os trará para a América. No trajeto, o romance falso vira real e eles partem da simulação para as vias de fato. A cena do primeiro beijo é constrangedora com hiper closes e uma música ensurdecedora -aproveito para registrar que a trilha sonora, cheia de violinos, invade o filme sem sutileza alguma estragando o clima das cenas ao invés de emoldurá-las. Para despistar a polícia eles acabam viajando para vários lugares até chegarem ao Brasil de avião. Aí surge outra cena risível. O Prestes mostra sua terra natal para a companheira através da janela do avião. O que se vê então são praias e matas ensolaradas em vôo rasante. Uma coisa bem morena, bem tropical.
Finalmente chegam ao Rio de Janeiro e logo se enturmam com os comunistas locais. Começam a planejar a revolução sem saber que a polícia já desconfia da movimentação. Não vou me alongar mas todo mundo sabe no que dá. Quando a casa começa a cair o publico é brindado com uma das cenas mais imbecis. Me refiro àquela onde o Prestes, antes de fugir de um esconderijo, deixa em um cofre -com uma armadilha de bomba bem furreca- todos os documentos que podem incriminar os companheiros da revolução. Ele diz então à Olga : "Vou deixar estes documentos que podem incriminar a todos aqui neste cofre". E ela responde: "Você vai deixar estes documentos que podem incriminar a todos aí neste cofre?".... Hã?... Será que eu perdi alguma coisa? -break novamente : todo o roteiro do filme é construído assim, um personagem diz uma coisa e outro reforça. Também é usada aquela tática de um personagem conversar com o outro e já aproveitar para apresentá-lo, tipo na cena onde o Vargas diz "Filinto Muller, meu chefe de polícia"-. Só um ignorante de história não saberia disto. Mas é claro, para tornar o filme mais acessível ao publico médio, tudo tem que ser bem explicadinho.
Voltando: é óbvio que o tal cofre é aberto e todos os companheiros acabam presos, inclusive o casal central. Bem aí surge a cena mais constrangedora de todo o filme : quando o Prestes e a Olga são separados, num local onde deverão prestar depoimentos separados, os dois se agarram e começam a berrar, a urrar -e a música de violinos também-. O diretor, para intensificar a dor do momento, alterna tomadas de câmera das mãos entrelaçadas, que pouco a pouco vão se separando, com closes dos dois gritando de maneira ensurdecedora. E dá-lhe violino e mais violino.Ufa !! ....
Daí pra diante a coisa melhora pois passa a se concentrar na trajetória solitária da Olga presa e grávida. O filme torna-se mais denso ao acompanhar sua maternidade agredida. Também, diga-se de passagem, quem faz o filme crescer é a volta da Fernanda Montenegro, que faz a mãe do Prestes. Ela arrebenta na interpretação. Sem gritos e sem desespero, ela consegue transmitir, apenas com leves mudanças fisionômicas, toda a gama de emoções trágicas vividas pela personagem. Realmente uma diva. A Camila também cresce e consegue passar a dor da Olga frente aos acontecimentos. Mas, infelizmente, também não posso deixar de comentar outra piada do filme : quando as prisioneiras chegam no campo de concentração o tempo está fechado (é óbvio) com muuitta neve, muita neve mesmo. E o que se vê ? Um nazista com uma maquininha de escrever de nada, debaixo de toda aquela nevasca de fim de mundo, preenchendo fichas das prisioneiras. ...Sem comentários...
O resto história todo mundo sabe: Prestes acaba preso, a filha deles é entregue à avó e a Olga é executada. Aliás a cena da execução é absurda, com a personagem dentro da câmara de gás, cercada de prisioneiras que gritam desesperadas, e ela, indiferente, novamente olhando fixamente para a câmera.
Os comentários finais do filme traem o público ao não informar que, após sua libertação, o Prestes acabou se aliando politicamente a Vargas, o homem que entregou a Olga grávida aos nazistas.
Finalizando: no cômputo geral o filme é bom, principalmente por revelar ao grande publico a trajetória de uma grande mulher. Mas pra obra-prima que muita gente apregoa é muito pouco. De qualquer forma esta é minha impressão. Desculpem qualquer coisa...