“Garota exemplar” , da americana Gillian Flynn, é um livro em camadas.
Quando parece que estamos indo num caminho óbvio, a autora
introduz uma reviravolta que nos faz repensar tudo o que lemos
anteriormente.
Partindo de um acontecimento misterioso, porém banal,
(esposa sumida – marido suspeito), Gillian nos oferece uma banquete gelado
servido servido por um casal “moderno” (Nick
e Amy) – que parte do retrato do perfeito “american way of life” para o mais
absoluto terror de uma relação arruinada .
E para isto, a autora joga todo o tempo com o leitor,
atraindo-o e traindo-o a cada capitulo.
A partir de certo momento é impossível prever o que virá a
seguir.
O livro começa a queimar nas mãos e ficamos com medo de
seguir adiante. Rola um misto de fascínio e repulsa.
Eu vibrei a cada página.
E,
confesso, sendo bem preconceituoso, pensei em vários momentos : “como uma
mulher pôde escrever isso?”.
Algumas passagens são tão definitivamente masculinas que é
supreendente o perverso olhar machista e, é verdade, misógino.
Mas a coisa vai além. Muito além.
Gillian não doura a pílula e, quando a
perversidade surje, não tem medo de ir cada vez mais fundo na descrição da
maldade, egoísmo e interesses que motivam as ações dos protagonistas.
Atenção : quem curte personagens perfeitamente definidos
como bons ou maus afaste-se deste livro.
Aqui eles são sombrios, camuflados.
Seus valores são relativizados de acordos com os acontecimentos que muitas
vezes lhes escapam das mãos.
Diante de cada surpresa do destino eles se adaptam no
sentido de agir para melhor se ajustar em suas zonas de conforto (mesmo que
estas zonas apóiem-se em valores nada morais).
O livro cresce a cada página e leva a um final, digamos,
dúbio, que tanto pode agradar ou decepcionar.
Meu sentimento foi de “incômodo”.
Se por um lado aplaudi a ultima frase, por outro lado me
incomodei com a, na minha opinião, concessão da autora ao “lado bom da força”.
Leiam e tirem suas próprias conclusões.
Gillian
Flynn
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“O retrato de um casamento tão aterrorizante que vai fazer você passar um
bom tempo pensando em quem realmente é a pessoa que está ao seu lado na cama.” - Time
“Um thriller arrebatador, o retrato magistral do desenrolar de um
casamento.” - The New Yorker
“Um thriller engenhoso e perverso. Uma leitura de tirar o fôlego, Garota
exemplar mostra, por meio de reviravoltas e estranhezas, as tênues
relações de poder entre homens e mulheres e como muitas vezes os casais estão à
mercê de forças além de seu controle.” - Entertainment Weekly
“Com uma trama digna de Alfred Hitchcock, Garota exemplar vasculha
os recônditos mais sombrios da psique humana. Uma leitura deliciosa, que vai
prendê-lo até a última página.” - People
“Um suspense de ritmo alucinante e também uma cuidadosa análise da relação
conjugal. Extremamente bem construído e surpreendentemente reflexivo, é uma
leitura maravilhosa.” - The Boston Globe
“Ao mesmo tempo um thriller e uma história de amor macabra, escrito
de forma incrível, com voltas e reviravoltas nada óbvias.” - New York Post
“Com um humor negro e inteligente, Garota exemplar traz à tona uma
verdade sobre os casamentos aparentemente perfeitos: às vezes é seu pior
inimigo quem desperta o melhor em você e, nesse caso, é bom mantê-lo por
perto.” - Salon
“A história se desenrola de forma precisa e fascinante. Mesmo quando você
sabe que está sendo manipulado, procurar as peças que faltam é metade da
emoção.” - Oprah.com
Vou dizer uma coisa : sou sou macaco velho em filmes de
terror e minha tendência é assumir um olhar sarcástico, irônico e debochado diante
de qualquer obra do gênero.
A imensa maioria do que vejo resume-se a um
amontoado de clichês, adornados por sustos óbvios que não impressionam nem
assustam ninguém.
E foi com esta vibe que sentei para assistir “Invocação do
mal” (The Conjuring, 2013) sem saber muito bem sobre o que se
tratava, além da óbvia mentira de que se tratava de uma história “baseada em
fatos reais”.
Pois bem, como se diz aqui
no sul : “me caiu os butiá do bolso” (ou “fiquei de cara”, ou “fiquei pasmo”,
etc).
Confesso que nunca iria me imaginar gritando, dando saltos da cadeira e
sentir todo meu corpo se enrijecer de tensão.
Que suadouro, que medo, que
horror !
... que cagaço....
A história não poderia ser mais batida : uma família é assombrada por um espírito do mal e chama
uma equipe de paranormais para dar conta do assunto.
Sim, simples assim.
Mas
qualquer clichê cresce muito se tiver por trás um bom roteiro, uma boa produção,
em elenco excelente (Lili Taylor, Vera Farmiga, Patrick Wilson e Ron
Livingston) e um diretor em momento de singular inspiração (James Wan).
E é esta conjunção de fatores que
fazem “Invocação do mal” um expoente no gênero.
Com referências óbvias a “Poltergeist”,
“O exorcista”, “Os pássaros”, “Terror em Amityville” e outros, o filme revela-se uma primazia do
horror.
Alguns sustos são definitivamente um absurdo de terríveis.
Um deles, em
especial – não vou dizer qual – me fez ir do grito espontâneo a um ataque de
riso nervoso e incontrolável (algo para mim inimaginável).
O filme está sendo apontado como a melhor produção de terror
de 2013, e eu concordo totalmente.
Dizem que já está sendo produzida uma
segunda parte devido ao sucesso. É aquela velha história : já vão começar a
sugar e descaracterizar a obra por conta da ganância.
Tudo bem.
Assim como
diversas outras “sagas” , “Invocação” vai acabar caindo na vala comum das
idéias exauridas em sequências totalmente dispensáveis.
Mas este primeiro
ficará sempre como um excelente exemplo de uma obra sólida e competente do
terror.
Filmaço.
Comentários :
Bruce Diones ("New Yorker") : "Wan transforma
os muitos solavancos durante a noite em uma pequena sinfonia hitchcockiana de
terror, por meio de longas e estranhas cenas, silêncios dramáticos e sustos
repentinos que são assustadoramente envolventes"
Chris Nashawaty ( "Entertainment Weekly" ) :
"Wan magistralmente aperta os
nervos do público, usando humor e efeitos sonoros para os choques que nunca
ficam baratos (jogo de esconde-e-aplaude nunca foi tão horripilante)".
“A ética não se deve basear nas emoções, e sim na razão e na
filosofia. Este é um grande desafio”.
Isto dito ontem por Peter Singer, na palestra
do Fórum Fronteiras do Pensamento, iluminou a noite.
Peter falava sobre nosso
entendimento e compromisso prático com o
que não vimos nem vivenciamos diretamente, como por exemplo a extrema pobreza
do mundo, a destruição da atmosfera e o mau trato com os animais.
Ou seja para
nós é muito mais fácil assumirmos posições sobre assuntos próximos a emoções,
como o aborto e a eutanásia, do que sobre temas “distantes”, como os citados
anteriormente.
E o pior é que isto é verdade. Saindo da palestra – que teve
como foco a extrema pobreza no mundo, a destruição da atmosfera, o mau trato
com os animais e a extinção da raça humana - fomos displicentemente lanchar e conversar
sobre problemasde relacionamentos
conjugais, cinema, literatura, viagens e coisas afins.
Afirmo que se o encontro tivesse como foco
temas “mais quentes” o papo teria outro rumo. Porem, entre uma cerveja e outra,
a palestra de um dos maiores filósofos da atualidade foi sendo descartada de acordo
com o humor dos presentes.
Pensar cansa e agir mais ainda.
Estamos errados ?
Nossa natureza nos puxa para
zonas de conforto nas quais “o que não vimos não nos incomoda”.
Então nada mais
natural ignorar tais assuntos e acordar no dia seguinte e reclamar do frio e da
chuva que está incomodando Porto Alegre.
Reproduzo abaixo o texto que saiu na ZH de hoje sobre a palestra do mestre
CONFERÊNCIA
Os quatro desafios da humanidade
Filósofo Peter Singer falou ontem sobre as obrigações morais das pessoas
Se
você pudesse numerar os principais desafios éticos para a humanidade no
século 21, quantos eles seriam? Para o filósofo australiano Peter
Singer, seriam quatro: pobreza global, mudanças climáticas, tratamento
dos animais e como diminuir o risco de extinção de nossa espécie.
Singer
apresentou ontem à noite no Salão de Atos da UFRGS uma das palestras
mais concorridas desta edição do Fronteiras do Pensamento. Com o apoio
de material apresentado em Datashow, procedimento raro neste fronteiras,
o filósofo mostrou dados, estatísticas e provocações sobre os
principais problemas que a humanidade enfrenta neste terceiro milênio.
Para ele, todos estão de alguma forma interligados.
– Vou falar
muito rápido, mas espero dizer algo sobre a natureza e a complexidade
desses desafios, e não quero que vocês se sintam satisfeitos com o que
vou dizer, mas curiosos para buscar informações e formar sua própria
opinião.
O primeiro tema abordado pelo intelectual foi a pobreza
global, sintetizada em estatísticas brutais: sete milhões de crianças
morrem por ano de doenças relacionadas à pobreza, males perfeitamente
tratáveis com recursos irrisórios. Singer narrou uma fábula da qual
tirou uma regra moral: alguém que veja uma criança se afogando deveria
salvá-la mesmo correndo o risco de estragar seus melhores sapatos? Sim,
de acordo com o autor de Ética Prática.
– Se temos como evitar algo ruim sem sacrificar alguma coisa da mesma de importância moral, temos a obrigação moral de agir.
Mas
isto, segundo ele, não deveria valer só para uma criança se afogando.
Muitos poderiam doar, sem prejuízo ou sacrifício, recursos que poderiam
salvar vidas.
Poupar os animais para conter o aquecimento global
Singer
dedicou parte da palestra ao problema das mudanças climáticas,
provocadas muitas vezes pelos países ricos com suas altas taxas de
emissões de gases causadores do efeito estufa. A perversidade do sistema
é que, segundo ele, os países pobres, que pouco contribuem para a
mudança climática, são os que sofrem seus maiores efeitos.
– Os
países ricos estão arruinando os pobres ao excederem suas cotas de
emissões. É uma questão moral vital e pouco fazemos a respeito – disse
Singer.
O terceiro tópico é uma das bandeiras mais antigas de
Singer, que escreveu, em 1975, Libertação Animal. De acordo com ele, não
há por que submeter os animais ao tratamento cruel que a pecuária
industrial em larga escala os faz sofrer – reduzindo também o risco de
extinção da espécie humana. A grande quantidade de rebanhos atual
contribui para o aquecimento global de modo mais intenso do que os meios
de transporte: Ingerir 250 gramas de carne de gado é, em produção de
metano, como dirigir em torno de 16 km num automóvel.
– Reduzir o
consumo de carne é uma responsabilidade para diminuir o aquecimento
global e, ao mesmo tempo, o sofrimento dos animais – convocou o
pensador.
O Fronteiras do Pensamento Porto Alegre é apresentado
pela Braskem e tem o patrocínio de Unimed Porto Alegre, Weinmann
Laboratório, Santander, CPFL Energia, Natura e Gerdau. A promoção é do
Grupo RBS. O projeto conta com a Universidade Federal do Rio Grande do
Sul como universidade parceira e tem parceria cultural de Unisinos,
Prefeitura de Porto Alegre e Governo do Rio Grande do Sul.
Uns mais, outros menos, mas todos enfrentam dificuldades em diversas ocasiões da vida.
Frente a estes momentos, dependendo do que acontecer, podemos achar que nosso sofrimento é o maior que alguém pode suportar.
E é mesmo, pois cada um sabe a dor que sente.
Mas, ao lermos a história de vida da Angelica (relatada em “Lagrimas de Silencio”, Suliani Editora ), somos obrigados a olhar nossos “problemas” e reconhecer que se olharmos para o lado vamos ver que nossos percalços tornam-se quase que piadas comparados a situações para nós impensáveis, mas que são dura realidade para outros.
“Lagrimas do Silencio” relata de forma crua e direta (e com uma coragem ímpar) a aterrorizante trajetória de Angélica (nome fictício da autora Angela Chaves), uma menina do interior do RS que teve sua infância destruída por uma família abusiva.
E Angela não doura a pílula. A descrição dos seus tormentos desde criança até adulta atinge níveis cada vez mais angustiantes.
Fome, frio, descaso , abandono, miséria. Surras, maldades. Abusos, ameaças. Rejeição, desprezo, tortura. Estupros, violência, incesto. Zoofilia, pedofilia. Alcoolismo, prostituição, exploração, assassinato. Loucura, depressão, tentativas de suicídio. Tudo isto foi realidade na sua vida.
E ela acabou dando a luz a duas crianças frutos deste universo de desgraças. Uma filha do seu próprio pai e outra de seu meio irmão.
O livro é curto, de poucas páginas, porém assustador, pavoroso.
Senti medo de ir adiante diversas vezes. O espiral de sofrimento da menina parece não ter fim. Quando achamos que o ápice da maldade aconteceu, sucede-se outro, e outro, e mais outro. E somos convidados a testemunhar tudo impotentes, paralisados, incrédulos.
Como Angela mesmo diz, as palavras são insuficientes para expressar sua dor. E ao lermos sua história, concordamos. Se para nós leitores não existem palavras que expressem o choque ao tomarmos o conhecimento da sua infância arruinada, quanto mais para ela que tenta transmitir em texto a tragédia de sua alma dilacerada.
Depois de fechar o livro, acabei me lembrando das palavras finais o personagem Kurtz em “Coração das Trevas” de Joseph Conrad, diante do reconhecimento da maldade humana :
“O horror, o horror”.
E acrescento :
O incompreensível, o inexplicável, o abominável, o execrável, o aterrorizante, o paralisante, o inominável, , o odioso.
Nem mesmo recorrendo a todas as palavras do dicionário que lembrem “inferno” e / ou “sofrimento” serão suficientes para, remotamente, descrever o massacre do corpo, alma e mente da menina gaucha, perpetrado por uma família e circunvizinhos absolutamente doentes.
Angela é uma vencedora.
Tive oportunidade de abraçá-la ao adquirir o livro. Tudo muito rápido e gentil.
Porém o poder de sua história me marcou para sempre.
E isto, afirmo, acontecerá com qualquer um que a conheça.
Para adquirir o livro, envie um mail diretamente para Angela que ela passa as orientações
A esta altura do campeonato só mesmo um ET poderia desconhecer o que está acontecendo no Brasil. Finalmente a massa ocupou as ruas e grita suas reinvindicações a plenos pulmões. Chega de marasmo e obedecer tudo como cordeirinhos.
Estive participando das manifestações e digo que dá de tudo no bolo de gente. Pessoas realmente bem intecionadas com suas mensagens em cartazes e gritos , grupos oportunistas querendo pegar uma casquinha do momento até, realmente, gangues organizadas para depredar e roubar.
No meio de tudo isto, um personagem, destaca-se. É o Anonymous, personagem do filme “V de Vingança” (que por sua vez foi baseado numa HQ), que, como diz seu nome, anonimamente divulga sua mensagem de rebeldia e assim estimula o povo a tomar as ruas e mudar a ordem vigente.
O filme é de 2006 e seu recado é clássico. Vem exatamente na linha da construção de respostas revolucionárias para mudar o status, mudar uma sociedade distópica.
Na época me caiu os butiá a cena que o V (Hugo Weaving) dança com a Evey Hammond (Natalie Portman), ao som de “I´m a Bird Girl Now”, do Antony and the Johnsons, um grupo que amo.
Fiquei tao impressionado que peguei o clipe e legendei.
Como agora o V voltou a baila, divulgo novamente esta beleza.
A Zero Hora publicou hoje uma materia sobre o Anonymous Brasil.
Eu realmente não tenho opinião formada a respeito do assunto, porém minha tendência é desconfiar de tudo aquilo que se oculta atrás de máscaras.
Reproduzo a matéria abaixo.
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A máscara do protesto
Com inúmeras bandeiras de reivindicações, as multidões que desfilam pelas ruas do país se identificaram com uma face. A de um grupo que age no anonimato na internet e arrebata seguidores com um discurso crítico.
OWikileaks ganhou um parceiro de peso em vazamentos de segredos na internet. É o Anonymous, que é um grupo e também pode ser ninguém. Ele não tem rosto, mas sua máscara virou viral nos protestos que galvanizam o país. Ele só se comunica pelo YouTube e Facebook, está cheio de cópias falsas pelas ruas e nem mesmo se sabe se é um sujeito, um evento ou um holograma. Tudo que se conhece dele é que imita a fisionomia de Guy Fawkes, o herói do filme V de Vingança. Baseado num personagem real, um rebelde vingativo anti-monarquista, é a inspiração do grupo de ciberativistas que quer mudar à força a política no planeta – e no Brasil.
Para uns, o Anonymous é uma organização direitista disfarçada e preocupada em atacar a esquerda no poder e o governo Dilma em particular. É verdade que não tem economizado em críticas à presidente brasileira. Mas os conservadores também têm queixas: o Anonymous, para eles, é a figura do anarquismo e do caos, pregando a desordem nas ruas e partilha de lucros de alguns empresários, como os do transporte coletivo. O certo é que, nas passeatas, o mascarado com pseudônimo virou cult entre crianças e velhos, que desfilam com sua face plástica e o bigodinho de mosqueteiro, e seus argumentos estão na boca de jovens que estão indo às ruas.
A figura é simpática, mas não inofensiva. Isso porque o Anonymous bisbilhota e usa táticas de hacker, na tentativa de divulgar suas causas. O site anonymousbrasil.com divulgou, semana passada, dados privados do governador do Rio, Sérgio Cabral, do secretário da Segurança Pública (o gaúcho José Mariano Beltrame), do polêmico pastor e deputado federal Marco Feliciano e dos jogadores Ronaldo Nazário e Pelé. Exibiu telefones, CPFs, listas de empresas, dados de faturamento. Em outros posts, expôs relatórios confidenciais das PMs brasileiras, incluindo e-mails pessoais de oficiais, pirateados, locais de blitze, contabilização de despesas. Quando um homem atropelou manifestantes em Ribeirão Preto, há pouco mais de uma semana, o Anonymous logo postou informações pessoais sobre ele no seu site. A tática em tudo imita o Wikileaks do proscrito Julian Assange, e o Anonymous faz questão de confirmar isso.
O que é o Anonymous? Quem são seus integrantes? Zero Hora perguntou isso aos organizadores do site, mas não obteve resposta. É certo que não se trata de um simples grupo de amadores a improvisar uma revolta via mídias sociais. Foi em junho de 2011 que o primeiro vídeo dessa organização, com nítida inspiração anarquista, vazou no YouTube, em meio a protestos na Europa. É coisa de profissional, tem qualidade publicitária. Abre com uma vinheta caprichada, um globo, sugerindo a universalidade do grupo. Logo depois vem o emblema da ONU, encimado por um ponto de interrogação. Surge finalmente na tela o protagonista, um mascarado, com voz modulada, ao estilo locutor de rádio, masterizada e dublada no idioma do público-ouvinte: português, quando no Brasil, ou inglês com tradução.
Especialista define como “o rosto da manifestação”
A voz do mascarado é séria, às vezes feminina, hipnótica, lembra algo do filme 1984 e do Grande Irmão (Big Brother) descrito por George Orwell, aquele que controla a tudo e a todos. Mas a mensagem é o oposto disso: prega descontrole, rebelião, ao estilo “contra tudo que está aí”. O homem sem rosto e com linguajar refinado fala que um dia acordou e decidiu lutar. Seu campo de batalha é o ciberespaço. Seu recado é para “multidões que não têm voz, oprimidas pelos detentores de poderes públicos e privados”. Slogans que lembram os anarquistas do século 19, mas impulsionados por tecnologia do século 21. Especialista e estudioso de mídias sociais, o professor na Unisinos Felipe de Oliveira explica que a falta de identidade é proposital no Anonymous, para poder realizar ações clandestinas, como a invasão de sites governamentais ou privados. O que espanta o pesquisador é que o mascarado anônimo imprimiu sua cara nos protestos, literalmente. Organizado dentro da internet e dali saindo para as ruas, o grupo é sucesso de mídia (1,6 milhão de acessos numa resposta ao colunista global Arnaldo Jabor). – É o rosto dessa mobilização, gostem ou não – diz Oliveira. humberto.trezzi@zerohora.com.br
Sobram críticas a todos
Slogans não faltam ao Anonymous. No Brasil, a organização prega um levante popular “para acabar com a farra de imoralidade que vivemos em nosso país e em outras partes do mundo”. Os ciberativistas dizem que seus motivos são tão válidos como os da Turquia... porque o Brasil não tem escolas em número suficiente, hospitais, postos de saúde, boas estradas, transporte.
– Enquanto isso, o governo gasta milhões com estádios de futebol e nas Olimpíadas. Importar médicos de outros países é fácil... quero ver formar os seus e zelar para que eles não saiam do país. Nós temos motivos, sim, para lutar. E é por muito mais que R$ 0,20 – diz o mascarado, em um dos vídeos.
Entre as causas defendidas está o apoio a que promotores continuem investigando e a que reclama da taxação excessiva a que os brasileiros são submetidos.
– A PEC 37 (rejeitada ontem pelos deputados) é outro absurdo e terá sua vez nos protestos. E não venha dizer que somos revoltosos de classe média. Pagamos mais impostos que qualquer outro país do mundo e temos em retorno a pior educação e saúde... vocês realmente achavam que essa apatia do povo seria eterna? Merecemos mais que isso. Vamos fazer o que nossos pais não conseguiram na década de 80, vamos recriar a democracia. E mostrar que as autoridades estão aqui para nos servir e não para nos explorar. Sua hora vai chegar – avisa o mascarado, com voz metálica.
Tiago Abravenel detonou em Porto Alegre na sexta passada. Num Araújo Vianna lotado, o over size performer estreiou seu show nacionalmente para uma platéia que acabou aos seus pés.
As luzes se apagam, os músicos entram no palco e um vídeo captado nas ruas de São Paulo (aparentemente), mostra várias faces anônimas revelando seus gostos musicais. E dá de tudo : rock, mpb, sertanejo, pagode, samba, jazz, funk, musica evangélica, dance, eletrônica e tudo o mais.
No final, ouve-se a voz poderosa de Tiago dizendo “E eu sou eclético (ou “gosto de tudo”, não me lembro). Sendo que o nome do show é “Eclético”
Anyway, esta é a deixa para o fofo pular (sim, pular !) para o meio do palco e começar a tocar fogo na noite. Todo de branco (a mesma cor do figurino da banda), com uma agilidade física exemplar e uma voz poderosíssima, Tiago logo arrebata a massa enfileirando um petardo atrás do outro.
Então dá-lhe Tim Maia, Seu Jorge, Chico Buarque, John Lennon, Ivete Sangalo, Sidney Magal, Psy, Funk, Jota Quest, Roberto Carlos, Chitãozinho e Xororó, Beyonce, Alcione, Gabi Amarantos, Elis Regina, Só Prá Contrariar, e muito mais, num mix alucinante e atordoante.
Chorei pelo menos duas vezes. Uma com a interpretação poderosa de “Sorrir” (música do filme “Tempos Modernos” do Charlie Chaplin, com letra de John Turner e Geoffrey Parsons) e outro no dueto entre ele e a Kesia Estácio em “Um dia de domingo”.
Tiago é um show man pronto. Simpático, sensual, cínico, divertido, dramático, irônico, debochado, atrapalhado, seguro e teatral, sua presença de palco é magnética e ele não deixa a peteca cair em ne
nhum momento.
E ele fala muito. De suas influências, da sua carreira, do seu nervosismo, da sua alegria e por aí afora. Sensualiza um monte e joga um bolão com a platéia.
O figurino é um achado. O fino terno branco do início, transforma-se num modelito brega para acabar num uniforme moleque de funkeiro. Isto passando por um visual malandro e até uma coisa traveca. Genial.
A iluminação é ótima, mas acho que poderia ser melhor explorada em alguns momentos. Os vídeos projetados sublinham diversas canções, mas confesso que meus olhos seguiam mais a figura do Tiago do que as cenas de fundo.
A banda é perfeita, com um destaque fantástico para os metais. As backings Késia e Suzana, arrebentam nos seus momentos de destaques. Isto sem falar nas coreografias divertidíssimas delas com o Divo.
O show é longo e energético. Uma tour de force para poucos, e o garoto mostra que está com todo o gás para firmar-se como um dos maiores artistas do país.
No final o Araujo transformou-se num bailão, com o povo aos berros e aos pulos acompanhando a pajelança-geléia-geral comandada pelo feiticeiro.
Não teve como não se render. Diversão e emoção total numa noite inesquecível.
Uma peça simples, delicada e feminina. Leve e com um evidente toque carinhoso, “À beira do abismo me cresceram asas” (com texto, co-direção e atuação de Maite Proença - juntamente com Clarisse Derzié Luz ), mostra algumas passagens na vida de duas anciãs (Terezinha, 86 anos, e Valdina, 80 anos) moradoras em numa instituição para idosos.
Ali elas recordam suas vidas, lamentam o abandono, refletem sobre a morte, o tempo, amor, família, divertem-se, riem e choram
Terezinha (Maitê) é mais carrancuda, um tanto amarga e vê o mundo sem muita fantasia. Já Valdina (Clarisse), é mais alegre e transgressora (mas esconde algo do seu passado familiar).
Ambas sabem que no final das contas, apesar de terem relações familiares (um tanto frouxas) extra instituição, o que têm de concreto é amizade e o companheirismo uma da outra. E assim, sem grandes embates, vão atravessando o cotidiano procurando extrair dele o melhor.
Algumas passagens são particularmente pungentes, especialmente aquela com Terezinha acompanhando a voz de Piaf em “Je ne regrette rien” e depois com Dalva de Oliveira em “Estão voltando as flores” (uma música que adoro).
O texto oferece algumas pérolas, como quando Terezinha questiona o interlocutor : "O que você vê quando olha pra mim? Uma velha rabugenta e reclamona? Eu não sou o que você está olhando. Eu sou aquilo que está dentro do que você está olhando. E o que eu converso com você vem de lá, eu sou o lado avesso da velha que você vê. Aqui dentro tem um menina de 16 anos, linda, leve, ..." e assim vai.
Ou então quando ela cita Piaf com “A velhice não é para covardes” (uma grande verdade que pode ser estendida à qualquer momento da vida). E também o mistério e o encanto da frase que dá nome ao espetáculo e que pode ser entendida como o encontro da sabedoria com a morte.
As atrizes estão muito bem. O figurino é belíssimo e tudo o mais funciona (acabei me emocionando – e refletindo - em vários momentos)
De maneira geral gostei Não achei nada excepcional, mas vale a pena.
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Crítica de Barbara Heliodora (O Globo)
Retrato encantador de duas mulheres
Com dados colhidos por Fernando Duarte em entrevistas com um grupo de idosos, Maitê Proença armou um tocante diálogo entre duas mulheres que ficam amigas na instituição onde moram e um suposto jovem que as entrevista. Juntas, mesmo que perfeitamente individualizadas, as duas compõem, com suas lembranças de acontecimentos e emoções, um painel da vida de todas as mulheres em sua experiência humana.
Uma mais reflexiva, a outra mais extrovertida, tanto uma quanto outra podem dizer, com verdade, que “À beira do abismo me cresceram asas” — e, por isso, conseguem manter vivas a riqueza interior, as emoções e a imaginação que os outros supõem que a idade lhes tenham matado. O texto, com isso, resulta fluido, ora alegre, ora emotivo, enriquecido pela diversidade das experiências vivida por cada uma das duas amigas, e gostosamente teatral.
Sem imitação da velhice
A montagem em cartaz no Teatro do Leblon é simples e harmoniosa, com um cenário que, mesmo nos lembrando que estamos no teatro, cria o ambiente impessoal mas amistoso, onde duas cadeiras, diante de paredes brancas mas translúcidas, estabelecem o universo em que as duas moram. Os lindos figurinos de Beth Filipecki por certo as ajudam a alçar voo. A luz de Jorginho de Carvalho e a trilha de Alessandro Perssan completam com precisão e delicadeza o ambiente.
A direção de Clarice Niskier e Maitê Proença, com supervisão de Amir Haddad, é delicadamente simples, guiada pelo amor ao mundo que devia ser criado, profundamente carinhosa, mas sem cair um momento na pieguice, confiante na capacidade das duas intérpretes. Maitê Proença e Clarisse Derzié Luz atual com a harmonia de uma peça de piano a quatro mãos; cada uma tem seus momentos de solo, contraponto uns dos outros, e nos duetos formam um desenho único, harmônico, nos quais as ocasionais e pequenas discórdias só servem para ampliar a amizade.
Evitando qualquer imitação de velhice, mas buscando o peso da experiência, Maitê e Clarisse têm, ambas, atuações de grande encanto, trabalhando com uma cumplicidade que traduz bem o conforto que as duas encontraram nessa reunião de duas experiências de vida diversas, mas de duas mulheres que tiveram, e ainda têm, muito para dar ao mundo em que vivem, mesmo quando esse é necessariamente limitado.
“À beira do abismo me cresceram asas” é um espetáculo de imenso encanto, que fala sobre todos nós com sabedoria e humor.