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Hino do Blog : " ...e todas as vozes da minha cabeça, agora ... juntas. Não pára não - até o chão - elas estão descontroladas..."
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Saturday, May 18, 2013

Gregório Duvivier e Olivia Byington

Ver o Gregório na turma do Porta dos Fundos (post anterior) me causou comoção.

Ele é filho da cantora Olivia Byington, que em 1978 gravou um disco seminal da MPB, o tal de “Corra o Risco”.

Esta verdadeira maravilha, trouxe, entra tantas outras coisas legais, uma música que foi tipo fundamental na minha vida.

A musica em questão é “Luz do Tango”, uma parceria demolidora do Geraldo Carneiro com o deus Astor Piazzolla

A letra é toda fragmentada com imagens fortíssimas.

Na época (ainda meio que dentro da ditadura militar), foi um choque ouvir um discurso tão seco e direto, gritado pela Olivia.

Pirei total.

Segue abaixo a letra e um vídeo que achei no YouTube com a musica.

As imagens do vídeo são bem, digamos, variadas.

Beatles, Salvador Allende, Clube da Esquina, Caetano, Rita Lee, Helio Oiticica (Marginália), Kubrick, Hair, Truffaut, Polanski, Secos e Molhador, Rock Horror Show, etc, etc… (uma super salada!),

Mas o resultado é tri bom.

Luz do Tango (Geraldo Carneiro e Astor Piazzolla)

o cravo a crise o crime
nas barbas da polícia a malícia
a miss a missa o dia dos mortos
o luxo o lustre a luz negra
do Hotel da lua a lua nua
e crua

o carnaval a corda
o coelho na cartola o cuba libre
o gosto da chacina o sinal a sina
o sangue na anágua
n'água n'água n'água n'água

a lira o franco o marco
a bolsa abriu em baixa
o berço o barco o barão
na corda bamba a muamba
o banquete do mendigo a ruiva
rumba a ruiva rumba

a trama a chama o drama
a desgraça da família o karma
a ilha a trombeta de arcanjo
o apocalipse não é o fim do mundo
o rum o rock o rádio
a cama

o sacramento extremo
o mal de sete pecados
os sete lados do conto do vigário
o terceiro páreo
o trato com o demo
o demo o demo

a fome a forca o frio
a falência do cinema
o poder a pena
o cheiro da morena
a viúva a uva as estrelas do passado
a farsa o furto o foxe o fado

canto secreto o cego
cantava na viola o sequestro
o sestro o bolero na vitrola
o terceiro mundo no fundo
quer é reco reco a porta o pau
o prego

o fogo o jogo o giro
o rastro do vampiro o traço
o tiro o programa de auditório
o circo a sanha
o sal não fica sem troco

o cravo a crise o crime
a desgraça da família o luxo o lustre
a luz do dia dos mortos
o peixe a porta
o pau não fica sem troco
o troco

a fome o fogo o frio
o banquete do mendigo
a muamba o mambo
nas barbas da polícia
a marca a mãe o mal
não fica sem troco

Porta dos Fundos–Nova geração do humor

A esta altura do campeonato é difícil que alguém, que se considere minimamente conectado com o que está acontecendo em termos de fenômenos de mídia no país, não conheça o humor inovador e corrosivo  do Porta dos Fundos.

Esta usina de insacidade foi criada em parceria com o site de humor Kibe Loco (do Antonio Pedro Tabet) e a produtora Fondo Filmes,  e conta com o talento dos atores  atores Antonio Pedro Tabet, Fábio Porchat, Gregório Duvivier, Clarice Falcão, Marcos Veras, Júlia Rabello, Marcus Majella, Gabriel Totoro, Gustavo Chagas, Rafael Infante, Letícia Lima, Luis Lobianco; além de participações especiais, como as de Alexandre Nero, Maitê Proença, Marcos Veras, Fernanda Paes Leme e Victor Leal.

Eles largam um vídeo novo toda segunda e quinta feiras.

Alguns vídeos ultrapassam em muito o limite do “bom gosto” , do “respeitável” ou do “temível” , e isto faz uma enorme diferença.  Eles vão numa pegada demente, insana, demolidora e sambam em cima da política, da religião, das marcas consagradas (como a NET, OI, Coca Cola, e outras), do preconceito, problemas sociais e tudo o mais pensado e impensado.

Não me lembro de nada parecido antes (talvez com alguns toques do Casseta).

No fim é difícil dizer quais são os melhores. diante de tanta coisa boa.

Certamente cada um terá seus preferidos. Particularmente acho que nem tudo é bom, mas sem dúvida a imensa maioria é genial.

Segue alguns dos meus preferidos.

Wednesday, May 15, 2013

Palco Giratório SESC–Ausência

ausencia teatro

Teatro Gestual. Que diabo é isto? Não é dança, mas não tem falas. O que resulta disto?

Fomos conferir “Ausência”, espetáculo gestual com o grande Luis Melo.

Caí de quatro.

Desde a primeira cena, com uma criatura montada nas costas do protagonista que encara e “dança” para a platéia, até o final aberto e emocionante, “Ausência” é uma sucessão de achados geniais, emoldurados por uma composição plástica brilhante e executados por um ator, que, com completo domínio corporal, arrebata a platéia para o drama solitário de um sobrevivente numa sociedade pós-apocalíptica.

Confesso que tinha receio de assistir uma peça sem falas, mas me dobrei inteiramente diante do acúmulo de talentos apresentados no Teatro do Sesc.

Soberbo.

Chorei, confesso e veria muitas outras vezes.

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O texto abaixo foi retirado do Site Globo Teatro

Ausência

Cia Dos à Deux estreia novo espetáculo

Dois anos depois de trazer ao país o premiado espetáculo “Fragmentos do Desejo” – vencedor do Prêmio Shell de 2010 na categoria especial – a companhia franco-brasileira Dos à Deux está de volta.

Radicados na França desde o início dos anos 90, os brasileiros André Curti e Artur Ribeiro retornaram ano passado para o país. Agora, estreiam o oitavo trabalho da carreira, que teve concepção, dramaturgia e direção da dupla. No palco, apenas o ator Luis Melo, protagonista do solo que marca seu début no teatro gestual.

O tema inicial da pesquisa era sobre solidão em um mundo de caos. Ao desenvolver o trabalho, André e Artur se depararam com um artigo em uma revista científica que alimentou ainda mais suas ideias: o assunto tratava do asteróide Apophis, descoberto em 2004 e que passará próximo a Terra pela primeira vez em 2029.

As piores previsões são, no entanto, para o seu retorno, quando aconteceria uma possível colisão com o nosso planeta no ano de 2036, mais precisamente no dia 4 de abril. É neste dia que se desenrola toda a ação de “Ausência”.

Em uma Nova Iorque decadente e arrasada pela radioatividade, pelo racionamento de energia elétrica e, sobretudo, pela falta de água, o protagonista vive confinado no último andar de um arranha-céu. Sua única companhia é seu adorado peixe vermelho que vive em um aquário redondo.

Neste contexto caótico, sob a constante invasão de ratos que tomaram a cidade e do ar irrespirável que lhe exige o uso da máscara de oxigênio até para abrir a janela, o homem vive recluso em seu mundo particular, incapaz de enfrentar o horror das ruas.

Link :

http://www.globoteatro.com.br/emcartaz-1476-ausencia.htm

Palco Giratório SESC–A Marca da Água

a marca da agua

Nadar, nadar (de maneira bem mole) e morrer – sem graça - na praia.

Este é o resumo do meu sentimento (e dos meus acompanhantes – sendo que um deles dormiu durante o “espetáculo”) no final da incensada, premiada e super bem cotada / criticada peça “A marca da água”, apresentada no Palco Giratório SESC.

A partir de um acontecimento meio surreal (um peixe aparece no jardim da casa da família), acompanhamos uma viagem pelo interior da cabeça da heroína Laura, que está prestes a atravessar um umbral psico-louco-emocional sem volta.

E a bonita sabe que o bafão tá a caminho mas não quer saber de “cura”, e sim quer (deseja, anseia, precisa) “libertar uma musica interior” que pulsa em seus neurônios semi detonados.

O que vemos então é o “crescimento” desta música na cachola da Garota Pinel, até sua execução (numa cena belíssima, é verdade), tendo como pano de fundo suas memórias e sua “luta interior”.

Então dá-lhe trauma em cima de trauma, acusações, abandonos, imaginação, alegrias, etc, enfim real e irreal misturado (bem sem sal e sem emoção), de forma a traçar uma paisagem frouxa da cabeça da fora da casinha.

Haja saco para agüentar tanta cena constrangedora de tão óbvia (a da pescaria é exemplar) e outras absolutamente ôcas (seria um retrato da Laura´s head?).

Os atores estão bem, com destaque óbvio para a deusa Patricia Selonk. O cenário e iluminação são lindos, e a utilização da água em cena e nos vídeos é fantástica.

Mas o texto não dá sustentação ao conjunto e logo nos vemos com a clássica pergunta : “quando isto acaba?” ou já pensando em qual local vamos jantar.

Saturday, May 11, 2013

Video Robinsons Pals - Amigos



O vídeo “Amigos (“Pals”) da Robinsons drink é fantástico.

Ele mostra dois garotos passando um dia  brincando, com um deles assumindo meio que o papel de líder e protetor.

Primeiro eles cuidam de pegar uma bola que caiu na água.

Depois  cruzam por um grupo de garotas e este líder pergunta se uma delas é colega da escola, e acaba zoando com o amigo dizendo que elas estavam olhando para eles.

Em seguida – e o que é genial – eles reproduzem a clássica cena do Star Wars, com o Darth dizendo  para o Luke “I am you father”.

Enfim, cansados e já dentro de casa, o tal “líder”  - depois de beber o Robinsons – pega o amigo dorminhoco no colo e o coloca na cama.

Ao ver o amigo protetor sair do quarto o garoto na cama diz “Boa noite, pai”.  

Então o tal “garoto líder” transforma-se num homem, num adulto,  e responde “Boa noite, amigo”. 
Sim, o que tínhamos visto até então  era pai e filho brincando, compartilhando o dia, curtindo a vida juntos.

Só que o pai “transformou-se”  em um menino para aproximar-se do filho,  para estar lado a lado com ele como um amigo e companheiro.  

Maravilhoso. E o absurdo é perceber que a genialidade está numa coisa tão simples.

Ao transformar a imagem do pai em um garoto, a mensagem não poderia ser mais clara.

O link, a conexão, a aproximação ocorre entre os iguais.

E os pais que se “transformam em crianças”,  que entram no mundo de imaginação, diversão e fantasia dos filhos, que revivem suas próprias crianças,  que “brincam”, definitivamente capturam o coração daqueles que lhes são mais caros.

Vejam abaixo.

Todas as cores do amor - Diana Lichtenstein e Mario Corso (Psicanalistas)

Saiu hoje na Zero Hora.

Simplesmente fantástico.

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 Diana Lichtenstein e Mario Corso (Psicanalistas)

Enquanto correntes religiosas propõem “cura gay”, os especialistas alertam: a homossexualidade é uma faceta do desejo, não uma doença a ser curada

Em 1999, o Conselho Federal de Psicologia baixou uma resolução sobre a questão de curar homossexuais.

O objetivo era impedir que se usasse uma ciência, a psicologia no caso, para proselitismo preconceituoso, vindo de setores religiosos e conservadores, por parte de profissionais que confundiam crenças pessoais com indicações terapêuticas.

Resumindo: o que o CFP diz é que não se pode curar algo que não seja uma doença. Na verdade, tal resolução apenas traz ao Brasil o que já é consenso em quase todos países ocidentais: não existe nenhuma teoria psicológica ou psiquiátrica séria que defenda tal posição. A questão volta à discussão agora que setores políticos, especialmente os evangélicos, insistem em rever a questão.

O objetivo da derrubada dessa resolução seria dar ao profissionais da saúde, que considerassem o desejo por pessoas do mesmo sexo como um sintoma a ser curado, o direito de tratá-lo como uma doença a ser combatida. Isso possibilitaria aos psicólogos religiosos agir em nome de sua formação acadêmica para tratar como doença uma forma de amar. Isso não encontra respaldo em nenhum conhecimento que eles possam ter adquirido na universidade. Em outras palavras, se alguém quer combater a homossexualidade, que o faça sem o aval da academia e do órgão regulador da profissão.

É de se perguntar por que é um problema tão grande para uns o fato de outros amarem pessoas do mesmo sexo? O desejo de homens por outros homens e mulheres por mulheres é velho como a história da Humanidade. Por que tanto estardalhaço em torno disso? Por que dedicar tanta energia a combater modos de amar e desejar?

As piores repressões incidem sobre os desejos que sentimos como mais insidiosos, tentadores. Se antes a fidelidade era o grande tema, pois tratava-se de defender a permanência do casamento tradicional, agora a identidade sexual parece ser o ponto frágil do edifício subjetivo. A ambiguidade sexual é hoje um fato em nossas roupas e condutas: mulheres usam calças, homens põem brincos, todos trabalham nos ofícios que quiserem e ter filhos não condena ninguém à prisão doméstica.

Os territórios dos sexos nunca foram tão indefinidos e isso deixa muita gente confusa, além de produzir fobias. Como diz o nome, trata-se de “homofobias”: pessoas que sentem temor, não podem conviver, saber a respeito ou aproximar-se de outras que desejam os do seu sexo. Esses sujeitos frágeis estão assim preocupados com o embaralhamento dos territórios dos gêneros porque, no âmago, sabem ou intuem, que as fronteiras são arbitrárias, nada há que nos obrigue a ser ou desejar de determinada forma. Podem clamar à vontade pela obviedade da anatomia, pela complementariedade do pênis e da vagina, pela fecundidade macho-fêmea. Isso nunca foi unívoco para o desejo dos humanos e nunca será.

Usa-se hoje falar de gênero em vez de sexo, essa forma de se expressar comporta a compreensão de que a anatomia não é destino, que há múltiplas variações para os pensamentos que guiarão a vida sexual e a forma de se parecer. Os psicanalistas insistem em “caso a caso”, porque é assim.

É fundamental que se tenha claro que quando falamos de “homo”, “hétero” ou “bi” sexuais, estamos necessariamente misturando canais, e pelo menos dois são mais claros. Por um lado há a identidade sexual. Ela se constrói de tal modo que o comportamento e a aparência de uma pessoa podem ou não corresponder à expectativa do sexo em que se nasceu: nos tornaremos homens másculos ou afeminados, mulheres masculinizadas ou femininas. Neste caso, um homem pode, por exemplo, parecer-se com o sexo oposto, mas também amar alguém do sexo oposto. Não é preciso parecer um machão para amar as mulheres. Isso ocorre porque o desejo sexual é o outro lado, uma segunda questão, que não necessariamente se articula com a identidade. Portanto, um homem pode parecer feminino e gostar de mulheres, assim como uma mulher ter uma aparência e comportamento viris e interessar-se por homens. Pode também um homem gay, que deseja outros homens, ser muito mais macho que muito hétero – e entre as lésbicas é muito comum que sejam delicadamente femininas.

A sigla LGBTTT não é assim comprida por acaso, pois a obrigação de parecer-se com o sexo em que se nasceu e de desejar o sexo oposto é questionada por lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros. Cada uma dessas letrinhas abre-se para um universo de formas de ser e amar. Ao nascer, se não formos hermafroditas, nosso corpo nos remete a um destino social. É (ou era) esperado que fôssemos nos construir à imagem e semelhança do sexo em que nascemos e que estejamos interessados pelo sexo oposto, sem maiores vacilações e questionamentos. Mas nunca é tão simples assim. Para começo de conversa, temos uma complicada história de amor com o progenitor do nosso mesmo sexo, em relação ao qual temos desejos, vontade de ser amados e escolhidos por ele.

Quanto à aparência, juntamos traços da mãe e do pai, ou daqueles que cumprem essas funções em nossa vida, misturamos com vivências que incluem outras personagens marcantes (professores, amigos da família, outros parentes) e com isso montamos nossa identidade. Essa mistura inclui, obviamente, pessoas de vários gêneros. Antes de chegar a vida amorosa propriamente dita, as amizades na infância e na puberdade muitas vezes são sofridíssimas histórias de amor homoerótico. Meninas padecem pelo abandono amoroso das amigas, meninos se escolhem e se discriminam, para tristeza de uns e outros, sem que nenhum dos envolvidos vá necessariamente se tornar gay mais adiante.

Ao longo da vida, podemos até mudar aquilo que pensávamos sobre nossa escolha amorosa e erótica (homo ou hétero), ou sobre nossa aparência (feminina, viril ou andrógina) em função de um processo, de experiências, encontros. Também pode acontecer de crescermos com certezas (ou suspeitas) a respeito disso desde pequenos. Há aqueles que chamamos de bissexuais porque descobriram um amor no seu mesmo sexo, e então, quando esse amor termina, voltarão à condição anterior. A sexualidade e a construção da identidade de gênero são imprevisíveis, a única certeza é o adeus às certezas.

Por isso, hoje tantos jovens têm ousado explicitar essa mobilidade, essa ambivalência sexual. Estão mais liberados para viver a complexidade de como ser e amar. Não se trata de algo criado pelos nossos tempos mais liberais, trata-se de dar visibilidade a algo que ficava nos subterrâneos, que era vivido clandestinamente, culposamente, ou era reprimido gerando quadros psíquicos variados, não raro graves e incapacitantes. Essa nova liberdade não inibe nem propicia o surgimento de homossexuais, apenas evita neuroses.

Raramente recebemos pacientes que se queixem da forma como desejam, isso é para todos nós uma força que nos impulsiona e se impõe. Os motivos de consulta, que movem experiências terapêuticas, em geral dizem respeito à relação da pessoa e do seu meio com esse desejo. Um homem dificilmente buscará tratamento por desejar outros homens, mas o fará porque isso o faz sentir diminuído frente à família, os colegas de trabalho ou estudo. Portanto, é o preconceito, é a ilegitimidade do desejo, que certamente leva ao sofrimento psíquico. Amores proibidos doem por serem proibidos, não por serem amores.

A homossexualidade não é uma doença a ser curada, ela não passa de uma forma de desejar. Já a homofobia talvez inspire cuidados terapêuticos. A ajuda psicológica deve ser dispensada para os que apresentam uma vida limitada pela relação conflitiva com os próprios desejos. Precisam de ajuda os que sofrem quando entram em contato com algo que lhes lembra pensamentos inconfessos, com os quais não conseguem conviver; os que são assombrados por dúvidas para as quais não têm resposta. A fobia é uma dessas formas de sofrimento, na qual alguém fica fixado em algo que lhe produz horror e fascínio. Todo mundo tem alguma, mas quando elas assumem muita importância na vida de alguém, acabam sendo motivo de consulta. Por sorte fobia tem cura, não é fácil, mas muitos já conseguiram.

Wednesday, May 08, 2013

Palco giratório SESC–Luis Antonio Gabriela

Luis-Antonio-Gabriela-Foto-Bob-Sousa_2-680x1024Uma das coisas que mais me incomoda em teatro é a tal da “transgressão”.

Ou seja,  aquele tipo de montagem “ousada”, “diferente”,  cheia de “idéias” e “referências”,  repleta de “recursos cênicos”  que remetem a isto ou aquilo, mas que no fim das contas não dão em nada. 

Em tais peças vemos muita nudez (odeio nudez gratuita em teatro), muita mídia,  muito grito, muita baba, muito choro e corpos crispados, tudo a serviço de um vazio e tédio absolutos.

Então, é realmente impressionante (pelo menos para mim, confesso), ver algo como “Luis Antonio Gabriela”, onde, dentro de uma montagem, digamos, “cheia de recursos”,  temos pela frente uma obra forte, consistente, adulta, corajosa e inesquecível.

Aqui, cada elemento cênico, tem seu sentido.  Nada é gratuito.  Música, canto, vídeos, artes plásticas, filmes, displays, papel, plástico, madeira, água, ferro, pano.

Sólido e o líquido conjugados  (de forma harmônico-caótica) para emoldurar belamente um texto – odeio dizer o óbvio  – “impactante”. 
Mas é isto o que é “Luis Antonio Gabriela” : impactante.  Um sôco no estômago, um desconforto nas
tripas. Um revirar necessário.

Com uma coragem única – só quem vê a peça entende -
Nelson Baskerville (juntamente com  Verônica Gentilin e a Cia. Mungunzá de Teatro) mexe em sua história –e na história da sua família-  para contar a trajetória do seu irmão mais velho, Luis Antonio (interpretado pelo ótimo ator Marcos Felipe),  que virou travesti, foi rechaçado pela família e acabou morrendo de Aids na Espanha em 2006.

E esta história nada cor de rosa é oferecida mais ou menos na linha da desconstrução (do estilhaçar),  o que revela-se  como a linha correta para o que se pretende mostrar  em cena.

Os atores estão – no seu conjunto – ótimos, com destaque óbvio para o já citado Marcos Felipe.

Obs : Gostei muito da “diva de fundo”.  Aquela “deusa” que não tem personagem e fica só “divando” na periferia das cenas e arrasando no cabelão (peruca é  óbvio) e na voz.

A peça é cheia de surpresas e vai espantando os presentes com alguns truques certeiros (amei a utilização do rolo gigantesco de papel em duas cenas cruciais).

luis-antonio-gabrielaUma coisa que particularmente me chocou foram as telas que “caem” do teto, na cena em que Gabriela e a irmã  visitam o museu Guggenhain de Bilbao.

As figuras  são assombrosas formas humanas criadas pelo (depois vim a saber) artista plástico Thiago Hattner.

Pirei total e reproduzo algumas abaixo (no final do post)

E tudo vai bem até o final emocionante, com o elenco cantando “Your Song” do Elton John.

Aqui acontece meu único senão para a montagem.

Esta música traduz quase que fielmente todo o sentido da peça, mas sua mensagem só funciona para quem conhece sua letra (quem conhece inglês).  

Eu,  que conheço a canção de cor e salteado, acompanhei cada palavra com lágrimas nos olhos. Mas e aqueles que  não conhecem inglês?  Será que não mereciam um tradução simultânea?

Este sentimento cresceu ao ver que, no livro oriundo da peça, Baskerville diz que a canção “se encaixa perfeitamente naquilo que eu queria dizer ao meu irmão”. E na sequência  –  no livro - vem a tradução da canção.

Vejam abaixo.

Tirando este “problema”,  “Luis Antonio Gabriela” é puro êxtase, pura magia.

Um rapto bestificante dos sentidos que ecoa nascimento, vida e morte de forma única.
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Livro “Luis Antonio Gabriela”

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Tributo a um irmão morto

Tributo a um irmao morto

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Obras de Thiago Hattner

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Palco Giratório SESC–O Filho Eterno

Fica difícil falar em “O filho eterno” sem usar superlativos.

O livro do Cristóvão Tezza é excelente e mereceu (algo raro) todos os prêmios que recebeu.

A peça eu ainda não tinha visto.

Então foi com ansiedade babônica que nos tocamos para o Teatro do Museu do Trabalho para finalmente ver ser contada ao vivo a trajetória de vida de um pai com um filho Down.

E a coisa não deu outra.

A adaptação do Bruno Lara Resende é exemplar.  O grande mérito do livro é a linguagem direta, descarnada, sem firulas ou dourado de pílula que, a serviço de emoções verdadeiras (negativas e positivas), estabelece um diálogo íntimo com o leitor. 

E isto se vê refletido na peça.

A alma do livro está estampada nos  70 minutos de espetáculo.  

Charles Fricks – único ator em cena – simplesmente mata a pau.  Sem nenhum momento escorregar para o piegas, para o choro fácil, Charles projeta um universo de emoções que atingem diretamente coração e mente de cada um.

É simplesmente soberbo ver um ator utilizando todo seu arsenal – que no fim resume-se ao seu corpo e voz – para incendiar uma sala, para suspender a respiração do povo, para linkar os espíritos presentes (a cena do garoto com a buzina é absurda de maravilhosa)

E no fim quem chora, não chora pelo “drama familiar”, mas sim pelo triunfo da poesia dos dramas e aprendizados da vida.

Fantástico.

“O filho eterno”  é universal.  Certamente merece ser traduzida para outras línguas e ser montada nos palcos de todo o mundo.

Tuesday, May 07, 2013

Show–Fernando Buergel & Fernando Pessoa

Apostar na busca de um diálogo entre o texto do  Fernando Pessoa e medalhões da MPB (tipo Chico Buarque, Cazuza, Belchior e outros) é uma proposta ousada que pode resultar em, dependendo do tamanho da pretensão,  desde algo sublime a um imbroglio ridículo. 

“Fernando em Pessoa”, espetáculo do Fernando Buergel, apresentado domingo passado no teatro do CIEE,  intercala ( dentro de vários focos, mas sendo o  “desassossego” o principal ) momentos realmente bons com outros perigosamente atingindo – e alguns casos ultrapassando - o limite do over, do  excesso, do caricato.

O que se viu, de um modo geral com um tom solene - e muitas vezes over dramático –, foi Buerger enfileirando (em alguns momentos misturando) texto e musica, de forma a tentar criar um clima de sarau chique e moderno.

Só que não.

As excessivas idas ao fundo do palco (para beber água e fazer outra coisa que não identifiquei) e as marcações rígidas na linha de frente, confundiram mais do que atraíram o olhar para sua (bela) figura.

Por outro lado o som do teatro não ajudou em nada – pelo menos onde sentamos – fazendo com que não se entendesse determinadas letras e textos.

Aliás,  os textos do mestre são imortais, mas fica evidente que a idéia do Buergel é mostrar a sua contemporaneidade,  e  para isto encerra vários poemas  informando as datas nas quais foram escritos.

Tipo com “Ultimatum” onde encerra com : “Alvaro de Campos  1917 !”

E o povo :  “Ah ! Que Moderno” 

E tu te pergunta : “Por que  isto?”

Achei desnecessário.

De algumas canções Burgel tenta sem sucesso  extrair uma dramaticidade inexistente (tipo em “O que é o que é?” do Gonzaguinha, com uma introdução num clima de tragédia que soou fake), e em outras perde o caminho da contundência e encaixa tipo um “caco fôfo” para agradar os presentes – como na violenta” Deus lhe pague” (do Chico) onde a frase “pelas mulheres daqui” foi entoada com um sorriso largo e braço estendido rumo a platéia (sei que isto está soando bem rabugento, mas estes lances me incomodaram).  

Voltado ao Pessoa, a maioria dos textos é dita (“interpretada”) de maneira honesta, porém em alguns a máscara da “cant-ator” exagera a expressão e acaba criando mais um estranhamento / distanciamento do que uma tradução emocional do que se ouve.

De qualquer forma, e isto realmente fez a diferença, a seleção musical e dos poemas foi exemplar. 

Tirando as duas músicas do Robson Serafini (seu companheiro de palco e tambem diretor musical) – a primeira eu não entendi porra nenhuma devido ao som e a segunda achei média -, o repertório é irrepreensível.

Em termos de voz, sinceramente eu não viraria a cadeira numa blind audition para o The Voice, mas o rapaz não compromete de modo geral.

No final ficou a sensação de que Buergel tem todas as ferramentas para arrasar numa partida. Só que falta estratégia e um bom técnico para direcionar o jogo e marcar uma bela duma goleada.

Monday, May 06, 2013

Palco Giratório SESC - Arte

Em “Arte”, de um acontecimento trivial, ergue-se um jogo entre três amigos que atinge os  limites da violência física.

Sérgio (Claudio Gabriel), um dermatologista rico, compra um quadro “totalmente branco e com tons de branco na diagonal”, por R$ 200.000,00, do “renomado artista Andreus” e o mostra a Marcos, esperando que ele compartilhe de seu entusiasmo pela obra.

Marcos fica chocado pela insanidade cometida pelo  amigo e rotula a “obra de arte” de “Merda”. A partir daí inicia-se um atrito entre os dois, no qual também acaba envolvido Ivan (Vladimir Brichta), aquele tipo de cara boa praça que quer ficar de bem com todos, mas que aqui também acaba perdendo as estribeiras.

Resumindo este é a história da peça  “Arte”,  da autora Yasmina Reza,  premiada autora francesa, considerada um dos maiores nomes da dramaturgia contemporânea mundial e com dezenas de montagens em mais de 30 países.

Em cena Brichta, Gabriel e um outro “baixinho” excelente que não sei o nome (estava fazendo sua estréia na montagem em substituição ao Claudio Moreno),  detonam num texto  ágil, hilário e muito inteligente, que fala de amizade, arte, relacionamento, amadurecimento e vários outros temas humanos.

Fantástico.

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Comentários :

Vladimir Brichta, Marcelo Flores e Claudio Gabriel formam um elenco exemplarmenteequilibrado, beneficiados que são, para além de seus talentos e técnicas, pela amizade ecompanheirismo de que desfrutam na vida real. Com biotipos diversos e adequados a cada umdesses três amigos cuja amizade repentinamente é posta à prova, os três jovens atores mais ojovem diretor nos garantem que o teatro brasileiro tem matéria para bom presente e bomfuturo” – Barbara Heliodora (Jornal O Globo)

O tom informal reforça a intimidade entre os personagens. Cria, assim, o ambiente apropriado para as ótimas atuações de Marcelo Flores (o autoritário Marcos), Vladimir Brichta (o conciliador Ivan) e Claudio Gabriel (o polêmico Sérgio)”– Carlos Henrique Braz (Revista Veja Rio)

Explorando com inteligência e sensibilidade diálogos brilhantes e personagens solidamenteconstruídos, o diretor Emílio de Mello impôs a cena uma dinâmica precisa e despojada,irretocável no tocante aos tempos rítmicos e cuja expressividade advém do fato de o diretorpriorizar o que realmente interessa: os conflitos entre os personagens e as múltiplas variaçõesde tom que marcam os embates entre eles” – Lionel Fischer

Filme–O Homem de Ferro 3

homem-de-ferro-3Fui ver o tal de Homem de Ferro 3.

O filme pode ser qualquer coisa, menos sobre um clássico herói identificado como “Homem de Ferro”.

Senão vejamos : sua clássica armadura, sua arma de luta ( que em qualquer herói representa seu potencial, sua força, seu vigor), aqui  simplesmente não existe.

O que temos pela frente é uma coleção de armaduras totalmente descartáveis e insonssas, muitas vezes comandadas a distância pelo “herói”e que, num momento “glória a Jesus”,  acabam sendo explodidas pelo Tony Stark para iluminar o céu enquanto abraça sua namorada sopa crua (ela queria ver “estrelas brilhando”, e ele, na vibe da paixão, detona inúmeras armaduras para criar um efeito “de natal”) – e ela acha tudo “lindo “

Como se não bastasse, temos pela frente, além do Homem de Ferro, o tal do Coronel de Ferro e também a Mulher de Ferro (senti falta de um Cachorro de Ferro, mas quem sabe na próxima...), sendo que ambos  entram em cena para  lances tipo “finish him”, sob o olhar apatetado do Stark .

Total bola nas costas dos fãs que queriam ver o Homem de Ferro arrebentando  tudo

A história seria até legal, se não fosse podre de manjada. Mas até aí tudo bem, o lance é que fica claro que, a cada episódio – a cada novo filme -  “novas idéias” são incorporadas e os roteiristas têm que se virar para encaixá-las na trama seguinte – e tudo acaba soando tri forçado.

As piadinhas – em excesso – acabam mais constrangendo do que provocando humor de tão ridículas que são.

Pavor total.

Friday, May 03, 2013

Livro–Pulmão de Aço / Eliana Zagui

capaEm qual gênero de literatura “Pulmão de Aço – uma vida no maior hospital do Brasil” (Editora Belaletra, 2012) e enquadra?
 
A primeira vista parece ser uma coisa tipo “auto-juda”, pois é óbvio que Eliana (e de lambuja seu grande amigo Paulo e outros mais)  é (são) um exemplo de superação, e nós, os “saudáveis”, não nos damos conta de quanto somos abençoados só pelo fato andarmos eretos.

Então ao tomarmos conta da difícil condição física dos protagonistas logo nos vem a mente frases do tipo ”se eles estão neste estado e ainda conseguem ser “felizes”, porque eu tenho que reclamar de qualquer coisinha”?

Isto é verdade, e não há  leitor que não imagine como seria sua vida se seu corpo estivesse  em alguma das  várias situações de restrição física ou de doenças relatadas no “Pulmão”.

E o livro é um compêndio de  males do organismo.  Até mesmo porque este é universo, é o dia a dia comum onde a garota (hoje uma mulher) foi criada desde os dois anos de idade. Ou seja, sua paisagem de vida, seu mundo é um quarto de hospital e tudo o que ali acontece.contracapa

Então somos introduzidos facilmente a termos do seu cotidiano, tais como poliomelite, paralisia, traumatismo, broncopneumonia, atalectasia, traqueostomia, necrose, incubação, placa mioneural, vírus,aspiradores de secreção, aparelhos respiratórios,  tapotagem, displasia crania, disformidade congênita, óbitos e muitos outros dos quais queremos manter distância eterna (ou nem saber o que são).
Isto sem falar no relato da dor, muita dor e agonia que envolvem diversos  procedimentos.

Este é um lado.

Pelo outro,  temos pela frente um ser humano na sua totalidade. Com preferncias, manias, surtos, raivas, birras, esperanças, desejos, sonhos, depressão, tristeza, alegrias, euforia,  enfim uma criatura normal.

Mas nós enxergamos um “deficiente”  assim?

Não sei.

Creio que a tendência é  não, pois  de um modo absolutamente digamos, “arrogante”, podemos olhar um corpo paralisado e, na sequência, já definir o que alguém em tal situação poderá atingir ou não em termos de “vida”;  podemos julgá-lo “incapaz” e assumir que sua intimidade (emocional, espiritual e intelectual) está automaticamente “comprometida”.

Eliana ousa e  vem para, de um modo direto e sem óbvias armadilhas emocionais, provar que as coisas não são assim.

3 anos

Em “Pulmão de Aço”, ela  compartilha sua vida (e a de vários de seus companheiros) trancada dentro do Grande Hospital das Clinicas de São Paulo (seu lar) e revela uma trajetória que, tirando a restrição motora, é semelhante a qualquer uma de nós.

Neste sentido, tirando todo um lado verdadeiramente “lacrimoso” (mas sem pieguismo) de algumas passagens – e não há quem não se emocione com várias (confesso que chorei em algumas ) -, o que me conquistou foi sua bravura em discutir determinados “tabus”, e “assuntos delicados”,  tipo a explosão de hormônios na puberdade, suas tentativas de suicídio, sua vontade de “encontrar alguém”,  o  reconhecimento da sua ingenuidade por acreditar no próximo, sua vontade de ser beijada, o reconhecimento da dura verdade sobre sua família, seu desejo de ser adotada, de ter um lar “normal” e outros mais.

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Tudo discutido de forma terna,  porém madura e segura.
Mas nem tudo são mazelas. Eliana abre espaço para as piadas, brincadeiras e acontecimentos hilários que rolam no HC e, de forma magistral descreve os sentimentos quase sufocantes de preparativos, expectativas, descobertas e alegrias que envolvem cada passeios e visitas externas.

Isto sem falar num lance tri sinistro envolvendo uma visita do Airton Senna ao local - (que mêda!!) -  quase fiquei sem dormir – Um troço bem “Premonição”.

Hospital Racho Los Amigos 1950

Quando ela fala de religião, o que mais me chocou e que me deixou salivando de ódio, foi a explicação dos “espíritas” (uma das denominações que circulam por lá para “dar apoio”) que afirmaram (em sua “mensagem de amor”) que ela e seus companheiros presos às máquinas estavam “apenas” pagando carma por terem sido “maus” em outras vidas.

Que agora estavam “em fase de resgate” para, na próxima vida,  reencarnarem felizes (alguém pode me explicar o que é reencarnar feliz? ) – e que, por isto deveriam agradecer ao Senhor pelo privilégio de estarem nesta existência. condenados a  pulmões de aço.  Só digo uma coisa: quem é o filho da puta que tem coragem de  dizer uma barbaridade  destas diante de alguém em tal situação? Com que direito estes escrotos religiosos do mal  chegam e vomitam uma … (nem sei dizer o que ), destas diante do outro?

Mas como disse o tal de Jesus: ”Pai, perdoai-os. Eles não sabem o que fazem”.... ou sabem ?

Paulo palhacinhoInfelizmente este não é o único exemplo de maldade a que eles foram exposto. A garota registra agressões, furtos e outras “maldades menores” que partiram de pessoas (profissionais) de dentro do próprio HC.

Vejam só...

Mas, felizmente, uma coisa que me caiu os butiá (em termos gaúchos : “fiquei surpreso”) foi perceber – e reconhecer – que existe sim bondade no mundo.

Eliana relata inúmeras situações onde a ação do próximo (sobre si e seus companheiros)  revela nada menos do que a bondade nua e crua.Bondade esforçada, desinteressada, direta, sem firulas.
Bondade de alguém que abre mão do seu conforto, do seu lazer, da sua preguiça e do seu umbigo para agir concretamente. Alguém que olha para o outro, se compromete e age.

Isto faz toda a diferença.

Médicos, enfermeiros, ajudantes, religiosos, visitantes, professores, celebridades, familiares (mas não no caso dela. Aliás a família sanguínea dela é muito uó) - e muitos mais.

Quanta gente realmente nobre. Parabéns a todos.

Abaixo alguns.
Dr GiovaniDr Takeda
Dr Fernando FlaquerPintando com a ajuda da professora Ursula
Tia LuAnderson e sua super mae
Zeze di CamargoFormatura Suzana
Paulo e Carlos Saldanha RioPaulo Ju Silvia e Osvaldo

Não me coloco neste patamar. E estaria sendo tri hipócrita se me comparasse com qualquer um dos “verdadeiros anjos”  que Eliana, Paulo e demais companheiros conheceram durante os anos.

Reconheço e afirmo que eu estaria muito mais para os tais de “anjos temporários”, que eles manjam muito bem.

Aquele tipo de criatura que chega toda da “vibe da luz”, cheio de jesus na cachola, prometendo ficar “para sempre ao seu lado”, só para depois de um certo tempo “cansarem” e simplesmente sumirem. Eliana não poupa estes “missionários de vitrine” que mais causam mal do que ajudam.

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Eliana e Paulo, os dois sobreviventes e amigos que ainda estão na área (vistos como exemplos de perseverança e determinação – e até utilizados como modelos de videos motivacionais).  Primeiro passeio a praia
Ela faz parte faz parte da “Associação dos Pintores com a Boca e os Pés”, com sede na Suíça. Só de dizer isto, fica claro “até onde ela chegou” ( e ela não quer parar por aí, não senhor)
Paulo faz trabalho de Web Designer e teve a oportunidade de conhecer o Carlos Saldanha, criador da série “Era do Gelo” e “”Rio”.

Por meu lado, - e isto concretamente – me obriguei a refletir sobre minha infância (60,70), onde o fantasma da poliomelite era real no Brasil. Fui poupado, mas muitas outras crianças não. Eu e Eliana somos contemporâneos. Eu cresci “caminhando”, ela cresceu “deitada”. Eu, como se diz, tô por aí (“realizado” e muitas vezes sofrendo por abobrinhas). E ela onde está? Quem de nós foi “mais longe”? Quem de nós realmente superou as dificuldades e conquistou seu sonho?
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EspatulaEliana encerra o livro de forma absolutamente grandiosa.
Sem medo de se expor, revela seu maior desejo, seu maior sonho, porém,  ao mesmo tempo, oferece uma sólida reflexão sobre as implicações e obstáculos a tal realização.
Não é um final feliz, mas é uma conclusão iluminada pela razão.
Uma conclusão alicerçada na certeza da preservação e continuidade da vida.

Recomendadíssimo.






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Abaixo, excerto do trecho que inicia o livro.

 

uso de espelhos— Voltem quando ela estiver melhor.

O casal se entreolhou. Não era a primeira vez que Thereza e Carlos Zagui levavam a filha para ser vacinada no posto de saúde de Guariba e ali ouviam a mesma história. Com febre, nada feito. Parecia uma sina. Sempre que era levada, a menina estava com dor de garganta e febre. Garganta, aliás, era seu ponto fraco. Desde os primeiros meses de vida virava e mexia aparecia uma inflamação. Vivia tomando antibióticos.

Naquele dia, o quadro febril foi o argumento dos médicos para negar-lhe as duas gotinhas contra a poliomielite. Achavam melhor não aplicar a vacina em criança com sinais de inflamação. Uma decisão hoje considerada sem embasamento científico. E, como se verá, um terrível engano.

Desde a chegada da pequena, em março de 1974, o casal não cabia em si de felicidade. Era o sonho do pai. Logo depois do nascimento do primogênito, Luiz Carlos, em 1971, ele disse à mulher que se sentiria plenamente realizado se tivessem também uma menina. Mas havia um senão. Thereza encerrara a primeira gravidez com um problema comum a muitas mães: varizes. Teve de passar por uma cirurgia. Dois médicos a advertiram de que uma nova gestação seria arriscada. Era preciso evitar. Mas aconteceu.

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Quando a gravidez acidental e inesperada se confirmou, o casal se cercou de cuidados. Thereza passou a maior parte do tempo em repouso. O obstetra sugeriu uma cesariana, a fim de evitar os esforços do parto normal. Mas a menina, afobada, por pouco não nasceu a caminho do hospital
.
Pressa foi sua marca registrada. A pequena, loirinha e de olhos claros, era esperta. Começou a andar e a falar antes de um ano. Não queria saber de colo. Preferia caminhar. De preferência, de mãos dadas com Carlos.

banhoA não ser pela garganta frágil, era saudável. Foi exatamente por isso que Carlos e Thereza estranharam quando a viram quieta demais. Como a febre persistisse, a mãe a levou ao hospital Santa Isabel, em Jaboticabal, interior de São Paulo, em busca de atendimento médico mais acurado que o dos postos de saúde da pequena Guariba.
Mãe e filha passaram a noite no hospital sem que os médicos chegassem a um diagnóstico. No dia seguinte, Carlos deixou Luiz Carlos com familiares e foi ao encontro das duas, em busca de informações. Encontrou a filha incomodada com a agulha do soro:

—     Pai, tira! Dodói!

As mãozinhas irrequietas haviam sido imobilizadas para evitar que ela removesse a agulha. Instintivamente, Carlos examinou a filha. Estranhou a falta de mobilidade, principalmente nas pernas, e chamou o médico.

Francisco Iglesias, o dr. Chiquinho, ficou preocupado:

—   Vocês precisam ir com urgência para Ribeirão Preto.

Distante 60 quilômetros de Jaboticabal, Ribeirão é historicamente uma das cidades mais bem aparelhadas e com mais recursos médicos do interior paulista. Fazia todo o sentido buscar assistência por lá. Mas a ida a Ribeirão consumiria um tempo precioso. Precioso e decisivo para o futuro da menina. Alertado pelo tom aflito na voz do dr. Chiquinho, Carlos colocou mulher e filha num táxi. A corrida até Ribeirão consumiu praticamente todo o dinheiro que tinha.Primeiro Computador

Chegaram à cidade por volta do meio-dia. Na clínica dos pediatras Mariano, Achê e Raya, o dr. Mariano suspeitou da gravidade do caso e os encaminhou ao pronto-socorro do Hospital Santa Lydia. Depois de examinar o líquor da medula espinhal, a médica que os atendeu em caráter de urgência não teve dúvida do diagnóstico: paralisia infantil.

— Não temos recursos para tratá-la aqui — disse a médica. — Vocês precisam levá-la para o Hospital das Clínicas, em São Paulo. Ela tem no máximo mais oito horas de vida...

A doença avançava depressa. A paralisia já atingira mais de 60% do corpo.
O estado de São Paulo vivia uma epidemia de poliomielite. O último grande surto antes da moléstia ser erradicada do Brasil, em 1989. Doença viral, transmitida pelo contato com fluidos corporais do doente ou por meio de água ou alimento contaminado, a pólio ataca o sistema nervoso e paralisa a musculatura. Só existem dois meios de prevenção: vacinação ou sorte.

Ginasta LigiaNas cidades menores, contava-se mais com a sorte. A vacina era rara. A imunização dependia da boa vontade das prefeituras em avisar a população e dos pais em levar as crianças para serem vacinadas.

Por ignorância, muitos pais e até profissionais da saúde deixavam a vacinação de lado. Quando os surtos ocorriam, logo se disseminavam. Um grupo de médicos que trabalhou no HC de São Paulo contou 5.789 internações entre 1955 e o final da década de 1970.

Conseguir evitar que a filha engrossasse as estatísticas de morte por pólio era questão de tempo. Pouco tempo. Não havia ambulância disponível em Ribeirão Preto. O hospital recomendou que a família retornasse a Jaboticabal e lá buscasse transporte para a capital. Vendo o desespero dos pais, um dos médicos tirou do bolso 200 cruzeiros[1] e ofereceu a Carlos. Com o dinheiro, ele pagou o táxi de volta.Casamento do Irmao

Quando os Zagui conseguiram retornar ao Santa Isabel, já passava das quatro da tarde. O quadro era grave e estava piorando. As más notícias não paravam de surgir. A única ambulância pública da cidade fora deslocada para a zona rural, para atendimento a feridos num acidente. O hospital mobilizou assistentes sociais e até a enfermagem para tentar uma solução. O próprio Carlos telefonou para o prefeito de Guariba, a quem pensava conhecer, e pediu ajuda. A resposta soou como um soco no rosto:

— Não conheço nenhuma família Zagui em Guariba.

A enfermeira Josefina Aparecida Saccani, que naquela tarde trabalhava na recepção do hospital, tentou ajudar. Inconformada, repetiu a ligação para o prefeito e ouviu a mesma resposta.
Conhecida como Fininha — não só pelo nome, mas também pela compleição magérrima —, a enfermeira não sabia o que fazer. Mesmo assim fez — e acabou se transformando no primeiro dos dois anjos que entraram na vida da família Zagui naquela tarde. Eram quase cinco horas, seu turno já havia acabado, mas ela estava determinada a não deixar o hospital enquanto o caso não fosse resolvido.

Quase em pânico, nervosa, ainda pensando sobre como agir, Fininha esbarrou no segundo anjo. No corredor do hospital, encontrou o produtor rural Tercílio Sitta.
Pedro e Paulo
A família Sitta e Fininha eram vizinhos. Moravam — e ainda moram — a poucas quadras um do outro. Fininha estudou na mesma escola que os filhos do fazendeiro. Tercílio estava no Santa Isabel por acaso. Havia levado um funcionário para suturar um corte na mão. A enfermeira o cumprimentou e arriscou:

—     Seu Tercílio, estamos com um problema. Vou pedir uma coisa, mas sei que o senhor pode me dizer não. Eu vou entender.

—    Você nem pediu ainda. Se eu puder, eu faço.

—    Temos uma menina com pólio que precisa ir urgentemente para São Paulo. Se não chegar lá até a meia-noite, ela vai morrer.

O homem estava suado, cansado de um longo dia de trabalho. Olhou nos olhos da enfermeira e respondeu:

—     Eu levo. Mas antes vou até em casa tomar um banho e avisar a família.

Tercílio conhecia a pólio de perto. Seu filho Tercilinho contraíra a doença anos antes. Tinha como sequela uma redução na mobilidade das pernas.luciana

Voltou pouco depois, de banho tomado. Passava das sete da noite quando acomodou os pais e a menina no banco traseiro da Ford Belina recém-comprada e voou para a capital. Os 350 quilômetros entre Jaboticabal e São Paulo foram cobertos em velocidade máxima. Tercílio ainda parou no primeiro posto da polícia rodoviária e avisou que iria correr muito. Explicou o motivo e pediu para não ser interceptado.

—    Peça para seus colegas da rodovia me deixarem passar — disse ao policial.

—    Está bem. Mas tenha cuidado. Além da sua, o senhor está colocando em risco a vida dessa família.

Mesmo sem estarem totalmente duplicadas, as rodovias Oswaldo Cruz e Anhanguera eram um bom caminho. Principalmente porque não tinham o volume de tráfego, os radares e os postos de pedágio de hoje. Àquela hora da noite, as pistas estavam praticamente livres.

Chegar a São Paulo foi fácil, mas encontrar o Hospital das Clínicas é que seria difícil. O fazendeiro não conhecia a cidade e decidiu não perder tempo. Ao entrar na capital, parou um táxi e pediu que o guiasse até o HC. Às 23h30, o casal deu entrada nas Clínicas com a filha nos braços e o diagnóstico na ponta da língua.

—    É paralisia infantil. Ela tem pouco tempo.

Com atendimento dedicado quase exclusivamente à doença, o socorro no Instituto de Ortopedia e Traumatologia do HC foi imediato.

Primeira ComunhaoMissão cumprida, o fazendeiro seguiu o táxi de volta até a entrada da Anhanguera, pagou a corrida e regressou para casa. No dia seguinte, voltou logo cedo ao hospital, já com outro funcionário. Fininha espantou-se a vê-lo:

—    O senhor não levou a criança pra São Paulo, seu Tercílio?

—     Levei, Fininha. Deixei a menina lá com os pais e vim embora.

Na capital, encerrados os procedimentos de internação, Thereza olhou para o relógio na parede do HC: duas e meia da manhã do dia 10 de janeiro de 1976.

Enquanto isso, os médicos corriam para salvar a vida da menina. Conseguiram evitar que a doença progredisse, mas o tempo havia sido implacável. Quando a família Zagui chegou ao hospital, pouco restava a fazer. A mobilidade do pescoço para baixo estava comprometida.

Dispensado pelos médicos, o casal voltou para Guariba pela manhã, de ônibus. Não demorou a que um vizinho os procurasse — Carlos e Thereza Zagui não tinham telefone. A filha tivera uma crise, e o hospital os chamava de volta. Era preciso correr, caso quisessem ver a filha viva.

Carlos apanhou o primeiro ônibus e voltou sozinho. Chegou ao HC à meia-noite, informou-se da situação e passou em claro a segunda madrugada seguida. Pela manhã, a menina já havia melhorado. Fora colocada num dos muitos pulmões de aço, antigos respiradores mecânicos, em funcionamento ininterrupto.

Banho de Piscina
As idas e vindas se repetiram algumas vezes. Os telefonemas não paravam e, num deles, por engano, a menina foi dada como morta. Mas foi só na quarta ou quinta corrida ao HC que Carlos Zagui se deu conta de que a batalha contra a doença estava perdida. O pulmão de aço não havia sido suficiente: pelo vidro da UTI, viu que a frágil garganta de sua filha agora tinha um orifício e uma cânula. Ela acabara de passar por uma traqueostomia.

A menina alegre não voltaria mais para casa. Correr e brincar pelo quintal eram coisas do passado. Acabara de entrar para outro universo. Um mundo em que pai, mãe, irmão, tios e avós praticamente deixavam de existir. Passaria a integrar uma nova família. Uma família formada por médicos, enfermeiros e um grupo de crianças internadas.

Passados 36 anos desde a internação, a menina é hoje, ao lado do amigo Paulo, um dos dois sobreviventes das dezenas de vítimas graves da poliomielite internadas no Hospital das Clínicas de São Paulo. O HC tem sido sua casa desde então.

Seu nome é Eliana. E esta é sua história.

Os editores

Hoje










dedicatoria
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Algumas pinturas da Eliana

































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POST ATUALIZADO EM 26/11/2013

Vejam que bacana. Não sei por que caminhos, mas todo o ano recebo um pacote de cartões natalinos do "Pintores com as Bocas e Pés". Este pacote é acompanhado de um doc que pode ser pago e, deste modo, enviar uma contribuição aos artistas. Para mim foi super legar identificar um dos cartões como da Eliana. Parecia que ela estava enviando diretamente a mim. (Vejam abaixo)

O Site da Organização pode ser acessado no link : Pintores com a Boca e os Pés


Cartão 2013 - Eliana Zagui