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Wednesday, May 08, 2013

Palco giratório SESC–Luis Antonio Gabriela

Luis-Antonio-Gabriela-Foto-Bob-Sousa_2-680x1024Uma das coisas que mais me incomoda em teatro é a tal da “transgressão”.

Ou seja,  aquele tipo de montagem “ousada”, “diferente”,  cheia de “idéias” e “referências”,  repleta de “recursos cênicos”  que remetem a isto ou aquilo, mas que no fim das contas não dão em nada. 

Em tais peças vemos muita nudez (odeio nudez gratuita em teatro), muita mídia,  muito grito, muita baba, muito choro e corpos crispados, tudo a serviço de um vazio e tédio absolutos.

Então, é realmente impressionante (pelo menos para mim, confesso), ver algo como “Luis Antonio Gabriela”, onde, dentro de uma montagem, digamos, “cheia de recursos”,  temos pela frente uma obra forte, consistente, adulta, corajosa e inesquecível.

Aqui, cada elemento cênico, tem seu sentido.  Nada é gratuito.  Música, canto, vídeos, artes plásticas, filmes, displays, papel, plástico, madeira, água, ferro, pano.

Sólido e o líquido conjugados  (de forma harmônico-caótica) para emoldurar belamente um texto – odeio dizer o óbvio  – “impactante”. 
Mas é isto o que é “Luis Antonio Gabriela” : impactante.  Um sôco no estômago, um desconforto nas
tripas. Um revirar necessário.

Com uma coragem única – só quem vê a peça entende -
Nelson Baskerville (juntamente com  Verônica Gentilin e a Cia. Mungunzá de Teatro) mexe em sua história –e na história da sua família-  para contar a trajetória do seu irmão mais velho, Luis Antonio (interpretado pelo ótimo ator Marcos Felipe),  que virou travesti, foi rechaçado pela família e acabou morrendo de Aids na Espanha em 2006.

E esta história nada cor de rosa é oferecida mais ou menos na linha da desconstrução (do estilhaçar),  o que revela-se  como a linha correta para o que se pretende mostrar  em cena.

Os atores estão – no seu conjunto – ótimos, com destaque óbvio para o já citado Marcos Felipe.

Obs : Gostei muito da “diva de fundo”.  Aquela “deusa” que não tem personagem e fica só “divando” na periferia das cenas e arrasando no cabelão (peruca é  óbvio) e na voz.

A peça é cheia de surpresas e vai espantando os presentes com alguns truques certeiros (amei a utilização do rolo gigantesco de papel em duas cenas cruciais).

luis-antonio-gabrielaUma coisa que particularmente me chocou foram as telas que “caem” do teto, na cena em que Gabriela e a irmã  visitam o museu Guggenhain de Bilbao.

As figuras  são assombrosas formas humanas criadas pelo (depois vim a saber) artista plástico Thiago Hattner.

Pirei total e reproduzo algumas abaixo (no final do post)

E tudo vai bem até o final emocionante, com o elenco cantando “Your Song” do Elton John.

Aqui acontece meu único senão para a montagem.

Esta música traduz quase que fielmente todo o sentido da peça, mas sua mensagem só funciona para quem conhece sua letra (quem conhece inglês).  

Eu,  que conheço a canção de cor e salteado, acompanhei cada palavra com lágrimas nos olhos. Mas e aqueles que  não conhecem inglês?  Será que não mereciam um tradução simultânea?

Este sentimento cresceu ao ver que, no livro oriundo da peça, Baskerville diz que a canção “se encaixa perfeitamente naquilo que eu queria dizer ao meu irmão”. E na sequência  –  no livro - vem a tradução da canção.

Vejam abaixo.

Tirando este “problema”,  “Luis Antonio Gabriela” é puro êxtase, pura magia.

Um rapto bestificante dos sentidos que ecoa nascimento, vida e morte de forma única.
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Livro “Luis Antonio Gabriela”

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Tributo a um irmão morto

Tributo a um irmao morto

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Obras de Thiago Hattner

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Palco Giratório SESC–O Filho Eterno

Fica difícil falar em “O filho eterno” sem usar superlativos.

O livro do Cristóvão Tezza é excelente e mereceu (algo raro) todos os prêmios que recebeu.

A peça eu ainda não tinha visto.

Então foi com ansiedade babônica que nos tocamos para o Teatro do Museu do Trabalho para finalmente ver ser contada ao vivo a trajetória de vida de um pai com um filho Down.

E a coisa não deu outra.

A adaptação do Bruno Lara Resende é exemplar.  O grande mérito do livro é a linguagem direta, descarnada, sem firulas ou dourado de pílula que, a serviço de emoções verdadeiras (negativas e positivas), estabelece um diálogo íntimo com o leitor. 

E isto se vê refletido na peça.

A alma do livro está estampada nos  70 minutos de espetáculo.  

Charles Fricks – único ator em cena – simplesmente mata a pau.  Sem nenhum momento escorregar para o piegas, para o choro fácil, Charles projeta um universo de emoções que atingem diretamente coração e mente de cada um.

É simplesmente soberbo ver um ator utilizando todo seu arsenal – que no fim resume-se ao seu corpo e voz – para incendiar uma sala, para suspender a respiração do povo, para linkar os espíritos presentes (a cena do garoto com a buzina é absurda de maravilhosa)

E no fim quem chora, não chora pelo “drama familiar”, mas sim pelo triunfo da poesia dos dramas e aprendizados da vida.

Fantástico.

“O filho eterno”  é universal.  Certamente merece ser traduzida para outras línguas e ser montada nos palcos de todo o mundo.

Tuesday, May 07, 2013

Show–Fernando Buergel & Fernando Pessoa

Apostar na busca de um diálogo entre o texto do  Fernando Pessoa e medalhões da MPB (tipo Chico Buarque, Cazuza, Belchior e outros) é uma proposta ousada que pode resultar em, dependendo do tamanho da pretensão,  desde algo sublime a um imbroglio ridículo. 

“Fernando em Pessoa”, espetáculo do Fernando Buergel, apresentado domingo passado no teatro do CIEE,  intercala ( dentro de vários focos, mas sendo o  “desassossego” o principal ) momentos realmente bons com outros perigosamente atingindo – e alguns casos ultrapassando - o limite do over, do  excesso, do caricato.

O que se viu, de um modo geral com um tom solene - e muitas vezes over dramático –, foi Buerger enfileirando (em alguns momentos misturando) texto e musica, de forma a tentar criar um clima de sarau chique e moderno.

Só que não.

As excessivas idas ao fundo do palco (para beber água e fazer outra coisa que não identifiquei) e as marcações rígidas na linha de frente, confundiram mais do que atraíram o olhar para sua (bela) figura.

Por outro lado o som do teatro não ajudou em nada – pelo menos onde sentamos – fazendo com que não se entendesse determinadas letras e textos.

Aliás,  os textos do mestre são imortais, mas fica evidente que a idéia do Buergel é mostrar a sua contemporaneidade,  e  para isto encerra vários poemas  informando as datas nas quais foram escritos.

Tipo com “Ultimatum” onde encerra com : “Alvaro de Campos  1917 !”

E o povo :  “Ah ! Que Moderno” 

E tu te pergunta : “Por que  isto?”

Achei desnecessário.

De algumas canções Burgel tenta sem sucesso  extrair uma dramaticidade inexistente (tipo em “O que é o que é?” do Gonzaguinha, com uma introdução num clima de tragédia que soou fake), e em outras perde o caminho da contundência e encaixa tipo um “caco fôfo” para agradar os presentes – como na violenta” Deus lhe pague” (do Chico) onde a frase “pelas mulheres daqui” foi entoada com um sorriso largo e braço estendido rumo a platéia (sei que isto está soando bem rabugento, mas estes lances me incomodaram).  

Voltado ao Pessoa, a maioria dos textos é dita (“interpretada”) de maneira honesta, porém em alguns a máscara da “cant-ator” exagera a expressão e acaba criando mais um estranhamento / distanciamento do que uma tradução emocional do que se ouve.

De qualquer forma, e isto realmente fez a diferença, a seleção musical e dos poemas foi exemplar. 

Tirando as duas músicas do Robson Serafini (seu companheiro de palco e tambem diretor musical) – a primeira eu não entendi porra nenhuma devido ao som e a segunda achei média -, o repertório é irrepreensível.

Em termos de voz, sinceramente eu não viraria a cadeira numa blind audition para o The Voice, mas o rapaz não compromete de modo geral.

No final ficou a sensação de que Buergel tem todas as ferramentas para arrasar numa partida. Só que falta estratégia e um bom técnico para direcionar o jogo e marcar uma bela duma goleada.

Monday, May 06, 2013

Palco Giratório SESC - Arte

Em “Arte”, de um acontecimento trivial, ergue-se um jogo entre três amigos que atinge os  limites da violência física.

Sérgio (Claudio Gabriel), um dermatologista rico, compra um quadro “totalmente branco e com tons de branco na diagonal”, por R$ 200.000,00, do “renomado artista Andreus” e o mostra a Marcos, esperando que ele compartilhe de seu entusiasmo pela obra.

Marcos fica chocado pela insanidade cometida pelo  amigo e rotula a “obra de arte” de “Merda”. A partir daí inicia-se um atrito entre os dois, no qual também acaba envolvido Ivan (Vladimir Brichta), aquele tipo de cara boa praça que quer ficar de bem com todos, mas que aqui também acaba perdendo as estribeiras.

Resumindo este é a história da peça  “Arte”,  da autora Yasmina Reza,  premiada autora francesa, considerada um dos maiores nomes da dramaturgia contemporânea mundial e com dezenas de montagens em mais de 30 países.

Em cena Brichta, Gabriel e um outro “baixinho” excelente que não sei o nome (estava fazendo sua estréia na montagem em substituição ao Claudio Moreno),  detonam num texto  ágil, hilário e muito inteligente, que fala de amizade, arte, relacionamento, amadurecimento e vários outros temas humanos.

Fantástico.

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Comentários :

Vladimir Brichta, Marcelo Flores e Claudio Gabriel formam um elenco exemplarmenteequilibrado, beneficiados que são, para além de seus talentos e técnicas, pela amizade ecompanheirismo de que desfrutam na vida real. Com biotipos diversos e adequados a cada umdesses três amigos cuja amizade repentinamente é posta à prova, os três jovens atores mais ojovem diretor nos garantem que o teatro brasileiro tem matéria para bom presente e bomfuturo” – Barbara Heliodora (Jornal O Globo)

O tom informal reforça a intimidade entre os personagens. Cria, assim, o ambiente apropriado para as ótimas atuações de Marcelo Flores (o autoritário Marcos), Vladimir Brichta (o conciliador Ivan) e Claudio Gabriel (o polêmico Sérgio)”– Carlos Henrique Braz (Revista Veja Rio)

Explorando com inteligência e sensibilidade diálogos brilhantes e personagens solidamenteconstruídos, o diretor Emílio de Mello impôs a cena uma dinâmica precisa e despojada,irretocável no tocante aos tempos rítmicos e cuja expressividade advém do fato de o diretorpriorizar o que realmente interessa: os conflitos entre os personagens e as múltiplas variaçõesde tom que marcam os embates entre eles” – Lionel Fischer

Filme–O Homem de Ferro 3

homem-de-ferro-3Fui ver o tal de Homem de Ferro 3.

O filme pode ser qualquer coisa, menos sobre um clássico herói identificado como “Homem de Ferro”.

Senão vejamos : sua clássica armadura, sua arma de luta ( que em qualquer herói representa seu potencial, sua força, seu vigor), aqui  simplesmente não existe.

O que temos pela frente é uma coleção de armaduras totalmente descartáveis e insonssas, muitas vezes comandadas a distância pelo “herói”e que, num momento “glória a Jesus”,  acabam sendo explodidas pelo Tony Stark para iluminar o céu enquanto abraça sua namorada sopa crua (ela queria ver “estrelas brilhando”, e ele, na vibe da paixão, detona inúmeras armaduras para criar um efeito “de natal”) – e ela acha tudo “lindo “

Como se não bastasse, temos pela frente, além do Homem de Ferro, o tal do Coronel de Ferro e também a Mulher de Ferro (senti falta de um Cachorro de Ferro, mas quem sabe na próxima...), sendo que ambos  entram em cena para  lances tipo “finish him”, sob o olhar apatetado do Stark .

Total bola nas costas dos fãs que queriam ver o Homem de Ferro arrebentando  tudo

A história seria até legal, se não fosse podre de manjada. Mas até aí tudo bem, o lance é que fica claro que, a cada episódio – a cada novo filme -  “novas idéias” são incorporadas e os roteiristas têm que se virar para encaixá-las na trama seguinte – e tudo acaba soando tri forçado.

As piadinhas – em excesso – acabam mais constrangendo do que provocando humor de tão ridículas que são.

Pavor total.

Friday, May 03, 2013

Livro–Pulmão de Aço / Eliana Zagui

capaEm qual gênero de literatura “Pulmão de Aço – uma vida no maior hospital do Brasil” (Editora Belaletra, 2012) e enquadra?
 
A primeira vista parece ser uma coisa tipo “auto-juda”, pois é óbvio que Eliana (e de lambuja seu grande amigo Paulo e outros mais)  é (são) um exemplo de superação, e nós, os “saudáveis”, não nos damos conta de quanto somos abençoados só pelo fato andarmos eretos.

Então ao tomarmos conta da difícil condição física dos protagonistas logo nos vem a mente frases do tipo ”se eles estão neste estado e ainda conseguem ser “felizes”, porque eu tenho que reclamar de qualquer coisinha”?

Isto é verdade, e não há  leitor que não imagine como seria sua vida se seu corpo estivesse  em alguma das  várias situações de restrição física ou de doenças relatadas no “Pulmão”.

E o livro é um compêndio de  males do organismo.  Até mesmo porque este é universo, é o dia a dia comum onde a garota (hoje uma mulher) foi criada desde os dois anos de idade. Ou seja, sua paisagem de vida, seu mundo é um quarto de hospital e tudo o que ali acontece.contracapa

Então somos introduzidos facilmente a termos do seu cotidiano, tais como poliomelite, paralisia, traumatismo, broncopneumonia, atalectasia, traqueostomia, necrose, incubação, placa mioneural, vírus,aspiradores de secreção, aparelhos respiratórios,  tapotagem, displasia crania, disformidade congênita, óbitos e muitos outros dos quais queremos manter distância eterna (ou nem saber o que são).
Isto sem falar no relato da dor, muita dor e agonia que envolvem diversos  procedimentos.

Este é um lado.

Pelo outro,  temos pela frente um ser humano na sua totalidade. Com preferncias, manias, surtos, raivas, birras, esperanças, desejos, sonhos, depressão, tristeza, alegrias, euforia,  enfim uma criatura normal.

Mas nós enxergamos um “deficiente”  assim?

Não sei.

Creio que a tendência é  não, pois  de um modo absolutamente digamos, “arrogante”, podemos olhar um corpo paralisado e, na sequência, já definir o que alguém em tal situação poderá atingir ou não em termos de “vida”;  podemos julgá-lo “incapaz” e assumir que sua intimidade (emocional, espiritual e intelectual) está automaticamente “comprometida”.

Eliana ousa e  vem para, de um modo direto e sem óbvias armadilhas emocionais, provar que as coisas não são assim.

3 anos

Em “Pulmão de Aço”, ela  compartilha sua vida (e a de vários de seus companheiros) trancada dentro do Grande Hospital das Clinicas de São Paulo (seu lar) e revela uma trajetória que, tirando a restrição motora, é semelhante a qualquer uma de nós.

Neste sentido, tirando todo um lado verdadeiramente “lacrimoso” (mas sem pieguismo) de algumas passagens – e não há quem não se emocione com várias (confesso que chorei em algumas ) -, o que me conquistou foi sua bravura em discutir determinados “tabus”, e “assuntos delicados”,  tipo a explosão de hormônios na puberdade, suas tentativas de suicídio, sua vontade de “encontrar alguém”,  o  reconhecimento da sua ingenuidade por acreditar no próximo, sua vontade de ser beijada, o reconhecimento da dura verdade sobre sua família, seu desejo de ser adotada, de ter um lar “normal” e outros mais.

Caipirinha_02
Tudo discutido de forma terna,  porém madura e segura.
Mas nem tudo são mazelas. Eliana abre espaço para as piadas, brincadeiras e acontecimentos hilários que rolam no HC e, de forma magistral descreve os sentimentos quase sufocantes de preparativos, expectativas, descobertas e alegrias que envolvem cada passeios e visitas externas.

Isto sem falar num lance tri sinistro envolvendo uma visita do Airton Senna ao local - (que mêda!!) -  quase fiquei sem dormir – Um troço bem “Premonição”.

Hospital Racho Los Amigos 1950

Quando ela fala de religião, o que mais me chocou e que me deixou salivando de ódio, foi a explicação dos “espíritas” (uma das denominações que circulam por lá para “dar apoio”) que afirmaram (em sua “mensagem de amor”) que ela e seus companheiros presos às máquinas estavam “apenas” pagando carma por terem sido “maus” em outras vidas.

Que agora estavam “em fase de resgate” para, na próxima vida,  reencarnarem felizes (alguém pode me explicar o que é reencarnar feliz? ) – e que, por isto deveriam agradecer ao Senhor pelo privilégio de estarem nesta existência. condenados a  pulmões de aço.  Só digo uma coisa: quem é o filho da puta que tem coragem de  dizer uma barbaridade  destas diante de alguém em tal situação? Com que direito estes escrotos religiosos do mal  chegam e vomitam uma … (nem sei dizer o que ), destas diante do outro?

Mas como disse o tal de Jesus: ”Pai, perdoai-os. Eles não sabem o que fazem”.... ou sabem ?

Paulo palhacinhoInfelizmente este não é o único exemplo de maldade a que eles foram exposto. A garota registra agressões, furtos e outras “maldades menores” que partiram de pessoas (profissionais) de dentro do próprio HC.

Vejam só...

Mas, felizmente, uma coisa que me caiu os butiá (em termos gaúchos : “fiquei surpreso”) foi perceber – e reconhecer – que existe sim bondade no mundo.

Eliana relata inúmeras situações onde a ação do próximo (sobre si e seus companheiros)  revela nada menos do que a bondade nua e crua.Bondade esforçada, desinteressada, direta, sem firulas.
Bondade de alguém que abre mão do seu conforto, do seu lazer, da sua preguiça e do seu umbigo para agir concretamente. Alguém que olha para o outro, se compromete e age.

Isto faz toda a diferença.

Médicos, enfermeiros, ajudantes, religiosos, visitantes, professores, celebridades, familiares (mas não no caso dela. Aliás a família sanguínea dela é muito uó) - e muitos mais.

Quanta gente realmente nobre. Parabéns a todos.

Abaixo alguns.
Dr GiovaniDr Takeda
Dr Fernando FlaquerPintando com a ajuda da professora Ursula
Tia LuAnderson e sua super mae
Zeze di CamargoFormatura Suzana
Paulo e Carlos Saldanha RioPaulo Ju Silvia e Osvaldo

Não me coloco neste patamar. E estaria sendo tri hipócrita se me comparasse com qualquer um dos “verdadeiros anjos”  que Eliana, Paulo e demais companheiros conheceram durante os anos.

Reconheço e afirmo que eu estaria muito mais para os tais de “anjos temporários”, que eles manjam muito bem.

Aquele tipo de criatura que chega toda da “vibe da luz”, cheio de jesus na cachola, prometendo ficar “para sempre ao seu lado”, só para depois de um certo tempo “cansarem” e simplesmente sumirem. Eliana não poupa estes “missionários de vitrine” que mais causam mal do que ajudam.

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Eliana e Paulo, os dois sobreviventes e amigos que ainda estão na área (vistos como exemplos de perseverança e determinação – e até utilizados como modelos de videos motivacionais).  Primeiro passeio a praia
Ela faz parte faz parte da “Associação dos Pintores com a Boca e os Pés”, com sede na Suíça. Só de dizer isto, fica claro “até onde ela chegou” ( e ela não quer parar por aí, não senhor)
Paulo faz trabalho de Web Designer e teve a oportunidade de conhecer o Carlos Saldanha, criador da série “Era do Gelo” e “”Rio”.

Por meu lado, - e isto concretamente – me obriguei a refletir sobre minha infância (60,70), onde o fantasma da poliomelite era real no Brasil. Fui poupado, mas muitas outras crianças não. Eu e Eliana somos contemporâneos. Eu cresci “caminhando”, ela cresceu “deitada”. Eu, como se diz, tô por aí (“realizado” e muitas vezes sofrendo por abobrinhas). E ela onde está? Quem de nós foi “mais longe”? Quem de nós realmente superou as dificuldades e conquistou seu sonho?
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EspatulaEliana encerra o livro de forma absolutamente grandiosa.
Sem medo de se expor, revela seu maior desejo, seu maior sonho, porém,  ao mesmo tempo, oferece uma sólida reflexão sobre as implicações e obstáculos a tal realização.
Não é um final feliz, mas é uma conclusão iluminada pela razão.
Uma conclusão alicerçada na certeza da preservação e continuidade da vida.

Recomendadíssimo.






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Abaixo, excerto do trecho que inicia o livro.

 

uso de espelhos— Voltem quando ela estiver melhor.

O casal se entreolhou. Não era a primeira vez que Thereza e Carlos Zagui levavam a filha para ser vacinada no posto de saúde de Guariba e ali ouviam a mesma história. Com febre, nada feito. Parecia uma sina. Sempre que era levada, a menina estava com dor de garganta e febre. Garganta, aliás, era seu ponto fraco. Desde os primeiros meses de vida virava e mexia aparecia uma inflamação. Vivia tomando antibióticos.

Naquele dia, o quadro febril foi o argumento dos médicos para negar-lhe as duas gotinhas contra a poliomielite. Achavam melhor não aplicar a vacina em criança com sinais de inflamação. Uma decisão hoje considerada sem embasamento científico. E, como se verá, um terrível engano.

Desde a chegada da pequena, em março de 1974, o casal não cabia em si de felicidade. Era o sonho do pai. Logo depois do nascimento do primogênito, Luiz Carlos, em 1971, ele disse à mulher que se sentiria plenamente realizado se tivessem também uma menina. Mas havia um senão. Thereza encerrara a primeira gravidez com um problema comum a muitas mães: varizes. Teve de passar por uma cirurgia. Dois médicos a advertiram de que uma nova gestação seria arriscada. Era preciso evitar. Mas aconteceu.

Caipirinha_01
Quando a gravidez acidental e inesperada se confirmou, o casal se cercou de cuidados. Thereza passou a maior parte do tempo em repouso. O obstetra sugeriu uma cesariana, a fim de evitar os esforços do parto normal. Mas a menina, afobada, por pouco não nasceu a caminho do hospital
.
Pressa foi sua marca registrada. A pequena, loirinha e de olhos claros, era esperta. Começou a andar e a falar antes de um ano. Não queria saber de colo. Preferia caminhar. De preferência, de mãos dadas com Carlos.

banhoA não ser pela garganta frágil, era saudável. Foi exatamente por isso que Carlos e Thereza estranharam quando a viram quieta demais. Como a febre persistisse, a mãe a levou ao hospital Santa Isabel, em Jaboticabal, interior de São Paulo, em busca de atendimento médico mais acurado que o dos postos de saúde da pequena Guariba.
Mãe e filha passaram a noite no hospital sem que os médicos chegassem a um diagnóstico. No dia seguinte, Carlos deixou Luiz Carlos com familiares e foi ao encontro das duas, em busca de informações. Encontrou a filha incomodada com a agulha do soro:

—     Pai, tira! Dodói!

As mãozinhas irrequietas haviam sido imobilizadas para evitar que ela removesse a agulha. Instintivamente, Carlos examinou a filha. Estranhou a falta de mobilidade, principalmente nas pernas, e chamou o médico.

Francisco Iglesias, o dr. Chiquinho, ficou preocupado:

—   Vocês precisam ir com urgência para Ribeirão Preto.

Distante 60 quilômetros de Jaboticabal, Ribeirão é historicamente uma das cidades mais bem aparelhadas e com mais recursos médicos do interior paulista. Fazia todo o sentido buscar assistência por lá. Mas a ida a Ribeirão consumiria um tempo precioso. Precioso e decisivo para o futuro da menina. Alertado pelo tom aflito na voz do dr. Chiquinho, Carlos colocou mulher e filha num táxi. A corrida até Ribeirão consumiu praticamente todo o dinheiro que tinha.Primeiro Computador

Chegaram à cidade por volta do meio-dia. Na clínica dos pediatras Mariano, Achê e Raya, o dr. Mariano suspeitou da gravidade do caso e os encaminhou ao pronto-socorro do Hospital Santa Lydia. Depois de examinar o líquor da medula espinhal, a médica que os atendeu em caráter de urgência não teve dúvida do diagnóstico: paralisia infantil.

— Não temos recursos para tratá-la aqui — disse a médica. — Vocês precisam levá-la para o Hospital das Clínicas, em São Paulo. Ela tem no máximo mais oito horas de vida...

A doença avançava depressa. A paralisia já atingira mais de 60% do corpo.
O estado de São Paulo vivia uma epidemia de poliomielite. O último grande surto antes da moléstia ser erradicada do Brasil, em 1989. Doença viral, transmitida pelo contato com fluidos corporais do doente ou por meio de água ou alimento contaminado, a pólio ataca o sistema nervoso e paralisa a musculatura. Só existem dois meios de prevenção: vacinação ou sorte.

Ginasta LigiaNas cidades menores, contava-se mais com a sorte. A vacina era rara. A imunização dependia da boa vontade das prefeituras em avisar a população e dos pais em levar as crianças para serem vacinadas.

Por ignorância, muitos pais e até profissionais da saúde deixavam a vacinação de lado. Quando os surtos ocorriam, logo se disseminavam. Um grupo de médicos que trabalhou no HC de São Paulo contou 5.789 internações entre 1955 e o final da década de 1970.

Conseguir evitar que a filha engrossasse as estatísticas de morte por pólio era questão de tempo. Pouco tempo. Não havia ambulância disponível em Ribeirão Preto. O hospital recomendou que a família retornasse a Jaboticabal e lá buscasse transporte para a capital. Vendo o desespero dos pais, um dos médicos tirou do bolso 200 cruzeiros[1] e ofereceu a Carlos. Com o dinheiro, ele pagou o táxi de volta.Casamento do Irmao

Quando os Zagui conseguiram retornar ao Santa Isabel, já passava das quatro da tarde. O quadro era grave e estava piorando. As más notícias não paravam de surgir. A única ambulância pública da cidade fora deslocada para a zona rural, para atendimento a feridos num acidente. O hospital mobilizou assistentes sociais e até a enfermagem para tentar uma solução. O próprio Carlos telefonou para o prefeito de Guariba, a quem pensava conhecer, e pediu ajuda. A resposta soou como um soco no rosto:

— Não conheço nenhuma família Zagui em Guariba.

A enfermeira Josefina Aparecida Saccani, que naquela tarde trabalhava na recepção do hospital, tentou ajudar. Inconformada, repetiu a ligação para o prefeito e ouviu a mesma resposta.
Conhecida como Fininha — não só pelo nome, mas também pela compleição magérrima —, a enfermeira não sabia o que fazer. Mesmo assim fez — e acabou se transformando no primeiro dos dois anjos que entraram na vida da família Zagui naquela tarde. Eram quase cinco horas, seu turno já havia acabado, mas ela estava determinada a não deixar o hospital enquanto o caso não fosse resolvido.

Quase em pânico, nervosa, ainda pensando sobre como agir, Fininha esbarrou no segundo anjo. No corredor do hospital, encontrou o produtor rural Tercílio Sitta.
Pedro e Paulo
A família Sitta e Fininha eram vizinhos. Moravam — e ainda moram — a poucas quadras um do outro. Fininha estudou na mesma escola que os filhos do fazendeiro. Tercílio estava no Santa Isabel por acaso. Havia levado um funcionário para suturar um corte na mão. A enfermeira o cumprimentou e arriscou:

—     Seu Tercílio, estamos com um problema. Vou pedir uma coisa, mas sei que o senhor pode me dizer não. Eu vou entender.

—    Você nem pediu ainda. Se eu puder, eu faço.

—    Temos uma menina com pólio que precisa ir urgentemente para São Paulo. Se não chegar lá até a meia-noite, ela vai morrer.

O homem estava suado, cansado de um longo dia de trabalho. Olhou nos olhos da enfermeira e respondeu:

—     Eu levo. Mas antes vou até em casa tomar um banho e avisar a família.

Tercílio conhecia a pólio de perto. Seu filho Tercilinho contraíra a doença anos antes. Tinha como sequela uma redução na mobilidade das pernas.luciana

Voltou pouco depois, de banho tomado. Passava das sete da noite quando acomodou os pais e a menina no banco traseiro da Ford Belina recém-comprada e voou para a capital. Os 350 quilômetros entre Jaboticabal e São Paulo foram cobertos em velocidade máxima. Tercílio ainda parou no primeiro posto da polícia rodoviária e avisou que iria correr muito. Explicou o motivo e pediu para não ser interceptado.

—    Peça para seus colegas da rodovia me deixarem passar — disse ao policial.

—    Está bem. Mas tenha cuidado. Além da sua, o senhor está colocando em risco a vida dessa família.

Mesmo sem estarem totalmente duplicadas, as rodovias Oswaldo Cruz e Anhanguera eram um bom caminho. Principalmente porque não tinham o volume de tráfego, os radares e os postos de pedágio de hoje. Àquela hora da noite, as pistas estavam praticamente livres.

Chegar a São Paulo foi fácil, mas encontrar o Hospital das Clínicas é que seria difícil. O fazendeiro não conhecia a cidade e decidiu não perder tempo. Ao entrar na capital, parou um táxi e pediu que o guiasse até o HC. Às 23h30, o casal deu entrada nas Clínicas com a filha nos braços e o diagnóstico na ponta da língua.

—    É paralisia infantil. Ela tem pouco tempo.

Com atendimento dedicado quase exclusivamente à doença, o socorro no Instituto de Ortopedia e Traumatologia do HC foi imediato.

Primeira ComunhaoMissão cumprida, o fazendeiro seguiu o táxi de volta até a entrada da Anhanguera, pagou a corrida e regressou para casa. No dia seguinte, voltou logo cedo ao hospital, já com outro funcionário. Fininha espantou-se a vê-lo:

—    O senhor não levou a criança pra São Paulo, seu Tercílio?

—     Levei, Fininha. Deixei a menina lá com os pais e vim embora.

Na capital, encerrados os procedimentos de internação, Thereza olhou para o relógio na parede do HC: duas e meia da manhã do dia 10 de janeiro de 1976.

Enquanto isso, os médicos corriam para salvar a vida da menina. Conseguiram evitar que a doença progredisse, mas o tempo havia sido implacável. Quando a família Zagui chegou ao hospital, pouco restava a fazer. A mobilidade do pescoço para baixo estava comprometida.

Dispensado pelos médicos, o casal voltou para Guariba pela manhã, de ônibus. Não demorou a que um vizinho os procurasse — Carlos e Thereza Zagui não tinham telefone. A filha tivera uma crise, e o hospital os chamava de volta. Era preciso correr, caso quisessem ver a filha viva.

Carlos apanhou o primeiro ônibus e voltou sozinho. Chegou ao HC à meia-noite, informou-se da situação e passou em claro a segunda madrugada seguida. Pela manhã, a menina já havia melhorado. Fora colocada num dos muitos pulmões de aço, antigos respiradores mecânicos, em funcionamento ininterrupto.

Banho de Piscina
As idas e vindas se repetiram algumas vezes. Os telefonemas não paravam e, num deles, por engano, a menina foi dada como morta. Mas foi só na quarta ou quinta corrida ao HC que Carlos Zagui se deu conta de que a batalha contra a doença estava perdida. O pulmão de aço não havia sido suficiente: pelo vidro da UTI, viu que a frágil garganta de sua filha agora tinha um orifício e uma cânula. Ela acabara de passar por uma traqueostomia.

A menina alegre não voltaria mais para casa. Correr e brincar pelo quintal eram coisas do passado. Acabara de entrar para outro universo. Um mundo em que pai, mãe, irmão, tios e avós praticamente deixavam de existir. Passaria a integrar uma nova família. Uma família formada por médicos, enfermeiros e um grupo de crianças internadas.

Passados 36 anos desde a internação, a menina é hoje, ao lado do amigo Paulo, um dos dois sobreviventes das dezenas de vítimas graves da poliomielite internadas no Hospital das Clínicas de São Paulo. O HC tem sido sua casa desde então.

Seu nome é Eliana. E esta é sua história.

Os editores

Hoje










dedicatoria
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Algumas pinturas da Eliana

































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POST ATUALIZADO EM 26/11/2013

Vejam que bacana. Não sei por que caminhos, mas todo o ano recebo um pacote de cartões natalinos do "Pintores com as Bocas e Pés". Este pacote é acompanhado de um doc que pode ser pago e, deste modo, enviar uma contribuição aos artistas. Para mim foi super legar identificar um dos cartões como da Eliana. Parecia que ela estava enviando diretamente a mim. (Vejam abaixo)

O Site da Organização pode ser acessado no link : Pintores com a Boca e os Pés


Cartão 2013 - Eliana Zagui