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Hino do Blog : " ...e todas as vozes da minha cabeça, agora ... juntas. Não pára não - até o chão - elas estão descontroladas..."
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Sunday, April 15, 2012

Conto Travesti - O personagem e as ruínas


Eu estou participando de uma Oficina de Contos ministrada pela escritora Cintia Moscovich, aqui em Porto Alegre.

No primeiro dia de aula a professora colocou como desafio a criação de um personagem que deverá aparecer em todos os contos que iremos escrever durante a Oficina.

A cada aula ela estabelece um título e nós temos que desenvolver uma história a partir daí.

É uma coisa muito louca pois não sabemos o que ela vai definir como mote para  o conto semanal.

Já estamos no conto numero cinco .

O personagem que eu criei é o Francisco / Talitha,  um  travesti perigoso.  

Até agora o personagem apareceu como crliança, adulto e adolescente - não sei se aparecera como velho e/ou se morrerá no final da Oficina.

Esta é minha primeira oficina de contos, portanto não tenho nenhuma pretensão de me apresentar como um sábio escritor. 

A verdade é que, depois de reler o que submeti à mestra, fico chocado por ter deixado passar várias  coisas que não me agradam.  Mas, como se diz, bola pra frente.

O primeiro título é : O PERSONAGEM E AS RUINAS

( Obs : Maria Degolada e Azenha são bairros de Porto Alegre)

Depois de caminhar desde a Maria Degolada até a Azenha, Francisco sentou-se na imponente escadaria da Igreja Universal da Oscar Pereira e amaldiçoou sua mãe.
- Aquela puta... puta.
 Sua cara ainda ardia com a marca da última porrada.  Maria era um mulher grande e sua mão tinha o peso de um tijolo. E ela sabia bater. Fechava a mão e baixava a lenha  sem dó, sem cuidar onde os golpes pegavam. Francisco tentava se proteger, mas seus braços finos, quase raquíticos, eram escudos de ar frente à força heróica da mãe.

 Sentido o sal amargar sua boca, chacoalhou a cabeça como se quisesse expulsar da moleira os berros histéricos  daquela vadia.

-  12 anos e já é puto ? Meu Deus, o que eu fiz para merecer isto ? Um filho veado que quer ser mulher ? Já não basta eu ter me fodido com aquele bosta de negrão do teu pai, agora ainda tenho que aturar isto ? Aqui em casa  não ! Se tu quer ser puto, vai ser na rua !

Novamente foi pego os beijos com Walace – o garoto de 15 anos que morava no barraco ao lado. Na primeira vez Maria o tinha trancado no quarto e aplicado uma sova que o deixou doído três dias.

Porém desta vez sua ira foi maior ao ver o filho borrado com sua maquiagem, querendo parecer uma menina. E ainda por cima com algumas piranhas coloridas no cabelo

Furiosa, a mulher avançou para os garotos que recuaram em pânico. Walace esquivou-se e fugiu porta afora. Mas Francisco acabou sentindo o trato especial  daquela mão gorda  diretamente na sua cara antes de também saltar rumo à rua.

Na luz do dia sua cabeça foi  tomada por um zunido misturado com dor e ódio. Sem notar, cambaleou  pelas vielas e becos alheio às piadas, xingamentos e propostas obscenas que algumas pessoas faziam ao ver sua  pequena figura mal travestida

Agora se achava ali, sentado nas escadarias da Igreja onde ele e sua mãe frequentaram  alguns cultos no passado, quando ainda pareciam se dar bem.  Sentia-se perdido.  Uma boca de abandono e solidão corroía suas tripas.  Tentou ter idéia do que fazer mas seu pensamento parecia um rato atropelado na poeira. Sentia sua cabeça diminuir,  afundar num buraco de fraqueza e impotência

Voltar para aquela vaca lhe parecia a pior coisa do mundo. Mas ir para onde ? Ir para a casa da avó seria pior, pois a velha só sabia falar de Jesus e Bíblia, e ele achava tudo aquilo uma merda.  Deixou-se ficar por ali numa apatia desalmada até que o acender das luzes da igreja dissipou a escuridão que o envolvia

- O que tu ta fazendo aí ? 

A voz autoritária  e  coberta de repugnância  do irmão obreiro  o assustou.

- Nada

- Tu não pode ficar aqui. Te manda

Francisco levantou-se, olhou em volta, hesitou e debilmente tomou o rumo de casa. Sentia seus miolos rompidos,  boiando soltos num valão negro. Já sabia o que esperar

No caminho,  indiferente às buzinas e ao trânsito insano do anoitecer,   olhava para as luzes das ruas e tinha a impressão que cada lâmpada acesa correspondia a uma que se apagava no seu peito.

Friday, April 13, 2012

Peugeot - Comercial escroto


 É inacreditável o comercial da Peugeot onde dois vendedores espertos abusam da boa vontade e ingenuidade do estagiário e o colocam numa situação onde ele acaba agredido e desmaiado.

E, além de não o socorrerem, fazem um comentário depreciativo e jocoso sobre o corpo do garoto.

E isto é colocado como uma "brincadeira".

O que a Peugeto quer mostrar com isso ?

 Por acaso é para dar risada ?

 Quem acha este tipo de humilhação engraçado ?

 Me desculpem, mas neste caso eu sou completamente sem senso de humor.  

 Será que é desta maneira que a empresa trata seus estatiágiários?

 Esta é a diretriz  de pessoas  da marca francesa ?  Tratar os iniciantes como imbecis ?   

É para dar exemplo para outras empresas de como é sua política de Recursos Humanos ?

Eu já tive um Peugeot e digo que foi um dos melhores carros que conheci. 

Mas depois desta propaganda  nojenta, repulsiva , agressiva,  e imbecil perdi todo o interesse pela marca. 

Escrotidão total !

Vejam alguns links com o povo indignado.




Monday, April 09, 2012

Livro - A Restauração das Horas / Paul Harding


Capa

Pode um livro de apenas 150 páginas ser looooooongooooo, morooooosoooo, devagar ?

Daqueles que o leitor tem que  remar, e remar, e remar para seguir adiante ?

“A restauração das horas”, de Paul Harding, vencedor do Prêmio Pulitzer, 2010, é .

Aquele  que começa a ler a  “A restauração” logo  é colocado diante de um desafio pois a  escrita  impede uma leitura fluída, tranqüila. 

Para avançar, perseverar no texto, o leitor tem que abrir /alcançar  um espaço mental onde a paciência, a mansidão  a placidez sejam exercitadas.

O livro foi rejeitado por diversas editoras por ser considerado “anti-comercial”.  Paul só conseguiu publicá-lo em 2009 pela Bellevue Literary Press, uma pequena editora sem fins lucrativos.  


Até ser premiado o livro tinha passado quase despercebido e vendido muito pouco, o que mudou depois do Pulitzer, é claro.

Li algumas entrevistas do Paul onde ele diz que o leitor moderno não tem tempo para uma escrita mais reflexiva, lenta, devagar.  Concordo (eu não tenho).

 Se falarmos em termos de história, “A restauração” conta os últimos dias de vida de George, relojoeiro  que está resa a uma cama de hospital instalada na sala da sua casa.. 
Rodeado pela família, George delira num labirinto onde recordações e situações presentes se sobrepôem, se  embaralham. 

Em paralelo também surge a história de Howard, seu pai – caixeiro viajante  e epilético, que também tem seus momentos de delírio – e também de seu avô, um pregador meio insano.

Tudo é permeado por longas passagens descritivas da natureza, do funcionamento das engrenagens dos relógios e de outros assuntos aleatórios, como por exemplo,  construção de ninhos para pássaros..  

Isto causa um estranhamento em quem lê.

Paul Harding
Em vários momentos o indivíduo se vê frente a frente com longos parágrafos que atravancam a leitura e, grosso modo, nada acrescentam à história.

Mas a jogada é outra.

Na verdade nessas situações o leiitor tem que desacelerar, puxar uma primeira, se concentrar, respirar fundo  e entrar em outro ritmo mental.

É difícil, confesso (principalmente os períodos sobre os relógios) .

O curioso é que a passagem / a utilização do tempo - que é a idéia central da obra - acaba sendo um elemente decisivo na leitura do livro. 

Tipo, o dilema é :  vou tirar um tempo para continuar a ler (com um certo esforço), ou não tenho tempo para estas viagens e vou largar esta jossa agora.

Confesso que oscilei de um lado a outro em vários momentos.

Interessante, não ?

Mas a questão final  é : vale a pena ?  A princípio digo que sim. Mesmo diante das dificuldades, no conjunto a obra tem seu fascínio.

Para dar uma idéia do que o leitor enfrenta, transcrevo abaixo três passagens :

1 ) Aqui o texto mostra o poder do autor em descrever o humano. - Nesta passagem Howard fala do "desaparecimento" do seu pai. Uma situação onde, mesmo estando "por perto", a sensação do jovem é de que o pai era um fantasma que já não"estava ali". Achei genial.
"Eu tinha a impressão de que meu pai simplesmente se dissipara. Ficara cada vez mais difícil de se ver. Um dia, achei que ele estivesse sentado na cadeira diante da escrivaninha, escre­vendo. Ao que tudo indicava, escrevia qualquer coisa numa folha de papel. Quando lhe perguntei onde estava a bolsa para colher maçãs, ele desapareceu. Eu não sabia se ele tinha estado realmente ali, ou se eu fizera a pergunta para uma espécie de imagem, um resquício de meu pai que persistira por lá. Ele escoou deste mundo aos poucos, porém. No início, parecia apenas um pouco vago ou periférico. Mas depois já não conseguia servir como um suporte adequado para suas roupas. Ele surgia por trás e me fazia uma pergunta, eu sentado num caixote abrindo vagens ou descascando batatas para a minha mãe, e quando eu respondia e não recebia qualquer réplica, virava-me e encontrava seu chapéu, cinto ou um único sapato sob o batente da porta, como que deixado ali por uma criança travessa. O fim veio quando já sequer conseguíamos vê-lo, apenas senti-lo em breves perturbações de sombras ou luz, ou como uma leve pressão, como se o espaço que ocupávamos contivesse de súbito algo mais, ou captávamos um aroma fraco e fora de estação, como o da neve derretendo a lã de seu casaco de inverno, mas ao meio-dia em pleno agosto como se nas últimas vezes em que o senti como um outro se em vez de uma memória ele tivesse pensado em vir conferir este mundo no momento errado, saindo por acidente do local de inverno em que se encontrava e vindo diretamente para o meio do verão. E é como se, ao fazê-lo, só confirmasse que estava destinado a desaparecer, sua presença no lugar errado, de modo que nessas visitas alarmadas, embora eu não o visse, podia notar sua surpresa, seu desconcerto, o pavor sentido num sonho em que encontramos de súbito um irmão esquecido ou nos lembramos da criança que deixamos ao sopé da montanha a quilômetros de distância, horas atrás, porque de alguma forma nos distraímos e chegamos a acreditar numa vida diferente, e nosso choque durante essas memórias terrív0eis, esses encontros súbitos, surge tanto do sofrimento pelo que negligenciamos como do horror por termos acreditado em outra coisa tão depressa e tão profundamente. E esse outro mundo com que sonhamos primeiro é sempre melhor se não for real, pois nele não rejeitamos uma amante, abandonamos um filho, demos as costas a um irmão. O mundo se desprendeu do meu pai assim como ele se desprendeu de nós. Nós nos tornamos seu sonho."
2 ) Descrição da Natureza. Howard na natureza (Bonito. Quase "sensitivo". Mas precisava tanto ?),

"A chuva da primavera transformava em charcos temporários os sulcos profundos das trilhas abandonadas. A água chegava à altura das canelas e tinha uma cor férrea, turva. Howard por vezes tinha que atravessar um charco, pois cruzava toda a extensão da estrada, entrando na mata. Atravessava com dificuldade, seus pés levantavam do fundo nuvens leitosas, cor de ferrugem, das quais brotavam cardumes de girinos verdes perturbados em suas evoluções rápidas e frágeis. O batuque de um pica-pau ressoava em algum ponto da mata à esquerda de Howard. Pensou em deixar a trilha para encontrá-lo, mas decidiu não fazê-lo. O mato cobria as laterais elevadas da trilha nas partes em que não estava submerso na água metálica. Howard seguiu aquele caminho estreito. A trilha tinha sido mais ou menos reta um dia, mas ao longo dos anos, depois de abandonada, o bosque a desviara, empurrando partes para a esquerda ou para a direita, entortando-a e cobrindo-a pelo alto, de modo que segui-la era como atravessar um túnel. As copas das árvores filtravam a luz do céu em quantidade variáveis. Os ramos dos bordos, carvalhos e bétulas se inclinanavam sobre a trilha, aproximando-se e se entrelaçando e ficando quase indistinguíveis, as folhas mescladas pareciam compartilhar ramos comuns, como se, depois de tantas estações baralhadas, as árvores tivessem se enxertado umas nas outras, tornando-se uma planta única que produzia folhas de várias espécies. A luz ficava retida acima da cabeça de Howard, cintilante e abundante. Muito poucas gotas de luz conseguiam atravessar o emaranhado e chegar à grama. Em dois momentos, Howard passou por lugares em que a luz jorrava até o chão e lá se acumulava o primeiro num ponto em que havia um enorme carvalho seco, e depois onde um raio rachara um abeto gigante.
O que parecia ser o fim da trilha era, na verdade, apenas um desvio para a esquerda ou para a direita, um declive ou uma subida gradual. E o modo como as nuvens se moviam, quase sempre invisíveis, sobre o dossel das árvores, ora a revelar a luz plena do sol, ora a obscurecê-la, ora a difundir ou refletir a luz, e o modo como reluzia e gotejava e jorrava e inundava e girava, e o modo como o vento a dispersava ainda mais entre as folhas trêmulas e o mato inquieto, tudo se combinava para dar a Howard a impressão de que caminhava em meio a um caleidoscópio. Era como se o céu e o chão dessem voltas em círculo à sua frente, de tal forma que a terra, ao balançar para o alto, sobre o céu, deixasse cair folhas e navalhas de relva e flores silvestres e ramos de árvores sobre o azul e, ao descer de volta a seu lugar, recebesse por sua vez uma precipitação de nuvens e luz e vento e sol vinda do firmamento. Céu e terra estavam ora em seu lugar habitual, ora lado a lado, ora invertidos, ora endireitados novamente num rodopio contínuo e silencioso. Animais descuidados avançavam devagar por essa mata giratória; pássaros e libélulas pousavam em galhos e partiam de volta para os céus; as raposas pisavam em nuvens e retornavam ao piso da floresta sem cessar; e um milhão de caudas de girinos se agitavam, descendo do teto aquoso e mergulhando de volta para seus ninhos lamarosos. A luz, também, se estilhaçava como um grande prato e se reu­nia e rachava outra vez, cacos e fragmentos e vidro vívido e feixes à contraluz giravam em permutas serenas e pacíficas e saturavam tudo o que Howard via, até que todas as coisas em si parecessem por fim se dissolver, suas formas contidas por nada mais que penas de luz colorida "
 3 ) Descrição dos mecanismos dos relógios  (estas passagens sem dúvida são as mais difíceis)

"O escapamento de um relógio consiste numa pinça ligada por um eixo, chamada âncora, e numa roda de escape situada acima de todas as peças do relógio. A roda é colocada na pon­ta final do trem de engrenagens. Esta é a parte do relógio que marca o tempo. Se o relógio bater badaladas, terá também um trem de percussão. O trem de percussão move e regula o mecanismo das batidas do relógio, que consiste, em termos simplificados, numa alavanca de destravamento, num mar­telo e num pedaço de ferro em espiral, que, quando acertado pelo instrumento, produz a badalada. As engrenagens rece­bem a energia vinda de uma mola. A mola, ou corda, é uma longa tira de metal achatado em forma de espiral. Ela fica presa, na parte mais interna, à espiral de uma árvore. Esta é girada com uma chave quando damos corda ao relógio. Para evitar que a mola se
desenrasque durante este procedimento, existe um dispositivo de catraca e uma lingueta de clique. Nos relógios mais modernos, a mola fica num cilindro de metal chamado tambor de corda. A mola passa então a se desenrascar, e a energia assim liberada é transferida a uma série de rodas e engrenagens que movem os ponteiros dos minutos e das horas no mostrador do relógio. Ao final deste ciclo encontra-se o escapamcnto. É aqui que a energia gerada pela mola finalmente escapa do relógio. É também onde se mantém a regularidade do passo do relógio; e assim volta­mos à âncora e à roda de escape. A energia passa pela roda de escape, que, situada ao final do trem de engrenagens, é a mais delicada, elegante e sensível das rodas. Ela transmite a energia, que foi domada por engrenagens sucessivas até pas­sar de força selvagem a servo civilizado, de modo a realizar a mais refinada das funções: cooperar com a âncora para mar­car precisamente cada um dos 86.400 segundos de nosso dia terreno, e, além disso, fazê-lo durante oito dias por vez, to­talizando 691.200 segundos, ou 192 horas. Esta cooperação, e cada um dentre essas centenas de milhares de segundos, é ouvida em nosso descanso como o tique-taque tranquilizan­te do relógio de mesa inglês numa noite de inverno sobre o fogo cálido da lareira. Se fizermos uma chamada de presença no correr dos anos, Huygens, Graham, Harrison, Tompion, Debaufre, Mudge, LeRoy, Kendall e, mais recentemente, o sr. Arnold, encontramos uma procissão humilde e variada, mas determinada e paciente, de almas lógicas, todas encurva­das sobre suas mesas de ofício, polindo bronze e calibrando engrenagens e esboçando ideias até que seus lápis se tornas­sem grafite em pó entre os dedos, todos para, aprimorando o ritmo da roda de escape, transformar e transladar com mais perfeição a Energia Universal. Escuta, horologista, os nomes dos mecanismos de escape destes homens: braço oscilante, deadbeat, tique-taque, grelha compensadora, gafanhoto, cre- malheira, gravidade, detenção por mola, vírgulas. A exemplo de nossos maiores menestréis, essas almas viris e sensíveis que abarcam colinas e atravessam madeira, que consideram as ovelhas pastando entre ruínas ancestrais e ali descobrem rima e métrica; em suma, que encontram a música dos mais doces versos, assim também nossos grandes relojoei­ros aprendem que a poesia reside no processo humano de destilar a civilização da natureza desenfreada ! Bem-vindos, companheiros bem vindos ! "

Thursday, April 05, 2012

Kate Bush & Wilhelm Reich - Cloudbusting


Kate Bush - Hounds of Love
Tomei conhecimento de Wilhelm Reich e seu trabalho na época em que seguia a doutrina do enlouquecido mestre indiano – já falecido – Rajneesh (posteriormente Osho).

Rajneesh compartilhava das idéias transgressoras de Reich sobre a força da energia vital  e sua relação com o comportamento humano (individual, coletivo, social, político, etc).

No humano esta energia encontra-se na base da espinha dorsal e pode ser "liberada"  de duas maneiras : através do sexo (o que é mais comum) , ou através de práticas especiais para "faze-la subir" pela espinha até atingir o cérebro e, assim,  "iluminar" a criatura (ou algo proximo disto).

De qualquer forma, atingir a harmonia desta força (identificada como sexual – criadora da vida ) seria fundamental para definir a felicidade e realização da pessoa. 

Tal energia abrange desde o conceito biofísico até o de força de vida universal, sendo uma substância sem massa, onipresente, e que sustenta a vida. 

Este fenômeno é celebrado em muitas religiões, filosofias e culturas sob vários nomes e / ou abordagens,  mas, grosso modo,  em todas possuem o mesmo sentido.

Wilhelm Reich
Reich chamava de “Orgonio”, a Yoga chama de “Kundalini”, a Teosofia de “Prana” , Kardec de “Fluído Cósmico Universal”, o Cristianismo de “Espirito Santo”, etc

Em seus estudos,  Reich afirmava que o bloqueio corporal do orgonio  ( devidamente controlado / destruído pela pátria, família e religião ) era  a raiz de muitos males  da civilização.

Teoria interessante,porém, de  qualquer modo Reich viajou na maionese e afirmou ser capaz de criar máquinas  para “manipular” o orgonio.

Uma chamava-se “acumulador de orgônio” e serviria para - entre outras coisas,  tratar doenças , especialmente o câncer.
Acumulador de Orgonio

Outra chamava-se  “cloudbuster" (estouradoura de nuvens) que serviria para  criar chuva.

Cloudbuster - Estouradoura de nuvens

Com idéias tão radicais é óbvio que Reich passou a ser alvo de perseguição e difamação,  o  que  – agravado por experiências laboratoriais não bem sucedidas (veja aqui) - ,  acarretou sua prisão (onde morreu em 1957)

Dele li apenas “O Assassinato de Cristo”, uma obra contundente que me marcou muito. Nela Reich trata do comportamento das massas idiotizadas que acabam indo de roldão na boiada da histeria e fanatismo. 

Mas aprofundar assuntos filosóficos, científicos e políticos de Reich  não é o objetivo deste post.

O que importa é que quando, em 1985, Kate Bush lançou “Hounds of Love” (até hoje considerado um dos melhores álbuns dela) fui pego de surpresa ao ouvir “Cloudbusting”, uma canção em homenagem a Reich e seu trabalho.

“CLOUDBUSTING” A CANÇÃO :

"Cloudbusting" é uma canção escrita , produzida e interpretada por Kate Bush e trata sobre  a estreita relação entre o psicólogo e filósofo Wilhelm Reich e seu jovem filho, Peter, contada através do ponto de vista de Peter já maduro.

Ela descreve as memórias do garoto com Reich na fazenda da família, chamada Orgonon, onde eles passavam o tempo “estourando nuvens”, um processo de criar chuva que envolvia mirar o céu com uma máquina projetada e construída por Reich, chamada “estourador de nuvens (cloudbuster.)

Mais adiante a letra descreve a repentina captura e prisão de Wilhelm Reich, como também a dor da perda do jovem Peter e sua tristeza por se ver incapaz de proteger o pai.

A canção foi inspirada pelo livro de memórias de Peter, "A Book of Dreams", de 1973, o qual impressionou Kate profundamente.

A referência sobre o “ioiô que brilha na escuridão” pode ser encontrada aqui.

“CLOUDBUSTING” O VÍDEO :

O video dirigido por Julian Doyle, foi concebido por  Terry Gilliam e Kate Bush como um curta metragem.

O curta apresenta o ator canadense Donald Sutherland interpretando o papel de Wilhelm e Kate como seu filho Peter.

O história inicia com pai e filho no topo de um montanha tentando fazer a “detonadora de nuvens” funcionar. Depois de um tempo Reich deixa Peter com a máquina e retorna ao seu laboratório.

Lá , em flashback, ele relembra as várias vezes em que ele e Peter se divertiram juntos trabalhando em vários projetos científicos, até ser interrompido por oficiais do governo que invadem o  laboratório e o prendem

Peter sente o perigo e tenta alcançar Reich, mas acaba indefeso olhando seu pai sendo levado embora. 

Num último adeus, de dentro do carro, Reich aponta a máquina para Peter.  O menino reflete e entende a mensagem.

Peter então retorna correndo para a cloudbusting e a aciona, fazendo a chuva cair.

De dentro do carro Reich maravilhado vê que a máquina funciona.

CURIOSIDADES A RESPEITO DO VíDEO :

As filmagens aconteceram em “The Vale of White Horse” em OxfordshireEngland.

Bush descobriu em qual hotel Sutherlando estava hospedado através do cabelereiro da atriz Julie Christie e foi até lá pessoalmente convidá-lo para participar do vídeo.

O video foi apresentado em alguns cinemas da inglaterra como curta metragem antes da atração principal.

Por causa das dificuldades de Donald obter um visto de trabalho rapidamente na Inglaterra, ele se ofereceu para atuar de graça.

A máquinas “estouradora de nuvens” foi desenhada pelos designers do monstro do filme Alien, e é apenas um pouco maior que a original.

O livro inspirador da canção aparece quando Kate tira um exemplar do “A book of dreams” do paletó de Reich.

Abaixo o vídeo legendado em português.

Tuesday, April 03, 2012

Filme - Jogos Vorazes




Cartaz com Jennifer Lawrence
 Fui  assistir “Jogos Vorazes”  sabendo pouco sobre a história. 


Sabia que se passava no futuro , em um pais chamado Panem onde hoje é  a América do Norte, onde rolava um reality-show mortal.


Depois de acabada a sessão sabia muito mais :
 
Neste país – dividido em 12 tribos ou comunidades -  todos os anos, em nome de manter a paz e evitar guerras – por motivos explicados no filme -,  são sorteados um casal de  adolescentes de cada uma das 12 tribos  para participarem do reality-show “Jogos Vorazes”, onde deverão matarem-se uns aos outros até sobrar apenas um – que seria o grande vencedor. 

Jennifer Lawrence (absolutamente fantástica, numa performance digna de Oscar ) é Katniss Everdreen, a garota moradora do miserável Distrito 12, que se oferece como voluntária para o programa  no lugar da sua irmã caçula que havia sido sorteada primeiramente.  


Seu companheiro de infortúnio é Peeta Mellark  (Josh Hutcherson, muito bem no papel)  com quem tem uma relação conflituosa, meio “entre tapas e beijos”.

A partir daí, acompanhamos a entrada dos dois adolescentes no tal reality-show, que é produzido com todos os elementos “imbecilizatórios”  que tem direito para robotizar e dominar as massas - por um lado o povo se diverte e por outro os adolescentes fenecem -

E aqui o filme pega pesado. 


Não tem essa de “não mostre as crianças morrendo”. As cenas são tri-cruas e assistimos horrorizados o massacre infantil explícito.

Isto passa a ser um mérito do filme, que não doura a pílula e assume o caráter de violência exigido para que a história seja contada com o devido impacto.

"Jogos Vorazes" também é rico em alegorias e simbologias que evocam várias questões da nossa "civilização", tanto histórica quanto moderna. 

 Por exemplo :1) O nome do país é Panem, que vem de "panis et circences", a famosa dupla "pão e circo" da Roma antiga, que seria a fórmula adotada pelos poderosos para robotizar as massas.

2) Os habitantes da capital de Panem têm uma aparência excessivamente artificial, o que reforça a idéia de palhaços e bonecos


3) A divisão explícita entre os trabalhadores dos distritos miseráveis, que comem o pão que o Diabo amassou para sustentar a vida de luxo da e a elite da Capital,  remete diretamente a Metropolis, do Fritz Lang

4) A arquitetura lembra a imponência do Império Romano. Alias, a entrada dos participantes 
nas bigas reforça muito esta idéia.

5) O povo é idiotizado e manipulado pelo reality show, o que não é muito diferente do que ocorre atualmente, com BB´s e coisas do genero.

etc.

Porém como, além destes toques pensantes, "Jogos" também se propõe a contar uma vigorosa história de ação, as referências e símbolos não são aprofundadas adequadamente. 

Mas isto não arruína o filme.

O que atrapalha mais é que algumas situações não são devidamente explicadas.  
Como não li a trilogia, fiquei boiando em vários momentos. 

Também alguns personagens são muito mal desenvolvidos, especialmente o tal de Gale (Liam Hemsworth), o garoto que do Distrito 12 que , aparentemente, é apaixonado por Katniss. 

Com certeza este personagem deve estar bem desenvolvido do livro, mas no filme, para quem não conhece a trilogia, não entende porra nenhuma do que ele ta fazendo ali. 

Acredito que na segunda parte ele diga a que veio.
Peeta Mellark  (Josh Hutcherson)
De qualquer forma achei o filme ótimo (apesar de vários furos) e me motivei a comprar os livros. 

Não vou agüentar ficar esperando os outros filmes para saber o que rola depois da conclusão desta primeira parte.

Ah, e tem outra coisa : tão dizendo que  “Jogos Vorazes”  seria o 
novo Crepúsculo”.

Fala sério. 


Crepúsculo é uma M...  com M maior.  Um produtinho de quinta, rasteiro, absolutamente ridículo, feito para agradar mocinhas românticas e sonhadoras. 

“Jogos”  é outra históira. 


Violento e com vários elementos de crítica social e política é uma obra assustadora que produz reflexão e não deixa ninguém indiferente.

Muito bom