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Hino do Blog : " ...e todas as vozes da minha cabeça, agora ... juntas. Não pára não - até o chão - elas estão descontroladas..."
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Wednesday, May 08, 2013

Palco Giratório SESC–O Filho Eterno

Fica difícil falar em “O filho eterno” sem usar superlativos.

O livro do Cristóvão Tezza é excelente e mereceu (algo raro) todos os prêmios que recebeu.

A peça eu ainda não tinha visto.

Então foi com ansiedade babônica que nos tocamos para o Teatro do Museu do Trabalho para finalmente ver ser contada ao vivo a trajetória de vida de um pai com um filho Down.

E a coisa não deu outra.

A adaptação do Bruno Lara Resende é exemplar.  O grande mérito do livro é a linguagem direta, descarnada, sem firulas ou dourado de pílula que, a serviço de emoções verdadeiras (negativas e positivas), estabelece um diálogo íntimo com o leitor. 

E isto se vê refletido na peça.

A alma do livro está estampada nos  70 minutos de espetáculo.  

Charles Fricks – único ator em cena – simplesmente mata a pau.  Sem nenhum momento escorregar para o piegas, para o choro fácil, Charles projeta um universo de emoções que atingem diretamente coração e mente de cada um.

É simplesmente soberbo ver um ator utilizando todo seu arsenal – que no fim resume-se ao seu corpo e voz – para incendiar uma sala, para suspender a respiração do povo, para linkar os espíritos presentes (a cena do garoto com a buzina é absurda de maravilhosa)

E no fim quem chora, não chora pelo “drama familiar”, mas sim pelo triunfo da poesia dos dramas e aprendizados da vida.

Fantástico.

“O filho eterno”  é universal.  Certamente merece ser traduzida para outras línguas e ser montada nos palcos de todo o mundo.

Tuesday, May 07, 2013

Show–Fernando Buergel & Fernando Pessoa

Apostar na busca de um diálogo entre o texto do  Fernando Pessoa e medalhões da MPB (tipo Chico Buarque, Cazuza, Belchior e outros) é uma proposta ousada que pode resultar em, dependendo do tamanho da pretensão,  desde algo sublime a um imbroglio ridículo. 

“Fernando em Pessoa”, espetáculo do Fernando Buergel, apresentado domingo passado no teatro do CIEE,  intercala ( dentro de vários focos, mas sendo o  “desassossego” o principal ) momentos realmente bons com outros perigosamente atingindo – e alguns casos ultrapassando - o limite do over, do  excesso, do caricato.

O que se viu, de um modo geral com um tom solene - e muitas vezes over dramático –, foi Buerger enfileirando (em alguns momentos misturando) texto e musica, de forma a tentar criar um clima de sarau chique e moderno.

Só que não.

As excessivas idas ao fundo do palco (para beber água e fazer outra coisa que não identifiquei) e as marcações rígidas na linha de frente, confundiram mais do que atraíram o olhar para sua (bela) figura.

Por outro lado o som do teatro não ajudou em nada – pelo menos onde sentamos – fazendo com que não se entendesse determinadas letras e textos.

Aliás,  os textos do mestre são imortais, mas fica evidente que a idéia do Buergel é mostrar a sua contemporaneidade,  e  para isto encerra vários poemas  informando as datas nas quais foram escritos.

Tipo com “Ultimatum” onde encerra com : “Alvaro de Campos  1917 !”

E o povo :  “Ah ! Que Moderno” 

E tu te pergunta : “Por que  isto?”

Achei desnecessário.

De algumas canções Burgel tenta sem sucesso  extrair uma dramaticidade inexistente (tipo em “O que é o que é?” do Gonzaguinha, com uma introdução num clima de tragédia que soou fake), e em outras perde o caminho da contundência e encaixa tipo um “caco fôfo” para agradar os presentes – como na violenta” Deus lhe pague” (do Chico) onde a frase “pelas mulheres daqui” foi entoada com um sorriso largo e braço estendido rumo a platéia (sei que isto está soando bem rabugento, mas estes lances me incomodaram).  

Voltado ao Pessoa, a maioria dos textos é dita (“interpretada”) de maneira honesta, porém em alguns a máscara da “cant-ator” exagera a expressão e acaba criando mais um estranhamento / distanciamento do que uma tradução emocional do que se ouve.

De qualquer forma, e isto realmente fez a diferença, a seleção musical e dos poemas foi exemplar. 

Tirando as duas músicas do Robson Serafini (seu companheiro de palco e tambem diretor musical) – a primeira eu não entendi porra nenhuma devido ao som e a segunda achei média -, o repertório é irrepreensível.

Em termos de voz, sinceramente eu não viraria a cadeira numa blind audition para o The Voice, mas o rapaz não compromete de modo geral.

No final ficou a sensação de que Buergel tem todas as ferramentas para arrasar numa partida. Só que falta estratégia e um bom técnico para direcionar o jogo e marcar uma bela duma goleada.

Monday, May 06, 2013

Palco Giratório SESC - Arte

Em “Arte”, de um acontecimento trivial, ergue-se um jogo entre três amigos que atinge os  limites da violência física.

Sérgio (Claudio Gabriel), um dermatologista rico, compra um quadro “totalmente branco e com tons de branco na diagonal”, por R$ 200.000,00, do “renomado artista Andreus” e o mostra a Marcos, esperando que ele compartilhe de seu entusiasmo pela obra.

Marcos fica chocado pela insanidade cometida pelo  amigo e rotula a “obra de arte” de “Merda”. A partir daí inicia-se um atrito entre os dois, no qual também acaba envolvido Ivan (Vladimir Brichta), aquele tipo de cara boa praça que quer ficar de bem com todos, mas que aqui também acaba perdendo as estribeiras.

Resumindo este é a história da peça  “Arte”,  da autora Yasmina Reza,  premiada autora francesa, considerada um dos maiores nomes da dramaturgia contemporânea mundial e com dezenas de montagens em mais de 30 países.

Em cena Brichta, Gabriel e um outro “baixinho” excelente que não sei o nome (estava fazendo sua estréia na montagem em substituição ao Claudio Moreno),  detonam num texto  ágil, hilário e muito inteligente, que fala de amizade, arte, relacionamento, amadurecimento e vários outros temas humanos.

Fantástico.

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Comentários :

Vladimir Brichta, Marcelo Flores e Claudio Gabriel formam um elenco exemplarmenteequilibrado, beneficiados que são, para além de seus talentos e técnicas, pela amizade ecompanheirismo de que desfrutam na vida real. Com biotipos diversos e adequados a cada umdesses três amigos cuja amizade repentinamente é posta à prova, os três jovens atores mais ojovem diretor nos garantem que o teatro brasileiro tem matéria para bom presente e bomfuturo” – Barbara Heliodora (Jornal O Globo)

O tom informal reforça a intimidade entre os personagens. Cria, assim, o ambiente apropriado para as ótimas atuações de Marcelo Flores (o autoritário Marcos), Vladimir Brichta (o conciliador Ivan) e Claudio Gabriel (o polêmico Sérgio)”– Carlos Henrique Braz (Revista Veja Rio)

Explorando com inteligência e sensibilidade diálogos brilhantes e personagens solidamenteconstruídos, o diretor Emílio de Mello impôs a cena uma dinâmica precisa e despojada,irretocável no tocante aos tempos rítmicos e cuja expressividade advém do fato de o diretorpriorizar o que realmente interessa: os conflitos entre os personagens e as múltiplas variaçõesde tom que marcam os embates entre eles” – Lionel Fischer

Filme–O Homem de Ferro 3

homem-de-ferro-3Fui ver o tal de Homem de Ferro 3.

O filme pode ser qualquer coisa, menos sobre um clássico herói identificado como “Homem de Ferro”.

Senão vejamos : sua clássica armadura, sua arma de luta ( que em qualquer herói representa seu potencial, sua força, seu vigor), aqui  simplesmente não existe.

O que temos pela frente é uma coleção de armaduras totalmente descartáveis e insonssas, muitas vezes comandadas a distância pelo “herói”e que, num momento “glória a Jesus”,  acabam sendo explodidas pelo Tony Stark para iluminar o céu enquanto abraça sua namorada sopa crua (ela queria ver “estrelas brilhando”, e ele, na vibe da paixão, detona inúmeras armaduras para criar um efeito “de natal”) – e ela acha tudo “lindo “

Como se não bastasse, temos pela frente, além do Homem de Ferro, o tal do Coronel de Ferro e também a Mulher de Ferro (senti falta de um Cachorro de Ferro, mas quem sabe na próxima...), sendo que ambos  entram em cena para  lances tipo “finish him”, sob o olhar apatetado do Stark .

Total bola nas costas dos fãs que queriam ver o Homem de Ferro arrebentando  tudo

A história seria até legal, se não fosse podre de manjada. Mas até aí tudo bem, o lance é que fica claro que, a cada episódio – a cada novo filme -  “novas idéias” são incorporadas e os roteiristas têm que se virar para encaixá-las na trama seguinte – e tudo acaba soando tri forçado.

As piadinhas – em excesso – acabam mais constrangendo do que provocando humor de tão ridículas que são.

Pavor total.

Friday, May 03, 2013

Livro–Pulmão de Aço / Eliana Zagui

capaEm qual gênero de literatura “Pulmão de Aço – uma vida no maior hospital do Brasil” (Editora Belaletra, 2012) e enquadra?
 
A primeira vista parece ser uma coisa tipo “auto-juda”, pois é óbvio que Eliana (e de lambuja seu grande amigo Paulo e outros mais)  é (são) um exemplo de superação, e nós, os “saudáveis”, não nos damos conta de quanto somos abençoados só pelo fato andarmos eretos.

Então ao tomarmos conta da difícil condição física dos protagonistas logo nos vem a mente frases do tipo ”se eles estão neste estado e ainda conseguem ser “felizes”, porque eu tenho que reclamar de qualquer coisinha”?

Isto é verdade, e não há  leitor que não imagine como seria sua vida se seu corpo estivesse  em alguma das  várias situações de restrição física ou de doenças relatadas no “Pulmão”.

E o livro é um compêndio de  males do organismo.  Até mesmo porque este é universo, é o dia a dia comum onde a garota (hoje uma mulher) foi criada desde os dois anos de idade. Ou seja, sua paisagem de vida, seu mundo é um quarto de hospital e tudo o que ali acontece.contracapa

Então somos introduzidos facilmente a termos do seu cotidiano, tais como poliomelite, paralisia, traumatismo, broncopneumonia, atalectasia, traqueostomia, necrose, incubação, placa mioneural, vírus,aspiradores de secreção, aparelhos respiratórios,  tapotagem, displasia crania, disformidade congênita, óbitos e muitos outros dos quais queremos manter distância eterna (ou nem saber o que são).
Isto sem falar no relato da dor, muita dor e agonia que envolvem diversos  procedimentos.

Este é um lado.

Pelo outro,  temos pela frente um ser humano na sua totalidade. Com preferncias, manias, surtos, raivas, birras, esperanças, desejos, sonhos, depressão, tristeza, alegrias, euforia,  enfim uma criatura normal.

Mas nós enxergamos um “deficiente”  assim?

Não sei.

Creio que a tendência é  não, pois  de um modo absolutamente digamos, “arrogante”, podemos olhar um corpo paralisado e, na sequência, já definir o que alguém em tal situação poderá atingir ou não em termos de “vida”;  podemos julgá-lo “incapaz” e assumir que sua intimidade (emocional, espiritual e intelectual) está automaticamente “comprometida”.

Eliana ousa e  vem para, de um modo direto e sem óbvias armadilhas emocionais, provar que as coisas não são assim.

3 anos

Em “Pulmão de Aço”, ela  compartilha sua vida (e a de vários de seus companheiros) trancada dentro do Grande Hospital das Clinicas de São Paulo (seu lar) e revela uma trajetória que, tirando a restrição motora, é semelhante a qualquer uma de nós.

Neste sentido, tirando todo um lado verdadeiramente “lacrimoso” (mas sem pieguismo) de algumas passagens – e não há quem não se emocione com várias (confesso que chorei em algumas ) -, o que me conquistou foi sua bravura em discutir determinados “tabus”, e “assuntos delicados”,  tipo a explosão de hormônios na puberdade, suas tentativas de suicídio, sua vontade de “encontrar alguém”,  o  reconhecimento da sua ingenuidade por acreditar no próximo, sua vontade de ser beijada, o reconhecimento da dura verdade sobre sua família, seu desejo de ser adotada, de ter um lar “normal” e outros mais.

Caipirinha_02
Tudo discutido de forma terna,  porém madura e segura.
Mas nem tudo são mazelas. Eliana abre espaço para as piadas, brincadeiras e acontecimentos hilários que rolam no HC e, de forma magistral descreve os sentimentos quase sufocantes de preparativos, expectativas, descobertas e alegrias que envolvem cada passeios e visitas externas.

Isto sem falar num lance tri sinistro envolvendo uma visita do Airton Senna ao local - (que mêda!!) -  quase fiquei sem dormir – Um troço bem “Premonição”.

Hospital Racho Los Amigos 1950

Quando ela fala de religião, o que mais me chocou e que me deixou salivando de ódio, foi a explicação dos “espíritas” (uma das denominações que circulam por lá para “dar apoio”) que afirmaram (em sua “mensagem de amor”) que ela e seus companheiros presos às máquinas estavam “apenas” pagando carma por terem sido “maus” em outras vidas.

Que agora estavam “em fase de resgate” para, na próxima vida,  reencarnarem felizes (alguém pode me explicar o que é reencarnar feliz? ) – e que, por isto deveriam agradecer ao Senhor pelo privilégio de estarem nesta existência. condenados a  pulmões de aço.  Só digo uma coisa: quem é o filho da puta que tem coragem de  dizer uma barbaridade  destas diante de alguém em tal situação? Com que direito estes escrotos religiosos do mal  chegam e vomitam uma … (nem sei dizer o que ), destas diante do outro?

Mas como disse o tal de Jesus: ”Pai, perdoai-os. Eles não sabem o que fazem”.... ou sabem ?

Paulo palhacinhoInfelizmente este não é o único exemplo de maldade a que eles foram exposto. A garota registra agressões, furtos e outras “maldades menores” que partiram de pessoas (profissionais) de dentro do próprio HC.

Vejam só...

Mas, felizmente, uma coisa que me caiu os butiá (em termos gaúchos : “fiquei surpreso”) foi perceber – e reconhecer – que existe sim bondade no mundo.

Eliana relata inúmeras situações onde a ação do próximo (sobre si e seus companheiros)  revela nada menos do que a bondade nua e crua.Bondade esforçada, desinteressada, direta, sem firulas.
Bondade de alguém que abre mão do seu conforto, do seu lazer, da sua preguiça e do seu umbigo para agir concretamente. Alguém que olha para o outro, se compromete e age.

Isto faz toda a diferença.

Médicos, enfermeiros, ajudantes, religiosos, visitantes, professores, celebridades, familiares (mas não no caso dela. Aliás a família sanguínea dela é muito uó) - e muitos mais.

Quanta gente realmente nobre. Parabéns a todos.

Abaixo alguns.
Dr GiovaniDr Takeda
Dr Fernando FlaquerPintando com a ajuda da professora Ursula
Tia LuAnderson e sua super mae
Zeze di CamargoFormatura Suzana
Paulo e Carlos Saldanha RioPaulo Ju Silvia e Osvaldo

Não me coloco neste patamar. E estaria sendo tri hipócrita se me comparasse com qualquer um dos “verdadeiros anjos”  que Eliana, Paulo e demais companheiros conheceram durante os anos.

Reconheço e afirmo que eu estaria muito mais para os tais de “anjos temporários”, que eles manjam muito bem.

Aquele tipo de criatura que chega toda da “vibe da luz”, cheio de jesus na cachola, prometendo ficar “para sempre ao seu lado”, só para depois de um certo tempo “cansarem” e simplesmente sumirem. Eliana não poupa estes “missionários de vitrine” que mais causam mal do que ajudam.

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Eliana e Paulo, os dois sobreviventes e amigos que ainda estão na área (vistos como exemplos de perseverança e determinação – e até utilizados como modelos de videos motivacionais).  Primeiro passeio a praia
Ela faz parte faz parte da “Associação dos Pintores com a Boca e os Pés”, com sede na Suíça. Só de dizer isto, fica claro “até onde ela chegou” ( e ela não quer parar por aí, não senhor)
Paulo faz trabalho de Web Designer e teve a oportunidade de conhecer o Carlos Saldanha, criador da série “Era do Gelo” e “”Rio”.

Por meu lado, - e isto concretamente – me obriguei a refletir sobre minha infância (60,70), onde o fantasma da poliomelite era real no Brasil. Fui poupado, mas muitas outras crianças não. Eu e Eliana somos contemporâneos. Eu cresci “caminhando”, ela cresceu “deitada”. Eu, como se diz, tô por aí (“realizado” e muitas vezes sofrendo por abobrinhas). E ela onde está? Quem de nós foi “mais longe”? Quem de nós realmente superou as dificuldades e conquistou seu sonho?
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EspatulaEliana encerra o livro de forma absolutamente grandiosa.
Sem medo de se expor, revela seu maior desejo, seu maior sonho, porém,  ao mesmo tempo, oferece uma sólida reflexão sobre as implicações e obstáculos a tal realização.
Não é um final feliz, mas é uma conclusão iluminada pela razão.
Uma conclusão alicerçada na certeza da preservação e continuidade da vida.

Recomendadíssimo.






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Abaixo, excerto do trecho que inicia o livro.

 

uso de espelhos— Voltem quando ela estiver melhor.

O casal se entreolhou. Não era a primeira vez que Thereza e Carlos Zagui levavam a filha para ser vacinada no posto de saúde de Guariba e ali ouviam a mesma história. Com febre, nada feito. Parecia uma sina. Sempre que era levada, a menina estava com dor de garganta e febre. Garganta, aliás, era seu ponto fraco. Desde os primeiros meses de vida virava e mexia aparecia uma inflamação. Vivia tomando antibióticos.

Naquele dia, o quadro febril foi o argumento dos médicos para negar-lhe as duas gotinhas contra a poliomielite. Achavam melhor não aplicar a vacina em criança com sinais de inflamação. Uma decisão hoje considerada sem embasamento científico. E, como se verá, um terrível engano.

Desde a chegada da pequena, em março de 1974, o casal não cabia em si de felicidade. Era o sonho do pai. Logo depois do nascimento do primogênito, Luiz Carlos, em 1971, ele disse à mulher que se sentiria plenamente realizado se tivessem também uma menina. Mas havia um senão. Thereza encerrara a primeira gravidez com um problema comum a muitas mães: varizes. Teve de passar por uma cirurgia. Dois médicos a advertiram de que uma nova gestação seria arriscada. Era preciso evitar. Mas aconteceu.

Caipirinha_01
Quando a gravidez acidental e inesperada se confirmou, o casal se cercou de cuidados. Thereza passou a maior parte do tempo em repouso. O obstetra sugeriu uma cesariana, a fim de evitar os esforços do parto normal. Mas a menina, afobada, por pouco não nasceu a caminho do hospital
.
Pressa foi sua marca registrada. A pequena, loirinha e de olhos claros, era esperta. Começou a andar e a falar antes de um ano. Não queria saber de colo. Preferia caminhar. De preferência, de mãos dadas com Carlos.

banhoA não ser pela garganta frágil, era saudável. Foi exatamente por isso que Carlos e Thereza estranharam quando a viram quieta demais. Como a febre persistisse, a mãe a levou ao hospital Santa Isabel, em Jaboticabal, interior de São Paulo, em busca de atendimento médico mais acurado que o dos postos de saúde da pequena Guariba.
Mãe e filha passaram a noite no hospital sem que os médicos chegassem a um diagnóstico. No dia seguinte, Carlos deixou Luiz Carlos com familiares e foi ao encontro das duas, em busca de informações. Encontrou a filha incomodada com a agulha do soro:

—     Pai, tira! Dodói!

As mãozinhas irrequietas haviam sido imobilizadas para evitar que ela removesse a agulha. Instintivamente, Carlos examinou a filha. Estranhou a falta de mobilidade, principalmente nas pernas, e chamou o médico.

Francisco Iglesias, o dr. Chiquinho, ficou preocupado:

—   Vocês precisam ir com urgência para Ribeirão Preto.

Distante 60 quilômetros de Jaboticabal, Ribeirão é historicamente uma das cidades mais bem aparelhadas e com mais recursos médicos do interior paulista. Fazia todo o sentido buscar assistência por lá. Mas a ida a Ribeirão consumiria um tempo precioso. Precioso e decisivo para o futuro da menina. Alertado pelo tom aflito na voz do dr. Chiquinho, Carlos colocou mulher e filha num táxi. A corrida até Ribeirão consumiu praticamente todo o dinheiro que tinha.Primeiro Computador

Chegaram à cidade por volta do meio-dia. Na clínica dos pediatras Mariano, Achê e Raya, o dr. Mariano suspeitou da gravidade do caso e os encaminhou ao pronto-socorro do Hospital Santa Lydia. Depois de examinar o líquor da medula espinhal, a médica que os atendeu em caráter de urgência não teve dúvida do diagnóstico: paralisia infantil.

— Não temos recursos para tratá-la aqui — disse a médica. — Vocês precisam levá-la para o Hospital das Clínicas, em São Paulo. Ela tem no máximo mais oito horas de vida...

A doença avançava depressa. A paralisia já atingira mais de 60% do corpo.
O estado de São Paulo vivia uma epidemia de poliomielite. O último grande surto antes da moléstia ser erradicada do Brasil, em 1989. Doença viral, transmitida pelo contato com fluidos corporais do doente ou por meio de água ou alimento contaminado, a pólio ataca o sistema nervoso e paralisa a musculatura. Só existem dois meios de prevenção: vacinação ou sorte.

Ginasta LigiaNas cidades menores, contava-se mais com a sorte. A vacina era rara. A imunização dependia da boa vontade das prefeituras em avisar a população e dos pais em levar as crianças para serem vacinadas.

Por ignorância, muitos pais e até profissionais da saúde deixavam a vacinação de lado. Quando os surtos ocorriam, logo se disseminavam. Um grupo de médicos que trabalhou no HC de São Paulo contou 5.789 internações entre 1955 e o final da década de 1970.

Conseguir evitar que a filha engrossasse as estatísticas de morte por pólio era questão de tempo. Pouco tempo. Não havia ambulância disponível em Ribeirão Preto. O hospital recomendou que a família retornasse a Jaboticabal e lá buscasse transporte para a capital. Vendo o desespero dos pais, um dos médicos tirou do bolso 200 cruzeiros[1] e ofereceu a Carlos. Com o dinheiro, ele pagou o táxi de volta.Casamento do Irmao

Quando os Zagui conseguiram retornar ao Santa Isabel, já passava das quatro da tarde. O quadro era grave e estava piorando. As más notícias não paravam de surgir. A única ambulância pública da cidade fora deslocada para a zona rural, para atendimento a feridos num acidente. O hospital mobilizou assistentes sociais e até a enfermagem para tentar uma solução. O próprio Carlos telefonou para o prefeito de Guariba, a quem pensava conhecer, e pediu ajuda. A resposta soou como um soco no rosto:

— Não conheço nenhuma família Zagui em Guariba.

A enfermeira Josefina Aparecida Saccani, que naquela tarde trabalhava na recepção do hospital, tentou ajudar. Inconformada, repetiu a ligação para o prefeito e ouviu a mesma resposta.
Conhecida como Fininha — não só pelo nome, mas também pela compleição magérrima —, a enfermeira não sabia o que fazer. Mesmo assim fez — e acabou se transformando no primeiro dos dois anjos que entraram na vida da família Zagui naquela tarde. Eram quase cinco horas, seu turno já havia acabado, mas ela estava determinada a não deixar o hospital enquanto o caso não fosse resolvido.

Quase em pânico, nervosa, ainda pensando sobre como agir, Fininha esbarrou no segundo anjo. No corredor do hospital, encontrou o produtor rural Tercílio Sitta.
Pedro e Paulo
A família Sitta e Fininha eram vizinhos. Moravam — e ainda moram — a poucas quadras um do outro. Fininha estudou na mesma escola que os filhos do fazendeiro. Tercílio estava no Santa Isabel por acaso. Havia levado um funcionário para suturar um corte na mão. A enfermeira o cumprimentou e arriscou:

—     Seu Tercílio, estamos com um problema. Vou pedir uma coisa, mas sei que o senhor pode me dizer não. Eu vou entender.

—    Você nem pediu ainda. Se eu puder, eu faço.

—    Temos uma menina com pólio que precisa ir urgentemente para São Paulo. Se não chegar lá até a meia-noite, ela vai morrer.

O homem estava suado, cansado de um longo dia de trabalho. Olhou nos olhos da enfermeira e respondeu:

—     Eu levo. Mas antes vou até em casa tomar um banho e avisar a família.

Tercílio conhecia a pólio de perto. Seu filho Tercilinho contraíra a doença anos antes. Tinha como sequela uma redução na mobilidade das pernas.luciana

Voltou pouco depois, de banho tomado. Passava das sete da noite quando acomodou os pais e a menina no banco traseiro da Ford Belina recém-comprada e voou para a capital. Os 350 quilômetros entre Jaboticabal e São Paulo foram cobertos em velocidade máxima. Tercílio ainda parou no primeiro posto da polícia rodoviária e avisou que iria correr muito. Explicou o motivo e pediu para não ser interceptado.

—    Peça para seus colegas da rodovia me deixarem passar — disse ao policial.

—    Está bem. Mas tenha cuidado. Além da sua, o senhor está colocando em risco a vida dessa família.

Mesmo sem estarem totalmente duplicadas, as rodovias Oswaldo Cruz e Anhanguera eram um bom caminho. Principalmente porque não tinham o volume de tráfego, os radares e os postos de pedágio de hoje. Àquela hora da noite, as pistas estavam praticamente livres.

Chegar a São Paulo foi fácil, mas encontrar o Hospital das Clínicas é que seria difícil. O fazendeiro não conhecia a cidade e decidiu não perder tempo. Ao entrar na capital, parou um táxi e pediu que o guiasse até o HC. Às 23h30, o casal deu entrada nas Clínicas com a filha nos braços e o diagnóstico na ponta da língua.

—    É paralisia infantil. Ela tem pouco tempo.

Com atendimento dedicado quase exclusivamente à doença, o socorro no Instituto de Ortopedia e Traumatologia do HC foi imediato.

Primeira ComunhaoMissão cumprida, o fazendeiro seguiu o táxi de volta até a entrada da Anhanguera, pagou a corrida e regressou para casa. No dia seguinte, voltou logo cedo ao hospital, já com outro funcionário. Fininha espantou-se a vê-lo:

—    O senhor não levou a criança pra São Paulo, seu Tercílio?

—     Levei, Fininha. Deixei a menina lá com os pais e vim embora.

Na capital, encerrados os procedimentos de internação, Thereza olhou para o relógio na parede do HC: duas e meia da manhã do dia 10 de janeiro de 1976.

Enquanto isso, os médicos corriam para salvar a vida da menina. Conseguiram evitar que a doença progredisse, mas o tempo havia sido implacável. Quando a família Zagui chegou ao hospital, pouco restava a fazer. A mobilidade do pescoço para baixo estava comprometida.

Dispensado pelos médicos, o casal voltou para Guariba pela manhã, de ônibus. Não demorou a que um vizinho os procurasse — Carlos e Thereza Zagui não tinham telefone. A filha tivera uma crise, e o hospital os chamava de volta. Era preciso correr, caso quisessem ver a filha viva.

Carlos apanhou o primeiro ônibus e voltou sozinho. Chegou ao HC à meia-noite, informou-se da situação e passou em claro a segunda madrugada seguida. Pela manhã, a menina já havia melhorado. Fora colocada num dos muitos pulmões de aço, antigos respiradores mecânicos, em funcionamento ininterrupto.

Banho de Piscina
As idas e vindas se repetiram algumas vezes. Os telefonemas não paravam e, num deles, por engano, a menina foi dada como morta. Mas foi só na quarta ou quinta corrida ao HC que Carlos Zagui se deu conta de que a batalha contra a doença estava perdida. O pulmão de aço não havia sido suficiente: pelo vidro da UTI, viu que a frágil garganta de sua filha agora tinha um orifício e uma cânula. Ela acabara de passar por uma traqueostomia.

A menina alegre não voltaria mais para casa. Correr e brincar pelo quintal eram coisas do passado. Acabara de entrar para outro universo. Um mundo em que pai, mãe, irmão, tios e avós praticamente deixavam de existir. Passaria a integrar uma nova família. Uma família formada por médicos, enfermeiros e um grupo de crianças internadas.

Passados 36 anos desde a internação, a menina é hoje, ao lado do amigo Paulo, um dos dois sobreviventes das dezenas de vítimas graves da poliomielite internadas no Hospital das Clínicas de São Paulo. O HC tem sido sua casa desde então.

Seu nome é Eliana. E esta é sua história.

Os editores

Hoje










dedicatoria
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Algumas pinturas da Eliana

































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POST ATUALIZADO EM 26/11/2013

Vejam que bacana. Não sei por que caminhos, mas todo o ano recebo um pacote de cartões natalinos do "Pintores com as Bocas e Pés". Este pacote é acompanhado de um doc que pode ser pago e, deste modo, enviar uma contribuição aos artistas. Para mim foi super legar identificar um dos cartões como da Eliana. Parecia que ela estava enviando diretamente a mim. (Vejam abaixo)

O Site da Organização pode ser acessado no link : Pintores com a Boca e os Pés


Cartão 2013 - Eliana Zagui













































































































































Thursday, April 25, 2013

Livro–Nossos Anos Verde-Oliva (Roberto Ampuero)

De forma romanceada - o autor explica o porque deste formato no texto abaixo - Roberto Ampuero, consagrado escritor Chileno, retrata, em Nossos Anos Verde Oliva”, sua trajetória como exilado em Cuba, após sua fuga do golpe militar em seu país.

Participante do movimento estudantil em Santiago, Roberto militou em organizações socialistas que acreditavam na resistência armada até a morte.

Depois de encarar um confronto com as forças militares na sua universidade, Roberto acaba refugiando-se na Alemanha Oriental, país onde conhece a cubana Margarida, filha do General Ulises Cienfuegos, que conforme a descrição de um personagem originário de Havana :

“Foi guerrilheiro e fiscal da República – ...- Um homem temido e odiado, agora embaixador nosso em Moscou. De olhos de aço e cabelo grisalho, um vozeirão impressionante e uma vontade implacável, era a pessoa que os contrarrevolucionários mais odiavam, pois, após o triunfo do exército rebelde, na sua qualidade de fiscal da República, mandou ao paredão centenas de opositores

Ou seja, Roberto acaba se apaixonando pela filha única de um dos homens mais temidos de Cuba. Um agente com plenos poderes para “tratar” todos aqueles identificados como “inimigos da revolução”.

Depois de um cena rocambolesca, que envolve a tentativa do casal em escapar para o Ocidente, Roberto e Margarita acabam mudando-se para Havana onde iniciam uma nova vida sob os auspícios das benesses oferecidas apenas ao funcionários e burocratas da cúpula do “regime igualitário”.

Porém ali, no país onde, para os sonhadores revolucionários latinos o socialismo tinha triunfado e a almejada sociedade justa tinha desabrochado, Roberto, pouco a pouco, vai conhecendo o lamentável e aterrorizante cotidiano do povo cubano.

Vendo de perto a falta de alimentos, as filas intermináveis para conseguir elementos domésticos básicos (higiene, limpeza, mantimentos, etc), a manipulação ideológica,a enganosa propaganda de massa, a perseguição política, a censura, os desaparecimentos, a vigilância opressora, Ampuero, mergulha cada vez mais seu intelecto na solidão, na insegurança e em conflitos ideológicos, éticos e humanos.

Nesta realidade, o jovem acaba vivenciando em redemoinho de situações que vão desde a humilhação emocional, profissional e política até momentos de fervor ideológico, momentos de “acreditar” – passando por situações absolutamente kafkanianas – até tudo desembocar na mais absoluta decepção e descrença com a utopia socialista.

“Nossos anos Verde Oliva” é um livro esclarecedor, corajoso, necessário.

Hoje quando vemos o que aconteceu com a aqui no Brasil (vergonha total), e quando vemos nossos “revolucionários tupiniquins” ainda a serviço de um regime arcaico sob o qual nenhum deles jamais moraria, papagaiando escrotidões socialistas (assustadoramente sem a mínima reflexão crítica) e ferozmente perseguindo – e acusando - todos aqueles que não concordam com a podridão da política cubana (e outras do gênero) – num belo exemplo de “democracia”- , o livro do Roberto surge como um oásis a contrapor toda e qualquer ditadura (seja de direita ou esquerda).

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Excerto do “Nossos anos verde oliva”, onde Roberto faz uma profunda e bela reflexão sua obra e tudo o que ela evoca.

Sobre a vida deste romance, onze anos depois :

Antes de entregar para a gráfica esta versão definitiva de “Nossos anos verde-oliva”, examino-a pela última vez, instalado em uma cabana cos­teira de Cayo Hueso, a cento e cinquenta quilômetros de Cuba.

Do mesmo modo que estive ali um dia, estou hoje aqui também rodeado de coqueiros e palmeiras, fiamboyants e figueiras, e envolvido pelo ar denso e quente do golfo. E, quando fixo o olhar no horizonte, cerzido por um bando de pelicanos imóveis, sinto-me como se estivesse de novo em Cuba.

Não consigo, porém, voltar à ilha. A publicação deste romance autobiográfico, escrito originalmente para minha mulher, meus filhos e meus pais, irritou de tal modo o regime que desde então minha entrada em Cuba está proibida.

É uma represália dolorosa, pois me impede de ir à terra onde passei urna etapa decisiva de minha juventude, onde tenho amigos, familiares e colegas, onde palpitam raízes de minha criação literária, e que continua habi­tando boa parte de minha memória.

É uma represália cruel, que me impede de voltar a um país que aprendi a amar e do qual, como seria de se esperar, sinto saudades. Uma represália que me une à diáspora de milhões de cubanos que perambulam pelo planeta pri­vados de sua pátria.

Acho perturbador que em pleno século XXI um governo possa se sentir afetado pelas memórias de alguém que viveu em seu território. Consigo entender que um governo critique um texto de históriaa sobre seu país ou alguma biografia sobre um legendário herói nacional seu, mas por que tem de se sentir prejudicado por memórias pessoais, que, por definição, são o que há de mais subjetivo e íntimo?

Por que o poder político se atribui o direito determinar o modo como alguém deve relembrar sua vida individual sob sua hegemonia? Assim como dita a história oficial, pode o poder político ditar também as recordações que os indivíduos irão conservar e compartilhar sobre sua própria existência? Pode esse poder querer também impor o modo como o indivíduo deve relembrar?

Evidentemente, pode-se censurar a plataforma material - um livro, uma gravação, uma página eletrônica - por meio da qual circulam as lembranças, mas não existe forma de regular a maneira como as pessoas relembram a própria vida.

E este romance é fundamentalmente minha memória, minha recordação pessoal, minha verdade individual dos anos de exilado que vivi na ilha. Por definição, as lembranças são uma versão pessoal, livre e subjetiva de um indivíduo, e não postulam nunca ser a história oficial. Têm a modéstia das mãos cheias de calos, a singularidade de um rosto, a limitação de uma forma particular de sentir. Poderíamos afirmar que sua limitação está justamente em constituir uma experiência pessoal que não aspira a a ser coletiva ou nacional.

Nas sociedades democráticas, as memórias individuais costumam coexistir com as centenas de outras memórias pertencentes a outras vozes individuais, versões da história que às coincidem ou divergem, dialogam ou monologam, ou então se corrigem,apoiam ou ignoram.

Não existe, portanto, a memória individual "correta" nem a memória privada "oficial", como tampouco podem existir critérios oficiais, governamentais, para regular de que os indivíduos têm de se lembrar a respeito de sua vida.

Como afirma com razão Gabriel Garcia Márquez, a vida de uma pessoa é o que essa pessoa guarda na memória. Por isso, além de ser um ato absurdo e a longo prazo inútil, a censura da memó­ria é a censura que aponta para o mais íntimo e profundo do ser humano. Nesse sentido, este romance deveria ser apenas uma mo­desta parte de uma gigantesca tapeçaria construída com retalhos de outras memórias sobre a América Latina e a Revolução Cubana, evocações que não têm como ser corretas nem incorretas, mas que simplesmente são.

Diante do poder político, as memórias indivi­duais carecem do poder de estabelecer um dogma ou um esquema interpretativo; apenas narram o evocado e o esquecido. Uma me­mória é feita do lembrado e do esquecido, de suas palavras e seus silêncios, de suas imagens e seus vazios.

Um romance autobiográfico simplesmente é isso: um texto de ficção nutrido pelas memórias de seu autor, um texto que por seu gênero não pretende ser a verdade oficial, e sim mais uma versão entre as de milhões de indivíduos que também relembram. Como não se atém a nada, a não ser aos fluxos da memória e às suas lacunas, é o gênero mais subversivo que existe, e o mais odiado pelas ditaduras.

Chama a minha atenção a vitalidade deste romance autobiográ­fico, que tem onze anos de existência e continua ganhando a cada ano, como sustenta Mario Vargas Llosa, novos leitores no mundo. Esta nova edição, corrigida e ampliada, avança nessa direção. Mas admito que o que mais me emociona em relação à vitalidade deste texto é que ele continua circulando clandestinamente em Cuba por meio de engenhosas listas de espera e bibliotecas independentes, mantidas por cidadãos de coragem cívica admirável.

Muitos exila­dos cubanos se aproximam de mim na América Latina, na Europa ou nos Estados Unidos, para me contar que leram Nossos anos verde- -oliva em sua pátria, em geral em exemplares amarelados e enseba­dos, forrados em papel comum, que eles leram rapidamente para poder reintegrá-los o quanto antes à circulação clandestina. E em cada conversa me agradecem por eu haver escrito sobre sua pátria e acrescentam que sabem, por experiência própria, que tudo o que é narrado aqui é certo e ao mesmo tempo verossímil.

Se Kafka tivesse sido cubano, pertenceria aos nossos autores de costumes, sustentam muitos dos exilados. Sei que este romance chega a Cuba por intermédio turistas que o contrabandeiam na bagagem, mas também por meio de funcionários cubanos que viajam ao exterior e o levam para a ilha para que outros também possam lê-lo.

Como mostra eloquentemente uma foto recente, até o presidente cubano Raúl Castro leu romance que fala de sua ilha e que ele, como seu irmão, censura.

Por que escrevi “Nossos anos verde-oliva?”, pergunto-me, olhando para corrente do Golfo de uma janela que, nas noites claras e sem lua, permite às vezes divisar o remoto clarão de Havana.

A resposta simples : escrevi porque não tinha outra forma de relatar meus anos na ilha àqueles que me consultavam a esse respeito.

Cuba era na época tão misteriosa quanto a Coréia do Norte. Não havia turismo internaciional, a ilha estava isolada, e seu regime mantinha por sua vez o isolamento para controlar melhor a população e impedir as ações da oposição no exílio. Como afirmavam então com orgulho dirigentes: em Cuba não entra quem quer, somente quem pode.

Enfim, escrevi este romance porque queria deixar um testemunho dessa etapa crucial de minha vida a Ana Lucrécia, minha mulher, a nossos filhos, a meus familiares. Escrevi-o com a franqueza e a honestidade com que são compartilhadas as evocações com as pessoas próximas.

Comecei a redigi-lo em Berlim Oriental, em 1981, em um ca­derno azul de capa grossa da desaparecida República Democrática Alemã, que ainda conservo com meus manuscritos. As anotações iniciais, no entanto, estão em um livreto, hoje também em meu poder, que eu mantinha nos anos 1970 em Havana, um livreto no qual fazia mim mesmo delicados questionamentos sobre o sistema cubano e teria causado sérios problemas caso tivesse caído um dia em mãos erradas.

Na hora de escrever a versão definitiva de “Nossos anos verde-oliva”, eu me vali dessas anotações e da minha memória, que en­tão estava ainda fresca e se esforçava para encontrar a palavra escrita antes que ela se esfumasse definitivamente no esquecimento.

Enquanto escrevia a reta final deste romance, percebi sempre a sombra de duas ameaças. A primeira vinha do Chile, para onde por sorte a democracia havia voltado, mas no qual a influência do ge­neral Augusto Pinochet e de seus serviços de segurança continuava tendo uma força nada desprezível. Isso me obrigou no final a retocar certos nomes. Se não tivesse adotado esse tipo de precaução, as anti­gas forças da repressão então ainda ativas - poderiam valer-se do texto para identificar e vingar-se de membros da antiga resistência.

A segunda ameaça vinha de Cuba: revelar em meu romance autobio­gráfico a identidade daqueles que me haviam confessado sua rejeição ao sistema podia representar para eles brutais represálias. Adotei en­tão precauções em ambos os sentidos, e por isso modifiquei os nomes de vários personagens e os locais onde ocorreram as cenas.

Poderia dizer que foi a ameaça de ambas as ditaduras latino-americanas o que terminou por converter minhas memórias em um romance au­tobiográfico, ou que o texto inicial optou por mudar de gênero para continuar contando sua verdade.

Reitero que cheguei à ilha de Fidel Castro fugindo de Augusto Pi­nochet. A ilha era então a minha utopia. Pinochet, o meu pesadelo. A experiência me ensinaria que ambos eram ditaduras, e que não há ditaduras boas nem justificáveis. Todas são perversas e nocivas, inimigas do ser humano e de sua liberdade. Vivendo na ilha me dei conta de algo essencial: nada, só a literatura, era capaz de relatar as circunstâncias, a atmosfera e os estados de ânimo que me coube ex­perimentar na maior das Antilhas.

Só a literatura, aquela que surge do conhecimento profundo da alma humana e de suas paixões, suas mesquinharias e grandezas, era capaz de dar conta daquilo que eu presenciava. Disso provém também a causa última pela qual o gênero do romance nunca perderá vigência. Na ilha, não demorei a intuir que me propunha a narrar algo inenarrável para um gênero que não fosse o do romance. Intuí que nem os jornalistas nem os tu­ristas que passavam apressados por Havana poderiam captar a Cuba profunda nem relatá-la em toda sua complexidade.

Só alguém que conhecesse essa realidade podia aspirar a uma empresa como essa. Eu o fiz, ou tentei fazê-lo, a partir da perspectiva do jovem idealista e estrangeiro que fui, a partir da dor causada pela decepção política em idade precoce, a partir da dignidade de quem desafia a repressão mais por leviandade juvenil do que por convicção profunda, e a par­tir da esperança de que um mundo melhor é possível, um sentimento que continuo abrigando com altos e baixos no presente.

Existe outra reflexão que gostaria de fazer em relação a
“Nossos anos verde-oliva” : não existem outros romances autobiográficos sobre a Revolução Cubana escritos por latino-americanos que tenham se exilado na ilha e tenham conhecido a vida real da nomenklatura, da minúscula e debilitada classe média e do pauperizado proletariado cubano.

É curioso.

O que explica que não haja outros romances autobiográficos de estrangeiros?, costumo me perguntar.

Fomos mi­lhares os latino-americanos que, fugindo das ditaduras regionais de direita, procuramos refúgio no que era então nossa utopia política, a ilha da democracia popular, do progresso e do anti-imperialismo.

Já não resta mais ninguém dessas gerações na ilha. A maioria voltou para seu país ou usou Havana como ponte para alcançar a Europa Ocidental - Suécia, Alemanha, França, Itália -, raramente para aterrissar na Romênia ou na Bulgária de então, ou na União Soviética, chamada pela esquerda revolucionária de "a Mãe Pátria". Por que esse silêncio de tantos sobre uma etapa-chave da recente história latino-americana?

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Por que não há memórias ou romances autobiográficos escritos por essa migração política tão maciça que celebrem a experiência da vida diária na ilha?

O que impede o re­lato sobre essa época na qual, diante de nossos olhos, as opções do mundo aparentemente se reduziam ao capitalismo selvagem ou ao comunismo, a Pinochet ou Castro, a Stroessner ou Honecker?

Por que desses entusiastas exilados fidelistas não surgiram romances au­tobiográficos sobre a experiência de viver na utopia política?

Será o temor de ser acusado de "traidor"?

Ou o fato de que na política convém mais calar do que expressar verdades dolorosas? Ou uma repentina indiferença pós-Cuba, ou a decepção que nos causou a utopia que um dia abraçamos?

Continua a me assombrar o silencio sepulcral que até hoje é guardado por essa geração.

Uma das questões que surgem ao conhecer as reflexões políticas de autores como Milan Kundera, Heberto Padilla ou Herta Müllei, que viveram em regimes socialistas reais, é como se pode depois ma­nejar essa experiência produtivamente cm termos literários. Isto é, como se pode viver sem ficar paralisado ou empacado como autor no ressentimento causado pelas humilhações e pelos abusos sofri­dos, e pelas campanhas de descrédito que o estado ditatorial lança contra os intelectuais dissidentes por meio de jornalistas, agentes e simpatizantes.

Suspeito que o melhor antídoto para essa dor cau­sada por quem monopoliza sua pátria e emprega seus símbolos, sua história e seus recursos para reprimi-lo e desprestigiá-lo é escrever sobre a própria experiência que a originou. Trata-se, ao que parece, de converter a dor em memória, em literatura, em resistência.

Encarado sob essa perspectiva, isso se torna curioso: é como se a repressão estatal contribuísse para selecionar justamente os momen­tos culminantes da dor, como se mostrasse ao escritor, além disso, qual é a dor mais comum e a angústia mais generalizada entre as ví­timas da sociedade ditatorial.

É por meio desse relato, que no fundo mapeia e orienta o poder político ditatorial, que o intelectual - de sua pátria ou do exílio forçado - estabelece a comunicação com ou­tros seres humanos e alcança o universal através do individual.

Nesse sentido, reler de novo e ampliar “Nossos anos verde-oliva” é algo que me revigora, me faz visualizar com maturidade e objetividade essa etpa e compreender a verdadeira dimensão das cruéis encruzilhadas em nos encontrávamos como jovens da Guerra Fria, uma época que a renúncia ao compromisso político original era considerada traição, o exame crítico dos ideais significava passar para o lado do inimigo, e abandonar a utopia podia representar a morte.

A publicação deste romance me fez enfrentar dissabores com regime cubano e seus defensores, mas principalmente me trouxe alegrias e satisfações. Uma das maiores satisfações é saber que expressei, por meio dessas evocações, um compromisso universal com os direitos humanos, as liberdades individuais e a democracia sem sobrenomes, assim como minha rejeição a todo tipo de ditadura, seja esquerda ou de direita.

É uma lição para toda a minha vida, pois quando jovem acreditei de pés juntos que havia ditaduras detestáveis e outras que eram, apesar de tudo, justificáveis.

Outra coisa me ficou evidente enquanto escrevia este romance : que os anos vividos em Cuba, particularmente os últimos, quando caí em desgraça e não tinha teto, comida ou passaporte, me prepararam para enfrentar as inclemências e os golpes da vida, e também me ensinaram a desfrutar das pequenas coisas que ela oferece.

Lem­bro-me hoje de como fiquei feliz quando dispus de uma lata vazia de refrigerante ocidental que me foi presenteada por um turista e que me serviu como floreira na cabaninha em que me refugiei, ou do prazer com que saboreava uma fatia de pão de centeio que por meio artes escusas conseguia às vezes em uma loja para estrangeiros, ou do extremo cuidado com que lavava a única guayabera que tive na ilha, comprada com dólares que consegui no mercado negro.

E que dizer da gratidão emocionada com que aceitava a pequena xícara de café que me era oferecida por amigos cuja cota não dava nem para própria família...

Mas a proibição de entrar em Cuba me priva também de algo mais : de meu direito de apoiar pacificamente e em seu próprio território os cubanos que exigem a mesma coisa que nós, chilenos, exigimos sob a ditadura dc Pinochet: eleições pluralistas, democracia, direitos humanos, fim do exílio, justiça para todos, reencontro nacio­nal. Não conheço nada mais acertado sobre o destino de Cuba do que as históricas palavras pronunciadas por Salvador Allende sobre o futuro do Chile, em 11 dc setembro de 1973: "Muito mais cedo do que tarde, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre para construir uma sociedade melhor".

Confio real­mente que nesse momento eu possa estar em Havana. Desse modo, vou poder compartilhar a celebração do nascimento da democracia na ilha e, como diz a canção de Pablo Milanês, "em uma formosa praça liberada vou me deter para chorar pelos ausentes".

A experiência do Chile de Pinochet, da Cuba dos Castro e da escrita deste romance me ensinaram algo mais: não há nada que se pareça mais com uma ditadura de direita do que uma ditadura de esquerda, não há nada mais parecido com o fascismo do que o co­munismo, nada mais parecido com o hitlerismo do que o stalinismo. Para o cidadão comum, as ditaduras são todas iguais.

Para aquele que aguarda o interrogatório em uma célula da segurança do Estado, dá na mesma se seu torturador é de esquerda ou de direita, se é reli­gioso ou ateu, se acredita no comunismo ou na segurança nacional, se leva no cinto uma Kalashnikov ou uma Luger, se foi formado na antiga Bucareste ou em uma sala de aula da antiga Escola das Amé­ricas do Panamá.

Para esse ser humano sentado em uma cadeira com as mãos aladas às costas, cuja família ignora quando irá voltar, tudo isso dá na mesma. O terror e a dor, a angústia e o sofrimento, a impotência e a arbitrariedade que experimentará nesses calabouços serão simplesmente uma afronta à espécie humana.

Nesse instante, todas as ditaduras são uma e a mesma, e toda dor que o ser humano sofre diz respeito à humanidade em seu conjunto, não importa quais sejam as convicções políticas.

Enquanto releio este manuscrito, pergunto-me o que leva o ser humano, ou melhor dizendo, o que leva tantos seres humanos a condenar uma ditadura de direita e a celebrar ao mesmo tempo uma ditadura de esquerda.

Que retorcido mecanismo mental os conduz a denunciar o abuso, a tortura, a marginalização, o escárnio, o exílio, a repressão e o assassinato daqueles que pensam de modo diferente sob uma ditadura de direita, mas os faz justificar essas mesmas medidas contra aqueles que se opõem a uma ditadura de esquerda?

O que leva uma pessoa a condenar um general que dirige durante dezessete anos um país andino com mão de ferro e a elogiar em contrapartida um comandante que há cinquenta anos comanda de igual modo uma ilha?

Será que isso se deve à ignorância, à hipocrisia ou ao oportunismo, ou a uma lealdade mal-entendida em relação a bandeiras ideológicas, à postergação da realidade diante da utopia indivíduo em relação à massa, ou simplesmente à exacerbação extrema da falta de humanidade de nossos dias?

Da janela de minha cabana, examino uma curiosa foto que foi cada há algum tempo pelo portal eletrônico da Presidência da República do Chile. Aparecem nela o presidente de Cuba, Raúl Castro, e a então presidente do Chile, Michelle Bachelet. Ambos estão no estande chileno da Feira Internacional do Livro de Havana, o único lugar em toda a ilha onde meus livros foram expostos alguma vez. O general ergue em sua mão, diante da imprensa internacional um exemplar de “Nossos anos verde-oliva”, enquanto parece dizer à ex-mandatária que não é verdade que o romance esteja censurado na ilha.

Minha presidente parece estar constrangida, insegura. Ignora,  mas duas horas depois Fidel Castro, um de seus personagens admirados, lhe causará grande embaraço ao revelar a conversa particular que teve com ela sobre a demanda boliviana de acesso ao mar através do Chile. Observo a foto sob o sol do golfo e sinto que Bachelet, porque viveu na ex-Alemanha Oriental, que aquele livro, este livro, é sem dúvida proibido em Cuba. Por experiência, ela sabe que os regimes comunistas não toleram a menor crítica ao sistema.

Mas o importante dessa fotografia não são os chefes de Estado conversando no Caribe, mas o magnífico poder irradiado pela literatura nessa cena. Castro, que sabe que este romance é leitura clan­destina e obrigatória na ilha, exibe-o sugerindo que não há censura.

A mandatária não sabe o que fazer. Talvez solicitar timidamente a livre circulação do romance de um compatriota seu na ilha de sua utopia? Ou quem sabe dobrar-se dissimuladamente à estratégia dos Castro de que não existe censura em Cuba, prejudicando-me de pas­sagem com isso? Ou agir simplesmente como se a censura de livros chilenos não fosse da incumbência de um mandatário chileno em uma feira do livro dedicada ao Chile?

No final, a então presidente, talvez com o objetivo de não irritar seus anfitriões, opta por ignorar o ingrato fato de que em Cuba estão proibidas, junto com os meus ro­mances, as memórias de Pablo Neruda, e as de Jorge Edwards, por­que se referem - as de Neruda, de modo oblíquo - criticamente ao castrismo. Edwards e eu esperamos a distância, em vão, que na Feira Internacional do Livro de Havana Michelle Bachelet condenasse, mesmo que fosse com luvas de pelica, a censura às nossas obras, como em vão esperaram as corajosas Damas de Branco e os admi­ráveis dissidentes cubanos que ela se dignasse a recebê-los nessa sua visita para trocar algumas palavras, ou obter pelo menos um gesto de comiseração de uma mulher que trinta e cinco anos antes sofria a repressão de Pinochet como eles sofrem a dos Castro na atualidade.

Nunca imaginei que uma mandatária chilena que foi vítima da dita­dura militar e que lutou pela recuperação de nossa democracia viesse a ser incapaz de elevar a voz diante do ditador que mantém a censura sobre obras escritas por Neruda, Edwards e por mim.

Seu silêncio como representante de nossa nação foi e continua sendo doloroso e inexplicável para mim.

A rigor, enquanto escrevia “Nossos anos verde-oliva”, nunca me passou pela cabeça que essas memórias me colocariam um dia na lista negra de um regime, me converteriam no alvo das desqualificações de seus entes e asseclas, e que encontrariam tantos leitores no mundo. Esta história inicialmente não aspirava a ser publicada. Eram memórias sem pretensões, concebidas para permanecer entre os álbuns fotográficos da família.

Foi um editor chileno-guatemalteco, em algum momento comunista como eu, que me convenceu de que eu não tinha o direito de manter em meu criado-mudo uma etapa da história latiino-americana absolutamente desconhecida.

Custou-me aceitar e entregar estas páginas à editora, mas depois o tempo terminou dando razão ao editor.

Hoje o romance circula pela América Latina e por países europeus, e, o mais importante, é lido também, embora clandestinamente, na ilha.

Nestas páginas - como em minha vida de então o poeta Heberto Padilla desempenha um papel essencial. Trata-se de algo para mim inesquecível: ele e sua esposa, a pintora e poetisa Belkis Cuza Malé ofereceram-me em seu pequeno apartamento de Marianao, Havana, generoso refúgio em meus piores anos de beduíno sem teto nem caderneta de racionamento. Tudo isso está nestas páginas. O que escapa delas é a ligação telefônica de Heberto, em 2000, três dias antes de sua morte, para minha casa em Iowa City. Acabava de ler o livro, de se ver refletido nele, e por isso ligava.

E escapa também destas páginas o fato de que, em 1993, Heberto, já instalado nos Estados Unidos, visitou o Chile e ficou impressionado com a prosperidade e a estabilidade da jovem democracia. Quatorze anos antes, havíamos nos despedido por telefone, em Havana, de maneira apressada, sabendo que seu aparelho estava grampeado e que não voltaríamos a ver-nos na ilha, e agora, em 1993, tinha o privilégio de recebê-lo em minha casa chilena de Vina Del Mar.

Na suíte do mirante, passou dias escrevendo, lendo e contemplando o Pacífico, e conversando com minha mulher e comigo, desencavando lembranças que entrariam neste volume. Anos mais tarde, quando ambos residíamos nos Estados Unidos, voltamos a nos encontrarar em Miami.

Mas agora estamos de novo em um dia do ano 2000. Heberto me liga do Alabama, onde ensina literatura em um colégio particular. É um sábado de manhã, e ele tem tempo para comentar este livro e me falar de seu desejo de visitar a ilha. Está obcecado pelo desejo de vê-la. Não lhe importa o preço que tenha de pagar. Precisa sentir que não a está deixando para o regime. Talvez seja a morte próxima que lhe exige voltar para sua terra. Morreu sem poder voltar a ela. Outro crime dos Castro. Não há pior castigo do que despojar alguém de sua pátria, de seus amigos, suas tradições e sua paisagem.

... a partir daqui o livro se encaminha para seu emocionante final ....

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Comentários :

O personagem do General Ulises Cienfuegos foi baseado no General Fernando Florez Ibarra (1930-2012), o "Poça de Sangue" (Charco de Sangre).

Em 2001, Florez veio a público ( em entrevista ao jornal “La Tercera” do Chile ) criticar duramente o livro de Roberto (seu ex-genro) e, num momento de absoluta arrogância, assumir as mortes a ele atribuídas.

Disse ele :

"El personaje está basado en mi persona. Y mi comentario sobre eso es que Roberto Ampuero es un miserable. Es la primera vez que hablo en público sobre él, pues por asuntos muy personales no había querido nunca salirle al paso".

"Ampuero sería hoy un don nadie si no hubiese tenido la suerte de vivir en Cuba. Gracias a la Revolución cubana y a sus suegros tuvo casa, comida y ropa limpia. Con el sustento resuelto, se dedicó a sacar provecho de la nueva beca obtenida. Y una vez concluida la meta de ser profesional, con el título de licenciado bien seguro bajo el brazo, salió de Cuba, dejando atrás dos hijos, uno de ellos de su matrimonio fracasado, de quienes poco o nada se ocuparía en lo adelante".

"Su salida de La Habana no fue en nada traumática, riesgosa o plagada de amenazas. Salió como todo viajero común y corriente, con su pasaporte y su equipaje, rumbo a Alemania -la otra, la Federal. Allí, en contra de lo que su libro relata, se mantuvo en amistoso contacto con la Embajada de Cuba. Por supuesto, no podía ser de otro modo, aún le era útil conservar un aura progresista; pues no hay que olvidar que en esos años -principios de los ochenta- el socialismo europeo no daba señales del descalabro que ocurriría un lustro más tarde y para un redomado oportunista es imprescindible estar bien con Dios y con el Diablo".

"Esas muertes no me han quitado el sueño. Jamás he dejado de dormir un minuto, ni siquiera en la siesta. ¿Sabe por qué? La mortalidad infantil en mi país es de sólo siete por cada mil habitantes. Es decir, con la revolución le hemos salvado la vida a cientos de miles de niños".

"Cuando América Latina, siguiendo órdenes de los yanquis, rompió relaciones con Cuba, a excepción de México, nos sentimos con las manos libres para tomar cualquier actitud frente a los países que nos habían despreciado". "Lo que sí sé es que ayudamos y que dimos instrucción militar y que eso no se lo hemos negado a nadie".

"La revolución cubana no va a finalizar con Fidel, porque está afincada en vínculos muy sólidos. Sea cual sea la situación, sería tan grande la resistencia que costaría demasiados muertos al enemigo. Y nuestro enemigo no arriesga muertos".

Roberto então deu a resposta :

Hace pocos días Fidel Castro afirmó por la televisión cubana que los países que condenaron a su régimen ante la Comisión de Derechos Humanos de Naciones Unidas -entre los cuales se encontraban las principales democracias europeas, así como Costa Rica y Argentina- merecen irse por "el inodoro". El pasado jueves, imitando el tono soez y descalificador de su líder, el ex fiscal de la revolución cubana, Fernando Flores Ibarra, empleó en páginas de este diario el mismo estilo innoble para referirse a mi persona.

Por respeto a mi familia, a la opinión pública y a mí mismo no voy a ingresar al terreno de las descalificaciones personales con un hombre acostumbrado a ellas y que cuenta con el triste prontuario, del cual se vanagloria, de haber enviado al paredón a cientos de personas. Todo tiene un límite en la vida y, como aprendemos desde la infancia, hay seres con quienes sencillamente no se discute. Hacerlo es colocarlos a nuestra altura, concederles un favor. Por ello me remitiré sólo a lo sustancial.

El estilo empleado por Flores Ibarra retrata de cuerpo entero al régimen castrista: ante la ausencia de argumentos, recurre a la difamación y la ruindad moral para intentar descalificar a quienes piensan diferente. Los opositores son "enemigos en una guerra", el exilio cubano es "la escoria", los activistas por los derechos humanos en la isla son "lacayos del imperialismo", y quienes -como yo- exigen democracia son unos "miserables".

Ningún crítico al régimen de Castro es una figura respetable. Tras 42 años de dictadura, el castrismo no es capaz de mencionar a ni un sólo opositor que considere honorable y merezca el derecho de organizar un partido opositor en la isla.

El fiscal, que no desmiente haber ejecutado al menos a un centenar de personas, sale dos años después de la publicación de mi novela "Nuestros años verde olivo" a la palestra pública alegando que él es el personaje Ulises Cienfuegos, y que eso lo perjudica. En verdad eleva su voz en mi contra pues le irrita mi acción pública en favor de la democracia para Cuba y el hecho de que mi novela circule clandestinamente en Cuba. Pero, en rigor, no es cierto que Flores Ibarra sea el personaje de la novela. No lo es, porque no me interesaba describir a una persona real -con la cual, además, dejé hace 25 años de tener un vínculo familiar-, sino crear estéticamente un protagonista revolucionario, un ente de ficción, como fenómeno social.

El fiscal no es Cienfuegos. Este luchó en el Ejército Rebelde, mientras que Flores Ibarra se sumó después del triunfo revolucionario al castrismo; Cienfuegos es embajador en la Unión Soviética; Flores Ibarra jamás lo fue; Cienfuegos está casado con una intelectual cubana, Cienfuegos con una empresaria chilena; Cienfuegos tiene cargo de conciencia a ratos por las muertes que ha ordenado, Flores Ibarra, como lo reiteró en la entrevista, no pierde el tiempo en contar el número de sus víctimas; Cienfuegos muere durante un viaje a Madrid en los años noventa y, por lo que veo, Flores Ibarra está vivito y coleando, pero no en el socialismo cubano, que tanto elogia y admira, y que no deja salir a millones de sus compatriotas, sino en el modelo capitalista y neoliberal de Chile. En lo que sí coinciden Cienfuegos y Flores Ibarra es en que ambos han ejecutado a personas y llevan un mote indeleble en la historia cubana: "Charco de sangre".

Es sorprendente que Flores Ibarra, que afirma "no haber perdido un minuto de siesta" pensando en sus víctimas y el dolor de sus familiares, quiera hacernos creer que su prestigio -¡si alguien así puede tenerlo!- se ve afectado por una novela, que no lo menciona, y un personaje de ficción que no es él. No son "Nuestros años verde olivo" y Ulises Cienfuegos quienes constituyen el problema de Flores Ibarra -ojalá el suyo fuese un problema literario-, sino sus centenares de muertos y condenados a cadena perpetua, la mayoría de los cuales tuvieron procesos que no duraron 48 horas. Y Flores Ibarra, de quien hablo públicamente por primera vez y sólo porque él está embarcado en una vasta campaña de descrédito en mi contra, no es un tema para mí, sino más bien para la futura justicia en una Cuba democrática.

Yo viví, estudié y trabajé en Cuba, y esa experiencia, reflejada en "Nuestros años verde olivo", me hizo renunciar a mi militancia comunista. No soy yo el que ofende a Cuba con la descripción de su régimen, sino éste con sus 42 años de existencia. Precisamente porque conocí la isla y a su magnífica gente es que me siento comprometido con la lucha de los cubanos del exilio y la isla por la democracia. La acusación de "malagradecido" es un manido recurso castrista, que Flores Ibarra utiliza para intentar desprestigiarme.

Encierra un concepto canino del ser humano: te doy comida, trabajo y adiestramiento, pero te quedas en mi patio y me eres fiel de por vida, o de lo contrario te declaro traidor a la patria. Eso es tan absurdo como acusar de traidores a la patria a Gladys Marín, Volodia Teitelboim o Camilo Escalona por aspirar a transformar el orden imperante en Chile después de haber estudiado, comido, trabajado y consultado a un médico en una posta de Santiago. La entrevista del fiscal es una lección para quienes aún sientan simpatías por el régimen de La Habana, pues revela la mentalidad totalitaria que guía a sus líderes y el desprecio absoluto que sienten por la vida de quienes piensan diferente. Muestra, además, que pese a vivir desde hace años en Chile, Flores Ibarra no ha aprendido nada de la percepción extremadamente crítica que tiene aquí la opinión pública de los violadores de derechos humanos. Por suerte cuento con pasaporte chileno y no vivo en Cuba, de lo contrario, gracias a "Nuestros años verde olivo" y Cayetano Brule, hubiese incrementado el número de ejecutados que no le quitan el sueño al fiscal.

Esa entrevista debe enseñarse como texto cumbre del pensamiento totalitario contemporáneo. A quienes pretenden el cambio en la isla -que son millones, de lo contrario habría elecciones libres- el fiscal no les ofrece la posibilidad de organizarse políticamente para competir por las preferencias de los cubanos, sino que les amenaza con balas, corvos y muertos. El régimen está supuestamente en guerra desde hace 42 años y los disidentes son el enemigo. Por favor: la trayectoria de Flores Ibarra es de una perversidad asombrosa: la inició con la ejecución de cientos de personas para imponer el socialismo estatista, la continuó en la diplomacia defendiendo al régimen con el que se identifica, y desemboca finalmente en el barrio alto de Santiago de Chile, en el capitalismo que combate. Aquí goza hoy de las oportunidades que le ofrece la economía chilena, de la libertad de entrar y salir de Cuba -como no puede hacerlo el resto de los cubanos- y se permite el lujo de difamar a un novelista y periodista chileno, que exige algo elemental: elecciones libres para los cubanos.

Tal vez coincidimos al menos en dos cosas con Flores Ibarra: La primera, en que ambos financiamos parte de nuestra existencia con recursos que surgen de la economía chilena. Y la segunda, en que ambos sabemos que es preferible vivir en el capitalismo a hacerlo en el socialismo que se construyó con la ayuda de las ejecuciones de quien tiene un apodo escalofriante e imborrable en la memoria de todos los cubanos.

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Ibarra é autor de “Yo fui enemigo de Fidel”. O título levar  acreditar que Ibarra e Fidel eram inimigos. No “Nossos anos verde-oliva”, Roberto explica as circunstâncias desta tal “inimizade” e como ela acabou “beneficiando” Ibarra.