
Há alguns dias me vi numa situação inesperada de saia-justa. Estava eu em um
cinema aguardando para entrar na sala de projeção quando me vi frente a frente com uma colega da academia de ginástica que frequento, famosa por seu estrelismo e culto ao corpo.
Nas aulas de Power Jump e Jump Fit trocamos algumas palavras mas não temos intimidade e muito menos amizade, pois –confesso meu preconceito- a acho um tanto ôca. Pois bem, nos cumprimentamos e ela fez um convite para sentar-me junto a ela e uma amiga.
Eu, sendo educado, aceitei. Mas,ao mesmo tempo, surgiu em mim um certo pânico. Pensei : " o que vou conversar?... que tipo de assunto discutiremos até que a sessão comece?". Confesso que não achei resposta. Assim, em meio a uma certa angústia, num momento de indecisão, solicitei licença e fui ao banheiro. Lá, enquanto lavava as mãos, fez-se a luz : "regime ! malhação!!”.. "é isto!!"... "vou falar sobre cuidados com o corpo!!".
Assim, tranquilo por ter achado o caminho do link temporário, voltei para junto delas. Como faltavam alguns minutos para o inicio do filme, fomos tomar um café. Sentamos e logo puxei o assunto : "e aí como está o regime? ... nas aulas percebo que vc está ótima !" ... Pronto! Foi a deixa! O santo baixou!
Dali para diante tudo rolou tranquilo. Ouvi um tratado completo sobre alimentação, remédios emagrecedores, lipoaspiração, lipoescultura, botox, dietas, melhores tênis, melhores roupas, freqüencia, intensidade, repetições, etc. Fiquei em silêncio durante todo o tempo dos expressos. Eventualmente comentava alguma coisa do tipo "ah, é?", .. "ãh,ãh",... "que bom", .. "veja só".
Logo chegou o horario da sessão, assistimos ao filme e no final nos despedimos com beijinhos. Tudo rápido e indolor.
Depois, voltando para casa, me lembrei de Gustavo Corção em seu "Lições de Abismo" quando ele fala sobre frivolidade, sobre a futilidade, quando ele fala sobre os autômatos, os robôs humanos cheios de botões pré-programados os quais podemos acionar ao nosso bel prazer. Percebi que foi o que fiz com a tal colega. Sabendo, sendo conhecedor da sua programação "sou fanática por regime" , foi só acionar o botão correspondente para que ela agisse de acordo com o formatado, de acordo com o programado.
Agi certo ou errado? .. não tenho o juízo.
Com a palavra Corção ("Lições de Abismo"), onde o narrador relata ao amigo Miguel uma conversa que teve com uma outra amiga (D. Alice) sobre seus problemas com a esposa (Eunice) :
"D. Alice puxou conversa sobre Eunice... Foi uma conversa penosíssima, em que me defendi, para não dizer a milésima parte de nosso segredo. D. Alice, com muita delicadeza , perseguiu-me, cercou-me, querendo convencer-me que a maior falta é a minha, porque não procurei adaptar-me. E terminou a sua defesa dizendo que Eunice "só é um pouco fútil".
Eis aí, Miguel, o que d. Alice acha pouco (a futilidade). E você? Sabe você o que é isso, qual é a realidade dessa monstruosa deformação que merece sorrisos de complacência e rápido perdão?....
Não ignoro que tenho contra mim o quase unânime consenso. A moça bonita, quando sorri à toa, quando faz trejeitos de faceirice e fala sem propósito, parece uma flor da humanidade, um espetáculo estimulante, uma fonte de alegria. Na verdade, porém, a futilidade é uma coisa lúgubre. Não sei se você já viu essas chagas medonhas que roem o nariz, que abrem um buraco no rosto. Vistas sem levar em conta o rosto, o nariz, a boca, a expressão humana enfim, essas chagas têm um luxo de cores a que não recusaríamos uma certa beleza exótica. Postas no homem são um horror. Pois assim é a frivolidade.
O que existe na frivolidade é mais doença do que saúde; mais fixação do que mobilidade; mais morte do que vida. Eu disse fixação. Explico-me melhor : todos nós sofremos na vida certos golpes psicológicos, um susto, uma surpresa maravilhada, uma descoberta dolorosa, que deixam em nós um resíduo. Ora, tudo em nossa vida vai depender da possibilidade de assimiliação desses resíduos. Se conseguirmos dissolvê-los na substância de nossa pessoa, então esses sinais de nossas experiências serão fecundos. Haverá uma experiência propriamente humana, um lucro. Se eu transformar em sangue, em alma, as pedras de meu caminho, terei doravante antenas sensíveis que antes não possuía, serei capaz de intuições que antes me faltavam. Farei versos, descobrirei novos planetas, ou terei simplesmente um harmonioso equilíbrio que me permitirá a dilatação da vida.
O frívolo, ao contrário, é aquele em que o resíduo das experiências encaroçou. Tem pontos sensíveis, botões, teclas de comando, e são movidos de fora para dentro, como os mecanismos. Aperta-se um botão e ele diz "bom dia" encarquilhando os músculos da face. Aperta-se outro botão e ele faz um discurso, se é um ministro, ou atira os cabelos para trás, se é uma moça de vinte e cinco anos...
Conheci uma pobre moça que passou toda a vida e muitos maus pedaços escorada num leit-motiv que viera provavelmente da adolescência. Alguém, certo dia, em certa conjunção favorável de astros, dissera : "Que bom gênio tem Fabrícia!" e desse dia em diante, com a constância de uma vestal, Fabrícia guardara acesa essa divisa. Fez questão de ser fiel a esse compromisso de acaso, conseguindo mesmo um certas situações mais difíceis, um verdadeiro heroísmo na defesa do bom humor sistemático e de empréstimo. Lembro-me que fui vê-la no dia em que o filho morreu atropelado. Chorava como toda boa mãe, mas creio não me enganar muito se disser que vi, por detrás das lágrimas honestas, um clarão que parecia telegrafar-me: "A vida é assim; vou reagir, e vocês verão que bom gênio tem Fabricia."
.....
Em Eunice o painel de comando é formado quase todo pelos desejos contrariados de sua adolescência pobre. Uma de suas idéias-mestras é a de ser uma pessoa decidida; outra é a de possuir uma natural distinção....E além dessas, uma infinidade de outras menores, formadas por coisas, palavras, objetos, que dentro dela ficaram como entraram e continuam a funcionar de modo a devolver as reações que as originaram. Apalpando-os, anotando-os, eu descobri um por um os botões que fazem rir ou chorar a minha boneca de corda..."