Hino do Blog - Clique para ouvir

Hino do Blog : " ...e todas as vozes da minha cabeça, agora ... juntas. Não pára não - até o chão - elas estão descontroladas..."
Clique para ouvir

Tuesday, September 27, 2005

Somos todos palhaços uns dos outros

Image hosted by Photobucket.com

Quando rimos de alguém temos consciência de que outros riem de nós? Acredito que não. Nosso orgulho, nossa auto-imagem só nos permite ver o ridiculo nos outros..

Na obra-prima "Lições de Abismo", Gustavo Corção escreve :

" O homem é ridículo. Sim, ridículo....Creio ter descoberto a causa desse ridículo : é o equívoco, o erro prático, o engano colossal que pesa sobre a condição humana. ..... No circo a gente se ri porque certos indivíduos são encarregados de errar de modo intencional, calculado, profissional, mas com um imprevisto que nos oculte momentaneamente a intenção...

O cômico, no circo, é o hábil profissional do apupo estilizado, é o personagem que vai ao encontro da vaia, da reprovação social, e a transforma em aplausos da sua arte. No circo, o palhaço descarrega o nosso permanente e opressivo desejo de censurar, de corrigir, de apostrofar, de denunciar. De vaiar...

Na vida,o que mais se vê é o erro do outro. Cada indivíduo é um espetáculo, e cada grupo uma platéia. Ás vezes se torna tão nítido que isola, como ao centro de um picadeiro improvisado, o involuntário artista. Assim é, por exemplo, o caso do pobre indivídio que bebe a água com rodela de limão que o garçom lhe traz para o ritual limpeza das pontas dos dedos. Em si mesmo, o ato não é absurdo, porque a água tanto serve para beber como para lavar; e até porque a rodela de limão sugere mais depressa a idéia de bebida do que a idéia de ablução. O ridículo reside no fato de o sujeito se enganar sobre a convenção, sobre o papel que lhe coube naquela cena.

O cômico....supõe o social, isto é, supõe a possibilidade de imaginar um picadeiro para o personagem que se singulariza e uma arquibancada para os seus juízes, que pronunciam às gargalhadas o seu curioso veredicto.

Quem será então que se ri desse generalizado espetáculo que envolve três bilhões de palhaços? Às vezes nós conseguimos a ilusão de um camarote confortável que nos permita rir dos outros. Mas de onde vem esse eco, essa ressonância de um riso muito mais poderoso do que o meu? Quem esta aí? Quem esta por aí, nessas cadeiras vazias, a rir-se de mim?

O mundo é um circo em que a arena e as arquibancadas são relativas. Três bilhões de atores mal ensaiados passam a vida a divertir-se um apontando no outro o rabo de papel. Ou a trave no olho”

Friday, September 23, 2005

Teatro - "Desassossego"

Image hosted by Photobucket.com

Na contracapa do “Livro do Desassossego”, de Fernando Pessoa, o pesquisador Richard Zenith registra os seguintes comentários a respeito da obra do grande poeta português : “ O que temos aqui não é um livro mas sua subversão e negação”; ... este é ”o livro em potência, o livro em plena ruína, o livro-sonho, o livro-desespero, o antilivro, além de qualquer literatura. O que temos nestas páginas é o gênio de Pessoa no seu auge”.... Estas palavras definem com precisão este fascinante petardo literário que pode ser definido –de uma forma simplista- como um diário íntimo de um pequeno escriturário português de nome Bernardo Soares. O diário é composto de comentários, reflexões e devaneios sobre diversos temas : vida, morte, estados da alma, estados psíquicos, exílio espiritual, fé, paixão, moral, conhecimento, desejo, sonhos, ciência, realidade, irrealidade. Como um peregrino da vida, Bernardo sofre e registra a dor, o absurdo e a angústia de ser.

Marilena Ansaldi, a primeira bailarina brasileira a integrar o Balet Bolshoi, debruçou-se sobre esta obra-prima para compor o espetáculo “Desassossego” que marca sua volta aos palcos brasileiros após 12 anos de ausência. A peça foi montada após a artista ter passado por um processo de recuperação de crises de pânico e depressão e comemora os 50 anos de carreira de Marilena. Também esta montagem celebra os 30 anos de “Isso ou Aquilo” espetáculo que a diva lançou em 1975 e que marcou um momento de efetiva renovação na dança brasileira.

Disto isto, é claro que a união destes dois grandes nomes da arte imediatamente sugere um espetáculo primoroso. Fui conferir “Desassossego”, nesta edição do Porto Alegre em Cena, cheio de expectativas.

As luzes se apagam. As cortinas se abrem e um som de metálico e incomodativo enche o teatro. Aos poucos diviza-se um vulto negro, encarnado por Marilena, segurando um grande guarda-chuva e que se movimenta vagarosamento no mesmo lugar sobre um mecanismo que produz aquele som quebrado. Lentamente este vulto-criatura se agacha deformando sua imagem. O efeito plástico é belíssimo. Com movimentos sutis a artista desce do mecanismo, deixa o guarda-chuva e inicia o texto. A partir daí começamos a acompanhar as dores existencias, as vicissitudes da alma daquele(a) personagem limítrofe.

A promessa é grande, porém, infelizmente, logo surgem alguns problemas que permanecem durante quase toda a duração do espetáculo. Primeiro, a potência vocal da atriz não é suficiente para preencher todo o teatro; em vários momentos é impossível ouvir o que está sendo dito no palco. Também a maioria do texto é expresso de uma forma excessivamente dramática (quase no limite do melodrama). Os fragmentos da obra de Pessoa são soterrados sob uma mascara de tragédia exagerada, que mais causa estranheza do que arrebatamento. As frases perdem a sutileza, a agudez, presas numa moldura de dor inútil (vejo Fernando Pessoa muito mais fino, mais impalpável do que "over"). Isto sem falar na lentidão quase que exasperante com que as palavras são proferidas. Os movimentos da atriz, também vagarosos, auxiliam para acentuar o clima de morosidade da montagem. E assim a peça prossegue num ritmo arrastado de tédio geral.

Para compensar, tenho que admitir, surgem cenas belíssimas e plasticamente muito bem resolvidas com a diva mostrando perfeito dominio corporal, o que faz sua figura metamorfosear-se, difundir-se em formas sobre-humanas. Para isto contribui a iluminação perfeita que sublinha toda a encenação. Também a breve sequência de dança comprova estarmos diante de uma grande artista que sem dúvida merece todo o reconhecimento e todo mérito que lhe são atribuídos.

Porém, infelizmente, o resultado do espetáculo é negativo. Ficou o sentimento de expectativas frustradas. Como não podia deixar de ser, no final, mais uma vez a platéia porto-alegrense ovacinou. Eu aplaudi, é claro... mas sentado.

Monday, September 19, 2005

Primeiro Seminário de Lideranças de Grupos Cristãos GLTTB do Cone Sul.

Image hosted by Photobucket.com
Abertura do Seminario

Realizou-se no final de semana passado, na cidade de São Leopoldo – RS, o Primeiro Seminário de Lideranças de Grupos Cristãos GLTTB (Gays, Lésbicas, Travestis, Transgêneros e Bissexuais) do Cone Sul. A proposta do evento foi reunir lideranças cristãs do Brasil e do exterior comprometidas em criar e promover grupos religiosos nos quais os participantes podem praticar sua fé livres de preconceitos quanto a sua sexualidade ou outras características individuais.. Com representantes do Brasil, Uruguai, Argentina, EUA, Chile e outros, o encontro proporcionou a troca de experiências entre os guias e definiu ações voltadas para a continuidade da construção e divulgação de movimentos religiosos inclusivos.


No discurso de abertura, o teólogo Andre Musskopf (autor dos livros "Uma brecha no armário -Proposta para uma Teologia Gay-" e "Talar Rosa -Homossexuais e o Ministério da Igreja"-) falou das dificuldades, da lutas e da coragem de homens e mulheres que, mesmo sofrendo discriminações e perseguições dentro das denonimações cristãs tradicionais em virtude da sua orientação sexual, não desistem da sua religiosidade e de expressar e vivenciar suas crenças.


Citando sua própria experiência como exemplo dentro da EST (Escola Superior de Teologia – São Leopoldo/RS), André lembrou das dificuldades pelas quais passou ao ver negada, ao final do curso, sua ordenação como pastor Luterano. Esta situação fez com que ele assumisse o desafio de buscar seus direitos como cidadão e como cristão dentro e fora da IECLB (Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil). Este exemplo de luta é extensivo a todos os demais líderes participantes do evento, com suas trajetórias de vida mais ou menos parecidas, os quais acabaram por construir reputações de vanguarda dentro dos movimentos religiosos nacionais e internacionais.


Neste seminário, eu, meu companheiro e uma grande amiga (Marinês) tivemos a oportunidade de conversar com diversos líderes e conhecer seus caminhos e atividades (Igreja Acalanto, Igreja Comunitária Metropolitana, Catolicos, Presbiterianos, Metodistas, Luteranos, etc). Foi enriquecedor ter contato com a diversidade de idéias e conhecer os trabalhos desenvolvidos por estes homens e mulheres que mantêm suas causas mesmo contra todos os obstáculos enfrentados.


No fim de tudo fica a certeza de que, apesar das igrejas tradicionais ainda serem fontes de muita dor e sofrimento para os GLTTB´s, a fé, a coragem e a esperança na construção de uma nova realidade persistem no coração e mentes de pessoas especiais que laboram para criar e manter espaços de reflexão espiritual onde a inclusão humana é celebrada e onde a chama do verdadeiro amor transforma em cinzas o preconceito e a discriminação.


Image hosted by Photobucket.com
Andre Musskopf



Image hosted by Photobucket.com
Eu, Lu e Pastor Gelson (Igreja ICM Brasil)

Image hosted by Photobucket.com
Eu, Lu e Andre (lançamento dos livros)

Image hosted by Photobucket.com
Eu, Marines, Dilmar e Andre

Thursday, September 15, 2005

Comendo a ausente

Image hosted by Photobucket.com

Hoje fui almoçar num restaurante vegetariano. Um daqueles restaurantes pequenos e cheios de gente, sabe? Aquele tipo de local onde você é obrigado a sentar ombro a ombro com estranhos. Mas tudo bem, a comida é boa e o preço acessível. Pois bem, lá estava eu sozinho numa mesa quando sentaram ao lado três jovens e belas garotas. Ficamos muito próximos. Eu ali praticamente sentado na mesma mesa que elas.

Bem, assim tão juntos foi inevitável que eu começasse a ouvir suas conversas. De início tudo muito normal, algumas coisas familiares, televisão e coisas do gênero, mas sem muito entusiasmo. De repente uma delas começou a falar de uma pessoa que logo identifiquei que seria uma colega de serviço. Pequenas críticas quanto a postura profissional e comportamento surgiram sem muito alarde. Porém, logo as demais começaram a participar e a incentivar a conversa acrescentando outros comentários e impressões. O que era a princípio uma pequena ponderação (tive esta impressão) logo evoluiu para uma crítica generalizada. Uma fala após a outra acrescentava mais uma pitada de negatividade na imagem da fulana.

O curioso é que a medida em que a pintura do quadro da dor evoluia as garotas ficavam mais entusiasmadas, mais próximas, mais cúmplices. Não sei se era motivada pela delicia da comida mas foi lindo de ver a conexão que brotou entre elas (uma coisa tipo a Festa de Babete). Uma união invejável baseada no julgamento da pobre colega. Assim, entre uma proteína de soja, um pastel de goiabada ou um suflê de cenoura, entre uma garfada de feijão e outra elas iam devorando junto a ausente. O paladar, a saliva, os dentes delas em conjunto iam destroçando e deglutindo a inapta, a incapaz.

Elas riam, os olhos brilhavam. As lindas faces começaram a corar, os lábios abriam fáceis em alegria. A cada comentário de uma as demais assentiam, fazendo um ar grave de reconhecimento e entendimento sobre o que estava sendo dito ou respondiam com um sorriso tipo “eu sei, eu sei”.Confesso que fiquei com inveja daquela união tão explícita, tão amiga, tão sólida que nasceu assim tão espontaneamente. Um belo grupo coeso, em harmonia no ritual de dissecação.

De repente, não sei, talvez por causa da berinjela mal temperada, elas mudaram o discurso, amenizaram dizendo coisas do tipo “ela é boa pessoa...” ou “ela tem seu valor...”. Mas isto não demorou muito. Logo as três foram para a sobremesa e o doce sabor das tortas novamente ativou o fel. A crucificada deve ter ficado com as orelhas em brasa.

O julgamento sumário continou enquanto elas palitavam os dentes e retocavam o batom –tudo muito civilizado. Depois, bem nutridas e satisfeitas levantaram e encaminharam-se para a fila do pagamento. De longe tive a impressão de que o assunto continuava. Pagaram e saíram...

Fiquei só, pensei um pouco e cheguei a conclusão que no final das contas a incompetente, a inábil da colega acabou provando que tem seu valor pois proporcionou um belo momento de congraçamento, um momento de união, um encontro de almas entre as três belas garotas que sentaram hoje ao meu lado.

Tuesday, September 13, 2005

Jardim de Cimento

Image hosted by Photobucket.com

Ian McEwan, um dos maiores autores britânicos da atualidade, é um escritor que navega perigosamente nos limites do doentio do ser humano. Ele mesmo diz : "Quando comecei a escrever, aos 20 anos, queria chocar, escapar da cinzenta e provinciana literatura inglesa e ir atrás de William Burroughs, Philip Roth, John Updike e Henry Miller, que pareciam estar em busca de algo mais ambicioso, mais arriscado."

Acabei de ler agora “Jardim de Cimento” um livro pequeno (132 páginas) que confirma a fama do autor. A obra, quase gótica, conta a história de quatro irmãos órfãos (dois casais) que perdem o pai e depois a mãe (cujo corpo encerram no porão). Ao se verem sozinhas, as crianças entram em viagens existenciais individualizadas onde a inocência e a perversidade se confundem. Entre eles estabelece-se um jogo complexo, um arremedo de arranjo de necessidade da continuidade da vida que acontece num cenário de absoluta liberdade de ação onde não existem figuras de autoridade. Daí, sem ninguém para guiá-los, os irmãos se desagregam e se integram, se desenlaçam e se apóiam numa mistura de atração e repulsão. É estranho, triste e sedutor acompanhar estas almas infantis abarcadas pela escuridão, para elas incompreensível. Presos à imaturidade os comportamentos se deformam e os irmãos enredam-se cada vez mais num caminho fadado ao abismo.

No fim de tudo, masturbação, mentiras, apatia, loucura,inocência, incesto, pecado e redenção são acrescentados ao caldeirão onde as crianças queimam e onde encontram sua derrota....Ou quem sabe sua vitória?

Monday, September 12, 2005

Porto Alegre em Cena - Duas X Pinter

Image hosted by Photobucket.com

Começou no final de semana passado o Festival de Teatro Porto Alegre em Cena, já considerado o maior do Brasil. Fomos ontem assistir a primeira das várias peças que programamos para esta edição. Segue comentário

Duas X Pinter :

Autor : Harold Pinter
Direção : Italo Rossi

Uma peça dividida em dois textos. O primeiro "Cinzas e Cinzas" mostra um casal (Ester Jablonski e Marcelo Escorel) numa discussão sobre um pretenso ex-amante dela. De forma absolutamente não linear o texto escorrega várias vezes para assuntos ou comentários paralelos que de certa forma não têm nada a ver com o mote principal. Assim, a figura e as ações do amante são reveladas em fragmentos de recordações o que mais provoca curiosidade (mas não muita) do que certezas. Ele era um assassino de massas? Tentou realmente matar a personagem? Um sádico? As respostas não são dadas de modo explicito; são tangenciadas. A mulher desdobra-se em um exercício de omissão e necessidade de confissão. O marido (ou namorado, sei lá), tenta cercá-la com várias perguntas e ela escapa. Porém ele mesmo divaga em vários momentos e se perde. Volta, retoma a linha do interrogatório, insiste. No final, revela-se, de forma solta e inconsequente, um cenário de tragédia que pode ou não ser real. Minha avaliação é de que a obra pode ser vista como "instigante" (para uma minoria de intelectuais bem cerebrais) ou "entediante, incompreensível e chata" (para o resto de nós mortais).

O segundo texto, "Uma Espécie de Alasca" (inspirado pelo livro Awakenings, que também originou o filme Tempo de despertar, estrelado por Robin Williams e Robert De Niro), mostra o despertar de uma mulher após 29 anos de sono profundo. Joanna Fomm (em grande forma) faz esta mulher-menina perplexa diante da situação. Questiona se está viva ou morta, dormindo ou sonhando. Acredita ainda ter 15 anos, comporta-se como uma garota, lembra de si mesma como uma garota. Porém, a partir das conversas com o médico e com a irmã, aos poucos vai incorporando a realidade desperta. O interessante é perceber que esta realidade a fascina e assusta. Se por um lado ela tem curiosidade pelo atual, sobre o que aconteceu consigo mesma e com a família, ao mesmo tempo percebe-se seu medo em enfrentar um mundo totalmente diferente. O texto, muito mais acessível que o primeiro, permite algumas risadas o que sem dúvida agrada o público. Para quem viu o filme sabe como a peça termina, só que aqui a personagem volta a dormir por vontade própria..

Para mim o saldo final é regular. Não achei nada excepcional e com certeza não aplaudi em pé (o que todo o resto dos presentes fez).

Saturday, September 10, 2005

Gays em Cristo

Navegando em alguns grupos de discussões sobre religião ocidental mais uma vez me deparo com a irrelevante e estéril discussão “Gays e cristandade – devemos aceitar ou condenar?”. Como um masoquista, que já sabe o que o espera, começo a ler as intermináveis considerações, réplicas, tréplicas, xingamentos, mensagens conciliatórias, mensagens de “esclarecimentos”, mensagens “divinas”, desaforos e assim por diante, o que acaba redundando num nada generalizado.

De qualquer forma, o curioso é que nestes forums nota-se um esforço, entre os participantes que condenam o homossexualismo, de provar aos que pensam diferente que a verdade (com V) é prerrogativa deles. Para isto se apegam de forma asfixiante ou às doutrinas da sua profissão religiosa ou às escrituras bíblicas, demonstrando mais uma vez que é muito mais fácil recacarejar, de forma absolutamente superficial, pensamentos, dogmas e ensinamentos pré-formatados (e deglutidos como manjares), do que realizar um esforço próprio no sentido de questionar o que é imposto como correto. Mostram como foram bem amestrados.

Sei que a preguiça é inerente ao ser humano, tanto a física quanto a mental. É ótimo não termos que fazer ou pensar muito. Pra que? Se podemos nos preocupar pouco, ou fazer pouco, porque nos incomodar em perguntar ou procurar saber mais? Porque levantarmos da cama se desde que nascemos somos criados dentro de um mundo pronto onde os outros vão nos dizer o que está certo ou errado e a nós só cabe aceitar? Por exemplo : quando nos dizem que Deus condena os homossexuais, cabe a nós questionar? Ora se DEUS deu a procuração lavrada e assinada para os doutores da lei afirmarem isto, o que resta a nós pobres mortais?... Sim, sim, os doutores têm esta procuração. Sim, aquela que todo mundo sabe... Sim, a Bíblia..... Sim, este mesmo : o livro que brandem na nossa frente com uma baba bovina (como diria Nelson Rodrigues) quando querem provar nossa escuridão mental. Sim, a obra maior! A única luz divina da humanidade. O livro cujas páginas registram as únicas verdades admitíveis para qualquer ser racional deste planeta...... Não, não, o Alcorão, Bhagavad Gita, Vedas, e outras literaturas das outras grandes religiões não servem para nada..... São textos menores de hereges perdidos nas trevas e na ignorância. O único livro a encerrar toda a necessidade moral e espiritual do homem pertence aos cristãos...... Parênteses. Disto surge a idéia : que bom seria se todos fôssemos cristãos, não? Se pudéssemos extirpar o câncer que os pecadores representam à humanidade, e deixarmos os cristãos herdarem a terra, com certeza o mundo seria um paraíso, um lugar de amor, conciliação, paz e harmonia, não é mesmo?... Mas peraí, a cristandade não existe há séculos? A doutrina e os ensinamentos não existem há séculos? Sim, mas o que se vê estudando este histórico são, principalmente, cenários de intolerância, perseguições, guerras, tortura e morte. Então...(melhor deixar isto prá lá) . Fecha parênteses.

Mas voltando à Bíblia : é interessante perceber que as pessoas que têm o conteúdo do livro sagrado como única argumentação não possuem a mínima cultura que as esclareça como tal coletânea foi formada, sob quais regras foi composta, que interesses refletiu. E mais, falta cultura e conhecimento também no que se refere às próprias origens do cristianismo. Por exemplo: de onde sairam muitas das parábolas, dos ritos, das histórias e verdades reproduzidas hoje em qualquer templo de esquina? Com certeza estas pessoas teriam um baque enorme ao saber que muito do que é colocado como verdades cristãs nada mais são do que cópias quase que literais de religiões e tradições mais antigas (vide a própria história do nascimento milagroso, reis magos e outras). Mas saber disto, ter este conhecimento, ter esta cultura histórica, invalida o conteúdo da Bíblia? O livro passa a ser um festival de mentiras inúteis e estéreis? Perde o caráter sagrado? Para mim não, apesar de, quem sabe, ter deixado esta impressão ha pouco. Para mim, a Bíblia mantém o caráter de livro santo assim como qualquer outra obra da literatura universal que busque a reconexão do homem com o Divino - O que não pode ser aceito é que qualquer excerto destas obras antigas seja usado como prova incontestável de alguma pretensa verdade universal que pregue a discriminação e a intolerância entre os homens-

Reafirmo : a Biblia e as obras sagradas de todas as religiões e filosofias estão disponíveis para auxiliar aqueles que buscam trilhar o caminho espiritual. São fontes de conhecimento, inspiração e meditação mas não encerram em si o início, meio e fim da verdadeira transcendência,. Por isto qualquer fato histórico ou argumentação que queira desmascarar ou ratificar a Bíblia (ou qualquer outro livro santo); que queira provar que um ponto de vista é o único certo (muitas vezes baseado em textos das próprias escrituras), ou que uma religião é mais correta do que outra, se torna irrelevante quando atingimos a verdadeira religiosidade.

Falo daquela religiosidade interior desassociada de qualquer denominação, daquela religiosidade maior que une coração e mente. Que integra. Religiosidade de pensamento isento de qualquer gesso, onde o espírito manifesta o “religare” livre de conceitos ou preconceitos. Religiosidade de acolhimento, onde a convivência, ratificação e celebração das diferenças acontecem. Onde o julgar e a condenação (explícita, parcial ou velada) inexistem. Que inclui verdadeiramente o outro como ele é. A religiosidade do respeito consigo próprio e com demais, onde cada um é incensado no seu individual, na sua felicidade de ser uno, de ser íntegro (independente da sua sexualidade ou qualquer outra característica)....

O encontro com este “religare”, além das aparências e das convenções sociais, é um processo doloroso pois prevê sairmos no nosso estupor, da nossa zona de conforto pré-formatada e questionarmos, quebrarmos paradigmas, mexermos com o que nos foi servido, destruirmos “muros de verdades”. É doloroso, mas afirmo que o que resulta é uma reconstrução moral e espiritual baseada numa tranquilidade, numa serenidade de conexão com o superior que proporciona uma visão maior e onde discussões como estas passam a ser apenas objetos de contemplação e lamentação.

Thursday, October 14, 2004

Escolha apenas uma...



Se você tivesse que escolher uma única lembrança de toda sua vida, qual seria?

Esta questão curiosa e instigante é colocada no filme "Depois da Vida", do diretor japonês Hirozaku Kore-eda, no qual, como o titulo sugere, a ação transcorre no além.

A história mostra o trabalho em uma espécie de casa de passagem onde os recém-mortos devem passar uma semana antes de partirem definitivamente para a vida eterna. Nesta semana, ajudados por alguns funcionários, cada um deles deverá escolher uma única lembrança de toda a sua vida, a qual definirá o único sentimento que carregarão consigo para sempre.

Eis o que alguns dos personagens escolhem :

Uma garota primeiro escolhe a recordação de uma tarde na Disneylandia mas depois muda para o cheiro do colo da sua mãe.

Um senhor escolhe reviver a sensação da sua infância quando ia para a escola de bonde e sentia a brisa fresca do ar no seu rosto.

Outro prefere a sensação de voar entre as nuvens.

Uma senhora escolhe reviver a emoção de, pequena, dançar para a alegria do seu amado irmão.

Um jovem questiona se não pode escolher um sonho ao invés de uma lembrança real.

e assim por diante..

Só por esta idéia simples e direta o filme já é interessante. Mas a obra tem mais, por exemplo : os tais funcionários da "instituição" são almas antigas que, na época do seu desencarne, não conseguiram escolher uma única lembrança e por isto ficaram presas naquela espécie de limbo auxiliando os demais que por ali passam. Isto, se por um lado significa um aprisionamento, por outro -como define um deles- representa uma liberdade de continuar a se lembrar da sua própria existência ou então de manter viva a memória dos que avançam para o próximo estágio.

Outra maravilha do filme é a história de um dos recém chegados -o velho Sr. Watanabe- que não consegue se lembrar de nada relevante na sua vida. Ele julga ter tido uma existência normal, medíocre e insípida. Na instituição quem o atende é o jovem Yusuke que, para ajudá-lo, providencia várias fitas de vídeo que mostram o filme completo da sua vida. O que Yusuke espera é que , ao rever sua biografia, o ancião possa se recordar de alguma coisa que tenha valido a pena e, assim, faça a sua escolha. Juntos começam a assistir as fitas. Em uma delas aparece o primeiro encontro de Watanabe com a jovem Kyoto, que mais tarde viria a tornar-se sua esposa (registrando: Kyoto já havia morrido há algum tempo antes de de Watanabe). É um momento constrangedor pois o jovem Watanabe sua muito e não consegue conversar com a moça, cabendo à ela toda a iniciativa de aproximação entre eles. Ela, tímida, começa a falar sobre filmes e consegue estabelecer um link com o desajeitado rapaz. Ao ver tal cena, Yusuke, melancólico, diz entender a vergonha e o embaraço de Watanabe pois ambos pertenceram a mesma geração. O velho fica surpreso. Yusuke então explica ter morrido na guerra há muito tempo, o que explica sua aparência jovem. Continuam a assistir os "tapes" até que em uma das fitas o casal, já velho, aparece sentado em um banco de praça. Eles tinham acabado de sair do cinema aonde tinham ido pela primeira vez após 30 anos de matrimônio. Ambos gostaram muito do programa e prometem que, a partir dali, iriam repetí-lo uma vez ao mês. Watanabe gosta do que vê e escolhe a sensação desta lembrança para a sua eternidade.

Com a missão cumprida Yusuke revela, para outro personagem, ter amado Kyoto antes de partir para a guerra onde foi morto, porém não teve jeito de declarar-se ou de tentar uma aproximação maior. Isto fez com que ele morresse sem ter a certeza de que era correspondido pela moça. Porém agora, ao revê-la nas fitas de Watanabe, sentiu aflorar novamente o sentimento que nutriu por ela. Busca então, no arquivo de imagens dos mortos antigos, qual foi a lembrança que Kyoto escolheu para sua própria eternidade. Ao ver a fita, Yusuke se emociona ao perceber que a recordação escolhida pela mulher mostrava exatamente ele e ela sentados num banco de praça antes dele partir para a guerra (e, obviamente, antes dela conhecer Watanabe). É uma cena pequena, calma, sem diálogos com ambos tímidos e constrangidos, sentados lado a lado. Tudo o que ela faz é contemplar as mãos do amado. Assim ele percebe que algo que até tinha feito questão de esquecer, algo que para ele era puro constrangimento e insegurança, significou muito para Kyoto. Ele pensa :"Mesmo não percebendo, podemos ser a melhor lembrança para alguém". Yusuke então escolhe este sentimento para partir para sua própria eternidade.

Como se vê, o filme é rico em significados. Porém, já aviso, quem assistí-lo tem que estar imbuído de uma forte dose de paciência devido ao seu ritmo excessivamente lento em certas passagens. Mas vale a pena.

De qualquer forma, após assistí-lo, me peguei pensando sobre qual lembrança da minha vida eu escolheria se estivésse numa situação semelhante. Me vi diante de várias alternativas (todas amorosas ou familiares), porém nenhuma específica que pudesse englobar o universo de sentimentos que gostaria de carregar comigo. Perturbado, conversei sobre o assunto com meu amado. Ele então me recordou um fato real e concreto que só pode ser descrito como milagre nas nossas vidas. Pensei : "é isto, quero a sensação eterna de um milagre". Porque? Bem, primeiro devemos acreditar que eles existem. E depois, quando acontecem, a sensação é de que o inconcebível, o impossível nos foi ofertado. É a sensação da mão da providência operando, do destino movendo as peças para nos proteger ou ofertar alguma dádiva. É o sentimento de que fomos escolhidos para uma graça especial. É aquele toque na alma que congela e transfigura, por alguns instantes, o nosso viver. É o momento onde a razão se perde e o divino brota.

Isto eu gostaria de levar para sempre.

Amém.


Friday, October 01, 2004

Amor a três



Comecei a ler um livro chamado “Amor a três” de Barbara Foster, Michel Foster e Letha Hadady. Barbara e Michel são casados há vinte anos e Letha vive com ambos formando o que se chama um clássico “ménage à trois”. O livro se propõe a discutir de forma séria a possibilidade da existência de um relacionamento amoroso e consensual entre três pessoas. Um trio vivendo em comunidade plena.

Diz a contracapa: “Este amor não-convencional (o ménage) é muito pouco conhecido e estudado em nossa cultura puritana e estereotipada”. E na orelha: “O ménage à trois é bastante diferente de um triângulo amoroso. Em geral, este se origina de uma relação de adultério, e um dos três é excluído. Por outro lado, no ménage, os três participantes têm status igual, e a relação se inicia a partir de um consenso de todos”.

Como pode se ver, é um assunto fascinante e polêmico que certamente povoa o imaginário amoroso-erótico de muita gente. Ainda estou no início mas já apareceram diversas idéias interessantes que gostaria de compartilhar:

* O relacionamento a dois é redutor, mesquinho e egoísta a partir do momento em que se estabelece a idéia de “eu”, “tu”, “nós dois” e “os outros”. Isto tira a possibilidade de crescimento harmonioso da dupla o que, inevitavelmente, descambará para a insatisfação, traição, ressentimentos e separação.

* Todos fantasiam com alguma outra pessoa : “A superimposição fantasiada”, escreveu ele (Lawrence Lipton - cronista do mundo beat), é “o crime menos citado e o mais infame, e aquele mais amplamente praticado entre os defensores confessos do código moral judaico-cristão ...(...) ...É o inconfessável.”. Lipton refere-se à fantasia de que seu parceiro na cama é outra pessoa – talvez uma pessoa real que você conheça e deseje, ou vislumbrou ou viu na mídia, mas em geral é alguém mais jovem ou de melhor aparência. Em uma variante, você imagina que o seu parceiro está fazendo amor com outra pessoa, também atraente. Esta pode ser considerada uma fantasia homo-erótica, mas é na verdade uma fantasia de três na cama. Quanto mais monogâmico é um relacionamento, mais provável que um ou ambos os parceiros empreguem este dispositivo – ou percebam que durante o sexo sua mente foi tomada pela imagem de uma terceira pessoa.”... (....) ...“Todos levamos para o quarto a imagem da pessoa desejada, e muito frequentemente ela não corresponde ao nosso amante real. “Quem é o terceiro que está sempre ao seu lado?, perguntou T.S. Eliot.”

* Os autores fazem questão de diferenciar o que eles consideram um ménage consensual da idéia de adultério, prostituição ou de fantasias pornográficas : “ O adultério em geral conduz a um triângulo amoroso clássico que mistura excitação erótica com o pavor de se expor”... (...) ...O adultério e o ménage compartilham no seu início um desejo de viver plenamente. Mas rapidamente tomam caminhos diferentes. O adultério floresce sobre a suspeita, o ciúme e a raiva. O ménage exige honestidade e, no mínimo, aquiescência dos três “.

* O menáge pode não ser entendido apenas como um agrupamento físico amoroso. Também pode ser entendido como trazer para dentro de um relacionamento convencional, algum terceiro que complemente a dupla através de idéias, intelectualidade, sabedoria, fascinação, erotismo, etc, ou seja alguem que proporcione a surgimento e a manutenção de algum tipo de excitação mental.

* Questões inerentes a qualquer ménage : “Sejam célebres ou obscuros, os participantes dos ménages bebem todos das mesmas fontes de narcisismo , voyeurismo, e da irredutível necessidade de serem três. São todos testados no fogo do ciúme. A dialética interna da paixão versus a compaixão permanece constante. A questão de quem é meu e a quem pertenço são repetidamente colocadas e respondidas. Se o egoísmo prevalece, ainda que em um dos três, o relacionamento vai degenerar para um triângulo amoroso clássico, com suas espionagens, brigas, culpas, divórcios e violência. Mas se e quando o ménagem cresce junto, uma energia especial pode e tem feito coisas fascinantes acontecerem – nas artes, no cinema ou na vida. Na nossa vida”.

Como se pode ver os autores são defensores do ménage aberto como forma de realização emocional plena e uma resposta positiva aos comportamentos escusos (adultério, traição, prostituição, perversão, etc) que são buscados para extravasar desejos reprimidos.

O que eu penso a respeito?

Me permito a não emitir opinião, mesmo porque acredito sinceramente que cada um deve procurar o seu prazer, sua realização erótica-emocional da maneira que mais lhe convier.

A única coisa que importa é a honestidade, consigo mesmo e com o(s) outro(s).

Thursday, September 30, 2004

Olga - meio atrasado



Eu não ia comentar o filme "Olga" do Jaime Monjardim até porque sei que a imensa maioria do publico está adorando. Porém, a pedido de uma amiga querida, vou deixar algumas poucas impressões a respeito desta obra. Só peço que quem realmente tenha adorado a película pare por aqui ou então tente não ficar indignado com o que irá ler, ok ?

Li o livro do Fernando Morais quando foi lançado, acho que na década de 80. Fiquei impressionado com o trabalho de pesquisa jornalística e com a narrativa documentária-romanceada-cinematográfica alcançada pelo autor. Um livro inesquecível. Qual não foi minha surpresa e alegria ao saber que o livro seria filmado tendo no papel principal a Camila Morgado, uma boa revelação neste mundo de atrizes medíocres das telenovelas. Esperei ansioso e fui para o cinema com boas expectativas.

O filme começa com a Olga já no campo de concentração à espera da execução na câmara de gás no dia seguinte. Logo ali já comecei a ter uma má impressão, quando a personagem começa a se lembrar da sua trajetória com aquele tipo de tomada cinematográfica onde o ator olha para o infinito (de frente para a camêra), faz uma cara de quem está refletindo profundamente e diz-ou pensa- algo muito relevante e íntimo. Este tipo de técnica primária se vê muito em telenovelas, principalmente as mexicanas. Mas tudo bem, vamos adiante.

A narrativa segue mostrando a personagem no início da sua trajetória política na Alemanha. Em um discurso inflamado, frente a uma platéia de militantes comunistas, a Olga me sai com esta : "Eu quero fazer treinamento militar para construir a paz no mundo!!!". Quase caí da cadeira! Que absurdo! Comecei a rir com tamanha sandice! É claro que eu sei que existem ideologias que querem transformar o mundo -para melhor- através de armas e atos terroristas. Mas mesmo assim não aguentei a estupidez proferida.

Logo a Olga é chamada para a missão de conduzir Luiz Carlos Prestes clandestino e em segurança ao Brasil. Ao tomar conhecimento da lendária Coluna Prestes, novamente a personagem olha para o infinito (de frente para a câmera é claro) e diz "Eles caminharam 22 mil quilômetros...", com uma cara sonhadora. Corta para a casa da militante : ao romper com a família burguesa (pai compreensivo e mãe negativa) a garota problema abandona o lar com uma malinha básica numa noite de muita chuva, mas muuuuiita chuva mesmo. E ela sai sem guarda-chuva, e fica mais encharcada que a pequena sereia, para reforçar a idéia de desamparo -alías em todas as cenas no filme onde rola alguma tristeza o tempo sempre está fechado (muita chuva, muita neve ou muita noite)-.

Conhecendo o Cavaleiro da Esperança ela parte para a missão de proteção: para isto ambos têm que simular estarem casados durante a viagem de transatlântico que os trará para a América. No trajeto, o romance falso vira real e eles partem da simulação para as vias de fato. A cena do primeiro beijo é constrangedora com hiper closes e uma música ensurdecedora -aproveito para registrar que a trilha sonora, cheia de violinos, invade o filme sem sutileza alguma estragando o clima das cenas ao invés de emoldurá-las. Para despistar a polícia eles acabam viajando para vários lugares até chegarem ao Brasil de avião. Aí surge outra cena risível. O Prestes mostra sua terra natal para a companheira através da janela do avião. O que se vê então são praias e matas ensolaradas em vôo rasante. Uma coisa bem morena, bem tropical.

Finalmente chegam ao Rio de Janeiro e logo se enturmam com os comunistas locais. Começam a planejar a revolução sem saber que a polícia já desconfia da movimentação. Não vou me alongar mas todo mundo sabe no que dá. Quando a casa começa a cair o publico é brindado com uma das cenas mais imbecis. Me refiro àquela onde o Prestes, antes de fugir de um esconderijo, deixa em um cofre -com uma armadilha de bomba bem furreca- todos os documentos que podem incriminar os companheiros da revolução. Ele diz então à Olga : "Vou deixar estes documentos que podem incriminar a todos aqui neste cofre". E ela responde: "Você vai deixar estes documentos que podem incriminar a todos aí neste cofre?".... Hã?... Será que eu perdi alguma coisa? -break novamente : todo o roteiro do filme é construído assim, um personagem diz uma coisa e outro reforça. Também é usada aquela tática de um personagem conversar com o outro e já aproveitar para apresentá-lo, tipo na cena onde o Vargas diz "Filinto Muller, meu chefe de polícia"-. Só um ignorante de história não saberia disto. Mas é claro, para tornar o filme mais acessível ao publico médio, tudo tem que ser bem explicadinho.

Voltando: é óbvio que o tal cofre é aberto e todos os companheiros acabam presos, inclusive o casal central. Bem aí surge a cena mais constrangedora de todo o filme : quando o Prestes e a Olga são separados, num local onde deverão prestar depoimentos separados, os dois se agarram e começam a berrar, a urrar -e a música de violinos também-. O diretor, para intensificar a dor do momento, alterna tomadas de câmera das mãos entrelaçadas, que pouco a pouco vão se separando, com closes dos dois gritando de maneira ensurdecedora. E dá-lhe violino e mais violino.Ufa !! ....

Daí pra diante a coisa melhora pois passa a se concentrar na trajetória solitária da Olga presa e grávida. O filme torna-se mais denso ao acompanhar sua maternidade agredida. Também, diga-se de passagem, quem faz o filme crescer é a volta da Fernanda Montenegro, que faz a mãe do Prestes. Ela arrebenta na interpretação. Sem gritos e sem desespero, ela consegue transmitir, apenas com leves mudanças fisionômicas, toda a gama de emoções trágicas vividas pela personagem. Realmente uma diva. A Camila também cresce e consegue passar a dor da Olga frente aos acontecimentos. Mas, infelizmente, também não posso deixar de comentar outra piada do filme : quando as prisioneiras chegam no campo de concentração o tempo está fechado (é óbvio) com muuitta neve, muita neve mesmo. E o que se vê ? Um nazista com uma maquininha de escrever de nada, debaixo de toda aquela nevasca de fim de mundo, preenchendo fichas das prisioneiras. ...Sem comentários...

O resto história todo mundo sabe: Prestes acaba preso, a filha deles é entregue à avó e a Olga é executada. Aliás a cena da execução é absurda, com a personagem dentro da câmara de gás, cercada de prisioneiras que gritam desesperadas, e ela, indiferente, novamente olhando fixamente para a câmera.

Os comentários finais do filme traem o público ao não informar que, após sua libertação, o Prestes acabou se aliando politicamente a Vargas, o homem que entregou a Olga grávida aos nazistas.

Finalizando: no cômputo geral o filme é bom, principalmente por revelar ao grande publico a trajetória de uma grande mulher. Mas pra obra-prima que muita gente apregoa é muito pouco. De qualquer forma esta é minha impressão. Desculpem qualquer coisa...


Wednesday, September 29, 2004

Com a Bandeira Brasileira no ....



Domingo passado terminou o Décimo Primeiro Festival de Teatro Porto Alegre em Cena, sobre o qual eu já tinha falado no texto “Vá ao teatro mas não me chame...”. Naquele texto eu falava das porcarias a que assisti e falava que ainda esperava ver bons espetáculos no festival. Pois bem, para minha alegria consegui assistir peças ótimas que realmente valeram a pena. Também assisti à polêmica “Samba do Crioulo Doido” que, a princípio, poderia chocar alguns desavisados.

Breve comentário sobre alguns espetáculos.
-----------------------------------------

SAMBA DO CRIOULO DOIDO

Um espetáculo de dança que chocou o governo no Maranhão. No palco surge um cenário tomado por bandeiras do Brasil formando uma tela transparente iluminada por trás. O publico vê a silhueta de uma pessoa sozinha no palco, sem poder indentificar se é homem ou mulher. Um som lento e meio tribal vai tomando conta, ouve-se a voz poderosa da Elza Soares cantando, aos poucos, a frase “ A carne mais barata do mercado é a carne negra...”. A figura começa a se movimentar e percebemos que é um homem nu. O constrangimento toma conta da platéia. Logo as luzes se acendem e vemos que o homem é um negro vestido apenas com longas botas altas. A musica vai mudando –parte mecânica, parte executada ao vivo por um percussionista- e o dançarino vai mostrando com seu corpo várias fascetas do folclore, do estereótipo do negro na cultura brasileira e, porque não, mundial.. Vê-se então o “crioulo risonho” (tipo Lois Armstrong), a mulata exportação (tipo Sargenteli), o crioulo bem dotado (que aliás quase me causou um desmaio ao ver o artista manipular o próprio pênis com certa fúria), a valorização do bundão, do bocão, etc. Porém a auge da peça ficou reservada para o final quando o bailarino Luiz de Abreu pega um grande pano, todo estampado com a bandeira brasileira, e o enfia no ânus (ou pelo menos finge enfiar) para simular uma grande cauda de vestido ou esplendor carnavalesco. A público se arrepiou. Foi realmente “sui generis”, para dizer o mínimo. No final da peça, o meu urso foi abordado por um repórter do jonal Zero Hora que solicitou a impressão dele sobre o que tinha visto. Na verdade o que o reporter esperava era um depoimento de alguém chocado, mas o urso registrou que achou o espetáculo sério, bem feito e que conseguiu retratar, somente através da dança, alguns estereótipos ridículos que os brancos pensam a respeito dos afro-brasileiros (a entrevista foi publicada no dia 20/09/2004).

---------------------------------

O QUE DIZ MOLERO

Quatro horas e meia de espetáculo! A peça começou às 21 horas e terminou perto da 1 e 30 da manhã. Uma maratona! Mas que maravilha, que beleza. Não é uma peça convencional. O que se vê no palco é a “dramatização” do texto de um livro, um “romance encenado”, um "livro falado". O texto quase literal do livro “O que diz Molero”, de um autor portugues chamado Dinis Machado, é expressado através do talento de seis atores que se desdobram em mais de 200 personagens. Uma experiência única e inesquecível.

----------------------

AS BASTIANAS

Este é o tipo de espetáculo em que todos choram. No final, da platéia aos atores, todos uniram-se nas lágrimas. Realmente excepcional. Encenado em um albergue municipal a peça conta a simples história da busca por um nome para uma menina que precisava receber um nome de santa. Dito assim a coisa parece inócua, mas não dá para descrever o universo de sensações provocadas pelo trabalho apresentado. Música, fogo, comida, dança, cristianismo, umbanda, crendices populares, tudo misturado num efervescente caldeirão mágico. Com criatividade e talento incríveis as atrizes conseguiram congregar artistas profissionais, platéia, habitantes de rua e albergados no mistério do teatro. Todos interagiram participando ativamente no desenvolvimento da história. O que se vivenciou naquele albergue foi mais do que uma experiência teatral, foi um ritual de comunhão entre os corações presentes no qual as diferenças sociais e culturais ruíram diante da força e beleza transcendentes da encenação. Foi de arrebentar os sentimentos.

-----------------------------------

Enfim o festival terminou. O saldo foi positivo com certeza. Ano que vem tem mais..

E VIVA O TEATRO !!!

-------------------------------------
Segue abaixo alguns comentários sobre as peças retirados do programa oficial do evento e mais alguma coisa da internet.

O que diz Molero :
Aderbal Freire-Filho volta ao gênero romance-em-cena, mergulhando mais uma vez no universo literário para construir a cena teatral. Tendo redescoberto o escritor brasileiro João de Minas ao apresentar ao público A Mulher Carioca aos 22 anos, iniciando, então, seu trabalho à frente do Centro de Demolição e Construção do Espetáculo, Aderbal se diz culpado de ter inventado um gênero que tem estilo e técnica próprios. A peça é uma reconstrução da vida de um personagem, o Rapaz, por meio de episódios. Os fatos e acontecimentos que construíram a vida do Rapaz são colocados ao público por dois misteriosos investigadores, Austin e Mister DeLuxe, que fazem a leitura de um relatório escrito por Molero. A vida do Rapaz é repleta de diversos personagens, responsáveis por provocar emoções e sensações diversas. É assim que ele se expõe e experimenta sentimentos como o amor, a solidão, a esperança e o sofrimento. O espetáculo recebeu o Prêmio Shell nas categorias de Melhor Diretor para Aderbal Freire Filho e melhor ator para Orã Figueiredo.
O romance e o escritor :
Dinis Machado nasceu em1930, em Lisboa. Apesar de jornalista ligado ao esporte, fez diversas críticas e ensaios cinematográficos além de ter organizado diversos festivais para a Casa da Imprensa de Lisboa entre os anos de 1958 e 1966. Dedicou-se também a edição de histórias em quadrinhos, sendo chefe de redação da publicação Tintin e Spirou. Escreveu três livros policiais sob o pseudônimo de Dennis McShade: "Mão Direita do Diabo", "Mulher e Arma com Guitarra espanhola" e "Réquiem Para D. Quixote". Além de "O Que Diz Molero", escreveu: "Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel Garcia Márquez" e "Reduto Quase Final"
Na época do lançamento de O Que Diz Molero Dinis Machado declarou ser este seu primeiro e último romance, pois tudo o que precisava ser dito estava contido ali. Vinte e cinco anos depois confirma-se o propósito do autor: o romance O Que Diz Molero é considerado um dos maiores êxitos editoriais portugueses, com mais de cem mil exemplares vendidos, e traduzido para o francês, o alemão, o espanhol, o romeno e o búlgaro.


O samba do crioulo doido :
Entre os 12 espetáculos e duas performances apresentados através do projeto Rumos Dança 2004 do Itaú Cultural, O samba do crioulo doido foi o de maior repercussão. Engajado e dotado de humor cáustico, apropria-se de símbolos nacionais para abordar preconceito, dominação, desejo e (de)formação de valores, cruzando os universos de minorias étnicas e sexuais. O espetáculo aborda a resistência do corpo negro ao exercer a subjetividade para expressar as coisas do mundo. Repensa, dentro de um contexto brasileiro, a objetivação e a carnavalização deste corpo através da história. Assim, a bandeira do Brasil é o pano de fundo e o samba é o ritmo do corpo que transgride, resiste, afirma e aponta para dentro de suas questões e para o humano, independente de sua etnia ou gênero.

As Bastianas :
Baseada em contos do primeiro livro de Gero Camilo, A Macaúba da terra, As Bastianas fala da busca de uma nova identidade e do cotidiano de uma aldeia no sertão nordestino, com suas histórias e sua religiosidade. São as mulheres que nos falam da criação, da luta pela terra e da vontade humana de amor, sabedoria e sossego. A peça recebeu indicações ao Prêmio Shell 2004 nas categorias pesquisa e adaptação teatral. O eixo principal é dado por Mato Soou..., primeiro conto do livro A Macaúba da terra. Trata da história da formação de uma vila, na qual um dia nasce uma menina que não pode ser batizada por falta de um nome santo. Sem nome, a menina cresce esquecida por todos, até o dia em que o irmão caçula, Genésio, sai em busca de missionários que teriam a solução para o problema. A vila permanece com seu cotidiano e suas histórias até o momento em que Genésio, dez anos depois, retorna à vila e reencontra sua irmã.

Tuesday, September 28, 2004

Hospital



Hospital para mim é sinônimo de depressão. Semana passada estive em um visitando uma amiga que está passando por problemas na sua gravidez. Ao chegar lá, desde o momento em que atravessei o portão, já começou a baixar um sentimento de opressão. Este sentimento só aumentou a medida em que caminhava pelos corredores, perguntava a localização do quarto e ia me deslocando pelos labirintos assépticos. Ao vê-la me senti acuado, perdido. O que fazer? O que dizer? Uma pergunta clássica e ridícula é : "Como vc está?". Mas de que adianta a pergunta diante da obviedade dos fatos? A continuidade do questionamento segue o mesmo triste caminho : "Desde quando você sente isto?", "O que o médico disse?", "E os resultados dos exames?", etc, ou então podemos, para tentar amenizar, começar a discutir o "ambiente" do hospital, tipo : comida, médicos, outros pacientes, enfermeiros e outras amenidades.


Eu confesso que não sei bem como lidar diretamente com alguém hospitalizado. Não no sentido de visitar, escutar ou ajudar a pessoa no que for possível. O que não sei é como procedecer para, de alguma forma, estimular a mente do enfermo a navegar um pouco para fora da doença, navegar um pouco para fora do clima local. Talvez isto seja difícil ou mesmo impossível dependendo do que e/ou de como a pessoa está se sentindo. De qualquer forma me incomoda e me choca todo o ambiente que envolve os nosocômios : dor, tristeza, perda, impotência, cochichos, curiosidade, comentários. É claro que sei que muitas alegrias acontecem nestes locais (partos, recuperações, milagres), porém, mesmo assim, fica em mim a impressão de que os hospitais são locais onde a fragilidade da carne humana se revela, se impõe e reina soberana.

PS : O que é curioso é que semana que vem vou sofrer uma pequena cirurgia e vou ter que dormir pelo menos uma noite na "casa de recuperação". Estou me sentindo o peru na véspera do natal, he he ...

Monday, September 20, 2004

Consolo vazio...




“Aquele homem poderia ser o companheiro que lá no centro imune do meu desconsolo eu me acostumara a sentir sem esperar.”


Esta frase, retirada do último livro do João Gilberto Noll “(“Lorde”), aparece quando o personagem principal, um escritor gaúcho cujo nome não é revelado, é recebido, no aeroporto de Londres, pelo inglês que lhe havia oferecido uma bolsa de trabalho na Inglaterra. No momento da recepção, o escritor imagina rapidamente que seu anfitrião poderia ter sido o companheiro amoroso que ele buscou no passado e que agora sabe fazer parte da lista das impossíbilidades da sua vida.

Esta passagem me lembrou que a eterna e universal ação de busca e encontro da nossa metade emocional pode ser assumir diversas formas. Aqui, esta ação se apresenta de forma enviesada, torta, mas que, mesmo assim, traduz algum tipo de recompensa.

A frase diz que o escritor está imune dentro do seu desconsolo emocional. Esta afirmação evoca a idéia de criação de resistência contra algo que sabidamente faz mal. Resistência contra algo já experimentado, já tentado no passado e que resultou em dissabor. Agora o escritor está imune no seu isolamento, no seu silêncio. Isto significa que já não espera nada das relações; ele já teve sua cota de derrotas e agora está protegido contra qualquer aproximação. Porém, ao mesmo tempo mantém, dentro desta triste situação, uma sensação de presença vazia do companheiro querido, a qual, tem consciência, não se traduzirá jamais em realidade.

O escritor sabe que não há esperanças. O amigo virtual não se materializará, não o tocará jamais - viverá para sempre no impossível. Por isto ele mantém este amante idealizado confinado na carapaça dos seus sentimentos. Ele o mantém lá, a salvo de qualquer corrupção, de qualquer possibilidade de manchas. Seu amigo amado está salvo, preservado dentro de um "sentimento sem espera".

Um amor sonhado longe da putrefação do real e que resulta, de certa forma, em repouso ao seu coração.


Monday, September 13, 2004

Vá ao teatro, mas não me chame...



Teatro ! Teatro ! Quanta porcaria se cria em teu nome!

Agora aqui em Porto Alegre está acontecendo o Décimo Primeiro Festival Porto Alegre em Cena, um festival que se propõe a apresentar espetáculos teatrais nacionais e internacionais a preços populares.

Sou um apaixonado por teatro e, por isto, acompanho o festival há vários anos. Nas realizações deste evento já tive o prazer imenso de assistir peças extraordinárias encenadas com talento e competência. Mas é verdade que também já vi muita porcaria, muita droga que algum imbecil qualquer teve a pretensão de chamar de espetáculo e o displante de torná-lo público.

No Em Cena deste ano, que iniciou no final de semana passado, tive o desprazer de assitir, na seqüência, dois lixos teatrais. Um foi Otelo, de Shakespeare, encenado pelo grupo Folias d´Arte de São Paulo, e outro foi Hilda Hilst in Claustro -que apresentava um grupo de freiras ensandecidas-, encenado pelo grupo gaúcho Depósito de Teatro.

O que é engraçado, ou triste, é que estes dois espetáculos parecem ter sido originados da ignorante cartilha do teatro de vanguarda mais tosco - aquele tipo de teatro que mascara incompetência e falta de aptidão com uma proposta ridícula de transgressão e ousadia.

Esta cartilha se pauta pela obviedade, pela mesmice, mas parece que ainda tem seguidores. Ela diz que qualquer criador que queira chocar o público - e, às vezes, ser chamado de gênio- deve seguir as 11 lições seguintes :

---------------------------------------------------------------
Lição 1 - Gritos e gemidos.

Os personagens devem gritar muuuiitoooo ou então gemer como se estivesem parindo. Devem emitir berros ensurdecedores, devem uivar, ladrar, relinchar. Emitir o texto claramente? Fazer com que o público entenda as falas? Ué? Porque?.. o que importa é a densidade dos personagens.

Otelo : a peça têm mais de três horas de duração. Deu pra entender o que os atores falavam, no máximo, uns 30 minutos.

Hilda Hilst : consegui entender uns 30% da peça.
---------------------------------------------------------------
Lição 2 - Nudez.

Isto é imprescindível em qualquer peça moderna de vanguarda. Atores e atrizes devem aparecer nús para provar que não têm pudores. O que importa é a arte, a proposta do trabalho.

Otelo : homens nús com capa de chuva transparente, homens de fio dental, mulheres nuas se roçando nas paredes, entre outros

Hilda Hilst : seios, vaginas e nudez completa à vontade.
---------------------------------------------------------------
Lição 3 - Sexo.

Muito sexo deve ser jogado na cara do recatado público.

Otelo : masturbação e roça-roça

Hilda Hilst : garota aprendendo fazer sexo oral, freiras lésbicas em pleno ato.
---------------------------------------------------------------
Lição 4 - Palavrão.

Muita boca suja, muito baixo calão, aos berros na frente da audiência.

Otelo : Shakespeare realmente não merecia isto. Foi de arrebentar os nervos ver os personagens falarem tantas obcenidades.

Hilda Hilst : as freiras deveriam lavar a boca com sabão.
---------------------------------------------------------------
Lição 5 - Cristianismo.

Para mostrar que são transgressores mesmo, estes espetáculos devem associar algum tipo de baixaria à nossa inocente moral cristã.

Otelo : não apresentou algo neste sentido, pelo que me lembro.

Hilda Hilst : muita cruz e muito Jesus associados à podridões e baixarias generalizadas.
---------------------------------------------------------------
Lição 6 - Sangue.

De preferência espirrado pela boca. É para chocar, ainda não entendeu?

Otelo : personagem com o sexo decepado, tortura com afogamento num balde de alumínio. É óbvio que Otelo tem sangue, guerras e assassinatos, mas deram um jeito de inserir cenas sanguinolentas totalmente gratuitas.

Hilda Hilst : freira se auto-mutilando com uma tesoura, freira chicoteando outras.
---------------------------------------------------------------
Lição 7 - Necessidades fisiológicas.

Escatologia é básica.

Otelo : personagem defecando

Hilda Hilst : freiras urinando.
---------------------------------------------------------------
Lição 8 - Outros fluídos.

Pra mostrar que os atores se entregam mesmo à arte.

Otelo : vômito e baba bovina em vários momentos.

Hilda Hilst : vômito e baba bovina em vários momentos.
---------------------------------------------------------------
Lição 9 - Drogas.

Dependência química dá ibope.

Otelo : personagem cheirando cocaína aos montes. Álcool também.

Hilda Hilst : nada neste sentido, mas as freiras comiam batatas como loucas (e se babavam, é claro).
---------------------------------------------------------------
Lição 10 - Adeus palco.

Deve ser quebrada a quarta parede. O público deve ser inserido na cena; é o chamado teatro interativo.

Otelo : as arquibancadas se moviam, aproximando e afastando o público das cenas.

Hilda Hilst : a peça foi encenada no pátio de um hospital psiquiátrico. O público não sabia para que lado olhar para acompanhar a ação (ou falta de).
---------------------------------------------------------------
Lição 11 - Mensagem.

É claro que um espetáculo destes é bem metafórico, bem simbolista. Assim, cabe ao público expremer seu próprio cérebro para captar a proposta, a mensagem, a revelação nas entrelinhas da peça.

Otelo : confesso minha ignorância, não entendi nada. Principalmente a abertura e fechamento da peça com a canção New York, New York

Hilda Hilst : confesso minha ignorância, não entendi nada. Principalmente a cena das três irmãs siamesas grudadas pela vagina.
---------------------------------------------------------------

E o público?

Me desculpem mas também não entendo.

No Otelo teve alucinados aplaudindo em pé e gritando "bravo".

No Hilda Hilst, pelo menos as atrizes não ficaram para esperar a reação do público - cada uma se fechou num quartinho e por lá ficou-, mas mesmo assim duas pessoas aplaudiram o cenário vazio.

Acho que eles entenderam a arte...
---------------------------------------------------------------

Ainda bem que o Em Cena ainda não terminou. Espero ver coisas boas nos próximos dias...


Thursday, September 09, 2004

"Entressentir"



"O entressentir-se, entre as pessoas, vem de regra com exageros, erro, e retardo."

Esta frase de Guimarães Rosa revela três enganos que permeiam o mundo das nossas relações e que podem ser responsáveis por vários dos equívocos de percepção que experimentamos na nossa vivência em comum. E o que é pior -e muito natural-, é que estes equívocos podem nos levar, paulatinamente, a adotarmos posições de atração, aversão ou indiferença em relação aos outros - às vezes sem que os próprios saibam.

O exagero impossibilita um olhar tranquilo. Podemos gostar demais, desgostar demais, admirar demais, amar demais, odiar demais qualquer pessoa - às vezes sem perceber que do outro lado existe alguém não sincronizado com o papel de super-qualquer-coisa que lhe designamos (desde super-inimigo a super-amor). Depois, quando alguma coisa acontece e percebemos que o outro é comum, com defeitos e qualidades como nós, podemos nos sentir enganados; ou então vamos constatar o desgaste de energia que tivemos para criar e manter o grande rótulo vazio com o qual coroamos o objeto do nosso exagero.

O erro, o mal-entendido, é muito comum. Pode ser pequeno ou grande, e pode ser bem ou mal esclarecido. De qualquer forma, a dissolução de qualquer desacerto, não interessando seu tamanho, vai depender da disposição e da capacidade de diálogo dos envolvidos. Caso não ocorra um enfrentamento para a busca do entendimento, o erro pode tornar-se um ovo de serpente, um feto de dragão com a possibilidade de nascer, crescer e engolir a todos.

Os retardos, os atrasos, impedem que nossa compreensão, nossa visão correta, aconteça antes que algum estrago já tenha manchado a relação. Felizmente podemos pensar em "antes tarde do que nunca" e partirmos à procura do diálogo, do esclarecimento e da reconciliação. Mas, também, às vezes, a percepção do engano acontece tão tarde que a possibilidade de busca das reconexões torna-se sinônimo de "nunca". Isto pode ocorrer diante de situações irreversíveis como morte, mágoas extremas ou separações irreconciliáveis.

Certamente o universo de ilusões nas relações não se resume a estas três situações. Porém Guimarães, com sua genialidade, consegue, com esta simples frase, nos fazer refletir sobre algumas das mais perniciosas armadilhas a que estamos expostos

A questão é sabermos o quanto estamos alertas para que tais ciladas não perturbem nossos vínculos; é sabermos o quanto estamos dispostos a permanecermos cuidadosos a fim de evitar que qualquer tipo de engano não macule nosso "entressentir". Isto é muito difícil.

-------------------------------------------------------------------------------
Esta frase foi tirada do conto A Benfazeja, publicado no livro Primeiras Estórias.

Este conto me fez chorar.

Tuesday, September 07, 2004

Encaixe carne

forno pele,
forno pêlo,
aberto poro,
encaixe carne.

sumo muco,
sufôco pulso,
posse-entrega,
espasmo e jorro...


Tuesday, August 31, 2004

Procura-se HIV



Doug, um jovem gay de 19 anos, quer ser infectado com o HIV. Para ele, ter o vírus significa fazer amizades, não ser mais rejeitado nas salas de chat e ter uma vida sexual intensa e despreocupada. Para atingir seu objetivo ele conversa, via internet, com diversos HIV-positivos que, em nome da ajuda ao próximo, se disponham a infectá-lo. Um, em especial, o fascina ao dizer que irá “energizá-lo” com o vírus. Doug faz sexo com o doador eleito e alcança o êxito almejado.

Esta história pode parecer absurda, mas é verdadeira. O caso aparece no documentário “O Presente” (The Gift) que vi semana passada. Fiquei chocado. O documentário apresenta depoimentos de vários gays americanos falando sobre a sexualidade nos tempo de AIDS. Os depoentes vão desde um médico preocupado com a aparentemente permissividade geral até rapazes que voluntariamente querem ser infectados com o HIV. É um filme corajoso e polêmico que não deixa ninguém indiferente.

Para dar uma geral na obra e no fenômeno do bugchasing (caça ao inseto/vírus), traduzi e reproduzo abaixo um artigo escrito pelo colunista Richard Roeper publicado no Chicago Sun Times em 22 de Abril de 2003, antes do filme estreiar nos EUA.

Acrescentei alguns comentários meus.

-----------------------------------

O que motiva os caçadores de insetos e os doadores de presente a fazer tal coisa?

Richard Roeper, Chicago Sun-Times Columnist

É uma história tão chocante que você vai querer acreditar que se trata de um boato – uma piada de mau gosto. Mas, entre aquilo que seria uma lenda urbana e uma terrível tendência de comportamento, realmente existem homens gays que querem ser infectados pelo HIV e outros que têm o prazer em ajudá-los a tornar este desejo realidade. Homens gays que desejam ser contaminados são chamados de “bug chasers” (caçadores de insetos/vírus). Homens HIV-positivos que deliberadamente tentam infectá-los são conhecidos como “gift givers” (doadores do presente).

O resto do mundo provavelmente chamaría-os de estúpidos ou patéticos. Rumores sobre esta prática têm circulado por anos, mas o bugchasing só recebeu atenção da grande mídia em Janeiro de 2003 quando a sensacionalista e instantaneamente controversa história “Bug Chasers: Os homens que desejam ser HIV +” foi publicada na revista Rolling Stone. A reportagem iniciava apresentando um homem de 32 anos, de Nova York, que estava" à caça do inseto". Conforme o texto registra : “Carlos... diz que o momento real da transmissão, o instante em que ele contrair o HIV, será o realização da fantasia mais erótica que ele possa imaginar.”

A reportagem inclui também a afirmação, atribuida ao diretor dos serviços de saúde de São Francisco, Dr. Bob Cabaj, que 25 por cento das novas infecções de HIV –um número entre 10.000 a 40.000 casos anuais- são resultado de sexo sem proteção entre homens HIV-positivos, conscientes desta condição, e homens HIV-negativos que querem ser infectados.

Alguns grupos dizem que a reportagem pinta um retrato irreal e exagerado da situação. Cabaj e outros doutores contestaram os comentários atribuídos a eles (a revista sustenta a matéria). A questão é que não há estatísticas concretas. É impensável que alguém faça um levantamento entre os homens HIV-positivos com perguntas do tipo:”Você é um bug chaser”? ou “Você quis realmente ser infectado com o HIV?”.

Também deve ser feita uma distinção entre o que se chama “barebacking” (sexo sem preservativos) e bugchasing. Realmente não há divergências sobre o fato do barebacking ser estúpido e imprudente, mas isto necessariamente não quer dizer que seus praticantes busquem uma DST mais do que qualquer heterossexual que pratique sexo sem segurança. Porém existem vários sites da internet que apresentam grandes listas de festas de sexo para gays onde as camisinhas não são apenas desaprovadas, como também elas não são permitidas. Não são permitidas!

Como pode alguém, em sã consciência, buscar deliberadamente um parceiro sexual que o infecte com o HIV?

Um novo documentário, chamado “The Gift” (O presente) tenta dar algumas respostas. Ele está sendo exibido em circuitos internacionais e fará sua estréia nos EUA no Festival de Filmes de Tribeca. A produtora Loise Hogarth diz que também foi convidada a exibir “O presente” nas Nações Unidas e para membros do Congresso. Hogarth me disponibilizou uma cópia do filme, e tenho que dizer que foi um dos trabalhos mais chocantes que vi em muito tempo. Eu tinha a esperança que alguns dos sujeitos entrevistados fossem atores participando num boato bem montado – que toda a obra fosse uma ficção mascarada-, como um documentário no estilo “A bruxa de Blair”. Mas como você inventa alguém como “Kenboy”, um jovem magrinho com uma leve semelhança com Brad Pitt em “Thelma e Louise”, que diz, “Dê-me o presente então não preciso mais me preocupar a respeito”, e planeja uma festa onde dúzias de homens terão a oportunidade de fazer sexo sem proteção com ele? “Meus amigos da internet, meus amigos das festas, nós não discutimos HIV”, diz Kenboy. “Nós não nos importamos. Se tiver que acontecer, acontece. Porque perder tempo discutindo o assunto?”. Outros entrevistados do documentário dizem que alguns homens gays HIV-negativos na verdade invejam seus amigos HIV-positivos e sentem-se excluídos por não estarem doentes. Eles sentem como se estivessem ofendendo seu amigos HIV-positivos simplesmente por estarem saudáveis.

Um homem HIV-positivo entrevistado num rodeio gay diz, “Eu tenho um amigo que sempre se comporta no estilo ´Eu quero ser como vocês, caras. Todos vocês têm e eu não. Eu quero sair e ganhar o presente’´, mas a questão é que o inseto definitivamente NÃO é um presente. Eu me sentiria realmente presenteado se ele não estivesse dentro de mim”

Em uma mesa-redonda, quatro homens HIV-positivos, maduros e acima dos quarenta, tentam expressar porque a geração mais jovem quer contrair a doença. “Eles sentem que é inevitável, então porque não fazer uma festa a respeito?, diz um deles. Outro complementa: “Eles também não sabem como a coisa realmente é. Eles não querem se preocupar a respeito – mas sinto muito, meu amigo, se você está cansado de se preocupar a respeito. Eu, particularmente, estou cansado de me preocupar quando meu coração irá parar ou quando meu fígado vai explodir (por causa dos efeitos dos medicamentos de controle do HIV). Entenda isto !”

Doug Hitzel, um jovem de 19 anos, é um “bug chaser” bem sucedido. Hoje é HIV-positivo porém atormentado pelo arrependimento. “Se um cara chegava numa festa e queria usar preservativos, imediatamente era estigmatizado”, ele diz. “Ninguém queria transar com ele”. (achei o depoimento do Doug extremamente triste. O arrependimento que ele mostra no final do filme é imenso).

Compare-o com Kenboy, que olha para a câmera e conta suas boa novas: “Na ultima vez que fiz o exame, esperava que desse positivo, e deu. Fiquei aliviado. Finalmente eu o tenho. Agora não preciso mais ficar pensando : tô infectado, tô infectado, tô infectado? Preciso me cuidar? Estou feliz. Aliviado. Finalmente posso respirar novamente”

As pessoas devem ver este filme


THE GIFT --- PRODUCTION CREDITS

Produced and Directed by: Louise Hogarth

Sunday, August 29, 2004

Já que não tem tu, vai tu mesmo....



No início dos 90´s, a empresa onde eu trabalho, numa readequação interna, abriu a possibilidade dos empregados optarem pela transferência para outra organização, com as mesmas condições de cargo e salário anteriores. O alvoroço foi enorme pois a maioria do pessoal vislumbrou na mudança a conquista de melhores condições de trabalho e aposentadoria. Eu não concordava com esta idéia mas também optei pois me sentia estagnado, sem qualquer perspectiva de alteração na função que exercia. Porém um gerente me chamou para conversar e, (in)diretamente, aconselhou que eu desistisse da transferência pois, segundo ele, depois que os optantes saíssem, alguma coisa poderia acontecer e minha situação poderia melhorar. A partir daí, mesmo não tendo nenhuma garantia, decidi permanecer onde estava. Dito e feito. Com a debandada, fui convidado a assumir um cargo de gerência que havia vagado. Porém, aquilo que era para ser uma alegria se tornou um grande incômodo. Explico : na época eu estava lendo um livro do Otto Lara Resende que trazia a seguinte frase : "Não há mérito onde não há escolha". Fiquei chocado. Acabei associando esta frase ao fato de ter sido convidado a assumir a gerência numa situação no mínimo estranha. Na minha cabeça, recebi o convite apenas porque a empresa não tinha outra alternativa -eu achava que todos os bons tinham alçado vôo-. Então, onde estava o mérito? Fiquei com um gosto amargo de vitória-derrota na boca.

Nesta neura, acabei conversando com uma amiga que afirmou que eu estava errado, que havia a possibilidade de escolha sim - citou exemplos- e que realmente eu teria méritos para receber tal proposta. Parei, refleti, concordei, relaxei, aceitei o cargo e segui na nova função. Porém esta frase me marcou e sempre relembrei-a todas as vezes em que me deparei com situações onde uma escolha -de qualquer tipo- parecia ter sido feita no estilo "já que não tem tu, vai tu mesmo...".

Semana passada voltei a ter a mesma sensação. O que aconteceu foi que eu e um colega tínhamos que entrevistar três candidatos para uma vaga de estágio na nossa área. Dois não tinham nenhuma experiência prática. O outro, além da experiência, apresentava um currículo superior de cursos e formação escolar. Assim, facilmente concluímos que tal candidato não possuía concorrentes e o selecionamos. Ao deliberarmos, imediatamente lembrei-me da frase do Otto - cheguei a citá-la ao meu colega-. Só que, desta vez, avancei no exame da afirmação.

Pensei que tá certo que às vezes podemos nos deparar com situações onde o resultado de uma seleção demonstra um esvaziamento de alternativas, uma falta de opções. Se isto ocorre, pode surgir a sensação de que este resultado não possui muitas qualidades; portanto, pode ser considerado, de certo modo, inferior. Isto está correto ? Não. Na minha reflexão concluí que se houve uma diferenciação, uma escolha, esta aconteceu sobre critérios positivos que a justificam e dignificam - mesmo que, na nossa opinião, esta escolha tenha ocorrido através de critérios não muito elevados. Este raciocínio serve para qualquer tipo de opção (amor, emprego, política, etc).

Assim, todo e qualquer objeto eleito possui atributos superiores que o torna merecedor da distinção. Ele traz em si uma definição de acerto obtida através da apreciação e afirmação das suas qualidades únicas, do seu diferencial. Ele é o melhor em determinado momento. Portanto, hoje discordo do Otto e digo que qualquer escolha é carregada de méritos.

PS : Mesmo que mais tarde caia a ficha e se descubra a m... cometida...







Saturday, August 28, 2004

O Dicionário do Diabo



Ontem ganhei quatro livros do meu professor de musculação : Doutor Grasler-Médico das Termas (Arthur Schnitzler), Fedra (Jean Racine), Noites Florentinas (Heinrich Heine) e O Dicionário do Diabo (Ambrose Bierce). Confesso que destes quatro autores só conhecia Racine. De qualquer modo comecei a dar uma folheada nos livros e ao dar uma passada de olhos no Dicionário do Diabo tive uma imensa e grata surpresa. Como o título sugere, a obra é um dicionário, porém não um dicionário qualquer. Neste livro Bierce lista e comenta diversos verbetes com uma ferocidade, uma ironia e um cinismo fenomenais. Uma zombaria generalizada. Fiquei maravilhado pois tenho a tendência a idolatrar autores que sabem usar o sarcasmo com inteligência, tipo Nelson Rodrigues e Oscar Wilde. Bierce é um igual.

Sintam a fera :

AJUDAR : Fabricar um ingrato.

AMIZADE : Barco grande o bastante para levar dois quando o tempo está bom, mas só um em caso de tormenta.

ANTIPATIA : Sentimento que inspira o amigo de um amigo.

AUTO-ESTIMA : Avaliação equivocada.

BOATO : Arma favorita dos assassinos de reputações.

CASAMENTO : Condição ou estado de uma comunidade composta de um patrão, uma patroa e dois escravos, num total de duas pessoas.

CARRO FÚNEBRE : Carrinho de bebê da morte.

CRISTÃO : Aquele que crê que o Novo Testamento é um livro de inspiração divina, admiravelmente indicado para as necessidades espirituais do seu vizinho. Aquele que segue os ensinamentos de Cristo até o limite em que não atrapalhem uma vida de pecado.

DESOBEDECER : Celebrar com uma cerimônia apropriada a caducidade de uma ordem.

DEVASSO : Alguém que séria e obcecadamente perseguiu o prazer e teve a desgraça de obtê-lo.

DISCUSSÃO : Método de fortalecer nos outros suas idéias erradas.

EGOÍSTA : Pessoa de mau gosto, mais interessada em si própria do que em mim.

EMOÇÃO : Doença prostrante causada pela sujeição da cabeça ao coração. Às vezes vem acompanhada de uma copiosa descarga de cloreto de sódio hidratado proveniente dos olhos.

ENTUSIAMO : Doença nervosa que aflige os jovens e os inexperientes. Paixão que precede um bocejo.

FAVOR : Um breve prólogo para dez volumes de cobrança.

FELICIDADE : Sensação agradável proveniente da contemplação da miséria alheia.

FÊMEA : Alguém do sexo oposto ou injusto.

GALHO : Ramo de uma árvore ou perna de uma norte-americana.

GATO : Autômato flexível e indestrutível, fornecido pela natureza para ser chutado quando as coisas vão mal no ambiente doméstico.

HABILIDADE : Um tolo substituto da inteligência.

HUMILDADE : Paciência necessária para se planejar uma vingança que valha a pena.

IGNORANTE : Pessoa desacostumada a certos tipos de conhecimento familiares a você e conhecedora de outros tipos que você ignora.

INDIFERENTE : Imperfeitamente sensível para diferenciar uma coisa da outra.

LAMENTÁVEL : O estado de um inimigo ou oponente depois de um duelo imaginário.

LAZER : Luxo vedado aos pobres.

MACACO : Animal arbóreo que se sente à vontade em árvores genealógicas.

MATAR : Criar uma vaga sem designar um sucessor.

NEPOTISMO : Prática que consiste em designar sua avó para um cargo público, para o bem do partido.

NOVEMBRO : Décimo-primeiro dos doze avos do tédio.

OCIOSIDADE : Fazenda modelo onde o diabo experimenta as sementes de novos pecados e promove o crescimento de vícios existentes.

OPORTUNIDADE : Ocasião favorável para se ter um desapontamento.

PASSATEMPO : Artifício que estimula o tédio. Exercício moderado para inteligências debilitadas.

PENITENTE : Aquele que vive sofrendo ou aguardando punição.

QUADRO : Representação em duas dimensões de algo enfadonho em três.

RECÉM-CASADA : Mulher com brilhante perspectiva de felicidade pelas costas.

SANTO : Pecador morto, revisado e editado.

SOLITÁRIO : Em má companhia

TRÉGUA : Amizade

VIOLINO : Um instrumento que faz cócegas no ouvido humano através da fricção da cauda de um cavalo nas entranhas de um gato.

VOTO : Instrumento do poder de um homem livre para fazer de si mesmo um idiota e de seu país um caos.

Genial
-----------------------------------------

Sobre Bierce :

Norte americano, nascido em 1842, Ambrose foi o décimo dos treze filhos de Marcus Aurelios Bierce.

A casa onde cresceu , dizem os biógrafos, era estranha e tinha um aspecto macabro. Seu pai era um fanático religioso, amante da poesia e dominado pela mulher. O casal acabou perdendo os três filhos mais novos, fazendo assim com que Ambrose se tornasse o caçula.

Já crescidos os irmãos Bierce se desentenderam e se dividiram em grupos antagônicos, odiando-se mutuamente. Um deles se rebelou contra o fanatismo religioso da família e fugiu para ser artista de circo. Uma irmã, ao contrário, assumiu toda a superstição paterna e viajou para ser missionária na África, onte teria sido, inclusive, devorada por canibais.

Meio sem rumo, o jovem Bierce acabou entrando no exército através da influência de um tio aventureiro. Nesta situação participou da guerra da secessão onde apresentou uma destacada bravura e um certo sentimento suicida. Acabou baleado na cabeça. Depois de curado, e incomodado com a vida de segundo-tenente, pegou uma moeda, jogou para cima e decidiu no "cara ou coroa" se seguiria a vida militar ou entraria para o jornalimo. As forças armadas perderam. Na nova carreira Ambrose se destacou pelas charges políticas e pelos editoriais arrasadores impregnados de sarcasmo. Também foi autor de 68 histórias curtas (ou contos) cujos ingredientes principais são o fantástico, o humor negro e a guerra.

O curioso é que ele teria passado algum tempo aqui no Brasil, mais especificamente em Porto Alegre, atuando como correspondente de Buenos Aires para o jornal Tribune de Nova Yorque. Ele teria enviado ao Tribune um total de 62 cadernos, com 50 folhas cada um, onde analisava os aspectos políticos e sociais da nossa província. Isto pode ou não ser verdade pois o período em questão (1892) é o mais obscuro e indefinido da sua existência. De qualquer forma sabe-se que em 1913 Bierce parte dos Estados Unidos em direção ao México supostamente para cobrir as guerrilhas dos rebelados de Pancho Villa.

Nunca mais foi visto.

"Minha independência é meu patrimônio. É minha literatura. Escrevo para agradar a mim mesmo, não importando quem saia ferido".Ambrose Bierce.

Thursday, August 26, 2004

Tô pagando



O jornal Zero Hora do dia 25/08 trouxe uma pequena reportagem sobre os garis que são obrigados a se afastarem do trabalho devido a acidentes de atividade causados por objetos cortantes que são colocados no lixo sem a devida proteção. O texto registra que por volta de 15% da força está permanentemente afastada devido a estes problemas e fala da falta de cuidado ou da despreocupação dos usuários em acondicionar corretamente os materiais.

A reportagem me fez pensar sobre diversas situações onde simplesmente nós, na arrogância de quem paga para receber um serviço, nos esquecemos de considerar o trabalho das pessoas que o executarão. Achamos que por causa da superioridade de quem remunera, não temos a obrigação de pensar em facilitar a atividade do outro. Isto não é nosso dever.

Alguns exemplos de descaso :

Restaurante :
Descaso = Deixar os pratos, talheres, comidas, guardanapos, palitos, etc, atirados de qualquer maneira, ou seja, deixar a mesa um chiqueiro.
O que pensamos = "Tô pagando.."

Cinema :
Descaso = Deixar latas, pacotes e embalagens jogados na poltrona, chão e arredores.
O que pensamos = "Tô pagando..."

Animais :
Descaso = Deixar os cachorros fazerem cocô em qualquer lugar na rua.
O que pensamos = "Pago meus impostos, os garis que limpem..."

Lixo :
Descaso = Não embalar adequadamente vidros, metais e outros materiais perigosos
O que pensamos = "Se garis não usam luvas é porque não querem. Garanto que a prefeitura fornece..." ou "Tô pagando pelo serviço.."

Descaso = Jogar lixo em qualquer lugar.
O que pensamos = "Se a gente não sujasse, o que os lixeiros fariam?" ou "Pago meus impostos, os garis que limpem..."

e assim por diante...

O curioso é que ao agirmos de qualquer uma destas maneiras até podemos nos sentir um pouco incomodados com nossa atitude, mas logo pensamos no que estamos desembolsando e acabamos por afirmar nossa superioridade frente ao cenário.

Assim, o que fazemos é passar nossos restos adiante e virar o rosto pro lado sem remorso ou preocupação alguma. Vamos nos sentir egoístas ou insolentes por agir assim ?... que nada... Temos mais no que pensar. Afinal, estamos pagando...

Mas, sem ser piegas, será que não é possível pensarmos um pouco mais no outro ?