Por “intocáveis” pode-se pensar em figuras de dois extremos da
sociedade, tipo um pária e um brâmane da sociedade de castas hindu ou do Nepal ( na verdade o conceito de "intocável" aplica-se exclusivamente aos párias)
De um lado, o milionário Philippe (François Cluzet, o Dustin Hoffman francês, ótimo como
sempre), - o brâmane - , altamente erudito, requintado, aristocrata, fino,
chique, elegante, porém tetraplégico.
De outro, o estrangeiro Driss (Omar Sy), - o pária-, um
semi-marginal, ex-detento, meio-órfão, quase um homeless, desempregado,
apreciador de funk de raiz (tipo Earth, Wind and Fire, Kool and the Gang)
.
Dentro de um “sistema de castas” (que existe quer queiramos ou não, mesmo camuflado), pode-se imaginar que estes dois universos
jamais se tocariam, seja por discriminação, preconceito, temor, condição
econômica, condição profissional, poder, etc.
Ou seja, cada macaco no seu galho,
cada classe no seu mundo .
Porém este inusitado acontece quando Philipe contrata (em teste) Driss como
seu cuidador pessoal.
A partir daí a aproximação que ocorre entre os dois irá desencadear diversas
experiências que irão transformá-los, que irão abrir em ambos novos olhares, horizontes
e possibilidades de vida
François Cluzet & Omar Sy
Baseado em fatos reais, “Os intocáveis” mostra a bela relação que se
estabelece entre estes dois homens, de mundos tão distintos, a partir do
momento em que a intimidade emocional (o básico do humano) os conecta e os
engrandece.
Algumas cenas são fantásticas, especialmente aquela da associação das
músicas clássicas com a mídia e a outra com os vários formatos de barba e
bigode que Driss vai esculpindo no rosto do Philipe.
Não é um super filme, mas vale a pena, mesmo porque
assistir um longa baseado em valores humanos é sempre bom.
Mesmo soando piegas.
--------------- Trailer abaixo
Sistema de Castas
Só para registro : O desenho abaixo representa o sistema de castas da India, que é condenado por lei mas que ocorre na prática cultural do povo.
Confesso que para mim não é fácil assistir a um filme do Michael Haneke. Só
consigo "atacar" seus longas após uma “preparação”, que inclui entre
outras coisas, exercitar um reforço emocional a fim de não sair
arrasado do outro lado.
Sim, porque depois de assistir , por exemplo, “A professora de piano”,
“Cache”, “O sétimo continente”, “A fita branca” e “Violência Gratuita”,
dizer que saí “perturbado” é pouco.
O que seus filmes me causam são,
digamos, “experiências bizarras”. Isto no sentido de que acabo
revolvido, moído e remoído, meio zumbi no deserto.
Então, sabendo disto, porque continuo a ver suas obras ? Porque insisto em praticar este jogo masoquista ?
Será
por ele ser o maior diretor de cinema em atividade ? Será porque ,
dentro da sua coragem, suas obras transcendem em muito a “arte
cinematográfica” e acabam fuçando de forma implacável nas patologias
mais darks da alma humana ? Será porque de seus filmes sempre se esperam
“supresas” – terríveis é certo – e elas sempre acontecem e nos detonam
? Será porque ele não tem piedade dos seus espectadores – e nem de seus
personagens - e isto acaba nos atraindo de uma forma meio medonha? Será
porque ele, de forma absolutamente fria, muitas vezes ultrapassa os
limites do “suportável” e, mais do que “chocar”, “acaba ” com os miolos
das criaturas ? Será porque dentro desta “perversidade”, ele escancara
e joga na nossa cara “naturezas humanas” (instintos, sentimentos,
emoções, taras, desvios e outras amenidades do gênero), que muitas
vezes negamos , fingimos desconhecer ?
Não sei.
Eu diria que é isto tudo e muito mais, e assim permaneço fiel entre a repulsa e a fascinação.
Então ao sentar para assistir “Amour” eu tinha certeza de que não sairia incólume depois de duas horas.
E não deu outra.
Acabei o filme completamente em frangalhos, totalmente depenado.
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Haneke dirige Emanuelle e Jean-Louis
Premiado com a Palma de Ouro em Cannes, “Amour” é “apenas” sobre envelhecimento e morte. Assim, direto, sem maquiagem nem vaselina.
Haneke disse que começou a escrevê-lo depois que se perguntou : "Como é lidar com o sofrimento de alguém que amamos ?”.
E isto é o que o longa explora de forma soberba ao contar a história
(ou final da ) de Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle
Riva), um casal de cultos músicos octagenários aposentados, que moram
sozinhos em um amplo apartamento em Paris ( Eles têm uma filha -
Isabelle Huppert - que mora no estrangeiro e ocasionalmente os visita).
Certo dia Anne sofre um derrame e fica com um lado do corpo
paralisado. De volta ao lar ela faz Georges prometer que, aconteça o
que acontecer, ele não a mandará de volta hospital e que a cuidará em
casa.
Georges concorda e, a partir daí, - a medida em que a doença
avança - acompanhamos a declínio físico e psíquico de Anne, ao mesmo
tempo em que testemunhamos a luta dolorosa e infrutífera do esposo para
evitar a total decadência da amada.
Porém Anne torna-se cada vez mais incapaz e passa a necessitar de
auxilio (profissional ou não) para tudo.
Aos poucos perde os
movimentos, a fala, o raciocínio, a razão. Gradativamente torna-se uma
“criança assustada” e desamparada, que geme, chora e chama pela mãe.
George acompanha atônito a decrepitude da esposa. Sabe-se derrotado
diante da perda inevitável da companheira mas, mesmo assim, faz tudo o
que pode para ajudá-la.
Tudo obviamente inútil, e o final já é revelado no início : morte.
Fim.
------------------- Falar de “interpretação” aqui é quase uma ofensa.
Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva estão além de qualquer elogio.
Ele (outrora um ator belíssimo) estampa uma máscara de perplexidade e dor absolutamente real.
Ela faz uma Anne quase “documental “.
Não é uma atriz o que está em cena, e sim a explicitação terrível de uma dolorosa verdade humana.
Algumas
de suas cenas são quase “inaterpretáveis “ (sic). Então como ela
conseguiu? Isto se chama “talento”? .. ou é outra coisa misteriosa?
Com Emmanuelle nós praticamente testemunhamos a morte de uma pessoa e não uma atriz interpretando a morte de uma pessoa.
Só vendo para acreditar - e dizer mais é desnecessário.
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Georges desperta de um pesadelo
Haneke diz que seus filmes são “Mais fácil de fazer do que ver”.
Isto demonstra que o maldito sabe que o povo vai enfrentar uma barra
punk com suas obras, que sabe que vai incomodar e mexer com as pessoas.
No caso de “Amour” , não apenas incomoda e mexe, mas também arruína corações e mentes dos espectadores.
Eu simplesmente chorei.
E o mais apavorante é que o filme não tem
nenhuma cena piegas, daquele tipo com um personagem debulhado em
lágrimas sob uma orquestra de violinos.
Muito pelo contrário
O
estilo frio, lento e minimalista do bruxo é absurdamente eficiente em
abrir um pequeno corte através do qual ele vai pacientemente
eviscerando o incauto assistente.
De repente tu te pega vazio, murcho, desossado, testemunhando uma
tragédia, e tão impotente quanto os protagonistas diante do inexorável
fim da existência.
Então o que resta fazer ? Chorar.
Mas tu chora por quem ?
Pela Anne, pelo Georges, pela morte dos teus amados ou pela certeza da tua própria ?
A história de um gato que leva presentes diariamente ao túmulo de seu mestre, morto há mais de um ano, comoveu os habitantes da pequena cidade de Marliana, na Toscana (centro da Itália).
"Toldo traz coisas pequenas, como galhos, folhas, palitos e copos de plástico", contou à AFP Ada, a viúva de Iozelli Renzo, que vive na pequena cidade medieval de Montagnana Pistoiese, pertencente ao município de Marliana.
"Às vezes ele vem comigo e às vezes ele vai sozinho. A cidade inteira o conhece agora", diz a viúva.
Toldo, um gato cinza e branco de três anos, participou do funeral de Renzo Iozelli em setembro de 2011 e desde então tem o hábito de visitar o cemitério, algo que geralmente os cães fazem.
"Ele realmente amava o meu marido, ele o acompanhava por toda parte. Agora ele está comigo, minha filha e meu genro, e também gosta bastante de nós", acrescenta Ada.
Mas o percurso cotidiano até o cemitério deixa Toldo cansado com este frio. "Ele não tem saído muito estes dias. Ele está com bronquite", disse a viúva.
A devoção de Toldo lembra muito a história de Hachiko, o cão símbolo de fidelidade que viveu no Japao entre os anos 1923 e 1935.
Hachiko tinha o costume de esperar seu dono , o professor Hidesaburō Ueno, todos os dias no final da tarde, em frente a estação de trem de Shibuya,, quando o professor retornava do trabalho para casa.
Quando o professor morreu, em 1925, Hachiko continou a montar guarda no mesmo local em frente a estação, até sua morte em 1935.
Estatua de Hachiko
Sua história comoveu as pessoas e, em sua homenagem, foi erguida uma estátua de bronze que hoje é um popular ponto de encontro em frente a estação da cidade.
Clique aqui para saber toda a história deste cão inspirador.
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Foram feitos pelo menos dois filmes contando a história de Hachiko.
O clipe abaixo foi feito a partir da versão americana, e, na sua primeira parte, é sublinhado pela balada do Bryan Adamns, “I'll be right here waiting for you”, que no seu refrão diz :
"Onde quer que você vá
O que quer que você faça
Eu estarei bem aqui esperando por você
O que quer que isto custe
Ou como meu coração se parta
Eu estarei bem aqui esperando- por você"
Hachiko - Uma história verdadeira
Brian Adamns - I´ll be right here waiting for you (legendado)
Como sempre na edição da retrospectiva do ano que passou, a Veja publica a
seção Memória, onde registra aqueles que partiram no período.
Na edição
para 2012, o destaque absoluto da seção, foi para o Millor Fernandes, um dos maiores
gênios das letras que este país já teve.
Um homem múltiplo (jornalista, escritor, artista plástico, tradutor. autor de peças teatrais ).
Um acúmulo de talentos, raro de acontecer.
Eu sempre o admirei e, particularmente, existe um fato marcante na minha vida que o envolve :
A primeira peça que vi com a Fernanda Montenegro foi "É", de autoria dele.
Isto foi no final da década de 70, logo depois da minha família mudar do interior para Porto Alegre. Era sonho da minha mãe ver a diva ao vivo, então não perdemos a oportunidade de realizá-lo.
Lembro nitidamente do início e do final da peça, nos quais a "monstra" dia apenas "É".
No início, a palavra é usada no sentido imperativo, tipo "É, meu nome é fulano de tal"; e, no final, é usada num tom de reticências / reflexivo, tipo ao comentar uma situação : "É, a coisa é esta...", ou "É, a coisa tá braba...". Inesquecível.
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Millor foi um homem que viveu e comentou com fino humor e ironia as várias mudanças políticas e sociais que o país (e de resto a humanidade) passou nas ultimas décadas.
Neste período tivemos a oportunidade de acompanhar seu trabalho publicado nas maiores revistas e jornais do Brasil, com destaque absoluto para o nanico O Pasquim (que meu pai trazia para casa religiosamente).
Também foi um grande pensador, com uma capacidade espantosa de concisão.
Seus aforismos sáo obras primas e traduzem de maneira espetacular inúmeras verdades existenciais.
Por tudo isto, penso que a alcunha de "Mago das Letras", poucas vezes foi tão bem empregada quanto no caso dele.
Ele se foi, mas seu trabalho esta aí para continuar a nos impressionar e inspirar para sempre.
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Voltando ai início, a homenagem da Veja Restrospectiva 2012 ao mestre foi espetacular.
Eles
montaram um texto único a partir dos seus aforismos publicados entre 1968 e
2009.
Ficou fantástico e o reproduzo abaixo.
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“Da vida só me tiram morto”
Eu posso não ser um grande humorista, mas tenho certeza de que sou
constante motivo de riso de muita
geme. Sempre disse e aqui repito: eu também não sou um homem livre. Mas muito
poucos estiveram tão perto.
Eu sempre sei do que estou falando. Tirando isso não sei mais
nada. O que espero dos leitores é que cumpram a sua função, como eu cumpro a minha.
Eu, jornalista, escrevo. Leitores leem. Muitos dão a vida por suas crenças.
Nunca arrisquei a vida pelo meu ceticismo. Não posso falar dos seres humanos
que mais admirei na vida porque são nomes sem nome, caras que nunca frequentaram a luz da ribalta. Gente que viveu a vida
como deve ser vivida — de maneira puramente existencial. Quanto aos que
merecem ser esquecidos, ah, desses
coerentemente eu não me lembro.
Fiz três revoluções, todas perdidas. Foi aí que
resolvi me afastar da política. Me senti como um navio abandonando os ratos. A
primeira revolução foi contra Deus, e ele me venceu com um sórdido milagre. A
segunda com o destino, e ele me bateu. deixando-me só, com seu pior enredo. A
terceira contra mim mesmo, e a mim me consumi, e vim parar aqui.
Não
se iludam comigo. Mesmo no verão, quando vocês me virem, saudável e queimado,
correndo pela praia às 7 da matina, podem estar certos de que já consumi pelo
menos um jornal inteirinho, ou,
numa contenção heróica, me reservo para, com esse esforço, ganhar o direito de
sentar numa poltrona e abrir o jornal na esperança de encontrar a manchete com
que sempre sonhei: O mundo acabou ontem".
A infância não, a infância dura pouco. A juventude não, a
juventude é passageira. A velhice sim. Quando um cara fica velho é pro resto da
vida. E cada dia fica mais velho. É meu conforto. Da vida só me tiram morto.
A
gente só morre uma vez. Mas é para sempre. Existe imposto de renda depois da
morte? Reparem só: ao nascer e ao morrer o homem parece um santo. O que eu acho
fajuto, quando eu
morrer, é tanta mulher de luto
Todo
homem nasce original e morre plágio, Enfim um escritor sem estilo.
A viagem (Cloud Atlas) é uma produção alemã escrita e dirigida por Lana and Andy Wachowski (da trilogia Matrix) e Tom Tykwer ( do aclamado
“Corra, Lola, corra”), e é considerado a mais cara produção independente
de todos os tempos.
Baseado num livro considerado inadaptável para as grandes telas, “A viagem” definitivamente não é um filme para qualquer um.
O livro de David Mitchell, no qual o filme é baseado (não lançado no
Brasil), é um gigantesco épico e consiste de seis histórias
inter-relacionadas que levam o leitor do remoto Pacífico Sul no século
19 (1849) a um distante futuro pós-apocalíptico (2321).
Em 2004 (ano do seu lançamento na Inglaterra), a obra venceu o
Premio British Book Awards (Literary Fiction Award) e o Livro do Ano
Richard & Judy , e tambem foi listado para vários outros prêmios (
Booker Prize, Nebula Award, Arthur C. Clarke Award, etc).
Em Cloud Atlas, as histórias se conectam umas às outras de várias
maneiras, sendo que a principal delas é a reencarnação dos
personagens em várias formas / raças humanas (ou não), o que nos dá a
visão da “evolução” – do cumprimento do karma - de cada alma através
dos eons .
Mas não é só isto. Quem se aventurar em assisti-lo também vai
encontrar pela frente uma jorrada / jornada de histórias, temas,
textos, sub-textos, símbolos e significados, que pretende desenhar um
intenso caleidoscópio de idéias (políticas, sociais, religiosas,
filosóficas e metafísicas), o que pode fascinar e desafiar algumas
mentes ou assustar e provocar rejeição em outras.
A sinopse oficial para “Cloud Atlas” descreve o filme como:
“Um
estudo de como as ações individuais impactam umas às outras no
passado, presente e futuro. Como uma alma é transformada de um
assassino em um herói, e como um ato de bondade ecoa através dos
séculos para inspirar uma revolução”
Dito
assim, a coisa toda parece grande e pretensiosa. - E é -. E repetindo
: o que para alguns resulta em um jogo profundo e desafiador para
outros pode desaguar num imbróglio vazio e desconexo.
Fico com a primeira opção.
O certo é que ninguém fica indiferente.
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Ao
contrário do romance original (que segue uma ordem cronológica) , o
filme é estruturado, de acordo com o romancista David Mitchell, "como
uma espécie de mosaico pontilhista.
Então ficamos em cada um dos seis mundos apenas o tempo suficiente para um gancho ser lançado.
A
partir daí, então, o filme salta de mundo a mundo à velocidade de um
prato giratório, revisitando cada narrativa por tempo suficiente para
empurrá-la para a frente, o que nos atrela a poltrona para acompanhar
as ações dispersas pelas várias épocas e lugares, mesmo não entendendo
tudo, pois é impossível acompanhar claramente todos os acontecimentos e
implicações sem ter lido o livro.
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As seis histórias são:
1 ) “The Pacific Journal do Adam Ewing”
Oceano
Pacífico Sul, 1849. Adam Ewing, um advogado americano de San Francisco
durante a corrida do ouro na Califórnia, chega às Ilhas Chatham para
fechar um negócio – envolvendo escravos - com o reverendo Gilles
Horrox, em nome do seu sogro, Haskell Moore.
Lá ele testemunha o açoitamento de um escravo Moriori, Autua, que
foge, embarca como clandestino no navio de Ewing (quanto este volta
para casa), e pede ao advogado para mantê-lo escondido em sua cabine.
Autua diz ser um exímio marinheiro, o que faz com que Ewing julgue que
isto seja um bom argumento para que o capitão do navio, Molyneux,
aceite a presença do escravo e o assuma como novo empregado de bordo.
Só que o Capitão Molyneux finge concordar com Adam e logo revela ter outros planos (não tão nobres) para Autua.
Enquanto isso, o Dr. Henry Goose – outro passageiro do navio e
aparentemente um bom amigo de Adam - lentamente envenena Ewing,
alegando tratá-lo para a cura de um ataque de um verme parasita. Porém,
na verdade, seu objetivo é roubar os valores (moedas de ouro) que o
jovem transporta.
Quando Goose vai administrar a dose fatal de veneno, Autua salva Ewing.
Voltando
para a América, o advogado enfrenta o sogro, Haskell Moore, e queima o
contrato fechado com o reverendo Gilles Horrox.
Após, ele e sua esposa Tilda rejeitam a cumplicidade de Moore com a
escravidão e partem para viver ao lado dos abolicionistas.
Fim da primeira história.
Nota :
Na
segunda história sabemos que Ewing publica um jornal chamado “The
Pacific Journal do Adam Ewing” (ao estilo de Herman Melville – autor de
Moby Dick, ou seja, na primeira pessoa), no qual, entre outras coisas
relata seus dramas vividos na viagem marítima com Autua e o Dr Goose.
A
versão em formato de livro deste jornal vai fazer a link com a proxima
história.
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2 ) Cartas de Zedelghem
A próxima história acontece em Zedelghem, Bruges perto, Bélgica, em 1931.
Ela
é contada em forma de cartas de Robert Frobisher, um jovem músico
bissexual - sem dinheiro e renegado por seu pai (o que é mostrado de
modo quase imperceptível no filme ) -, ao seu velho amigo e amante,
Rufus Sixsmith, sitiado em Cambridge.
Frobisher, praticamente falido, encontra trabalho como amanuense
(aquele que documenta textos à mão) de um velho compositor, Ayrs Vyvyan,
casado com a judia Jocasta..
Talentoso, ele ajuda e inspira Ayrs na composição da sua obra prima “O Sexteto Nuvem Atlas”.
Em determinado momento, Vyvyan recebe a visita de Tadeusz
Kesselring, um alemão arrogante e simpatizante do nazismo que aprecia
suas composições. Esta visita estabelece o clima ameaçador do ambiente
político-social da época.
Depois algum tempo Robert desenvolve um "sentimento maior" em
relação ao velho compositor e acreditanto em “sentimentos recíprocos”, o
jovem o assedia (não sem antes ter se envolvido sexualmente com a
esposa do mestre), situação onde acaba sendo ridicularizado por Ayrs.
Ultrajado e envergonhado, Frobischer decide partir levando sua obra, “O Sexteto Nuvem Atlas”.
Vyvyan
então ameaça denunciá-lo publicamente como “sodomita degenerado” e o
desafia. Robert transtornado atira em Ayrs e foge, o que o levará a um
fim trágico.
Fim da segunda história.
Notas :
Na casa de Ayrs,
Frobisher encontra e lê primeira parte do “The Pacific Journal do Adam
Ewing” ( o livro está rasgado), e fica incomodado por não saber como a
história do advogado de 1849 termina (ele desconfia que o Dr Goose
estava envenenando Ewing no navio – o que era real).
Na verdade, a segunda parte do “The Pacific...” estava bem perto
dele, e seu local é revelado num movimento de câmera, porém tarde demais
pois o destino de Robert já estava selado.
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3) As meias-vidas : o Primeiro Mistério de Luisa Rey.
A terceira história é no estilo de um thriller de mistério , e ocorre em Buenas Yerbas, Califórnia, em 1973.
Luisa
Rey é uma jovem jornalista que por acaso, após uma festa, fica presa em
um elevador com Rufus Sixsmith, o destinatário das cartas da história anterior (o amigo e amante de
Robert Frobisher), e que agora é um velho
cientista.
Ruffus insinua a Rey que ele pode ser um informante de alguma
coisa grande (uma big denúncia), o que desperta o interesse da
jornalista.
O que ocorre é que o cientista é detentor de provas
sobre a frágil segurança de uma usina nuclear em Swannekke Island , na
qual trabalha e cujo proprietário é Lloyd Hooks.
Ruffus possui um dossiê com várias provas sobre a situação do
local, porém antes de passá-lo à Luisa – ele a chama ao seu apartamento
- é “apagado” pelo matador Bill Smoke, que recolhe os documentos
incriminadores após o “serviço”.
Luisa, ao deparar-se com o corpo de Rufus, encontra as cartas de Frobrisher.
Ela as recolhe e encanta-se com as missivas, o que a faz procurar uma gravação de “O Sexteto Nuvem Atlas”.
Numa
velha loja de discos , ao ouvir a composição, Luisa tem a impressão de
já a conhecer. Porém o vendedor diz que isto é quase impossível pois a
gravação é raríssima e que existem poucos de seus exemplares no mundo.
A jornalista continua a investigação sobre Swannekke Island, e logo se vê enredada numa cadeia de perseguição e assassinatos.
Nesta
aventura ela recebe ajuda de um ex companheiro de combate de seu pai,
Joe Napier, e de outro empregado da usina, Isaac Sachs – com o qual estabelece um link esfumaçado, à Carlos Castaneda - , que também é morto.
No final ela consegue uma cópia do dossie incriminador com a
sobrinha de Sixsmith, Megan, e em troca ela entrega à jovem as cartas
de Frosbrisher - (no livro ela recebe mais oito cartas da garota).
Fim da terceira história.
Nota :
Outro personagem que ajuda Luisa é Javier Gomes, um
garoto vizinho seu. Sabemos depois que Javier torna-se um escritor, cuja obra “As meias-vidas: o Primeiro Mistério de Luisa
Rey” fará o link com a quarta história
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4 ) O medonho calvário de Timothy Cavendish
Reino
Unido, 2012. Timothy Cavendish, um editor de 65 anos de idade, tem uma
sorte inesperada quando Dermott Hoggins, um autor meio gangster cujo
livro publicou, mata de forma espetacular um crítico que acabou com sua
obra.
Obviamente Hoggins é mandado para a prisão, e seu livro – apesar de ser uma droga - se torna um grande sucesso de vendas.
Cavendish comemora, porem os irmãos brutamontes de Dermott buscam Cavendish e exigem 50 mil libras em dinheiro.
Porém, mesmo tendo nas mãos um best-seller, toda a grana que entrou para o editor só serviu para cobrir dívidas.
Desesperado
Timothy busca socorro em seu irmão milionário, Denholme. Este, já de
saco cheio com as artimanhas do velho editor, ao invés de ajudá-lo, simula
estar mandando-o para um hotel, quando, na verdade o destino é uma
espécie de casa de repouso -prisão, onde o idoso é trancafiado e
perseguido pela implacável e sádica Enfermeira Noakes.
Inconformado, Cavendish traça um plano de fuga para ele e alguns companheiros.
Fim da terceira história.
Notas :
Durante
a ação, o editor menciona superficialmente estar lendo um manuscrito
de um autor promissor (Javier Gomes), chamado “As meias-vidas: o Primeiro Mistério de
Luisa Rey” (link com a terceira história), que não o impressiona.
Soylent Green - Poster
Também ficamos sabendo (durante o desenrolar da quinta história)
que foi produzido um filme - não se sabe quando e nem por quem -
sobre as peripécias de Cavendish, intitulado “O medonho calvário de
Timothy Cavendish”.
Ao fugir da “clínica”, Cavendish grita “Soylent Green é gente!”,
que vem a ser uma referência direta ao filme de 1973, “No mundo de 2020 (Soylent Green)”. Neste clássico da ficção, vemos uma sociedade quase em colapso, onde a comida oficial para as camadas mais baixas da sociedade é o "Soylent Green", um tablete feito de algas. Porém no decorrer da trama, acabamos sabendo que os tais tabletes são feitos de carne humana.
Alias, esta idéia de canibalismo (no sentido figurado ou literal) ecoa em todo Could Atlas, especialmente na quinta e sexta história.
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5 ) Uma prece de Sonmi~451
Neo Seul (Coréia do Sul), 2144.
A
quinta história acontece em Nea So Copros, um estado futurista
distópico que revela ser a atual Coreia em regime
totalitário.
A narrativa é contada em forma de entrevista entre Sonmi ~ 451 e um
"Arquivista" (uma espécie de agente interrogador do governo), que está
gravando sua história antes da sua execução. O Arquivista trabalha com o
autoritário e ameçador Boardman Mephi, que também intimida a garota.
Sonmi ~ 451 é um Fabricante, que são clones geneticamente
modificados para trabalharem (servirem) os Consumidores de diversas
formas. No caso de Sonmi, ela “trabalha” numa cadeia de fast-food
chamada “Papa Song”, numa loja gerenciada por Seer Rhee,
Os Fabricantes são tratados como escravos pela sociedade “puro
sangue”, que embota suas consciências através de manipulação genética,
tornando-os dóceis cordeirinhos.
Na seu ”lar-prisão”, na Papa
Song, Sonmi trava uma espécie de amizade com a clone Yoona-939, uma
Fabricante meio dissidente que lhe mostra um vídeo do filme “O medonho
calvário de Timothy Cavendish”.
O vídeo mostra o ator que intepreta
Cavendish gritando “Não vou me submeter a abuso criminal!”. Este será o
mesmo grito de Yoona quando ela parte para ação dentro do fast-food.
Continuando o depoimento, Sonmi ~ 451 conta ao Arquivista ter sido
libertada por Hae-Joo Chang, um rebelde membro da Resistência,
cujo lider é An-kor Apis.
Chang a protegeu e revelhou-lhe que Fabricantes como ela são "reciclados" em alimento para futuros
Fabricantes, e que os rebeldes necessitavam que ela assumisse o papel de um símbolo, um farol inspirador para a luta.
No seu processo de conscientização, a garota assiste a um velho
documentário sobre o dissindente russo, Alexander Soljenitsin ( o que dá
a idéia de luta contra um regime totalitário como o de Nea So Copros).
Sonmi
compreende sua missão, e, durante a batalha dos rebeldes – protegida em
uma espécie de cabine - discursa em prol da liberdade, ao mesmo tempo
em que testemunha o fim de Chang .
Já presa, e na ante-camara do execução, a garota demonstra ter
alcançado consciência própria e tornado-se uma “ascendente”, o que
intriga o Arquivista.
Sonmi é executada, mas não sem antes ter conseguido registrar sua inspiração na mente e almas das pessoas (tanto que ela se tranforma em "deusa" das próximas gerações)
Fim da quinta história.
Notas :
Sonmi entra em
contato com o velho filme “O medonho calvário de Timothy Cavendish”
em vários momentos. O filme está truncado, mas é suficiente para
arrebatar e fomentar idéias de luta e resistência na clone.
É óbvia a relação entres os Fabricantes es Replicantes, de Blade Runner.
No
livro ela revela saber que toda a jogada a envolvendo era um plano do
governo para criar um falso inimigo que justificasse o recrudescimento
da opressão dos “puro sangue” sobre os Fabricantes. Mesmo assim Sonmi
afirma que seu papel estava cumprido e, independente de qualquer coisa,
sua mensagem foi dada e sua missão levada a cabo. Como último desejo,
ela pede para ver o “O medonho calvário de Timothy Cavendish” do início
ao fim.
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6 ) A Travessia de Sloosha e tudo depois.
Nas
ilhas havaianas, numa Terra pós-apocalíptica ( "106 invernos após " A
Queda ", identificada em 2321), um membro de uma tribo chamado Zachry
vive uma vida primitiva, após a maioria da humanidade ter morrido
durante “ A Queda " e é atormentado por visões do “Velho Georgie” que
vem a ser a percepção que sua cultura tem do “diabo” (ou qualquer coisa
que o valha).
Na floresta, Zachry observa impotente seu cunhado ser morto por
Kona Chief, membro de uma tribo canibal, ao mesmo tempo em que o “Velho
Georgie” manipula sua mente, seduzindo-o para ceder ao mêdo (o que
acontece).
Mais tarde sua tribo é visitada por Meronym, uma membra dos
Prescientes, os últimos vestígios de uma civilização tecnologicamente
avançada.
Meronym quer subir as montanhas em busca de de Cloud
Atlas, local onde ela poderá ativar um mecanismo para estabelecer
comunicação com os terráqueos espalhados em diversos planetas (ao que
parece ela quer avisar a todos que um novo mundo foi encontrado e que
todos devem dirigirem-se para lá ). A questão é que Terra virou um ambiente envenenado após "A Queda", e o povo se dispersou no espaço.
Zachry se recusa a levá-la, porém, após sua sobrinha ser picada
por um escorpião, ele busca Meronym e promete guiá-la na sua jornada
caso ela cure a menina.
Trato cumprido, ambos partem para as montanhas.
Em contraponto ao “Velho Georgie”, a tribo de Zachry acredita na
Deusa Sonmi como protetora da sua raça. Porém Meronym choca o primitivo ao revelar-lhe
que Sonmi na verdade era bem humana e nada tinha de deusa, e, para
isto lhe mostra, já no Cloud Atlas, um vídeo com a clone dando seu
depoimento ao Arquivista.
Missão realizada (não sem antes rolar um stress entre os dois, provocado pelo Velho Georgie), ambos retornam à tribo, só para descobrir que a
mesma foi dizimada pelos canibais, tendo como unica sobrevivente uma
sobrinha de Zachry.
Após enfrentarem os inimigos ( e acabarem com Kona Chief ), os três são recolhidos pelos Prescientes e iniciam uma nova vida no novo mundo.
Fim da sexta história.
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Resumidamente as histórias são estas.
Cada
uma traz personagens lutando contra a opressão e a corrupção, buscando a
liberdade e estabelecendo encontros e laços com pessoas diferentes de
si mesmos.
O maravilhoso é observar o imenso painel humano e suas
modificações, interações, atos e conseqüências através das várias vidas
retratadas. No final parece que o espectador levou um soco na cara,
tamanha é a gama de idéias e sensações que ficam na nossa mente.
Para ver e rever.
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Alguns atores e personagens e a evolução das suas almas
Nota : No livro estas conexões não existem
TOM HANKS
Personagens :
1) Dr. Henry Goose, em 1849
2) Um gerente corrupto de um hotel em 1936
3) Isaac Sachs, em 1973
4) Dermot Jens , em 2012
5) Um ator que intepreta “Timothy Cavendish” em data incerta
6) Zachry, s em 2321
Jornada da sua alma :
Ele evolui de um doutor assassino que diz “ A fraqueza é a carne que os
fortes comem”, até alguém que aprende a coragem e abnegação.
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JIM STURGESS
Personagens :
1) Adam Ewing, em 1849
2) Um hospede de hotel em 1936
3) Pai de Megan, em 1973 (aparece apenas em fotografia)
4) Um fã de futebol em 2012 que ajuda Cavendish e sua turma
5) Hae-Joo Chang, em 2144
6) Cunhado de Zachry, em 2321
Jornada da sua alma :
Ele começa relutando em ajudar um escravo
fugitivo (em 1849) e acaba como um revolucionário dedicado a acabar com
toda a escravidão. (2144). Sua encarnação de 2321, não é explorada.
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BEN WHISHAW
Personagens :
1) Um tripulante de navio em 1849
2) Um compositor bissexual em 1936
3) Um vendedor de discos em 1973
4) A esposa de um milionário em 2012
5) Um primitivo da tribo em 2321
Jornada da sua alma :
Aparentemente não evolui muito.
Tirando 1936, suas encarnações não são exploradas ao longo do filme.
Será porque cometeu suicídio como Robert Frobisher ? Conforme o
espiritismo, quem comete suicídio não “descansa” tão facilmente.
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HALLE BERRY
Personagens :
1) Uma escrava em 1849
2) Jocasta em 1936
3) Luisa Rey em 1973
4) Garota Indiana em uma festa em2012
5) Um doutor coreano em 2144
6) Meronym em 2321
Jornada da sua alma :
Ela ascende de
alguem sem poder algum para a ultima esperança da humanidade. Fica claro
seu impulso para a justiça e boa vontade com as pessoas.
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JIM BROADBENT
Personagens :
1) Capitão Molyneux, em 1849
2) Ayrs Vyvyan, em 1936
3) Timothy Cavendish, em 2012
4) Um musico de rua em 2144
5) Um Presciente em 2321
Jornada de sua alma :
Ele inicia sendo arrogante e dominador, mas torna-se humanitário ao longo do tempo.
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DOONA BAE
Personagens :
1) Tilda em 1849
2)
Uma trabalhadora espanhola e mãe de Megan em 1973. Provavelmente a mãe
da Megan (que aparece em uma foto) já está morta em 1973 pois uma única
alma não pode habitar dois corpos ao mesmo tempo.
3) Sonmi-451 em 2144
4) Uma Deusa em 2321
Jornada da sua alma :
Desde o início uma figura forte e decida, acaba virando uma deusa.
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HUGH GRANT
Personagens :
1) Rev. Giles Horrox, em 1849
2) Um funcionario de hotel, em 1936
3) Lloyd Hooks em 1973
4) Denholme Cavendish, em 2012
5) Seer Rhee, em 2144
6) Kona Chief, em 2321
Jornada de sua alma :
Vai de mal a pior e acaba como um embrutecido selvagem canibal.
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HUGO WEAVING
Personagens :
1) Haskell Moore, em 1849
2) Tadeusz Kesselring, em 1936
3) Bill Smoke, em 1973
4) Enfermeira Noakes, em 2012
5) Boardman Mephi, em 2144
6) Old Georgie, em 2321
Jornada de sua alma :
Uma
figura de crueldade, controle, perseguição e morte, que nunca
demonstra qualquer tipo de remorso ou sentimento positivo, e acaba
tornando-se uma espécie de entidade do mal (verdadeiro ou não ?).
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KEITH DAVID
Personagens.
1) Kupaka, um escravo do Rev. Giles Horrox, 1842
2) Joe Napier, em 1973
3) An-Kor Apis, em 2144
4) Um Presciente, em 2321
Jornada de sua alma :
Evolui de um escravo a um líder de revolução. Sua ultima encarnação é a de um sábio e pacifico Presciente.
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JAMES D'ARCY
Personagens :
1) Jovem Rufus Sixsmith, em 1936
2) Velho Rufus Sixsmith, em 1973
3) Uma enfermeira sem maior destaque, em 2012
4) Arquivista, em 2144
Jornada de sua alma :
Um tanto confusa. Ele alterna de um leitor passivo das cartas do amado, a
um destemido cientista, passa por uma enfermeira irrelevante e termina
como um agente da lei de um regime totalitário ( se bem que fica um ar
de que a Sonmi conseguiu mexer com sua mente, mas a coisa não passa
disto).
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Trailer Legendado
Soylent Green - No ano de 2020
Charlston Heston acabado, grita : "Soylent Green is people !!"
Piadinhas infames com Soylent Green
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Natalie Portman & Cloud Atlas
Outro fato sobre o filme é que os irmãos Wachowskis tomaram conhecimento do livro Cloud Atlas através da Natalie Portman durante a filmagem do "V for Vendetta", no qual ela era a protagonista.
Natalie estava completamente obcecada pela obra do David Mitchell e acabou contagiando a Lana Wachowski (que era a escritora e produtora do "V").
Lana levou o livro para o Andy Wachowksi e, a partir de então, ambos empenharam-se para trazer o livro às telas (Só pra constar : tem gente que encontra pontos de conexão entre o "V" e a história da Sonmi)
Abaixo clipe do V for Vendetta, ao som da belíssima musica "I´m a bird girl now" , com o Antony and The Johnson