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Hino do Blog : " ...e todas as vozes da minha cabeça, agora ... juntas. Não pára não - até o chão - elas estão descontroladas..."
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Thursday, June 07, 2012

MPB GLS - Parte 4

Documento sem título
MÚSICA POPULAR BRASILEIRA E OS GUEIS (gays)

Panorama Histórico – Social - Cantos e Representações

- Quarta Parte -

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Trabalho apresentado na conclusão do "CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU EM LITERATURA BRASILEIRA" da Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 2009.
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A publicação deste trabalho no Blog foi dividida em 5 partes
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Para acessar a Primeira Parte, tecle AQUI.
Para acessar a Segunda Parte, tecle AQUI.
Para acessar a Terceira Parte, tecle AQUI.
Para acessar a Quinta Parte, tecle AQUI
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6 - Gueis  e sociedade – situação a partir dos 80´s
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6.1 - Condição Guei  atual – evolução e preconceito
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Com a desclassificação pela OMS (Organização Mundial de Saúde) do homossexualismo como uma “doença”, a sociedade viu-se cada vez mais frente a frente com a discussão das questões gueis, seu espaço, direitos, inserção, reconhecimento, cultura, voz, visibilidade, eco, afirmação, etc,  mesmo  de forma truncada -  com avanços, retrocessos e desvios.

De qualquer forma desde a década de 80 tais discussões vem num continuum político e social que resultou em vários direitos, os quais,  se não representam até hoje uma plena integridade cidadã   equiparada aos heteros,  definitivamente estão anos luz do sombrio quadro humano a que as bichas estavam sujeitas décadas atrás.

A inserção na mídia de massa (principalmente a televisão – ainda que com algumas restrições), contribuiu – e contribui - para a visibilidade e discussão da  questão  guei de forma cada vez mais abrangente e aberta.

Hoje grupos organizados praticamente existem em todas as capitais do Brasil. Grupos de militância, de apoio mútuo, grupos políticos, saúde, artes,etc.

O dia do Orgulho Gay é celebrado anualmente em várias cidades. Neste dia as bichas – e simpatizantes – saem  às ruas para expor e celebrar sua condição – definitivamente algo impensável há alguns anos.
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7 - MPB Guei – Rock, Folia e Sapataria
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7.1 - Rock  brazuca – da inocência à consciência
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Leo Jaime
No início dos 80´s ocorreu uma revolução na música nacional com rock invadindo a grande mídia. Dos artistas que surgiram neste boom, Léo Jaime foi um que entoou duas canções que abordavam o mundo gay – ou seus assuntos - num tom cômico..

Uma é Aids, composta dentro da inocência de quem ainda não sabia no que iria se tornar esta terrível praga mundial.

E, depois, no refrão que o povo pulava e cantava em coro : “Aids, não tente colocar band-aid..!!.”
Que soava assim : “Êidis, não tente colocar bandêidis !! (... e  a festa tava feita ! ...).

AIDS
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É a última moda que chegou de Nova York / E deve ser bom como tudo o que vem do norte / A sua mãe vai gostar / O seu pai vai achar moderno / É mais quente que o inferno / Essa onda é de morte / New wave, patins, lennon and tennis nike / Walk man, big mac, fender strato caster / Vai pegar, vai pintar até na novela das 8 / E você vai copiar, vai copiar, vai copiar / Aids, não tente colocar band-aids
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Clique abaixo para ouvir AIDS


Outra do Léo é Sônia (versão de Sunny), que diz em um certo trecho : “(...) você na frente e eu atrás / Atrás de mim um outro rapaz / Sonia, meu amor, que loucura..."
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Sônia
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Sônia / Não fica me excitando que eu tô de sunga / Sônia / Não arma a tenda agora nós já vamos embora / E vamos combinar a nossa festinha  / Essa noite você é minha  / Sônia, meu bem, tá todo mundo olhando / Sônia, sempre que eu te vejo eu não durmo  / Sônia, e é por você que eu me masturbo  / Pensando em você me vem a sensação  / Sem perceber eu tô com o "tal" na mão / Sônia, eu te adoro  / Sônia, chega mais aqui e fica bem juntinho  / Sônia, vamos nessa festa fazer um trenzinho  / Você na frente e eu atrás  / E atrás de mim um outro rapaz  / Sônia, que loucura! / Sônia, eu já deixei de ser aquele bom rapaz  / Sônia, você não imagina do que eu sou capaz / Dizem que eu sou um cara legal  / Eu transo cunnilingus e sexo anal / Sônia, vou cair de boca / Eu sempre estive à fim e você sabe disso / Eu só quero te comer, não quero compromisso / Sônia, meu amor, eu te amo
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Já Lulu Santos, com toda sua verve pop, perpetuou, em Toda Forma de Amor, a frase definitiva sobre o respeito universal - “...consideramos justa toda a forma de amor...”


Toda forma de amor
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Eu não pedi pra nascer/ Eu não nasci pra perder / Nem vou sobrar de vítima / Das circunstâncias / Eu tô plugado na vida/ Eu tô curando a ferida / Às vezes eu me sinto/ Uma bala perdida/ Você é bem como eu/ Conhece o que é ser assim / Só que dessa história/ Ninguém sabe o fim/ Você não leva pra casa /E só traz o que quer/ Eu sou teu homem /Você é minha mulher / E a gente vive junto / E a gente se dá bem / Não desejamos mal a quase ninguém / E a gente vai à luta /E conhece a dor / Consideramos justa toda forma de amor
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Renato Russo
Curiosamente dois maiores ícones gueis do rock brasuca, Cazuza e Renato Russo, não criaram músicas marcantes no assunto. Talvez o Renato tenha sido mais explícito com Meninos e meninas - “...e eu gosto de meninos e meninas / vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre...” -.

Também  Renato, no momento da saída do armário, gravou o The Stonewall Celebration Concert, uma homenagem aos gueis que resistiram à invasão do Bar Stonewall no Greenwich Village (New York /Julho de 1969). Porém, infelizmente,  é um cd sem músicas nacionais.

Meninos e meninas
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Quero me encontrar, mas não sei onde estou / Vem comigo procurar algum lugar mais calmo / Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita / Tenho quase certeza que eu não sou daqui / Acho que gosto de São Paulo / Gosto de São João / Gosto de São Francisco e São Sebastião / E eu gosto de meninos e meninas / Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre / Vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente / Estou cansado de bater e ninguém abrir / Você me deixou sentindo tanto frio / Não sei mais o que dizer / Te fiz comida, velei teu sono / Fui teu amigo, te levei comigo / E me diz: pra mim o que é que ficou? / Me deixa ver como viver é bom / Não é a vida como está, e sim as coisas como são / Você não quis tentar me ajudar / Então, a culpa é de quem? A culpa é de quem? / Eu canto em português errado / Acho que o imperfeito não participa do passado / Troco as pessoas / Troco os pronomes / Preciso de oxigênio, preciso ter amigos / Preciso ter dinheiro, preciso de carinho / Acho que te amava, agora acho que te odeio / São tudo pequenas coisas e tudo deve passar / Acho que gosto de São Paulo / E gosto de São João / Gosto de São Francisco e São Sebastião / E eu gosto de meninos e meninas
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Cazuza
Cazuza escreveu em O tempo não pára uma frase contundente - “... te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro / transformam o país inteiro num puteiro / pois assim se ganha mais dinheiro...” -


Talvez este grito de revolta tenha sido a referência mais explícita à causa guei do poeta.


O tempo não para
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Disparo contra o sol / Sou forte, sou por acaso / Minha metralhadora cheia de mágoas / Eu sou um cara / Cansado de correr / Na direção contrária / Sem pódio de chegada ou beijo de namorada / Eu sou mais um cara / Mas se você achar / Que eu tô derrotado / Saiba que ainda estão rolando os dados / Porque o tempo, o tempo não para / Dias sim, dias não / Eu vou sobrevivendo sem um arranhão/ Da caridade de quem me detesta / A tua piscina tá cheia de ratos / Tuas ideias não correspondem aos fatos / O tempo não para / Eu vejo o futuro repetir o passado / Eu vejo um museu de grandes novidades / O tempo não para / Não para, não, não para / Eu não tenho data pra comemorar / Às vezes os meus dias são de par em par / Procurando agulha num palheiro / Nas noites de frio é melhor nem nascer / Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer / E assim nos tornamos brasileiros / Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro / Transformam o país inteiro num puteiro / Pois assim se ganha mais dinheiro / A tua piscina tá cheia de ratos / Tuas ideias não correspondem aos fatos / O tempo não para / Eu vejo o futuro repetir o passado / Eu vejo um museu de grandes novidades / O tempo não para / Não para, não, não para / Dias sim, dias não /  Eu vou sobrevivendo sem um arranhão / Da caridade de quem me detesta / A tua piscina tá cheia de ratos / Tuas ideias não correspondem aos fatos / O tempo não para / Eu vejo o futuro repetir o passado / Eu vejo um museu de grandes novidades / O tempo não para / Não para, não, não para

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7.2 - O Carnaval e as bichas

O carnaval é um dos elementos mais manifesto na cultura brasileira. Está na vitrine do estereótipo tupiniquim traduzindo um estado de espírito – um momento de euforia, de libertação, de alegria. É uma festa que está - de acordo com o clichê antropológico -  na “alma” do povo brasileiro, na sua “natureza”, na sua “identidade”.

 Para João Silvério Trevisan (2007, pág. 392), a celebração, é ..


(...) uma festa brasileira, em que o deboche explode e o corpo se expõe dadivosamente, propicia ampla comunicação ao aproximar diversidades, cultiva vários graus de paródia em seus disfarces, consagra a transgressão e proclama o império da ambigüidade. Enquanto projeto de fantasia a ser realizada, o carnaval acusa o triunfo da imaginação sobre o quotidiano,  mediante a inversão de normas (...) quando masculino e feminino se confundem (profusão de travestismo entre os homens).

Já para Don Kulick (2008, pág. 55), o Carnaval não assume todo esse folclore lhe atribuído..
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Um dos mitos brasileiros sobre o Carnaval – mito que é reiterado e perpetuado tanto em análises acadêmicas quanto no senso comum – afirma que a festa é uma espécie de inversão generalizada (um mundo de cabeça para baixo), quando tudo passa a valer, quando a confusão e ambigüidade viram objetos de celebração, e o desvio se torna regra (...) Ainda que essa representação possa capturar a experiência de um certo grupo de participantes do Carnaval – particularmente homens heterossexuais da classe média – alguns pesquisadores (...) vêm demonstrando (...), que as descrições esfuziantes do Carnaval, que tanto atraem os turistas e intelectuais, não refletem adequadamente a experiência de uma grande parte dos brasileiros (....)

Seja como for, é inegável que  o carnaval faz parte do imaginário do brasileiro, que durante seu acontecimento participa, acompanha, ignora ou foge da festa.

Joao Roberto Kelly
Durante  tal orgia,   os gueis – principalmente as travestis - são os elementos bizarros, os seres abissais-sociais, as monstruosidades  que têm o direito de vir à luz e mostrarem sua “alegria”  antes de voltarem para suas tocas. É o período onde eles são “aceitos” e  onde, infelizmente, cumprem o papel de  bobos da corte.  E nesta participação encontram marchinhas  onde  são os alvos (para o bem e para o mal) e que são cantadas jubilosamente a plenos pulmões (por eles e pelos “outros”)

João Roberto Kelly, contribui com duas pérolas neste sentido. Uma é a Cabeleira do Zezé, que não teve a intenção de composição, mas que acabou derivando para uma leitura guei. A “Cabeleira” fala de um homem cabeludo que desperta suspeitas de comportamento.


Olha a cabeleira do Zezé  / Será que ele é ? / Será que ele é ? / Será que ele é bossa nova?/ Será que ele é Maomé? / Parece que é transviado / Mas isso eu não sei se ele é / Corta o cabelo dele!


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A jogada guei  vem na resposta à pergunta “Será que ele é ?”, que o povo acabou por “complementar” com o grito de “Bicha !” – Isto sem falar que a palavra “transviado” permite a mudança imediata para “viado”.

Outra é Maria Sapatão, consagrada pelo apresentador Chacrinha, que representa as lésbicas


Maria Sapatão  / Sapatão, Sapatão / De dia é Maria / De noite é João / O sapatão está na moda / O mundo aplaudiu / É um barato / É um sucesso / Dentro e fora do Brasil


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Chacrinha





Chacrinha, aliás,  de forma correta, compôs e divulgou Bota a Camisinha, que alertava – e alerta – para a importância do sexo seguro.


Bota camisinha  / Bota meu amor  / Que hoje tá chovendo  / Não vai fazer calor / Bota a camisinha no pescoço  / Bota geral  / Não quero ver ninguém  / Sem camisinha  / Prá não se machucar  / No Carnaval.


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Talvez a primeira marchinha com conotação guei tenha sido Boi da Cara Preta  gravada por Jackson do Pandeiro em 1959.  No site Palavra Arte,  encontra-se a história desta música que conta como o jornalista Osório Manoel Peixoto da Silva, foi


[...] autor do “furo” (um passageiro do trem da Leopoldina, viajando de Vitória para o Rio comeu um filé de carne bovina e passou a falar fino e virou bicha, de onde a polêmica sobre engorda de boi com hormônio feminino) que originou muitas piadas de âmbito nacional e inspirou a marcha carnavalesca “Boi da Cara Preta” (http://www.palavrarte.com..., 2007)

Boi da cara preta


Olha o boi da cara preta / Olha o boi da cara preta / Coitado do Waldemar / Está dando o que falar /  Comeu carne de boi, falou fino / E deu até pra rebolar (...)


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Jackson do Pandeiro



É de Jackson do Pandeiro também  a autoria e gravação da divertida A mulher que virou homem, uma música surpreendente que apresenta o drama de um pobre coitado cuja esposa vira homem (de Joana à João).


A mulher que virou homem


Meu pai me disse: meu filho tá muito cedo / Eu tenho medo que você se case tão moço / Eu me casei e veja o resultado / Eu tô atolado até o pescoço / Minha mulher apesar de ter saúde  / Foi pra Hollywood, fez uma operação / Agora veio com uma nova bossa / Uma voz grossa que nem um trovão / Quando eu pergunto: o que é isso, Joana? / Ela responde: você se engana / Eu era a Joana antes da operação / Mas de hoje em diante meu nome é João / Não se confunda nem troque meu nome / Fale comigo de homem pra homem / Fique sabendo mais de uma vez / Que você me paga tudo que me fez / Agora eu ando todo encabulado / E essa mágoa é que me consome / Por onde eu passo todo mundo diz / Aquele é o marido da mulher que virou homem


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7.3 - Safo  (fanchonas, caminhoneiras, paraíbas, bolachas, sapas & sapatonas)

No time feminino, a MPB encontra exemplos de lésbicas assumidas, sejam compositoras e / ou cantoras que marcaram, ou marcam, sua obra cantando o amor sáfico e / ou homo.


Aracy de Almeida
Pode-se dizer que a primeira cantora assumida teria sido Aracy de Almeida (grande intérprete de Noel Rosa desde os anos 30). Nos anos 70, já no ostracismo musical, ela tinha “entregado pra Deus” e assumia sua condição de sapata publicamente.

Porém sua figura rabugenta e cômica, que a tv  mostrava como jurada em programas de calouro,  a associava mais a uma caricatura do que a um ícone guei relevante; tanto que as gerações que a conheceram como jurada surpreendiam-se com a informação de que aquela  divertida tia mal humorada era também cantora.


Angela Ro Ro
Talvez a  primeira compositora lésbica verdadeiramente assumida tenha sido Ângela Ro Ro.  Depois de um lançamento bombástico – na segunda metade da década de 70-, onde ela foi vendida pela mídia como uma transgressora dos bons costumes -  como uma ameaça aos lares, à família brasileira -, a compositora viu sua  obra eclipsar-se sob diversos escândalos públicos.


Nas suas composições não se encontram canções explicitamente lésbicas. De qualquer forma existe uma bela gravação de “Bárbara” na sua voz.



Cassia Eller
Já a cantora Cássia Eller, que nunca escondeu sua condição, gravou algumas canções para a comunidade. Em Eles ela manda o povo curtir e gozar, com todas as combinações de sexo possíveis. “Os meninos e as meninas / Os meninos e os meninos / As meninas e as meninas / Eles só querem é gozar / E que os deixem a sós..”

Eles
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Os meninos e as meninas / Os meninos e os meninos / As meninas e as meninas / Eles só querem é gozar / E que os deixem a sós / Eles só querem é gozar / E que os deixem á sós / Os meninos e as meninas / Os meninos e os meninos / As meninas e as meninas / Eles só querem é gozar / E que os deixem a sós / Eles só querem é gozar
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E a super explícita Rubens que conta, de forma bem humorada, o amor assustado entre dois homens, além de tocar no preconceito à Aids.


Rubens
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Eu nunca quis te dizer / Sempre te achei bacaninha / O tempo todo sonhando / A tua vida na minha / O teu rostinho bonito / O jeito diferentão / De olhar no olho da gente / E de criar confusão / O teu andar malandrinho / O meu cabelo em pé / O teu cheirinho gostoso / A minha vida de ré - é / Você me dando uma bola / E eu perdido na escola / Essa fissura no ar / Parece que eu vô correndo / Sem vontade de andar /  Quero te apertar / Quero te morder,me dá / Quero mas não /  Posso, não, porque: / Rubens!!Não dá! / A gente é homem / O povo vai estranhar  / Rubens!! Pára de rir, menino / Se a tua família descobre / Eles vão querer nos engolir  / A sociedade não gosta / O pessoal acha estranho / Nós dois brincando de médico / Nós dois com esse tamanho / E com essa nova doença / O mundo todo na crença / Que tudo isso vai parar /E a gente continuando / Deixando o mundo pensar  / Minha mãe teria um ataque / Teu pai,uma paralisia / Se por acaso soubessem / Que a gente transou um dia / Nossos amigos chorando, / A vizinhança falando, / O mundo todo em prece / E quando agente passeia, / Agente só esquece / Quero te apertar / Quero te morder,bicha / Só que eu sinto uma dúvida no ar: / Rubens!!Será que dá ? / A gente é homem / O povo vai estranhar (...) / Rubens!!Eu acho que dá pé...  /  Esse negócio de homem com homem, / Mulher com mulher

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Vange Leonel



Vange Leonel, outra fanchona assumida, compositora e escritora, alcançou grande sucesso nacional com a música Noite Preta, tema da novela Vamp, da rede Globo em 1991.



Dela é a música, Esse mundo, que retrata um certo sonho de congregação da comunidade guei. A canção inicia

Bem vindos, bem vindos aqui / O trem já vai partir / Desarmem suas tendas temos muito a descobrir / Não há um lugar no mundo onde não podemos ir...

E depois traz um certo sentimento utópico de unidade


Esse mundo vai nos ver brincar / Esse mundo vai nos ver sorrir /
Esse mundo vai nos ver cantar.


Esse mundo
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Bem vindos, bem vindos aqui, o trem já vai partir / Desarmem suas tendas temos muito a descobrir / Não há um lugar no mundo onde não podemos ir / Bem vindos, bem vindos aqui, o trem já vai partir / Peguem suas máscaras nós vamos por aí / Mostrar como somos comuns e como podemos nos divertir / Não vamos ter medo só porque podemos pintar o rosto / Esse mundo vai nos ver brincar / Esse mundo vai nos ver sorrir / Esse mundo vai nos ver cantar / Esse mundo vai ouvir dizer / Bem vindos, bem vindos aqui yeah yeah yeah yeah / Esqueçam suas mágoas tudo o que não vai servir / Não importa se somos poucos / E não precisamos mentir não / Esse mundo vai nos ver brincar / Esse mundo vai nos ver sorrir / Esse mundo vai nos ver cantar / Esse mundo vai ouvir dizer / Esse mundo vai nos ver brincar / Esse mundo vai nos ver sorrir / Esse mundo vai nos ver cantar / Esse mundo,esse mundo
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Clique abaixo para ouvir Esse mundo
 

Já em outra canção, Rabo de Sereia, ela é bem explícita
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Diga que me odeia, diga que me quer / Eu sou sua parceira, eu sou sua mulher / Chave de cadeia, buraco do ladrão / Rabo de sereia, juba de leão
Você incendeia o meu coração / Minha companheira, minha direção / Só de brincadeira, diz que não me quer / Larga de besteira, eu sou sua mulher [...]


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Laura Finochiaro



Com imagem de artista cult, Laura Finochiaro (compositora gaúcha radicada em São Paulo)  nunca atingiu o grande público e também não conseguiu grande penetração na comunidade guei. Porém é dela, em parceira com Glauco Mattoso e Beto Firmino, o Hino da Diversidade, uma bela canção sobre a celebração das diferenças que ela entoou na parada Gay de SP em 2000


Hino à diversidade


Abrace a diferença! / Viver é diferente!  / Se a gente diz que é gente [réplica:] Eu sou é quem eu sou!  / Não tem o que nos vença!  Não há o que nos vença! / A DIFERENÇA É VIVA! / VIVA A DIFERENÇA!
Qual é o plural de "ão"?  / É "ãos"! É "ães"! É "ões"!  / Plural de cidadão? / São muitas multidões! / Qual é o plural de "ona"?  /É dona! É mona! É   zona!  / Plural de cidadã?  / Colega! Amiga! Irmã! / Qual é o maior plural ? / É a singularidade! É a diversidade!  / A diferença é qual?  / Unidos na igualdade! Orgulho, liberdade!  / Abrace a diferença!  / Viver é diferente!  / Se a gente diz que é gente [réplica:] Eu sou é quem eu sou!  / Não tem o que nos vença! / Não há o que nos vença!  / A DIFERENÇA É VIVA!  / VIVA A DIFERENÇA



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8 - Identidade Guei
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8.1 - Grupos e sub-grupos
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Se buscarmos estudar “identidade” (seja em termos individuais ou grupais) estaremos entrando num mundo caótico, num espaço de intempéries e sem luz no fim do túnel. O assunto é polêmico, controverso, escorregadio.

A ambição de formatar totalmente o termo (em suas múltiplas possibilidades) começa em Hércules e termina em Sísifo.

Segundo, Bauman (2004, pág. 16)


As pessoas em busca de identidade se vêem invariavelmente diante da tarefa intimidadora de “alcançar o impossível”: essa expressão genérica implica, como se sabe, tarefas que não podem ser realizadas no “tempo real”, mas que serão presumivelmente  realizadas na plenitude do tempo – na infinitude...

Ou seja, a  idéia de “alcançar o impossível”, prevê um continuum de esforço fadado, de algum modo, ao fracasso. Não que este esforço – esta busca – não possa definir conjuntos de elementos  que caracterizem, em maior ou menor grau, uma “identidade” (única ou social), porém, nunca o quadro estará completo devido às diversas variáveis que influenciam a discussão.

No que se refere a uma “identidade guei” o quadro é o mesmo. De maneira alguma pode se afirmar que exista um conjunto identificável de atos, costumes,  modos, comportamentos, desejos, interesses, etc, que caracterizem os gueis como grupo em ação na sociedade.

Num sentido amplo, se quisermos forçar a barra, poderia se pensar em uma “identidade de idéias”, a qual, de alguma forma, aproximaria as pessoas fazendo com que se reconheçam mutuamente.
Bauman, (2004 – pág. 17) comentando o assunto, apresenta duas linhas de “formação” ou “manifestação” da identidade grupal (e sua problemática).


É comum afirmar que as “comunidades” (às quais as identidades se referem  como sendo as entidades que as definem) são  de dois tipos. Existem comunidades de vida e destino, cujos  membros (...) “vivem juntos numa ligação absoluta”, e outras que são “fundidas unicamente por idéias ou por uma variedade de princípios” (...) A questão da identidade  só surge com a exposição a “comunidades” da segunda categoria -  e apenas porque existe mais de uma idéia para evocar e manter unida a “ comunidade fundida por idéias” a que se é exposto em nosso mundo de diversidades e policultural. É porque existem  tantas dessas idéias e princípios em torno dos quais  se desenvolvem essas “comunidades de indivíduos que acreditam” que é preciso comparar, fazer escolhas, fazê-las repentinamente, reconsiderar escolhas já feitas em outras ocasiões, tentar conciliar demandas contraditórias e freqüentemente incompatíveis.

Ou seja, reafirma-se a impossibilidade de alcançar resultados claros, facilmente identificáveis e mensuráveis, quando se pensa identidades em grandes grupos.

Tirando alguns aspectos macros (identidade de nacionalidade, religião, preferências esportivas, etc), quando se pensa no mundo guei, o que pode se tatear na discussão é a formação, o encontro de pessoas em comunidades menores que, de alguma forma,  se identificam (se reconhecem) umas com as outras.

Numa pulverização de interesses / perfis surgem grupos  como as travestis (que buscam a aparência feminina modificando seus corpos, mas não realizam operação de mudança de sexo), as drags ( “drag” vem de “dragão. São basicamente transformistas que se vestem de mulher em determinadas ocasiões – muitas vezes para shows/performances-, mas que não procuram modificar seus corpos), as trans (as transexuais e / ou as “operadas” – aquelas que trocaram o pênis por uma vagina), as barbies (bichas saradas, bombadas, as de culto ao corpo), os ursos (bichas que cultuam homens gordos e peludos), os chubbies (gordos ou que cultuam os gordos, mas não necessariamente peludos), os chasers (que correm atrás dos gordos, peludos e preferencialmente mais velhos – os daddies -), as finas (as ricas, chiques e cultas), as pobres – ou pão com ovo (incultas e sem dinheiro), as tias (bichas velhas, toda bicha com mais de 30 já considerada velha -  também chamadas de Irenes), michês (garotos de aluguel, garotos de programa), as politizadas (que militam basicamente em partidos de esquerda), as religiosas (com suas comunidades cristãs, esotéricas, orientais ou batuqueiras), as punks, as góticas, as emos, as “normais” e por aí afora.

E dentro destes grupos existem sub-grupos; ou então uma criatura pode ser identificada em mais de um, como por exemplo uma bicha velha de corpo bom passa a ser uma Irene-Barbie, ou uma operada gorda é uma Trans-Chubbie,  um idoso que vende o corpo é Tio de Programa (sim, isto existe), entre outras “alternativas”.

Por incrível que pareça estes sub-gêneros de viados tem cada um a sua cultura, com seus códigos de linguagem, ação e comportamento bem definidos. E isto também pode manifestar-se em estilos (ou recados) musicais (que veremos adiante).
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8.2 - Poder e resistência  (sub-cultura e resposta)
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O desprestígio, a condenação, a zombaria, a perseguição, a violência -  e todos os elementos negativos históricos aos quais os gueis estão (e estiveram) expostos, contribuíram para que estes só pudessem (ou possam) encontrar ambiente para manifestação da sua “natureza” e /ou  emoções em espaços restritos (possíveis) – principalmente guetos e/ou comunidades.

Os “guetos” estão vinculados – principalmente – a casas noturnas, bares e outros estabelecimentos que tem como objetivo atender o público afim. As comunidades podem ser das mais variadas, como grupos de apoio mútuo, ongs, grupos religiosos, profissionais, artísticos, políticos, saúde, etc ou apenas grupos de amigos informais que se reúnem para confraternizar, trocar experiências, discutir banalidades, compartilhar sentimentos, emoções, etc.

Não importa a natureza da associação, estabelecimento ou proposta, a idéia é disponibilizar – ou encontrar, criar,  ocupar - espaços onde o guei possa sentir-se à vontade consigo mesmo e com os demais, onde o guei possa respirar tranqüilo.

Nestes ambientes nasce um conjunto de práticas, idéias, ações, códigos, interesses que definem uma “cultura” (ou sub-cultura) guei – um conjunto de referências que aproxima as pessoas (os marginalizados, os iguais) e excluem os não iniciados (aqueles que representam “o outro” – o peso do dedo social, que define, acusa, condena e executa).

A construção e a vivência desta “cultura” sempre ocorreu na história  e é uma resposta (mesmo que não totalmente conhecida pelos “outros”) às opressões – e pressões – (explicitas ou veladas) as quais os gueis estão expostos diariamente.

Em “A invenção do cotidiano – 1. A arte de fazer”, Michel de Certeau, trata da questão do “produto” que é gerado, pelos grupos sociais  a partir das “representações” a que eles estão expostos no seu dia a dia.  Tais “representações” são as manifestações (eventos, registros) sociais (mídia, educação, regras, deveres, direitos,  linguagem, mercado de consumo, espaços urbanos, cultura, técnicas, procedimentos, entendimentos, etc)  que são transferidas (de modo perceptível ou não) aos indivíduos na sua experiência do ocorrer diário.

Toda “representação” está vinculada a uma idéia de “poder”, ou seja, sua emissão, seu surgimento, sua aparência tem uma idéia de “verdade”, de “natural”, de “correta”, que deve ser aceita (conscientemente ou não), internalizada e vivenciada.

Porém Certeau registra que os “consumidores” – os alvos destas representações – não funcionam exatamente de acordo com as idéias propostas (ou impostas) e discute os processos de suas transfigurações, de suas subversões.


A "fabricação" que se quer detectar é uma produção, uma poética  -  mas escondida, porque ela se dissemina nas regiões definidas e ocupadas pelos sistemas da "produção" (televisiva, urbanística, comercial etc.) e porque a extensão sempre mais totalitária desses sistemas não deixa aos “consumidores” um lugar onde possam marcar o que fazem com os produtos. A uma produção racionalizada, expansionista além de centraliza­da, barulhenta e espetacular, corresponde outra produção, qualificada de "consumo" : esta é astuciosa, é dispersa, mas ao mesmo tempo ela se insinua ubiquamente, silenciosa e quase invisível, pois não se faz notar com produtos próprios mas nas maneiras de empregar os produtos impostos por uma ordem econômica dominante. (op.cit., pág. 39)

No caso dos gueis, pode-se dizer que as “representações” de poder a que estão expostos, mutam-se em códigos, comportamentos e linguagens que são interpretados e vivenciados dentro da “comunidade” de uma maneira totalmente diversa. Assim, com um caráter subversivo,  outros significados surgem, distantes (ou em paralelo) das intenções originais.

Certeau (2008) exemplifica este fenômeno :


Há bastante tempo que se tem estudado que equívoco rachava, por dentro, o "sucesso" dos colonizadores espanhóis entre as etnias indígenas: submetidos e mesmo consentindo na dominação, muitas vezes esses indígenas faziam das ações rituais, representações ou leis que lhes eram impostas outra coisa que não aquela que o conquistador julgava obter por elas. Os indígenas as subvertiam, não rejeitando-as diretamente ou modificando-as, mas pela sua maneira de usá-las para fins e em função de referências estranhas ao sistema do qual não podiam fugir.

Os agentes-alvo (os dominados) passam então, através de uma “resistência” velada, a retrabalhar a “dominação” (poder);  a resignificar e recriar as “representações” e, a partir disto, a  reocupar os espaços oficiais, agora sob uma nova ótica, uma nova proposta (as quais podem ser explícitas ou não – que podem ser de conhecimento dos agentes de poder ou não),  com novos códigos e novos produtos. 
Certeau (2008)  exemplifica este processo “marginal” falando da sabedoria da cultura popular (objeto de resistência contrário à assimilação)


Falando de modo mais geral, uma maneira de utilizar sistemas impostos constitui a resistência  à lei histórica de um estado de fato e a suas legitimações dogmáticas. Uma prática da ordem construída por outros redistribui-lhe o espaço. Ali ela cria ao menos um jogo,  por manobras entre forças desiguais e por referências utópicas. Aí se manifestaria a opacidade da cultura “popular” - a pedra negra que se opõe à assimilação. O que aí se chama sabedoria, define-se como trampolinagem, palavra que um jogo de palavras associa à acrobacia do saltimbanco e à sua arte de saltar no trampolim, e como trapaçaria, astúcia e  esperteza no modo de utilizar ou de driblar os termos dos contratos sociais.  Mil maneiras de jogar/desfazer o jogo do outro, ou seja, o espaço instituído por outros, caracterizam a atividade, sutil, tenaz, resistente, de grupos que, por não ter um próprio, devem desembaraçar-se em uma rede de forças e de representações estabelecidas. Tem que "fazer com". Nesses estratagemas de combatentes existe uma arte dos golpes, dos lances, um prazer em alterar as regras de espaço opressor.

Os gueis também são os saltimbancos que acabam por tirar proveito do “jogo legal” proposto, “pervertendo” as regras, redefinindo “leis” e preceitos, criando e ocupando espaços, gerando códigos, imagens, modos, comportamentos, linguagem,  etc. ou seja, “utilizando” a experiência do cotidiano para construir uma (sub) cultura de oposição.

No que se refere especificamente à “criação” de uma (sub)linguagem,  veremos elementos de como esta surge e como é empregada na canção.

8.3 - Linguagem guei (opressão e religião)

Como qualquer grupo humano, os gueis desenvolvem a utilizam códigos de comunicação próprios. Elementos como hábitos, comportamentos, experiências, vivências, interesses, desejos, emoções fazem parte do adubo que frutifica em uma (sub) cultura - meio marginal / meio oculta -  que identifica estes mesmos elementos sob uma nova linguagem (novos códigos, novas expressões).

Um grupo guei (ou não) iniciado nesta linguagem pode manter um diálogo completamente inteligível para um neófito. Muitas das palavras e expressões utilizadas não existem no léxico oficial – ou se existem, têm outra conotação -. Isto faz com que esta linguagem represente um diferencial, uma resistência frente ao “outro”.

No estudo “A língua como resistência: uma tentativa sociolingüística de compreensão das linguagens de negros e homossexuais no Brasil”, Astor Vieira Junior  registra que grande parte desta linguagem guei tem origem nos “falares dos negros africanos, trazidos como escravos para nosso país” . 
Esta linguagem, utilizada dentro de centros religiosos africanos (principalmente no candomblé) é um quadro vivo, uma herança  do inconformismo, da resistência dos povos escravos.


Como elemento de resistência cultural, a linguagem dos negros africanos atravessou séculos, e mesmo ágrafa resistiu e se manteve viva, ainda que transformada por conta dos anos e das interações com outras línguas, servindo de alicerce identitário, sobretudo em decorrência da religiosidade desses povos
(http://www.espacoacademico.com.br..., 2007)

O guei praticaria esta linguagem a partir da aproximação com a religião / cultura africana. E esta “identificação”, esta aproximação estaria ligada a dois elementos / motivos :

O primeiro seria pelo fato de que os


[...] negros e homossexuais, de certo modo, estão unidos através das mesmas forças de exclusão, preconceito e discriminação. Os primeiros, pela cor, pelo culto as suas “estranhas” divindades, os outros pela negação dos princípios da hetero-normatividade. Ambos pelas diferenças com o europeu-cristão-colonizador. Todos, marginais (http://www.espacoacademico.com.br..., 2007)

O segundo teria como base o caráter “integrador” das religiões africanas onde a natureza (em todas as suas manifestações) é elemento de devoção, respeito e celebração.

Neste sentido,


O culto religioso de exaltação à natureza, onde seres encantados (orixás) partilham da mesa com seus filhos, onde a sexualidade não constitui pecado, a ambigüidade sexual festejada através de santos, da possibilidade de receber divindades masculinas e/ou femininas independente do sexo, e, sobretudo, no entendimento festejado de que a orientação sexual não é um impeditivo nem razão discriminatória da vivência coletiva e do compartilhamento com o divino, vai constituir-se num grande atrativo para aqueles que, igual aos negros, foram vítimas de séculos de exclusão e intolerância. (http://www.espacoacademico.com.br..., 2007)

Assim, a religião africana representa um oásis onde as bichas podem exercer sua espiritualidade livre de julgamentos, e, de certo modo, sendo até “admiradas”.


No Norte e Nordeste do Brasil, os candomblés são vistos como ‘lugares de bicha’, e, de fato, grande número de pais e mães-de-santo são homossexuais, inclusive alguns dos mais famosos e bem sucedidos. Os candomblés não têm nenhum preconceito em relação a homossexualidade e não é raro que um rapaz ou uma menina que tenha dificuldades em casa por causa de constantes acusações de ‘maricas’ ou ‘sapatão’ encontre nessas comunidades religiosas um lugar onde serão aceitos. [...] O candomblé, então, oferece a possibilidade de um jovem rapaz ou menina transformar seu estigma social em vantagem. (http://www.espacoacademico.com.br..., 2007)

Nesta conjugação, nasce um dialeto todo característico que tanto é empregado nos terreiros africanos quanto nas comunidades homossexuais. É a linguagem Pajubá (ou bajubá), que teria origem Nagô e Ioruba e que foi introduzida no mundo guei pelas travestis.

Alguns exemplos deste léxico :

Adé: bicha

Adé Fontó: bicha enrustida

Afofi: pênis com mau cheiro

Ageum: comida

Alibã: policial

Amapô: Vagina, mulher

Aqüé: dinheiro

Ilê: casa

Matchi: pequeno

Neca: pênis

Ocó: homem

Odara: grande, bonito, cheio de vida

Otchin: bebida alcoólica , bêbado

Picumã: cabelo, peruca

Uó: tudo que é ruim. "É uó" começou como exclamação dos travestis no Rio na década de 80 e se instalou como frase obrigatória do vocabulário moderno.

Fonte: (http://mixbrasil.uol.com.br/id/nago.htm)

Obviamente o vocabulário guei não se limita ao Pajubá e muitas outras expressões, vinculadas a outras origens, fazem parte da comunicação homo.

De qualquer modo, para entender boa parte da música de bicha praticada hoje no Brasil, é imprescindível que o ouvinte conheça o Pajubá e demais elementos (palavras, frases, expressões) que compõem a linguagem guei – que é ampla e altamente mutável.

Atualmente, definitivamente longe da grande mídia brasileira -  no chamado “mundinho” - acontece todo um movimento musical criado e executados pelos iguais  (ou simpatizantes),  que procuram traduzir  sua(s) (sub) cultura(s) agregando códigos, falas, expressões, vocabulários, etc,  num caleidoscópico jogo de signos.

Obs : Nos títulos seguintes, toda a vez que surgir uma palavra ou expressão identificada com a linguagem guei (pajuba e “normal”),  as mesmas são acompanhadas de um  comentário ou explicação entre parênteses.

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Trabalho apresentado na conclusão do "CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU EM LITERATURA BRASILEIRA" da Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 2009.
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A publicação deste trabalho no Blog foi dividida em 5 partes
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Para acessar a Primeira Parte, tecle AQUI.
Para acessar a Segunda Parte, tecle AQUI.
Para acessar a Terceira Parte, tecle AQUI.
Para acessar a Quinta Parte, tecle AQUI
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Wednesday, June 06, 2012

MPB GLS - Parte 5 (final)

MPb GLS Musica gay – Parte 5 MPb GLS Musica gay – Parte 5
MÚSICA POPULAR BRASILEIRA E OS GUEIS (gays)
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Panorama Histórico – Social - Cantos e Representações  - Quinta Parte - (Final)
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Trabalho apresentado na conclusão do "CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU EM LITERATURA BRASILEIRA" da Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 2009.
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A publicação deste trabalho no Blog foi dividida em 5 partes
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9 - MPB Guei – Nova Música Guei Brasileira

9.1 - Drag – Music (Travestis, Transformistas, Drag-queens)


Andreia Gasparetty
O estilo drag-music, caracteriza-se pela música dançante, marcada sob uma forte batida eletrônica, com letras mínimas e muito espaço para dança e performance (shows). Também este estilo engloba paródias, o caricato, o engraçado, o clown.

Nesta área temos artistas como Dimmy Quier, Léo Áquila, Silvetty Montilla, Selma Light, Andréia Gasparetty, Michelly Summer, etc

Pode-se dizer que Andreia Gasparetty (uma trava carioca) é a precursora do estilo com o lançamento de um cd em 1995 (Escândalo) que trazia a pérola Desaqüenda la Mona.

Desaqüenda la Mona.
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Oi, Escândalo, eu te conheço / Cê passa o dia inteiro / Só querendo se soltar / Esse terno te atrapalha / Cê quer um top ou micro saia / Libera essa mona / Tais querendo vadiar ? / Desaquenda (1) la mona, mona, mona ! ...
(1) Nota : "desaquenda" é um termo guei (o "antônimo" de "aquenda") que serve para muitas finalidades. Por exemplo, se quiser mandar alguém embora a bicha grita "desaquenda !!" Se quiser dizer "deixa pra lá, não se incomode,  a bicha diz "desaquenda". Se quiser ir embora,  a bicha diz "vou desaquendar". Se quiser dizer "deixa surgir, revele-se ",  a bicha diz "desaquenda", que é a intenção do título da canção, onde rola o conselho para a amiga (a mona enrustida) sair do armário (ou assumir-se)
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Clique abaixo para ouvir Desaquenda la Mona
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Em termos de paródia, é comum as bichas pegarem uma canção de sucesso e soterrá-la sob uma "nova versão".  Assim, uma canção como Amor I love you (Tribalistas), transforma-se em A dor foi no meu cu (Silvetty Montilla), ou To nem aí (Luka), tranforma-se em Sou Travesti (Silvetty Montilla), Beijinho, beijinho – tchau, tchau da Xuxa, transforma-se em Beijinho, beijinho – pau, pau (Texticulos de Mary, música Todinha sua) e assim por diante.

A dor foi no meu cú
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Marquei um encontro com o bofe, foi uma decepçããop / Cheguei atrasada,  ele revoltado já me tacou logo a mao / Pediu para ficar de quatro, e eu com aquele tesãão / Ai que coisa loca me chutou a boca, fiquei estirada no chão / amooo confusãão, amooo confusãão (2x) / A dor foi no meu cú (7x) / Amor i love you
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Clique abaixo para ouvir A dor foi no meu cu (Silvetty Montilla).


Sou travesti
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E é isso ai galera! / Eu novamente Silvetty Montilla uma paixão nordestina / Essa música agora é pra você minha amiga gay,homossexual,marca de sabão em pó,você que tem peito,cabelão. / Vamos acabar com a festa de família / Coloca o sofá do lado e grita:Sou travesti!e aiiiiiiii? / Agora eu tô em outra / Sou travesti  / De unhas pintadas e os pés num salto / e a peruca que eu não terminei de pagar / Siliconada, cortei meus bagos / e fui pra Itália na noite a vida ganhar / Já mudei o meu nome de Bruno agora não podem me chamar / Depilei os meus pelôs me remontei e virei Natasha / Agora eu tô lokaaa! / Sou travesti / Rodo bolsinha faço ponto eu não tô nem ai / Sou travesti / Não vem falar que isso é problema eu dar meu edy / Tô caprichada, subi no palco / Dublei Mariah e Christina até me acabar / Mais fui vencida pelo meu salto / Arrumei um velho gordo agora só para me bancar / Não aguento agora que ronco de velho eu não vou aturar / Tô voltando pra rua e dando horrores pra me sustentar / Agora eu tô lokaaaa! / Sou travesti / Rodo bolsinha faço ponto eu não tô nem ai / Sou travesti / Não vem falar que isso é problema eu dar meu edy / Sou travesti / Agora vocês minhas amigas que tem peito / que tem cabelo e que são bonitas / Gritem que querem dar o edyyyyy / Já mudei o meu nome de Bruno agora não podem me chamar / Depilei os meus pelôs me remontei e virei Natasha / Agora eu tô lokaaa! / Sou travesti / Rodo bolsinha faço ponto eu não tô nem ai / Sou travesti / Não vem falar que isso é problema eu dar meu edy
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Clique abaixo para ouvir Sou travesti (Silvetty Montilla).

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Todinha sua (beijinho – beijinho / pau – pau )
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Fui convidada pruma festa da pesada / Num castelo de cristal (Ôoo ôoo) / Me encontrei com a princesa Dora / Cintilante, como agora / Era um grande baile de super-herói / Já na entrada do castelo fui saudada / Pelo grande Mentor (ôoo ôoo) / Madame Riso dava gargalhada / Que surpresa, a festa era pra mim / Mas o Arqueiro de cupido me flechou / Porque eu sou bicha! / Me apresenta pro He-Man / Teu irmãozinho é uma gracinha / E eu sou todinha do bem / Porque eu sou bicha! / He-Man é um gato alto-astral / Desculpe se eu sou ousadinha / Beijinho-beijinho, / pau pau (pau pau) / pau pau (pau pau) / pau pau (pau pau) / Já era quase meia noite quando dei por mim, / Sozinha a dançar / Lembrei que tudo era um conto de fadas / E eu ali apaixonada / Pra sempre certa de que tudo é real / Porque eu sou bicha! / Me apresenta pro He-Man / Teu irmãozinho é uma gracinha / E eu sou todinha do bem / Porque eu sou bicha! / He-Man é um gato alto-astral / Desculpe se eu sou ousadinha / Beijinho-beijinho,  / pau pau (pau pau)  pau pau (pau pau) / pau pau (pau pau)
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Clique abaixo para ouvir Todinha Sua (Texticulos de Mary)

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9.2 - Punk – Hardcore  (Podridão e pontapés)

As Mercenarias
Nos 80´s surgiu aquela que se não pode ser identificada como a como a primeira banda gay punk brasileira, certamente trazia em sua formação componentes alinhados com a comunidade.




A paulista As mercenárias tinha nos seus integrantes lésbicas assumidas (uma dela mais tarde acabou por se "casar" com uma travesti paulista) e apresentava letras "chocantes"  (para a época) que eram rugidas aos limites.

Exemplo :  A Santa Igreja
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O homem quer subir na vida / Em busca de fama e prazer, / Daí encontra com Jesus, / E seu espírito de luz vai renascer. / Vai se foder! / Salve! Salve! / A Santa Igreja! / O homem se revolta das suas condições, / Luta pra poder sobreviver. / Daí encontra com Jesus, / E só por estar vivo vai agradecer. / Vai se foder! / Salve! Salve! / A Santa Igreja!  / O jovem rebelde e criativo / Questiona e desobedece o poder, / Daí encontra com Jesus / E à verdade cristã vai obedecer / Vai se foder! / Salve! Salve! / A Santa Igreja!
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Clique abaixo para ouvir A Santa Igreja.
 

A banda lançou dois LPS, alcançou um certo sucesso, mas acabou afastada de cena quando o punk  brasileiro deixou de ser novidade e passou a interessar apenas a uma pequena parcela do público.

Sem dúvida alguma a banda melhor banda punk-gay surgida no Brasil, na minha opinião,  foi a pernambucana Texticulos de Mary que apareceu no final dos 90, durou até 2004 e lançou dois cds.
Texticulos de Mary

Vendida como nascidos da uma mutação dos testículos de uma travesti chamada Mary,  seus integrantes diziam habitar uma realidade paralela e serem representantes dos marginalizados.

Suas letras iam do politizado - sob uma ótica guei-subversiva – ao explícito.


Natasha Orloff fala de uma bicha que se perde no mundo capitalista após a queda do muro de Berlim

Natasha Orloff
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Natasha Orloff entrou com a bola toda / E deslanchou de sola quando a União desabou / Ante a esse curso neo-liberalista que em Capitalista a Ucrânia transformou / Natasha agora vive intoxicada topa qualquer parada em que possa lucrar / Sentindo fome aperta a barriga em uma cinta liga comprada na C&A / Quaraquacá eu era comunista de linha Stalinista educada em colégio militar / Agora vendo ideologias engarrafadas nesse meu corpinho longilíneo e angular / Porque música de comunista é mal assombro
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Clique abaixo para ouvir Natasha Orloff.
 

Já em Propóstata, a "mensagem" é direta.

Propóstata
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Eu quero ser tua cadela / Engatada no teu pau / Um suicida agarrado na tua perna / Um coração exposto pela via anal / Um animal obediente / Teu "capacho" paciente / Com a xoxota artificial / Eu quero ser tua cadela / Engatada no teu pau / Um suicida agarrado na tua perna / Um coração exposto pela via anal / A nicotina no seu dente / O teu escravo indiferente / Seu recipiente seminal / Eu quero ser tua cadela / Engatada no teu pau / Um suicida agarrado na tua perna / Um coração exposto, pela via anal.
..
Clique abaixo para ouvir Propóstata.
 

Atualmente, de uma forma não tão assumida -  e até por uma estratégia de mercado onde não lhe interessa em ser rotulada de guei – a banda paulista Nerds Attack apresenta algumas canções com recados diretos.

Se Joga
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Se joga / Não tema ser o que te faz feliz / Nem de fazer o que te da prazer /Explore a felicidade da forma que te faz melhor / Sem desrespeitar aos outros / O preconceito te sufoca / Querendo tirar de você / O gosto puro da liberdade / Tenha livre arbítrio para ser feliz!
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Clique abaixo para ouvir Se Joga.
 

Ou então

Respeite sua escolha
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Qual a razão de não poder fazer / O que sua cabeça quer realizar? / Porque oprimir seus sentimentos / Admirando os outros sem poder tentar? / Queime o moralismo / Existente eu seu corpo / Livre pra viver o que tiver que ser vivido / Livre pra escolher / Respeite sua escolha
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Clique abaixo para ouvir Respeite sua escolha.
 

Nerds Attack
Uma realidade é que este tipo de som - punk, sujo, roqueiro, distorcido, acompanhado de vocais vociferantes e coléricos -, assusta e acaba por afastar as bichas "de bem" (as finas, eruditas), limitando-se a circular na sub-marginalidade do mundinho (entre os gueis punks-hardcores,  entre as bichas mais iradas, ensandecidas). 


Na época da sua existência, a Texticulo de Mary comentava que tinha mais entrada (mais reflexo) dentro da comunidade punk "normal-hetero" do que propriamente na comunidade homo – o que indica que a maioria dos frágeis ouvidos gueis não agüenta uma acústica mais pesada, furiosa, raivosa.

9.3 - Geléia Geral – Funk / Electro-funk - do experimentalismo à baixaria generalizada -
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Desde que passou a ter maior visibilidade no Brasil, o ritmo funk, numa reinterpretação tupiniquim, afastou-se dos seus ritmos de origem – funk negro americano (anos 60, 70) -, e foi recriado como "pancadão", apresentando uma batida eletrônica intensa, fortemente marcada e totalmente voltada para o movimento (lascivo) dos corpos.

Já o electro é associado, na sua origem,  à junção do hip hop nova iorquino com a música eletrônica.
Las Bibas from Vizcaya
Numa mistura de que engloba o funk,  electro,  glitter-rock, hard-rock, punk, dance music, musica eletrônica e outras mais, surge, falando de modo reducionista, o Electro-Funk, um estilo "aberto", passível de rotular desde experimentalismos eletrônicos, rock hardcore, etc, até musicas alinhadas com  bailes funks de subúrbio.


Solange to aberta
Nesta terra de ninguém aparecem no Brasil diversos artistas e grupos gueis (ou simpatizantes) que, dentro das suas propostas estéticas, dão voz às mais variadas idéias, representações e invenções, num mix criativo que vai do concreto ao absurdo.
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Grupos como Solange Tô aberta, Las bibas from Vizcaya, Bonde do Tetão, Queerfest, Montage, Bonde do Role, Spanka, Tetine, Pajubá, Bonde do Urso Manco e outros, trazem em suas obras – em maior ou menor grau - fortes elementos gueis.
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Alguns exemplos :
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Cadê o meu aqué ? - Las bibas from Vizcaya
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Cadê o meu aqué ? (aqué : dinheiro) / Deram a Elza no meu aqué (dar a Elza : roubar) / Onde está o meu ginger ? (ginger : aqué)  / Ninguém se mexe ninguém se move / Daqui nenhum passo nenhum movimento / Até aparecer o meu aqué / E eu lascar porrada na cara dessa bicha elzeira (elzeira : ladra, cleptomaníaca ) / Eu me rasgo de trabalhar feito uma escrava / E vem uma esperta, metida a fina / E mete a mão na minha bolsa, e faz a boba (fazer a boba : fazer-se de desentendida, inocente ) / E leva a minha grana / Pra comprar bagulho e o cafuçu (bagulho : drogas / cafuçu : michê, bofe) / Eu tô achando que foi um cafuçu / Desses que eu trago pra casa pra comer o meu .... / Aí eu faço a boba e dou pra eles uma taba (taba : maconha) / Então pode pegar na neca e dar uma.... (neca : pênis, pau, caralho)
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Clique abaixo para ouvir Cadê o meu aqué ?.
 

Outro : Melô da bicha no armário - Solange, Tô Aberta!
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Reunião com a família / Vai fingir que é homem formal / Engrossar a voz nasal /
Vê como cê vai sentar! / Falar chiclete! / Nem pensar!!! (falar chiclete : falar com a "boca mole", anasalada, tipo bicha) / Disfarça bem o olhar quando o primo gostosão chegar / A cara deslavada / Quando perguntarem pela namorada / E a expressão de nojo quando o tio der um arroto ! / Se o assunto é futebol / Finge que vai ao banheiro / Se o assunto for mulher diz que vive nos putêro (...) / Isso é coisa de machão! / Isso é auto afirmação! / É pura virilidade! / Coça mesmo com vontade! / Pra eles pensar que é verdade!

Mas o nonsense absoluto chega com o Pajubá, projeto idealizado pela paulista Jaqueline Farias, que tinha como objetivo colocar na boca do povo brasileiro, através da música,  o dialeto guei. Em entrevista ao site MixBrasil,(2005), Jaqueline diz :

Da mesma forma que o Charlie Brown faz letras com dialetos de skatistas, queremos fazer música com meu dialeto (sic), o Pajubá", explica Jaqueline, que não é lésbica mas diz passar boa parte da sua vida no mundo gay.

"Eu falo o Pajubá e sempre achei o vocabulário muito rico, mas ninguém nunca o havia usado para fazer um trabalho. Daí pensei e decidi juntar uns amigos para montar o projeto", comenta Jaqueline, que é a responsável pelas letras do grupo. A banda é formada pelo vocalista Pajubá, Aline, (...) e uma Drag que ainda não foi revelada. Eles todos garantem que o motivo do projeto é um só: divertir.

"Tenho um amigo hétero que sempre fala 'vou fazer a chuca (2) para não passar cheque', mas ele nem sabe o que significa. Segundo ele é engraçado e gostoso de falar, e é para isso que surgiu a música do pajubá", diverte-se Jaqueline, acreditando que o pajubá vem conquistando novos adeptos fora do meio gay.
Nota (2): "fazer a chuca" é realizar a lavagem intestinal – enema -. / "para não passar o cheque" é evitar de evacuar no momento da penetração.


Pajuba
O projeto rendeu um Cd e um site (já fora do ar) que propunham a discussão e a inserção social do pajubá no Brasil, o que obviamente não ocorreu.


De qualquer forma o saldo são músicas com letras que alcançam o bizarro, o absurdo, diante das quais os desavisados acabam não sabendo onde termina o inglês, onde começa o português e onde surge o pajubá.

Aquelas (Pajuba)
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I'm looking for a ocó (ocó – homem, bofe) / I'm looking for a big neca (neca : pau, penis, caralho) / To slap on my cara / With your nec'odara (nec´odara : pau grande) / I need to debandar  / I want a bofe to me / Now I wanna know / Do you want my …?  (aqui entraria a palavra "edi" – ânus, cú – para rimar com  o "to me" anterior) /  What happened? / I did the cheque (cheque : fezes, ou seja "me caguei") / I have no culpa / I did a Xi… (aqui a palavra seria "shit" –merda-, para rimar com cheque) / I have no culpa / Have culpa eu? / I did a Xi… / Como aconteceu?
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Clique abaixo para ouvir Aquelas
 

Ou outra (em pajubá e português), talvez ainda mais hermética
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Trava língua Pajubá (Pajubá)
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Essa é a brincadeira  / Trava língua pajubá  / Quem não conseguir  / Vai aqüendar a laialá (vai ter que encarar uma vagina) / Uma neca matim (um pau pequeno) / Uma neca frapê  (um pau semi ereto - meio mole) / Uma neca com oté  (um pau fedorento) / É o uó! / Um ocó xepó  (um homem brega - cafona) / Um ocó adé (um "hetero bicha") / Um ocó bereré (um homem feio) (...) É o uó! / Amapô nicaô (travesti com pau grande – bem dotada) / Amapô de canudo (travesti com pênis – "não operada") / Amapô de bajé (mulher menstruada) / É o uó! (...)
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Clique abaixo para ouvir Trava língua Pajubá.
 
E assim por diante.
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9.3 - Bear Music  (GORDOS, peludos e papais)
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Bonde do Urso Manco


A comunidade ursina – ou bear - (aquela que gosta de gordos e peludos) tem na banda O Bonde do Urso Manco (de São Paulo), uma referência musical.


Com letras  sempre no caminho da baixaria, a Bonde do Urso Manco expõe o que a sociedade bear quer.

Woof de cu é rola (woof : onomatopéia  em inglês que imita o urro dos ursos)
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Esse é o bonde do urso manco, chegando pra abalar / Cuida do seu namorado que é pra gente não roubar / Dizem que a gente é uó,  puta e galinha (Uó : coisa ruim, negativa),   / Mas a gente nem se importa, isso é tudo invejinha / Se é peludo então é bear, se é gordo então é chubby (tá explicado) / Vou dizer que eu gosto mesmo é de um bom e belo cub (Cub : bicha peluda, mas não muito gorda) / Bear, daddy , chaser eu não quero nem saber (Daddy : bicha tipo "papai" /  Chaser : aquelas que correm atrás de bears, daddies e chubbies ) / Quero ver quem é mais homem pra chegar e me fazer (Me fazer : trepar comigo) /Woof, woof, woof de cu é rôla  / Tu vai ser o meu ursão e eu vou ser tua cachorra  /Cansei de ursa truqueira que faz tipo de profunda, (Truqueira : o tipo que engana - Profunda : séria, intelectual, culta) / Diz que faz a ativa, mas na cama vira a bunda / Que saudade eu tenho do Bearwww (site de ursos) / Saco cheio do All Bears, quero ver bofe safado (All Bears : site de ursos  - Bofe : homem)  / Ativo? Passivo? Versátil? tem local? (Versátil : ativo e passivo) / Todo chat é na verdade um grande bacanal / O importante é que meu urso não seja do babado (Babado : explicação adiante) / Tem que ser fora do meio e não efeminado (ou seja, o urso-bofe não deve ser do meio guei e não pode ser "mulherzinha")
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Clique abaixo para ouvir Woof de cu é rola.
 

Com referências diretas à sub-comunidade-guei-ursina, o entendimento das letras do Bonde do Urso Manco, requer, neste exemplo,  pelo menos três entradas  de vocabulário :  1)linguagem pajubá (uó);  2)linguagem guei "comum" (me fazer, truqueira, profunda, versátil, bofe, etc);  e 3) a sub-sub linguagem dos "ursos" (daddy, chaser, woof, cub) -  o que demonstra a "complexidade poética"  da canção.

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10 - MPB Guei – Personagens e Sentimentos
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O cantar guei  abrange praticamente toda a riqueza de ritmos encontrada na MPB. Isto demonstra que o assunto é amplo, com entrada nos mais diversos tipos de público e, obviamente, surge com as mais variadas intenções.
Neste cantar, numa análise imediata,  podemos identificar alguns perfis recorrentes  na representação  das figuras guei :

O enrustido : aquele que está (ou prefere / quer estar) oculto, aquele que não pode (ou tem medo de) se assumir. Sua situação pode ser cantada sob um olhar triste (Ombro amigo), deboche ou sarcasmo –mas com bom humor- (Rubens), ou receber uma xingada / crítica direta  (Melô da bicha no armário).
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O ambíguo :  aquele que coloca a dúvida no olhar do "outro".  O personagem não é claro e presta-se a rótulos diversos (Mulato Forte, Cabeleira do Zezé )
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O "pintoso" arrependido : aquele que dá pinta,  aquele que  resvala no deslumbre e se revela involuntariamente, mas não assume sua condição (Camisa Listrada, E o mundo não se acabou).
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O conformado : aquele que  sabe o que quer – reconhece o objeto da sua paixão – mas não tem coragem de assumir (Duro com duro)
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O assumido : aquele que ultrapassou o preconceito, assume-se e canta o amor direto (Amor mais que discreto, Bárbara, Rabo de Sereia )
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O fatal : aquele que não vê lugar no mundo para viver suas emoções, seu modo, sua natureza. (Mar e Lua)
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O perseguido : aquele que é alvo de violência  -  moral  ou física -  (Ombro amigo, Geni e o Zepelin)
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O debochado : aquele que brinca (joga) com sua própria condição, seja no seu comportamento ou como é afetado pelo olhar e ação do outro. O debochado usa o humor como uma arma de expressão  e resistência – esta é uma das referências mais forte na personificação guei.  (O vira,  Desaqüenda la Mona, Woof de cu é rola,  Cadê meu aqué?, Aquelas)
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O sátiro / tarado : aquele que é louco por sexo. A imagem de que o guei é altamente sexual (e expõe-se a riscos para atingir seus ignóbeis intentos)  é um dos lugares comuns que povoam – interna e externamente – a comunidade das bichas. (Propóstata,  Aquelas, Cadê meu aqué?, Woof de cu é rola)
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Em termos de sentimentos, as canções falam de um universo de emoções, afetos, desafios e posicionamentos que alargam e integram as discussões sobre o tema.
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Exemplos :
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Amor clandestino : o encontro amoroso é proibido, condenado,  o que o joga para a sombra -  onde ele pode ou não ser exercido. (Ombro amigo, Galeria do Amor, Mar e Lua)
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Amor pleno : o encontro amoroso ocorre desassociado de culpa, preconceito ou perseguição. O gozo não está manchado pela culpa. (Emoções)
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Desafio : o personagem é incitado a quebrar as amarras, derrubar as portas e gritar – ou assumir - sua condição.  (Essa tal criatura, Desaqüenda la Mona, Se joga, Respeite sua escolha)
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Celebração : a condição guei – em todas as suas formas – é objeto de júbilo (Hino à diversidade)
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CONCLUSÃO
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MPB Guei – Fechando a rosca (no bom sentido)
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Obviamente este trabalho não tem a intenção de abranger todas as possibilidades de discutir,  estudar, investigar, examinar e interpretar o assunto.

A representação guei na canção brasileira é povoada de múltiplas possibilidades e desvela-se, revela-se, transforma-se e oculta-se a cada olhar.  O interessado que lança as redes sobre a MPB-Guei,  recolhe  contradições, certezas, dúvidas, caminhos e  desvios. Seu barco não abarca toda a colheita. Suas mãos enchem-se de proposições, de alternativas que permitem a expansão, o alargamento de tópicos e abordagens - e a  discussão permanece  rica e desafiadora.

Este exercício propôs-se a  disponibilizar uma visão geral do tema dentro de determinadas visões, o que, por conseqüência, excluiu outras possíveis. De qualquer forma creio que o esboço pintado permite ao espectador observar diversas perspectivas, paisagens e horizontes, os quais, se não dão uma visão completa da amplitude, permitem o desenvolvimento do olhar.

Assim, diante da fertilidade, da fecundidade do terreno pisado, o qual, a medida em que é penetrado, -invadido, trilhado- , abre outros caminhos, vias, estradas que levam a outros mapas desafiadores ou a becos sem saída, fica a sensação de que mesmo que o "Atlas da MPB Guei" nunca chegue a ser totalmente desenhado, apreciá-lo nas suas mais diversas possibilidades demonstra a abundância do tema e sua importância como referência e representação para um importante grupo humano.

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.REFERÊNCIAS
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ARAÚJO, Paulo César de. Eu não sou cachorro não – Música popular cafona e ditadura militar.3 ed.S/l:Record, 2002.

BAUMAN, Zygmunt. Identidade. 1 ed. S/l: Zahar,  2004.

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano – 1. A arte de fazer.  15 ed.S/l: Vozes, 2008.

CUSHMAN,Roberto. Projeto Pajubá. Site Mix Brasil. Disponível em:
<http://mixbrasil.uol.com.br/id/nago.htm> e
<http://mixbrasil.uol.com.br/cultura/musica/pajuba/pajuba.shtm>

DIDIER,Carlos; MÁXIMO,  João. Noel Rosa – Uma biografia. 1 ed. S/l:UNB, 1990.

FAOUR, Rodrigo.Historia Sexual da MPB – A evolução do amor e do sexo na canção brasileira. 1 ed. S/l:Record, 2006.

GREEN, James N. Além do carnaval – A homossexualidade masculina no Brasil do século XX. 1 ed. S/l: Unesp,1999.

_______. POLITO, Ronaldo. Frescos Trópicos - Fontes sobre a homossexualidade masculina no Brasil. 1 ed. S/l.: Jose Olimpio, 2006.

GOMES, Dulcinéa Nunes; SILVA, Francisco Duarte. Assis Valente – A jovialidade trágica de José Assis Valente. 1 ed. S/l.:Martins Fontes,FUNARTE, 1988.

JUNIOR, Astor Vieira. A língua como resistência: uma tentativa sociolingüística de compreensão das linguagens de negros e homossexuais no Brasil. Ano VI, n.70. S/l.:Espaço acadêmico, 2007. Disponível em: 
<http://www.espacoacademico.com.br/070/70vieirajr.htm>

KULICK, Don. Travesti – prostituição, sexo, gênero e cultura no Brasil. S/l.: Fiocruz, 2008.

LOGULLO, Eduardo.  Biografia Gal Costa. S/l., 2005. Disponível em:
<http://www.galcosta.com.br/sec_biografia.php?id=11>

MOREIRA, Evandro. Osório Peixoto Silva in Poetas Cachoeirenses. S/l. Disponível em:
<http://www.palavrarte.com/equipe/equipe_osorio.htm>

TREVISAN, João Silvério. Devassos no paraíso : A homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade.6 ed. S/l.: Record, 2007.

VELOSO,Caetano. A Capa. S/l.: 2007. Disponível em:
<http://www.acapa.com.br/site/noticia.asp?codigo=2313>

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MÚSICAS CITADAS
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Música
Autor(es)
O Bonequinho ---
Mulato Bamba Noel Rosa
Camisa Listrada Assis Valente
E o mundo não se acabou Assis Valente
Uva de Caminhão Assis Valente
Duro com duro (não gravada) Assis Valente
Menino do Rio Caetano Veloso
Ele me deu um beijo na boca Caetano Veloso
Podres poderes Caetano Veloso
Três travestis Caetano Veloso
Amor mais que discreto Caetano Veloso
Pai e mãe Gilberto Gil
Super-homem, a Canção Gilberto Gil
O vira Luli, João Ricardo
Calúnias - Telma Eu Não Sou Gay Bee Anderson, Leandro, Léo Jaime, Sérgio Abreu
Napoleão Luli, Lucina
Bárbara Chico Buarque, Ruy Guerra
Geni E O Zepelin Chico Buarque
Mar e Lua Chico Buarque
Ombro amigo Leci Brandão
Essa tal criatura Leci Brandão
A galeria do amor Agnaldo Timoteo
Emoções Wando
Forma de sentir Odair Jose
Aids Leandro, Leo Jaime
Sônia (Sunny) B. Hebb, Leandro
Toda forma de amor Lulu Santos
Meninos e meninas Renato Russo, Marcelo Bonfá, Dado Villa-Lobos
O tempo não pára Cazuza, Arnaldo Brandão
Eles Cássia Eller, Otávio Fialho, Luiz Pinheiro
Rubens Mário Manga
Noite preta Vange Leonel, Cilmara Bedaque
Rabo de sereia Vange Leonel, Cilmara Bedaque, Fernando Figueiredo
Hino à diversidade Laura Finochiaro, Glauco Mattoso, Beto Firmino
Cabeleira do Zezé João Roberto Kelly, Roberto Faissal
Maria Sapatão João Roberto Kelly, Don Carlos, Chacrinha, Leleco Barbosa
Bota a camisinha Abelardo Barbosa (Chacrinha)
Boi da Cara Preta Paquito,  Romeu Gentil, José Gomes
A mulher que virou homem. Elias Soares, Jackson do Pandeiro
Desaqüenda la Mona Andreia Gasparetty
A dor foi no meu cu Silvetty Montilla
Sou Travesti Silvetty Montilla
A Santa Igreja Sandra Coutinho, Ana Maria Machado
Natasha Orloff Texticulos de Mary
Propóstata Texticulos de Mary
Todinha sua (She Ra) Texticulos de Mary
Se joga Nerds Attack
Respeite sua escolha Nerds Attack
Cadê o meu aqué ? Las bibas from Vizcaya
Melô da bicha no armário Solange, Tô Aberta!
Aquelas Pajubá
Trava língua Pajubá Pajubá
Woof de cú é rôla O Bonde do Urso Manco
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Trabalho apresentado na conclusão do "CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU EM LITERATURA BRASILEIRA" da Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 2009.
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A publicação deste trabalho no Blog foi dividida em 5 partes
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Para acessar a Primeira Parte, tecle AQUI.
Para acessar a Segunda Parte, tecle AQUI.
Para acessar a Terceira Parte, tecle AQUI.
Para acessar a Quarta Parte, tecle AQUI
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