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Tuesday, December 11, 2012

Livro - Em busca de mim mesmo / Sergio Viula

Em busca de mim mesmo - Sergio Viula
Semana passada li  “Em busca de mim mesmo” do Sergio Viula

Recebi pelo correio, sentei para dar uma folheada superficial e  não consegui largar até o final – isso raramente aconteceu antes. 

Então não preciso dizer que fiquei impressionado com o que caiu em minhas mãos. Não me lembro em quanto tempo terminei  a leitura, mas foram algumas horas intensas nas quais meu cérebro rodopiou várias vezes. 

Mas, antes de falar sobre o livro, e a fim de que meus comentários façam sentido (pois o impacto foi grande), é importante registrar algumas situações e experiências da minha vida.


Flashback :

Criação cristã : tive uma educação religiosa, digamos, “rigorosa” dentro da Igreja Metodista, e fui catequizado dentro dos conformes, dos dogmas da denominação. Fui batizado, ungido, fiz o curso de “profissão de fé” - para poder tomar a santa ceia - , tive meu “encontro pessoal com Cristo”, ministrei aulas na “escola dominical”, participei de grupos de crianças, juvenis, jovens, e por aí afora.

Mas, como não poderia deixar de ser, comecei a vivenciar conflitos entre a fé e a razão quando, por exemplo, tomei conhecimento da teoria darwiniana. 

Me lembro claramente de uma situação quando, por volta dos meus 12 anos, questionei o pastor (até então uma  referência de “sabedoria”) sobre o desacerto entre a ciência e a religião (cada uma dizendo uma coisa sobre o mesmo assunto)

Ele me respondeu categórico : “Deus não gosta de pessoas inteligentes”. 

Acreditam ? Daí pra diante como levar a sério a religião ?

Então, gradativamente, paulatinamente fui me afastando da igreja (no sentido beato). 

Porém, como todo “ex-crente” sabe, é quase impossível desamarrar-se das leis, conceitos, preceitos e preconceitos divinos inculcados, marcados profundamente no espírito.
Contracapa

Anos depois, já gay assumido, eu e meu companheiro – ainda buscando algum tipo de inserção cristã-social - acabamos nos envolvendo com alguns grupos gays cristãos (um de São Leopodo , e outro aqui de Porto Alegre). Para quem não conhece, estes grupos têm um forte caráter inclusivo e são o caminho  natural para aqueles gays que querem professar / celebrar o cristianismo sem que, para isto, tenham que esconder sua sexualidade – Então, para nós (ele em ex-militante nas “categorias de base” do catolicismo), este tipo de proposta soou sedutora.

Participamos durante algum tempo nestes grupos, inclusive abrindo nossa casa para a celebração de encontros, reuniões, orações e cantorias (a vizinhança “esmudecia” (sic) quando as bibas se largavam a cantar hinos evangélicos no nosso apartamento).

A experiência foi válida, mas acabamos nos afastando em nome do livre pensamento, e também porque percebemos que algumas bees eram mais fanáticas do que o crente mais crente que poderíamos encontrar fora do meio.

Em um determinado momento, numa destas fases, tomamos conhecimento do trabalho de um grupo chamado MOSES (Movimento pela Sexualidade Sadia), cujo objetivo era (ou é) operar o milagre de "converter" gays em heteros através da reza brava e acolhimento cristão. Não preciso dizer que ficamos emputecidos com tal proposta e chegamos a discutir possíveis ações de resposta através dos grupos que frequentávamos.

Lembro que numa Parada Gay, um simpático jovem aproximou-se e nos entregou um belo folheto divulgando o trabalho do MOSES. Ficamos indignados com tal petulância e procuramos os dirigentes da parada para denunciar a "infiltração", mas a coisa acabou dando em nada.

Os anos se passaram, nos afastamos dos grupos gays cristãos e perdemos o MOSES de vista.

Fim do Flashback.

Há coisa de umas duas semanas, por conta de minha participação em uma reportagem no Jornal do Almoço (RBS TV) acabei trocando mails com um tal de Sérgio Viula, que para mim (confesso) até então era mais um destes contatos educados que surgem eventualmente na net. 

Mas, o que me chamou a atenção foi que, na troca de emails, ele me mandou um link onde comentava a peça "Angu de sangue" ( que eu já tinha visto aqui em Porto Alegre há alguns anos).
No tal link vi que ele que divulgava um livro no qual conta sua trajetória de crente fervoroso a gay assumido. Achei interessante e comprei a obra no impulso, sem saber muito a respeito (pois, como ex-crente,  me interesso pelo assunto)
Deus odeia as bixas

Pensei que era algo na linha do bom “Desclandestinidade: um Homossexual Religioso Conta SuaHistória”, do Pedro Almeida, que relata a experiência do autor como missionário na “Legião da Boa Vontade” e as consequências que ele e o Franklin de Paiva (filho do “iluminado  e caridoso" Paiva Netto), sofreram ao terem seu romance descoberto.
No processo de compra, para minha grata surpresa,  acabei descobrindo que quem envia o livro ao cliente é o próprio Sérgio. Pedi então que ele enviasse meu exemplar autografado (o que ele fez).

A entrega chegou tri rápida. Abri o pacote e dei uma sentada para dar aquela folheada superficial e uma lida no inicio. 

Início :
Depois de muitos anos de sofrimento mental e emocional ten­tando deixar de ser gay, cheguei à conclusão de que a aprovação e o respeito condicionais que algumas pessoas me ofereciam não compen­savam o tormento da negação de mim mesmo e nem se comparavam ao maravilhoso sabor da liberdade e autenticidade que a emancipação poderia me dar. Foi uma longa trajetória como você poderá ver ao longo deste meu depoimento, mas imediatamente após a minha deci­são de romper com tudo o que me impedia de viver como um homem Livre e dono do meu destino (projeto que vai se concretizando dia após dia), pensei em como transformar algumas de minhas experiências boas e ruins num meio de ajudar aqueles que, como eu outrora, so­frem por não conviverem naturalmente com a atração homoerótica. Foi assim que surgiu a ideia de colocar no papel alguns dos principais episódios da minha vida, acompanhados de reflexões de ordem exis­tencial, além de alguns fatos históricos e contemporâneos, sem preten­der cientificidade, ainda que em alguns momentos me valha de con­ceitos recorrentes no contexto da academia.”
Este parágrafo me fisgou. 

Continuei a ler e logo percebi que o que tinha em mãos não era apenas algo do tipo "Esta é sua vida", "Retrato Falado ou “Arquivo Confidencial”., e sim, além disso, também um texto poderoso, pontuado por reflexões sólidas e provocantes a respeito da religião e sua influência na (de)formação do humano.

Um texto diante do qual é impossível manter uma atitude blasé, indiferente. E, para minha absoluta perplexidade, a certa altura Sergio “confessa” ser um dos fundadores e militantes do MOSES !

Eu realmente não esperava isto. O fato dele ter sido um daqueles que “nos perseguiam”, e que agora larga este petardo anti-religião (assumindo sua sexualidade de forma libertária) é algo que realmente faz diferença. (Um Saulo / Paulo do avesso ?)

Deus te Odeia e Voce vai para o Inferno
No “Em busca..”, Sérgio não tem medo de assumir um papel quase de “terrorista anti-religião”, e vai demolindo – não sem dor, é claro - tijolo por tijolo das muralhas de “amor cristão” que aprisionavam e aniquilavam sua natureza.

O texto nos faz sentir palpável, orgânica a sua luta contra a culpa e o pecado dos desejos homoeróticos. Vivemos a guerra entre sua natureza sexual  e a fé dogmática. Compartilhamos sua miséria espiritual nas seguidas tentativas de salvação, de transformação. Testemunhamos seus compromissos e promessas assumidas (e fracassadas) diantes de si, da comunidade e dos céus. 

Seus juramentos e seguidas experiências de “renascer”. Sua vergonha, sua expiação pública e familiar a cada confissão de “recaída”. Sua renovação de votos nos mandamentos. Seu clamor sincero a Deus na busca de uma transformação real. Sua dor, sua frustração, seu calvário e purgação no caminho fracassado de se tornar “um normal”. Tudo contribui para ilustrar um quadro intenso de uma alma atormentada que, através da força da verdade, nos convida a acompanhá-la na sufocante subida à tona, ao sol,  à terra firme. Enfim, à “salvação”.

E, nesta viagem,  com muita sabedoria, Sérgio coloca algumas questões, simples porém extremamente significativas que definitivamente arruínam qualquer idéia de mudança da sexualidade através da fé, da religião, da crença.

Por exemplo :

Por que um gay convertido através do milagre de Cristo necessita continuar a freqüentar grupos de apoio dentro da igreja a fim manter  a vigilância contra  seus desejos ? Afinal,  o milagre ocorreu ou não ? Ou então o milagre foi parcial ? Deus (ou Cristo) não teve o poder de mudar totalmente a natureza (ou seria a tentação, o feitiço, a  maldição, o pecado, a tara,  etc) da criatura ? 

Outra :

Dizem os milagreiros que esta vigilância, este "apoio", são necessários para manter o alerta  às investidas de Satanás, que vai continuar a “tentar”  o(a) transformado(a) com a sujeira do sexo homo (ou lésbico). Ora, por que Satanás não se aproxima de um hetero para tentá-lo (atormentá-lo) com desejos homoeróticos ? Por que Satanás se preocupa apenas em despertar desejos homoeróticos nos ex-gays e não nos heteros? 

Outra :

Se Deus é todo amor, todo bondade e só quer o bem das suas criaturas, por que não atende as súplicas dos gays  e realmente os transforma, libertando-os do desejo imoral? Que pai de bondade – e também de poder - é este, que não responde aos desejos sinceros dos corações de seus filhos, e deixa que o Maligno  vença? O homem dolorido suplica ajuda ao Criador e este, ao invés de atendê-lo, ao invés de operar o milagre da transformação, o entrega ao Capeta (e eles continuam gays). Que belo pai!

E mais :

Se existem gays, quem os criou ? Deus ? Com que finalidade o “pai amoroso” criou tais criaturas e depois se recusa a “curá-las”?  Ou o “Bondoso” os criou e depois se deleita em fazer “ouvidos de mercador” às suas preces? Ou então  estes pervertidos foram  criados por Deus, mas foram desviados por Satanás?  E Satanás fez isto com a concordância de Deus, ou ele tem poder para arruinar qualquer filho do Altíssimo que queira? Se ele fez com a concordância do Criador, eles sentam juntos para sortear os atormentados? E se um gay que suplíca não consegue se curar, quer dizer que Satanás tem mais poder?

Bem, é claro que todas estas questões fazem  sentido apenas para aquele tipo de crente que só consegue ver o mundo através moral  cristã mais estreita. E a busca de respostas e explicações para tais sandices só pode partir daqueles que vegetam na facilidade de um credo cego e preconceituoso  - Porém não ouso afirmar que todos os cristãos são preconceituosos, pois sei que não são.

Se Deus odeia as bixas, por que nós somos tão lindas ?
De qualquer forma, quem já passou pelo processo de expiação dos dogmas religiosos (um homem iluminado pelo livre pensar) acaba achando ingênuos, tolos e desnecessários tais tipos de questionamentos. 

Porém, infelizmente, a crendice na absurda idéia de que ser homossexual é sinônimo de pecador, de sujo, de não merecedor "do reino dos céus",  ainda assombra corações e mentes de milhares de pessoas. 

Pessoas que estão ao nosso redor e que destroem seu desejo, sua alegria e sua vida em nome de uma imposição moral-religiosa, decretada (vomitada) por uma horda  de espíritos sem luz (mas que se acham “santos”, “escolhidos” , “conhecedores da lei (diga-se “Bíblia”) – tipo pastores, padres e/ou qualquer outra espécie de “irmão”),  e que só frutifica em condenação, perseguição e morte.

E a obra do Sérgio vem contrapor tudo isto de forma matadora.

Tenham certeza, repetindo : o texto vai muito além do mero “esta é sua vida”. Aquele que se aventurar a percorrê-lo tem que ter em mente que estará diante do desafio de abrir uma brecha para a luz da razão, estará diante do desafio da  mudança, do renascimento.

Então, mesmo não concordando com tudo que li, afirmo que “Em busca ...” é um texto necessário, fundamental.  Um cânone de liberdade. 

Uma cartilha de (trans)formação, com o poder resgatar vidas do lodo da mentira e  infelicidade que a religião impõe.

Parece exagero, eu sei – mas é verdade.
Deus odeia as bixas ? Obrigado por me avisar. Vou deixar de ser bixa imediatamente

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Excertos  de “Em busca de mim mesmo”  :

Surgimento do grupo MOSES
“ Contudo, antes mesmo de me envolver com o jornal Desafio das Seitas ou de ser ordenado pastor, aventurei-me numa outra empreita­da. Esta sim, me traz mais constrangimento do que qualquer outra que eu tenha renunciado quando decidi assumir o que comumente se chama de identidade homossexual. Uso o termo constrangimento, por se tratar de uma organização voltada para "ajudar os homossexuais interessados em "deixar" a homossexualidade - como se houvesse um estado homossexual e outro heterossexual, e ser humano pudesse aspirar a um ou ao outro arbitrariamente E Junho de 1977, João Luiz Santolin, Liane França e eu fundávamos oficiosamente o Movimento pela Sexualidade Sadia (MOSES). Nossa primeira atividade oficial como MOSES foi um evangelismo na Av. Atlântica, em Copacabana, durante uma passeata do Dia do Orgulho Gay. Éramos apenas três naquele momento, fazendo o lançamento de um ministé­rio que ganharia projeção nacional através da mídia.”
 Gays, Igreja e Salvação :

É curioso o poder de atração que a igreja exerce sobre as pessoas em geral, mas é ainda mais intrigante como ela consegue cativar tantos homossexuais, especialmente quando pensamos na contradição entre o que igreja prega e o que significa ser gay.
Apesar de todo o barulho que os grupos de militância homossexuais fazem contra o modo como as igrejas abordam a homossexualidade, muitos gays continuam procurando estas mesmas igrejas em busca da cura ou libertação. O problema é que a pessoa homoerótica que se aproxima da igreja ouve muitas promessas da parte de seus pregadores ou conselheiros, mas não pode avaliar objetivamente se elas têm sido concretizadas, ou não, nas vidas de outras pessoas homossexuais que permanecem na igreja.
( ...)
Para manter esse homossexual que sente falta das relações homoafetivas no "aprisco das ovelhas", os movimentos de "cura" dizem que estas "tentações" são parte natural da caminhada que o ho­mossexual inicia como cristão. Alegam os crentes que todos são tenta­dos, cada qual numa área diferente. Mas se realmente existe transfor­mação de gays em heterossexuais, não deveria existir "tentação" ho­mossexual para alguém que realmente deixou de ser gay. Ou será que alguém que não é gay costuma ser severamente "tentado" a se relacio­nar com outro homem? Poderia uma mulher heterossexual ficar peri­gosamente balançada por causa do charme de outra mulher? Se o homossexual foi transformado, por que é que ele continua se sentindo insuportavelmente atraído por pessoas do mesmo gênero? Por que seus sonhos eróticos durante a noite não são heterossexuais? Por que não consegue evitar pensar em alguém do mesmo sexo quando se mastur­ba? Homossexuais também podem achar belo alguém de outro sexo. Mas por que os homossexuais masculinos que frequentam as igrejas evangélicas não se sentem sexualmente perturbados pela presença de uma mulher deslumbrante que cruza seu caminho? Ao invés disso, muitos fazem um esforço hercúleo para não virarem a cabeça e darem uma segunda olhada naquele "bofinho" lindo que canta no coral da igreja. A mesma regra valendo, a seu modo, para muitas lésbicas que garantem que foram transformadas"
Bem” , “Mal”, “Poder” e “Sofrimento” - E o papel de Deus nestes assuntos.
(...)
Mas para explicar o que se convencionou chamar “mal” , o cristianimo recorre ao mitológico satanás. E para explicar o que se convencionou chamar “bem”, a igreja recorre a um Deus que – na prática – não se importa com o sofrimento humano, e nem poderia.
É muito mais simples do que se imagina: se Deus existe e é todo-poderoso -, mas não intervém na miséria humana, ele só pode ser sádico. Agora, se ele não intervém porque não tem poder para isso, então ele não é. melhor do que qualquer outra divindade apregoada pelos teístas de todos os matizes. A meu ver, só existem três possibilidades : ou Deus não é todo-poderoso; ou Deus não é bom; ou Deus não existe de modo algum. Alguns se desesperam só em pensar na possibilidade de Deus não existir. Precisam de um pai para acompanhar cada passo da caminhada. No caso dos católicos, não dispensam a mãe também. Só que essas crenças oferecem restrições aos desejos, sonhos e comportamentos humanos - alguns deles maravilhosos. Não oferecem, porém soluções reais para as crises que o ser humano enfrenta. O que se consegue resolver, é resolvido pelo próprio ser humano, ou então é reprimido com todas as forças para não lançar este Deus em descrédito e com isso, atrair sua ira (ou seria a ira da igreja?). Se o homem acerta, o crédito é de Deus; se o homem erra, a culpa é sua ou, no máximo, do diabo.
 ( ...)
 Depois de todos esses e outros questionamentos cheguei à conclusão de que se o mundo viveu sem o cristianismo por milhares de anos, eu também podia viver minhas poucas décadas sem a domina­ção mental desta crença. Em alguns lugares do mundo, as pessoas continuam vivendo sem o cristianismo até hoje. Alguns seguem outras religiões, mas milhões abandonaram completamente a crença numa divindade, qualquer que seja ela. E por que deveria eu ficar sofrendo para agradar um Deus que eu nunca vi, a quem clamei sem respostas e por quem sacrifiquei tanta coisa sem garantia alguma de que tenha valido a pena?
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Sergio é um grande militante da causa Gay no Brasil. 
 
Siga os links abaixo para conhecê-lo melhor :

Blog do Sergio : "Fora do Armário" ( um aula de cidadania) . Link aqui
Entrevista para a Revista Época. Link aqui.
Sergio, Malafaia e Avon. Link aqui 
Sergio xinga o Silas Malafaia. Link aqui 
Entrevista Ex-Hetero. Link aqui
Entrevista Bulevoador. Link aqui

Monday, December 10, 2012

Show - Madonna em Porto Alegre





Madonna em Porto Alegre.

Santa Paciência ! 

A esta altura todo mundo sabe que o show iniciou com mais de três horas de atraso.

Eu até pensei que por aqui esta josta não ia rolar, mas que nada.

Ainda bem que estávamos relativamente confortáveis e deu pra aguentar a espera de maneira razoável.

A galera, como não poderia deixar de ser, ficou puta e chamava a diva à cena entoando “Uh, Madonna, vai tomar no cú !” , num belo gesto de carinho dos fâs a sua rainha.

Mas, claro, todo o stress acabou quando as luzes se apagaram e o teatrão começou. 

Sim, “teatrão”, pois o que se viu no palco foi muito mais um musical do que um show pop ou rock.

Cada passagem, cada música é milimetricamente desenhada, detalhadamente ilustrada com vários recursos de cena (figurinos, coreografias, cenários, imagens, efeitos, etc). É tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo que é impossível prestar a atenção em tudo.

É evidente o trabalho, o cuidado,  o estudo da construção dos detalhes dos diversos conceitos apresentados.

No lado musica propriamente dito, o repertório apresenta basicamente as canções do "MDNA" , um disco com algumas canções poderosas e outras nem tanto. É claro que o povo queria as mais antigonas, mas neste quesito “la cantante” apresentou pouca coisa.

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O show inicia com uma espécie de ritual monástico, com os encapuzados cantando algo gótico e sacudindo incensos. 

O povo pira quando a Deusa surge de um confessionário gigante e ataca de “Girl Gone Wild”.

Eu simplesmente amo a junção de imagens sagradas com profanas (quando bem executadas), e o início do “MDNA” é recheada delas.

Entrei em êxtase logo de cara.

O clima se mantém lá em cima na sequência de “Revolver” e Gang Bang”.

O teatrinho que ela faz de “assassina” num quartinho de hotel de quinta é matador.O que espirra de sangue a cada tiro nas cabeças dos boys é quase surreal.

Depois ela mistura alguma coisa das antigas (como "Papa Don’t Preach" - que é executada só pela metade, "Hung Up", do álbum "Confessions on a Dance Floor" (2005) - e a nova (e chata) "I don’t give A...", do "MDNA". Do telão, a Nicki Minaj faz uma participação e decreta : "Só há uma rainha, e ela é Madonna". O povo e a protagonista concordam, of course.

"Express Yourself" entra arrebentando.

"Vamos lá, garotas
Vocês acreditam no amor?
Porque tenho uma coisa para dizer sobre ele
E é mais ou menos assim

Não aceite o segundo lugar, baby
Ponha seu amor à prova
Você sabe, você sabe que tem que
Fazer com que ele expresse o que sente
E talvez então você saberá que o amor dele é verdadeiro

Se expresse !"

Lindo ! A citação ao "Born This Way" no “Express..” pode ter duas interpretações : ou é uma homenagem à “monstra”, ou é uma “denúncia” de plágio da “monstra”. Anyway, o mash-up ficou tri bom.

Mais uma troca de roupa e a cheerleader manda "Give Me All Your Luvin", "Turn Up the Radio" e outras.

O lance dos integrantes da banda tocando suspensos é fantástico (parecem soldadinhos de brinquedo)

Em “Masterpiece”, Madonna projeta imagens do seu filme “W.E”, uma bobagem que fantasia o romance da Wallis Simpson e Edward VIII - na verdade dizem que ele era uma biba enrustida (e simpatizante do nazismo) e ela uma expert em segredos sexuais aprendidos em bordéis da Ásia que deixavam a Edward siderada … (abafa !) - Mas as imagens idílicas do casal ficaram lindas.

Particularmente especial para “moi” foi o bloco com citações de “Justify My Love”, “Erotic” e a completa “Human Nature”, músicas que representam (evocam) um período de vivência, reconhecimento e afirmação de alguns aspectos sombrios da minha sexualidade.

O dança entre os espelhos que ela apresenta na “Human...” , mostra brilhantemente uma persona em conflito entre a condenação e o desejo (repulsa e atração no reflexo). Show de bola ! Babei novamente.


“Vogue” foi bem, mas achei o encerramento truncado, e o pique cai muito com "I'm Addicted" e "I'm a Sinner".

A função continua assim, com altos e baixos.

Mas o grand finale é com "Like a Prayer" .

Aí a coisa aconteceu, o bicho pegou de verdade.

O Olímpico virou uma catedral com o povo aos berros acompanhando a Deusa e o coral Gospell que surgiu no palco.

Absolutely Fabulous !

E festa termina com “Celebration”, executada vigorosamente, com a massa mandando ver na rave estrelada.

Bem, poderia ser melhor ?

Sim, no sentido de que seria muito legal se mais das antigas fossem apresentadas.

Mas esta não era a proposta do espetáculo e, por isto, a apresentação “deixou a desejar” para os fâs que queriam mais clássicos presentes (eu concordo com isto)

Mas é inegável a força da música, da imagem e da mensagem da periguete.

O que tivemos aqui em Porto Alegre foi a presença de uma ARTISTA, no mínimo corajosa, que sempre buscou manifestar-se (porém nem sempre acertando), através de vários meios - até livro infantil ela tem -  na busca de discutir / trabalhar / expor de forma aberta todos os temas que lhe são caros.

Pode-se até não gostar da sua música, da sua dança, da sua imagem, e sei lá mais o que, mas não reconhecer sua influência para a construção de uma  realidade onde as mulheres e os gays passaram valorizar cada vez mais seus desejos e natureza, é ignorância.

Salve a santa.
 
Notas :

Madonna fez um belo discurso em homenagem às mulheres do mundo que são aprisionadas, violentadas, torturadas, aprejadas, só porque ousam “se expressar". Um belo recado.

Falar sobre sua forma física é redundância. Só vendo pra crer.

Palavras que “aprendeu” em português : caralho, safada, gostosa e periguete.

Disse que não estava muito disposta por causa das mudanças climáticas que enfrentou por aqui, mas que, ao ver o sorriso dos fãs tudo mudou e que estava ali para detonar.


A bandeira do Brasil que ela pegou no final do show foi jogada ao palco pela minha sobrinha Mariana, uma fã fanática (sic) pra dizer o mínimo.

Veja o video abaixo






Celebration - Porto Alegre



Povo no Show

Eu, Lu, Ana e Ni na fila

Já acomodados

Thursday, December 06, 2012

Revisitando os Clássicos / Encontro II – Dante e Maquiavel



Casa de Ideias - Revisitando os clássicos com Prof. Voiltaire Schilling


Encontro II – Dante e Maquiavel

Dante – A Divina Comédia.



Mais uma super aula com o Mestre Voltaire.  

O cara é um monstro de conhecimento.  Isto tem seu valor, mas o que realmente importa, é o que é que a criatura faz com toda sua bagagem de conhecimento, com  sua erudição. 

Ou pode se tornar um pedante, com um discurso impenetrável – conheci alguns acadêmicos assim- , ou então é abençoado com a arte da didática e transmuta sua erudição num discurso acessível e agradável.  Voltaire é assim. Não dá nem pra perceber o tempo passar. Quando vemos, já está na hora de terminar o encontro.

Em relação ao Dante, o mestre, como não poderia deixar de ser,  fez toda uma explanação da situação sócio-político-cultural-religiosa da Itália na época em que a Divina foi criada.  

Dante, era um poeta e político interessado na unificação da Itália,  tanto pelo lado do poder (foi exilado devido a divergências internas no partido a que pertencia) quanto no lado da cultura  - fez parte do movimento Dolce stil nuovo, um movimento de renovação e afirmação da poesia e da prosa italiana em detrimentoda latina – ainda muito associada a elite e decadência de Roma.  

É impressionante a capacidade do Schilling linkar a obra em discussão com outros assuntos. 

Ontem me caiu os butiá ao saber que um esperto da  KGB, teria se inspirado na descrição do Limbo (ou Primeiro Círculo do Inferno, segundo Dante), para criar, no mundo real uma espécie de gaiola de luxo (na verdade uma prisão), onde, na época do Stalin,  as mentes russas brilhantes – de várias áreas - eram confinadas e condenadas a “produzir”

AlexanderSoljenítsin, foi um dos que passaram um tempo nesta prisão e sua experiência no local inspirou seu livro  “O Primeiro Circulo””.

Para saber mais sobre a Divina Comédia, clique aqui.

Maquiavel – O Principe.

 Aqui o que ficou fixado foi a idéia de que o jogo político não é imoral e sim amoral.  

E isto necessariamente não seria bom ou ruim,  pois o homem público – o imperador, o governante – para se manter no poder,  teria que “se adaptar” de acordo com as mudanças das circunstâncias (do “ambiente”), mesmo que, para isto tenha que ignorar promessas e juramentos feitos anteriormente.

É chocante ouvir isto, mas a coisa  é mesmo assim.  Vide a história recente do país que  mostra  que, neste sentido,  o Lula reza quase ipsis litteris pela cartilha do  Maquiavel.

Segundo Voltaire :

“O Principe” é um “Extraordinário manual de política que se tornou um clássico universal, Seu intento era orientar os chefes do governo (O Príncipe) em como alcançar, manter e estabilizar-se no poder, para tanto descartando as regras da moral comum e da ética religiosa. É uma descrição realista das maneiras de conduzir-se nos negócios públicos internos e externos.

A política é uma prática amora, regulada pelos resultados finaise que pouco segue a ética convencional dos cidadãos ou dos súditos.  Necessariamente um homem bom e honesto não é um político eficaz; deve haver uma fusão entre o homem e o animal, meio homem meio raposa, meio homem e meio leão, e sempre deve ser amparado pela Fortuna (boa sorte)

Para saber mais sobre O Príncipe, clique aqui.

Tuesday, December 04, 2012

Et´s e o Congresso Mundial de Ufologia

No período de 06 a 09 de Dezembro estará ocorrendo em Foz de Iguaçu o IV Fórum Mundial de Ufologia, um encontro que pretende discutir, obviamente e novamente, a velha questão da vida extraterrestre.

Teve uma época onde eu me interessei muito pelo assunto. Li vários livros, revistas, busquei documentários,  participei de Congressos, etc.  

Hoje não acredito em mais nada disto.  Para mim, os ETs nada mais são do que os Íncubus e Súcubus modernos.  

Vi há algum tempo um documentário (não me lembro o nome) que tratava  e explicava cientificamente,  exatamente a  sensação – descrita pelos abduzidos – na qual a pessoa se vê “paralisada e manipulada por seres estranhos”.

O filme mostrou que isto sempre ocorreu na história humana e  antigamente estava associado a ataques dos Íncubus e Súcubus. Depois,  com a comprovação de que tais criaturas não existem, o homem teve que inventar novos “seres” para descrever tais sensações.  Daí que hoje temos como “vilões manipuladores que atacam na madrugada",  os Ets

Num determinado trecho,  uma cientista - na verdade a própria apresentadora do documentário- voluntariamente foi induzida, através de uma experiência filmada em laboratório, a viver a sensação de abdução.  O impressionante é que ela ia descrevendo “o que estava vivendo” e depois chegou à conclusão que, se não tivesse consciência de que tudo era resultado de um processo químico natural do cérebro, iria acreditar fortemente que aquilo que tinha sentido “era real”.

De qualquer forma, muitas  pessoas precisam crer no fantástico, em “teoria da conspiração”, em “revelações”, em “acesso a segredos”, e coisas do tipo "ocultas",  para dar algum brilho, para dar um “diferencial” no seu “conhecimento”.

Acho curioso, ingênuo,  mas não tenho nada  contra.

De qualquer forma, o que me chamou a atenção neste Congresso de Foz foi o título de algumas palestras e a apresentação de alguns convidados.

Destaco alguma coisa aqui, seguido de comentários.
Porque ele está nos encarando ?
PALESTRAS :

1 ) Evidências Circunstanciais da Realidade Extraterrestre
Comentário :  Confesso que não entendo o que seria uma “evidência circunstancial”.

2 ) Evidências Inequívocas da Ação Extraterrestre Através de Imagens
Comentário : Aqui já gostei mais pois entendo o que seria uma “evidência inequívoca”. (Peraí, toda evidência não é inequívoca ?)

3 ) Pré-Requisitos Para o Contato Extraterrestre
Comentário : Que cartilha é esta ?

4 ) A Cosmovisão do Homem Andino Indica que Estamos Próximos do Contato
Comentário : Indicado onde ?  Um coisa Calendário Maia ?  Cosmovisão daquela civilização que nem conseguiu prever seu próprio desaparecimento ou daquela que foi extinta  pelos conquistadores ?

5 ) Contato Iminente e Revelação Extraterrestre Para Toda a Humanidade
Comentário : Que mêda do dia da “Revelação”. Ainda bem que temos estes experts para fazer o meio de campo com os ETs.

6 ) Diplomacia Extraterrestre: Um Tema Oficial
Comentário : Onde este curso é ministrado ? Tem na FGV ?

7) A Psiquê dos Abduzidos e Contatados
Comentário : ... Tudo tarja preta, com certeza....

8 ) O Impacto Sociológico do Contato e a Necessidade de Revelação Global
Comentário : Realmente vamos viver numa “nova era”, depois do “contato”
Ele está logo atrás de mim, não está ?

PALESTRANTES CONVIDADOS (apresentados com suas devidas credenciais) :

Obs : esta lista foi retirada daqui.

1 ) Eduardo Grosso (ufólogo argentino especialista em abduções em dormitórios)
Comentário  :  Por que especialmente em "dormitórios" ? E especialista em abduções em  outro cômodo da casa não tem ? Tipo, os abduzidos na sala (ou no banheiro), como ficam ?

2 ) Capitão Julio Guerra (piloto e militar conhecidíssimo em Portugal por sua experiência com UFOs no ar)
Comentário  : UFOS no ar ? Me parece óbvio. E especialista em UFOS aterrisados (ou acidentados)  não tem ?

3 ) Liliana Flotta Grosso (ufóloga argentina especialista em visitas de dormitório)
Comentário :  O que seria uma especialista em “VISITAS” de dormitório ?

4 ) Margarete Áquila (cantora nacionalmente reconhecida)
Comentário  :  Nacionalmente reconhecida  onde ?

5) General Paulo Yogui Uchôa (filho do saudoso general Alfredo Moacyr Uchôa)
Comentário :  Saudoso quem ?


Ela : Oh, Roy, isto não é romântico ?
Ele : Hei, Aliens, se vocês estiverem aí em cima, por favor me abduzam
 
Filho : Pai, de onde vêm os bebês ?
Pai : Ah, merda...
Para a melhor mãe do mundo, do seu filho adorado.




Cristo : Quantas vezes  vou ter que me lascar fazendo isto ?
Legenda : Se os Ets existem, todo planeta deve ter um salvador.



Me ajudem, seus idiotas. Os Ets estão me abduzindo !


A foto abaixo mostra eu, minha irmã e minha sobrinha no XVII Congresso Brasileiro de Ufologia em 1999, juntamente com Giorgio Bongiovanni, um dito "escolhido" que mantém contato com os Ets, além de manifestar as chagas de Cristo.