Teatro ! Teatro ! Quanta porcaria se cria em teu nome!
Agora aqui em Porto Alegre está acontecendo o Décimo Primeiro Festival Porto Alegre em Cena, um festival que se propõe a apresentar espetáculos teatrais nacionais e internacionais a preços populares.
Sou um apaixonado por teatro e, por isto, acompanho o festival há vários anos. Nas realizações deste evento já tive o prazer imenso de assistir peças extraordinárias encenadas com talento e competência. Mas é verdade que também já vi muita porcaria, muita droga que algum imbecil qualquer teve a pretensão de chamar de espetáculo e o displante de torná-lo público.
No Em Cena deste ano, que iniciou no final de semana passado, tive o desprazer de assitir, na seqüência, dois lixos teatrais. Um foi Otelo, de Shakespeare, encenado pelo grupo Folias d´Arte de São Paulo, e outro foi Hilda Hilst in Claustro -que apresentava um grupo de freiras ensandecidas-, encenado pelo grupo gaúcho Depósito de Teatro.
O que é engraçado, ou triste, é que estes dois espetáculos parecem ter sido originados da ignorante cartilha do teatro de vanguarda mais tosco - aquele tipo de teatro que mascara incompetência e falta de aptidão com uma proposta ridícula de transgressão e ousadia.
Esta cartilha se pauta pela obviedade, pela mesmice, mas parece que ainda tem seguidores. Ela diz que qualquer criador que queira chocar o público - e, às vezes, ser chamado de gênio- deve seguir as 11 lições seguintes :
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Lição 1 - Gritos e gemidos.
Os personagens devem gritar muuuiitoooo ou então gemer como se estivesem parindo. Devem emitir berros ensurdecedores, devem uivar, ladrar, relinchar. Emitir o texto claramente? Fazer com que o público entenda as falas? Ué? Porque?.. o que importa é a densidade dos personagens.
Otelo : a peça têm mais de três horas de duração. Deu pra entender o que os atores falavam, no máximo, uns 30 minutos.
Hilda Hilst : consegui entender uns 30% da peça.
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Lição 2 - Nudez.
Isto é imprescindível em qualquer peça moderna de vanguarda. Atores e atrizes devem aparecer nús para provar que não têm pudores. O que importa é a arte, a proposta do trabalho.
Otelo : homens nús com capa de chuva transparente, homens de fio dental, mulheres nuas se roçando nas paredes, entre outros
Hilda Hilst : seios, vaginas e nudez completa à vontade.
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Lição 3 - Sexo.
Muito sexo deve ser jogado na cara do recatado público.
Otelo : masturbação e roça-roça
Hilda Hilst : garota aprendendo fazer sexo oral, freiras lésbicas em pleno ato.
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Lição 4 - Palavrão.
Muita boca suja, muito baixo calão, aos berros na frente da audiência.
Otelo : Shakespeare realmente não merecia isto. Foi de arrebentar os nervos ver os personagens falarem tantas obcenidades.
Hilda Hilst : as freiras deveriam lavar a boca com sabão.
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Lição 5 - Cristianismo.
Para mostrar que são transgressores mesmo, estes espetáculos devem associar algum tipo de baixaria à nossa inocente moral cristã.
Otelo : não apresentou algo neste sentido, pelo que me lembro.
Hilda Hilst : muita cruz e muito Jesus associados à podridões e baixarias generalizadas.
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Lição 6 - Sangue.
De preferência espirrado pela boca. É para chocar, ainda não entendeu?
Otelo : personagem com o sexo decepado, tortura com afogamento num balde de alumínio. É óbvio que Otelo tem sangue, guerras e assassinatos, mas deram um jeito de inserir cenas sanguinolentas totalmente gratuitas.
Hilda Hilst : freira se auto-mutilando com uma tesoura, freira chicoteando outras.
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Lição 7 - Necessidades fisiológicas.
Escatologia é básica.
Otelo : personagem defecando
Hilda Hilst : freiras urinando.
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Lição 8 - Outros fluídos.
Pra mostrar que os atores se entregam mesmo à arte.
Otelo : vômito e baba bovina em vários momentos.
Hilda Hilst : vômito e baba bovina em vários momentos.
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Lição 9 - Drogas.
Dependência química dá ibope.
Otelo : personagem cheirando cocaína aos montes. Álcool também.
Hilda Hilst : nada neste sentido, mas as freiras comiam batatas como loucas (e se babavam, é claro).
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Lição 10 - Adeus palco.
Deve ser quebrada a quarta parede. O público deve ser inserido na cena; é o chamado teatro interativo.
Otelo : as arquibancadas se moviam, aproximando e afastando o público das cenas.
Hilda Hilst : a peça foi encenada no pátio de um hospital psiquiátrico. O público não sabia para que lado olhar para acompanhar a ação (ou falta de).
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Lição 11 - Mensagem.
É claro que um espetáculo destes é bem metafórico, bem simbolista. Assim, cabe ao público expremer seu próprio cérebro para captar a proposta, a mensagem, a revelação nas entrelinhas da peça.
Otelo : confesso minha ignorância, não entendi nada. Principalmente a abertura e fechamento da peça com a canção New York, New York
Hilda Hilst : confesso minha ignorância, não entendi nada. Principalmente a cena das três irmãs siamesas grudadas pela vagina.
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E o público?
Me desculpem mas também não entendo.
No Otelo teve alucinados aplaudindo em pé e gritando "bravo".
No Hilda Hilst, pelo menos as atrizes não ficaram para esperar a reação do público - cada uma se fechou num quartinho e por lá ficou-, mas mesmo assim duas pessoas aplaudiram o cenário vazio.
Acho que eles entenderam a arte...
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Ainda bem que o Em Cena ainda não terminou. Espero ver coisas boas nos próximos dias...