
A idéia de transcendência espiritual, da experiência mística através do sexo é antiga. De imediato podemos lembrar a antiguíssima tradição Tantrica que prega o auto-conhecimento o desenvolvimento da consciência, da sensibilidade, da aceitação, da naturalidade, da totalidade do ser através de técnicas de energia corporal.
Toni Bentley é uma mulher que alcançou esta transcêndencia através da prática do sexo anal. No livro “A entrega – Memórias Eróticas” Tony relata sua trajetória nesta viagem pelo caminho da descoberta da espiritualidade através da carne.
Vinda de uma família que a registrou como “agnóstica” na certidão de nascimento, -isto sem falar nas formas de violência emocional a que foi submetida pelos pais, exemplificada cruamente numa passagem envolvendo uma banana- Toni cresceu sentindo-se uma diferente, uma estranha num mundo onde parecia que todos tinham uma religião de onde tiravam, na visão da garota, um sentimento de comunidade, de inclusão o qual ela nunca iria alcançar. Para ela as demais pessoas encontravam na religião todas as respostas para suas necessidades de conforto e até para os dissabores. E ela tinha o que para confortá-la sendo rotulada desde bebê como “agnóstica” ?
Esta falta de sentimento místico tornou-a uma estranha no ninho, a fez sentir-se excluída. Cresceu nela um sentimento de falta, de ôco, de vazio existencial. Sentindo-se culpada e raivosa, sem saber ao certo porque, torna-se uma bailarina extremamente exigente e rigorosa consigo mesma, o que a faz buscar a superação através da dor dos exercícios físicos e na abstinência alimentar. O sofrimento provocado pelo uso das duras sapatilhas a reconforta.
Depois, já adulta, transfere esta raiva para os homens. Nos seus encontros sexuais assume o papel de dominadora. Quer ter sua vagina adorada, exige submissão dos parceiros. Consegue isto, mas seus encontros, seus orgasmos, suas experiências a frustram. A troca de parceiros, namorados e até um casamento não a completam, não a realizam.
Após a separação torna-se quase que uma predadora sexual exigindo cada vez mais dos parceiros e em contrapartida frustrando-se cada vez mais.
Até que encontra o Homem-A que com o qual experimenta o sexo anal. É uma revelação. Neste momento seu mundo gira, inverte-se. De dominadora passa a dominada. Neste ato, a experiência da necessidade de expandir a conexão íntima com seu próprio corpo para proporcionar uma entrega ao parceiro a transforma. Através da âmago da experiência carnal seu espírito cresce, sua mente liberta-se, as amarras se rompem e ela sente-se livre. Agora, sentindo-se dominada, nâo existe mais a exigência, a reclamação, a insatisfação. Não existe mais a dualidade. Agora ela pode relaxar e sentir uma profunda união física, emocional e espiritual com o outro.
A prática da sodomia -baseada intimamente na confiança, na transmutação da dor e no encontro de um novo prazer- proporciona a ela o desapego de traumas, tabus, ódios, ressentimentos e tudo o que representa obstáculo para a “entrega”. Sem pai nem mãe mais a ditar conceitos e preconceitos na sua cabeça, sem bloqueios, longe da noção pecado, sujeira, certo ou errado, ela liberta seu físico, mente e coração. O fluxo, a energia vital toma sua totalidade, a preenche, não deixando mais espaço para dúvidas ou inquietações. Toni sente-se renascida, renovada. Sua alma levita. A entrega, a doação irrestrita do seu ser emocional e físico a conecta com o Superior. Através da penetração anal ela encontra seu caminho para Deus.
Mas a experiência não termina aí. Como todo aquele que busca o caminho espiritual sabe, após encontrá-lo e trilhá-lo (com suas alegrias, dificuldades e sofrimentos), deve-se deixá-lo pois, de outra forma, corre-se o risco de apaixonar-se pelo caminho e, assim, prender-se a ele como num labirinto. Como uma legítima peregrina Toni também relata seu processo de ruptura, de afastamento daquilo que ela amava. Isto, apesar de destruí-la emocionalmente, a leva à descoberta de uma nova mulher em si. Uma mulher plena, senhora dos seus desejos e de sua vida.
Realmente um livro ousado, inteligente e religioso.
Para os juízes, preconceituoso e horrorizados de plantão registro abaixo uma passagem do livro “Espiritualidade “ do Leonardo Boff com a qual concordo integralmente :
“O universo é um grande sacramento. A matéria é sagrada. A natureza é espiritual. Por que? Porque é o templo de Deus. Deus está em tudo e tudo está em Deus. .. (...)... a fé deve ser vigorosa para poder ver Deus, realmente, em todas as coisas, mesmo nas mais contraditórias...”
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Mais informações sobre o livro nos links abaixo
http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=1744
http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT1053076-1655,00.html
























