Hino do Blog - Clique para ouvir

Hino do Blog : " ...e todas as vozes da minha cabeça, agora ... juntas. Não pára não - até o chão - elas estão descontroladas..."
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Wednesday, July 02, 2008

Teatro - Ensina-me a viver


Esta peça foi especialmente escolhida para a comemoração dos 150 anos do Teatro São Pedro de Porto Alegre. Justa escolha pois reúne vários elementos de celebração da arte. Primeiro é baseada no cultuado filme homonimo de 1971, dirigido por Hal Ashby, que marcou época por sua transgressão e por apresentar uma das mais bizarras histórias de amor do século passado (Harold and Maude). Depois, por fazer uma bela celebração do teatro. Num determinado momento Maude diz que tudo o que ocorre no teatro é efêmero, dura o momento do olhar e da emoção, não se repete jamais. Cada sessão é diferente da outra. Isto é uma grande verdade e traduz a conhecida magia teatral. Tudo acontece no momento-já e quem pisca, perde. Não se poderia escolher melhor discurso para os 150 anos do velho Pedro.

A montagem é ótima, os atores são espetaculares. Ilana Kaplan está engraçadíssima como a mãe dondoca. Arlindo Lopes detona como o sequelado Harold. Fernada de Freitas e Augusto Madeira dão um show nos diversos personagens que encarnam. E, óbvio, Gloria Menezes merece todas as honras. Fantástica. Há muitos anos vi “Navalha na Carne” com ela e fiquei impressionado. Hoje volto a vê-la e tenho a dizer que, apesar das plásticas, continua uma grande atriz. Realmente merece respeito.

Enfim, uma peça emocionante para derramar lágrimas mesmo. Saí lavado.

Sunday, June 15, 2008

Filme - Lady Chatterley


Eu sempre tive dificuldade de entender o que é erotismo. Sensualidade eu sei, pornografia também, mas erotismo me é nebuloso, algo difícil de identificar. Tipo, seria aquilo que excita sem ser explícito? .. mas para mim isto poderia ser sensual. Ou seria algo mais picante que o sensual, mas que não chega ao explícito? .. pode ser, de repente é um entendimento. De qualquer forma para mim é, repito, difícil identificar. “Era”, quero dizer, pois ao ver ontem “Lady Chatterlay” (uma adaptação de uma das versões do “Lady Chatterley's Lover,” de D.H. Lawrence, obra que ficou proibida na Inglaterra por 32 anos) dirigida pela Pascale Ferran, acho que finalmente pude entender o que é o erotismo. Em aproximadamente 168 minutos a conhecida história da aristocrata entediada e frustrada sexualmente Constance ( magistralmente interpretada pela Marina Hands, de As Invasões Bárbaras), que descobre o prazer nos braços do bruto empregado Parkin (Jean-Louis Coullo'ch, também excelente e transpirando sensualidade “da terra”), é apresentada de uma forma que eu só posso dizer como “erótica”. Sim pois sem chegar ao explícito o sexo é apresentado de uma forma realista e muito excitante. E olha que mesmo sem ser hetero eu fiquei, sem querer ser baixo, “entusiasmado” com as cenas de sexo do casal. O que contribui para isto é a forma como o envolvimento sexual é mostrado. Naquele ritmo “devagar, quase parando” dos filmes europeus cabeça, a construção do envolvimento dos protagonistas é revelada aos poucos tanto para eles quanto para nós. Nas primeiras trepadas eles ficam praticamente vestidos, porém, à medida em que a intimidade deles cresce, o envolvimento cresce, os sentimentos e os corpos vão se desnudando entre eles e para nós. É uma viagem lenta para a descoberta de ambos, tanto num sentido individual quanto no encontro com o outro. Para isto contribui muito a mão da diretora que dá, digamos, um toque feminino no filme – o que só engrandece o conjunto. Claro que a história também tem um lado de conflito social, de classes, que é bem mostrado no filme. Algumas cenas e diálogos mostram isto de maneira magnífica. É um filme lento, mas que não cansa. O final pode frustrar algumas pessoas; a mim não. Vale a pena

Wednesday, June 04, 2008

Filme - O Hospedeiro (Bong Joon-ho – 2006)


Um filme de terror ? Uma comédia? Uma sátira política? Um drama familiar? Um filme-desastre? Um filme ecológico ? Um filme trash de monstro?.. Como definir “O hospedeiro” , filme coreado de 2006 ? Resposta : todas as opções anteriores. E a mistura de tudo isto resulta numa obra absolutamente original.


Claro que fica meio difícil para o espectador médio acompanhar as mudanças de tom que ocorrem durante todo o filme. Determinados momentos são de suspense puro, outros são hilarios, outros dramáticos, outros de crítica social e política e assim por diante. A cada mudança de foco somos obrigados mudar nossa emoção, nossa perspectiva, nosso pensamento. Se não estivermos a fim de fazer este jogo não poderemos apreciar o que estamos vendo.


Particularmente gostei das cenas onde os americanos aparecem.. Eles são retratados na sua arrogância de poder científico, militar e intervecionista planetário. Já os coreanos não mostrados inseridos numa sociedade bagunçada, despreparada e interesseira. E permeando tudo isto tem a história da família –um tanto fora da casa- que luta para recuperar a garotinha sequestrada pela criatura do lago.. Esta família realiza sua jornada a trancos e barrancos e não desiste da busca em nenhum momento apesar de ser perseguida pelo governo, pela polícia e pelos cientistas. Isto sem falar das porradas que leva nos enfrentamentos com o monstro. Isto é que é ter fé. Muito bom.

http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/2870,1.shl

Monday, June 02, 2008

Filme - Plata Queimada (Marcelo Piñeyro – 2000)


Já tinha lido o livro do Ricardo Piglia (no Brasil chamou-se “Dinheiro queimado”) e fiquei surpreso com o filme. Baseado em fatos reais ocorridos em 1965 no cone sul, Plata Queimada conta a história onde um bando assalta um carro-forte em Buenos Aires, mata algumas pessoas, e acaba fugindo para Montevideo.

O que me surpreendeu no filme foi o foco mais em cima da paixão louca (literalmente) dos “gêmeos” Angel e Nenê do que dos fatos em si. O livro explora mais todo o universo em que história ocorreu e a relação dos dois, apesar de também ser fundamental à narrativa, não é tão explorada como no filme. O filme é ótimo.

Os atores Eduardo Noriega (Angel), Leonardo Sbaraglia (Nenê), Pablo Echarri (Cuervo) e Leticia Brédice (Giselle) matam a pau. Fiquei imaginando que atores brasileiros teriam condições de unir beleza e força de talento iguais aos dos argentinos do filme. Achei dificil. Talvez o Santoro pudesse fazer um dos papéis e olhe lá.

Link para mais informações do filme

http://www.webcine.com.br/filmessi/plataque.htm

Livro : Grande homem mais ou menos (Luis Pimentel)


Sei que o que vou afirmar vai soar como uma heresia para muitos, mas não sou um apreciador ativo de livro de contos. Gosto, é claro, e reconheço que já me deleitei muito com obras do Nelson, do Fonseca, do Guimarães, da Monique Revillion, etc. Porém, no geral, este tipo de livro não me atrai muito.

Então porque comprei este livro do Luis Pimentel? Pelas críticas e pelos premios recebidos por vários dos contos publicados neste livro. Já encontrei muito coisa boa a partir deste tipo de indicação (prêmios e críticas) e é um dos meios que busco para selecionar o que comprar. Foi o que fiz com “Grande homem mais ou menos”. Comprei no escuro, li. O que achei ? - primeiro, não achei tudo aquilo que tinha lido nas críticas; segundo, o nível dos contos é bem variável, vão do bom ao piegas facilmente; terceiro, a originalidade não é o forte; temas óbvios como marginalidade e loucura estão presentes como já era de se esperar. Ou seja, nada tanto assim (como diria o Kid Abelha).

Porém alguns contos realmente são ótimos, tipo o do cachorro atropelado e o da viagem do filho. No mais achei bem mais ou menos. Para quem curte contos de repente o livro possa impressionar muito mais do que a mim. Vai do gosto do freguês.

http://www.planetanews.com/produto/L/278375/grande-homem-mais-ou-menos-luis-pimentel.html

Filme – A sangue frio (Richard Brooks – 1967)


Um soco na cara – e bem feito para mim. Assim pode ser definido este filme.

Então eu estava em casa e resolvi assistir esta adaptação do clássico do Capote realizada em 1967 que baixei da Internet. O que ? .. um filme com mais de quarenta anos retratando o brutal assassinato da família Clutter pela dupla Richard "Dick" Eugene Hickock (numa grande intepretação do Scott Wilson) e Perry Edward Smith (intepretado pelo Robert Blake – o famoso “Baretta”)? Com certeza, pensei comigo mesmo, a adaptação deve ser bem light pois uma história porrada como esta não seria retratada de forma “densa” em um filme jurássico. E foi o que comprovei. Aliás comecei a achar ridículo quando logo surge o primeiro devaneio do Perry Smith (intepretado pelo Robert Blake – o famoso “Baretta”), quando ele se imagina um astro da música. E eu pensei: que bobagem, meu Deus. Depois o filme encaminha-se para os eventos dos assassinatos e eu pensei : não vão mostrar nada pois o filme é “antigo”. Não deu outra. Um salto da noite dos assassinatos para o dia seguinte resumiu o crime. E o filme segue, por um lado mostrando a investigação policial e por outro as andanças dos criminosos antes da captura (igual ao livro).

Mas hei que comecei a me sentir angustiado pois o filme vai entrando cada vez mais na mente dos assassinos e os devaneios de um e de outro começam a dar outro tom à narrativa. De cínico passei a curioso e daí a perturbado. E o filme vai num crescendo de sufoco. E para meu completo terror, já um tanto perto do final, ocorre um flashback que retoma a noite do crime. Caiu minha cara, mas eu já estava preparado para o pior. E foi o que aconteceu. As assassinatos são mostrados de uma forma que eu diria chocante até para os padrões de hoje. Nada de sangue espirrando e coisas do tipo. O que é mostrado, de forma calma e fria, é a reação de desamparao e horror das vítimas (especialmente a garota). A sequência é angustiante, para dizer o mínimo.

Depois, para nova surpresa, aparece um personagem representando o Capote que passa a acompanhar e a comentar o processo da condenação criminal – também igual ao livro. Seguem-se os acontecimentos no corredor da morte e o enforcamento de ambos. Aliás a cena do enforcamento do Perry Smith é nova porrada – tem a ver com traumas com o pai. Chocante. Um baita filme.

Fofocas :

Os produtores queriam Paul Newman e Steve McQueen para os papéis principais. Ambos recusaram.
Robert Blake anos depois foi acusado de assassinar sua esposa. Foi julgado e inocentado.

Thursday, May 29, 2008

Filme – Old Joy (Kelly Reichard - EUA, 2006)


O que dizer deste filme? .. A história é de uma banalidade ridícula – resumindo : dois amigos vão acampar, e só. Acontece alguma coisa “emocionante” ? Não. Existe algum conflito? Não. Existe alguma ação? Definitivamente não. O que temos então : muitas imagens, pouca conversa (sendo que estas poucas podem ser qualificadas como“ banais”), lentidão – tudo muito devagar naquela linha de “filme para dormir”. Porém, porque alguma coisa me pregou à tela? Porque fiquei assistindo meio abobado, meio chapado até o final? E porque um filme com “estas qualidades” ficou ecoando na minha cabeça ao terminar de forma totalmente aberta? Não sei e nem quero explicar. Anyway, o que ficou para mim é que Old Joy mostra, de uma maneira muito delicada, as vias e os desvios da vida, a tentativa do resgate da inocência, a tentativa do resgate das emoções, a tentativa de retorno a algo deixado pelo caminho. O “clímax” (se é que se pode encontrar algo deste tipo num filme onde nada acontece) na banheira natural é de uma plasticidade magnífica. Ali se revela alguma coisa? Se explica alguma coisa? Talvez para o espectador afoito por identificar algum motivo para a ação (ou falta de) dos personagens, alí está o que o filme quer contar. Não acredito nisto e acho que é sem dúvida alguma de uma burrice atroz resumir o filme a uma história gay mal resolvida. Para mim o filme é amplo, é universal naquilo que nos remete à perda daqueles belos sentimentos que faziam parte da nossa felicidade e que acreditávamos que estariam para sempre conosco.

http://www.revistacinetica.com.br/oldjoy.htm

Livro – Decima Terceira História (Diane Setterfield)


Um livro com todos os elementos góticos (loucura, obsessão, mansões, segredos, fantasmas, climas, governantas, etc). Mas estes elementos não funcionariam por sí só se não houvesse uma história boa para contar. Neste caso a história é muito boa. O interessante é que eu tava adorando o livro, mas lá pela metade percebi que a autora se perdeu completamente (um personagem chave muda da água pro vinho sem explicação nenhuma). Fiquei decepcionado pela inaceitável bola fora, mas como já tava engatado continuei. Eis porém que a esperta da Diane ao revelar o “segredo” simplesmente explica de forma surpreendente o que eu (e todos os leitores com certeza) não tinha entendido. Meu queixo caiu. Tá prometida uma versão para o cinema, adaptada pelo Christopher Hampton, o carinha que ganhou um Oscar pelo roteiro do Ligações Perigosas.


http://www.revistainonline.com.br/ler_noticia_cultura.asp?secao=19&noticia=2631

http://www.relativa.com.br/livros_template.asp?Codigo_Produto=80845#200


Sinopse tirada da Internet :


A décima terceira história contém os três ingredientes essenciais a uma história clássica - enredo forte, exploração original de um relacionamento apaixonado e fora do comum (uma sinfonia de irmãos e gêmeos) e uma narradora cuja busca incansável da verdade é sedutora. Uma heroína improvável, sem filhos, eternamente ligada à literatura - uma paixão absoluta pelos livros permeia a trama. Assim como um ligeiro senso de implausibilidade e de esqueletos dentro de armários, ansiando por libertação. A escritora Vida Winter passou quase seis décadas cuidadosamente arquitetando respostas para a imprensa. Iludir jornalistas e admiradores acerca de sua origem, afastá-los de seu passado enigmático - tão enigmático quanto sua primeira obra, intitulada Treze contos de mudança e desespero, mas que só continha 12 - é como uma segunda natureza. Porém, tudo isto está prestes a mudar quando Margaret Lea, biógrafa amadora, recebe uma carta da famosa autora convidando-a a redigir suas memórias. Pela primeira vez, Vida Winter, reclusa e doente, vai contar a verdade. Uma verdade com certo quê de Irmãs Brontë - uma casa isolada em prados enevoados, gêmeos com sua própria linguagem, governantas sisudas. Uma família atormentada por segredos e cicatrizes. Mas poderá Margaret, acostumada a cuidar dos livros no velho antiquário do pai, confiar totalmente em Vida? E terá sido eleita depositária das confidências por mero acaso?

Filme - Tarnation

Sabe aqueles filmes que você acaba de assistir e fica meio fora da casinha ? Este é o meu caso com o Tarnation.

O filme é sincero ou hipócrita? Uma tragédia explícita ou uma ego-trip do diretor ?... neste caso, Jonathan Caouette, um carinha auto-denominado “cineasta underground”.

O filme pode ser definido como um “auto-documentário” já que praticamente todas as imagens são fotos ou vídeos caseiros. Mas o que leva alguém a lançar ao público as mazelas de uma família com doença mental ? – a avó e a mãe Renee seriam esquizofrênicas. Na adolescência Renee passou por tratamento de choque duas vezes por semana durante dois anos. Sua história é de arrepiar.

E o menino Jonathan foi criado sem o pai, viu a mãe ser estuprada, passou por alguns lares adotivos antes de ser definitivamente adotado pelos avós. Como resultado de tudo isto o diretor se coloca como uma “persona angustiada” , fruto desta família louca. E que persona! .. Vídeos mostram Jonathan aos onze anos interpretando uma fulana que apanha do marido e em outro, uma drogada. Um prodigio de precocidade.

Nesta necessidade de se mostrar (ou seria mostrar sua possível doença?) , o diretor / ator bombardeia o publico com uma “performance over” que pode soar totalmente fake - ou real dependendo do ponto de vista. A mim soou mais fake que sincera. Isto falando dele, pois se olharmos para o caso de Renee algumas imagens são impressionantes, principalmente quando a mostra, já ao final, quase que totalmente débil.

Uma cena me incomodou muito : aquela onde Jonathan confronta seu avô questionando se os abusos atribuídos a ele pela sua mãe são verdadeiros ou não. Me chocou tanto a agressividade do cineasta quanto a fragilidade do velhinho acuado.

Produzido por Gus Van Sant e James Camerom Mitchel (o imortal Hedwig), Tarnation é da linha dos chamados “filmes polêmicos e que devem ser vistos. A trilha sonora é fantástica.

http://www.contracampo.com.br/64/tarnationruy.htm


http://www.cinereporter.com.br/scripts/monta_noticia.asp?nid=1768



Thursday, September 20, 2007

Livro - Barcarola / A morte sem charmes nem disfarces

Barcarola

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“Chegara a sua vez e o homem aniquilado aprendeu muito cedo a duras e tristes penas e com freqüência envenenado pelo inconformismo e pela revolta que a enfermidade letal seguiria cegamente o seu fatídico curso como se estivesse e de fato se encontrava submissa a um rígido roteiro imune a qualquer forma de improviso ou alterações até cumprir o minguado prazo de seis meses porque esta era o tempo exíguo e mesquinho a margear-lhe a vida que agora se precipitava em desabalada carreira e em vertiginoso parafuso na direção do fim.

Chegara a sua vez”

Assim, direto sem vírgulas e com pouca pontuação é o livro “Barcarola – a morte sem charmes nem disfarces” do Pastor Jonas Rezende.

Em Barcarola acompanhamos os seis últimos meses de vida do protagonista. No início ele recebe a fatídica notícia do médico, recusa-se a morrer e parte em busca de um milagre com rezas, ritos, promessas de cura etc. Depois com a doença já avançando, ele se interna num hospital para cercar-se dos melhores cuidados da medicina que lhe prometem uma morte digna e sem (muita) dor.

Seu corpo então começa a definhar, a encolher-se, a corroer-se. Ele fica dependente para tudo, desde comer, tomar banho, até de alguém que limpe sua merda. Porém sua mente cada vez mais alerta, entra num turbilhão de ódio, revolta, questionamentos, lembranças, arrependimentos, reflexões, pedidos de socorro, de colo, de entendimentos, de comunicação (sem muito sucesso).

É claro, até mesmo porque o tema já espanta, o livro não é de leitura fácil. Com alguns lances geniais e outros ridículos de tão piegas a leitura atrai e cansa muito em determinados trechos. Eu, que não sou muito poético, me incomodei com o tom lírico de boa parte do livro. Depois acabei relaxando e busquei entender tal tom a partir da cabeça do moribundo.

Porem não aceitei bem as divagações sociais, políticas, ecológicas, etc, nas quais ele entra e que parecem não ter nada a ver com o objetivo da história.

Mas entre trancos e barrancos a leitura avança sempre com cuidado redobrado pois um texto sem pontuação exige atenção.

Uma passagem genial é do seu último orgasmo – realmente um achado de criatividade numa cena que mistura atração e repulsa para quem lê. Bati palmas. Mas aqui Jonas, talvez achando que os leitores ficariam muito chocados, extende-se numa justificativa desnecessária como que necessitando afirmar a nobreza e a pureza do acontecido.

Este é um dos pecados do livro, a necessidade meio obsessiva de explicar e comentar algumas idéias como se houvesse uma motivação imperiosa de deixar tudo muito claro e evitar algum julgamento ou entendimento errado.

Porém, como a obra lida com o mistério da morte, o leitor avança até mesmo para ver como o autor vai tratar o momento culminante.

E como isto acontece?

Bem, eu diria que Jonas, por ser um pastor, tende a dar uma visão mais “almática” (sic) da morte. Não uma coisa cristã tradicional com anjos cantando (se bem que rola um som) e escadarias para o céu, mas uma espécie de transfiguração, de desdobramento de entendimento, de aprendizado, de aceitação.

Um retorno ao útero, ao lar primordial (o da origem, o do coração) – ou algum outro local que combine segurança, amor e felicidade.

É uma solução fácil e adequada às expectativas do leitor médio? Tipo, querendo dar um alívio para quem acompanhou toda a tragédia do protagonista até ali e precisa voltar a respirar?

Ou seria melhor ele terminar com a extinção da consciência, do pensamento? ... com o aniquilamento da vida pura e simplesmente, numa visão existencialista, direta e crua ?

De qualquer forma achei no livro uma expressão que define bem meu sentimento frente ao inevitável

“... esta misteriosa e dolorida saudade que começo a sentir de mim mesmo...”

Porto Alegre em Cena - Madame Curie

Madame Curie

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O que dizer desta peça? Eu não queria ver – achei que não merecia um monólogo em espanhol sobre a cientista descobridora do polônio e do rádio – mas acabei sendo convencido pelo meu companheiro. Só posso resumir a sensação final em uma palavra : emoção.

A peça inicia absolutamente descarnada : sem cenário, sem palco, sem iluminação. Apenas cadeiras numa sala. Nidia Telles entra e se apresenta como uma velha jornalista que ficou amiga íntima de Madame Curie quando esta lhe concedeu uma entrevista. E começa a se lembrar desta relação, a contar sobre a vida da cientista. Assim, simples. Mas que simplicidade ! Nidia é magnífica. Com uma riqueza de recursos gestuais, vocais, corporais ela vai contaminando a todos com sua atuação soberba.

A peça avança e somos convidados a caminhar com ela por dentro da Casa Rocco, acompanhando a ação em outras salas. Em um determinado momento – realmente impressionante – ela despe a jornalista (sempre alegre e comunicativa) e encarna a Madame Curie (uma pessoa marcada pela máscara do cientificismo, da rigidez) e dá voz direta à cientista. O publico perde o fôlego.

Depois volta a assumir a jornalista e a peça parte para o final dentro de um laboratório. O final é belíssimo, quando a jornalista lê um pedaço do discurso do Pierre Curie quando, juntamente com Marie Curie e Henri Becquerel., ganhou o Nobel de Física em 1903.

O texto questiona se a curiosidade, a investigação do homem sobre os mistérios da natureza é correto, qual o preço que a natureza cobra e se os resultados realmente são válidos. Fantástico.

Porto Alegre em Cena - Toda nudez será castigada

Toda nudez

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Nelson Rodrigues é gênio. Não escondo que amo quase tudo dele. “Toda nudez” não é exceção, Clássico. Já tinha visto outra versão em um Porto Alegre há alguns anos com a Leona Cavalli fazendo a Geni. Ótima. Mas tenho que tirar o chapéu para a Patrícia Selonk. Realmente magnífica como a Geni nesta montagem do grupo Armazém Cia. de Teatro. Também Thales Coutinho está fenomenal com seu Herculano. O resto do elenco não fica muito atrás. A iluminação é absurda de perfeita. O cenário presta-se a jogos cênicos fantásticos. Tudo perfeito. Obra prima.

Sunday, September 16, 2007

Porto Alegre em Cena - Hoje é dia do Amor

Hoje é dia do amor

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"Master, eu tô com sede !... vem aqui e mija na minha boca !".

Esta frase gritada pelo garoto de programa, nú e acorrentado a uma cruz é mais uma das pérolas oferecida ao público na peça "Hoje é dia do amor" de João Silvério Trevisan o qual, por sinal, estava presente na apresentação ontem a noite.

João Silvério sem dúvida é um ícone gay brasileiro, autor do fundamental "Devassos no Paraíso" e outros. Um nome a ser respeitado sempre. Mas é de se perguntar o que ele quer dizer com o texto desta peça. Para mim o intuito é chocar pura e simplesmente. E para isto utiliza os recursos mais surrados, clichês, o óbvio. Senão vejamos : tortura, sexo, sadomasoquismo, morte, culpa, submissão, abandono, "depravação", drogas, AIDS, submundo gay e outras "bizarrices", tudo regado com muito discurso bíblico, símbolos religiosos, muito Jesus e muito Deus.

Ora, qualquer autor de fundo de quintal sabe que se quiser causar polêmica é só misturar alguns destes ingredientes e está feita a festa, a qual, as vezes, pode ter ótimos resultados como um clipe (Like a Prayer - Madonna), um filme (Teorema - Pasolini), artes plásticas (fotos - Robert Mapplethorpe), etc.

Porém em "Hoje é dia do amor" esta mistura ao invés de chocar soa pífia, vazia. Começando com alguns momentos de lucidez, a partir de certo momento o texto embarca no caminho para o nada. O final é absurdo e não fecha com o que foi visto anteriormente.

De qualquer forma, plasticamente o espetáculo é perfeito. Gustavo Haddad realiza um tour-de-force impressionante. Nú o tempo todo, com as mãos amarradas e ajoelhado, contorce-se sem parar mostrando um fantástico domínio corporal tudo acompanhado por uma impecável emissão vocal.

O cenário é simples e muito bem resolvido. Me lembrou as pinturas da Capela Sistina (o que é óbvio). Iluminação e trilha sonora ótimas.

Friday, September 14, 2007

Porto Alegre em Cena – Angu de Sangue

ANGU DE SANGUE

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Espetacular ! Uma das melhores sem dúvida alguma. Um texto rascante, direto, como uma faca na carne. Baseada no livro de contos homônimo de Marcelino Freire, a peça mostra dez pequenas histórias que vão do lírico ao chocante. Os atores são fantásticos. Todos estão ótimos, especialmente Fábio Caio e Gheuza Sena. Fui às lágrimas em dois momentos :"Muribeca", que mostra uma moradora um lixão e "Daluz" , que conta a história de uma mãe que dá os filhos por não ter condições de criá-los. Não conheço o livro do Marcelino mas fiquei muito interessado.

FICHA TÉCNICA
Texto: Marcelino Freire
Direção de Arte: Marcondes Lima
Elenco: André Brasileiro, Fábio Caio, Gheuza Sena, Hermila Guedes e Ivo Barreto
Trilha Sonora: Henrique Macedo
Videomakers: Oscar Malta e Tuca Siqueira
Iluminação: Jathyles Miranda
Roteiro vídeo “Perna” e letras das músicas: Carla Denise
Operador de Som: Tadeu Gondim
Operador de Luz: Sávio Uchôa
Operador de vídeo: Fernando Silva
Produção Executiva: Gheuza Sena
Direção de Produção: André Brasileiro
Assistência de Produção: Fábio Caio, Hermila Guedes e Ivo Barreto

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Segue abaixo exatamente o conto "Muribeca".

Muribeca

Lixo? Lixo serve pra tudo. A gente encontra a mobília da casa, cadeira pra pôr uns pregos e ajeitar, sentar. Lixo pra poder ter sofá, costurado, cama, colchão. Até televisão.

É a vida da gente o lixão. E por que é que agora querem tirar ele da gente? O que é que eu vou dizer pras crianças? Que não tem mais brinquedo? Que acabou o calçado? Que não tem mais história, livro, desenho?

E o meu marido, o que vai fazer? Nada? Como ele vai viver sem as garrafas, sem as latas, sem as caixas? Vai perambular pela rua, roubar pra comer?

E o que eu vou cozinhar agora? Onde vou procurar tomate, alho, cebola? Com que dinheiro vou fazer sopa, vou fazer caldo, vou inventar farofa?

Fale, fale. Explique o que é que a gente vai fazer da vida? O que a gente vai fazer da vida? Não pense que é fácil. Nem remédio pra dor de cabeça eu tenho. Como vou me curar quando me der uma dor no estômago, uma coceira, uma caganeira? Vá, me fale, me diga, me aconselhe. Onde vou encontrar tanto remédio bom? E esparadrapo e band-aid e seringa?

O povo do governo devia pensar três vezes antes de fazer isso com chefe de família. Vai ver que eles tão de olho nessa merda aqui. Nesse terreno. Vai ver que eles perderam alguma coisa. É. Se perderam, a gente acha. A gente cata. A gente encontra. Até bilhete de loteria, lembro, teve gente que achou. Vai ver que é isso, coisa da Caixa Econômica. Vai ver que é isso, descobriram que lixo dá lucro, que pode dar sorte, que é luxo, que lixo tem valor.
Por exemplo, onde a gente vai morar, é? Onde a gente vai morar? Aqueles barracos, tudo ali em volta do lixão, quem é que vai levantar? Você, o governador? Não. Esse negócio de prometer casa que a gente não pode pagar é balela, é conversa pra boi morto. Eles jogam a gente é num esgoto. Pr'onde vão os coitados desses urubus? A cachorra, o cachorro?

Isso tudo aqui é uma festa. Os meninos, as meninas naquele alvoroço, pulando em cima de arroz, feijão. Ajudando a escolher. A gente já conhece o que é bom de longe, só pela cara do caminhão. Tem uns que vêm direto de supermercado, açougue. Que dia na vida a gente vai conseguir carne tão barato? Bisteca, filé, chã-de-dentro - o moço tá servido? A moça?

Os motoristas já conhecem a gente. Têm uns que até guardam com eles a melhor parte. É coisa muito boa, desperdiçada. Tanto povo que compra o que não gasta - roupa nova, véu, grinalda. Minha filha já vestiu um vestido de noiva, até a aliança a gente encontrou aqui, num corpo. É. Vem parar muito bicho morto. Muito homem, muito criminoso. A gente já tá acostumado. Até o camburão da polícia deixa seu lixo aqui, depositado. Balas, revólver 38. A gente não tem medo, moço. A gente é só ficar calado.

Agora, o que deu na cabeça desse povo? A gente nunca deu trabalho. A gente não quer nada deles que não esteja aqui jogado, rasgado, atirado. A gente não quer outra coisa senão esse lixão pra viver. Esse lixão para morrer, ser enterrado. Pra criar os nossos filhos, ensinar o nosso ofício, dar de comer. Pra continuar na graça de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não faltar brinquedo, comida, trabalho.

Não, eles nunca vão tirar a gente deste lixão. Tenho fé em Deus, com a ajuda de Deus eles nunca vão tirar a gente deste lixo.

Eles dissem que sim, que vão. Mas não acredito. Eles nunca vão conseguir tirar a gente deste paraíso.

Thursday, September 13, 2007

Porto Alegre em Cena – Edmond

Porto Alegre em Cena – Edmond


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Vi ontem minha primeira peça no Porto Alegre em Cena 2007. “Edmond”, de David Mamet, uma das melhores cabeças pensantes dos EUA. Um homem consulta uma cartomante que lhe diz que tudo já está predestinado. Confuso ele volta para casa e termina o relacionamento com a esposa. Sai às ruas e mergulha num mundo de sexo, violência, preconceitos e morte. Preso, encontra na cela algum tipo de redenção e paz.

A idéia é boa e a peça começa muito bem. Marco Antônio Pâmio está muito bom como Edmond e os demais atores e atrizes não comprometem. O problema é que achei o texto meio aborrecido em determinadas passagens. Alguns diálogos não fazem sentido e não se encaixam no todo. Seria melhor tirar estes momentos e desenvolver mais o processo de transformação do personagem dentro da prisão. O conjunto é bom, mas poderia ser melhor.

Também existe um filme baseado nesta peça que no Brasil recebeu o título de “Submundo”

ver link

http://www.adorocinema.com/filmes/edmond/edmond.asp

O texto abaixo foi retirado do site do UOL

http://www2.uol.com.br/parlapatoes/parlapaticias/parlapaticias003.html

Em Edmond, texto de David Mamet, apresentado nos Estados Unidos pela primeira vez em 1982, Marco Antônio Pâmio encabeça elenco de nove atores. O espetáculo, dirigido por Ariela Goldmann, conta a história de um homem que, após uma visita a uma cartomante, resolve mudar radicalmente sua vida. O texto mostra um realismo pungente, levado às últimas conseqüências, conduzindo a platéia a uma reflexão inquietante sobre a vida nas grandes metrópoles.
Em 2005, Mamet roteirizou a peça para o cinema, com o ator William W. Macy no papel-título e direção de Stuart Gordon.
Num ano de grandes atuações masculinas em vários palcos da cidade, Marco Antônio Pâmio ganhou o prêmio APCA – Associação Paulista dos Críticos de Arte – como melhor ator de 2006.

Edmond, texto de David Mamet – vencedor do prêmio Pulitzer e da Associação dos Críticos de Nova York com O Sucesso a Qualquer Preço (Glengarry Glen Ross) e indicado inúmeras vezes ao prêmio Tony –, estreou dia 14 de Abril, sábado, às 21 horas, no Espaço Parlapatões. Com direção de Ariela Goldmann e tradução de Marco Aurélio Nunes, o espetáculo traz no elenco os atores Marco Antônio Pâmio, André Persant, Cácia Goulart, Eliana César, Ithamar Lembo, Jairo Pereira, Luti Angelelli, Martha Meola e Tatiana Thomé.

Edmond conta a história de um homem que, após visita a uma cartomante, resolve sair de uma vida segura e monótona para realizar seus desejos mais profundos. Essa decisão o leva à “selva” das ruas, onde tenta satisfazer desejos antes escondidos numa vida aparentemente bem resolvida. Desprotegido num mundo onde as negociações para a sobrevivência são viscerais, Edmond começa a colocar para fora não só seus desejos como também seus medos, seus preconceitos e sua violência.

Em 23 cenas de seqüência vertiginosa, o espetáculo faz o público acompanhar a queda de Edmond: cheia de som, fúria e silêncio. Com uma economia de linguagem e uma musicalidade na melhor tradição de Pinter, os personagens de David Mamet circulam por um mundo onde a crueza e o sentido de humanidade, rechaçam qualquer possibilidade de sentimentalismo ou julgamento.

Ficha Técnica

Texto: David Mamet
Direção e Espaço Cênico: Ariela Goldmann
Elenco: Marco Antonio Pâmio, André Persant, Cácia Goulart, Eliana César, Ithamar Lembo, Jairo Pereira, Luti Angelelli, Martha Meola e Tatiana Thomé.
Tradução / Direção de Produção: Marco Aurélio Nunes
Desenho de Luz: Wagner Pinto
Figurinos: Ariela Goldmann e Leandro Oliva
Trilha Sonora: Raul Teixeira
Pinturas das Telas: Jaqcues Jesion
Montagem Fotográfica: Elisa de Almeida
Assistente de Direção: Alfredo Tmabeiro
Assistente de Produção: Florência Gil
Assistente de Iluminação: Aline Santini
Cenotécnico: Léo Bezerra
Fotos: Jéferson Pancieri
Pesquisa: Dinah Feldman

Wednesday, September 05, 2007

Meus videos Legendados - 1000 Mirrors / Sinead Oconnor e Asian Dub Foundation



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Comentário

Zoora Shah chegou à Inglaterra nos anos 70´s, vinda diretamente de Mirpur uma pobre área rural do Paquistão, para assumir um casamento arranjado. O casamento não deu certo com o companheiro estranho e violento e ela acabou sendo abandonada quando estava grávida do seu terceiro filho. Totalmente isolada, acabou sendo amparada por Mohammed Azam, um traficante do submundo de Bradford.

Zoora permitiu que Azam providenciasse uma casa hipotecada para ela morar. Embora Zoora fizesse todos os pagamentos corretamente, Azam, um homem casado, usou o fato da casa estar no seu nome para fazer de Zoora sua escrava sexual. Isto definiu sua reputação como "prostituta", rótulo pelo qual ela ficou conhecida na comunidade conservadora de Bradford.

Azam usou Zoora para o sexo quando e onde ele queria, incluindo um cemitério onde ela havia enterrado dois outros de seus filhos que morreram ao nascer. Azam possuia armas de fogo e ameçava usar seus contatos no submundo do crime para encontrá-la caso ela tentasse escapar. Ele também sempre ameaçava jogar ela e seus filhos na rua. Quando Azam foi condenado por tráfico de heroína e condenado a dez anos de prisao, ele negociava, da sua cela, Zoora como prostituta para outros moradores da casa onde ela vivia. Zoora ficou refém no seu próprio lar.

Registros de serviços sociais mostram que Zoora sofreu de depressão e outras doenças durante sua vida de casada e no relacionamento com Azam. Ela teve incontáveis abortos, enfrentou infecções viróticas e nos rins, sofreu de anemia e má nutrição. Na última fase do seu relacionamento Zoora não mais tolerava os abusos sexuais. Mas o golpe final veio quando ela apavorou-se com os desejos sexuais de Azam por suas filhas. Zoora envenenou-o com arsênico comprado no Paquistão e acabou sendo condenada por assassinato.

Porem, no julgamento, ela recusou-se a dar evidencias de medo ou vergonha e escolheu permanecer em silencio na esperança de salvar a honra das filhas. Foi julgada culpada e condenada a prisão perpétua com o acréscimo de mais vinte anos.

Ao tomar conhecimento da história de Zoora, várias organizações de direitos humanos começaram a fazer campanhas pela sua libertação, o que ocorreu após 14 anos de prisão.

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O texto do video refere-se ao marido porem a história correta é esta aqui publicada.

Friday, February 17, 2006

Foto do ano

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Um bebê toca suavemente a boca de sua mãe. Uma imagem que poderia ser belíssima revela-se trágica. A mão em questão é pequena, descarnada, cadavérica. O gesto, intuitivo, busca alimento na boca da mulher. O roçar suave diz “você tem alguma coisa para eu comer? Tenho fome e não sei o que fazer”. A face da mãe, com olhos fundos e desesperançados, mostra a dor da impotência em atender à necessidade do filho(a).

Só isto. Um movimento simples e breve que revela toda a agonia daqueles que passam fome em qualquer local do planeta.

Esta imagem –bela e terrível ao mesmo tempo- foi clicada pelo canadense Finbarr O'Reilly e ganhou o prêmio de foto do ano do “World Press Photo”, o mais prestigiado evento fotográfico do mundo.

James Colton, o presidente do júri, falando sobre a foto ao anunciar a lista dos premiados : “Esta imagem tem tudo : beleza, horror e desesperança. É simples, elegante e comovedora”.

Concordo completamente.

Conhecer as fotos vencedoras nas mais diversas categorias desta premiação é uma experiência intensa. Temos imagens belíssimas –algumas esportivas por exemplo- lado a lado com registros chocantes de dor, morte e violência ao redor do mundo.

Link para os resultados :

http://www.worldpressphoto.nl/


Dados da competição :

Fotógrafos : 4.448 fotógrafos

Imagens : 83.044

Países participantes : 122

Sunday, February 12, 2006

Brokeback Mountain (caminhos do desejo)

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Antes de iniciar a sessão de Brokeback Mountain eu e uma amiga estávamos discutindo sobre as dificuldades de vida das pessoas que não assumem suas emoções, paixões ou desejos.

Refletíamos que estas pessoas, além de causarem mal a sí próprias, acabam também por afetar seu meio social (casamento, filhos, amigos, etc); sendo que, muitas vezes, este meio não percebe ou não entende o que está acontecendo. Ou então percebe, mas faz questão ou prefere manter-se calado ou neutro a fim de não suscitar embates ou dores.

Falávamos de duas situações específicas : gays mal assumidos que acabam, por força do preconceito, buscando um relacionamento “normal” e pessoas casadas -ou comprometidas- que acabam tendo histórias ou até mesmo grandes paixões paralelas – muitas vezes por toda a vida-.

Mas eis que o filme começa. Não vou falar sobre o enredo pois acredito que todo mundo já tá careca de saber que a princípio –e vendo de uma forma bem simplista- Brokeback conta uma história de amor entre dois cowboys que nasce quando eles passam alguns meses retirados em uma bela montanha cuidando de ovelhas..

Mas a coisa não é bem assim. Sim, eles se apaixonam; sim, eles transam; sim eles se separam; sim, eles se reencontram, e assim por diante (até parece um novelão). Mas a obra começa a tomar uma dimensão épica emocional a partir do momento em que estes cowboys voltam para a sociedade “normal” e começam a constituir famílias, ter filhos, desenvolver relações profissionais, sociais,etc.

Então, gradativamente (num ritmo quase oriental), o filme passa a acompanhar a saga de cada um e cresce muito. A penosa necessidade de ocultar um amor proibido e, ao mesmo tempo, desenvolver uma vida social regrada é mostrada com uma riqueza de nuances e situações que perturbam.

Econômico nas falas, e sabiamente fugindo do estereótipo do bem e mal, Brokeback Mountain contempla as ações dos personagens, mostra suas ações e motivações sem julgar. É impressionante o universo emocional que se vê na tela. Esposas, amantes, filhos, pais -e, obviamente, os protagonistas- são afetados, são feridos pelo romance proibido direta ou indiretamente.

E porque tudo isto? Porque todo este sofrimento? Neste ponto o filme é revelador: quando não assumimos nossos desejos, nossas vontades e necessidades acabamos, em maior ou menor grau, nos frustrando, nos machucando e arrastando nesta negatividade pessoas ao nosso redor.

Sim, mas e daí? Onde está a culpa? De quem é a culpa por isto acontecer?

A princípio pode-se pensar que aquele que não se apropria do seu querer e parte para a ação é o errado. Aquele que não busca sua felicidade de maneira concreta acaba se desviando do caminho correto. Mas isto pode ser assim tão simples? A resposta pode ser tão imediata?

Mesmo que se possa pensar ao contrário, vivemos numa sociedade que não nos assegura o direito de chamarmos para nós mesmos as rédeas da nossa satisfação de forma positiva. O peso do medo de ser alvo de preconceito –sexual ou moral- é enorme. O julgamento, a perseguição a hostilidade subjuga e traz temor. A força das tradições, das regras sociais é feroz.

E como fica então o embate entre o desejo e o preconceito? Como fica o querer individual e a opinião alheia? As respostas podem ser muitas: encontros fortuitos, amantes, traições, romances e paixões paralelas quando se busca algum tipo de realização. Ou então, frustração, sofrimento e doença, quando a luta é para abafar e ocultar os sentimento -às vezes até para nós mesmos-.

Brokeback Mountain mostra tudo isto –e muito mais- de uma maneira soberba. Mas definitivamente não é uma obra para o grande público. Com ritmo lento, com pouquíssimas cenas de explosões emocionais, Brokeback traça um turbilhão de sentimentos que nos leva a refletir sobre o caminho que damos aos nossos desejos reais..

E mostra que quando este caminho não foi escolhido por nós, acaba por nos enredar numa teia de frustrações, mentiras e sofrimento que nos traga e fere juntamente com quem está ao nosso redor.

Filmaço!!

Friday, February 03, 2006

Mattew Sheppard - O Projeto Laramie

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Na noite de 6 de Outubro de 1998, Mattew Sheppard, um estudante de 21 anos foi sequestrado, brutalmente espancado, torturado e deixado para morrer amarrado a uma cerca num campo próximo a cidade de Laramie (Wyoming – EUA).

O motivo? ... Ser gay.

Nesta noite, Mattew estava em um bar (Fireside Lounge) quando encontrou Aaron McKinney e Russell Henderson (ambos com 21 anos). McKinney, um viciado em anfetaminas, estava buscando uma forma de conseguir mais drogas e Mattew, bem vestido e aparentando ter dinheiro (na verdade era de uma família abastada), parecia ser a presa ideal.

De acordo com McKinney, Mattew solicitou uma carona até sua casa pois tinha bebido demais. Porém ao entrar no carro dos rapazes o jovem teria se revelado gay e feito algum gesto de assédio em direção a McKinney. Isto bastou para McKinney agredi-lo com uma coronhada e exigir sua carteira.

Mattew entregou os 30 dólares que tinha consigo mas isto não foi suficiente para a agressão parar. McKinney continou a agredir o rapaz que acabou sendo levado para um local deserto no meio de um campo onde a selvageria cresceu, agora com a participação do motorista Henderson.

O garoto implorou por sua vida inutilmente. Alucinados, seus algozes o espancaram ao ponto de causar-lhe uma fratura craniana que se extendeu da parte posterior até a frente da sua cabeça.

Depois de satisfeitos, os dois torturadores partiram deixando Mattew amarrado a uma cerca sob uma temperatura enregelante.

Dezoito horas mais tarde um ciclista passou casualmente pelo local e descobriu o corpo de Mattew ainda vivo. A princípio o ciclista achou tratar-se de um espantalho, porém, para sua surpresa, ao chegar perto viu tratar-se de uma pessoa.

O rosto de Mattew estava totalmente sujo exceto nos locais onde as lágrimas escorreram.

Levado para um hospital, já em coma profundo e sem chances de recuperação, Mattew sobreviveu até o dia 12. O crime teve uma repercussão imensa na época causando polêmica em todos os EUA.

Esta história verdadeira é contada no excepcional filme “The Laramie Project” da HBO filmes que assisti ontem (mais uma vez baixei da Internet via Emule).

Com um elenco fabuloso, “The Laramie Project” , num misto de realidade e ficção, narra a história de um grupo de teatro que viaja até Laramie para entrevistar os moradores locais. A intenção do grupo é pesquisar e levantar material para a montagem de uma peça sobre o crime.

Assim, através de aproximadamente 200 entrevistas, pouco a pouco o grupo vai tomando conhecimento das várias posições e opiniões dos moradores a respeito do assassinato.

Dos que se dispõem a conversar, ninguém se revela a favor da brutalidade ocorrida porém vários demonstram fortes traços de homofobia ao criticarem, de forma velada ou ostensiva, o estilo de vida da vítima.

Por outro lado, outros tantos –amigos, professores e outros gays e lésbicas da cidade- refletem a maneira como foram afetados pelo crime com ações positivas. Militância, defesa dos direitos humanos e união acabam surgindo entre estas pessoas corajosas.

Com várias cenas comoventes (sim, chorei algumas vezes... fazer o que?), o filme revela-se um poderoso caldeirão de emoções (ódio, impotência, coragem, amor, perdão, etc).

É particularmente especial a cena onde o Padre da cidade conversa com um gay e uma lésbica do grupo teatral. Este padre revela que, na sua opinião, toda a vez que alguém usa as palavras “bicha”, "veado" e “sapatão”, de forma depreciativa, já está plantando uma semente de violência na sociedade (isto é muito verdade. Concordo integralmente).

Outra cena emocionante é quando o pai de Mattew apresenta-se diante do tribunal de julgamento de McKinney (Henderson já tinha sido condenado à prisão perpétua).
O julgamento já tinha sido encerrado, Mckinney recebeu o veredito de culpado e só estava aguardando a sentença do juiz (era certo que seria condenado à morte).

Diante de todos, o pai de Mattew lê a seguinte carta (fiz algumas adaptações):

“Meu filho Matthew não parecia um vencedor. Ele era um pouco descordenado e usou aparelho nos dentes dos 13 anos até o dia que morreu.

Entretanto, em sua vida tão breve, ele provou que era um vencedor (aqui o pai estaria se referindo às militâncias de defesas dos direitos humanos nas quais Mattew estava envolvido).

Em 6 de Outubro de 1998 meu filho tentou mostrar ao mundo que ele poderia vencer de novo. Porém em 12 de Outubro de 1998 meu primogênito e herói perdeu. Em 12 de Outubro de 1998 meu primogênito e herói morreu 50 dias antes de completar 22 anos.

Eu fico imaginando agora a mesma coisa que pensei quando o vi no hospital. O que ele se tornaria? Como ele mudaria sua parte do mundo para fazê-la melhor?

Oficialmente Matt morreu em um hospital em Fort Collins, CoIorado. Mas, na verdade, ele morreu nas cercanias de Laramie amarrado a uma cerca.

Você, Sr. McKinney, com seu amigo Sr. Henderson deixaram ele lá sozinho, mas ele não estava sozinho.

Estavam com ele velhos amigos. Amigos com quem ele cresceu.

Vocês devem estar pensando que amigos são esses.

Primeiro, ele tinha o belo céu noturno e a lua... e as mesmas estrelas que ele costumava ver pelo telescópio.

Então ele teve a luz da manhã e sol brilhando sobre ele. E todo o tempo ele estava sentindo o perfume dos pinheiros da Snowy Range.

Ele também ouviu o vento.... pela última vez ouviu o belo o sempre presente vento de Wyoming .

E ele tinha mais um amigo com ele. Ele tinha Deus.

E eu me sinto melhor sabendo que ele não estava sozinho.

O espancamento, a hospitalização e funeral de Matthew trouxeram a atenção do mundo para o ódio.

O bem está vindo do mal. As pessoas disseram: Basta!

Eu sinto saudade do meu filho mas eu tenho orgulho de poder dizer que ele era meu filho.

Judy, minha esposa, foi citada como sendo contra a pena de morte. Foi dito que Matt seria contra a pena de morte. Ambas afirmações estão erradas.

Eu também acredito na pena de morte. Não há nada que eu gostaria mais do que ver você morrer, Sr. McKinney.

Entretanto, chegou a hora de começar o processo de recuperação de mostrar piedade por alguém que se recusou a mostrar a menor piedade.

Sr. McKinney, eu vou lhe dar sua vida por mais difícil que seja fazer isso. Por causa de Matthew.

Cada vez que você comemorar Natal, aniversário, dia da independência, lembre que Matt não está.

Toda vez que acordar na sua cela na prisão lembre que você teve a oportunidade e a condição de parar seus atos naquela noite.

Você me roubou algo muito precioso e eu nunca lhe perdoarei por isso.

Sr. McKinney, eu lhe dou a vida em memória de alguém que não vive mais.

Que você tenha uma vida longa a qual deverá agradecer a Matthew por cada dia dela.

Muito obrigado.”

Wednesday, February 01, 2006

Psitacismo e Infidelidade

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Cala a boca, louro! - Papagaio indiscreto imita grunhidos e revela traição da namorada do dono

Papagaio é um perigo. Como se não bastassem o psitacose e a gripe aviária - doenças que o bicho pode transmitir -, há também os casos de psitacismo, o ato de repetir palavras sem saber o seu significado.

Pegue-se como exemplo o caso do louro Ziggy, residente em Londres e criado com carinho pelo inglês Chris Taylor. Era só Susy Colins, a namorada do dono, pegar no celular para que o bicho desandasse a chamar o nome "Gary". E o fazia com entonações amorosas, com a intimidade própria dos amantes. O problema é que Chris não conhecia nenhum Gary, e Suzy também jurava não saber de quem se tratava.

A situação ganhou intensidade quando alguém falou o nome na tevê e o pássaro se empolgou, repetindo o chamado e acrescentando vocabulário e grunhidos francamente eróticos. O que a princípio parece enredo de piada, na verdade teve desfecho de drama.

Até Suzy se mudar para o apartamento de Taylor, o papagaio limitava sua vocalização ao pedido de biscoitos, imitações razoáveis do som do aspirador de pó e repetição de palavras desconexas. O nome Gary só entrou no discurso depois que o casal resolveu juntar seus trapos. Na véspera do Natal, quando iniciavam uma transa no sofá da sala, Taylor e Suzy foram surpreendidos por Ziggy declarando: "Gary, eu te amo", passando em seguida aos grunhidos claramente sensuais.

De imediato, Taylor riu. Mas ao olhar para a namorada em seus braços notou rubor característico das consciências culpadas.

"Senti um frio na espinha", declarou o analista de sistemas Taylor. Suzy começou a chorar copiosamente, ainda atormentada pelo papagaio que não fechava o bico: "Gary, meu macho!", "Gary, meu benzinho".

A confissão da moça veio em forma raivosa: Gary era colega de trabalho de Suzy numa firma de recados telefônicos e seu amante durante o expediente e fora dele. Parte do romance se dava pelo celular e a troca de juras de amor era ouvida na íntegra por Ziggy. A freqüência deste intercâmbio era tanta que marcou a memória do bicho.

E de lá não saiu mais. Depois do rompimento entre Taylor e a infiel namorada, vários dias foram gastos na tentativa de apagar o nome Gary da mente de Ziggy. Infelizmente, a tarefa se demonstrou impossível. "Toda vez que um celular toca, o nome salta do bico da ave.

Até mesmo quando eu suspirava, era: 'Gary, eu te amo', 'Gary, meu macho'. A vida ficou insuportável", diz Taylor. O resultado é que ele, aos 30 anos, não apenas perdeu a namorada, mas também foi obrigado a se livrar de seu Iago (da peça Otelo, de
Shakespeare). O papagaio foi adotado depois de um anúncio nos classificados. "Eu já não o suportava mais.

E o sentimento era mútuo", diz o traído. Por seu lado, Suzy se defende: "Não culpo o Ziggy pela separação. Minha relação já estava estremecida. O Taylor não queria sair de casa. Só desejava ficar junto do papagaio." O pior é que o Gary também bateu asas e foi se aninhar nos braços de outra colega, que tem a vantagerm de morar com um gato completamente mudo.

Já o papagaio alcagüeta ganhou celebridade e anda freqüentando shows de televisão, nos quais dispara o bordão: "Gary, Gary, Gary", para delírio das platéias. Ah! E Ziggy, o louro que não só dá o pé como aponta o dedo, diga-se, é brasileiro.

Osmar Freitas Jr. - Nova York

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Texto retirado da revista "Isto É" desta semana

Monday, January 30, 2006

O exorcismo de Anne Frank

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Ontem eu estava dando uma olhada, pela primeira vez, nesta edição do Big Brother Brasil no sistema pay per view. Varios participantes estavam reunidos num quarto comentando que uma das garotas presentes parecia a Regan (personagem de Linda Blair em “O Exorcista”). Todos concordavam e a tal fulana só ria.

Entusiasmados, o assunto evoluiu para filmes de terror, tipo “quem viu qual”, “o que achou”, etc. Até que um deles saiu com a seguinte pérola : “Tem um filme novo de exorcismo no cinema, é o “Exorcismo de Anne Frank”, alguém viu?”....??!!..... Quase tive uma síncope! Caí na gargalhada! Acho que nem nos meus delírios mais absurdos conseguiria pensar numa mistura destas... Anne Frank exorcisada !!?? ... bem, quem sabe?... de repente seria uma nova idéia...... Ou então poderíamos pensar, invertendo as bolas, em “O diário de Emily Rose”? .. ou quem sabe “O diário de Regan”? .. Meu Deus do Céu !! .. Onde estamos ?? .. E o pior é que nenhum dos demais presentes contestou este absurdo...

Depois da recuperação do choque -e de rir muito mesmo-, me peguei pensando no tipo de pessoas que são colocadas nestes programas e que acabam cultuados na mídia como os “novos famosos”. Estas pessoas, talvez com raras exceções –e aqui incluo o Jean da edição passada- , não têm mais nada a oferecer ao público a não ser uma imagem bela, porém ôca, vazia e inconseqüente.

E o pior é que isto nem pode ser considerado culpa delas pois infelizmente sabe-se que a idéia de um programa “popular” que busque audiência não está vinculada a reunião de um grupo de intelectuais fechados em uma casa discutindo os mistérios da vida –se bem que seria interessante pensar em algo assim. Com certeza seria muito engraçado... –. Mas, pelo menos, as produções destes programas poderiam pensar em tentar injetar alguma dose de formação no público selecionando participantes com nível cultural um pouco superior – e olha que nem precisa ser muito não-.

Mas as coisas não se processam assim. A realidade é que a imagem desvinculada de conteúdo basta para seduzir, chamar a atenção e vender. Eu não quero dizer que acho isto errado, mesmo porque a celebração da estética, da beleza é fundamental para o exercício da sensibilidade, do interesse e da sexualidade. O problema surge quando esta imagem vazia é colocada como única regra para o interesse e notoriedade. Então dá-lhe corpos sarados, muito silicone e tinta no cabelo como prerrogativas para a atração, para a fama.

Assim, aquilo que no início é engraçado e divertido torna-se lamentável quando sabemos que estas celebridades descerebradas acabam sendo cultuadas -mesmo que temporariamente- como ícones de sei lá o que. E também é assustador saber que muitas vezes é através destas regras da exaltação da superficialidade que a voracidade da mídia se impõe na mente e no desejo do público.

E o que resta fazer? .. Imaginar Anne Frank sendo exorcisada?

... é de rir ... ou chorar...

Monday, January 23, 2006

Papai Transexual

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Um transexual que deve reencontrar seu filho, o qual não sabia existir e que agora está preso por posse de drogas e prostituição, antes de realizar a cirurgia de correção de sexo marcada para dali a uma semana. Esta é a sinopse de “Transamérica”, um filme excelente que, pelo que eu saiba, ainda não tem data para estrear no Brasil (graças à Internet é possível assistirmos muitos filmes ainda inéditos).

“Transamérica” conta a história de Stanley 'Bree' Osbourne (“Stanley”, masculino e “Bree”, feminino”), um transexual (intepretado de forma absolutamente magnífica pela atriz Felicity Huffman) que finalmente consegue marcar sua cirurgia para correção genital. Porém, inesperadamente, ele/ela fica sabendo da existência de um filho seu , fruto de um rápido caso com uma colega lésbica dos tempos de colégio. Este filho está preso em New York e fornece o telefone do “pai” (o qual ele não conhece) como referência pessoal, já que sua mãe está morta.

Stanley fica surpreso com a notícia mas não deixa que isto interfira nos planos da sua sonhada cirurgia. Porém, casualmente, comenta a novidade com sua terapeuta, a qual interfere nos seus projetos e impõe que ele deve conhecer e, de certa forma, integrar-se com o filho antes da intervenção cirúrgica – na opinião da médica, o transexual deve “zerar” sua vida anterior antes que possa assumir completamente sua futura identidade. Stanley fica indignado mas não tem outra alternativa senão seguir as ordens da terapeuta para conseguir sua transformação.

Ao conhecer Toby, seu filho, na cadeia, "Bree" apresenta-se como uma missionária de uma ordem cristã chamada “A Igreja do Pai em Potencial” (o que é hilário). Depois de algumas tentativas frustradas de ajuda imediata, e de mais alguns percalços, eles iniciam uma longa viagem de automóvel através de vários estados –Stanley "Bree" deve encontrar um local para Toby ficar- a qual revelará muito de cada um ao outro (Toby não sabe que "Bree" é um homem e muito menos que ele/ela é seu pai).

Nesta jornada, o que se inicia como repulsa mútua aos poucos vai se transformando em carinho, atenção e cuidado entre os dois personagens marginais.

“Transamérica” é uma belíssma obra sobre descobertas, encontros, desencontros, dores, mágoas, ressentimentos e possibilidades de perdão e redenção. Porém, acima de tudo, é uma obra sobre transformação. "Transformação" aqui manifestada na sua plenitude : no sentido físico, emocional e espiritual.

Pai e filho, vivenciando juntos ou em separados diversas situações trágicas e/ou cômicas, vão num crescendo de conhecimentos mútuos e individuais que os levam a revolverem suas naturezas, suas emoções. Estes dolorosos e intensos processos os levam ao encontro dos seus fantasmas, dos seus traumas e dores da vida. Assim, no final, isto tudo acaba por os tornarem novos seres. Porém estes “novos seres” não se revelam dentro do que a sociedade comumente define como “homens –ou mulheres- de bem” (o que é extremamente louvável pois torna os personagens verdadeiramente humanos).

Com a direção de Duncan Tucker, “Transamérica” é um refresco neste mundo de filmes padrões Hollywoodianos. Felicity Huffman brilha e dá alma ao(à) atormentado(a) Stanley “Bree”, numa performance digna de um Oscar – ela já foi agraciada com o Globo de Ouro de melhor atriz dramática por este papel. O resto do elenco também não fica atrás, especialmente Kevin Zegers (Toby) e Fionnula Flanagan (Elizabeth Osbourne, a mãe Stanley “Bree”) .

Só resta agora aguardar a estréia de “Transamérica” por aqui a fim de que todos possam ter acesso a esta pequena jóia cinematográfica.

Wednesday, January 18, 2006

Perguntas Bizarras

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Perguntas :

É verdade que o aborto diminui a criminalidade?

É verdade que existem nomes para crianças negras e nomes para crianças brancas?.. e que estes nomes são objetos de discriminação tanto por parte dos negros quanto dos brancos?

É verdade que existem nomes para crianças pobres e nomes para crianças ricas?.. e que os pobres copiam os nomes dos ricos?

É verdade que os corretores de imóveis vendem melhor suas próprias casas do que a casas dos clientes?

É verdade que os professores alteram as respostas dos alunos para receber o mérito de um bom ensino?

O que é mais perigoso ter em casa : uma arma ou uma piscina?

Devemos sempre confiar nos especialistas das áreas de conhecimento?

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Estas perguntas (e muitas outras) são efetuadas, analisadas e respondidas no best-seller Freakonomics, de Steven D. Levitt e Stephen J. Dubner, um livro de economia muito diferente do que se conhece nesta área.

Através de questões imaginativas, onde os objetos analisados são colocados sob novas perspectivas, a obra explora diversas áreas da economia social gerando idéias provocantes, muitas vezes invertendo o que se denonima "senso comum" ou “sabedoria convencional”.

Sem tendencionismo, baseados apenas em diversas fontes de dados analisadas sob rigorosos critérios, os autores, através de uma linguagem acessivel aos leigos, instigam a mente dos leitores com idéias originais e um tanto bizarras. Neste sentido é impossível não se chocar com a conclusão crua de que a legalização do aborto nos EUA, na década de 70, foi responsável pelo decréscimo dos índices de criminalidade observada, mas não muito bem explicada até Freakonomics ser publicado, na década de 90. O fato é que os abortos realizados por mães pobres, sem educação ou sem condições psicológicas de criar filhos, diminuíram drasticamente o número de crianças com potencial tendência à criminalidade na sociedade americana.

Por outro lado é triste constatar como a opinião pública pode ser manipulada através de afirmações sem consistência dos especialistas que lançam frases de efeito para causar terror na população ou obter benefícios. Neste aspecto é levantada, por exemplo, a seguinte questão : num discurso onde o medo seja o motivador, é mais fácil para os políticos obterem verbas para combater ameaças de ataques terroristas ou para uma campanha de prevenção de doenças cardíacas?.. a resposta é óbvia, né?...mesmo com a comprovação de que o coração mata muito mais do que os virtuais terroristas.

Dentro desta linha de análise, na sua simplicidade, Freakonomics traz um rojão de novos conceitos com potencial efetivo de mudar nossa nossa maneira de ver as coisas. O texto é fascinante e motivador.

No fim de tudo os autores nos recomendam a não acreditar em tudo o que se oferece como verdade absoluta e também nos instigam a usar nossa capacidade intelectual imaginativa no sentido de questionarmos os juízos estabelecidos e assim gerarmos novos conhecimentos e conceitos.

Urgente, atual e polêmico, Freakonomics merece o destaque que tem obtido.

Thursday, January 12, 2006

Mentiras e Interesses da Sedução (Freakonomics)

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O quanto mentimos para conquistar alguém? Dizem que no jogo da sedução vale tudo : pose, charme, olhares, sorrisos e, claro, algumas pequenas mentiras ou omissões (para ficar mais light). Isto é certo ou errado? Eu seria hipócrita se dissesse que é errado pois afinal sei bem que ninguém se revela totalmente logo de cara ao aproximar-se de alguma pessoa que lhe interessa.

De qualquer forma é interessantíssimo conhecer alguns resultados de uma pesquisa, realizada por dois economistas americanos, sobre os dados de um site de encontros dos EUA.

O texto foi retirado do best-seller “Freakonomics” de Steven. D. Levitt e Stephen J. Dubner.

“Ali Hortaçsu, Günter J. Hitsch e Dam Ariely analisaram os dados de um dos principais sites de encontros, direcionando seu foco para cerca de 30 mil usuários, metade deles em Boston e a outra metade em Sam Diego. Cinquenta e sete por cento deles eram homens, e a idade média válida para todos os usuários era de 26 a 36 anos. Embora representassem uma miscigenação racial adequada para se chegar a algumas conclusões sobre raça, eram predominantemente brancos.

Igualmente, eram mais ricos, altos, magros e bem-apessoados do que a média. Ao menos a confiar no que haviam escrito sobre si mesmo. Mais de 4% dos paqueradores online afirmavam ganhar mais de $200 mil por ano, embora menos de 1% de usuários da Internet efetivamente ganhe tanto, o que sugere que três em quatro desses abonados tenham exagerado.

Usuários de ambos os sexos declaram ser cerca de uma polegada mais altos que a média nacional. Quanto ao peso, o dos homens se mostrou em compasso com a média nacional, enquanto as mulheres quase sempre se declaravam cerca de nove quilos abaixo da média nacional.

O mais notável é que 70% das mulheres afirmavam ser donas de uma beleza “acima da média”, incluídas aí 24% delas que se diziam “lindas”. Os homens não ficavam atrás: 67% descrevem a si próprios como “acima da média”, incluíndo aí 21% “muito bonitos”. Isso reduz a apenas 30% o percentual de usuários com aparência “média”, incluíndo aí 1% com aparencia “abaixo da média” o que indica que o típico usuário dos sites de encontros seja ou um fantasista ou um narcisista ou meramente avesso ao significado de “médio” (...).

Vinte e oito por cento das mulheres no site disseram ser louras, um número bem acima da média nacional, o que indica a presença de muita tinta ou de muita mentira, se não de ambas.

Alguns usuários, porém, mostraram-se estimulantemente honestos. Oito por cento dos homens – cerca de 1 em 12 – admitiram ser casados, sendo que metade se declarou “feliz no casamento”. A honestidade, porém, não os faz temerários. Desses 258 “bem casados” da mostragem, apenas 9% optaram por juntar uma foto. O lucro de ganhar uma amante evidentemente foi desbancado pelo risco de ter o próprio anúncio descoberto pela esposa. (“E o que você foi fazer nesse site?”, o marido poderia protestar, embora de nada fosse adiantar.)

De todas a receitas para se dar mal em um site de encontros, deixar de juntar uma foto certamente é mais infalível ( não que a foto precise ser, obrigatóriamente, do próprio; muitos usam a de um estranho mais bonito, mas tal feitiço em geral acaba virando contra o feiticero). Um homem que deixa de incluir sua foto recebe apenas 1/4 do volume da correspondência eletrônica enviada a outro que a inclua; no caso das mulheres, 1/6.

Um homem de baixa renda, pouca instrução, insatisfeito no emprego, não muito atraente, ligeiramente acima do peso e careca que inclua a sua foto tem mais chance de receber alguns e-mails do que outro que declare receber $200 mil e ser estonteantemente lindo, mas deixe de incluir uma foto. Existem múltiplas razões para alguém não incluir uma foto – trata-se de uma dificuldade técnica, o freguês tem vergonha de ser flagrado pelos amigos ou, simplesmente, é feio – mas, como no caso de um carro zero com a tabuleta de “vende-se”, os interessados concluirão que algo muito errado se esconde sob o capô.

Arrumar um encontro não é fácil. Cinquenta e sete por cento dos homens que põem anúncio não se recebem sequer um e-mail; 23% das mulheres não obtêm uma única resposta. Por outro lado, as características que suscitam melhor retorno não surpreenderão ninguém que conheça minimamente os dois sexos. Com efeito, as preferências expressas pelos paqueradores online combinam direitinho com os estereótipos mais comuns de homens e mulheres.

Por exemplo, os homens que dizem querer um relacionamento duradouro se saem muito melhor do que os que buscam um namoro passageiro. No entanto, as mulheres atrás de namoros passageiros dão-se maravilhosamente bem.

Para os homens, a aparência da mulher é fundamental.

Para as mulheres, a renda do homem é da maior importância. Quanto mais rico, mais e-mails um homem recebe. No caso das mulheres, ao contrário, o apelo da renda apresenta uma curva que sobe e desce: os homens não querem sair com mulheres que ganham pouco, mas quando elas começam a ganhar demais, eles fogem apavorados.

Os homens gostam de sair com estudantes, artistas, musicistas, veterinárias e celebridades (evitando secretárias, aposentadas e integrantes das forças armadas e da polícia). As mulheres preferem os militares, políciais e bombeiros (...), bem como advogados e executivos financeiros. As mulheres evitam operários, atores, estudantes e homens que trabalham com comida ou com atendimento.

Para os homens, ser baixo é uma grande desvantagem (o que talvez explique por que tantos mentem nessa área), mas o peso não tem tanta importância. Para as mulheres, ser gorda é mortal (o que explica por que elas mentem).

Para um homem, ter cabelo vermelho ou encaracolado é ruim, assim como ser careca, mas tudo bem se a cabeça for raspada. Para uma mulher, cabelo grisalho é péssimo, enquanto madeixas louras são o máximo. No mundo da paquera eletrônica, uma cabelera loura numa mulher vale mais ou menos o mesmo que um diploma universitário – e, com a tinta custando $100 e a anuidade acadêmica $100 mil, o preço é um bocado mais barato.

Além de todas as informações sobre renda, instrução e aparência, homens e mulheres no site de encontros incluem a raça a que pertencem. Indicam, também, suas preferencias com relação à raça de potenciais namorados. As duas respostas campeãs foram “a mesma que a minha” e “ não faz diferença”. (...)

Cerca de metade das mulheres brancas no site e 80 % dos homens brancos declaram que a raça não fazia diferença, mas os dados relativos às respostas contam uma outra história. Os homens brancos que afirmam que a raça lhes era indiferente enviaram 90% de seus e-mails de sondagem para mulheres brancas. As mulheres brancas que disseram não se importar com a raça mandaram 97% de seus e-mails de sondagem para homens brancos.”

Thursday, January 05, 2006

A tristeza de uma vida inobservada.

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Ah ! ..a alegria de uma consulta médica ! – bem feita, é claro- ... Quando o doutor começa a questionar sobre nossa vida, nossos hábitos, nosso histórico. Quando ele pergunta sobre doenças na família, problemas de saúde dos consanguíneos, sobre nossa genealogia. E vai tomando nota, registrando nosso perfil, construindo uma memória. E nós incentivamos alguns dramas, lamentamos algumas perdas, nos entristecemos com algumas recordações. Porém, neste momento, nos sentimos vivos, com histórias para contar, com informações a revelar. Neste momento percebemos que alguém, mesmo que profissionalmente, se importa. Que alguém nos olha, escuta e nos valoriza.

Esta reflexão meio enviesada, mas com um fundo de verdade, retirei do livro “Quando Nietzsche chorou”, do escritor Irvin D. Yalom.

Nesta obra, em determinada passagem, quando Nietzsche realiza sua primeira consulta com o Dr. Breuer buscando tratamento para sua enxaqueca crônica, e passa a relatar seu histórico de saúde, o doutor sabiamente reconhece novamente esta “alegria padrão” que faz com que os pacientes se entusiasmem em falar de si mesmos.

Breuer pondera que esta alegria surge quando o paciente reconhece estar sendo escutado, quando percebe que alguém presta atenção, quando sabe que o outro está dando significado às suas dores. Neste momento o paciente destaca-se, torna-se especial, diferente. Ele assume uma identidade, uma unicidade.

Particularizando, o doutor associa esta manifestação mais e diretamente à velhice, situação onde muitos já perderam as referências pessoais e não têm mais com quem compartilhar suas histórias de vida. Daí, quando não existem mais interessados, quando não existem mais observadores, a pessoa sente o peso da solidão e do esquecimento. Assim, nos consultórios estes tristes sentimentos são amenizados, de maneira meio torta, através da necessidade de um relato de vida necessário para a construção de um diagnóstico profissional.

Transcrição do trecho :

“Durante todo o procedimento, Nietzsche se manteve totalmente atento: de fato, anuía reconhecidamente a cada pergunta de Breuer. Nenhuma surpresa, é claro, para Breuer. Jamais encontrara um pacinte que não gostasse secretamente de um exame microscópio de sua vida. Quando maior o poder de ampliação, mais paciente gostava. A alegria de ser observado era tão arraigada que, na crença de Breuer, a verdadeira dor da velhice, do luto, de sobreviver aos amigos estava na ausencia de escrutínio: o horror de viver uma vida inobservada.”

Monday, January 02, 2006

North Country

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Um pênis de borracha no local da comida, esperma nas roupas do armário, palavrões (tipo "putas", "buceta" e "vadias") escritos com fezes nas paredes do vestiário feminino. Estes são alguns dos exemplos de violência a que estavam submetidas as primeiras trabalhadoras da mina de ferro Northern Minnesota nos EUA por volta do ano de 1975.

Pagando o preço do pioneirismo estas mulheres sofriam, no dia a dia, o assédio e agressão de vários de seus colegas em um ambiente onde eram vistas como intrusas e inferiores. Esta situação de horror perdurou durante muito tempo até que uma delas, Louis Jenson, ousou desafiar a situação e buscou recuperar sua dignidade, seu amor-próprio através da justiça.

A história desta luta é contada, com algumas liberdades dramáticas, no filme “North Country”, ainda sem título em português (acho que será “País do Norte”) ou data para estrear no Brasil, que traz a magnífica Charlize Theron em mais uma poderosa interpretação dramática que sem dúvida a colocará no páreo do Oscar 2006.

Em “North Country” acompanhamos a saga de Josey Aimes, uma jovem mulher que sai de um casamento violento com dois filhos para sustentar. De volta à casa dos pais (e o pai especificamente a rotula de “perdida e “inútil”) ela começa a trabalhar como cabelereira até saber que a mina de ferro local está contratando operárias. Certa de que este é o caminho para sua independência financeira ela passa a trabalhar na mina e celebra o começo de um novo horizonte para si e seus filhos.

Porém o que seria uma benção, um começo de nova vida, transforma-se num pesadelo quando Josey percebe que ela e suas colegas, para manterem o emprego, devem submeter-se às piadas e agressões dos colegas operários.

Depois de sofrer diversos tipos de violência e buscar em vão meios de resolver os problemas dentro da mina –com chefes e colegas-, Josey decide processar a empresa. E isto não será nada fácil. Na luta pela sua honra a trabalhadora enfrenta diversas barreiras no trabalho, familiares e sociais, além de ter sua vida sexual exposta no tribunal como forma de acusação (uma maternidade de “pai desconhecido”). É impressionante a clima crescente de abandono e solidão que a personagem enfrenta à medida em que seu processo torna-se público.

O filme também mostra a fragilidade da coragem quando enfrentada com a necessidade de sobrevivência. Nestas situações pergunta-se: vale a pena expor-se, sofrer represálias, correr riscos, ser despedida, discriminada, excluída mas buscar seus direitos ou, ao contrário, deve-se calar e continuar sofrendo mas manter o seu meio de subsistência? Esta questão é bem colocada em “North Country”.

Na vida real o drama de Louis Jenson foi tamanho que ela acabou desenvolvendo “desordem de stress pós-traumático” o que acabou por afastá-la das minas. A ação coletiva liderada por ela, arrastou-se durante mais de 10 anos nos tribunais até que as impetrantes saíssem vencedoras.

Um filme que vale a pena.