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Hino do Blog : " ...e todas as vozes da minha cabeça, agora ... juntas. Não pára não - até o chão - elas estão descontroladas..."
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Tuesday, August 27, 2013

Peter Singer - Fronteiras do Pensamento




“A ética não se deve basear nas emoções, e sim na razão e na filosofia. Este é um grande desafio”. 
Isto dito ontem por Peter Singer, na palestra do Fórum Fronteiras do Pensamento, iluminou a noite. 

Peter falava sobre nosso entendimento e compromisso prático  com o que não vimos nem vivenciamos diretamente, como por exemplo a extrema pobreza do mundo, a destruição da atmosfera e o mau trato com os animais.

Ou seja para nós é muito mais fácil assumirmos posições sobre assuntos próximos a emoções, como o aborto e a eutanásia, do que sobre temas “distantes”, como os citados anteriormente. 

E o pior é que isto é verdade. Saindo da palestra – que teve como foco a extrema pobreza no mundo, a destruição da atmosfera, o mau trato com os animais e a extinção da raça humana -  fomos displicentemente lanchar e conversar sobre problemas  de relacionamentos conjugais, cinema, literatura, viagens e coisas afins.  

Afirmo que se o encontro tivesse como foco temas “mais quentes” o papo teria outro rumo. Porem, entre uma cerveja e outra, a palestra de um dos maiores filósofos da atualidade foi sendo descartada de acordo com o humor dos presentes. 

Pensar cansa e agir mais ainda.  

Estamos errados ? 

Nossa natureza nos puxa para zonas de conforto nas quais “o que não vimos não nos incomoda”. 

Então nada mais natural ignorar tais assuntos e acordar no dia seguinte e reclamar do frio e da chuva que está incomodando Porto Alegre.

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Reproduzo abaixo o texto que saiu na ZH de hoje sobre a palestra do mestre

 CONFERÊNCIA

Os quatro desafios da humanidade

Filósofo Peter Singer falou ontem sobre as obrigações morais das pessoas

Se você pudesse numerar os principais desafios éticos para a humanidade no século 21, quantos eles seriam? Para o filósofo australiano Peter Singer, seriam quatro: pobreza global, mudanças climáticas, tratamento dos animais e como diminuir o risco de extinção de nossa espécie.

Singer apresentou ontem à noite no Salão de Atos da UFRGS uma das palestras mais concorridas desta edição do Fronteiras do Pensamento. Com o apoio de material apresentado em Datashow, procedimento raro neste fronteiras, o filósofo mostrou dados, estatísticas e provocações sobre os principais problemas que a humanidade enfrenta neste terceiro milênio. Para ele, todos estão de alguma forma interligados.

– Vou falar muito rápido, mas espero dizer algo sobre a natureza e a complexidade desses desafios, e não quero que vocês se sintam satisfeitos com o que vou dizer, mas curiosos para buscar informações e formar sua própria opinião.

O primeiro tema abordado pelo intelectual foi a pobreza global, sintetizada em estatísticas brutais: sete milhões de crianças morrem por ano de doenças relacionadas à pobreza, males perfeitamente tratáveis com recursos irrisórios. Singer narrou uma fábula da qual tirou uma regra moral: alguém que veja uma criança se afogando deveria salvá-la mesmo correndo o risco de estragar seus melhores sapatos? Sim, de acordo com o autor de Ética Prática.

– Se temos como evitar algo ruim sem sacrificar alguma coisa da mesma de importância moral, temos a obrigação moral de agir.

Mas isto, segundo ele, não deveria valer só para uma criança se afogando. Muitos poderiam doar, sem prejuízo ou sacrifício, recursos que poderiam salvar vidas.

Poupar os animais para conter o aquecimento global

Singer dedicou parte da palestra ao problema das mudanças climáticas, provocadas muitas vezes pelos países ricos com suas altas taxas de emissões de gases causadores do efeito estufa. A perversidade do sistema é que, segundo ele, os países pobres, que pouco contribuem para a mudança climática, são os que sofrem seus maiores efeitos.

– Os países ricos estão arruinando os pobres ao excederem suas cotas de emissões. É uma questão moral vital e pouco fazemos a respeito – disse Singer.

O terceiro tópico é uma das bandeiras mais antigas de Singer, que escreveu, em 1975, Libertação Animal. De acordo com ele, não há por que submeter os animais ao tratamento cruel que a pecuária industrial em larga escala os faz sofrer – reduzindo também o risco de extinção da espécie humana. A grande quantidade de rebanhos atual contribui para o aquecimento global de modo mais intenso do que os meios de transporte: Ingerir 250 gramas de carne de gado é, em produção de metano, como dirigir em torno de 16 km num automóvel.

– Reduzir o consumo de carne é uma responsabilidade para diminuir o aquecimento global e, ao mesmo tempo, o sofrimento dos animais – convocou o pensador.

O Fronteiras do Pensamento Porto Alegre é apresentado pela Braskem e tem o patrocínio de Unimed Porto Alegre, Weinmann Laboratório, Santander, CPFL Energia, Natura e Gerdau. A promoção é do Grupo RBS. O projeto conta com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul como universidade parceira e tem parceria cultural de Unisinos, Prefeitura de Porto Alegre e Governo do Rio Grande do Sul.

carlos.moreira@zerohora.com.br
CARLOS ANDRÉ MOREIRA

Tuesday, July 02, 2013

Livro–Lágrimas de Silêncio ( Angélica - Angela Chaves)

Angela Chaves Lagrimas de Silencio_capaÉ inegável que problemas todo mundo tem.

Uns mais, outros menos, mas todos enfrentam dificuldades  em diversas ocasiões da vida. 

Frente a estes momentos, dependendo do que acontecer,  podemos achar que nosso sofrimento é o maior que alguém pode suportar.

E é mesmo, pois cada um sabe a dor que sente. 

Mas, ao lermos a história de vida da Angelica (relatada em “Lagrimas de Silencio”,  Suliani Editora ), somos obrigados a olhar nossos “problemas” e reconhecer que  se olharmos para o lado vamos ver  que nossos percalços  tornam-se quase que piadas comparados  a situações para nós impensáveis, mas que  são dura realidade para outros. 

“Lagrimas do Silencio” relata de forma crua e direta (e com uma coragem ímpar) a aterrorizante trajetória de Angélica (nome fictício da autora Angela Chaves), uma menina do interior do RS que teve sua infância destruída por uma família abusiva.

E Angela não doura a pílula. A descrição dos seus tormentos desde criança até adulta atinge níveis cada vez mais angustiantes.

Fome, frio, descaso , abandono, miséria. Surras, maldades. Abusos, ameaças. Rejeição, desprezo, tortura. Estupros, violência, incesto. Zoofilia, pedofilia. Alcoolismo, prostituição, exploração, assassinato. Loucura, depressão, tentativas de suicídio. Tudo isto foi realidade na sua vida.

E ela acabou dando a luz a duas crianças frutos deste universo de desgraças. Uma filha do seu próprio pai e outra de seu meio irmão.

O livro é curto, de poucas páginas, porém assustador, pavoroso.

Senti medo de ir adiante diversas vezes. O espiral  de sofrimento da menina parece não ter fim. Quando achamos que o ápice da maldade aconteceu, sucede-se outro, e outro, e mais outro. E somos convidados a  testemunhar tudo impotentes, paralisados, incrédulos.

Como Angela mesmo diz, as palavras são insuficientes para expressar sua dor. E ao lermos sua história, concordamos. Se para nós leitores não existem palavras que expressem o choque ao tomarmos o conhecimento da sua infância arruinada, quanto mais para ela que tenta transmitir em texto a tragédia de sua alma dilacerada.Angela Chaves Lagrimas de Silencio_back

Depois de fechar o livro, acabei me lembrando das palavras finais  o personagem Kurtz em “Coração das Trevas” de Joseph Conrad, diante do reconhecimento da maldade humana :

“O horror, o horror”.

E acrescento :

O incompreensível, o inexplicável, o abominável, o execrável, o aterrorizante, o paralisante, o  inominável, , o odioso.

Nem mesmo recorrendo  a todas as palavras do dicionário que lembrem “inferno”  e / ou “sofrimento”  serão suficientes para, remotamente, descrever o massacre do corpo, alma e  mente da menina gaucha, perpetrado  por uma família e circunvizinhos absolutamente doentes.

Angela é uma vencedora.

Tive oportunidade de abraçá-la ao adquirir o livro. Tudo muito rápido e gentil.

Porém o poder de sua história me marcou para sempre.

E isto, afirmo, acontecerá com qualquer um que a conheça.

montagemlivro

Para adquirir o livro, envie um mail diretamente para Angela que ela passa as orientações

angellatchaves@gmail.com

Wednesday, June 26, 2013

V de Vingança e a tomada das ruas

A esta altura do campeonato só mesmo um ET poderia desconhecer o que está acontecendo no Brasil. Finalmente a massa ocupou as ruas e grita suas reinvindicações a plenos pulmões. Chega de marasmo e obedecer tudo como cordeirinhos.

Estive participando das manifestações e digo que dá de tudo no bolo de gente. Pessoas realmente bem intecionadas com suas mensagens em cartazes e gritos , grupos oportunistas querendo pegar uma casquinha do momento até, realmente, gangues organizadas para depredar e roubar.

No meio de tudo isto, um personagem, destaca-se. É o Anonymous, personagem do filme “V de Vingança” (que por sua vez foi baseado numa HQ), que, como diz seu nome, anonimamente divulga sua mensagem de rebeldia e assim estimula o povo a tomar as ruas e mudar a ordem vigente.

O filme é de 2006 e seu recado é clássico. Vem exatamente na linha da construção de respostas revolucionárias para mudar o status, mudar uma sociedade distópica.

Na época me caiu os butiá a cena que o V (Hugo Weaving) dança com a Evey Hammond (Natalie Portman), ao som de “I´m a Bird Girl Now”, do Antony and the Johnsons, um grupo que amo.

Fiquei tao impressionado que peguei o clipe e legendei.

Como agora o V voltou a baila, divulgo novamente esta beleza.

A Zero Hora publicou hoje uma materia sobre o Anonymous Brasil.

Eu realmente não tenho opinião formada a respeito do assunto, porém minha tendência é desconfiar de tudo aquilo que se oculta atrás de máscaras.

Reproduzo a matéria abaixo.

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A máscara do protesto

Com inúmeras bandeiras de reivindicações, as multidões que desfilam pelas ruas do país se identificaram com uma face. A de um grupo que age no anonimato na internet e arrebata seguidores com um discurso crítico.


OWikileaks ganhou um parceiro de peso em vazamentos de segredos na internet. É o Anonymous, que é um grupo e também pode ser ninguém. Ele não tem rosto, mas sua máscara virou viral nos protestos que galvanizam o país. Ele só se comunica pelo YouTube e Facebook, está cheio de cópias falsas pelas ruas e nem mesmo se sabe se é um sujeito, um evento ou um holograma. Tudo que se conhece dele é que imita a fisionomia de Guy Fawkes, o herói do filme V de Vingança. Baseado num personagem real, um rebelde vingativo anti-monarquista, é a inspiração do grupo de ciberativistas que quer mudar à força a política no planeta – e no Brasil.

Para uns, o Anonymous é uma organização direitista disfarçada e preocupada em atacar a esquerda no poder e o governo Dilma em particular. É verdade que não tem economizado em críticas à presidente brasileira. Mas os conservadores também têm queixas: o Anonymous, para eles, é a figura do anarquismo e do caos, pregando a desordem nas ruas e partilha de lucros de alguns empresários, como os do transporte coletivo. O certo é que, nas passeatas, o mascarado com pseudônimo virou cult entre crianças e velhos, que desfilam com sua face plástica e o bigodinho de mosqueteiro, e seus argumentos estão na boca de jovens que estão indo às ruas.

A figura é simpática, mas não inofensiva. Isso porque o Anonymous bisbilhota e usa táticas de hacker, na tentativa de divulgar suas causas. O site anonymousbrasil.com divulgou, semana passada, dados privados do governador do Rio, Sérgio Cabral, do secretário da Segurança Pública (o gaúcho José Mariano Beltrame), do polêmico pastor e deputado federal Marco Feliciano e dos jogadores Ronaldo Nazário e Pelé. Exibiu telefones, CPFs, listas de empresas, dados de faturamento. Em outros posts, expôs relatórios confidenciais das PMs brasileiras, incluindo e-mails pessoais de oficiais, pirateados, locais de blitze, contabilização de despesas. Quando um homem atropelou manifestantes em Ribeirão Preto, há pouco mais de uma semana, o Anonymous logo postou informações pessoais sobre ele no seu site. A tática em tudo imita o Wikileaks do proscrito Julian Assange, e o Anonymous faz questão de confirmar isso.

O que é o Anonymous? Quem são seus integrantes? Zero Hora perguntou isso aos organizadores do site, mas não obteve resposta. É certo que não se trata de um simples grupo de amadores a improvisar uma revolta via mídias sociais. Foi em junho de 2011 que o primeiro vídeo dessa organização, com nítida inspiração anarquista, vazou no YouTube, em meio a protestos na Europa. É coisa de profissional, tem qualidade publicitária. Abre com uma vinheta caprichada, um globo, sugerindo a universalidade do grupo. Logo depois vem o emblema da ONU, encimado por um ponto de interrogação. Surge finalmente na tela o protagonista, um mascarado, com voz modulada, ao estilo locutor de rádio, masterizada e dublada no idioma do público-ouvinte: português, quando no Brasil, ou inglês com tradução.

Especialista define como “o rosto da manifestação”

A voz do mascarado é séria, às vezes feminina, hipnótica, lembra algo do filme 1984 e do Grande Irmão (Big Brother) descrito por George Orwell, aquele que controla a tudo e a todos. Mas a mensagem é o oposto disso: prega descontrole, rebelião, ao estilo “contra tudo que está aí”. O homem sem rosto e com linguajar refinado fala que um dia acordou e decidiu lutar. Seu campo de batalha é o ciberespaço. Seu recado é para “multidões que não têm voz, oprimidas pelos detentores de poderes públicos e privados”. Slogans que lembram os anarquistas do século 19, mas impulsionados por tecnologia do século 21.
Especialista e estudioso de mídias sociais, o professor na Unisinos Felipe de Oliveira explica que a falta de identidade é proposital no Anonymous, para poder realizar ações clandestinas, como a invasão de sites governamentais ou privados. O que espanta o pesquisador é que o mascarado anônimo imprimiu sua cara nos protestos, literalmente. Organizado dentro da internet e dali saindo para as ruas, o grupo é sucesso de mídia (1,6 milhão de acessos numa resposta ao colunista global Arnaldo Jabor).
– É o rosto dessa mobilização, gostem ou não – diz Oliveira.
humberto.trezzi@zerohora.com.br

Sobram críticas a todos

Slogans não faltam ao Anonymous. No Brasil, a organização prega um levante popular “para acabar com a farra de imoralidade que vivemos em nosso país e em outras partes do mundo”. Os ciberativistas dizem que seus motivos são tão válidos como os da Turquia... porque o Brasil não tem escolas em número suficiente, hospitais, postos de saúde, boas estradas, transporte.


– Enquanto isso, o governo gasta milhões com estádios de futebol e nas Olimpíadas. Importar médicos de outros países é fácil... quero ver formar os seus e zelar para que eles não saiam do país. Nós temos motivos, sim, para lutar. E é por muito mais que R$ 0,20 – diz o mascarado, em um dos vídeos.


Entre as causas defendidas está o apoio a que promotores continuem investigando e a que reclama da taxação excessiva a que os brasileiros são submetidos.


– A PEC 37 (rejeitada ontem pelos deputados) é outro absurdo e terá sua vez nos protestos. E não venha dizer que somos revoltosos de classe média. Pagamos mais impostos que qualquer outro país do mundo e temos em retorno a pior educação e saúde... vocês realmente achavam que essa apatia do povo seria eterna? Merecemos mais que isso. Vamos fazer o que nossos pais não conseguiram na década de 80, vamos recriar a democracia. E mostrar que as autoridades estão aqui para nos servir e não para nos explorar. Sua hora vai chegar – avisa o mascarado, com voz metálica.

Tuesday, June 11, 2013

Show–Tiago Abravanel

Tiago Abravenel detonou em Porto Alegre na sexta passada. Num Araújo Vianna lotado, o over size performer estreiou seu show nacionalmente para uma platéia que acabou aos seus pés.

As luzes se apagam, os músicos entram no palco e um vídeo captado nas ruas de São Paulo (aparentemente), mostra várias faces anônimas revelando seus gostos musicais. E dá de tudo : rock, mpb, sertanejo, pagode, samba, jazz, funk, musica evangélica, dance, eletrônica e tudo o mais.

No final, ouve-se a voz poderosa de Tiago dizendo “E eu sou eclético (ou “gosto de tudo”, não me lembro). Sendo que o nome do show é “Eclético”

Anyway, esta é a deixa para o fofo pular (sim, pular !) para o meio do palco e começar a tocar fogo na noite. Todo de branco (a mesma cor do figurino da banda), com uma agilidade física exemplar e uma voz poderosíssima, Tiago logo arrebata a massa enfileirando um petardo atrás do outro.

Então dá-lhe Tim Maia, Seu Jorge, Chico Buarque, John Lennon, Ivete Sangalo, Sidney Magal, Psy, Funk, Jota Quest, Roberto Carlos, Chitãozinho e Xororó, Beyonce, Alcione, Gabi Amarantos, Elis Regina, Só Prá Contrariar, e muito mais, num mix alucinante e atordoante.

Chorei pelo menos duas vezes. Uma com a interpretação poderosa de “Sorrir” (música do filme “Tempos Modernos” do Charlie Chaplin, com letra de John Turner e Geoffrey Parsons) e outro no dueto entre ele e a Kesia Estácio em “Um dia de domingo”.

Tiago é um show man pronto. Simpático, sensual, cínico, divertido, dramático, irônico, debochado, atrapalhado, seguro e teatral, sua presença de palco é magnética e ele não deixa a peteca cair em ne

nhum momento.

E ele fala muito. De suas influências, da sua carreira, do seu nervosismo, da sua alegria e por aí afora. Sensualiza um monte e joga um bolão com a platéia.

O figurino é um achado. O fino terno branco do início, transforma-se num modelito brega para acabar num uniforme moleque de funkeiro. Isto passando por um visual malandro e até uma coisa traveca. Genial.

 

A iluminação é ótima, mas acho que poderia ser melhor explorada em alguns momentos. Os vídeos projetados sublinham diversas canções, mas confesso que meus olhos seguiam mais a figura do Tiago do que as cenas de fundo.

A banda é perfeita, com um destaque fantástico para os metais. As backings Késia e Suzana, arrebentam nos seus momentos de destaques. Isto sem falar nas coreografias divertidíssimas delas com o Divo.

TiAbrava03-1O show é longo e energético. Uma tour de force para poucos, e o garoto mostra que está com todo o gás para firmar-se como um dos maiores artistas do país.

No final o Araujo transformou-se num bailão, com o povo aos berros e aos pulos acompanhando a pajelança-geléia-geral comandada pelo feiticeiro.

Não teve como não se render. Diversão e emoção total numa noite inesquecível.

Salve Tiago

Tuesday, June 04, 2013

Teatro–A Beira do Abismo me Cresceram Asas

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Uma peça simples, delicada e  feminina.  Leve e com um evidente toque carinhoso, “À beira do abismo me cresceram asas” (com texto, co-direção e atuação de Maite Proença -  juntamente com Clarisse Derzié Luz ), mostra algumas passagens na vida de duas anciãs (Terezinha, 86 anos, e Valdina, 80 anos)  moradoras em numa instituição para idosos.

Ali elas recordam suas vidas, lamentam o abandono, refletem sobre a morte, o tempo, amor, família, divertem-se, riem e choram

Terezinha (Maitê) é mais carrancuda, um tanto amarga e vê o mundo sem muita fantasia. Já Valdina (Clarisse), é mais alegre e transgressora (mas esconde algo do seu passado familiar).

Ambas  sabem que no final das contas, apesar de terem relações familiares (um tanto frouxas) extra instituição, o que têm de concreto é amizade e o companheirismo uma da outra. E assim, sem grandes embates, vão atravessando o cotidiano procurando extrair dele o melhor.

Algumas passagens são particularmente pungentes, especialmente aquela com  Terezinha acompanhando a voz de Piaf em “Je ne regrette rien” e depois com Dalva de Oliveira em “Estão voltando as flores” (uma música que adoro).

O texto oferece algumas pérolas, como quando Terezinha questiona o interlocutor : " O que você vê quando olha pra mim? Uma velha rabugenta e reclamona? Eu não sou o que você está olhando. Eu sou aquilo que está dentro do que você está olhando. E o que eu converso com você vem de lá, eu sou o lado avesso da velha que você vê. Aqui dentro tem um menina de 16 anos, linda, leve, ..." e assim vai.

Ou então quando ela cita Piaf com “A velhice não é para covardes” (uma grande verdade que pode ser estendida à qualquer momento da vida). E também o mistério e o encanto da frase que dá nome ao espetáculo e que pode ser entendida como o encontro da sabedoria com a morte.

As atrizes estão muito bem. O figurino é belíssimo e tudo o mais funciona  (acabei me emocionando – e refletindo  - em vários momentos)

De maneira geral gostei  Não achei nada excepcional, mas vale a pena.

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Crítica de Barbara Heliodora (O Globo)

Retrato encantador de duas mulheres

Com dados colhidos por Fernando Duarte em entrevistas com um grupo de idosos, Maitê Proença armou um tocante diálogo entre duas mulheres que ficam amigas na instituição onde moram e um suposto jovem que as entrevista. Juntas, mesmo que perfeitamente individualizadas, as duas compõem, com suas lembranças de acontecimentos e emoções, um painel da vida de todas as mulheres em sua experiência humana.

Uma mais reflexiva, a outra mais extrovertida, tanto uma quanto outra podem dizer, com verdade, que “À beira do abismo me cresceram asas” — e, por isso, conseguem manter vivas a riqueza interior, as emoções e a imaginação que os outros supõem que a idade lhes tenham matado. O texto, com isso, resulta fluido, ora alegre, ora emotivo, enriquecido pela diversidade das experiências vivida por cada uma das duas amigas, e gostosamente teatral.

Sem imitação da velhice

A montagem em cartaz no Teatro do Leblon é simples e harmoniosa, com um cenário que, mesmo nos lembrando que estamos no teatro, cria o ambiente impessoal mas amistoso, onde duas cadeiras, diante de paredes brancas mas translúcidas, estabelecem o universo em que as duas moram. Os lindos figurinos de Beth Filipecki por certo as ajudam a alçar voo. A luz de Jorginho de Carvalho e a trilha de Alessandro Perssan completam com precisão e delicadeza o ambiente.
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A direção de Clarice Niskier e Maitê Proença, com supervisão de Amir Haddad, é delicadamente simples, guiada pelo amor ao mundo que devia ser criado, profundamente carinhosa, mas sem cair um momento na pieguice, confiante na capacidade das duas intérpretes. Maitê Proença e Clarisse Derzié Luz atual com a harmonia de uma peça de piano a quatro mãos; cada uma tem seus momentos de solo, contraponto uns dos outros, e nos duetos formam um desenho único, harmônico, nos quais as ocasionais e pequenas discórdias só servem para ampliar a amizade.

Evitando qualquer imitação de velhice, mas buscando o peso da experiência, Maitê e Clarisse têm, ambas, atuações de grande encanto, trabalhando com uma cumplicidade que traduz bem o conforto que as duas encontraram nessa reunião de duas experiências de vida diversas, mas de duas mulheres que tiveram, e ainda têm, muito para dar ao mundo em que vivem, mesmo quando esse é necessariamente limitado.


“À beira do abismo me cresceram asas” é um espetáculo de imenso encanto, que fala sobre todos nós com sabedoria e humor.

Thursday, May 30, 2013

Filme–Velozes e Furiosos 6

Pancadaria, tiroteio, carros envenenados, lutas, músculos, mulheres gostosas, hip hop, paisagens paradisíacas e nenhum senso de lógica ou veracidade.

Tudo embalado com pipoca, refrigerante e projeção I-MAX.

Quer coisa melhor para um domingo outonal à tarde?

Então lá fomos nós conhecer o cinema I-Max (magnífico) do Shopping Bourbon e assistir “Velozes e Furiosos 6”.

Um filme perfeito na sua proposta de entretenimento descerebrado.

Vi alguns episódios da franquia, mas me recusei a acompanhá-la depois que a Letty, personagem da Michele Rodriguez (que eu amo), “morreu”.

Quando fiquei sabendo que ela ressucitava no episódio 6, resolvi voltar ao cinema. E ela vem com tudo, bem no seu estilo mulher-macho. A briguenta mantêm sua cara de pit-bull de saias (ou calças no seu caso) durante o tempo todo, e suas lutas com a Riley, personagem da  marrenta lutadora de MMA” Gina Carano , (uma no meio e outra no final do filme) são excelentes (porrada pura).

De resto, falando sobre a história pode-se dizer que ela á abrilhantada com personagens unidimensionais,frases ridículas, situações bizarras, clichês super batidos, sequências absurdas e inverossimilhança total.

Mas quem se importa?

O lance é divertimento (as piadas são hilárias), e “ Fast & Furious Six” cumpre o que promete de forma perfeita.

Diversão total.

Obs.: o final, com a aparição do Jason Statham bem maldito, deixa o povo babando pelo próximo episódio.

Trailer abaixo

Show–Julieta Venegas em Porto Alegre

Julieta é muito mais do que uma compositora ou cantora. É uma musicista completa.

O som das suas canções extrapola o melhor pop e abarca um universo de rico em influências (tango, musica folclórica, rock, baladas, dance, eletrônica, bossa nova, etc) que fazem uma brutal diferença no que se ouve normalmente na mídia.

E tudo isto embalado por sua voz pequena, que cresce em poder e dramaticidade de acordo com o que pede cada canção.

Seu show no Araujo Viana em Porto Alegre, confirmou este seu talento único num encontro fantástico com a gauchada.

Numa noite perfeita, a cantante embalou e empolgou a massa, misturando grandes sucessos com várias músicas do seu ótimo último álbum “Los Momentos”.

O show abriu com a absurdamente perfeita “Hoy” e foi adiante com pérolas do tipo “Limon e Sal”, “Lento”, “Ilusion”, “Los Momentos” , “Algo esta cambiando” e muitas outras.

No final demos uma passadinha nos bastidores para pegar autógrafo no CD/DVD e bater uma fotinho .

Sensacional

Segue abaixo o comentário do Thedy Correa publicado na Zero Hora.

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Julieta Venegas celebra o portunhol

Cantora mexicana foi acompanhada pelo público e se emocionou no Araújo Vianna

“Viva o Portunhol!”

Com essa frase – quase um manifesto –, Julieta Venegas despediu-se do público que lotou o Araújo Vianna, no último sábado. A cantautora mexicana deixou o palco visivelmente emocionada pela recepção consagradora que teve. Como ela mesma confessou, foi uma noite inesquecível, que começou com a banda gaúcha ManiMani, mostrando por que tem recebido tantos elogios. Em seguida, veio Venegas, justamente com o tema Hoy – que abre seu disco mais recente, Los Momentos (2013) – no qual canta o verso que deu o tom do espetáculo: “Hoje me entregarei feliz!”.

Foram quase duas horas de entrega, emoção, divertidas tentativas de falar português – por isso o portunhol – e música de alta qualidade. Ela alternou canções novas com sucessos de uma carreira que começou em 1996 com o disco Aquí, mas que, no Brasil, teve reconhecimento apenas com seu Acústico MTV, lançado em 2008. Talvez esse trabalho explique a imensa empatia da cantora com o público no país. Durante o show, foram muitas as canções cantadas com entusiasmo pela plateia gaúcha, como Limón y Sal, Eres para Mí, Canciones de Amor e Me Voy. Um dueto especial se deu quando Julieta pediu ajuda ao público nos versos em português da canção que gravou com Marisa Monte, Ilusión.

As novas canções de Julieta mostraram sua força. Los Momentos é um de seus melhores discos, e a música que lhe dá título é um dos pontos altos do show – um tango difuso e dramático. Além dessa, Un Poco de Paz, Volver a Empezar e Vuelve brilharam em arranjos fiéis e preciosos, executados por uma banda enxuta e versátil. Marian Ruzzi dava conta de vocais, teclados, guitarras, acordeom e violões, enquanto Matias Saavedra se revezava nos teclados, percussão, piano e também vocais – isso sem falar na fantástica performance de Eduardo Vega na bateria. Alfredo Cañedo no baixo complementava o grupo que tinha na própria Julieta outra instrumentista-coringa, ora assumindo o piano – instrumento que estuda desde os oito anos – ora o violão. E, quando o palco virava uma autêntica fiesta mexicana, o acordeom.

As reflexões existenciais e inspiradas da artista conduziram a plateia de momentos melancólicos e tocantes – como no clássico Lento – até a alegria incontida no gran finale com El Presente. Julieta contou histórias, citou influências – o argentino Jorge Luis Borges –, abriu o coração e encantou a todos encerrando a noite memorável com a primeira canção que compôs, Esta Vez. Que não seja apenas esta vez. Volte sempre, Julieta!

THEDY CORRÊA | Músico, vocalista da banda Nenhum de Nós

Friday, May 24, 2013

Livro–Uma Prova do Céu (Dr. Eben Alexander III)

“ Cada vez que me via na esfera do Ponto de Vista da Minho­ca, eu podia me lembrar da reluzente Melodia Giratória que me conduzia ao Portal e ao Núcleo. Passei muito tempo - que paradoxalmente parecia tempo algum - na presença de meu anjo guardião sobre as asas da borboleta e uma eternidade aprendendo as lições do Criador e da órbita de luz nas profundezas do Núcleo.

Mas, em algum ponto da viagem, cheguei à beira do Portal e descobri que não podia entrar de novo. A Melodia Giratória - até então a minha chave para aquelas regiões mais elevadas - não me levava mais para lá. Os portões do Céu estavam fechados”

Assim o Dr. Eben Alexander III descreve suas andanças pelo Céu, enquanto esteve em coma durante sete dias em 2008, no livro “Uma Prova do Céu” (Sextante – 2013).

Alguém entendeu alguma coisa?

Piração total.

Mas esta piração adquire algum sentido se adotarmos o ponto de vista dele (ou seja lá no que ele se transmutou) durante sua tour pelo além

Antes desta visita ao Nosso Lar, o Dr. Eben desdenhava os lances de espiritualidade e pautava sua crença através daquilo que passava pelo crivo do experimento científico direto. O que não podia ser comprovado materialmente caía para o reino da ilusão, do delírio. 

Sendo um avançado neurocirurgião, encarava todas as tais de experiências místicas de seus pacientes,  e demais que tomava conhecimento, como não sendo mais nada do que respostas a reações e fenômenos naturais do cérebro.

Isto até contrair, de forma absolutamente inexplicável, um tipo raríssimo (um a cada 10 milhões de adulto são infectados) de Meningite que o levou ao coma,  período em que atingiu o fatídico 97% de chance de morrer. Mas eis que  de forma absolutamente inexplicável (seria um milagre?),  acordou e, de forma absolutamente inexplicável,  recuperou sua saúde plena.

É muito mistério para um cristão só.

Segundo o que o  doctor registra, nunca houve um caso igual ao seu registrado na história da medicina.

Ele então seria algum tipo de “escolhido”, um “eleito” , um Neo?  Alguém que deveria que passar por uma grave  provação do corpo, que resultou na  viagem do seu espírito às esferas celestiais,   das quais retornou com a missão de compartilhar sua experiência com todos os (ainda) encarnados?

Ele chega a cogitar isto e vai na linha de que um cientista materialista (e eu acrescento ocidental, norte-americano, branco, bem sucedido e de boa aparência), que passou por uma experiência profunda de EQM,  seria a persona ideal para revelar à humanidade a verdade sobre o mundo das almas.

O desconfiômetro sobe diante de tanta seleção e a tendência é tachar o livro de uma viagem na maionese, ou uma furiosa ego-trip.

Mas a coisa não é bem assim.

Com uma sinceridade e coragem impares, Eben arrisca destruir sua imagem de médico-cientista ao assumir sua verdade diante do que vivenciou durante o coma.

E suas vivências foram as mais bizarras. 

Confesso que foi difícil aceitar a descrição do tal “Região do Ponto de Vista da Minhoca”, do “Portal” e do “Núcleo” - ainda mais que ele tinha por guia “uma linda garota borboleta de olhos azuis” (a qual, lá pelo final do livro, foi responsável por me fazer embarcar numa constrangedora choradeira. Ou seja, vi a tal “garota borboleta” primeiramente com toda a descrença e ironia, mas a coisa muda totalmente de figura depois, acreditem).

Depois ele fala da sensação de unidade com o Todo, da consciência plena,   da “dissolvição” do ego, do esquecimento  da personalidade, e muitos outros conceitos já conhecidos em várias religiões e filosofias.

Nesta sentido o Céu é atemporalidade, presença (ausência do ego), universo, visão, sabedoria, conexão, unidade,  êxtase, plenitude. Tudo vivenciado num eterno aqui e agora amado e protegido.

Ben retorna do coma com a certeza da realidade das suas experiências e busca explicação para tais nas diversas teorias científicas baseadas nas reações químicas do cérebro. Porém chega à conclusão de que, diante da impossibilidade de aplicar qualquer uma delas ao seu caso (seu cérebro estava “morto” durante o coma) sua consciência só poderia estar em outro local.

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Felizmente o livro não fica “só” na descrição do Céu e as conseqüências do retorno à carne (dúvidas, crenças, desafios).

Também conta um grande drama íntimo / familiar do doutor, que acaba solucionado da forma mais inesperada possível. Fantástico.

O saldo da obra é muito bom e, mesmo que não concordemos com todo seu conteúdo, nos faz refletir sobre os mistérios da vida e da morte, sobre o que acreditamos ou não, sobre nossos medos, esperanças e fé.

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Excertos :

Eben descreve a Região do Ponto de Vista da Minhoca

“MUNDO SUBTERRÂNEO

Escuridão, mas uma escuridão visível - como estar submerso na lama, mas ainda assim poder ver através dela. Gelatina escura talvez seja a melhor descrição: transparente, mas turva, embaçada, claustrofóbica e sufocante.

Consciência, mas consciência sem memória nem identidade - como um sonho em que você sabe o que está acontecendo em volta, mas não tem ideia de quem ou o que você é.

Há som também: um golpear profundo e ritmado, distante po­rém forte, de modo que cada pulsação o atinge em cheio. Cómo uma batida do coração? Um pouco, só que mais sombrio, mais mecânico, como o som de metal contra metal, como se um gi­gantesco ferreiro subterrâneo estivesse martelando uma bigorna bem perto: golpeando tão forte que o barulho ecoa pela terra, pela lama, ou pelo que quer que seja aquilo onde você está.

(...)”

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Eben descreve O Portal

“A MELODIA GIRATÓRIA E O MUNDO NOVO

Alguma coisa apareceu no escuro. Movendo-se lentamente, ela irradiava uma luz dourada e, à medida que avançava, a escuridão à minha volta começava a se fragmentar e dissipar.

Então escutei um novo som: um som vivo, como a mais rica e complexa melodia que já tinha ouvido. Aumentando de volume enquanto uma diáfana luz branca descia, esse som anulou as ba­tidas mecânicas e maçantes que, aparentemente, haviam sido a minha única companhia até então.

A luz foi chegando cada vez mais perto, girando em torno de mim, produzindo filamentos de pura luz branca com raias douradas.

Então, no centro da luz, apareceu outra coisa. Eu me concen­trei ao máximo para descobrir o que era.

Uma abertura. Eu não estava mais olhando para a luz giratória, mas através dela.

No instante que compreendi isso, comecei a me mover. Eu ou­via um som sibilante. Quando atravessei a abertura, me vi em um mundo inteiramente novo. O mundo mais belo e estranho que eu já tinha visto.

(...)”

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Eben descreve O Núcleo

“O NÚCLEO

Agora eu estava em um lugar cheio de nuvens.

Nuvens grandes, fofas, brancas com tons rosados se des­tacavam no céu de anil.

Mais alto que as nuvens - imensuravelmente mais alto -, em um aglomerado de esferas transparentes, seres deslumbrantes se deslocavam em arco por todo o céu, deixando grandes rastros atrás de si.

Pássaros? Anjos? Estas palavras me ocorreram quando eu escrevia minhas recordações, mas nenhuma delas faz jus àque­les seres, que eram muito diferentes de qualquer coisa que eu tivesse conhecido neste planeta. Eles eram mais evoluídos. Superiores.

(...)

Ver e ouvir não eram coisas separadas naquele lugar. Eu podia ouvir a beleza dos corpos daqueles seres cintilantes e, ao mesmo tempo, ver a perfeição do que eles cantavam. Parecia que não era possível ver ou escutar qualquer coisa ali sem se tornar parte dela - sem se fundir com aquilo de alguma forma misteriosa.

(...)

Porém, nada disso era tão relevante porque eu já havia apren­dido a única coisa que realmente importava - aquela mensagem transmitida pela minha companheira de asas de borboleta na primeira vez que passei pelo Portal:

Você é amado e valorizado imensamente, para sempre.

Não há nada a temer.

Não há nada que você possa fazer de errado.

Se eu tivesse que resumir toda essa mensagem em uma frase, ela seria:

Você é amado.

E se tivesse que enxugar ainda mais, para apenas uma palavra, ela seria simplesmente:

Amor.

O amor é, sem dúvida, a base de tudo.

Não aquele amor abs­trato, difícil de entender, mas o amor cotidiano que todo mundo conhece - o tipo de amor que sentimos quando olhamos para nosso companheiro, para nossos filhos e até para nossos animais de estimação.

Na sua forma mais pura e poderosa, esse amor não é ciumento nem egoísta - ele é incondicional. Essa é a maior de todas as realidades, a gloriosa verdade que subsiste no centro de tudo o que existe. E nenhuma mínima compreensão de quem (ou do que) somos pode ser obtida por alguém que não inclua o amor em suas ações.

(...)”

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Belíssimo poema que Eben recebe de sua irmã :

"Quando o amanhã começar sem mim"  ( David M. Romano, / 1993)
 
Quando o amanhã começar sem mim,
E eu não estiver lá para ver,
Se o sol nascer e encontrar seus olhos
Cheios de lágrimas por mim,

Eu gostaria que você não chorasse
Da maneira que chorou hoje,
Enquanto pensava nas muitas coisas
Que deixamos de dizer.

Sei quanto você me ama,
E quanto amo você,
E cada vez que você pensa em mim,
Sei que sente a minha falta.

Mas quando o amanhã começar sem mim,
Por favor, tente entender
Que um anjo veio e chamou meu nome,
Tomou-me pela mão
E disse que meu lugar estava pronto
Nas moradas celestiais
E que eu tinha de deixar para trás
Todos os que eu tanto amava.

Mas quando me virei para ir embora
Uma lágrima escorreu-me pela face
Por toda a vida eu pensei
Que não queria morrer.
Eu tinha tanto para viver,
Tanta coisa por fazer,
E pareceu quase impossível
Que eu estivesse indo sem você.

Pensei em nossos dias passados,
Nos dias bons e nos dias ruins,
Em todo o amor que vivemos,
Em toda a alegria que tivemos.

Se eu pudesse reviver o ontem
Ainda que só por um instante,
Eu diria adeus e lhe daria um beijo
E talvez visse você sorrir.

Só então descobri
Que isso não aconteceria,
Pois o vazio e as lembranças
Ocupariam meu lugar.

Quando pensei nas coisas deste mundo
Vi que posso não voltar amanhã,
Então pensei em você
E meu coração se encheu de dor.

Mas quando cruzei os portões do céu
Eu me senti em casa
Quando Deus olhou para mim e sorriu
De seu grande trono dourado,

Ele disse:

"Isto é a eternidade
E tudo o que lhe prometi.
Agora sua vida na Terra é passado
Mas aqui uma vida nova começa.
Eu prometo que não haverá amanhã,
Mas que o hoje durará para sempre.
E como todos os dias serão iguais,
Não haverá saudades do passado.
Você foi tão fiel
Tão confiável e verdadeiro,
Embora tivesse feito coisas
Que sabia que não deveria.
Mas você foi perdoado
E agora finalmente está livre.
Então que tal me dar a mão
E compartilhar da minha vida?"

Logo, quando o amanhã começar sem mim,
Não pense que estamos separados,
Pois todas as vezes que pensar em mim,
Eu estarei dentro do coração.

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Site do Eben

“ETERNEA

A experiência de quase morte por que passei me inspirou a ajudar a fazer deste mundo um lugar melhor para todos, e Eternea - uma organização sem fins lucrativos que fundei com meu amigo John R. Audette - é o veículo que escolhi para realizar essa mudança.

A missão da Eternea é incentivar a pesquisa e os projetos que envolvam experiências espiritualmente transformadoras, assim como a relação entre a consciência e a realidade física. Trata-se de um esforço para colocar em prática as descobertas feitas a par­tir das EQMs e reunir ensinamentos de todos os outros tipos de experiências espirituais.

Acesse www.eternea.org para estimular seu próprio despertar espiritual, compartilhar histórias sobre experiências espirituais que você teve ou mesmo buscar ajuda se estiver sofrendo pela perda de um ente querido. Eternea também oferece subsídios va­liosos para cientistas, acadêmicos, teólogos e religiosos que este­jam interessados nesse campo de estudo.

Eben Alexander, M.D.

Lynchburg, Virgínia (EUA) 10 de julho de 2012”

Saturday, May 18, 2013

Gregório Duvivier e Olivia Byington

Ver o Gregório na turma do Porta dos Fundos (post anterior) me causou comoção.

Ele é filho da cantora Olivia Byington, que em 1978 gravou um disco seminal da MPB, o tal de “Corra o Risco”.

Esta verdadeira maravilha, trouxe, entra tantas outras coisas legais, uma música que foi tipo fundamental na minha vida.

A musica em questão é “Luz do Tango”, uma parceria demolidora do Geraldo Carneiro com o deus Astor Piazzolla

A letra é toda fragmentada com imagens fortíssimas.

Na época (ainda meio que dentro da ditadura militar), foi um choque ouvir um discurso tão seco e direto, gritado pela Olivia.

Pirei total.

Segue abaixo a letra e um vídeo que achei no YouTube com a musica.

As imagens do vídeo são bem, digamos, variadas.

Beatles, Salvador Allende, Clube da Esquina, Caetano, Rita Lee, Helio Oiticica (Marginália), Kubrick, Hair, Truffaut, Polanski, Secos e Molhador, Rock Horror Show, etc, etc… (uma super salada!),

Mas o resultado é tri bom.

Luz do Tango (Geraldo Carneiro e Astor Piazzolla)

o cravo a crise o crime
nas barbas da polícia a malícia
a miss a missa o dia dos mortos
o luxo o lustre a luz negra
do Hotel da lua a lua nua
e crua

o carnaval a corda
o coelho na cartola o cuba libre
o gosto da chacina o sinal a sina
o sangue na anágua
n'água n'água n'água n'água

a lira o franco o marco
a bolsa abriu em baixa
o berço o barco o barão
na corda bamba a muamba
o banquete do mendigo a ruiva
rumba a ruiva rumba

a trama a chama o drama
a desgraça da família o karma
a ilha a trombeta de arcanjo
o apocalipse não é o fim do mundo
o rum o rock o rádio
a cama

o sacramento extremo
o mal de sete pecados
os sete lados do conto do vigário
o terceiro páreo
o trato com o demo
o demo o demo

a fome a forca o frio
a falência do cinema
o poder a pena
o cheiro da morena
a viúva a uva as estrelas do passado
a farsa o furto o foxe o fado

canto secreto o cego
cantava na viola o sequestro
o sestro o bolero na vitrola
o terceiro mundo no fundo
quer é reco reco a porta o pau
o prego

o fogo o jogo o giro
o rastro do vampiro o traço
o tiro o programa de auditório
o circo a sanha
o sal não fica sem troco

o cravo a crise o crime
a desgraça da família o luxo o lustre
a luz do dia dos mortos
o peixe a porta
o pau não fica sem troco
o troco

a fome o fogo o frio
o banquete do mendigo
a muamba o mambo
nas barbas da polícia
a marca a mãe o mal
não fica sem troco

Porta dos Fundos–Nova geração do humor

A esta altura do campeonato é difícil que alguém, que se considere minimamente conectado com o que está acontecendo em termos de fenômenos de mídia no país, não conheça o humor inovador e corrosivo  do Porta dos Fundos.

Esta usina de insacidade foi criada em parceria com o site de humor Kibe Loco (do Antonio Pedro Tabet) e a produtora Fondo Filmes,  e conta com o talento dos atores  atores Antonio Pedro Tabet, Fábio Porchat, Gregório Duvivier, Clarice Falcão, Marcos Veras, Júlia Rabello, Marcus Majella, Gabriel Totoro, Gustavo Chagas, Rafael Infante, Letícia Lima, Luis Lobianco; além de participações especiais, como as de Alexandre Nero, Maitê Proença, Marcos Veras, Fernanda Paes Leme e Victor Leal.

Eles largam um vídeo novo toda segunda e quinta feiras.

Alguns vídeos ultrapassam em muito o limite do “bom gosto” , do “respeitável” ou do “temível” , e isto faz uma enorme diferença.  Eles vão numa pegada demente, insana, demolidora e sambam em cima da política, da religião, das marcas consagradas (como a NET, OI, Coca Cola, e outras), do preconceito, problemas sociais e tudo o mais pensado e impensado.

Não me lembro de nada parecido antes (talvez com alguns toques do Casseta).

No fim é difícil dizer quais são os melhores. diante de tanta coisa boa.

Certamente cada um terá seus preferidos. Particularmente acho que nem tudo é bom, mas sem dúvida a imensa maioria é genial.

Segue alguns dos meus preferidos.

Wednesday, May 15, 2013

Palco Giratório SESC–Ausência

ausencia teatro

Teatro Gestual. Que diabo é isto? Não é dança, mas não tem falas. O que resulta disto?

Fomos conferir “Ausência”, espetáculo gestual com o grande Luis Melo.

Caí de quatro.

Desde a primeira cena, com uma criatura montada nas costas do protagonista que encara e “dança” para a platéia, até o final aberto e emocionante, “Ausência” é uma sucessão de achados geniais, emoldurados por uma composição plástica brilhante e executados por um ator, que, com completo domínio corporal, arrebata a platéia para o drama solitário de um sobrevivente numa sociedade pós-apocalíptica.

Confesso que tinha receio de assistir uma peça sem falas, mas me dobrei inteiramente diante do acúmulo de talentos apresentados no Teatro do Sesc.

Soberbo.

Chorei, confesso e veria muitas outras vezes.

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O texto abaixo foi retirado do Site Globo Teatro

Ausência

Cia Dos à Deux estreia novo espetáculo

Dois anos depois de trazer ao país o premiado espetáculo “Fragmentos do Desejo” – vencedor do Prêmio Shell de 2010 na categoria especial – a companhia franco-brasileira Dos à Deux está de volta.

Radicados na França desde o início dos anos 90, os brasileiros André Curti e Artur Ribeiro retornaram ano passado para o país. Agora, estreiam o oitavo trabalho da carreira, que teve concepção, dramaturgia e direção da dupla. No palco, apenas o ator Luis Melo, protagonista do solo que marca seu début no teatro gestual.

O tema inicial da pesquisa era sobre solidão em um mundo de caos. Ao desenvolver o trabalho, André e Artur se depararam com um artigo em uma revista científica que alimentou ainda mais suas ideias: o assunto tratava do asteróide Apophis, descoberto em 2004 e que passará próximo a Terra pela primeira vez em 2029.

As piores previsões são, no entanto, para o seu retorno, quando aconteceria uma possível colisão com o nosso planeta no ano de 2036, mais precisamente no dia 4 de abril. É neste dia que se desenrola toda a ação de “Ausência”.

Em uma Nova Iorque decadente e arrasada pela radioatividade, pelo racionamento de energia elétrica e, sobretudo, pela falta de água, o protagonista vive confinado no último andar de um arranha-céu. Sua única companhia é seu adorado peixe vermelho que vive em um aquário redondo.

Neste contexto caótico, sob a constante invasão de ratos que tomaram a cidade e do ar irrespirável que lhe exige o uso da máscara de oxigênio até para abrir a janela, o homem vive recluso em seu mundo particular, incapaz de enfrentar o horror das ruas.

Link :

http://www.globoteatro.com.br/emcartaz-1476-ausencia.htm

Palco Giratório SESC–A Marca da Água

a marca da agua

Nadar, nadar (de maneira bem mole) e morrer – sem graça - na praia.

Este é o resumo do meu sentimento (e dos meus acompanhantes – sendo que um deles dormiu durante o “espetáculo”) no final da incensada, premiada e super bem cotada / criticada peça “A marca da água”, apresentada no Palco Giratório SESC.

A partir de um acontecimento meio surreal (um peixe aparece no jardim da casa da família), acompanhamos uma viagem pelo interior da cabeça da heroína Laura, que está prestes a atravessar um umbral psico-louco-emocional sem volta.

E a bonita sabe que o bafão tá a caminho mas não quer saber de “cura”, e sim quer (deseja, anseia, precisa) “libertar uma musica interior” que pulsa em seus neurônios semi detonados.

O que vemos então é o “crescimento” desta música na cachola da Garota Pinel, até sua execução (numa cena belíssima, é verdade), tendo como pano de fundo suas memórias e sua “luta interior”.

Então dá-lhe trauma em cima de trauma, acusações, abandonos, imaginação, alegrias, etc, enfim real e irreal misturado (bem sem sal e sem emoção), de forma a traçar uma paisagem frouxa da cabeça da fora da casinha.

Haja saco para agüentar tanta cena constrangedora de tão óbvia (a da pescaria é exemplar) e outras absolutamente ôcas (seria um retrato da Laura´s head?).

Os atores estão bem, com destaque óbvio para a deusa Patricia Selonk. O cenário e iluminação são lindos, e a utilização da água em cena e nos vídeos é fantástica.

Mas o texto não dá sustentação ao conjunto e logo nos vemos com a clássica pergunta : “quando isto acaba?” ou já pensando em qual local vamos jantar.

Saturday, May 11, 2013

Video Robinsons Pals - Amigos



O vídeo “Amigos (“Pals”) da Robinsons drink é fantástico.

Ele mostra dois garotos passando um dia  brincando, com um deles assumindo meio que o papel de líder e protetor.

Primeiro eles cuidam de pegar uma bola que caiu na água.

Depois  cruzam por um grupo de garotas e este líder pergunta se uma delas é colega da escola, e acaba zoando com o amigo dizendo que elas estavam olhando para eles.

Em seguida – e o que é genial – eles reproduzem a clássica cena do Star Wars, com o Darth dizendo  para o Luke “I am you father”.

Enfim, cansados e já dentro de casa, o tal “líder”  - depois de beber o Robinsons – pega o amigo dorminhoco no colo e o coloca na cama.

Ao ver o amigo protetor sair do quarto o garoto na cama diz “Boa noite, pai”.  

Então o tal “garoto líder” transforma-se num homem, num adulto,  e responde “Boa noite, amigo”. 
Sim, o que tínhamos visto até então  era pai e filho brincando, compartilhando o dia, curtindo a vida juntos.

Só que o pai “transformou-se”  em um menino para aproximar-se do filho,  para estar lado a lado com ele como um amigo e companheiro.  

Maravilhoso. E o absurdo é perceber que a genialidade está numa coisa tão simples.

Ao transformar a imagem do pai em um garoto, a mensagem não poderia ser mais clara.

O link, a conexão, a aproximação ocorre entre os iguais.

E os pais que se “transformam em crianças”,  que entram no mundo de imaginação, diversão e fantasia dos filhos, que revivem suas próprias crianças,  que “brincam”, definitivamente capturam o coração daqueles que lhes são mais caros.

Vejam abaixo.

Todas as cores do amor - Diana Lichtenstein e Mario Corso (Psicanalistas)

Saiu hoje na Zero Hora.

Simplesmente fantástico.

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 Diana Lichtenstein e Mario Corso (Psicanalistas)

Enquanto correntes religiosas propõem “cura gay”, os especialistas alertam: a homossexualidade é uma faceta do desejo, não uma doença a ser curada

Em 1999, o Conselho Federal de Psicologia baixou uma resolução sobre a questão de curar homossexuais.

O objetivo era impedir que se usasse uma ciência, a psicologia no caso, para proselitismo preconceituoso, vindo de setores religiosos e conservadores, por parte de profissionais que confundiam crenças pessoais com indicações terapêuticas.

Resumindo: o que o CFP diz é que não se pode curar algo que não seja uma doença. Na verdade, tal resolução apenas traz ao Brasil o que já é consenso em quase todos países ocidentais: não existe nenhuma teoria psicológica ou psiquiátrica séria que defenda tal posição. A questão volta à discussão agora que setores políticos, especialmente os evangélicos, insistem em rever a questão.

O objetivo da derrubada dessa resolução seria dar ao profissionais da saúde, que considerassem o desejo por pessoas do mesmo sexo como um sintoma a ser curado, o direito de tratá-lo como uma doença a ser combatida. Isso possibilitaria aos psicólogos religiosos agir em nome de sua formação acadêmica para tratar como doença uma forma de amar. Isso não encontra respaldo em nenhum conhecimento que eles possam ter adquirido na universidade. Em outras palavras, se alguém quer combater a homossexualidade, que o faça sem o aval da academia e do órgão regulador da profissão.

É de se perguntar por que é um problema tão grande para uns o fato de outros amarem pessoas do mesmo sexo? O desejo de homens por outros homens e mulheres por mulheres é velho como a história da Humanidade. Por que tanto estardalhaço em torno disso? Por que dedicar tanta energia a combater modos de amar e desejar?

As piores repressões incidem sobre os desejos que sentimos como mais insidiosos, tentadores. Se antes a fidelidade era o grande tema, pois tratava-se de defender a permanência do casamento tradicional, agora a identidade sexual parece ser o ponto frágil do edifício subjetivo. A ambiguidade sexual é hoje um fato em nossas roupas e condutas: mulheres usam calças, homens põem brincos, todos trabalham nos ofícios que quiserem e ter filhos não condena ninguém à prisão doméstica.

Os territórios dos sexos nunca foram tão indefinidos e isso deixa muita gente confusa, além de produzir fobias. Como diz o nome, trata-se de “homofobias”: pessoas que sentem temor, não podem conviver, saber a respeito ou aproximar-se de outras que desejam os do seu sexo. Esses sujeitos frágeis estão assim preocupados com o embaralhamento dos territórios dos gêneros porque, no âmago, sabem ou intuem, que as fronteiras são arbitrárias, nada há que nos obrigue a ser ou desejar de determinada forma. Podem clamar à vontade pela obviedade da anatomia, pela complementariedade do pênis e da vagina, pela fecundidade macho-fêmea. Isso nunca foi unívoco para o desejo dos humanos e nunca será.

Usa-se hoje falar de gênero em vez de sexo, essa forma de se expressar comporta a compreensão de que a anatomia não é destino, que há múltiplas variações para os pensamentos que guiarão a vida sexual e a forma de se parecer. Os psicanalistas insistem em “caso a caso”, porque é assim.

É fundamental que se tenha claro que quando falamos de “homo”, “hétero” ou “bi” sexuais, estamos necessariamente misturando canais, e pelo menos dois são mais claros. Por um lado há a identidade sexual. Ela se constrói de tal modo que o comportamento e a aparência de uma pessoa podem ou não corresponder à expectativa do sexo em que se nasceu: nos tornaremos homens másculos ou afeminados, mulheres masculinizadas ou femininas. Neste caso, um homem pode, por exemplo, parecer-se com o sexo oposto, mas também amar alguém do sexo oposto. Não é preciso parecer um machão para amar as mulheres. Isso ocorre porque o desejo sexual é o outro lado, uma segunda questão, que não necessariamente se articula com a identidade. Portanto, um homem pode parecer feminino e gostar de mulheres, assim como uma mulher ter uma aparência e comportamento viris e interessar-se por homens. Pode também um homem gay, que deseja outros homens, ser muito mais macho que muito hétero – e entre as lésbicas é muito comum que sejam delicadamente femininas.

A sigla LGBTTT não é assim comprida por acaso, pois a obrigação de parecer-se com o sexo em que se nasceu e de desejar o sexo oposto é questionada por lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros. Cada uma dessas letrinhas abre-se para um universo de formas de ser e amar. Ao nascer, se não formos hermafroditas, nosso corpo nos remete a um destino social. É (ou era) esperado que fôssemos nos construir à imagem e semelhança do sexo em que nascemos e que estejamos interessados pelo sexo oposto, sem maiores vacilações e questionamentos. Mas nunca é tão simples assim. Para começo de conversa, temos uma complicada história de amor com o progenitor do nosso mesmo sexo, em relação ao qual temos desejos, vontade de ser amados e escolhidos por ele.

Quanto à aparência, juntamos traços da mãe e do pai, ou daqueles que cumprem essas funções em nossa vida, misturamos com vivências que incluem outras personagens marcantes (professores, amigos da família, outros parentes) e com isso montamos nossa identidade. Essa mistura inclui, obviamente, pessoas de vários gêneros. Antes de chegar a vida amorosa propriamente dita, as amizades na infância e na puberdade muitas vezes são sofridíssimas histórias de amor homoerótico. Meninas padecem pelo abandono amoroso das amigas, meninos se escolhem e se discriminam, para tristeza de uns e outros, sem que nenhum dos envolvidos vá necessariamente se tornar gay mais adiante.

Ao longo da vida, podemos até mudar aquilo que pensávamos sobre nossa escolha amorosa e erótica (homo ou hétero), ou sobre nossa aparência (feminina, viril ou andrógina) em função de um processo, de experiências, encontros. Também pode acontecer de crescermos com certezas (ou suspeitas) a respeito disso desde pequenos. Há aqueles que chamamos de bissexuais porque descobriram um amor no seu mesmo sexo, e então, quando esse amor termina, voltarão à condição anterior. A sexualidade e a construção da identidade de gênero são imprevisíveis, a única certeza é o adeus às certezas.

Por isso, hoje tantos jovens têm ousado explicitar essa mobilidade, essa ambivalência sexual. Estão mais liberados para viver a complexidade de como ser e amar. Não se trata de algo criado pelos nossos tempos mais liberais, trata-se de dar visibilidade a algo que ficava nos subterrâneos, que era vivido clandestinamente, culposamente, ou era reprimido gerando quadros psíquicos variados, não raro graves e incapacitantes. Essa nova liberdade não inibe nem propicia o surgimento de homossexuais, apenas evita neuroses.

Raramente recebemos pacientes que se queixem da forma como desejam, isso é para todos nós uma força que nos impulsiona e se impõe. Os motivos de consulta, que movem experiências terapêuticas, em geral dizem respeito à relação da pessoa e do seu meio com esse desejo. Um homem dificilmente buscará tratamento por desejar outros homens, mas o fará porque isso o faz sentir diminuído frente à família, os colegas de trabalho ou estudo. Portanto, é o preconceito, é a ilegitimidade do desejo, que certamente leva ao sofrimento psíquico. Amores proibidos doem por serem proibidos, não por serem amores.

A homossexualidade não é uma doença a ser curada, ela não passa de uma forma de desejar. Já a homofobia talvez inspire cuidados terapêuticos. A ajuda psicológica deve ser dispensada para os que apresentam uma vida limitada pela relação conflitiva com os próprios desejos. Precisam de ajuda os que sofrem quando entram em contato com algo que lhes lembra pensamentos inconfessos, com os quais não conseguem conviver; os que são assombrados por dúvidas para as quais não têm resposta. A fobia é uma dessas formas de sofrimento, na qual alguém fica fixado em algo que lhe produz horror e fascínio. Todo mundo tem alguma, mas quando elas assumem muita importância na vida de alguém, acabam sendo motivo de consulta. Por sorte fobia tem cura, não é fácil, mas muitos já conseguiram.