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Hino do Blog : " ...e todas as vozes da minha cabeça, agora ... juntas. Não pára não - até o chão - elas estão descontroladas..."
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Monday, November 14, 2005

Curtas MIX BRASIL

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O portal http://www.portacurtas.com.br está apresentando alguns curta-metragens do Festival da Diversidade Mix Brasil 2005 . São filmes que apresentam, nas mais diversas abordagens, questões da sexualidade. Comento abaixo alguns dos que vi (clique nos links para acesso aos curtas)

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Medo de quê?

Diretor : Reginaldo Bianco

Uma obra-prima. Animação pura, direta, simples que conta a história de um garoto que se descobre gay. O curta mostra os diversos conflitos pelos quais um gay passa até assumir sua identidade : problemas com a família, sexualidade, preconceitos, perda de amigos, descoberta da violência, resistência, dores, etc. Realmente vale a pena. Este filme deveria passar em horário nobre e ser adotado em todas as escolas do país. A mensagem final é belíssima.

Textículos de Mary e Outras Histórias
Diretora :Flávia da Rosa Borges

Justiça feita à única banda de punk-rock-homocore da história da MPB. Infelizmente o grupo já acabou mas fica este registro da sua trajetória, da sua arte verdadeiramente vibrante, transgressiva e chocante. A Texticulos nasceu, cresceu e morreu maldita. Dificil de gostar, esta banda agradou mais os rockeiros radicais do que a própria comunidade gay –diziam que vários gays ficaram chocados com as performances e letras explícita do grupo-. Eu, como fã, fiquei emocionado ao ver este filme. Obrigatório.

Mais sobre o Texticulos de Mary e sobre a Musica Gay Brasileira pode ser encontrado no link abaixo

Se você é o cara que flertava comigo no ponto de ônibus, veja esse filme

Diretor : Thiago Alcântara

Dois rapazes flertam um com outro numa parada de ônibus todos os dias mas não se falam. Um dia um deles não aparece mais e o outro, Bernardo, arrepende-se de não ter provocado um encontro. No desespero Bernardo parte para uma solução radical : escrever uma mensagem em notas de dinheiro juntamente com seu número de telefone na esperança de encontrar o tal rapaz da parada. Porém o que acontece é que, com a circulação das notas, várias pessoas acabam ligando para ele e deixando na sua secretária eletrônica os mais variados comentários e conselhos sobre sua busca. O final é genial.


Salete

Diretor : Camilo Cassoli

Na verdade uma entrevista com a Drag Salete Campari, uma paraibana que sonha em ganhar o Oscar da Academia de Hollywood. O curta mostra ela se preparando para um show enquanto recorda sua infância, seu fascínio em descobrir o mundo dos transformistas através da televisão, sua chegada a São Paulo, sua trajetória artística, relação com a família, etc. O curta tem um quê de inocência misturado com falta de noção que acaba fascinando. Acaba sendo curioso acreditar nos sonhos da Salete de conquistar o mundo. No final ela até improvisa um discurso de agradecimento para o momento em que receber o Oscar.

Outros :

Homofobia : bom. Meio pretensioso mas interessante.

Masturbação : muito bom. Rápido, rasteiro e eficaz.

Travecastein : engraçadinho. Um pouco acima da média

Sexo Explícito : bom. Técnica de stop-motion só com roupas.

Jogos : sem noção. Vai do curioso ao ridículo e acaba em nada (mas as cenas de lesbianismo são muito boas)

O Amor no Tempo da Cólera : sem noção dois. Um cara domina o outro e acabam transando. Nada vezes nada com resultado pífio.

15:35 for fun : absolutamente ridículo. Sexo explícito verdadeiro desprovido de sentido. Inacreditável que alguém faça um filme destes.

Monday, November 07, 2005

No meu tempo...

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“Um dos problemas de uma longa vida é perder a perspectiva de seus contemporâneos e começar a ver tudo em termos de história. Todos passam por isto, embora nem sempre a clareza deste dilema lhes ocorra. Ter vivido mais do que nossos contemporâneos nos coloca tão fora da turma como quando éramos a aluna nova no novo colégio, no terrível e crucial pátio de recreio. Não contamos mais o tempo no ritmo que queremos, mas no do que lembramos, prefaciando cada lembrança com o fatal “no meu tempo...”, como se o tempo fosse de alguém e como se fosse mais seu então do que agora”.

Com este parágrafo suscinto e verdadeiro a excelente jornalista Ana Maria Bahiana inicia a resenha do novo disco de Paul McCartney (Chaos and creation in the backyard) publicada no último número da revista Bizz.

Conforme ela afirma, realmente esta questão (perder o link com o contemporâneo) é um processo pelo qual todos passamos com maior ou menor consciência. A medida em que avançamos na idade surgem outros interesses, outras necessidades, outras responsabilidades que, muitas vezes, vão nos afastando ou transformando muitas das motivações das nossa vida.

Isto está errado? É um problema?

Penso que a questão, a discussão se faz em cima do quanto isto nos incomoda.

O SAUDOSISTA

Para muitos de nós pode ser tranquilo, natural, assumir um comportamento saudosista com o qual nos identificamos. Deste modo podemos passar a adotar comentários do tipo “no meu tempo...” ou “na minha época..”. Particularmente não acho errado isto, nem um pouco. O que apenas me incomoda é quando este tipo de fala é acrescida de “.. é que era bom...”, ou seja, completando : “... no meu tempo é que era bom..”. Não concordo com este tipo de frase de maneira alguma; me soa pretensiosa, superior. Acho um desrespeito com as novas gerações.

O INCOMODADO

Por outro lado, para muitos outros esta perda de link com o contemporâneo pode incomodar. Pode trazer a sensação, conforme descrita pela Ana, de estar num colégio novo como aluna nova que não sabe como se encaixar numa turma que vive num universo com regras, jogos, falas e comportamentos diferentes. Esta é a sensação de parecer anacrônico, fora de moda, ultrapassado....antigo ou velho enfim. Acredito que este grupo de pessoas sofre mais pois sente realmente o crescer da distância, da separação.

O RENOVADO

Poderíamos dizer que existe uma terceiro universo de pessoas mantem o interesse no que está rolando, nas novidades. Procuram se informar, se atualizar. Tentam acompanhar o ritmo e a dinâmica dos acontecimentos, das idéias. Tudo isto independentemente de querer provar alguma coisa, de querer parecer “moderno” ou “atual”. A motivação aqui é manter a mente aberta à novidade, ao aprendizado, ao conhecimento. Mas este também é um processo difícil pois requer uma constante renovação, um constante repensar, um constante rever conceitos. Requer a prática de um exercício árduo de difícil realização; muitas vezes de luta com a própria acomodação da mente....E não é todo mundo que está disposto a praticá-lo.

Thursday, November 03, 2005

Falso cais ( para John Fowles)

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Oculta tesão, oculto desejo
Mar de ressaca no olhar
A busca do outro
Encontro ilusório

Engano de gozo
Vazio da pele
Mentiras transversas
Nova partida

Falsa viagem
Falso cais
Falsa ilha
Falsa chegada

Caminhos inúteis
Revelação de monstros
Teias de perdição
Sem redenção

Wednesday, November 02, 2005

Autor ou Obra ?

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O que vale mais, o autor ou sua obra? Pode-se dizer que a obra exprime o autor ou um está desassociado do outro? Onde começa um e termina outro? O quanto podemos ou devemos separar um do outro? Estive fazendo estas indagações ao ler o extraordinário livro "Viagem ao fim da noite" de Louis-Ferdinand Celine, um dos maiores escritores do século passado e também, de certo modo, um monstro genocida.

Celine alcançou os píncaros da gloria em 1932 ao publicar "Viagem ao fim da noite" , uma obra-prima que quebrou, inverteu a lingua francesa. Foi um um escândalo. Diante da novidade os críticos não conseguiram enquadrar o livro em qualquer estilo até então conhecido. Celine ocasionou uma revolução literária e obteve fama e reconhecimento instantâneos.

Porém, com a ascenção do nazismo na Europa e a consequente invasão da França, Celine tornou-se um vil e ativo colaboracionista. Durante a ocupação francesa, escreveu e publicou três furiosos manifestos anti-semitas que pregavam o extermínio dos judeus de forma irrestrita. Quem os leu, diz que os conteúdos eram mais terríveis que os discursos do próprio Hitler
(estão até hoje proibidos de circular). Com o final da guerra Celine se tornou um pária e acabou seus dias maldizendo a humanidade.

Mas voltando a questão inicial, podemos ou devemos separar o autor da obra? O caso de Celine é exemplar : pode-se ler sua magnifica obra sem pensar que existe um monstro por trás?

Não tenho esta resposta mas o exercício de pensá-la é interessante.

Monday, October 24, 2005

Falando Merda

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O que é “falar merda”? Qual a diferença entre mentir e “falar merda”? O filósofo e professor da Universidade de Princeton, Harry Frankfurt se propôs a estudar o assunto.

Para ele a mentira está associada diretamente à ocultação de fatos, de acontecimentos. O mentiroso tem noção de que está deliberadamente negando a verdade acontecida e conhecida por ele. Já o falador de merda não está nem aí para a verdade; o que realmente lhe interessa é projetar um imagem, é tentar convencer o outro com argumentos soltos, argumentos sem ligação com suas próprias convicções.

Um exemplo prático de falação de merda pelo qual passei neste mês : eu estava em um grupo de convivência onde foi colocado o tema “a paz” para discussão. O primeiro companheiro a se manifestar discorreu lindamente e utopicamente sobre a beleza de se viver numa sociedade harmoniosa, de se viver num mundo de fraternidade e amor. Disse que, como forma de contribuir para construção deste Éden terrestre, a ação dele só se pautava pela tolerância, pela não violência, pela não reação, pelo perdão. Que preferia ser agredido a agredir, morrer a matar. Foi de encher os olhos d´agua. Fui ficando cada vez mai puto enquanto o ouvia.

Logo que ele acabou sua “mensagem”, pedi a palavra e, assumidamente, reconheci que, apesar de ter achado o discurso muito bonito, não concordava. Disse que para mim, quando provocado ou incitado, a natureza do homem o impele à reação, ao revide. É claro que o desenvolvimento da sabedoria, da razão e outros objetos nobres da personalidade podem amenizar estes instintos primários mas nunca eliminá-los totalmente.

Após me ouvir (e mais outras manifestações semelhantes) o companheiro-Gandhi voltou a pedir a palavra e, num surto de lucidez, disse que na juventude participara de violentas brigas de gangue e que até hoje tem ganas de matar um determinado rival. Que quando vê tal figura na rua tem ímpetos homicidas (veja só...). Além disto, acrescentou que tem uma filha de dois anos e que para ele é um exercício para se acalmar toda a vez que a criança demanda atenção ou faz birra. A partir deste momento comecei a gostar dele pois senti que agora a verdade fluía.

Este é um exemplo de falação de merda, ou seja aquelas falas vagas, formatadas em generalidades e desassociadas de certezas, desassociadas de experiências reais próprias. São expressões ôcas, vazias, incondizentes com as ações de quem as profere. São discursos onde a crença e a verdade são mascaradas, maquiadas através de belos filtros construídos para enganar os incautos.

Eu fora...

Segue abaixo duas resenhas sobre o livro “Sobre Falar Merda” do Harry Frankfurt e que está sendo lançado agora no Brasil

"Sobre Falar Merda" chega ao Brasil em tempos de CPIs

Camila Marques (da Folha Online)

Em tempos de CPIs e tantos discursos políticos exaltados transmitidos ao vivo do Congresso Nacional (deputados e senadores, algumas vezes, mais querem aparecer do que questionar depoentes e testemunhas), chega ao Brasil o livro "Sobre Falar Merda" (ed. Intrínseca, R$ 19,90 - 68 págs), escrito pelo mais celebrado filósofo moral da Universidade de Princeton (EUA), Harry G. Frakfurt.

O título original é "On Bullshit", expressão em inglês usada para desqualificar algum tipo de fala ou declaração. Nos Estados Unidos, a obra já está na décima edição --se tornou o primeiro livro editado por uma universidade a liderar o ranking dos mais vendidos do jornal "The New York Times". Se depender do título, deve fazer o mesmo sucesso por aqui.

O pequeno tratado, já que são apenas 68 páginas, tenta definir o que é, de fato, falar merda. "Um dos traços mais notáveis de nossa cultura é que se fala tanta merda. Todos sabem disso. Cada um de nós contribui com sua parte. Mas tendemos a não perceber esta situação", começa Frankfurt.

Aos poucos, de modo até certo ponto acadêmico --afinal, Harry Frankfurt é filósofo e professor--, ele cita outros estudiosos do tema e discute definições de dicionários e livros para termos como falação, impostura, conversa fiada, lorota, charlatanice e, claro, merda. Importante ressaltar que, mesmo acadêmico, o texto é de fácil compreensão.

Uma das questões centrais do livrete é diferenciar os atos "falar merda" e "mentir". Com exemplos concretos e interessantes, Frankfurt detalha que o falador de merda quer apenas passar uma impressão diferente sobre si mesmo, não sendo esta necessariamente falsa ou mentirosa. Ao fazer isso, diz o filósofo, a pessoa não está nem aí para verdade e os fatos.

O mentiroso, porém, esconde fatos que conhece. Inventa deliberadamente sua história, mas respeita a verdade, mesmo fugindo dela. Justamente por conta do desrespeito pela verdade é que o falador de merda, para Frankfurt, é mais perigoso que aquele que mente.

Um dos exemplos de Frankfurt remete a um orador do Quatro de Julho, data da independência americana --um correspondente brasileiro seria facilmente encontrado. Em um inflamado discurso, o homem dirá: "Somos um grande e abençoado país, cujos fundadores, sob orientação divina. criaram um novo começo para a humanidade!"

Segundo Frankfurt, o orador não está mentindo, porque não tem a intenção de provocar na platéia crenças que considere falsas. Mas também não se importa com o que a platéia pensa sobre os fundadores do país e o papel da divindade na história dos EUA. "A opinião dos outros sobre ele é o que o preocupa. Ele quer ser considerado um patriota", explica Frankfurt.

O filósofo continua a divagação dizendo que, atualmente, parece "inevitável" não falar merda. Por quê? A teoria dele: "É inevitável falar merda toda vez que as circunstâncias exijam de alguém falar sem saber o que está dizendo". E nos dias de hoje, em que todo mundo precisa ter opinião sobre tudo (é quase um dever cívico, polemiza Frankfurt), se fala a primeira coisa que se vem à cabeça, seja ela coerente ou não com a verdade e os fatos.

E não é exatamente essa a postura de tantos políticos, publicitários, comerciais, artigos etc.? "Dane-se o conteúdo, o que vale é falar bonito" ou "dane-se se é verdade, o que importa é vender bem". "Sobre Falar Merda" diz que sim.

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O Globo

Um filósofo americano explica por que esta crise não cheira bem

"Sobre falar merda", de Harry G. Frankfurt. Tradução de Ricardo Gomes Quintana. Editora Intrínseca, 68 páginas. R$ 19,90

RIO - Numa carta datada de 4 de abril de 1654, o padre António Vieira faz esta advertência a D. João IV, Rei de Portugal: "Me manda V. M. diga meu parecer sobre a conveniência de haver neste estado ou dois capitães-mores ou um só governador. Eu, Senhor, razões políticas nunca as soube, e hoje as sei muito menos; mas por obedecer direi toscamente o que me parece. Digo que menos mal será um ladrão que dois; e que mais dificultoso serão de achar dois homens de bem que um".

O trecho, de uma previdência e concisão admiráveis, torna ainda mais deprimentes, se é que isso é possível, pelo menos dois aspectos da atual crise política: os sinais de que a corrupção continua sendo uma prática rotineira nos altos postos do Estado brasileiro, por um lado, e a retórica pobre e vazia daqueles que se dizem dedicados a combatê-la, por outro.

Quem acompanha as investigações sabe que o palavrório dos interrogadores pode ser mais enervante do que as negativas dos interrogados. No entanto, enquanto depoentes recorrem à Justiça para não serem obrigados a falar a verdade, ninguém precisa ir ao STF para garantir o direito de fazer discursos entediantes em vez de perguntas. Todos concordamos, afinal, que falar besteira cansa, mas não é nem de longe uma falta tão grave quanto mentir.

Pois Harry G. Frankfurt discorda. Ele é o autor de "Sobre falar merda", ensaio que procura definir o significado preciso de um fenômeno tão disseminado (é uma "ubiqüidade impublicável", nos dizeres do New York Times) quanto pouco estudado: "bullshit", no original em inglês, ou o falar merda na tradução. Filósofo e professor da Universidade de Princeton, Frankfurt escreveu o ensaio em 1985, para apresentá-lo num grupo de estudos. O texto foi publicado em 1988 numa reunião de ensaios e em algum momento começou a circular na internet. Só no início do ano, por sugestão de seu editor, Frankfurt concordou em lançá-lo num volume único, embora o achasse muito curto para isso.

O livrinho foi um sucesso. Chegou ao primeiro lugar na lista de mais vendidos do NYT e há planos para traduzi-lo em mais de dez idiomas - o que demonstra a amplitude do fenômeno estudado: "Um dos traços mais evidentes de nossa cultura é que se fale tanta merda. Todos sabem disso. Cada um de nós contribui com sua parte", como constata o autor. Mas os méritos de "Sobre falar merda" não se resumem à pertinência do tema. Sua maior qualidade é demonstrar que é possível escrever com graça e clareza sem abrir mão do rigor intelectual (atributos raros tanto em trabalhos acadêmicos quanto, num outro extremo, no trabalho de autores mais interessados em vender a filosofia do que praticá-la).

Frankfurt procura definir o falar merda através de uma comparação com outras formas de desonestidade: a mentira, o blefe, a dissimulação. Sua conclusão é que ele não apenas é um fenômeno distinto de todos esses, como também é, de todos, o mais danoso à verdade, porque sua essência é uma "falta de preocupação com a verdade", ou "indiferença em relação ao modo como as coisas realmente são" (uma distinção importante para o leitor brasileiro é a que Frankfurt faz entre falar merda e o que ele chama - o tradutor, na verdade - de falação: uma conversa descompromissada, em que os envolvidos sabem que ninguém está necessariamente convicto do que diz; definição próxima ao significado comumente atribuído à expressão "falar merda" no Brasil).

Friday, October 14, 2005

Antes de ser uma mulher, sou um menino...

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Um dia eu vou crescer, serei uma bela mulher
Um dia eu vou crescer, serei uma bela garota...
....
Mas por enquanto sou uma criança, por enquanto sou um menino
Por enquanto sou uma criança, por enquanto sou um menino...
...
Um dia eu vou crescer, sinto o poder em mim
Um dia eu vou crescer, tenho certeza
Um dia eu vou crescer, sei de um útero dentro de mim
Um dia eu vou crescer, sinto isto pleno e puro
...
Mas por enquanto sou uma criança, por enquanto sou um menino
Por enquanto sou uma criança, por enquanto sou um menino
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Este é um trecho da música “Por enquanto sou um menino (For today I am a boy)" , cantada e tocada com toda a carga de emoção que caracteriza a banda Antony and the Jonhsons.

A primeira vista é uma letra chocante que tanto pode falar de um transexual, um travesti, um esquizofrênico ou qualquer coisa associada a “patologias de identidade”.

Sim, pode-se ter esta leitura óbvia e imediata. Mas para mim esta é uma belíssima letra que fala da serenidade da certeza. Fala da quietude certa, da convicção do espírito que surge depois que findamos seja qual for a luta que travamos com os fantasmas das nossa mente.

E o final deste embate nos leva a um local onde nossa alma pode repousar já distante da dúvida, da hesitação. Onde o conjunto se fecha e o universo se encontra; onde a natureza aflora, os caminhos são claros, o sonho encontra seu destino.

Mas esta não é uma conquista sem dor, sem sofrimento, sem solidão. É o resultado de uma luta interior; é o resultado da nossa coragem de olharmos para nós mesmos, de buscarmos nossa essência, nossa força ativa.

E, como diz a letra, muitas vezes este encontro com nossa verdade faz com que nos recolhamos, faz com que escondamos esta luz de liberdade em um “útero” até que o nascimento se faça.

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FOR TODAY I AM A BOY (From the album “I Am a Bird Now”)

One day I’ll grow up, I’ll be a beautiful woman
One day I’ll grow up, I’ll be a beautiful girl
One day I’ll grow up, I’ll be a beautiful woman
One day I’ll grow up, I’ll be a beautiful girl

But for today I am a child, for today I am a boy
For today I am a child, for today I am a boy
For today I am a child, for today I am a boy

One day I’ll grow up, I’ll feel the power in me
One day I’ll grow up, of this I’m sure
One day I’ll grow up, I know a womb within me
One day I’ll grow up, feel it full and pure

But for today I am a child, for today I am a boy
For today I am a child, for today I am a boy
For today I am a child, for today I am a boy

For today I am a child, for today I am a boy
For today I am a child, for today I am a boy
For today I am a child, for today I am a boy
For today I am a child, for today I am a boy

Thursday, October 06, 2005

Desejo, necessidade, vontade...

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Semana passada eu transportei um cadáver no meu carro. Não, isto não é uma figura de linguagem, metáfora ou qualquer coisa assim. È verdade. Uma grande amiga tinha que fazer o translado dos restos mortais de um familiar de um cemitério para outro e eu me ofereci para realizar o transporte. Foi uma experiência digamos “intensa”, tanto para mim quanto para ela. Sem entrar no mérito da ação, o que posso dizer é que tanto eu quanto ela saímos diferentes da situação, nossas emoções ficaram diferentes e isto é o que importa no meu ponto de vista.

Isto me fez lembrar de várias outras situações onde me senti motivado a provar “o novo”, a sair da casca, a arriscar. Por exemplo, em outra ocasião fui conhecer um clube de swing (troca de casais), com uma outra amiga enlouquecida. Morríamos de mêdo do que poderia acontecer, mas, no final, achamos legal, curioso e acabamos nos divertindo (vejam bem, no sentido familiar do termo...).

Também já passei um carnaval inteiro num congresso de ufologia vendo filmes e slides de ets, ouvindo diversas teorias da conspiração e batendo fotos com abduzidos.

De outra feita eu e meu companheiro viajamos até outra cidade para conhecer um grupo de cristãos gays (sim, isto existe) que realizam um excelente trabalho social (educacional, prevenção a aids, inclusão, apoio emocional, etc). Fomos bem recebidos e acabamos criando bons laços de amizade.

Também já transitei por serviços voluntários, religiões, grupos políticos e sociais, terapias alternativas ...e por algumas áreas bem menos ortodoxas...

O que eu quero dizer com tudo isto?

No meu entender não adianta ficarmos esperando que a novidade, o inusitado, algo que instigue bata a nossa porta. Não adianta querermos viver o novo, enriquecer nossa biografia, querermos passar por experiencias diferentes, querermos que as coisas aconteçam sem que antes façamos um movimento em direção ao risco, ao inusitado para nossa mente.

Todos temos desejos, curiosidades, fantasias (em vários níveis : emocional, cultural, social, religioso, sexual, etc). Isto é natural. Porém, o que fazemos em relação a isto? O que nos impede de arriscarmos? Palavras como “estranho”, “excêntrico” e “diferente”, relacionadas com alguma vontade nossa, tornam-se mansas quando nos permitimos.

Nossa mente nos aprisiona : pudores, preconceitos, preocupação com opiniões alheias, falta de coragem ou companhia muitas vezes nos impedem de buscar algo que nos interessa, algo que provoque nosso conhecer, que nos introduza no desconhecido. Esta prisão nos engessa, nos tranca e faz com que entremos cada vez mais num processo de lamentação a respeito da rotina, da falta do novo. Ou então passamos a cultivar sonhos e esperanças de que algum dia ocorra uma mudança e o inesperado faça com que as coisas comecem a acontecer tirando-nos da letargia.

Limites existem – é aquela velha história : nossa liberdade acaba quando inicia a do outro-; mas onde existe intenção, espaço e respeito, tudo pode acontecer.

A vida é ampla. As coisas estão aí, as possibilidades existem, as experiências nos aguardam.. Neste universo cabe a nós decidirmos o que fazer com aquilo que intensifica nossa vontade, que aguça nossa curiosidade. Porém o certo é que não há como gerar transformação, evolução e realização sem ação, sem força, sem coragem, sem disposição ao movimento.

Qual é nossa escolha?

Saturday, October 01, 2005

Robôs fúteis

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Há alguns dias me vi numa situação inesperada de saia-justa. Estava eu em um
cinema aguardando para entrar na sala de projeção quando me vi frente a frente com uma colega da academia de ginástica que frequento, famosa por seu estrelismo e culto ao corpo.

Nas aulas de Power Jump e Jump Fit trocamos algumas palavras mas não temos intimidade e muito menos amizade, pois –confesso meu preconceito- a acho um tanto ôca. Pois bem, nos cumprimentamos e ela fez um convite para sentar-me junto a ela e uma amiga.

Eu, sendo educado, aceitei. Mas,ao mesmo tempo, surgiu em mim um certo pânico. Pensei : " o que vou conversar?... que tipo de assunto discutiremos até que a sessão comece?". Confesso que não achei resposta. Assim, em meio a uma certa angústia, num momento de indecisão, solicitei licença e fui ao banheiro. Lá, enquanto lavava as mãos, fez-se a luz : "regime ! malhação!!”.. "é isto!!"... "vou falar sobre cuidados com o corpo!!".

Assim, tranquilo por ter achado o caminho do link temporário, voltei para junto delas. Como faltavam alguns minutos para o inicio do filme, fomos tomar um café. Sentamos e logo puxei o assunto : "e aí como está o regime? ... nas aulas percebo que vc está ótima !" ... Pronto! Foi a deixa! O santo baixou!

Dali para diante tudo rolou tranquilo. Ouvi um tratado completo sobre alimentação, remédios emagrecedores, lipoaspiração, lipoescultura, botox, dietas, melhores tênis, melhores roupas, freqüencia, intensidade, repetições, etc. Fiquei em silêncio durante todo o tempo dos expressos. Eventualmente comentava alguma coisa do tipo "ah, é?", .. "ãh,ãh",... "que bom", .. "veja só".

Logo chegou o horario da sessão, assistimos ao filme e no final nos despedimos com beijinhos. Tudo rápido e indolor.

Depois, voltando para casa, me lembrei de Gustavo Corção em seu "Lições de Abismo" quando ele fala sobre frivolidade, sobre a futilidade, quando ele fala sobre os autômatos, os robôs humanos cheios de botões pré-programados os quais podemos acionar ao nosso bel prazer. Percebi que foi o que fiz com a tal colega. Sabendo, sendo conhecedor da sua programação "sou fanática por regime" , foi só acionar o botão correspondente para que ela agisse de acordo com o formatado, de acordo com o programado.

Agi certo ou errado? .. não tenho o juízo.

Com a palavra Corção ("Lições de Abismo"), onde o narrador relata ao amigo Miguel uma conversa que teve com uma outra amiga (D. Alice) sobre seus problemas com a esposa (Eunice) :

"D. Alice puxou conversa sobre Eunice... Foi uma conversa penosíssima, em que me defendi, para não dizer a milésima parte de nosso segredo. D. Alice, com muita delicadeza , perseguiu-me, cercou-me, querendo convencer-me que a maior falta é a minha, porque não procurei adaptar-me. E terminou a sua defesa dizendo que Eunice "só é um pouco fútil".

Eis aí, Miguel, o que d. Alice acha pouco (a futilidade). E você? Sabe você o que é isso, qual é a realidade dessa monstruosa deformação que merece sorrisos de complacência e rápido perdão?....

Não ignoro que tenho contra mim o quase unânime consenso. A moça bonita, quando sorri à toa, quando faz trejeitos de faceirice e fala sem propósito, parece uma flor da humanidade, um espetáculo estimulante, uma fonte de alegria. Na verdade, porém, a futilidade é uma coisa lúgubre. Não sei se você já viu essas chagas medonhas que roem o nariz, que abrem um buraco no rosto. Vistas sem levar em conta o rosto, o nariz, a boca, a expressão humana enfim, essas chagas têm um luxo de cores a que não recusaríamos uma certa beleza exótica. Postas no homem são um horror. Pois assim é a frivolidade.

O que existe na frivolidade é mais doença do que saúde; mais fixação do que mobilidade; mais morte do que vida. Eu disse fixação. Explico-me melhor : todos nós sofremos na vida certos golpes psicológicos, um susto, uma surpresa maravilhada, uma descoberta dolorosa, que deixam em nós um resíduo. Ora, tudo em nossa vida vai depender da possibilidade de assimiliação desses resíduos. Se conseguirmos dissolvê-los na substância de nossa pessoa, então esses sinais de nossas experiências serão fecundos. Haverá uma experiência propriamente humana, um lucro. Se eu transformar em sangue, em alma, as pedras de meu caminho, terei doravante antenas sensíveis que antes não possuía, serei capaz de intuições que antes me faltavam. Farei versos, descobrirei novos planetas, ou terei simplesmente um harmonioso equilíbrio que me permitirá a dilatação da vida.

O frívolo, ao contrário, é aquele em que o resíduo das experiências encaroçou. Tem pontos sensíveis, botões, teclas de comando, e são movidos de fora para dentro, como os mecanismos. Aperta-se um botão e ele diz "bom dia" encarquilhando os músculos da face. Aperta-se outro botão e ele faz um discurso, se é um ministro, ou atira os cabelos para trás, se é uma moça de vinte e cinco anos...

Conheci uma pobre moça que passou toda a vida e muitos maus pedaços escorada num leit-motiv que viera provavelmente da adolescência. Alguém, certo dia, em certa conjunção favorável de astros, dissera : "Que bom gênio tem Fabrícia!" e desse dia em diante, com a constância de uma vestal, Fabrícia guardara acesa essa divisa. Fez questão de ser fiel a esse compromisso de acaso, conseguindo mesmo um certas situações mais difíceis, um verdadeiro heroísmo na defesa do bom humor sistemático e de empréstimo. Lembro-me que fui vê-la no dia em que o filho morreu atropelado. Chorava como toda boa mãe, mas creio não me enganar muito se disser que vi, por detrás das lágrimas honestas, um clarão que parecia telegrafar-me: "A vida é assim; vou reagir, e vocês verão que bom gênio tem Fabricia."
.....

Em Eunice o painel de comando é formado quase todo pelos desejos contrariados de sua adolescência pobre. Uma de suas idéias-mestras é a de ser uma pessoa decidida; outra é a de possuir uma natural distinção....E além dessas, uma infinidade de outras menores, formadas por coisas, palavras, objetos, que dentro dela ficaram como entraram e continuam a funcionar de modo a devolver as reações que as originaram. Apalpando-os, anotando-os, eu descobri um por um os botões que fazem rir ou chorar a minha boneca de corda..."

Tuesday, September 27, 2005

Somos todos palhaços uns dos outros

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Quando rimos de alguém temos consciência de que outros riem de nós? Acredito que não. Nosso orgulho, nossa auto-imagem só nos permite ver o ridiculo nos outros..

Na obra-prima "Lições de Abismo", Gustavo Corção escreve :

" O homem é ridículo. Sim, ridículo....Creio ter descoberto a causa desse ridículo : é o equívoco, o erro prático, o engano colossal que pesa sobre a condição humana. ..... No circo a gente se ri porque certos indivíduos são encarregados de errar de modo intencional, calculado, profissional, mas com um imprevisto que nos oculte momentaneamente a intenção...

O cômico, no circo, é o hábil profissional do apupo estilizado, é o personagem que vai ao encontro da vaia, da reprovação social, e a transforma em aplausos da sua arte. No circo, o palhaço descarrega o nosso permanente e opressivo desejo de censurar, de corrigir, de apostrofar, de denunciar. De vaiar...

Na vida,o que mais se vê é o erro do outro. Cada indivíduo é um espetáculo, e cada grupo uma platéia. Ás vezes se torna tão nítido que isola, como ao centro de um picadeiro improvisado, o involuntário artista. Assim é, por exemplo, o caso do pobre indivídio que bebe a água com rodela de limão que o garçom lhe traz para o ritual limpeza das pontas dos dedos. Em si mesmo, o ato não é absurdo, porque a água tanto serve para beber como para lavar; e até porque a rodela de limão sugere mais depressa a idéia de bebida do que a idéia de ablução. O ridículo reside no fato de o sujeito se enganar sobre a convenção, sobre o papel que lhe coube naquela cena.

O cômico....supõe o social, isto é, supõe a possibilidade de imaginar um picadeiro para o personagem que se singulariza e uma arquibancada para os seus juízes, que pronunciam às gargalhadas o seu curioso veredicto.

Quem será então que se ri desse generalizado espetáculo que envolve três bilhões de palhaços? Às vezes nós conseguimos a ilusão de um camarote confortável que nos permita rir dos outros. Mas de onde vem esse eco, essa ressonância de um riso muito mais poderoso do que o meu? Quem esta aí? Quem esta por aí, nessas cadeiras vazias, a rir-se de mim?

O mundo é um circo em que a arena e as arquibancadas são relativas. Três bilhões de atores mal ensaiados passam a vida a divertir-se um apontando no outro o rabo de papel. Ou a trave no olho”

Friday, September 23, 2005

Teatro - "Desassossego"

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Na contracapa do “Livro do Desassossego”, de Fernando Pessoa, o pesquisador Richard Zenith registra os seguintes comentários a respeito da obra do grande poeta português : “ O que temos aqui não é um livro mas sua subversão e negação”; ... este é ”o livro em potência, o livro em plena ruína, o livro-sonho, o livro-desespero, o antilivro, além de qualquer literatura. O que temos nestas páginas é o gênio de Pessoa no seu auge”.... Estas palavras definem com precisão este fascinante petardo literário que pode ser definido –de uma forma simplista- como um diário íntimo de um pequeno escriturário português de nome Bernardo Soares. O diário é composto de comentários, reflexões e devaneios sobre diversos temas : vida, morte, estados da alma, estados psíquicos, exílio espiritual, fé, paixão, moral, conhecimento, desejo, sonhos, ciência, realidade, irrealidade. Como um peregrino da vida, Bernardo sofre e registra a dor, o absurdo e a angústia de ser.

Marilena Ansaldi, a primeira bailarina brasileira a integrar o Balet Bolshoi, debruçou-se sobre esta obra-prima para compor o espetáculo “Desassossego” que marca sua volta aos palcos brasileiros após 12 anos de ausência. A peça foi montada após a artista ter passado por um processo de recuperação de crises de pânico e depressão e comemora os 50 anos de carreira de Marilena. Também esta montagem celebra os 30 anos de “Isso ou Aquilo” espetáculo que a diva lançou em 1975 e que marcou um momento de efetiva renovação na dança brasileira.

Disto isto, é claro que a união destes dois grandes nomes da arte imediatamente sugere um espetáculo primoroso. Fui conferir “Desassossego”, nesta edição do Porto Alegre em Cena, cheio de expectativas.

As luzes se apagam. As cortinas se abrem e um som de metálico e incomodativo enche o teatro. Aos poucos diviza-se um vulto negro, encarnado por Marilena, segurando um grande guarda-chuva e que se movimenta vagarosamento no mesmo lugar sobre um mecanismo que produz aquele som quebrado. Lentamente este vulto-criatura se agacha deformando sua imagem. O efeito plástico é belíssimo. Com movimentos sutis a artista desce do mecanismo, deixa o guarda-chuva e inicia o texto. A partir daí começamos a acompanhar as dores existencias, as vicissitudes da alma daquele(a) personagem limítrofe.

A promessa é grande, porém, infelizmente, logo surgem alguns problemas que permanecem durante quase toda a duração do espetáculo. Primeiro, a potência vocal da atriz não é suficiente para preencher todo o teatro; em vários momentos é impossível ouvir o que está sendo dito no palco. Também a maioria do texto é expresso de uma forma excessivamente dramática (quase no limite do melodrama). Os fragmentos da obra de Pessoa são soterrados sob uma mascara de tragédia exagerada, que mais causa estranheza do que arrebatamento. As frases perdem a sutileza, a agudez, presas numa moldura de dor inútil (vejo Fernando Pessoa muito mais fino, mais impalpável do que "over"). Isto sem falar na lentidão quase que exasperante com que as palavras são proferidas. Os movimentos da atriz, também vagarosos, auxiliam para acentuar o clima de morosidade da montagem. E assim a peça prossegue num ritmo arrastado de tédio geral.

Para compensar, tenho que admitir, surgem cenas belíssimas e plasticamente muito bem resolvidas com a diva mostrando perfeito dominio corporal, o que faz sua figura metamorfosear-se, difundir-se em formas sobre-humanas. Para isto contribui a iluminação perfeita que sublinha toda a encenação. Também a breve sequência de dança comprova estarmos diante de uma grande artista que sem dúvida merece todo o reconhecimento e todo mérito que lhe são atribuídos.

Porém, infelizmente, o resultado do espetáculo é negativo. Ficou o sentimento de expectativas frustradas. Como não podia deixar de ser, no final, mais uma vez a platéia porto-alegrense ovacinou. Eu aplaudi, é claro... mas sentado.

Monday, September 19, 2005

Primeiro Seminário de Lideranças de Grupos Cristãos GLTTB do Cone Sul.

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Abertura do Seminario

Realizou-se no final de semana passado, na cidade de São Leopoldo – RS, o Primeiro Seminário de Lideranças de Grupos Cristãos GLTTB (Gays, Lésbicas, Travestis, Transgêneros e Bissexuais) do Cone Sul. A proposta do evento foi reunir lideranças cristãs do Brasil e do exterior comprometidas em criar e promover grupos religiosos nos quais os participantes podem praticar sua fé livres de preconceitos quanto a sua sexualidade ou outras características individuais.. Com representantes do Brasil, Uruguai, Argentina, EUA, Chile e outros, o encontro proporcionou a troca de experiências entre os guias e definiu ações voltadas para a continuidade da construção e divulgação de movimentos religiosos inclusivos.


No discurso de abertura, o teólogo Andre Musskopf (autor dos livros "Uma brecha no armário -Proposta para uma Teologia Gay-" e "Talar Rosa -Homossexuais e o Ministério da Igreja"-) falou das dificuldades, da lutas e da coragem de homens e mulheres que, mesmo sofrendo discriminações e perseguições dentro das denonimações cristãs tradicionais em virtude da sua orientação sexual, não desistem da sua religiosidade e de expressar e vivenciar suas crenças.


Citando sua própria experiência como exemplo dentro da EST (Escola Superior de Teologia – São Leopoldo/RS), André lembrou das dificuldades pelas quais passou ao ver negada, ao final do curso, sua ordenação como pastor Luterano. Esta situação fez com que ele assumisse o desafio de buscar seus direitos como cidadão e como cristão dentro e fora da IECLB (Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil). Este exemplo de luta é extensivo a todos os demais líderes participantes do evento, com suas trajetórias de vida mais ou menos parecidas, os quais acabaram por construir reputações de vanguarda dentro dos movimentos religiosos nacionais e internacionais.


Neste seminário, eu, meu companheiro e uma grande amiga (Marinês) tivemos a oportunidade de conversar com diversos líderes e conhecer seus caminhos e atividades (Igreja Acalanto, Igreja Comunitária Metropolitana, Catolicos, Presbiterianos, Metodistas, Luteranos, etc). Foi enriquecedor ter contato com a diversidade de idéias e conhecer os trabalhos desenvolvidos por estes homens e mulheres que mantêm suas causas mesmo contra todos os obstáculos enfrentados.


No fim de tudo fica a certeza de que, apesar das igrejas tradicionais ainda serem fontes de muita dor e sofrimento para os GLTTB´s, a fé, a coragem e a esperança na construção de uma nova realidade persistem no coração e mentes de pessoas especiais que laboram para criar e manter espaços de reflexão espiritual onde a inclusão humana é celebrada e onde a chama do verdadeiro amor transforma em cinzas o preconceito e a discriminação.


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Andre Musskopf



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Eu, Lu e Pastor Gelson (Igreja ICM Brasil)

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Eu, Lu e Andre (lançamento dos livros)

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Eu, Marines, Dilmar e Andre

Thursday, September 15, 2005

Comendo a ausente

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Hoje fui almoçar num restaurante vegetariano. Um daqueles restaurantes pequenos e cheios de gente, sabe? Aquele tipo de local onde você é obrigado a sentar ombro a ombro com estranhos. Mas tudo bem, a comida é boa e o preço acessível. Pois bem, lá estava eu sozinho numa mesa quando sentaram ao lado três jovens e belas garotas. Ficamos muito próximos. Eu ali praticamente sentado na mesma mesa que elas.

Bem, assim tão juntos foi inevitável que eu começasse a ouvir suas conversas. De início tudo muito normal, algumas coisas familiares, televisão e coisas do gênero, mas sem muito entusiasmo. De repente uma delas começou a falar de uma pessoa que logo identifiquei que seria uma colega de serviço. Pequenas críticas quanto a postura profissional e comportamento surgiram sem muito alarde. Porém, logo as demais começaram a participar e a incentivar a conversa acrescentando outros comentários e impressões. O que era a princípio uma pequena ponderação (tive esta impressão) logo evoluiu para uma crítica generalizada. Uma fala após a outra acrescentava mais uma pitada de negatividade na imagem da fulana.

O curioso é que a medida em que a pintura do quadro da dor evoluia as garotas ficavam mais entusiasmadas, mais próximas, mais cúmplices. Não sei se era motivada pela delicia da comida mas foi lindo de ver a conexão que brotou entre elas (uma coisa tipo a Festa de Babete). Uma união invejável baseada no julgamento da pobre colega. Assim, entre uma proteína de soja, um pastel de goiabada ou um suflê de cenoura, entre uma garfada de feijão e outra elas iam devorando junto a ausente. O paladar, a saliva, os dentes delas em conjunto iam destroçando e deglutindo a inapta, a incapaz.

Elas riam, os olhos brilhavam. As lindas faces começaram a corar, os lábios abriam fáceis em alegria. A cada comentário de uma as demais assentiam, fazendo um ar grave de reconhecimento e entendimento sobre o que estava sendo dito ou respondiam com um sorriso tipo “eu sei, eu sei”.Confesso que fiquei com inveja daquela união tão explícita, tão amiga, tão sólida que nasceu assim tão espontaneamente. Um belo grupo coeso, em harmonia no ritual de dissecação.

De repente, não sei, talvez por causa da berinjela mal temperada, elas mudaram o discurso, amenizaram dizendo coisas do tipo “ela é boa pessoa...” ou “ela tem seu valor...”. Mas isto não demorou muito. Logo as três foram para a sobremesa e o doce sabor das tortas novamente ativou o fel. A crucificada deve ter ficado com as orelhas em brasa.

O julgamento sumário continou enquanto elas palitavam os dentes e retocavam o batom –tudo muito civilizado. Depois, bem nutridas e satisfeitas levantaram e encaminharam-se para a fila do pagamento. De longe tive a impressão de que o assunto continuava. Pagaram e saíram...

Fiquei só, pensei um pouco e cheguei a conclusão que no final das contas a incompetente, a inábil da colega acabou provando que tem seu valor pois proporcionou um belo momento de congraçamento, um momento de união, um encontro de almas entre as três belas garotas que sentaram hoje ao meu lado.

Tuesday, September 13, 2005

Jardim de Cimento

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Ian McEwan, um dos maiores autores britânicos da atualidade, é um escritor que navega perigosamente nos limites do doentio do ser humano. Ele mesmo diz : "Quando comecei a escrever, aos 20 anos, queria chocar, escapar da cinzenta e provinciana literatura inglesa e ir atrás de William Burroughs, Philip Roth, John Updike e Henry Miller, que pareciam estar em busca de algo mais ambicioso, mais arriscado."

Acabei de ler agora “Jardim de Cimento” um livro pequeno (132 páginas) que confirma a fama do autor. A obra, quase gótica, conta a história de quatro irmãos órfãos (dois casais) que perdem o pai e depois a mãe (cujo corpo encerram no porão). Ao se verem sozinhas, as crianças entram em viagens existenciais individualizadas onde a inocência e a perversidade se confundem. Entre eles estabelece-se um jogo complexo, um arremedo de arranjo de necessidade da continuidade da vida que acontece num cenário de absoluta liberdade de ação onde não existem figuras de autoridade. Daí, sem ninguém para guiá-los, os irmãos se desagregam e se integram, se desenlaçam e se apóiam numa mistura de atração e repulsão. É estranho, triste e sedutor acompanhar estas almas infantis abarcadas pela escuridão, para elas incompreensível. Presos à imaturidade os comportamentos se deformam e os irmãos enredam-se cada vez mais num caminho fadado ao abismo.

No fim de tudo, masturbação, mentiras, apatia, loucura,inocência, incesto, pecado e redenção são acrescentados ao caldeirão onde as crianças queimam e onde encontram sua derrota....Ou quem sabe sua vitória?

Monday, September 12, 2005

Porto Alegre em Cena - Duas X Pinter

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Começou no final de semana passado o Festival de Teatro Porto Alegre em Cena, já considerado o maior do Brasil. Fomos ontem assistir a primeira das várias peças que programamos para esta edição. Segue comentário

Duas X Pinter :

Autor : Harold Pinter
Direção : Italo Rossi

Uma peça dividida em dois textos. O primeiro "Cinzas e Cinzas" mostra um casal (Ester Jablonski e Marcelo Escorel) numa discussão sobre um pretenso ex-amante dela. De forma absolutamente não linear o texto escorrega várias vezes para assuntos ou comentários paralelos que de certa forma não têm nada a ver com o mote principal. Assim, a figura e as ações do amante são reveladas em fragmentos de recordações o que mais provoca curiosidade (mas não muita) do que certezas. Ele era um assassino de massas? Tentou realmente matar a personagem? Um sádico? As respostas não são dadas de modo explicito; são tangenciadas. A mulher desdobra-se em um exercício de omissão e necessidade de confissão. O marido (ou namorado, sei lá), tenta cercá-la com várias perguntas e ela escapa. Porém ele mesmo divaga em vários momentos e se perde. Volta, retoma a linha do interrogatório, insiste. No final, revela-se, de forma solta e inconsequente, um cenário de tragédia que pode ou não ser real. Minha avaliação é de que a obra pode ser vista como "instigante" (para uma minoria de intelectuais bem cerebrais) ou "entediante, incompreensível e chata" (para o resto de nós mortais).

O segundo texto, "Uma Espécie de Alasca" (inspirado pelo livro Awakenings, que também originou o filme Tempo de despertar, estrelado por Robin Williams e Robert De Niro), mostra o despertar de uma mulher após 29 anos de sono profundo. Joanna Fomm (em grande forma) faz esta mulher-menina perplexa diante da situação. Questiona se está viva ou morta, dormindo ou sonhando. Acredita ainda ter 15 anos, comporta-se como uma garota, lembra de si mesma como uma garota. Porém, a partir das conversas com o médico e com a irmã, aos poucos vai incorporando a realidade desperta. O interessante é perceber que esta realidade a fascina e assusta. Se por um lado ela tem curiosidade pelo atual, sobre o que aconteceu consigo mesma e com a família, ao mesmo tempo percebe-se seu medo em enfrentar um mundo totalmente diferente. O texto, muito mais acessível que o primeiro, permite algumas risadas o que sem dúvida agrada o público. Para quem viu o filme sabe como a peça termina, só que aqui a personagem volta a dormir por vontade própria..

Para mim o saldo final é regular. Não achei nada excepcional e com certeza não aplaudi em pé (o que todo o resto dos presentes fez).

Saturday, September 10, 2005

Gays em Cristo

Navegando em alguns grupos de discussões sobre religião ocidental mais uma vez me deparo com a irrelevante e estéril discussão “Gays e cristandade – devemos aceitar ou condenar?”. Como um masoquista, que já sabe o que o espera, começo a ler as intermináveis considerações, réplicas, tréplicas, xingamentos, mensagens conciliatórias, mensagens de “esclarecimentos”, mensagens “divinas”, desaforos e assim por diante, o que acaba redundando num nada generalizado.

De qualquer forma, o curioso é que nestes forums nota-se um esforço, entre os participantes que condenam o homossexualismo, de provar aos que pensam diferente que a verdade (com V) é prerrogativa deles. Para isto se apegam de forma asfixiante ou às doutrinas da sua profissão religiosa ou às escrituras bíblicas, demonstrando mais uma vez que é muito mais fácil recacarejar, de forma absolutamente superficial, pensamentos, dogmas e ensinamentos pré-formatados (e deglutidos como manjares), do que realizar um esforço próprio no sentido de questionar o que é imposto como correto. Mostram como foram bem amestrados.

Sei que a preguiça é inerente ao ser humano, tanto a física quanto a mental. É ótimo não termos que fazer ou pensar muito. Pra que? Se podemos nos preocupar pouco, ou fazer pouco, porque nos incomodar em perguntar ou procurar saber mais? Porque levantarmos da cama se desde que nascemos somos criados dentro de um mundo pronto onde os outros vão nos dizer o que está certo ou errado e a nós só cabe aceitar? Por exemplo : quando nos dizem que Deus condena os homossexuais, cabe a nós questionar? Ora se DEUS deu a procuração lavrada e assinada para os doutores da lei afirmarem isto, o que resta a nós pobres mortais?... Sim, sim, os doutores têm esta procuração. Sim, aquela que todo mundo sabe... Sim, a Bíblia..... Sim, este mesmo : o livro que brandem na nossa frente com uma baba bovina (como diria Nelson Rodrigues) quando querem provar nossa escuridão mental. Sim, a obra maior! A única luz divina da humanidade. O livro cujas páginas registram as únicas verdades admitíveis para qualquer ser racional deste planeta...... Não, não, o Alcorão, Bhagavad Gita, Vedas, e outras literaturas das outras grandes religiões não servem para nada..... São textos menores de hereges perdidos nas trevas e na ignorância. O único livro a encerrar toda a necessidade moral e espiritual do homem pertence aos cristãos...... Parênteses. Disto surge a idéia : que bom seria se todos fôssemos cristãos, não? Se pudéssemos extirpar o câncer que os pecadores representam à humanidade, e deixarmos os cristãos herdarem a terra, com certeza o mundo seria um paraíso, um lugar de amor, conciliação, paz e harmonia, não é mesmo?... Mas peraí, a cristandade não existe há séculos? A doutrina e os ensinamentos não existem há séculos? Sim, mas o que se vê estudando este histórico são, principalmente, cenários de intolerância, perseguições, guerras, tortura e morte. Então...(melhor deixar isto prá lá) . Fecha parênteses.

Mas voltando à Bíblia : é interessante perceber que as pessoas que têm o conteúdo do livro sagrado como única argumentação não possuem a mínima cultura que as esclareça como tal coletânea foi formada, sob quais regras foi composta, que interesses refletiu. E mais, falta cultura e conhecimento também no que se refere às próprias origens do cristianismo. Por exemplo: de onde sairam muitas das parábolas, dos ritos, das histórias e verdades reproduzidas hoje em qualquer templo de esquina? Com certeza estas pessoas teriam um baque enorme ao saber que muito do que é colocado como verdades cristãs nada mais são do que cópias quase que literais de religiões e tradições mais antigas (vide a própria história do nascimento milagroso, reis magos e outras). Mas saber disto, ter este conhecimento, ter esta cultura histórica, invalida o conteúdo da Bíblia? O livro passa a ser um festival de mentiras inúteis e estéreis? Perde o caráter sagrado? Para mim não, apesar de, quem sabe, ter deixado esta impressão ha pouco. Para mim, a Bíblia mantém o caráter de livro santo assim como qualquer outra obra da literatura universal que busque a reconexão do homem com o Divino - O que não pode ser aceito é que qualquer excerto destas obras antigas seja usado como prova incontestável de alguma pretensa verdade universal que pregue a discriminação e a intolerância entre os homens-

Reafirmo : a Biblia e as obras sagradas de todas as religiões e filosofias estão disponíveis para auxiliar aqueles que buscam trilhar o caminho espiritual. São fontes de conhecimento, inspiração e meditação mas não encerram em si o início, meio e fim da verdadeira transcendência,. Por isto qualquer fato histórico ou argumentação que queira desmascarar ou ratificar a Bíblia (ou qualquer outro livro santo); que queira provar que um ponto de vista é o único certo (muitas vezes baseado em textos das próprias escrituras), ou que uma religião é mais correta do que outra, se torna irrelevante quando atingimos a verdadeira religiosidade.

Falo daquela religiosidade interior desassociada de qualquer denominação, daquela religiosidade maior que une coração e mente. Que integra. Religiosidade de pensamento isento de qualquer gesso, onde o espírito manifesta o “religare” livre de conceitos ou preconceitos. Religiosidade de acolhimento, onde a convivência, ratificação e celebração das diferenças acontecem. Onde o julgar e a condenação (explícita, parcial ou velada) inexistem. Que inclui verdadeiramente o outro como ele é. A religiosidade do respeito consigo próprio e com demais, onde cada um é incensado no seu individual, na sua felicidade de ser uno, de ser íntegro (independente da sua sexualidade ou qualquer outra característica)....

O encontro com este “religare”, além das aparências e das convenções sociais, é um processo doloroso pois prevê sairmos no nosso estupor, da nossa zona de conforto pré-formatada e questionarmos, quebrarmos paradigmas, mexermos com o que nos foi servido, destruirmos “muros de verdades”. É doloroso, mas afirmo que o que resulta é uma reconstrução moral e espiritual baseada numa tranquilidade, numa serenidade de conexão com o superior que proporciona uma visão maior e onde discussões como estas passam a ser apenas objetos de contemplação e lamentação.

Thursday, October 14, 2004

Escolha apenas uma...



Se você tivesse que escolher uma única lembrança de toda sua vida, qual seria?

Esta questão curiosa e instigante é colocada no filme "Depois da Vida", do diretor japonês Hirozaku Kore-eda, no qual, como o titulo sugere, a ação transcorre no além.

A história mostra o trabalho em uma espécie de casa de passagem onde os recém-mortos devem passar uma semana antes de partirem definitivamente para a vida eterna. Nesta semana, ajudados por alguns funcionários, cada um deles deverá escolher uma única lembrança de toda a sua vida, a qual definirá o único sentimento que carregarão consigo para sempre.

Eis o que alguns dos personagens escolhem :

Uma garota primeiro escolhe a recordação de uma tarde na Disneylandia mas depois muda para o cheiro do colo da sua mãe.

Um senhor escolhe reviver a sensação da sua infância quando ia para a escola de bonde e sentia a brisa fresca do ar no seu rosto.

Outro prefere a sensação de voar entre as nuvens.

Uma senhora escolhe reviver a emoção de, pequena, dançar para a alegria do seu amado irmão.

Um jovem questiona se não pode escolher um sonho ao invés de uma lembrança real.

e assim por diante..

Só por esta idéia simples e direta o filme já é interessante. Mas a obra tem mais, por exemplo : os tais funcionários da "instituição" são almas antigas que, na época do seu desencarne, não conseguiram escolher uma única lembrança e por isto ficaram presas naquela espécie de limbo auxiliando os demais que por ali passam. Isto, se por um lado significa um aprisionamento, por outro -como define um deles- representa uma liberdade de continuar a se lembrar da sua própria existência ou então de manter viva a memória dos que avançam para o próximo estágio.

Outra maravilha do filme é a história de um dos recém chegados -o velho Sr. Watanabe- que não consegue se lembrar de nada relevante na sua vida. Ele julga ter tido uma existência normal, medíocre e insípida. Na instituição quem o atende é o jovem Yusuke que, para ajudá-lo, providencia várias fitas de vídeo que mostram o filme completo da sua vida. O que Yusuke espera é que , ao rever sua biografia, o ancião possa se recordar de alguma coisa que tenha valido a pena e, assim, faça a sua escolha. Juntos começam a assistir as fitas. Em uma delas aparece o primeiro encontro de Watanabe com a jovem Kyoto, que mais tarde viria a tornar-se sua esposa (registrando: Kyoto já havia morrido há algum tempo antes de de Watanabe). É um momento constrangedor pois o jovem Watanabe sua muito e não consegue conversar com a moça, cabendo à ela toda a iniciativa de aproximação entre eles. Ela, tímida, começa a falar sobre filmes e consegue estabelecer um link com o desajeitado rapaz. Ao ver tal cena, Yusuke, melancólico, diz entender a vergonha e o embaraço de Watanabe pois ambos pertenceram a mesma geração. O velho fica surpreso. Yusuke então explica ter morrido na guerra há muito tempo, o que explica sua aparência jovem. Continuam a assistir os "tapes" até que em uma das fitas o casal, já velho, aparece sentado em um banco de praça. Eles tinham acabado de sair do cinema aonde tinham ido pela primeira vez após 30 anos de matrimônio. Ambos gostaram muito do programa e prometem que, a partir dali, iriam repetí-lo uma vez ao mês. Watanabe gosta do que vê e escolhe a sensação desta lembrança para a sua eternidade.

Com a missão cumprida Yusuke revela, para outro personagem, ter amado Kyoto antes de partir para a guerra onde foi morto, porém não teve jeito de declarar-se ou de tentar uma aproximação maior. Isto fez com que ele morresse sem ter a certeza de que era correspondido pela moça. Porém agora, ao revê-la nas fitas de Watanabe, sentiu aflorar novamente o sentimento que nutriu por ela. Busca então, no arquivo de imagens dos mortos antigos, qual foi a lembrança que Kyoto escolheu para sua própria eternidade. Ao ver a fita, Yusuke se emociona ao perceber que a recordação escolhida pela mulher mostrava exatamente ele e ela sentados num banco de praça antes dele partir para a guerra (e, obviamente, antes dela conhecer Watanabe). É uma cena pequena, calma, sem diálogos com ambos tímidos e constrangidos, sentados lado a lado. Tudo o que ela faz é contemplar as mãos do amado. Assim ele percebe que algo que até tinha feito questão de esquecer, algo que para ele era puro constrangimento e insegurança, significou muito para Kyoto. Ele pensa :"Mesmo não percebendo, podemos ser a melhor lembrança para alguém". Yusuke então escolhe este sentimento para partir para sua própria eternidade.

Como se vê, o filme é rico em significados. Porém, já aviso, quem assistí-lo tem que estar imbuído de uma forte dose de paciência devido ao seu ritmo excessivamente lento em certas passagens. Mas vale a pena.

De qualquer forma, após assistí-lo, me peguei pensando sobre qual lembrança da minha vida eu escolheria se estivésse numa situação semelhante. Me vi diante de várias alternativas (todas amorosas ou familiares), porém nenhuma específica que pudesse englobar o universo de sentimentos que gostaria de carregar comigo. Perturbado, conversei sobre o assunto com meu amado. Ele então me recordou um fato real e concreto que só pode ser descrito como milagre nas nossas vidas. Pensei : "é isto, quero a sensação eterna de um milagre". Porque? Bem, primeiro devemos acreditar que eles existem. E depois, quando acontecem, a sensação é de que o inconcebível, o impossível nos foi ofertado. É a sensação da mão da providência operando, do destino movendo as peças para nos proteger ou ofertar alguma dádiva. É o sentimento de que fomos escolhidos para uma graça especial. É aquele toque na alma que congela e transfigura, por alguns instantes, o nosso viver. É o momento onde a razão se perde e o divino brota.

Isto eu gostaria de levar para sempre.

Amém.


Friday, October 01, 2004

Amor a três



Comecei a ler um livro chamado “Amor a três” de Barbara Foster, Michel Foster e Letha Hadady. Barbara e Michel são casados há vinte anos e Letha vive com ambos formando o que se chama um clássico “ménage à trois”. O livro se propõe a discutir de forma séria a possibilidade da existência de um relacionamento amoroso e consensual entre três pessoas. Um trio vivendo em comunidade plena.

Diz a contracapa: “Este amor não-convencional (o ménage) é muito pouco conhecido e estudado em nossa cultura puritana e estereotipada”. E na orelha: “O ménage à trois é bastante diferente de um triângulo amoroso. Em geral, este se origina de uma relação de adultério, e um dos três é excluído. Por outro lado, no ménage, os três participantes têm status igual, e a relação se inicia a partir de um consenso de todos”.

Como pode se ver, é um assunto fascinante e polêmico que certamente povoa o imaginário amoroso-erótico de muita gente. Ainda estou no início mas já apareceram diversas idéias interessantes que gostaria de compartilhar:

* O relacionamento a dois é redutor, mesquinho e egoísta a partir do momento em que se estabelece a idéia de “eu”, “tu”, “nós dois” e “os outros”. Isto tira a possibilidade de crescimento harmonioso da dupla o que, inevitavelmente, descambará para a insatisfação, traição, ressentimentos e separação.

* Todos fantasiam com alguma outra pessoa : “A superimposição fantasiada”, escreveu ele (Lawrence Lipton - cronista do mundo beat), é “o crime menos citado e o mais infame, e aquele mais amplamente praticado entre os defensores confessos do código moral judaico-cristão ...(...) ...É o inconfessável.”. Lipton refere-se à fantasia de que seu parceiro na cama é outra pessoa – talvez uma pessoa real que você conheça e deseje, ou vislumbrou ou viu na mídia, mas em geral é alguém mais jovem ou de melhor aparência. Em uma variante, você imagina que o seu parceiro está fazendo amor com outra pessoa, também atraente. Esta pode ser considerada uma fantasia homo-erótica, mas é na verdade uma fantasia de três na cama. Quanto mais monogâmico é um relacionamento, mais provável que um ou ambos os parceiros empreguem este dispositivo – ou percebam que durante o sexo sua mente foi tomada pela imagem de uma terceira pessoa.”... (....) ...“Todos levamos para o quarto a imagem da pessoa desejada, e muito frequentemente ela não corresponde ao nosso amante real. “Quem é o terceiro que está sempre ao seu lado?, perguntou T.S. Eliot.”

* Os autores fazem questão de diferenciar o que eles consideram um ménage consensual da idéia de adultério, prostituição ou de fantasias pornográficas : “ O adultério em geral conduz a um triângulo amoroso clássico que mistura excitação erótica com o pavor de se expor”... (...) ...O adultério e o ménage compartilham no seu início um desejo de viver plenamente. Mas rapidamente tomam caminhos diferentes. O adultério floresce sobre a suspeita, o ciúme e a raiva. O ménage exige honestidade e, no mínimo, aquiescência dos três “.

* O menáge pode não ser entendido apenas como um agrupamento físico amoroso. Também pode ser entendido como trazer para dentro de um relacionamento convencional, algum terceiro que complemente a dupla através de idéias, intelectualidade, sabedoria, fascinação, erotismo, etc, ou seja alguem que proporcione a surgimento e a manutenção de algum tipo de excitação mental.

* Questões inerentes a qualquer ménage : “Sejam célebres ou obscuros, os participantes dos ménages bebem todos das mesmas fontes de narcisismo , voyeurismo, e da irredutível necessidade de serem três. São todos testados no fogo do ciúme. A dialética interna da paixão versus a compaixão permanece constante. A questão de quem é meu e a quem pertenço são repetidamente colocadas e respondidas. Se o egoísmo prevalece, ainda que em um dos três, o relacionamento vai degenerar para um triângulo amoroso clássico, com suas espionagens, brigas, culpas, divórcios e violência. Mas se e quando o ménagem cresce junto, uma energia especial pode e tem feito coisas fascinantes acontecerem – nas artes, no cinema ou na vida. Na nossa vida”.

Como se pode ver os autores são defensores do ménage aberto como forma de realização emocional plena e uma resposta positiva aos comportamentos escusos (adultério, traição, prostituição, perversão, etc) que são buscados para extravasar desejos reprimidos.

O que eu penso a respeito?

Me permito a não emitir opinião, mesmo porque acredito sinceramente que cada um deve procurar o seu prazer, sua realização erótica-emocional da maneira que mais lhe convier.

A única coisa que importa é a honestidade, consigo mesmo e com o(s) outro(s).

Thursday, September 30, 2004

Olga - meio atrasado



Eu não ia comentar o filme "Olga" do Jaime Monjardim até porque sei que a imensa maioria do publico está adorando. Porém, a pedido de uma amiga querida, vou deixar algumas poucas impressões a respeito desta obra. Só peço que quem realmente tenha adorado a película pare por aqui ou então tente não ficar indignado com o que irá ler, ok ?

Li o livro do Fernando Morais quando foi lançado, acho que na década de 80. Fiquei impressionado com o trabalho de pesquisa jornalística e com a narrativa documentária-romanceada-cinematográfica alcançada pelo autor. Um livro inesquecível. Qual não foi minha surpresa e alegria ao saber que o livro seria filmado tendo no papel principal a Camila Morgado, uma boa revelação neste mundo de atrizes medíocres das telenovelas. Esperei ansioso e fui para o cinema com boas expectativas.

O filme começa com a Olga já no campo de concentração à espera da execução na câmara de gás no dia seguinte. Logo ali já comecei a ter uma má impressão, quando a personagem começa a se lembrar da sua trajetória com aquele tipo de tomada cinematográfica onde o ator olha para o infinito (de frente para a camêra), faz uma cara de quem está refletindo profundamente e diz-ou pensa- algo muito relevante e íntimo. Este tipo de técnica primária se vê muito em telenovelas, principalmente as mexicanas. Mas tudo bem, vamos adiante.

A narrativa segue mostrando a personagem no início da sua trajetória política na Alemanha. Em um discurso inflamado, frente a uma platéia de militantes comunistas, a Olga me sai com esta : "Eu quero fazer treinamento militar para construir a paz no mundo!!!". Quase caí da cadeira! Que absurdo! Comecei a rir com tamanha sandice! É claro que eu sei que existem ideologias que querem transformar o mundo -para melhor- através de armas e atos terroristas. Mas mesmo assim não aguentei a estupidez proferida.

Logo a Olga é chamada para a missão de conduzir Luiz Carlos Prestes clandestino e em segurança ao Brasil. Ao tomar conhecimento da lendária Coluna Prestes, novamente a personagem olha para o infinito (de frente para a câmera é claro) e diz "Eles caminharam 22 mil quilômetros...", com uma cara sonhadora. Corta para a casa da militante : ao romper com a família burguesa (pai compreensivo e mãe negativa) a garota problema abandona o lar com uma malinha básica numa noite de muita chuva, mas muuuuiita chuva mesmo. E ela sai sem guarda-chuva, e fica mais encharcada que a pequena sereia, para reforçar a idéia de desamparo -alías em todas as cenas no filme onde rola alguma tristeza o tempo sempre está fechado (muita chuva, muita neve ou muita noite)-.

Conhecendo o Cavaleiro da Esperança ela parte para a missão de proteção: para isto ambos têm que simular estarem casados durante a viagem de transatlântico que os trará para a América. No trajeto, o romance falso vira real e eles partem da simulação para as vias de fato. A cena do primeiro beijo é constrangedora com hiper closes e uma música ensurdecedora -aproveito para registrar que a trilha sonora, cheia de violinos, invade o filme sem sutileza alguma estragando o clima das cenas ao invés de emoldurá-las. Para despistar a polícia eles acabam viajando para vários lugares até chegarem ao Brasil de avião. Aí surge outra cena risível. O Prestes mostra sua terra natal para a companheira através da janela do avião. O que se vê então são praias e matas ensolaradas em vôo rasante. Uma coisa bem morena, bem tropical.

Finalmente chegam ao Rio de Janeiro e logo se enturmam com os comunistas locais. Começam a planejar a revolução sem saber que a polícia já desconfia da movimentação. Não vou me alongar mas todo mundo sabe no que dá. Quando a casa começa a cair o publico é brindado com uma das cenas mais imbecis. Me refiro àquela onde o Prestes, antes de fugir de um esconderijo, deixa em um cofre -com uma armadilha de bomba bem furreca- todos os documentos que podem incriminar os companheiros da revolução. Ele diz então à Olga : "Vou deixar estes documentos que podem incriminar a todos aqui neste cofre". E ela responde: "Você vai deixar estes documentos que podem incriminar a todos aí neste cofre?".... Hã?... Será que eu perdi alguma coisa? -break novamente : todo o roteiro do filme é construído assim, um personagem diz uma coisa e outro reforça. Também é usada aquela tática de um personagem conversar com o outro e já aproveitar para apresentá-lo, tipo na cena onde o Vargas diz "Filinto Muller, meu chefe de polícia"-. Só um ignorante de história não saberia disto. Mas é claro, para tornar o filme mais acessível ao publico médio, tudo tem que ser bem explicadinho.

Voltando: é óbvio que o tal cofre é aberto e todos os companheiros acabam presos, inclusive o casal central. Bem aí surge a cena mais constrangedora de todo o filme : quando o Prestes e a Olga são separados, num local onde deverão prestar depoimentos separados, os dois se agarram e começam a berrar, a urrar -e a música de violinos também-. O diretor, para intensificar a dor do momento, alterna tomadas de câmera das mãos entrelaçadas, que pouco a pouco vão se separando, com closes dos dois gritando de maneira ensurdecedora. E dá-lhe violino e mais violino.Ufa !! ....

Daí pra diante a coisa melhora pois passa a se concentrar na trajetória solitária da Olga presa e grávida. O filme torna-se mais denso ao acompanhar sua maternidade agredida. Também, diga-se de passagem, quem faz o filme crescer é a volta da Fernanda Montenegro, que faz a mãe do Prestes. Ela arrebenta na interpretação. Sem gritos e sem desespero, ela consegue transmitir, apenas com leves mudanças fisionômicas, toda a gama de emoções trágicas vividas pela personagem. Realmente uma diva. A Camila também cresce e consegue passar a dor da Olga frente aos acontecimentos. Mas, infelizmente, também não posso deixar de comentar outra piada do filme : quando as prisioneiras chegam no campo de concentração o tempo está fechado (é óbvio) com muuitta neve, muita neve mesmo. E o que se vê ? Um nazista com uma maquininha de escrever de nada, debaixo de toda aquela nevasca de fim de mundo, preenchendo fichas das prisioneiras. ...Sem comentários...

O resto história todo mundo sabe: Prestes acaba preso, a filha deles é entregue à avó e a Olga é executada. Aliás a cena da execução é absurda, com a personagem dentro da câmara de gás, cercada de prisioneiras que gritam desesperadas, e ela, indiferente, novamente olhando fixamente para a câmera.

Os comentários finais do filme traem o público ao não informar que, após sua libertação, o Prestes acabou se aliando politicamente a Vargas, o homem que entregou a Olga grávida aos nazistas.

Finalizando: no cômputo geral o filme é bom, principalmente por revelar ao grande publico a trajetória de uma grande mulher. Mas pra obra-prima que muita gente apregoa é muito pouco. De qualquer forma esta é minha impressão. Desculpem qualquer coisa...


Wednesday, September 29, 2004

Com a Bandeira Brasileira no ....



Domingo passado terminou o Décimo Primeiro Festival de Teatro Porto Alegre em Cena, sobre o qual eu já tinha falado no texto “Vá ao teatro mas não me chame...”. Naquele texto eu falava das porcarias a que assisti e falava que ainda esperava ver bons espetáculos no festival. Pois bem, para minha alegria consegui assistir peças ótimas que realmente valeram a pena. Também assisti à polêmica “Samba do Crioulo Doido” que, a princípio, poderia chocar alguns desavisados.

Breve comentário sobre alguns espetáculos.
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SAMBA DO CRIOULO DOIDO

Um espetáculo de dança que chocou o governo no Maranhão. No palco surge um cenário tomado por bandeiras do Brasil formando uma tela transparente iluminada por trás. O publico vê a silhueta de uma pessoa sozinha no palco, sem poder indentificar se é homem ou mulher. Um som lento e meio tribal vai tomando conta, ouve-se a voz poderosa da Elza Soares cantando, aos poucos, a frase “ A carne mais barata do mercado é a carne negra...”. A figura começa a se movimentar e percebemos que é um homem nu. O constrangimento toma conta da platéia. Logo as luzes se acendem e vemos que o homem é um negro vestido apenas com longas botas altas. A musica vai mudando –parte mecânica, parte executada ao vivo por um percussionista- e o dançarino vai mostrando com seu corpo várias fascetas do folclore, do estereótipo do negro na cultura brasileira e, porque não, mundial.. Vê-se então o “crioulo risonho” (tipo Lois Armstrong), a mulata exportação (tipo Sargenteli), o crioulo bem dotado (que aliás quase me causou um desmaio ao ver o artista manipular o próprio pênis com certa fúria), a valorização do bundão, do bocão, etc. Porém a auge da peça ficou reservada para o final quando o bailarino Luiz de Abreu pega um grande pano, todo estampado com a bandeira brasileira, e o enfia no ânus (ou pelo menos finge enfiar) para simular uma grande cauda de vestido ou esplendor carnavalesco. A público se arrepiou. Foi realmente “sui generis”, para dizer o mínimo. No final da peça, o meu urso foi abordado por um repórter do jonal Zero Hora que solicitou a impressão dele sobre o que tinha visto. Na verdade o que o reporter esperava era um depoimento de alguém chocado, mas o urso registrou que achou o espetáculo sério, bem feito e que conseguiu retratar, somente através da dança, alguns estereótipos ridículos que os brancos pensam a respeito dos afro-brasileiros (a entrevista foi publicada no dia 20/09/2004).

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O QUE DIZ MOLERO

Quatro horas e meia de espetáculo! A peça começou às 21 horas e terminou perto da 1 e 30 da manhã. Uma maratona! Mas que maravilha, que beleza. Não é uma peça convencional. O que se vê no palco é a “dramatização” do texto de um livro, um “romance encenado”, um "livro falado". O texto quase literal do livro “O que diz Molero”, de um autor portugues chamado Dinis Machado, é expressado através do talento de seis atores que se desdobram em mais de 200 personagens. Uma experiência única e inesquecível.

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AS BASTIANAS

Este é o tipo de espetáculo em que todos choram. No final, da platéia aos atores, todos uniram-se nas lágrimas. Realmente excepcional. Encenado em um albergue municipal a peça conta a simples história da busca por um nome para uma menina que precisava receber um nome de santa. Dito assim a coisa parece inócua, mas não dá para descrever o universo de sensações provocadas pelo trabalho apresentado. Música, fogo, comida, dança, cristianismo, umbanda, crendices populares, tudo misturado num efervescente caldeirão mágico. Com criatividade e talento incríveis as atrizes conseguiram congregar artistas profissionais, platéia, habitantes de rua e albergados no mistério do teatro. Todos interagiram participando ativamente no desenvolvimento da história. O que se vivenciou naquele albergue foi mais do que uma experiência teatral, foi um ritual de comunhão entre os corações presentes no qual as diferenças sociais e culturais ruíram diante da força e beleza transcendentes da encenação. Foi de arrebentar os sentimentos.

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Enfim o festival terminou. O saldo foi positivo com certeza. Ano que vem tem mais..

E VIVA O TEATRO !!!

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Segue abaixo alguns comentários sobre as peças retirados do programa oficial do evento e mais alguma coisa da internet.

O que diz Molero :
Aderbal Freire-Filho volta ao gênero romance-em-cena, mergulhando mais uma vez no universo literário para construir a cena teatral. Tendo redescoberto o escritor brasileiro João de Minas ao apresentar ao público A Mulher Carioca aos 22 anos, iniciando, então, seu trabalho à frente do Centro de Demolição e Construção do Espetáculo, Aderbal se diz culpado de ter inventado um gênero que tem estilo e técnica próprios. A peça é uma reconstrução da vida de um personagem, o Rapaz, por meio de episódios. Os fatos e acontecimentos que construíram a vida do Rapaz são colocados ao público por dois misteriosos investigadores, Austin e Mister DeLuxe, que fazem a leitura de um relatório escrito por Molero. A vida do Rapaz é repleta de diversos personagens, responsáveis por provocar emoções e sensações diversas. É assim que ele se expõe e experimenta sentimentos como o amor, a solidão, a esperança e o sofrimento. O espetáculo recebeu o Prêmio Shell nas categorias de Melhor Diretor para Aderbal Freire Filho e melhor ator para Orã Figueiredo.
O romance e o escritor :
Dinis Machado nasceu em1930, em Lisboa. Apesar de jornalista ligado ao esporte, fez diversas críticas e ensaios cinematográficos além de ter organizado diversos festivais para a Casa da Imprensa de Lisboa entre os anos de 1958 e 1966. Dedicou-se também a edição de histórias em quadrinhos, sendo chefe de redação da publicação Tintin e Spirou. Escreveu três livros policiais sob o pseudônimo de Dennis McShade: "Mão Direita do Diabo", "Mulher e Arma com Guitarra espanhola" e "Réquiem Para D. Quixote". Além de "O Que Diz Molero", escreveu: "Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel Garcia Márquez" e "Reduto Quase Final"
Na época do lançamento de O Que Diz Molero Dinis Machado declarou ser este seu primeiro e último romance, pois tudo o que precisava ser dito estava contido ali. Vinte e cinco anos depois confirma-se o propósito do autor: o romance O Que Diz Molero é considerado um dos maiores êxitos editoriais portugueses, com mais de cem mil exemplares vendidos, e traduzido para o francês, o alemão, o espanhol, o romeno e o búlgaro.


O samba do crioulo doido :
Entre os 12 espetáculos e duas performances apresentados através do projeto Rumos Dança 2004 do Itaú Cultural, O samba do crioulo doido foi o de maior repercussão. Engajado e dotado de humor cáustico, apropria-se de símbolos nacionais para abordar preconceito, dominação, desejo e (de)formação de valores, cruzando os universos de minorias étnicas e sexuais. O espetáculo aborda a resistência do corpo negro ao exercer a subjetividade para expressar as coisas do mundo. Repensa, dentro de um contexto brasileiro, a objetivação e a carnavalização deste corpo através da história. Assim, a bandeira do Brasil é o pano de fundo e o samba é o ritmo do corpo que transgride, resiste, afirma e aponta para dentro de suas questões e para o humano, independente de sua etnia ou gênero.

As Bastianas :
Baseada em contos do primeiro livro de Gero Camilo, A Macaúba da terra, As Bastianas fala da busca de uma nova identidade e do cotidiano de uma aldeia no sertão nordestino, com suas histórias e sua religiosidade. São as mulheres que nos falam da criação, da luta pela terra e da vontade humana de amor, sabedoria e sossego. A peça recebeu indicações ao Prêmio Shell 2004 nas categorias pesquisa e adaptação teatral. O eixo principal é dado por Mato Soou..., primeiro conto do livro A Macaúba da terra. Trata da história da formação de uma vila, na qual um dia nasce uma menina que não pode ser batizada por falta de um nome santo. Sem nome, a menina cresce esquecida por todos, até o dia em que o irmão caçula, Genésio, sai em busca de missionários que teriam a solução para o problema. A vila permanece com seu cotidiano e suas histórias até o momento em que Genésio, dez anos depois, retorna à vila e reencontra sua irmã.

Tuesday, September 28, 2004

Hospital



Hospital para mim é sinônimo de depressão. Semana passada estive em um visitando uma amiga que está passando por problemas na sua gravidez. Ao chegar lá, desde o momento em que atravessei o portão, já começou a baixar um sentimento de opressão. Este sentimento só aumentou a medida em que caminhava pelos corredores, perguntava a localização do quarto e ia me deslocando pelos labirintos assépticos. Ao vê-la me senti acuado, perdido. O que fazer? O que dizer? Uma pergunta clássica e ridícula é : "Como vc está?". Mas de que adianta a pergunta diante da obviedade dos fatos? A continuidade do questionamento segue o mesmo triste caminho : "Desde quando você sente isto?", "O que o médico disse?", "E os resultados dos exames?", etc, ou então podemos, para tentar amenizar, começar a discutir o "ambiente" do hospital, tipo : comida, médicos, outros pacientes, enfermeiros e outras amenidades.


Eu confesso que não sei bem como lidar diretamente com alguém hospitalizado. Não no sentido de visitar, escutar ou ajudar a pessoa no que for possível. O que não sei é como procedecer para, de alguma forma, estimular a mente do enfermo a navegar um pouco para fora da doença, navegar um pouco para fora do clima local. Talvez isto seja difícil ou mesmo impossível dependendo do que e/ou de como a pessoa está se sentindo. De qualquer forma me incomoda e me choca todo o ambiente que envolve os nosocômios : dor, tristeza, perda, impotência, cochichos, curiosidade, comentários. É claro que sei que muitas alegrias acontecem nestes locais (partos, recuperações, milagres), porém, mesmo assim, fica em mim a impressão de que os hospitais são locais onde a fragilidade da carne humana se revela, se impõe e reina soberana.

PS : O que é curioso é que semana que vem vou sofrer uma pequena cirurgia e vou ter que dormir pelo menos uma noite na "casa de recuperação". Estou me sentindo o peru na véspera do natal, he he ...

Monday, September 20, 2004

Consolo vazio...




“Aquele homem poderia ser o companheiro que lá no centro imune do meu desconsolo eu me acostumara a sentir sem esperar.”


Esta frase, retirada do último livro do João Gilberto Noll “(“Lorde”), aparece quando o personagem principal, um escritor gaúcho cujo nome não é revelado, é recebido, no aeroporto de Londres, pelo inglês que lhe havia oferecido uma bolsa de trabalho na Inglaterra. No momento da recepção, o escritor imagina rapidamente que seu anfitrião poderia ter sido o companheiro amoroso que ele buscou no passado e que agora sabe fazer parte da lista das impossíbilidades da sua vida.

Esta passagem me lembrou que a eterna e universal ação de busca e encontro da nossa metade emocional pode ser assumir diversas formas. Aqui, esta ação se apresenta de forma enviesada, torta, mas que, mesmo assim, traduz algum tipo de recompensa.

A frase diz que o escritor está imune dentro do seu desconsolo emocional. Esta afirmação evoca a idéia de criação de resistência contra algo que sabidamente faz mal. Resistência contra algo já experimentado, já tentado no passado e que resultou em dissabor. Agora o escritor está imune no seu isolamento, no seu silêncio. Isto significa que já não espera nada das relações; ele já teve sua cota de derrotas e agora está protegido contra qualquer aproximação. Porém, ao mesmo tempo mantém, dentro desta triste situação, uma sensação de presença vazia do companheiro querido, a qual, tem consciência, não se traduzirá jamais em realidade.

O escritor sabe que não há esperanças. O amigo virtual não se materializará, não o tocará jamais - viverá para sempre no impossível. Por isto ele mantém este amante idealizado confinado na carapaça dos seus sentimentos. Ele o mantém lá, a salvo de qualquer corrupção, de qualquer possibilidade de manchas. Seu amigo amado está salvo, preservado dentro de um "sentimento sem espera".

Um amor sonhado longe da putrefação do real e que resulta, de certa forma, em repouso ao seu coração.


Monday, September 13, 2004

Vá ao teatro, mas não me chame...



Teatro ! Teatro ! Quanta porcaria se cria em teu nome!

Agora aqui em Porto Alegre está acontecendo o Décimo Primeiro Festival Porto Alegre em Cena, um festival que se propõe a apresentar espetáculos teatrais nacionais e internacionais a preços populares.

Sou um apaixonado por teatro e, por isto, acompanho o festival há vários anos. Nas realizações deste evento já tive o prazer imenso de assistir peças extraordinárias encenadas com talento e competência. Mas é verdade que também já vi muita porcaria, muita droga que algum imbecil qualquer teve a pretensão de chamar de espetáculo e o displante de torná-lo público.

No Em Cena deste ano, que iniciou no final de semana passado, tive o desprazer de assitir, na seqüência, dois lixos teatrais. Um foi Otelo, de Shakespeare, encenado pelo grupo Folias d´Arte de São Paulo, e outro foi Hilda Hilst in Claustro -que apresentava um grupo de freiras ensandecidas-, encenado pelo grupo gaúcho Depósito de Teatro.

O que é engraçado, ou triste, é que estes dois espetáculos parecem ter sido originados da ignorante cartilha do teatro de vanguarda mais tosco - aquele tipo de teatro que mascara incompetência e falta de aptidão com uma proposta ridícula de transgressão e ousadia.

Esta cartilha se pauta pela obviedade, pela mesmice, mas parece que ainda tem seguidores. Ela diz que qualquer criador que queira chocar o público - e, às vezes, ser chamado de gênio- deve seguir as 11 lições seguintes :

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Lição 1 - Gritos e gemidos.

Os personagens devem gritar muuuiitoooo ou então gemer como se estivesem parindo. Devem emitir berros ensurdecedores, devem uivar, ladrar, relinchar. Emitir o texto claramente? Fazer com que o público entenda as falas? Ué? Porque?.. o que importa é a densidade dos personagens.

Otelo : a peça têm mais de três horas de duração. Deu pra entender o que os atores falavam, no máximo, uns 30 minutos.

Hilda Hilst : consegui entender uns 30% da peça.
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Lição 2 - Nudez.

Isto é imprescindível em qualquer peça moderna de vanguarda. Atores e atrizes devem aparecer nús para provar que não têm pudores. O que importa é a arte, a proposta do trabalho.

Otelo : homens nús com capa de chuva transparente, homens de fio dental, mulheres nuas se roçando nas paredes, entre outros

Hilda Hilst : seios, vaginas e nudez completa à vontade.
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Lição 3 - Sexo.

Muito sexo deve ser jogado na cara do recatado público.

Otelo : masturbação e roça-roça

Hilda Hilst : garota aprendendo fazer sexo oral, freiras lésbicas em pleno ato.
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Lição 4 - Palavrão.

Muita boca suja, muito baixo calão, aos berros na frente da audiência.

Otelo : Shakespeare realmente não merecia isto. Foi de arrebentar os nervos ver os personagens falarem tantas obcenidades.

Hilda Hilst : as freiras deveriam lavar a boca com sabão.
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Lição 5 - Cristianismo.

Para mostrar que são transgressores mesmo, estes espetáculos devem associar algum tipo de baixaria à nossa inocente moral cristã.

Otelo : não apresentou algo neste sentido, pelo que me lembro.

Hilda Hilst : muita cruz e muito Jesus associados à podridões e baixarias generalizadas.
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Lição 6 - Sangue.

De preferência espirrado pela boca. É para chocar, ainda não entendeu?

Otelo : personagem com o sexo decepado, tortura com afogamento num balde de alumínio. É óbvio que Otelo tem sangue, guerras e assassinatos, mas deram um jeito de inserir cenas sanguinolentas totalmente gratuitas.

Hilda Hilst : freira se auto-mutilando com uma tesoura, freira chicoteando outras.
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Lição 7 - Necessidades fisiológicas.

Escatologia é básica.

Otelo : personagem defecando

Hilda Hilst : freiras urinando.
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Lição 8 - Outros fluídos.

Pra mostrar que os atores se entregam mesmo à arte.

Otelo : vômito e baba bovina em vários momentos.

Hilda Hilst : vômito e baba bovina em vários momentos.
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Lição 9 - Drogas.

Dependência química dá ibope.

Otelo : personagem cheirando cocaína aos montes. Álcool também.

Hilda Hilst : nada neste sentido, mas as freiras comiam batatas como loucas (e se babavam, é claro).
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Lição 10 - Adeus palco.

Deve ser quebrada a quarta parede. O público deve ser inserido na cena; é o chamado teatro interativo.

Otelo : as arquibancadas se moviam, aproximando e afastando o público das cenas.

Hilda Hilst : a peça foi encenada no pátio de um hospital psiquiátrico. O público não sabia para que lado olhar para acompanhar a ação (ou falta de).
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Lição 11 - Mensagem.

É claro que um espetáculo destes é bem metafórico, bem simbolista. Assim, cabe ao público expremer seu próprio cérebro para captar a proposta, a mensagem, a revelação nas entrelinhas da peça.

Otelo : confesso minha ignorância, não entendi nada. Principalmente a abertura e fechamento da peça com a canção New York, New York

Hilda Hilst : confesso minha ignorância, não entendi nada. Principalmente a cena das três irmãs siamesas grudadas pela vagina.
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E o público?

Me desculpem mas também não entendo.

No Otelo teve alucinados aplaudindo em pé e gritando "bravo".

No Hilda Hilst, pelo menos as atrizes não ficaram para esperar a reação do público - cada uma se fechou num quartinho e por lá ficou-, mas mesmo assim duas pessoas aplaudiram o cenário vazio.

Acho que eles entenderam a arte...
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Ainda bem que o Em Cena ainda não terminou. Espero ver coisas boas nos próximos dias...


Thursday, September 09, 2004

"Entressentir"



"O entressentir-se, entre as pessoas, vem de regra com exageros, erro, e retardo."

Esta frase de Guimarães Rosa revela três enganos que permeiam o mundo das nossas relações e que podem ser responsáveis por vários dos equívocos de percepção que experimentamos na nossa vivência em comum. E o que é pior -e muito natural-, é que estes equívocos podem nos levar, paulatinamente, a adotarmos posições de atração, aversão ou indiferença em relação aos outros - às vezes sem que os próprios saibam.

O exagero impossibilita um olhar tranquilo. Podemos gostar demais, desgostar demais, admirar demais, amar demais, odiar demais qualquer pessoa - às vezes sem perceber que do outro lado existe alguém não sincronizado com o papel de super-qualquer-coisa que lhe designamos (desde super-inimigo a super-amor). Depois, quando alguma coisa acontece e percebemos que o outro é comum, com defeitos e qualidades como nós, podemos nos sentir enganados; ou então vamos constatar o desgaste de energia que tivemos para criar e manter o grande rótulo vazio com o qual coroamos o objeto do nosso exagero.

O erro, o mal-entendido, é muito comum. Pode ser pequeno ou grande, e pode ser bem ou mal esclarecido. De qualquer forma, a dissolução de qualquer desacerto, não interessando seu tamanho, vai depender da disposição e da capacidade de diálogo dos envolvidos. Caso não ocorra um enfrentamento para a busca do entendimento, o erro pode tornar-se um ovo de serpente, um feto de dragão com a possibilidade de nascer, crescer e engolir a todos.

Os retardos, os atrasos, impedem que nossa compreensão, nossa visão correta, aconteça antes que algum estrago já tenha manchado a relação. Felizmente podemos pensar em "antes tarde do que nunca" e partirmos à procura do diálogo, do esclarecimento e da reconciliação. Mas, também, às vezes, a percepção do engano acontece tão tarde que a possibilidade de busca das reconexões torna-se sinônimo de "nunca". Isto pode ocorrer diante de situações irreversíveis como morte, mágoas extremas ou separações irreconciliáveis.

Certamente o universo de ilusões nas relações não se resume a estas três situações. Porém Guimarães, com sua genialidade, consegue, com esta simples frase, nos fazer refletir sobre algumas das mais perniciosas armadilhas a que estamos expostos

A questão é sabermos o quanto estamos alertas para que tais ciladas não perturbem nossos vínculos; é sabermos o quanto estamos dispostos a permanecermos cuidadosos a fim de evitar que qualquer tipo de engano não macule nosso "entressentir". Isto é muito difícil.

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Esta frase foi tirada do conto A Benfazeja, publicado no livro Primeiras Estórias.

Este conto me fez chorar.

Tuesday, September 07, 2004

Encaixe carne

forno pele,
forno pêlo,
aberto poro,
encaixe carne.

sumo muco,
sufôco pulso,
posse-entrega,
espasmo e jorro...