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Hino do Blog : " ...e todas as vozes da minha cabeça, agora ... juntas. Não pára não - até o chão - elas estão descontroladas..."
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Saturday, January 12, 2013

Filme - Copacabana Palace

Copacabana Palace - Poster

 “Copacabana Palace”, uma produção Franco/Italiana/Brasileira, de 1962, dirigida por Stefano Vanzina, que  já teria  caído da vala do esquecimento cinematográfico não fosse pela magnífica trilha sonora de bossa nova (o estilo estava no  auge), a esplêndida fotografia  colorida e o enredo “original” que retrata o Brasil de um modo, digamos, bizarro-antropológico.

No longa,  nosso país  é vendido como um lugar ingênuo, alegre, tropical, sensual e macumbeiro.

Um lugar primitivo para o qual as pessoas viajam para cair na farra,  curtir e gozar, dentro da idéia de que , como bem disse do teólogo e historiador holandês Caspar Barlaeus : "ultra aequinotialem non
peccavi" (não existe pecado abaixo do Equador).  Ou seja,  aqui debaixo o que rola é  só devassidão e hedonismo.


Neste sentido  Copacabana Palace acompanha - no estilo do enredo onde várias narrativas  ocorrem  em paralelo -   as peripécias de vários estrangeiros que querem se dar bem em pleno carnaval carioca, tendo como pano de fundo a hospedagem de todos no célebre hotel da Avenida Atlântica.

O filme é primor de ruindade,para dizer o mínimo. Roteiro ridículo, interpretações tacanhas, falta de timing / ritmo,  e humor inexistente são oferecidos a cada  minuto.  

Trilha Sonora - Copacana Palace
O que acaba salvando “Copabana..”  da ruína completa são as passagens musicais, a bela fotografia e as situações bizarras (algumas tentando fazer humor e outras não)  que aparecem aqui e ali.

Com o elenco mainstream composto quase que exclusivamente por estrangeiros, temos a oportunidade de ver nesta “comédia” atores nacionais ainda  jovens  (Tonia Carrero e Paulo Gracindo.), em papéis menores e irrelevantes (exceto pela personagem da Doris Monteiro que ganha um certo
destaque).

Também constam na nominata do elenco os nomes do John Herbert e do CylFarney, mas não consegui identificá-los em cena.

Fica o desafio para quem tiver saco para tanto.

As três histórias apresentadas são :

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HISTÓRIA 1 : LADRÕES INTERNACIONAIS  PLANEJAM SURRUPIAR  CONTEÚDOS DOS COFRES DO HOTEL COPACABANA PALACE.

Teodoro van Der Werf  (Francis de Wolf). é um milionário quebrado que planeja, juntamente com seu parceiro Raymond Broussarc (Raymond Bussières), roubar as jóias guardadas nos cofres do Copacabana Palace.

Para isto, após aterrisarem por aqui,  eles buscam numa favela,  a ajuda do Ugo (Walter Chiari), um ex companheiro de falcatruas que eles haviam abandonado no RJ em uma situação difícil, há um
ano. 

Neste meio tempo longe dos salafrários,  Ugo  casou-se com a brasileira Maria  (Doris Monteiro, belíssima e boa atriz), arranjou  um emprego de garçom numa espelunca e, se achando esperto,  agora tentava fazer seu papagaio repetir o slogan “Casa da Banha sempre melhor”,   para ganhar o prêmio de 500 mil cruzeiros oferecido por um programa de rádio (comandado pelo Paulo Gracindo) 

Ressabiado com os “amigos”, Ugo. recusa a “trabalho”. Porém os falcatruas  dão um jeito de convencer a bela  Maria. de que têm uma proposta de um bom negócio para o seu marido, e assim, através dela, pressioná-lo a participar do “empreendimento”.

Mas o mais absurdo de tudo é que a Maria (confirmando o exótico do local) decide que quem deve dar a palavra final sobre o assunto é o Pai de Santo  da  MACUMBA.

Sim, e  além de explicar didaticamente aos estrangeiros o que seria a tal macumba, a bela nativa arrasta todos para um terreiro para verem de perto como funciona  a magia tropical brasileira.

A cena é “algo”, com direito a dança, fumacê, incorporação, mensagem e tudo o mais.

Fico só pensando o que aqueles que assistiram a este filme na época pensaram sobre os ritos brasileiro. Que tipo de religião os tupiniquins primitivos praticam - , só faltou o vudu e sacrifício humano -.

Algumas cenas abaixo :

CENA : MARIA EXPLICA O QUE É A MACUMBA

Ugo  explica a sua esposa  Maria os motivos para não aceitar a “proposta” dos amigos. Ela então propõe deixar a decisão para o Pai de Santo da Macumba.


CENA : RITUAL DA MACUMBA

Todos estão no terreiro. O povo canta, dança, fuma e incorpora (tem uma criatura que parece uma boa duma trava). De repente Oxossi “baixa” no Ugo e manda sua mensagem.


CENA : PROGRAMA DE RADIO COM PAULO GRACINDO
Paulo aparece como o locutor que anima o concurso do papagaio que deve enunciar  o slogan.




CENA : TONIA CARRERO COMO MILIONARIA

Os escroques já estão no Copacabana Palace e Tonia aparece para buscar um isqueiro cravejado de diamantes.  O que eles querem e passar a mão no conteúdo do cofre que ela alugou no hotel. Só que tudo dá errado e eles acabam no zero e saindo do Brasil como clandestinos num navio.




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HISTORIA 2)

AEROMOÇA GOSTOSA E EM CHAMAS QUER DAR PRO TOM JOBIM.

Silvia Koscina faz a sensual aeromoça Ines. que  vem ao Brasil atrás do músico Tom Jobim, um passageiro brasileiro que ela havia auxiliado numa emergência de saúde num vôo em Portugal.  

A  devassa chega aqui com mais duas colegas - Laura Brown & Gloria Paul,  - (os penteados / perucas de todas elas – mesmo na praia- são um arraso) , e, bem Messalina, faz toda uma linha “eu já dei pra ele”, deixando as amigas com inveja e com água na boca.

Depois tudo se revela um engodo, pois a linda não tinha dado pro mestre e nem sabia que ele era casado, e, pior ainda : fiel !

E mesmo os demais amigos do Tom (os inacreditáveis atores João Gilberto e Luiz Bonfá ) que na cabeça desmiolada e dura de laquê da Ines  seriam os parceiros ideais  para as outras duas ,
também são casados e indisponíveis (fala sério).

O que acontece é que as bonitas acabam se envolvendo é com as famílias dos guapos, com direito a participarem da intimidade do saudável lar tupiniquim

Numa cena bem doméstica  vemos os  devotos esposos, com suas pudicas esposas e proles, mais as aeromoças,  amontoados defronte a uma televisão assistindo o populacho brincar o carnaval, demonstrando que tudo acabou “em família”.

Depois, para não ficarem no seco absoluto, recebem um convite do Jorginho Guinle para brincarem num baile chique. E no final as boas voltam  para a Itália, chateadas e meio frustradas por não terem realizado completamente seu desejo de pecar.

Algumas cenas abaixo

CENA : CONVITE AO TOM

A gostosa Ines da Silva liga para o Tom dizendo que chegou ao Brasil e marca um encontro com ele, além de arrumar outros machos locais (Luiz Bonfa e  Joâo Gilberto) para as amigas sedentas. 

Notem os  penteados de beira de piscina. No final Ines diz “vamos nos arrumar !”-  e olha que elas receberam um convite para irem para a praia ! O que será que ta faltando na produção das lindas ?



CENA :  AS BOAS ESTRANGEIRAS E OS GARANHÕES BRASILEIROS NA BEIRA DA PRAIA

Música : Canção do Mar (Luiz Bonfá / Maria Helena Toledo)

Cantam : Luiz Bonfa, João Gilberto e Antonio Carlos Jobim

As bonitas ainda não sabem que os gajos são casados (e bizarramente fiéis),  e se deleitam no prazer do momento idílico sob o sol com olhares  sonhadores. Mas elas não perdem por esperar.



CENA : TOM REVELA SER CASADO E INES CAI NUMA ARMADILHA DOMÉSTICA

O interessante aqui é ver Tom interpretando. Muito legal.


CENA : AEROMOÇAS ESTRANGEIRAS E FAMÍLIAS BRASILEIRAS ASSISTEM O CARNAVAL PELA TELEVISÃO.

O curioso é que a esposa do Tom (Anita)  diz que no Rio o carnaval é bonito apenas pela televisão  

Mas uma das aeromoças (Lucia) contrapõe afirmando que nos bailes fechados todos se divertem.

Questão : de onde elas tiraram estas afirmações ?

De qualquer forma é interessante acompanhar o tipo de folia – e o entusiasmo - da baixa e da  alta sociedade morena.


CENA : INES E AMIGAS RECEBEM UM CONVITE PARA UM BAILE PROMOVIDO POR JORGINHO GUINLE

Ines recebe convite – com direito a escolha de fantasia - para um baile promovido por “Jorginho”(que só pode ser o Guinle). Na sequencia uma das aeromoças informa que o tal  Jorginho é filho de um
dos homens mais ricos do Brasil.

Jorginho foi um dos grandes promotores do carnaval brasileiro. Se hoje as celebridades vêm para cá para curtir a festa, deve-se muito ao que ele fez desde a década de 50, quando começou  a trazer gente famosa para conhecer e curtir nossa Folia de Momo,  e assim divulgá-la lá fora.



CENA : “BAILE” DE  CARNAVAL  DA CLASSE CHIQUE:

Música : Só Danço Samba (Antonio Carlos Jobim / Vinicius de Moraes)

Canta : João Gilberto e Os Cariocas
A música é ótima, mas nada a ver com a proposta do clima de uma festa de carnaval. Uma das aeromoças “dança” a “bossa-nova-carnaval” no estilo twist.


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HISTORIA 3 )

PRINCÍPE GAY QUER DAR FLAGRANTE DE ADULTÉRIO NA ESPOSA INDÓCIL.

Aqui temos  a saga do príncipe Buby von Raunacher (Claude Rich), que depois revela-se gay e que persegue a  esposa Zina von Raunacher  (Mylène Demongeot ) ao redor do mundo a fim de flagrá-la em flagrante de adultério .

Para isto ele conta com a ajuda de Da Fonseca (Paolo Ferrari), seu advogado, que nutre uma tesão pela bela do patrão.

A pecadora viaja acompanhada do bonitão Nicky  Gutierrez (Ruggero Baldi)  que obviamente o princípe julga ser o amante da bonita.  Só que o guapo  não “faz” a bonita, o que a deixa em brasa o tempo inteiro (ele tem sempre uma desculpa para cair fora ou eles são interrompidos por algum evento).

Numa cena muito bizarra a gostosa está num barco onde a tripulação é composta exclusivamente por negrões deusos tupiniquins. Ao ver tanta gostosura em ébano por perto (e ainda por cima eles cantam !), a Zina  fica siderada, porém o Nicky  não faz nada para apagar seu fogo.

Neste meio tempo, o  príncipe Bubyacaba se envolvendo – de forma não explícita, é claro, pois estamos em 1962-  com um camareiro do Copacabana Palace(um nativo moreno que entra mudo e sai calado da película).

E este mesmo  trabalhador terceiro mundista  acaba se envolvendo também com o belo Nicky.

Sim, o suposto amante da deusa  também é gay (sabemos isto ao final do filme) e,  num momento de confissão, revela que estava perto da gostosa apenas pra ver se conseguia “se curar” do seu desvio.

A Deusa, arrasada e não comida, acaba se jogando  nos braços do Da Fonseca e assim consegue satisfazer seus instintos impuros.

As bibas (o príncipe e o amante) partem juntas do Brasil.

Algumas cenas abaixo -

CENA : GOSTOSA ROLA NA CAMA SOZINHA

A bela Zina  rola indócil, deusa e ansiosa na maciez dos lençóis, mas seu amante prefere nadar na piscina de que “estar” com ela.  Mal a linda sabe que ele é uma biba enrustida.


CENA : NEGÕES DEUSOS ENLOUQUECEM A LOIRA

Musica : Sambolero (Luiz Bonfá / Maria Helena Toledo) -

Canta : Luiz Bonfá

Esta cena é fantástica. A Deusa e seu “amante” estão num veleiro onde a tripulação é composta apenas por negões deuses que cantam uma espécie de canto da sereia tropical. A loura fica louca e chama o Nicky para“algo”.  Só que ele mais uma vez dá um jeito deescapar da devassa.


CENA  : PRINCIPE BIBA DÁ UMA GERAL NA ÁREA COM BINÓCULOS

A cena inicia com o  príncipe Buby vendo seu amante brasileiro ser beijado no rosto por uma colega de trabalho, que ele, indignado, chama de “Piranha”.  Mas o rapaz acaba lhe mandando um tchauzinho, o que o  acalma.

Depois ele volta o binóculo para a praia, algumas garotas lindas e faz cara de nojo.

Mas quando foca em alguns rapazes sarados puxando ferro e exibindo os músculos, fica encantado.

A sequência termina com o Raymond Bussières exibindo seu corpão sob o sol, o que deixa a biba passada de horror.


CENA  : FLAGRANTE DE ADULTÉRIO FRUSTRADO.

O príncipe, mais o advogado Da Fonseca, juntamente com a polícia, arrombam a suíte onde, supostamente, pegariam a Zina e o Nicky em pleno ato. Só que, para decepção de todos, o que encontram é o suposto amante bebendo champanhe com o camareiro (traduzido como “garçom”)  do hotel (o mesmo que tem  um rolo com Buby).  O príncipe obviamente logo saca qual é o lance que tá rolando. 

Da Fonseca então acessa o apartamento ao lado e desperta a  linda princesa do seu sono.  Ela fica assustada, mas ele se encarrega de esclarecer todo o bafão.

A polícia cai fora para tratar do roubo do cofre do hotel (link com o núcleo dos escroques) e deixa o povo na mão, sem resolver nada.

O príncipe então (completamente “louca”)  parte para cima do Nicky e  questiona seus atos (afinal, aparentemente até então,  ele estava de caso com sua esposa e agora descaradamente se revelava um igual).

Nicky  explica seus motivos, Zina escuta e fica bege, Da Fonseca aproveita o momento para agarrá-la e ela (provando ser uma mulher fácil) cede.
No final as bibas partem juntas do Brasil e, aparentemente, Zina fica com Da Fonseca.




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OUTRAS CENAS :
CRÉDITOS INICIAIS 

Música : Samba do Avião (Antonio Carlos Jobim)

Canta : Jula de Palma e os 4 x 4 de Nora Olandi


 FIM DE FESTA :

Musica  : Tristeza (Luiz Bonfá / Maria Helena Toledo)

Canta : Norma Bengell

Bela passagem que ilustra o amanhecer do dia seguinte a uma festa. Vemos o povo ainda brincando na beira do mar e outros voltando para casa.



PANORAMICA DA PRAIA DE COPACABANA

Aqui vemos o povo e  barco disputando espaço na areia, algo inimaginável hoje.



DESFILE DE ESCOLAS E BLOCOS NA RUA

Muito interessante ver como o povo brincava o carnaval na época.



FINAL          

Música : Samba do Avião (Antonio Carlos Jobim)

Ugo encontra os escroques Teodoro van Der Werf  e Raymond Broussarc  também como clandestinos no navio que o levaria para fora do Brasil. Assustado com tanto azar, prefere então atirar-se ao mar e voltar a nado para a Cidade Maravilhosa, do que ficar com os “amigos”.

Fim desta obra prima do absurdo.



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FOTOS  (RETIRADAS DO SITE DO TOM) :

Abaixo na foto, Antonio Carlos Jobim ao lado de Luiz Bonfá, de perfil, junto a atriz Sylvia Koscina entre os membros da equipe de filmagem de "Copacabana Palace". Abaixo, João Gilberto, ao violão, com o diretor Stefano Vanzina e as atrizes Laura Brown e Gloria Paul, respectivamente.





LuizBonfá, Laura Brown, Gloria Paul, João Gilberto, Antonio Carlos Jobim e Sylvia
Koscina, durante as filmagens de "Copacabana Palace".



Thursday, January 10, 2013

Filme - Os Intocáveis


Os intocaveis - poster
Por “intocáveis” pode-se pensar em figuras de  dois extremos da sociedade, tipo um pária e um brâmane da sociedade de castas hindu ou do Nepal ( na verdade o conceito de "intocável" aplica-se exclusivamente aos párias)

De um lado, o  milionário Philippe (François Cluzet, o Dustin Hoffman francês, ótimo como sempre), - o brâmane - , altamente erudito, requintado, aristocrata,  fino, chique, elegante, porém tetraplégico.

De outro, o estrangeiro Driss (Omar Sy), - o pária-,   um semi-marginal, ex-detento, meio-órfão, quase um homeless, desempregado,  apreciador de funk  de raiz (tipo Earth, Wind and Fire, Kool and the Gang) .

Dentro de um “sistema de castas” (que existe quer queiramos ou não, mesmo camuflado), pode-se imaginar que estes dois universos jamais se tocariam, seja por discriminação, preconceito, temor, condição econômica, condição profissional, poder, etc.

Ou seja, cada macaco no seu galho, cada classe no seu mundo .

Porém este inusitado acontece quando Philipe contrata (em teste) Driss como seu cuidador pessoal.

A partir daí a aproximação que ocorre entre os dois irá desencadear diversas experiências que irão transformá-los, que irão abrir em ambos novos olhares, horizontes e possibilidades de vida

François Cluzet & Omar Sy
Baseado em fatos reais, “Os intocáveis” mostra a bela relação que se estabelece entre estes dois homens, de mundos tão distintos, a partir do momento em que a intimidade emocional (o básico do humano) os conecta e os engrandece.

Algumas cenas são fantásticas, especialmente aquela da associação das músicas clássicas com a mídia  e a outra com os vários formatos de barba e bigode que Driss vai esculpindo no rosto do Philipe.

Não é um super filme, mas vale a pena, mesmo porque assistir  um longa baseado em valores humanos é sempre bom.

Mesmo soando piegas.

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 Trailer abaixo



Sistema de Castas

Só para registro : O desenho abaixo representa o sistema de castas da India, que é condenado por lei mas que ocorre na prática cultural do povo.

Monday, January 07, 2013

Filme - Amour

Amour - Poster
Confesso que para mim não é fácil assistir a um filme do Michael Haneke.   

Só consigo "atacar"  seus longas após uma “preparação”, que inclui entre outras coisas, exercitar um reforço emocional  a fim de não sair arrasado do outro lado.
 

Sim, porque depois de assistir , por exemplo, “A professora de piano”, “Cache”, “O sétimo continente”, “A fita branca” e “Violência Gratuita”, dizer que saí “perturbado” é pouco.
 

O que seus filmes me causam são, digamos, “experiências bizarras”. Isto no sentido de que acabo revolvido, moído e remoído, meio zumbi  no deserto.
 

Então, sabendo disto, porque continuo a ver suas obras ? Porque insisto em praticar este jogo masoquista ?
 

Será por ele  ser  o maior diretor de cinema em atividade ? Será porque , dentro da sua coragem, suas obras transcendem em muito a “arte cinematográfica” e acabam fuçando de forma implacável nas patologias mais darks da alma humana ? Será porque de seus filmes sempre se esperam “supresas” – terríveis é certo – e elas sempre acontecem e nos detonam ?  Será porque ele não tem piedade dos seus espectadores – e nem de seus personagens - e isto acaba nos atraindo de uma forma meio medonha? Será porque ele, de forma absolutamente fria,  muitas vezes ultrapassa os limites do “suportável”  e, mais do que “chocar”, “acaba ” com os miolos das criaturas ? Será porque dentro desta “perversidade”, ele  escancara e joga na nossa cara “naturezas humanas” (instintos, sentimentos, emoções, taras, desvios  e outras amenidades do gênero), que muitas vezes negamos , fingimos desconhecer ?
 

Não sei.
 

Eu diria que é isto tudo e muito mais, e assim permaneço fiel entre a repulsa e a fascinação.
 

Então ao sentar para assistir  “Amour” eu tinha certeza de que não sairia incólume depois de duas horas.
 

E não deu outra.
 

Acabei o filme completamente em frangalhos, totalmente depenado.
 

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Haneke dirige Emanuelle e Jean-Louis
 Premiado com a Palma de Ouro em Cannes, “Amour”  é “apenas” sobre envelhecimento e morte. 
Assim, direto, sem maquiagem nem vaselina.
 

Haneke disse que começou a escrevê-lo depois que se perguntou :  "Como é lidar com o sofrimento de alguém que amamos ?”.
 

E isto é o que o longa explora de forma soberba ao contar  a história  (ou final da ) de Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva),  um casal de cultos músicos octagenários aposentados, que moram sozinhos em um amplo apartamento em Paris ( Eles têm uma filha  - Isabelle Huppert -  que mora no estrangeiro e ocasionalmente os visita).
 

Certo dia Anne sofre  um derrame e fica com um lado do corpo paralisado.  De volta ao lar ela faz Georges prometer que, aconteça o que acontecer, ele não a mandará de volta hospital e que a cuidará em casa.
 

Georges concorda e, a partir daí, - a medida em que a doença avança -  acompanhamos a declínio físico e psíquico de Anne,  ao mesmo tempo em que testemunhamos a luta dolorosa e infrutífera do esposo  para evitar a total decadência da amada.
 

Porém Anne torna-se  cada vez mais incapaz e passa a necessitar de auxilio (profissional ou não) para tudo.  

Aos poucos perde os movimentos, a fala, o raciocínio, a razão.  Gradativamente torna-se uma “criança assustada” e desamparada, que geme, chora e chama pela mãe.
 

George   acompanha atônito a decrepitude da esposa.  Sabe-se derrotado  diante da perda inevitável da companheira mas, mesmo assim, faz tudo o  que pode para ajudá-la.
 

Tudo obviamente inútil,  e o final já é revelado no início : morte.
 

Fim.

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Falar de “interpretação” aqui é quase uma ofensa.
 

Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva estão além de qualquer elogio.
 

Ele  (outrora um ator belíssimo) estampa uma máscara de perplexidade e dor absolutamente real.
 

Ela faz uma Anne  quase “documental “.
 

Não é uma atriz o que está em cena, e sim a explicitação terrível de uma dolorosa  verdade humana.
 

Algumas de suas cenas são quase “inaterpretáveis “ (sic). Então como ela conseguiu? Isto se chama “talento”? .. ou é outra coisa misteriosa?
 

Com Emmanuelle nós praticamente testemunhamos a morte de uma pessoa e não uma atriz interpretando a morte de uma pessoa.
 

Só vendo para acreditar - e dizer mais é desnecessário.

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Georges desperta de um pesadelo
 Haneke diz que seus filmes são “Mais fácil de fazer do que ver”.
 

Isto demonstra que o maldito sabe que o povo vai enfrentar uma barra punk com suas obras, que sabe que vai incomodar e mexer com as pessoas.
 

No caso de  “Amour” , não apenas incomoda e mexe,  mas também arruína corações e mentes dos espectadores.
 

Eu simplesmente chorei.
 

E o mais apavorante é que o filme não tem nenhuma cena piegas, daquele tipo com um personagem debulhado em lágrimas sob uma orquestra de violinos.
 

Muito pelo contrário
 

O estilo frio, lento e minimalista do bruxo é absurdamente eficiente em abrir um pequeno corte através do qual ele vai  pacientemente eviscerando o incauto assistente.
 

De repente tu te pega vazio, murcho, desossado, testemunhando uma tragédia,  e tão impotente quanto os protagonistas diante do inexorável fim da existência.
 

Então o que resta fazer ? Chorar.
 

Mas tu chora  por quem ? 

Pela Anne, pelo Georges, pela morte dos teus amados ou pela certeza da tua própria ?


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Trailer abaixo 

Saturday, January 05, 2013

Gato Toldo e Cão Hachiko

Gato Toldo
A história de um gato que leva presentes diariamente ao túmulo de seu mestre, morto há mais de um ano, comoveu os habitantes da pequena cidade de Marliana, na Toscana (centro da Itália).

"Toldo traz coisas pequenas, como galhos, folhas, palitos e copos de plástico", contou à AFP Ada, a viúva de Iozelli Renzo, que vive na pequena cidade medieval de Montagnana Pistoiese, pertencente ao município de Marliana.

"Às vezes ele vem comigo e às vezes ele vai sozinho. A cidade inteira o conhece agora", diz a viúva.

Toldo, um gato cinza e branco de três anos, participou do funeral de Renzo Iozelli em setembro de 2011 e desde então tem o hábito de visitar o cemitério, algo que geralmente os cães fazem.

"Ele realmente amava o meu marido, ele o acompanhava por toda parte. Agora ele está comigo, minha filha e meu genro, e também gosta bastante de nós", acrescenta Ada.

Mas o percurso cotidiano até o cemitério deixa Toldo cansado com este frio. "Ele não tem saído muito estes dias. Ele está com bronquite", disse a viúva.

Fonte : Zero-Hora
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HACHIKO

A devoção de Toldo lembra muito a história de Hachiko,  o cão símbolo de fidelidade que viveu no Japao entre os anos 1923 e 1935.

Hachiko tinha o costume de esperar seu dono , o professor Hidesaburō Ueno, todos os dias no final da tarde,  em frente a  estação de trem de Shibuya,, quando o professor retornava do trabalho para casa.

Quando o professor morreu, em 1925, Hachiko continou a montar guarda no mesmo local em frente a estação, até sua morte em 1935.
Estatua de Hachiko

Sua história comoveu as pessoas e, em sua homenagem, foi erguida uma estátua de bronze que hoje é um popular ponto de encontro em frente a  estação da cidade.

Clique aqui para saber toda a história deste cão inspirador.
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Foram feitos pelo menos dois filmes contando a história de Hachiko.

Uma versão japonesa e uma americana, com o Richard Gere.

O clipe abaixo foi feito a partir da versão americana,  e, na sua primeira parte,  é sublinhado pela balada do Bryan Adamns,  “I'll be right here waiting for you”, que no seu refrão diz :

"Onde quer que você vá
O que quer que você faça
Eu estarei bem aqui esperando por você
O que quer que isto custe
Ou como  meu coração se parta
Eu estarei bem aqui esperando- por você"

Hachiko - Uma história verdadeira



Brian Adamns - I´ll be right here waiting for you (legendado)


Memória - Millor Fernandes


Como sempre na edição da retrospectiva do ano que passou, a Veja publica a seção Memória, onde registra aqueles que partiram no período.

Na edição para 2012, o destaque absoluto da seção, foi para o Millor Fernandes, um dos maiores gênios das letras que este país já teve.

Um homem múltiplo (jornalista, escritor, artista plástico, tradutor. autor de peças teatrais ).

Um acúmulo de talentos, raro de acontecer.

Eu sempre o admirei e, particularmente, existe um fato marcante na minha vida que o envolve :

A primeira peça que vi com a Fernanda Montenegro foi "É", de autoria dele.

Isto foi no final da década de 70, logo depois da minha família mudar do interior para Porto Alegre. Era sonho da minha mãe ver a diva ao vivo, então não perdemos a oportunidade de realizá-lo.

Lembro nitidamente do início e do final da peça, nos quais a "monstra" dia apenas "É".

No início, a palavra é usada no sentido imperativo, tipo "É, meu nome é fulano de tal";  e, no final, é usada num tom de reticências / reflexivo, tipo ao comentar uma situação  : "É, a coisa é esta...", ou "É, a coisa tá braba...". Inesquecível.

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Millor foi um homem que viveu e comentou com fino humor e ironia as várias mudanças políticas e sociais que o país (e de resto a humanidade) passou nas ultimas décadas.

Neste período tivemos a oportunidade de acompanhar seu  trabalho  publicado nas maiores revistas e jornais do Brasil, com destaque absoluto para o nanico O Pasquim (que meu pai trazia para casa religiosamente). 

Também foi um grande pensador, com uma capacidade espantosa de concisão.

Seus aforismos sáo obras primas  e traduzem de maneira espetacular inúmeras verdades existenciais.

Por tudo isto, penso que a alcunha de "Mago das Letras", poucas vezes foi tão bem empregada quanto no caso dele.

Ele se foi, mas seu trabalho esta aí para continuar a nos impressionar e inspirar para sempre.

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Voltando ai início, a homenagem da Veja Restrospectiva 2012 ao  mestre foi espetacular. 

Eles montaram um texto único a partir dos seus aforismos publicados entre 1968 e 2009. 

Ficou fantástico e o reproduzo abaixo.

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“Da vida só me tiram morto”

Eu posso não ser um grande  humorista, mas tenho certeza de que sou constante motivo de riso de muita geme. Sempre disse e aqui repito: eu também não sou um homem livre. Mas muito poucos estiveram tão perto.

Eu sempre sei do que estou falando. Tirando isso não sei mais nada. O que espero dos leitores é que cumpram a sua função, como eu cumpro a mi­nha. Eu, jornalista, escrevo. Leitores leem. Muitos dão a vi­da por suas crenças. Nunca ar­risquei a vida pelo meu ceticis­mo. Não posso falar dos seres humanos que mais admirei na vida porque são nomes sem no­me, caras que nunca frequenta­ram a luz da ribalta. Gente que viveu a vida como deve ser vi­vida — de maneira puramente existencial. Quanto aos que merecem ser esquecidos, ah, desses coerentemente eu não me lembro.

Fiz três revoluções, todas perdidas. Foi aí que resolvi me afastar da política. Me senti como um navio abandonando os ratos. A primeira revolução foi contra Deus, e ele me ven­ceu com um sórdido milagre. A segunda com o destino, e ele me bateu. deixando-me só, com seu pior enredo. A terceira con­tra mim mesmo, e a mim me consumi, e vim parar aqui.

Não se iludam comigo. Mes­mo no verão, quando vocês me virem, saudável e queimado, correndo pela praia às 7 da matina, podem estar certos de que já consumi pelo menos um jornal inteirinho, ou, numa contenção heróica, me reservo para, com esse esforço, ganhar o direito de sentar numa poltrona e abrir o jornal na espe­rança de encontrar a manchete com que sempre sonhei: O mundo acabou ontem".

A infância não, a infância dura pouco. A juventude não, a juventude é passageira. A velhice sim. Quando um cara fica velho é pro resto da vida. E cada dia fica mais velho. É meu conforto. Da vida só me tiram morto.

A gente só morre uma vez. Mas é para sempre. Existe im­posto de renda depois da morte? Reparem só: ao nascer e ao mor­rer o homem parece um santo. O que eu acho fajuto, quando eu morrer, é tanta mulher de luto

Todo homem nasce original e morre plágio, Enfim um escritor sem estilo.

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Frases do Millor