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Hino do Blog : " ...e todas as vozes da minha cabeça, agora ... juntas. Não pára não - até o chão - elas estão descontroladas..."
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Wednesday, June 06, 2012

MPB GLS - Parte 5 (final)

MPb GLS Musica gay – Parte 5 MPb GLS Musica gay – Parte 5
MÚSICA POPULAR BRASILEIRA E OS GUEIS (gays)
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Panorama Histórico – Social - Cantos e Representações  - Quinta Parte - (Final)
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Trabalho apresentado na conclusão do "CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU EM LITERATURA BRASILEIRA" da Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 2009.
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A publicação deste trabalho no Blog foi dividida em 5 partes
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Para acessar a Primeira Parte, tecle AQUI.
Para acessar a Segunda Parte, tecle AQUI.
Para acessar a Terceira Parte, tecle AQUI.
Para acessar a Quarta Parte, tecle AQUI
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9 - MPB Guei – Nova Música Guei Brasileira

9.1 - Drag – Music (Travestis, Transformistas, Drag-queens)


Andreia Gasparetty
O estilo drag-music, caracteriza-se pela música dançante, marcada sob uma forte batida eletrônica, com letras mínimas e muito espaço para dança e performance (shows). Também este estilo engloba paródias, o caricato, o engraçado, o clown.

Nesta área temos artistas como Dimmy Quier, Léo Áquila, Silvetty Montilla, Selma Light, Andréia Gasparetty, Michelly Summer, etc

Pode-se dizer que Andreia Gasparetty (uma trava carioca) é a precursora do estilo com o lançamento de um cd em 1995 (Escândalo) que trazia a pérola Desaqüenda la Mona.

Desaqüenda la Mona.
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Oi, Escândalo, eu te conheço / Cê passa o dia inteiro / Só querendo se soltar / Esse terno te atrapalha / Cê quer um top ou micro saia / Libera essa mona / Tais querendo vadiar ? / Desaquenda (1) la mona, mona, mona ! ...
(1) Nota : "desaquenda" é um termo guei (o "antônimo" de "aquenda") que serve para muitas finalidades. Por exemplo, se quiser mandar alguém embora a bicha grita "desaquenda !!" Se quiser dizer "deixa pra lá, não se incomode,  a bicha diz "desaquenda". Se quiser ir embora,  a bicha diz "vou desaquendar". Se quiser dizer "deixa surgir, revele-se ",  a bicha diz "desaquenda", que é a intenção do título da canção, onde rola o conselho para a amiga (a mona enrustida) sair do armário (ou assumir-se)
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Clique abaixo para ouvir Desaquenda la Mona
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Em termos de paródia, é comum as bichas pegarem uma canção de sucesso e soterrá-la sob uma "nova versão".  Assim, uma canção como Amor I love you (Tribalistas), transforma-se em A dor foi no meu cu (Silvetty Montilla), ou To nem aí (Luka), tranforma-se em Sou Travesti (Silvetty Montilla), Beijinho, beijinho – tchau, tchau da Xuxa, transforma-se em Beijinho, beijinho – pau, pau (Texticulos de Mary, música Todinha sua) e assim por diante.

A dor foi no meu cú
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Marquei um encontro com o bofe, foi uma decepçããop / Cheguei atrasada,  ele revoltado já me tacou logo a mao / Pediu para ficar de quatro, e eu com aquele tesãão / Ai que coisa loca me chutou a boca, fiquei estirada no chão / amooo confusãão, amooo confusãão (2x) / A dor foi no meu cú (7x) / Amor i love you
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Clique abaixo para ouvir A dor foi no meu cu (Silvetty Montilla).


Sou travesti
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E é isso ai galera! / Eu novamente Silvetty Montilla uma paixão nordestina / Essa música agora é pra você minha amiga gay,homossexual,marca de sabão em pó,você que tem peito,cabelão. / Vamos acabar com a festa de família / Coloca o sofá do lado e grita:Sou travesti!e aiiiiiiii? / Agora eu tô em outra / Sou travesti  / De unhas pintadas e os pés num salto / e a peruca que eu não terminei de pagar / Siliconada, cortei meus bagos / e fui pra Itália na noite a vida ganhar / Já mudei o meu nome de Bruno agora não podem me chamar / Depilei os meus pelôs me remontei e virei Natasha / Agora eu tô lokaaa! / Sou travesti / Rodo bolsinha faço ponto eu não tô nem ai / Sou travesti / Não vem falar que isso é problema eu dar meu edy / Tô caprichada, subi no palco / Dublei Mariah e Christina até me acabar / Mais fui vencida pelo meu salto / Arrumei um velho gordo agora só para me bancar / Não aguento agora que ronco de velho eu não vou aturar / Tô voltando pra rua e dando horrores pra me sustentar / Agora eu tô lokaaaa! / Sou travesti / Rodo bolsinha faço ponto eu não tô nem ai / Sou travesti / Não vem falar que isso é problema eu dar meu edy / Sou travesti / Agora vocês minhas amigas que tem peito / que tem cabelo e que são bonitas / Gritem que querem dar o edyyyyy / Já mudei o meu nome de Bruno agora não podem me chamar / Depilei os meus pelôs me remontei e virei Natasha / Agora eu tô lokaaa! / Sou travesti / Rodo bolsinha faço ponto eu não tô nem ai / Sou travesti / Não vem falar que isso é problema eu dar meu edy
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Clique abaixo para ouvir Sou travesti (Silvetty Montilla).

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Todinha sua (beijinho – beijinho / pau – pau )
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Fui convidada pruma festa da pesada / Num castelo de cristal (Ôoo ôoo) / Me encontrei com a princesa Dora / Cintilante, como agora / Era um grande baile de super-herói / Já na entrada do castelo fui saudada / Pelo grande Mentor (ôoo ôoo) / Madame Riso dava gargalhada / Que surpresa, a festa era pra mim / Mas o Arqueiro de cupido me flechou / Porque eu sou bicha! / Me apresenta pro He-Man / Teu irmãozinho é uma gracinha / E eu sou todinha do bem / Porque eu sou bicha! / He-Man é um gato alto-astral / Desculpe se eu sou ousadinha / Beijinho-beijinho, / pau pau (pau pau) / pau pau (pau pau) / pau pau (pau pau) / Já era quase meia noite quando dei por mim, / Sozinha a dançar / Lembrei que tudo era um conto de fadas / E eu ali apaixonada / Pra sempre certa de que tudo é real / Porque eu sou bicha! / Me apresenta pro He-Man / Teu irmãozinho é uma gracinha / E eu sou todinha do bem / Porque eu sou bicha! / He-Man é um gato alto-astral / Desculpe se eu sou ousadinha / Beijinho-beijinho,  / pau pau (pau pau)  pau pau (pau pau) / pau pau (pau pau)
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Clique abaixo para ouvir Todinha Sua (Texticulos de Mary)

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9.2 - Punk – Hardcore  (Podridão e pontapés)

As Mercenarias
Nos 80´s surgiu aquela que se não pode ser identificada como a como a primeira banda gay punk brasileira, certamente trazia em sua formação componentes alinhados com a comunidade.




A paulista As mercenárias tinha nos seus integrantes lésbicas assumidas (uma dela mais tarde acabou por se "casar" com uma travesti paulista) e apresentava letras "chocantes"  (para a época) que eram rugidas aos limites.

Exemplo :  A Santa Igreja
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O homem quer subir na vida / Em busca de fama e prazer, / Daí encontra com Jesus, / E seu espírito de luz vai renascer. / Vai se foder! / Salve! Salve! / A Santa Igreja! / O homem se revolta das suas condições, / Luta pra poder sobreviver. / Daí encontra com Jesus, / E só por estar vivo vai agradecer. / Vai se foder! / Salve! Salve! / A Santa Igreja!  / O jovem rebelde e criativo / Questiona e desobedece o poder, / Daí encontra com Jesus / E à verdade cristã vai obedecer / Vai se foder! / Salve! Salve! / A Santa Igreja!
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Clique abaixo para ouvir A Santa Igreja.
 

A banda lançou dois LPS, alcançou um certo sucesso, mas acabou afastada de cena quando o punk  brasileiro deixou de ser novidade e passou a interessar apenas a uma pequena parcela do público.

Sem dúvida alguma a banda melhor banda punk-gay surgida no Brasil, na minha opinião,  foi a pernambucana Texticulos de Mary que apareceu no final dos 90, durou até 2004 e lançou dois cds.
Texticulos de Mary

Vendida como nascidos da uma mutação dos testículos de uma travesti chamada Mary,  seus integrantes diziam habitar uma realidade paralela e serem representantes dos marginalizados.

Suas letras iam do politizado - sob uma ótica guei-subversiva – ao explícito.


Natasha Orloff fala de uma bicha que se perde no mundo capitalista após a queda do muro de Berlim

Natasha Orloff
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Natasha Orloff entrou com a bola toda / E deslanchou de sola quando a União desabou / Ante a esse curso neo-liberalista que em Capitalista a Ucrânia transformou / Natasha agora vive intoxicada topa qualquer parada em que possa lucrar / Sentindo fome aperta a barriga em uma cinta liga comprada na C&A / Quaraquacá eu era comunista de linha Stalinista educada em colégio militar / Agora vendo ideologias engarrafadas nesse meu corpinho longilíneo e angular / Porque música de comunista é mal assombro
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Clique abaixo para ouvir Natasha Orloff.
 

Já em Propóstata, a "mensagem" é direta.

Propóstata
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Eu quero ser tua cadela / Engatada no teu pau / Um suicida agarrado na tua perna / Um coração exposto pela via anal / Um animal obediente / Teu "capacho" paciente / Com a xoxota artificial / Eu quero ser tua cadela / Engatada no teu pau / Um suicida agarrado na tua perna / Um coração exposto pela via anal / A nicotina no seu dente / O teu escravo indiferente / Seu recipiente seminal / Eu quero ser tua cadela / Engatada no teu pau / Um suicida agarrado na tua perna / Um coração exposto, pela via anal.
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Clique abaixo para ouvir Propóstata.
 

Atualmente, de uma forma não tão assumida -  e até por uma estratégia de mercado onde não lhe interessa em ser rotulada de guei – a banda paulista Nerds Attack apresenta algumas canções com recados diretos.

Se Joga
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Se joga / Não tema ser o que te faz feliz / Nem de fazer o que te da prazer /Explore a felicidade da forma que te faz melhor / Sem desrespeitar aos outros / O preconceito te sufoca / Querendo tirar de você / O gosto puro da liberdade / Tenha livre arbítrio para ser feliz!
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Clique abaixo para ouvir Se Joga.
 

Ou então

Respeite sua escolha
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Qual a razão de não poder fazer / O que sua cabeça quer realizar? / Porque oprimir seus sentimentos / Admirando os outros sem poder tentar? / Queime o moralismo / Existente eu seu corpo / Livre pra viver o que tiver que ser vivido / Livre pra escolher / Respeite sua escolha
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Clique abaixo para ouvir Respeite sua escolha.
 

Nerds Attack
Uma realidade é que este tipo de som - punk, sujo, roqueiro, distorcido, acompanhado de vocais vociferantes e coléricos -, assusta e acaba por afastar as bichas "de bem" (as finas, eruditas), limitando-se a circular na sub-marginalidade do mundinho (entre os gueis punks-hardcores,  entre as bichas mais iradas, ensandecidas). 


Na época da sua existência, a Texticulo de Mary comentava que tinha mais entrada (mais reflexo) dentro da comunidade punk "normal-hetero" do que propriamente na comunidade homo – o que indica que a maioria dos frágeis ouvidos gueis não agüenta uma acústica mais pesada, furiosa, raivosa.

9.3 - Geléia Geral – Funk / Electro-funk - do experimentalismo à baixaria generalizada -
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Desde que passou a ter maior visibilidade no Brasil, o ritmo funk, numa reinterpretação tupiniquim, afastou-se dos seus ritmos de origem – funk negro americano (anos 60, 70) -, e foi recriado como "pancadão", apresentando uma batida eletrônica intensa, fortemente marcada e totalmente voltada para o movimento (lascivo) dos corpos.

Já o electro é associado, na sua origem,  à junção do hip hop nova iorquino com a música eletrônica.
Las Bibas from Vizcaya
Numa mistura de que engloba o funk,  electro,  glitter-rock, hard-rock, punk, dance music, musica eletrônica e outras mais, surge, falando de modo reducionista, o Electro-Funk, um estilo "aberto", passível de rotular desde experimentalismos eletrônicos, rock hardcore, etc, até musicas alinhadas com  bailes funks de subúrbio.


Solange to aberta
Nesta terra de ninguém aparecem no Brasil diversos artistas e grupos gueis (ou simpatizantes) que, dentro das suas propostas estéticas, dão voz às mais variadas idéias, representações e invenções, num mix criativo que vai do concreto ao absurdo.
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Grupos como Solange Tô aberta, Las bibas from Vizcaya, Bonde do Tetão, Queerfest, Montage, Bonde do Role, Spanka, Tetine, Pajubá, Bonde do Urso Manco e outros, trazem em suas obras – em maior ou menor grau - fortes elementos gueis.
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Alguns exemplos :
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Cadê o meu aqué ? - Las bibas from Vizcaya
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Cadê o meu aqué ? (aqué : dinheiro) / Deram a Elza no meu aqué (dar a Elza : roubar) / Onde está o meu ginger ? (ginger : aqué)  / Ninguém se mexe ninguém se move / Daqui nenhum passo nenhum movimento / Até aparecer o meu aqué / E eu lascar porrada na cara dessa bicha elzeira (elzeira : ladra, cleptomaníaca ) / Eu me rasgo de trabalhar feito uma escrava / E vem uma esperta, metida a fina / E mete a mão na minha bolsa, e faz a boba (fazer a boba : fazer-se de desentendida, inocente ) / E leva a minha grana / Pra comprar bagulho e o cafuçu (bagulho : drogas / cafuçu : michê, bofe) / Eu tô achando que foi um cafuçu / Desses que eu trago pra casa pra comer o meu .... / Aí eu faço a boba e dou pra eles uma taba (taba : maconha) / Então pode pegar na neca e dar uma.... (neca : pênis, pau, caralho)
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Clique abaixo para ouvir Cadê o meu aqué ?.
 

Outro : Melô da bicha no armário - Solange, Tô Aberta!
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Reunião com a família / Vai fingir que é homem formal / Engrossar a voz nasal /
Vê como cê vai sentar! / Falar chiclete! / Nem pensar!!! (falar chiclete : falar com a "boca mole", anasalada, tipo bicha) / Disfarça bem o olhar quando o primo gostosão chegar / A cara deslavada / Quando perguntarem pela namorada / E a expressão de nojo quando o tio der um arroto ! / Se o assunto é futebol / Finge que vai ao banheiro / Se o assunto for mulher diz que vive nos putêro (...) / Isso é coisa de machão! / Isso é auto afirmação! / É pura virilidade! / Coça mesmo com vontade! / Pra eles pensar que é verdade!

Mas o nonsense absoluto chega com o Pajubá, projeto idealizado pela paulista Jaqueline Farias, que tinha como objetivo colocar na boca do povo brasileiro, através da música,  o dialeto guei. Em entrevista ao site MixBrasil,(2005), Jaqueline diz :

Da mesma forma que o Charlie Brown faz letras com dialetos de skatistas, queremos fazer música com meu dialeto (sic), o Pajubá", explica Jaqueline, que não é lésbica mas diz passar boa parte da sua vida no mundo gay.

"Eu falo o Pajubá e sempre achei o vocabulário muito rico, mas ninguém nunca o havia usado para fazer um trabalho. Daí pensei e decidi juntar uns amigos para montar o projeto", comenta Jaqueline, que é a responsável pelas letras do grupo. A banda é formada pelo vocalista Pajubá, Aline, (...) e uma Drag que ainda não foi revelada. Eles todos garantem que o motivo do projeto é um só: divertir.

"Tenho um amigo hétero que sempre fala 'vou fazer a chuca (2) para não passar cheque', mas ele nem sabe o que significa. Segundo ele é engraçado e gostoso de falar, e é para isso que surgiu a música do pajubá", diverte-se Jaqueline, acreditando que o pajubá vem conquistando novos adeptos fora do meio gay.
Nota (2): "fazer a chuca" é realizar a lavagem intestinal – enema -. / "para não passar o cheque" é evitar de evacuar no momento da penetração.


Pajuba
O projeto rendeu um Cd e um site (já fora do ar) que propunham a discussão e a inserção social do pajubá no Brasil, o que obviamente não ocorreu.


De qualquer forma o saldo são músicas com letras que alcançam o bizarro, o absurdo, diante das quais os desavisados acabam não sabendo onde termina o inglês, onde começa o português e onde surge o pajubá.

Aquelas (Pajuba)
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I'm looking for a ocó (ocó – homem, bofe) / I'm looking for a big neca (neca : pau, penis, caralho) / To slap on my cara / With your nec'odara (nec´odara : pau grande) / I need to debandar  / I want a bofe to me / Now I wanna know / Do you want my …?  (aqui entraria a palavra "edi" – ânus, cú – para rimar com  o "to me" anterior) /  What happened? / I did the cheque (cheque : fezes, ou seja "me caguei") / I have no culpa / I did a Xi… (aqui a palavra seria "shit" –merda-, para rimar com cheque) / I have no culpa / Have culpa eu? / I did a Xi… / Como aconteceu?
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Clique abaixo para ouvir Aquelas
 

Ou outra (em pajubá e português), talvez ainda mais hermética
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Trava língua Pajubá (Pajubá)
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Essa é a brincadeira  / Trava língua pajubá  / Quem não conseguir  / Vai aqüendar a laialá (vai ter que encarar uma vagina) / Uma neca matim (um pau pequeno) / Uma neca frapê  (um pau semi ereto - meio mole) / Uma neca com oté  (um pau fedorento) / É o uó! / Um ocó xepó  (um homem brega - cafona) / Um ocó adé (um "hetero bicha") / Um ocó bereré (um homem feio) (...) É o uó! / Amapô nicaô (travesti com pau grande – bem dotada) / Amapô de canudo (travesti com pênis – "não operada") / Amapô de bajé (mulher menstruada) / É o uó! (...)
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Clique abaixo para ouvir Trava língua Pajubá.
 
E assim por diante.
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9.3 - Bear Music  (GORDOS, peludos e papais)
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Bonde do Urso Manco


A comunidade ursina – ou bear - (aquela que gosta de gordos e peludos) tem na banda O Bonde do Urso Manco (de São Paulo), uma referência musical.


Com letras  sempre no caminho da baixaria, a Bonde do Urso Manco expõe o que a sociedade bear quer.

Woof de cu é rola (woof : onomatopéia  em inglês que imita o urro dos ursos)
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Esse é o bonde do urso manco, chegando pra abalar / Cuida do seu namorado que é pra gente não roubar / Dizem que a gente é uó,  puta e galinha (Uó : coisa ruim, negativa),   / Mas a gente nem se importa, isso é tudo invejinha / Se é peludo então é bear, se é gordo então é chubby (tá explicado) / Vou dizer que eu gosto mesmo é de um bom e belo cub (Cub : bicha peluda, mas não muito gorda) / Bear, daddy , chaser eu não quero nem saber (Daddy : bicha tipo "papai" /  Chaser : aquelas que correm atrás de bears, daddies e chubbies ) / Quero ver quem é mais homem pra chegar e me fazer (Me fazer : trepar comigo) /Woof, woof, woof de cu é rôla  / Tu vai ser o meu ursão e eu vou ser tua cachorra  /Cansei de ursa truqueira que faz tipo de profunda, (Truqueira : o tipo que engana - Profunda : séria, intelectual, culta) / Diz que faz a ativa, mas na cama vira a bunda / Que saudade eu tenho do Bearwww (site de ursos) / Saco cheio do All Bears, quero ver bofe safado (All Bears : site de ursos  - Bofe : homem)  / Ativo? Passivo? Versátil? tem local? (Versátil : ativo e passivo) / Todo chat é na verdade um grande bacanal / O importante é que meu urso não seja do babado (Babado : explicação adiante) / Tem que ser fora do meio e não efeminado (ou seja, o urso-bofe não deve ser do meio guei e não pode ser "mulherzinha")
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Clique abaixo para ouvir Woof de cu é rola.
 

Com referências diretas à sub-comunidade-guei-ursina, o entendimento das letras do Bonde do Urso Manco, requer, neste exemplo,  pelo menos três entradas  de vocabulário :  1)linguagem pajubá (uó);  2)linguagem guei "comum" (me fazer, truqueira, profunda, versátil, bofe, etc);  e 3) a sub-sub linguagem dos "ursos" (daddy, chaser, woof, cub) -  o que demonstra a "complexidade poética"  da canção.

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10 - MPB Guei – Personagens e Sentimentos
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O cantar guei  abrange praticamente toda a riqueza de ritmos encontrada na MPB. Isto demonstra que o assunto é amplo, com entrada nos mais diversos tipos de público e, obviamente, surge com as mais variadas intenções.
Neste cantar, numa análise imediata,  podemos identificar alguns perfis recorrentes  na representação  das figuras guei :

O enrustido : aquele que está (ou prefere / quer estar) oculto, aquele que não pode (ou tem medo de) se assumir. Sua situação pode ser cantada sob um olhar triste (Ombro amigo), deboche ou sarcasmo –mas com bom humor- (Rubens), ou receber uma xingada / crítica direta  (Melô da bicha no armário).
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O ambíguo :  aquele que coloca a dúvida no olhar do "outro".  O personagem não é claro e presta-se a rótulos diversos (Mulato Forte, Cabeleira do Zezé )
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O "pintoso" arrependido : aquele que dá pinta,  aquele que  resvala no deslumbre e se revela involuntariamente, mas não assume sua condição (Camisa Listrada, E o mundo não se acabou).
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O conformado : aquele que  sabe o que quer – reconhece o objeto da sua paixão – mas não tem coragem de assumir (Duro com duro)
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O assumido : aquele que ultrapassou o preconceito, assume-se e canta o amor direto (Amor mais que discreto, Bárbara, Rabo de Sereia )
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O fatal : aquele que não vê lugar no mundo para viver suas emoções, seu modo, sua natureza. (Mar e Lua)
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O perseguido : aquele que é alvo de violência  -  moral  ou física -  (Ombro amigo, Geni e o Zepelin)
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O debochado : aquele que brinca (joga) com sua própria condição, seja no seu comportamento ou como é afetado pelo olhar e ação do outro. O debochado usa o humor como uma arma de expressão  e resistência – esta é uma das referências mais forte na personificação guei.  (O vira,  Desaqüenda la Mona, Woof de cu é rola,  Cadê meu aqué?, Aquelas)
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O sátiro / tarado : aquele que é louco por sexo. A imagem de que o guei é altamente sexual (e expõe-se a riscos para atingir seus ignóbeis intentos)  é um dos lugares comuns que povoam – interna e externamente – a comunidade das bichas. (Propóstata,  Aquelas, Cadê meu aqué?, Woof de cu é rola)
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Em termos de sentimentos, as canções falam de um universo de emoções, afetos, desafios e posicionamentos que alargam e integram as discussões sobre o tema.
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Exemplos :
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Amor clandestino : o encontro amoroso é proibido, condenado,  o que o joga para a sombra -  onde ele pode ou não ser exercido. (Ombro amigo, Galeria do Amor, Mar e Lua)
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Amor pleno : o encontro amoroso ocorre desassociado de culpa, preconceito ou perseguição. O gozo não está manchado pela culpa. (Emoções)
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Desafio : o personagem é incitado a quebrar as amarras, derrubar as portas e gritar – ou assumir - sua condição.  (Essa tal criatura, Desaqüenda la Mona, Se joga, Respeite sua escolha)
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Celebração : a condição guei – em todas as suas formas – é objeto de júbilo (Hino à diversidade)
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CONCLUSÃO
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MPB Guei – Fechando a rosca (no bom sentido)
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Obviamente este trabalho não tem a intenção de abranger todas as possibilidades de discutir,  estudar, investigar, examinar e interpretar o assunto.

A representação guei na canção brasileira é povoada de múltiplas possibilidades e desvela-se, revela-se, transforma-se e oculta-se a cada olhar.  O interessado que lança as redes sobre a MPB-Guei,  recolhe  contradições, certezas, dúvidas, caminhos e  desvios. Seu barco não abarca toda a colheita. Suas mãos enchem-se de proposições, de alternativas que permitem a expansão, o alargamento de tópicos e abordagens - e a  discussão permanece  rica e desafiadora.

Este exercício propôs-se a  disponibilizar uma visão geral do tema dentro de determinadas visões, o que, por conseqüência, excluiu outras possíveis. De qualquer forma creio que o esboço pintado permite ao espectador observar diversas perspectivas, paisagens e horizontes, os quais, se não dão uma visão completa da amplitude, permitem o desenvolvimento do olhar.

Assim, diante da fertilidade, da fecundidade do terreno pisado, o qual, a medida em que é penetrado, -invadido, trilhado- , abre outros caminhos, vias, estradas que levam a outros mapas desafiadores ou a becos sem saída, fica a sensação de que mesmo que o "Atlas da MPB Guei" nunca chegue a ser totalmente desenhado, apreciá-lo nas suas mais diversas possibilidades demonstra a abundância do tema e sua importância como referência e representação para um importante grupo humano.

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.REFERÊNCIAS
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ARAÚJO, Paulo César de. Eu não sou cachorro não – Música popular cafona e ditadura militar.3 ed.S/l:Record, 2002.

BAUMAN, Zygmunt. Identidade. 1 ed. S/l: Zahar,  2004.

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano – 1. A arte de fazer.  15 ed.S/l: Vozes, 2008.

CUSHMAN,Roberto. Projeto Pajubá. Site Mix Brasil. Disponível em:
<http://mixbrasil.uol.com.br/id/nago.htm> e
<http://mixbrasil.uol.com.br/cultura/musica/pajuba/pajuba.shtm>

DIDIER,Carlos; MÁXIMO,  João. Noel Rosa – Uma biografia. 1 ed. S/l:UNB, 1990.

FAOUR, Rodrigo.Historia Sexual da MPB – A evolução do amor e do sexo na canção brasileira. 1 ed. S/l:Record, 2006.

GREEN, James N. Além do carnaval – A homossexualidade masculina no Brasil do século XX. 1 ed. S/l: Unesp,1999.

_______. POLITO, Ronaldo. Frescos Trópicos - Fontes sobre a homossexualidade masculina no Brasil. 1 ed. S/l.: Jose Olimpio, 2006.

GOMES, Dulcinéa Nunes; SILVA, Francisco Duarte. Assis Valente – A jovialidade trágica de José Assis Valente. 1 ed. S/l.:Martins Fontes,FUNARTE, 1988.

JUNIOR, Astor Vieira. A língua como resistência: uma tentativa sociolingüística de compreensão das linguagens de negros e homossexuais no Brasil. Ano VI, n.70. S/l.:Espaço acadêmico, 2007. Disponível em: 
<http://www.espacoacademico.com.br/070/70vieirajr.htm>

KULICK, Don. Travesti – prostituição, sexo, gênero e cultura no Brasil. S/l.: Fiocruz, 2008.

LOGULLO, Eduardo.  Biografia Gal Costa. S/l., 2005. Disponível em:
<http://www.galcosta.com.br/sec_biografia.php?id=11>

MOREIRA, Evandro. Osório Peixoto Silva in Poetas Cachoeirenses. S/l. Disponível em:
<http://www.palavrarte.com/equipe/equipe_osorio.htm>

TREVISAN, João Silvério. Devassos no paraíso : A homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade.6 ed. S/l.: Record, 2007.

VELOSO,Caetano. A Capa. S/l.: 2007. Disponível em:
<http://www.acapa.com.br/site/noticia.asp?codigo=2313>

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MÚSICAS CITADAS
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Música
Autor(es)
O Bonequinho ---
Mulato Bamba Noel Rosa
Camisa Listrada Assis Valente
E o mundo não se acabou Assis Valente
Uva de Caminhão Assis Valente
Duro com duro (não gravada) Assis Valente
Menino do Rio Caetano Veloso
Ele me deu um beijo na boca Caetano Veloso
Podres poderes Caetano Veloso
Três travestis Caetano Veloso
Amor mais que discreto Caetano Veloso
Pai e mãe Gilberto Gil
Super-homem, a Canção Gilberto Gil
O vira Luli, João Ricardo
Calúnias - Telma Eu Não Sou Gay Bee Anderson, Leandro, Léo Jaime, Sérgio Abreu
Napoleão Luli, Lucina
Bárbara Chico Buarque, Ruy Guerra
Geni E O Zepelin Chico Buarque
Mar e Lua Chico Buarque
Ombro amigo Leci Brandão
Essa tal criatura Leci Brandão
A galeria do amor Agnaldo Timoteo
Emoções Wando
Forma de sentir Odair Jose
Aids Leandro, Leo Jaime
Sônia (Sunny) B. Hebb, Leandro
Toda forma de amor Lulu Santos
Meninos e meninas Renato Russo, Marcelo Bonfá, Dado Villa-Lobos
O tempo não pára Cazuza, Arnaldo Brandão
Eles Cássia Eller, Otávio Fialho, Luiz Pinheiro
Rubens Mário Manga
Noite preta Vange Leonel, Cilmara Bedaque
Rabo de sereia Vange Leonel, Cilmara Bedaque, Fernando Figueiredo
Hino à diversidade Laura Finochiaro, Glauco Mattoso, Beto Firmino
Cabeleira do Zezé João Roberto Kelly, Roberto Faissal
Maria Sapatão João Roberto Kelly, Don Carlos, Chacrinha, Leleco Barbosa
Bota a camisinha Abelardo Barbosa (Chacrinha)
Boi da Cara Preta Paquito,  Romeu Gentil, José Gomes
A mulher que virou homem. Elias Soares, Jackson do Pandeiro
Desaqüenda la Mona Andreia Gasparetty
A dor foi no meu cu Silvetty Montilla
Sou Travesti Silvetty Montilla
A Santa Igreja Sandra Coutinho, Ana Maria Machado
Natasha Orloff Texticulos de Mary
Propóstata Texticulos de Mary
Todinha sua (She Ra) Texticulos de Mary
Se joga Nerds Attack
Respeite sua escolha Nerds Attack
Cadê o meu aqué ? Las bibas from Vizcaya
Melô da bicha no armário Solange, Tô Aberta!
Aquelas Pajubá
Trava língua Pajubá Pajubá
Woof de cú é rôla O Bonde do Urso Manco
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Trabalho apresentado na conclusão do "CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU EM LITERATURA BRASILEIRA" da Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 2009.
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A publicação deste trabalho no Blog foi dividida em 5 partes
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Para acessar a Primeira Parte, tecle AQUI.
Para acessar a Segunda Parte, tecle AQUI.
Para acessar a Terceira Parte, tecle AQUI.
Para acessar a Quarta Parte, tecle AQUI
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Thursday, May 31, 2012

Filmes vistos (ou não) ultimamente


SHAME 

Filmaço. Bem no estilo que eu gosto. Denso, difícil, provocador. 

Michael Fassbender (sem comentários, um super ator), faz um publicitário – Brandon - que “sofre” de uma compulsão por sexo. Prostitutas, masturbação no ambiente de trabalho, pornografia na internet, pegar mulher na rua para uma trepada rápida, nada o sacia – e nem o satisfaz.  


O sexo é sua fuga, sua droga. Brandon  é dominado pelo caralho – tanto que logo no inicio do filme o close é no pau do moço e não na sua cara - e administra seu universo (casa, trabalho, relações sociais e profissionais, etc) de forma a sustentar / saciar seus instintos.

Só que este mundinho habilmente equilibrado entra em caos com a chegada / invasão da sua irmã problemática Sissy (Carey Mulligan, numa performance demolidora).  Sem explicar muito  as motivações - o que só engrandece o filme – Brandon e Sissy revelam um relacionamento repleto de  raiva, ressentimento, encontros, diferenças, dor, entendimento e amor. 


A coisa acaba embolando o meio de campo do rapaz e as conseqüências são .... trágicas ? 

Repetindo : Filmaço !

PATTON  - Rebelde ou Herói ?

Filme de 1970, na escola dos velhos épicos que não se fazem mais.  Com quase 3 horas de duração, Patton , conta, obviamente,  a história do general George S. Patton (vivido por George C. Scott) e suas peripécias no comando de tropas americanas na segunda guerra mundial.

Patton é um “maluco” que acredita ser o fruto da reencarnação de vários guerreiros do passado e que agora tem a missão de liderar o melhor exército, na melhor guerra, da forma mais brilhante, intrépida e corajosa, e assim alcançar a glória e consagração a ele destinadas pelos deuses.

E ele realmente viaja na história. Atolado na vaidade, acredita ser “ o escolhido” o que o faz ignorar conselhos, recomendações e até ordens para conseguir seus intentos. Isto sem falar na sua  boca grande que o leva às mais infelizes declarações – por conta de seus preconceitos -  gerando perigosos incidentes diplomáticos - , e também de suas atitudes “duras” e “disciplinadoras” com aqueles que ele julga “fracos” e “covardes” – o  que também acaba lhe trazendo grandes aborrecimentos. 

É claro que tudo isto resulta, dentro da sua visão, em perseguição à sua figura e ele não entende porque o comando militar o tira de cena várias vezes.  Afinal ele é um abençoado dos deuses, está acima do bem e do mal, e suas ações são sempre motivadas dentro das melhores intenções, digamos, “guerreiras” .

O filme é grandioso e vale a pena ser descoberto, mesmo com sua duração excessiva.

Curiosidades : George C. Scott foi consagrado com o Oscar de melhor ator por este filme. George simplesmente recusou a estatueta dizendo que os prêmios da academia eram um “concurso de carnes”.

GONE – 12 HORAS

Escrito e dirigido pelo brasileiro Heitor Dhalia – em sua estréia em Hollywood -  Gone narra o sufoco 
da jovem estudante Jill Parrish (Amanda Seyfried – muito boa ) que ao voltar para casa, depois de uma noite de trabalho, encontra vazia a cama da sua irmã Molly. Depois de tentar contactá-la, Jill conclui que Molly  foi raptada pelo mesmo serial killer que a raptou dois anos antes e que agora teria voltado para concluir o serviço – já que ela teria sido a a única vítima que conseguiu escapar. 

Acontece que Jill nunca conseguiu comprovar sua história – alem de ter passado por internações em clínicas para malucos – e, assim, a policia não acredita em nada do que ela fala. Desesperada – porem determinada – Jill parte para salvar sua irmã de qualquer maneira.

Bem, mesmo com alguns furos no roteiro, o filme é legal e prende a atenção.  Nada demais, mas vale como um bom programa para quem gosta do estilo.

POLISSE

Da atriz, diretora e roteirista Maiwenn (que atua como atriz, diretora e roteirista neste filme), Polisse mostra  a rotina da Brigada de Proteção ao Menor, em Paris.

Acompanhamos o dia a dia dos policiais no enfrentamento com pedófilos, pais negligentes, trombadinhas, e toda a sorte de crimes e abusos envolvendo menores. Além disto somos convidados a participar das vidas particulares dos integrantes do esquadrão e acabamos testemunhando seus dramas, romances, vícios, doenças, desvios, carências, alegrias, tristezas, etc.  

Com mas de duas horas de duração (que parecem intermináveis), Polissei naufraga na sua pretensão. 
Nas cenas em que o grupo de policial aparece “exercendo a profissão” é gritante o absurdo e a incompetência que demonstram em tratar determinados casos (tipo interrogarem os acusados de forma coletiva, interrogarem crianças em publico,  isto sem falar na pior cena quando eles simplesmente caem na gargalhada na frente de uma garota que disse ter  sido obrigada a  chupar uma turma de meninos para reaver seu celular ).

Nas cenas das suas vidas particulares, o que fica claro é a intenção da roteirista-diretora em mostrar que aquele grupo é “humano”, com seus méritos, falhas , idiossincrasias, etc. OK, bem pensado. Mas precisava tanta verborragia, tanta tagarelice, tanta cena “de grito” , tanta cena de “conflito”, alternadas com tantas cenas “românticas”, sem levar a lugar algum?

Achei um pé no saco.

DRIVE
Sobre este filme não tenho muito o que falar.

Drive vem na linha de explorar o personagem do herói (não sei se seria bem esta a palavra -  aqui vivido de forma perfeita por Ryan Gosling) com um passado obscuro, que surge do nada e se estabelece numa comunidade, que demonstra oscilações de atos monstruosos (algumas cenas de assassinato são, digamos, “especialmente iradas”) a amorosos (a relação com a mãe e filho vizinhos são “lindas”, numa espécie de tentativa de resgate ou construção familiar).  É o  herói calado, solitário, triste, destemido, justiceiro, amigo, fiel, assassino, frio,  impiedoso, que voluntariamente se envolve numa trama perigosa com o intuito de acertar e ajudar àqueles que ele ama (ou acha que ?). Ou seja,  aquele cara (ou criatura)  sem chefe – dono do seu destino -  que concentra todos os elementos de um personagem “cool”,  marginal, outsider que de alguma forma sempre acaba mexendo com nosso imaginário, sendo  praticamente impossível não torcer por ele, apesar de nos assustar.

O elenco é fenomenal e todos os personagens muito bem construídos.  Filmaço !!

Povão do filme : Ryan Gosling (fantastico), Albert Brooks (de volta num papel de super marfioso), Carey Mulligan (mais uma vez provando que é 10 !), Ron Perlman (este cara é literalmente uma “figura”), Oscar Isaac (perfeito, “feio”,  quase irreconhecível), Bryan Cranston (em um personagem triste, belamente construído), Christina Hendricks (numa “roupa de assaltante” inacreditável)

BABYCALL

Me propus a assistir por causa da Noomi Rapace, a deusa que fez a Lisbeth Salander na  trilogia Millenium Sueca.

Descrição retirada do Terra :

“Em Babycall, Rapace dá vida a Anna, uma mãe que protege seu filho de um relacionamento complicado com o ex. Para tanto, ela faz uso de um monitor de áudio - que dá o título do filme, "babycall" - para se assegurar que tudo está certo com o pequeno Anders.

Tudo se complica quando Anna ouve barulhos estranhos, que se assemelham a um assassinato, e um amigo misterioso do garoto passa a visitá-los com freqüência”

Bem, comecei a assistir na boa, mas, depois de um certo tempo, só consegui ir adiante no “modo acelerado” e pulando várias cenas.

 Babycall pretende ser uma viagem dentro da loucura, da paranóia da protagonista e para isto, somos desafiados a discernir o que é real e o que é imaginado dentro das suas visões e experiências.

Até ai tudo bem, o problema é que todos os personagens deste filme são absolutamente ridículos, mal construídos e incapazes de despertar qualquer simpatia ou empatia.

E quando a loucura geral vai se instalando, fica óbvio no que tudo vai dar (sempre a solução mais óbvia criada por roteiristas sem imaginação) .


 Chato, óbvio e ridículo.



HAYWIRE – À TODA PROVA

Não agüentei e larguei acho que na metade. Com um elenco que inclui nada mais, nada menos do que Ewan Mcgregor, Michael Douglas, Antonio Banderas, Channing Tatum e Michael Fassbender, fazendo pano de fundo para a estréia da lutadora de MMA Gina Carano no cinema, Haywire é ... sobre o que mesmo ? ... Alguém entendeu bem a história ? ... Alguem conseguiu ficar acordado e ligado na trama ? ...  


Para mim o Steven Soderbergh (diretor bons filmes como Traffic) se perdeu feio nesta joça.

Tuesday, May 29, 2012

Show - Toquinho e Joao Bosco


Um encontro de Titãs. 

Assim pode ser definido o show do Toquinho e Joao Bosco apresentado neste sábado, dia 26, aqui em Porto Alegre.

Com um caráter intimista – tipo um banquinho e um violão - , era de se perguntar se este tipo de proposta seria adequada à imensidão do Teatro do Sesi (lotado, diga-se de passagem). 

Mas, tudo bem. Fomos lá para ver no que ia dar..

Toquinho entra muito simples, muito humilde, exalando simpatia. Pega seu violão e logo de cara nos alveja com “Minha profissão”, que nos versos inicias já diz tudo :

“Debaixo dessas luzes coloridas,
Nesse palco, minha vida, minha voz, meu violão. 
O artista, meio mito, meio gente,
Vira assim meio parente de uma grande multidão”


Depois de ouvir isto, quem resistir há de ?

Em seguida – pegando o rabo da musica –  ele  fala sobre a alegria em compor e cantar como profissão.  E começa a mandar um clássico atrás do outro.

 “Que Maravilha” (uma surpresa para mim pois adorava esta musica quando criança ), “Samba de Orly”, “O caderno”, “Aquarela” , “A casa”  e outras são entregues de forma generosa. 

As canções são intercaladas por casos saborosos da época em que  Toquinho conviveu com os monstros sagrados Vinicius, Tom, Baden e outros.  

No set instrumental – introduzido com uma homenagem a Paulinho Nogueira - o poeta prova ser um virtuose do violão. Bachianinha, Gente Humilde e Asa Branca são executadas de forma sublime e a galera delira.

Revelando o que ele considera o marco zero de sua carreira – o momento em que Vinicius passou a respeitá-lo como musico – Toquinho chama ao palco João Bosco, e ambos cantam “Tarde em Itapoã”. 

Toquinho sai e João assume o show.

A esta altura do campeonato o teatrão do Sesi já se transformou numa coisa tipo roda de amigos num barzinho. É inegável a aproximação entre os artistas e o publico.

E seguindo nesta mesma linha, Joao alterna casos e canções. 

 Fala especialmente de Elis Regina – sem duvida a melhor cantora que este país já teve - e de como aconteceu o primeiro encontro entre eles. 

Aí realmente a coisa me surpreendeu.  João revela que a primeira musica que apresentou à diva foi “Bala com Bala”, um “samba” que ela acabou gravando. Acontece que “Bala com Bala” não tem nada de fácil, nem no seu ritmo – bem acelerado – nem na sua letra, digamos “estilhaçada” :

"A sala cala e o jornal prepara quem está na sala
Com pipoca e com bala e o urubu sai voando, manso
O tempo corre e o suor escorre, vem alguém de porre
Há um corre-corre, e o mocinho chegando, dando.
Eu esqueço sempre nesta hora (linda, loura)
Minha velha fuga em todo impasse;
Eu esqueço sempre nesta hora (linda loura)
Quanto me custa dar a outra face.
O tapa estala no balacobaco e é bala com bala
E fala com fala e o galã se espalhando, dando.
No rala-rala quando acaba a bala é faca com faca
É rapa com rapa e eu me realizando, bambo.
Quando a luz acende é uma tristeza (trapo, presa),
Minha coragem muda em cansaço.
Toda fita em série que se preza (dizem, reza)
Acaba sempre no melhor pedaço"


Me caiu os butiá.  Eu nunca esperava ouvir esta canção (que eu cantava a plenos pulmões quando adolescente).  

E para não deixar as surpresas só por ai, ele acaba apresentando outra musica, digamos, “difícil” : a emocionante “Agnus Sei”- sua primeira gravação,  lado B de um compacto simples, cujo lado A era nada menos do que “Aguas de Março”, com Tom Jobim – ao revelar isto ele manda ver  com “Aguas de Março”.   


Os demais petardos foram, entre outros que posso ter esquecido,  “Corsário” (outra das minhas preferidas), “Desenho de Giz”, “Quando o amor acontece”, “Papel marché”, “Nação” , “Ronco da cuíca” (maravilha), “Mestre Sala dos Mares” (clássico em homenagem a João Cândido Feslisberto, gaúcho de Encruzilhada do Sul, que liderou a Revolta da Chibata em 1910), “O bêbado e a equilibrista” (que o povo cantou junto de cabo a rabo).

 Uma em especial, que confessando minha ignorância eu não conhecia, me emocionou muito.  Fruto de parceria do Joao com Chico Buarque, “Sinhá” traz a marca dos grandes compositores. Fui às lágrimas com a interpretação emocionada do artista.

A roda foi chegando ao final. Toquinho volta ao  palco e eles cantam – após revelarem a importância do mito João nas suas formações – a indecentemente perfeita “Chega de Saudade”. Ai meus sais ! Que momento mágico !  

Se despedem da platéia após a imortal “Saudosa Maloca”.

São ovacionados.

Retornam para o bis e encerram a noite com “Se acaso você chegasse”, do Lupicinio.

Precisa mais ?

Na verdade, sim.

Para mim ficaram faltando “apenas duas músicas” : “Onde anda você” , com o Toquinho, e “Memória da Pele”, com o Joao (esta tem um sentido determinante / fundamental na minha vida). 

Mas, mesmo com estes “furos” (olha minha pretensão), não dá pra dizer que o show é nada menos que  absolutamente fantástico, inesquecível, único.

As emoções que o conjunto de canções apresentadas desperta nas gerações que as conheceram nas suas épocas é algo que sacode a memória, reaviva descobertas, lutas,  amores, derrotas, alegrias e tristezas.

Perfeito ! Salve os bruxos !









Friday, May 25, 2012

Musica Gay - John Grant


John Grant

Conheci o trabalho do compositor e cantor gay John Grant ao assisitir Weekend


Sua musica “I wanna go to Marz”, encerra de forma brilhante este belo filme de Andrew Haigh.

Não conhecia o John 
 e acabei descobrindo um artista único.

Suas canções têm uma poesia especial / estranha e tocam assuntos sociais, morais, sexuais e afetivos de forma um tanto intrigante, para não dizer bizarras e/ou herméticas..

Para saber mais sobre o trabalho do John clique aqui (uma crítica brilhante sobre seu primeiro álbum solo – Queen of Denmaik)

MUSICA  : I WANNA GO TO MARZ / EU QUERO IR PARA MARTE

 A musica.tem um letra bem for a da casinha para quem não entende seu sentido, o qual só pode ser desvendado a partir da explicação do próprio John.

Diz ele  : “Marz é uma loja de doces da minha infância. Agora ela está vazia e à venda.  Mas eu fui visitá-la antes disto, e a senhora que me servia quando eu era criança ainda está lá.  Eles ainda produzem seus próprios doces e sorvetes. Na canção eu listo todos os nomes dos sundaes e bebidas oferecidos lá, como o Green River (Rio Verde). A canção é sobre um portal de volta à infância e inocência, antes das coisas se tornarem complicadas”. (contactmusic.com)

Dito isto, fica fácil entender a letra. 

VIDEO : I WANNA GO TO MARZ / EU QUERO IR PARA MARTE - Legendado

Assim como a letra, o video também é tri estranho. 

Mas, com os esclarecimentos de co-diretor Casey Raymond  para a promonews.tv, o entendimento das imagens fica mais fácil (se bem que nem tudo).

Entrevista :

O vídeo é uma notável combinação de tragédia  assustadora e um (em ultima instãncia enganoso) adorável otimismo.  Como isso aconteceu?

O que captamos da letra da canção foi o desejo melancólico de alguém em retornar às suas memórias infantis favoritas. Nós imaginamos  se isso era realmente possível, que depois de morrer você acaba em algum purgatório, um meio caminho onde você começa a reviver os desejos do seu coração várias e várias vezes.. Pode ser bom durante algum tempo, mas eventualmente pode deixá-lo completamente louco.

Havia uma espécie  de resumo, ou alguma dica, de John ou de sua gravadora ?  Como vocês sabiam que eles iriam na direção de uma idéia tão extrema?
Nós pegamos o trabalho devido aos nossos vídeos anteriores, de modo que todos já sabiam que rumo as coisas iriam tomar. John enviou algumas idéias, que eram em grande parte inviáveis devido ao orçamento, embora ele não tenha mencionado alguém se  afogando em sorvete. Enviamos a eles um tratamento muito vago, principalmente falando de interpretações modernas de fantasmas, como o fantasma da loja de caridade, com raiva de que alguém está comprando suas roupas. Houve também a menção de um fantasma Spectrophiliac,  que estava sexualmente excitado por ter morrido  e, por isto,  passava o dia inteiro se masturbando sobre sua própria sepultura. Assim, o  video final é muito leve em comparação a isso. Eles eram clientes ideais, eles apenas nos deixaram ir em frente

Por que essa doce menina se mata  (supondo que foi suicídio)? A idéia foi inspirada por alguma outra coisa alem da canção ?

Ela teve uma educação dura, sabe, lutando com o mal-estar e a depressão geral.  Amadurecer precocemente 
 pode ser difícil, principalmente se  perceber que sua infância está desaparecendo. Negar a si mesma um futuro é o simbolismo bruto para alguém que tenta se apegar à  infância

Quais foram os desafios de fazer o vídeo? Onde você filmou  e quanto tempo demorou?
Foi um processo escalonada devido a toda a sobreposição de imagens. Primeiro, circulamos por alguns dias em Gales do Sul filmando  em varias locações : um shopping abandonado, uma praia, uma pequena igreja evangélica  onde tentaram nos converter, um hospital que filmamos  sub-repticiamente sob o pretexto de que éramos uma outra equipe de filmagem, coincidentemente esperada  para aquele mesmo dia. Filmamos em uma usina de força e fomos pegos pela segurança,  que nos fez apagar  nossa filmagem. Após isso,  passamos dois dias em um estúdio escuro filmando os fantasmas (acrescentados em camadas), todo o Purgatório e as seqüências de dança. Então  mais um dia para filmar o suicídio de Francesca e seu afogamento no sorvete; uma manhã para  filmar o coelho morto e finalmente um dia para construir e filmar todas as paisagens de doces. Foi um monte de trabalho.

Como você fez a maquiagem para o Cara de Cabeça-Doce ?  E fazer o Bebê de Chocolate? E o  que é sorvete real?
O bebê é quase totalmente feito de doces. O Cara de Cabeça Doce é apenas um sujeito que descobriu ter uma terrível doença de pele. O sorvete para maioria das partes é real, como por exemplo  a cena afogamento. Mas em tudo o mais também utilizamos purê colorido de batata,  porque não derrete tão rápido.

Como você se sente em relação a este vídeo comparado  aos seus outros ?

Certo. Nós gostamos. É certamente bom para fazer um vídeo sem a banda o tempo todo presente pois permite mais espaço para idéias. Dito isso, esperamos fazer o próximo vídeo de John,  que também deve ser muito interessante. 

Dito isto, veja abaixo o clipe legendado em portugues de “Eu quero ir para Marte”


CLIPE : JESUS HATES THE FAGGOTS / JESUS ODEIA AS BICHAS  - Legendado

Outra musica do John. Aqui ele insurge contra aqueles que usam o nome do Cristo para justificar qualquer ódio ou preconceito. 

Para John, a imagem do Jesus déspota se encaixa em qualquer ódio ou condenação que as pessoas queiram expressar.

Em entrevista para a revista UK´s Uncut, John diz : 

“Esta não é minha idéia sobre Jesus, e se você ler sobre sua vida e ensinamentos, verá ele que não tem nada a ver com isto, com o ódio. Suas pregação era sobre a união e igualdade entre as pessoas. Esta musica é sobre as interpretações das suas mensagens por outras pessoas, como por exemplo, alguém diz “eu odeio garfos”, portanto Jesus odeia garfos...”


CLIPE : QUEEN OF DENMARK / RAINHA DA DINAMARCA - Legendado

Cover da Sinead O´connor para a musica do John.

Cheia de metáforas, esta musica fala sobre não se encaixar no mundo, sentir-se estranho, final de relações, entre outras coisas.

Sinead arrebenta.


Filme - Weekend


Weekend poster

O enredo é de uma simplicidade só.

Dois caras -  Russell (Tom Cullen) e Glen (Chris New) - se conhecem num bar gay numa sexta à noite e mantêm uma espécie de relação / romance até o domingo.  

Nestes dois dias,  eles trepam, se drogam horrores, cumprem compromissos particulares,  festejam com amigos e conversam / divagam muito. 

Resumindo “Weekend” é isto. 

Porém,  o que a princípio poderia desaguar num filme aborrecido e tedioso,  se revela sedutor graças aos diálogos espertos e naturais dos protagonistas abordando diversos temas relacionados as suas vidas intimas, emocionais e sociais.

Assuntos  como a auto-aceitação da homossexualidade, assumir perante a família e amigos, relações de trabalho e amizade,   afetividade,  amor, sexo, diferenças entre heteros e gays, e outros mais, são discutidos de forma espontâneas e calorosa,  enriquecidos muitas vezes através do conflito de visão / entendimento entre os amigos / amantes.


Alguns são particularmente destacados, como a simulação da conversa entre pai e filho e a descrição da masturbação com o filme “Uma Janela para o Amor / A room with a view”  ( realmente um achado e, convenhamos, o Rupert Graves merece).

Porém em alguns momentos Weekend cansa com tanta verborragia.  Mas a idéia do roteirista e diretor Andrew Haigh parece ser esta mesma : aproveitar para colocar na vitrine a maior quantidade de assuntos que permeiam a condição gay.

Em entrevista ao The GUardian, Haigh foi claro sobre a mensagem que queria transmitir “Eu sempre tive intenção de fazer Weekend de forma honesta sobre ser gay e não fazê-lo mais aceitável. Eu quis ter certeza de fazer uma história que pudesse ser sentida por qualquer pessoa, mas que falasse também dos problemas de homens gays. As pessoas não acham que as batalhas dos gays valem à pena serem contadas apenas porque todo mundo acha que agora somos iguais. Essas batalhas são mais superficiais. Mas o peso de ser diferente ainda continua… A sociedade está mudando, mas você ainda tem que lutar contra um mundo heterossexual.”

Acredito que ele alcançou sucesso nesta proposta. O filme é muito bom.

Um dos efeitos colaterais de Weekend foi eu conhecer a musica de John Grant. O filme encerra com “I wanna go to Marz”, uma canção belíssima que me cativou nos primeiros acordes. 
John Grant

 Virei fã.

Para saber mais sobre o John, e ouvir “I wanna go to Marz” – e outras mais –  clique AQUI.




Trailer do filme :