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Hino do Blog : " ...e todas as vozes da minha cabeça, agora ... juntas. Não pára não - até o chão - elas estão descontroladas..."
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Tuesday, February 26, 2013

Diario de Viagem - Barcelona dia 16/02



Barcelona
Chegamos em Barcelona por volta do meio dia e fomos direto resgatar nossa bagagem na esteira giratória junto com nossos companheiros de viagem

Logo as malas foram aparecendo.  

Muitas, muitas e  muitas, E as nossas, nada.  O povo alegre e sorridente resgatando seus pertences. E as nossas, nada. O povo indo embora com suas malas, E as nossas, nada.  A sala esvaziando, e as malas sumindo da esteira. E as nossas, nada.  A esteira girando vazia. E as nossas, nada. 

A esteira parando. E as nossas malas não apareceram.

Que legal.

Fomo direto reclamar no balcão da Air France.

Eu não domino o espanhol e quem buscou uma aprendizagem básica na língua foi  o Lu. Portanto durante toda nossa estadia na Espanha ficou quase sempre a  cargo dele a comunicação com os nativos (quando entrava o inglês a coisa ficava mais comigo).

E ele se saiu tri bem.

Ele explicou a situação à atendente. A mocinha simpática e sorridente consultou o sistema e  informou que nossos pertences  ficaram em Paris, mas que “estariam vindo no próximo vôo”.  Profissional  -  e mantendo a simpatia -  pediu que não nos preocupássemos pois os mesmos nos  seriam entregues até as 19 horas do mesmo dia.

Sem mais o que fazer, e acreditando na informação,  fomos para o hotel fazer o chek-in e logo em seguida saímos  para a locadora pegar o carro reservado.

Primeiro destino : Sagrada Familia.

Primeira descoberta : dificuldade para estacionar. 

Lu
Eu
Depois de algumas voltas só encontramos vaga num estacionamento pago. Sem problemas.

Largamos o coche e passamos rapidamente por um restaurante para comer uma paella (eu, vegetariana).  


Paella
Muito boa.

A Sagrada Familia é majestosa, exuberante, impressionante.  É o monumento mais visitado da Espanha, com cerca de 3 milhões de pessoas por ano.  Pode-se comprar ingresso com acesso restrito  à nave e subterrâneo, ou incluir visita às torres (além, é claro das visitas guiadas) – e é permitido filmar e fotografar os locais públicos.  Compramos o ingresso  com acesso às torres..

Pois bem, entramos e eu simplesmente choquei .

Mesmo já  impressionado com a vigorosa fachada externa, não estava preparado para o poder, força e audácia do interior.  Minha sensação foi a de que entrei  num mundo paralelo construído por alienígenas. 

Me pareceu inconcebível que estava num local erigido por mãos humanas.  Nenhuma foto ou filmagem jamais fará juz à pujança do que se revela aos  olhos dos visitantes.

Caí em prantos logo de cara ( e o Lu também)

Pela primeira vez na vida vivenciei  a força da arquitetura agindo no espírito.  Senti  que tudo o que está  lá foi cuidadosamente planejado  para a elevação, para a celsitude . Tudo remete à exortação.  E não estou  falando aqui daquele estilo clássico de quadros, estátuas e demais itens, digamos “normais”, da arte sacra. Não, o que temos na Sagrada é a força da criação, da inovação, da ousadia em serviço de um tema tão caro ao humano (a religiosidade).

Passado o impacto (e as lágrimas), circulamos bastante e entramos na  fila do elevador para  o horário da próxima  visita às torres (por motivos de segurança, algumas restrições são impostas, tipo não permitir muita gente ao mesmo tempo lá em cima, crianças com menos de 8 anos, menores de 14 desacompanhados, pessoas com dificuldade de caminhar, cadeiras de roda, etc).

Gaudi projetou a igreja com 18 torres (12 que simbolizam os apóstolos, 4 os evangelistas e mais duas, representando Maria e Jesus).  A visita é permitida a apenas a algumas, mas é mais que suficiente para, como se diz,  “sentir a vibe”.   

É até ridículo ficar repetindo superlativos, mas  afirmo que a visão lá do alto é grandiosa.  Estamos no coração de Barcelona  e para todo o lado a cidade se  descortina com sua arte, sua vibração.

O acesso entre as torres se faz em corredores e escadas minúsculas que são compartilhadas pelos visitantes. Portando paciência e cordialidade são fundamentais..  As pessoas saltam e soltam gritos de excitação a cada  “eyesight around”, e nós tambem entramos na onda, of course. 

Porém eu não estava preparado para o que aconteceu em seguida, na descida. 

Para voltar à terra há duas opções : o amigável “ascensor”  ou as escadas.  Como não sabíamos a altura certa de onde pegar o elevador, fomos descendo as escadas.  Só que chega-se a um ponto onde apenas os degraus são a opção. E aí voltar atrás é meio difícil, pois a largura da construção  dificulta o tráfego. 

Continuamos a descer na esperança de que outra parada de elevador surgisse. Engano total. Logo nos vimos presos no espiral da descida.  Foi quando então  percebi qual é jogada da “escadinha” e  entrei em pânico.

Descrevendo :

1 - Os degraus são da largura que dá para  mal e mal  uma pessoa.

            2 - Do lado direito da criatura, sem nenhum tipo de apoio,  há apenas um buraco sem fundo (sim, propositalmente Gaudi projetou esta  idéia de visão “infinita”).
      
      3  -  Repetindo :  não há nenhum apoio para a mão direita e olhar para baixo nesta direção  é ouvir as sereias  chamando à queda.

      4 - Para o destro  fica evidente que a partir dali sua vida tem que ser garantida pela segurança da mão esquerda (lado onde tem um corrimão). Largou a esquerda, encontrou Jesus.

Completamente zonzo e fora da casinha, me atraquei no corrimão  com as duas mãos e fui descendo de frente para a parede sem a mínima coragem de olhar para qualquer outro lado.

Me sentia vitorioso a cada degrau para baixo, mas onde era o final?  E para “ajudar” a situação,encontrei pela frente várias portas `a esquerda;  locais onde simplesmente o corrimão sumia e onde, mais uma vez , entregava minha alma ao Senhor.

Perdi completamente o foco e só pensava que “isto tem que acabar em algum local”. Quando e onde não sei, mas não é possível que isto não tenha fim.

O absurdo da situação é que pela razão é óbvio que eu  “sabia” que a  escada tinha fim, mas minha mente já tava tão dominada pelo pânico que perdi o raciocínio e só enxergava minha entrada no além.

Tempo, espaço e local perderam o sentido e eu só vivenciava  o terror puro e cru destruindo minhas vísceras. 

A certa altura, tomado pelo certeza  do desencarne,  não sei como, ouvi a voz do Luciano “É só mais uma escada!”. O que? Como? Eu tô aqui, perdido no meio do nada, sozinho, tonto, grogue, aterrorizado e já to chegando?
  
Num arroubo de coragem olho para baixo à direita para confirmar o que ouvi  e continuo  “apenas a  avistar o infinito”.

Então como “só falta uma escada”? Já tô ouvindo vozes? É o Luciano quem me chama ou são os anjos? Será que são os agentes celestes disfarçados de Luciano que querem me enganar e fazer com que eu  corra degraus abaixo? É um truque urdido para garantir meu local na Barca de Creonte?

Continuando a “louvar o nome do Senhor” – e assim tentar garantir uma vaga no Nosso Lar - desci mais uns poucos degraus e, surpreendentemente,  me vi novamente na nave central com o povo circulando despreocupadamente.  

Gaudi
Inacreditável. 

Não sei como não caí de joelhos transfigurado e  em prantos agradecendo aos Deuses por continuar aqui.

Me senti  resgatado do além. Tipo Fênix, Lázaro, ou uma criatura do Pet Cemetery.  

Me apoiei no Lu e aos poucos fui me acalmando e retornado ao perfil de turista abobado.

Tudo certo, saímos da Catedral  e fomos para o subterrâneo onde pode-se conhecer o atalier do Gaudi, seus projetos, sua vida e muito mais.

Depois da passadinha básica pela lojinha, saí da Catedral  com a forte sensação de ter vivido uma “experiência”.  

 Não sei exatamente qual,  mas o que mais se aproximaria seria tipo “uma quase morte” – algo simples assim.

Com certeza quero voltar e revivê-la.

Pensar sobre o que vi e vivi no local, me levou a reflexão entre o que seria um artista e um gênio. 

Gaudi  foi um “artista” ou um gênio ? O que seria um gênio?  O que seria um artista genial? ...

Sem querer ir muito a fundo, registro que,  para mim, o que diferencia um “artista” de um gênio é que o último  é  resultado da mistura de talento genuíno – alguém realmente tocado pelos deuses da arte – com uma profunda capacidade  de aprendizado  e reflexão, e que erige uma obra marcada pela diferença,  sob a qual novos caminhos, inspirações e escolas  se abrem.

Gaudi é um gênio.

O legal é que no dia seguinte, durante o passeio panorâmico que realizamos, voltamos a Catedral para uma visita externa, quando o guia forneceu diversos detalhes  adicionais sobre sua arquitetura e histórico.

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Barcelona – Primeiro dia (noite)

Voltamos ao hotel por volta das 19 e milagrosamente conseguimos uma vaga para o carro na mesma rua da nossa hospedagem.

Nossa bagagem não tinha chegado e o Lu ligou para a Air France.

Foi informado então de que as malas poderiam ser entregues até  as nove da manhã  DO DIA SEGUINTE!

Como assim ? E nossas roupas  e demais pertences?

Para remediar a situação, a companhia reembolsaria gastos de até 100 euros por pessoa, em aquisições emergenciais.

Sem a  certeza da entrega para o mesmo dia, nos tocamos para o El Corte Ingles para garantir pelo menos mais uma muda de roupa. No meu caso, comprei apenas uma camiseta de manga comprida (64 euros), mas o Lu meio que enfiou o pé na jaca e acabou gastando mais de 250 euros em tudo.  

Guardamos as notas para pedir o reembolso (que foi encaminhado ontem já aqui no Brasil), e voltamos para o hotel para uma relaxada antes de cair na balada.  

(Obs : hoje aconteceu uma coisa com uma das roupas compradas, que vou revelar – com fotos- no final da publicação deste diário de viagem. É inacreditável)

Seguindo :

O curioso é que nossa bagagem acabou sendo nos entregue naquela mesma noite, porém por volta das 22 e 30.

Descansados, revestidos e tranquilos fomos para as redondezas da Calle Casanova, local onde concentra a efervescência da vida Gay em Barcelona.

Acabamos conhecendo dois bares, o NightBerry e o Woofy. 

O primeiro rechado de bees um tanto  carão (mas não podemos afirmar que sempre seja assim). O segundo bem mais relax, divertido, com os gays estilo ursos cantando junto com as divas espanholas,  no estilo Ivete Sangalo, Claudia Leite ou Joelma.

Bem legal.

Voltamos ao hotel e é claro que não tinha vaga para estacionar. Tivemos que deixar o carro num local proibido e fomos dormir.

Fim do primeiro dia.

O tosco clipe abaixo mostra nossa visita à Sagrada Familia. 

No final parece a fatídica Escada para o Infinito.



Sagrada  Famila - Video com comentarios do guia da  City Tour (Parte 1)



Sagrada  Famila - Video com comentarios do guia da  City Tour (Parte 2)



Monday, February 11, 2013

Filme - A Vida de Pi

A Vida de Pi
Magnifico.

Esta foi a palavra que resumiu meu sentimento em relação “A Vida de Pi”.

Saí embasbacado do cinema.

Zonzo com a beleza da história (as imagens nem se fala), atordoado com o alcance do discurso íntimo no que ele tem de mais real diante do desafio da transcendência humana

“Pi” mostra o homem, cheio de conhecimento, erudição e sabedoria, sonhos e esperança colocado nu e cru frente a frente com seus piores medos.

O que fazer com toda a sabedoria quando o horror da fraqueza da mente e da carne atacam ?

Nestes momentos, não há nada pior do que termos que enfrentar a nós mesmos.

Nossos traumas, nossos calafrios, nossos tremores de alma – nossas fobias

Diante deste horror, nossa fragilidade emocional nos leva à covardia ao receio;  à não sair da zona de conforto.

Mas realidades de dor são inevitáveis e rasgam, destroem nosso emocional e nos expõem ao desamparo, à perda e à desesperança.

Teoricamente podemos ter inúmeras saídas e ferramentas para “lidar com situações”.

Podemos “acreditar”, “ter fé”, “sermos fortes”, “segurar na mão de Deus” e várias outras formas “encarar os fatos”.

Sim, tudo muito lindo, tudo muito prático. Um discurso perfeito e recheado de boas intenções.

Mas como a coisa fica quando nos deparamos com a fragilidade da existência?

Livro - A Vida de Pi
Onde fica “Deus” e onde fica o “Homem”?

Deus existe e nos fortalece, ou esta força brota do próprio homem?

“AVida de Pi”, fala sobre tudo isto e muito mais.

Baseado  no romance Life of Pi de Yann Martel, o longa de Ang Lee, conta a incrível história do jovem indiano, Pi, uma zebra, uma hiena, um tigre e um orangotango, que lutam pela vida num bote salva-vidas, após serem os únicos sobreviventes de um naufrágio.

É claro que acontece muita coisa, e prefiro não dizer o que para não estragar o prazer de quem ainda não viu.

O que o longa oferece é testemunharmos o processo dilacerante pelo qual Pi passa, e que o conduz a experiências, descobertas, transformações, mortes e renascimentos que o desfazem e o reconstroem inúmeras vezes.

Seus embates com o Tigre Richard Parker são espetaculares e vão do pavor absoluto até encontros espirituais (de alma), onde ambos comungam entre si, com a natureza e com o firmamento.

O final é apenas soberbo.

Uma das reflexões que fiz na saída do cinema, é que filmes como “Pi” ou “Amor” dialogam diretamente com nosso íntimo, com nossa natureza

São obras que se originam e ecoam no espírito humano e, por isto, possuem aquela capacidade da arte de ir além do entretenimento e atingir nossos temores mais reais.

Obras primas.

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 Comentário : 

Max e os Felinos
Yann Martel  reconheceu ter se inspirado no livro "Max e os Felinos" de Moacyr Scliar para escrever "Pi".

Mas o escritor gaúcho não ficou muito satisfeito com os comentários de Yann..

Mais detalhes aqui.















Trailer do filme


Monday, February 04, 2013

Filme - O Som ao Redor

O Som ao Redor - Poster
Sobre o que mesmo é “O som ao redor”? Solidão? Violência Urbana? Especulação imobiliária? Violência  Rural? Luta de Classes? Vingança familiar? Vazio existencial?  

O que mais poderia incrementar esta lista ?

Ache qualquer coisa  (“relevante” socialmente, é claro)  e registre, pois o filme, enquanto “obra aberta e simbólica”, se presta a qualquer “interpretação ”.  

Eu prefiro ver pelo lado do tédio, do marasmo, do pretensioso, do  ôco total.

A narrativa agrega (meio no estilo Robert Altman, mas sem o mesmo pulso firme) fragmen­tos de histórias de moradores de um bairro classe média do Recife. Ali reside uma fauna humana totalmente desinteressante, inócua e inepta.

Obviamente o diretor, com sua idéia de “crítica” pretende demonstrar algum tipo de vazio existencial-social-emocional-político e tudo o mais que afeta o humano e suas relações.

Só que não convence ( a não ser aqueles que enxergam maravilhas na simbologia de “uma folha caindo”).

Ai, meu saco. Haja paciência e pretensão.

Quanto ao tão aclamado “uso do som”, para mim não significou nada.

Lembro do magnífico Mal dos Trópicos (Sud pralad, 2004), do diretor Apichatpong Weerasethakul, onde o som realmente é um elemento orgânico em cena, chegando em alguns momentos a estar acima das imagens.

No “Som..” os “ruídos” realmente “aparecem”, mas não acrescentam nada à narrativa (exceto no caso da drogada e  estressada com o cusco. Sim, aquela que bate siririca na máquina de lavar roupa).

De resto, algumas cenas rápidas,  um flashes carregados com imagens para assustar (ou chocar, sei lá), e dar um clima "de estranhamento", tipo "tem uma mensagem, um recado, uma reflexão subentendida sobre..."

Mas a coisa não fica só nisto.

Sabe quando o diretor quer “causar” e insere uma jogada esperta (uma coisa sutil ou meio confusa entende? tipo uma "fala", um "som", um "olhar", um "gesto", um "toque", um "silêncio") para fazer com que os espectadores digam "Oh!" e se “sintam inteligentes”?   

Pois bem, “O som”  tá cheio destes expedientes, destes lances bacanas e modernos que seduzem,  que -usando uma palavra mais fina-, "dialogam" com os culturalmente avançados (o que não é o meu caso).

E então assim dizem os entendidos : Que prodígio! Que sutileza!  Que genialidade!

Ai, meu São Michael Haneke da Banda Calypso, me entrega um Michael Bay!

Kleber Mendonça (roteirista e diretor do longa) cita entre alguns de seus mestres Martin Scorcese e John Carpenter. 

E a criatura aqui, ao ver o “Som..”, pergunta-se : o que o Tio Kleber efetivamente aprendeu com tais diretores? Sim porque sua obra não apresenta nada em sintonia com as dos citados.

O longa só enfileira uma bobagem atrás da outra (num ritmo vertiginosamente modorrento) e acaba por compor um quadro absolutamente murcho,  frouxo e fracassado na  tentativa de discutir seja lá o que for.

E a crítica ainda se rasga toda diante deste nada absoluto.

Pavor total.

Obs : A sessão que fomos ver na Casa de Cultura Mario Quintana aqui em Porto Alegre foi abrilhantada pelo som baixo, pela projeção fora de foco (que ocasionou vários gritos – inclusive meu -  de “Olha o foco !”, “Arruma o foco!” ), além da ausência de ar refrigerado. 

Todos estes “pormenores”, acrescidos do vazio do que se via na tela, proporcionaram aos presentes uma inesquecível sessão de tortura.
Uma das "imagens rápidas" montadas para "causar"

Thursday, January 31, 2013

Doação de sangue

Hoje, eu e Luciano (meu companheiro), fomos ao Hemocentro de Porto Alegre, doar sangue por conta da tragédia de Santa Maria.

Esta foi a primeira vez que doei sangue “voluntáriamente”, pois “desmaio” até para coletar o tal “material” para exames de rotina (não posso nem ver agulha que já passo mal. Uma coisa fiasco mesmo).

Mas, diante do quadro, e até porque meu fator é o tal de O negativo (o mais raro de todos), me vi na obrigação de sair da teoria e partir para a prática.

Como não poderia deixar de ser, quase vi Jesus na sala de coleta. Aos poucos minha pressão foi baixando e eu fui saindo da casinha. Porem antes chamei uma atendente que, ao ver meu estado lastimável, perguntou se eu queria parar ou ir até o fim. Nem pestanejei e afirmei que iria ate o fim. Ela então me colocou minha cabeça num nível mais baixo e a coisa toda rolou tranquilamente até o final.

Foi tudo tri simples.

Mas o mais importante de tudo foi ver que não era só eu que estava em estado pré-pânico ali.

Me caiu os butiá ao ver um grupo de lindas garotas adolescentes que se reuniram e estavam ali para doar. Uma delas estava morta de medo, mas encarou a bronca. Ela entrou antes de mim. Quase agarrada num rosário, é verdade, mas não voltou atrás. As amigas riram, e ela foi em frente. Me identifiquei imediatamente com ela e segui seu exemplo.

Depois de tudo terminado, na saída nos deparamos com a sala de espera lotada e mais um grupo fora do prédio aguardando ser atendido. Isto demonstra que o povo realmente ta se solidarizando com o acontecido. Muito bom mesmo.

Finalizando, tenho a obrigação de comentar o comportamento do pessoal do Hemocentro. Não sei qual o tipo de orientação ou treinamento que recebem, mas, pelo menos os que ficaram perto de mim, demonstraram atenção e carinho. Muito legal mesmo. Parabéns.

Eu e Luciano aproveitamos para fazer nosso cadastro como doadores de medula.

Vamos ver se a coisa rola.

Wednesday, January 30, 2013

Santa Maria– O melhor e o pior no humano

santa-maria-marcha-9-2013-01-29-size-598É fato que nas grandes tragédias tomamos contato com o que há de melhor e de pior no humano.

Nestas situações testemunhamos os esforços de milhares para mitigar a dor dos atingidos (com voluntariado, doações, apoio, rezas, etc) e também, infelizmente, a ação de vilões miseráveis que aproveitam a oportunidade para revelar as sombras dos seus espíritos.

O incêndio da boate Kiss em Santa Maria, mais uma vez prova esta tese.

Se por um lado vemos manifestações de todo o mundo em solidariedade a dor dos feridos, das famílias, dos amigos, por outro vemos manifestações absolutamente incompreensíveis.

Acompanhando os comentários dos internautas sobre as notícias publicadas nos grandes portais, tipo Terra, UOL, Globo, etc, deparei com registros do tipo :
  • “Agora os gaúchos vão ficar muito tempo sem fazer churrasco pois estão com um grande estoque de carne queimada”
  • “Os que morreram, eram nazistas reencarnados que mataram os judeus na camara de gás. Vejam que a arquitetura da boate lembra o espaço de uma camara de gás. Além disto eles todos eram brancos, o que lembra os alemães. Conformem-se, pois eles apenas pagaram carma”
Gente o que é isto ? De onde tais pessoas tiram tanta maldade ? Onde está a compaixão com os familiares e amigos das vítimas ?

Será que estas pessoas que escrevem este tipo de mensagem tem noção do mal adicional que estão causando ?  Que tipo de ruína sentimental provoca este tipo de comentário ?

Outra coisa : qualquer celebridade ou pessoa publica que manifesta solidariedade é logo acusada de “querer aparecer”. 

Vejam o caso do Luan Santana.  O cara, certamente entristecido, fez uma homenagem a uma das vítimas que era sua big fâ, gravando um clip caseiro com uma musica em especial que ela gostava.  Foi o que bastou para muitos o acusarem de , conforme disse antes, “querer aparecer”.

Meu Deus, que classe de pessoa só tem olhos negativos ? Só consegue se manifestar com virulência, veneno, crueldade ?

Minha tese é que este tipo de gente é miserável emocionalmente.

Gente que não ama, não é amada e assim desconhece o que é compaixão e chafurda na aridez dos sentimentos.

Fico pasmo, realmente.
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Reproduzo abaixo entrevista que o psiquiatra inglês Colin Murray Parkes, autor do "Luto – Estudos sobre a perda na vida adulta (Summus, 1998)", concedeu a revista Veja.


VEJA ENTREVISTA Colin Murray Parkes

A dor da morte
 
O psiquiatra inglês diz o que alivia e o que agrava o sofrimento causado pela perda de alguém muito próximo

Na qualidade de um dos mais respeitados estudiosos do luto do mundo, o psiquiatra inglês Colin Murray Parkes, 79 anos, viu de perto grandes tragédias e o sofrimento que elas podem causar a populações inteiras. Em 2005, ele foi chamado pelo governo britânico para dar assistência psicológica a vítimas do tsunami que atingiu vários países banhados pelo Oceano Índico, matando um total de 225 000 pessoas. Três anos antes, havia trabalhado na assistência a parentes de vítimas dos atentados de 11 de setembro em Nova York, que resultaram na morte de quase 3 000 pessoas. Mas o trabalho de Parkes não se resume a apoiar as vítimas de grandes desastres: consultor até o ano passado do St. Christopher's Hospice, hospital inglês que é a maior referência mundial em tratamento de pacientes terminais, ele lidou por mais de quarenta anos com dramas cotidianos: aqueles vividos pelas famílias que perderam alguém no leito do hospital. Em entrevista concedida a VEJA, o psiquiatra falou sobre a dor de quem vai e de quem fica e como lidar com ela.

Veja – O que se pode fazer para ajudar uma pessoa que perdeu alguém?
 
Parkes Ficar próximo dela, abraçá-la, fazê-la sentir-se compreendida e segura. Para as pessoas que perderam alguém, especialmente se a morte estiver ligada a uma situação criminal, o mundo pode parecer um lugar bastante perigoso. Parentes de vítimas ficam assustados e chegam a ter medo de estranhos. Para ajudar essas pessoas, é preciso despertar sua confiança e transmitir-lhes segurança para começar a falar e a pensar naquilo que as faz sentir-se em perigo. Deixá-las expressar sua tristeza também é importante. Ouço muitas reclamações de enlutados. Eles dizem que a família não os deixa chorar – quer vê-los alegres o tempo todo. Não há nada pior do que alguém lhe dizendo: "Não quero ver você triste assim, por favor!". Outra coisa que devasta essas pessoas é quando elas percebem que os vizinhos e os amigos se afastam delas. Escuto muitas histórias de enlutados que afirmam que seus vizinhos mudam de calçada quando os vêem chegando. É evidente que eles não fazem isso de propósito. O fato é que ninguém sabe lidar direito com a morte.

Veja – E no caso de familiares de vítimas de grandes tragédias, como a do acidente da TAM, no Brasil? Como amenizar seu sofrimento?
 
ParkesNo período imediatamente posterior ao acidente, o que as famílias mais precisam é de informação e instrução. Psicologicamente, é mais fácil lidar com más notícias do que com a falta delas. Não se deve tentar proteger as famílias escondendo dados que possam machucá-las. As informações servem para que as pessoas tenham tempo para digerir o terror e organizar suas esperanças, assim como suas hipóteses sobre a tragédia. Já as instruções são fundamentais porque, nesse momento de aflição máxima, os familiares não têm condições de resolver nada e precisam de alguém que assuma o controle da situação. E isso tem de ser feito de forma bastante objetiva – não há espaço para debates democráticos, do tipo: "Familiares das vítimas, vocês preferem ficar aguardando informações em um hotel ou aqui no aeroporto?". É necessário que alguém passe ordens. O cuidado psicológico propriamente dito vem numa fase posterior.

Veja – Em que ele consiste?
 
ParkesEm casos de desastres que podem ter sido causados por leniência, descaso ou falha humana, é comum haver um sentimento generalizado de raiva entre os familiares. Os parentes querem, a todo custo, encontrar e, por vezes, agredir o culpado – ou os culpados – pelo desastre. Psicólogos e médicos destacados para cuidar dessas pessoas devem escutar suas queixas, mas, principalmente, tentar conter a instalação de um ciclo de raiva. O sentimento de ira não ajuda o enlutado a se organizar emocionalmente, nem mesmo alivia sua dor. É fundamental também trabalhar para que cada família tenha certeza de que seu caso será analisado – seja por psicólogos, seja por autoridades – de maneira individualizada. Em grandes desastres, as famílias tendem a achar, e não se pode tirar a razão delas, que a morte de seu parente está sendo banalizada. Isso acontece, entre outros motivos, porque as notícias veiculadas na imprensa, na maioria das vezes, falam do número total de mortes, e não especificamente do parente dela. Para um marido que perdeu a mulher, o que importa é a morte daquela mulher, não a de 200 pessoas.

Veja – É mais difícil aceitar a morte quando não se tem o corpo do morto?
 
ParkesSem dúvida. É difícil acreditar que aquela pessoa morreu quando não vemos o corpo dela e não realizamos os ritos fúnebres. No episódio do 11 de Setembro, muitas famílias britânicas, que nós assistimos, não conseguiram ter de volta os corpos de seus parentes. Um de nossos trabalhos foi ajudá-las a acreditar que eles tinham mesmo morrido. Estudei uma tribo de pescadores, nas Filipinas, que chega a fazer um ritual substitutivo para lidar com uma situação dessas. Quando um dos integrantes da tribo morre no mar e seu corpo não é resgatado, a família faz uma estátua e a veste com as roupas do morto. Eles acreditam que, assim, a alma do falecido encarnará na estátua. E é essa estátua que enterram.

Veja – Na escala da dor, qual é o pior tipo de morte para quem fica?
 
ParkesO que implica sentimentos de culpa pode ser considerado o pior. É o caso, por exemplo, do pai que vê o filho morrer em um acidente de carro e acha que poderia tê-lo socorrido, ou de uma pessoa que se sente responsável pelo suicídio de outra. Em segundo lugar, bem próximo do primeiro, eu diria que estão as mortes por assassinato.

Veja – Qual é o povo que lida melhor com a morte?
 
ParkesPenso que os orientais se preparam melhor para a morte do que nós. No Japão, eles fazem oratórios com sinos, que, segundo crêem, invocam a pessoa morta a cada vez que são tocados. Desse modo, acreditam manter-se em contato com o espírito de seus mortos. De certa maneira, é isso que a terapia tenta fazer com os enlutados: ajudá-los não a esquecer seus mortos, mas a achar um lugar para eles em sua vida.

Veja – Quem lida melhor com a morte, os homens ou as mulheres?
 
Parkes As mulheres, sem dúvida. Elas conseguem expressar seu sofrimento mais facilmente. E, uma vez vivenciado esse sentimento, elas podem fazer aquilo que se costuma chamar de "tocar a vida para a frente". Já os homens têm uma enorme dificuldade de mostrar sua fragilidade diante da morte. Por isso, têm também mais dificuldade de se organizar para continuar vivendo.

Veja – O que se deve dizer a um conhecido que acaba de perder alguém?
 
ParkesAs pessoas enlutadas, em geral, têm um alto grau de sensibilidade a tudo o que não seja sincero: elas percebem facilmente se alguém está fingindo tristeza ou dizendo uma palavra de conforto apenas porque foi instruído a fazê-lo. Por isso, o que quer que você diga nessa situação deve vir do coração.

Veja – Até o ano passado, o senhor trabalhava como consultor psiquiátrico de um hospital especializado no cuidado de pacientes terminais. Do ponto de vista psicológico, o que se pode fazer para amenizar o sofrimento desses doentes e de suas famílias?
 
ParkesAlém de tentar transmitir os mesmos sentimentos de amor e solidariedade, acho que dizer a verdade sempre ajuda. Quando alguém está morrendo, as pessoas, querendo ajudar, cometem erros clássicos. Um deles é fingir que a pessoa não está doente: "Você está com uma cara ótima hoje!", diz um parente. É evidente que é mentira, e o paciente sabe disso, mas compactua com o fingimento porque também quer proteger o familiar. Isso cria uma situação horrível! Certa vez, falei com uma senhora no dia em que o marido dela deu entrada no hospital em que eu trabalhava. Ela me disse: "O senhor não vai dizer ao meu marido que ele tem câncer, vai?". Eu havia acabado de conversar com o marido dela, que já me contara que tinha a doença! Eu perguntei: "O que faz a senhora achar que ele não sabe?". Ao que ela respondeu: "Ele sempre morreu de medo de câncer. Se o senhor lhe contar, ele vai morrer!". Eu falei: "Conversei com seu marido. Ele sabe". Ela: "Sabe? Por que ele não me contou?". Respondi: "Talvez esteja querendo protegê-la". Ela entendeu: "Como nós fomos bobos!". Voltamos à cabeceira da cama e eu deixei o casal conversando. Voltei meia hora depois. Eles estavam sentados com os braços entrelaçados. Ela chorava copiosamente e dizia: "Fomos tão bobos, não?". Mas, ao mesmo tempo, ela sorria. É que, finalmente, havia conseguido se comunicar com o marido.

Veja – O senhor foi chamado pelo governo britânico para cuidar de vítimas do tsunami. Como foi esse trabalho?
 
Parkes Estive na Índia um mês depois da tragédia. Peguei a fase da reconstrução do lugar. Como morreram mais mulheres e crianças, encontrei muitos homens devastados e entregues à bebida. Eles haviam perdido a mulher, os filhos e os barcos com que ganhavam a vida, mas tinham uma resistência muito grande em aceitar ajuda psicológica. Lá, homem não chora. Fiquei estudando qual o melhor modo de ajudar aqueles sobreviventes. Depois de alguns dias, concluí que a melhor forma seria estimulá-los a participar da reconstrução de suas vilas e casas. Coordenei, então, mutirões de obras. Organizava os grupos que fariam as casas e os barcos. E, evidentemente, dava apoio psicológico e individual quando era solicitado.

Veja – E como foi o trabalho com as vítimas do 11 de Setembro?
 
ParkesO governo do meu país me escalou para cuidar das famílias de vítimas britânicas que haviam 
morrido no atentado. Os melhores policiais da Grã-Bretanha foram enviados a Nova York para nos ajudar. Meu primeiro trabalho foi formar duplas constituídas por um policial e um terapeuta. Essas duplas receberam cada avião que chegou do Reino Unido. No total, foram 120 familiares de vítimas. Nesse caso, meu trabalho não foi propriamente o de um terapeuta, mas sim o de um grande produtor: tinha, por exemplo, de garantir que houvesse celulares suficientes, salas de entrevista, esse tipo de coisa. Mas logo fiquei conhecendo as famílias, já que estavam no mesmo hotel que nós. E o que eu e os outros psiquiatras da minha equipe percebemos foi que elas tinham uma grande necessidade de procurar seus mortos – ainda que a morte deles parecesse um fato inexorável. Os americanos haviam disponibilizado computadores que, operados por policiais, informavam o nome de todos os sobreviventes internados em hospitais de Nova York. Nós já tínhamos vasculhado esses registros e sabíamos que os parentes dessas famílias não estavam lá, mas elas insistiam em procurar por conta própria. Então, em vez de as obrigarmos a aceitar a informação de que as pessoas que elas amavam estavam mortas, ficamos ao lado delas, observando-as enquanto faziam a busca. Também as ajudamos a colar cartazes em postes com as fotos e os nomes dos parentes desaparecidos. Quanto mais fotos elas colavam, mais se davam conta de que não daria resultado. A compreensão foi vindo de forma gradual. Uma coisa que também ajudou nesse processo foi o fato de que muitas pessoas enlutadas passaram a se encontrar diariamente na Union Square, a área verde mais próxima do desastre. As famílias se sentiam bem lá, conversavam e choravam juntas. Isso colaborou para fazer com que, aos poucos, elas fossem entendendo que as pessoas que elas procuravam não voltariam mais. Foi uma boa terapia.

Veja – Por que o senhor decidiu trabalhar nessa área?
 
ParkesEu ainda era um jovem médico em Londres quando fui chamado para fazer meu primeiro parto. O médico-chefe me disse que o procedimento seria simples porque o bebê era anencéfalo e, por ter uma cabeça pequena, sairia facilmente da mãe. Ele me disse ainda para não mostrar o bebê à mãe. Fiquei chocado com isso. Também me incomodava o modo como os médicos tratavam os pacientes. Achavam que era perigoso se aproximar e se envolver emocionalmente com eles. Nunca chegavam muito perto do leito. Quando resolvi me especializar em psiquiatria, direcionei meus estudos para os piores tipos de sofrimento humano. Justamente nessa época, na clínica onde eu trabalhava, dois pacientes se suicidaram depois de passar por um forte stress causado por luto. A partir daí, foquei meu trabalho na recuperação de pessoas que haviam perdido alguém. Mas às vezes é muito difícil para mim fazer esse trabalho. Os grandes desastres, por exemplo, me deixam bastante abalado.

Veja – O que mais o abala nessas situações?
 
Parkes Ver o sofrimento em massa. É avassalador. Depois do 11 de Setembro, assim que voltei de Nova York, tirei férias e viajei com meus netos. Eles disseram que eu não era mais o avô de sempre. Disseram que eu estava longe – e estava mesmo. Minha cabeça não saía de lá. É difícil ser a mesma pessoa depois de ver uma tragédia dessas.