Final da década de 60. Interior do Rio Grande do Sul. Sem televisão. Tudo chegava através do rádio : músicas, notícias, radio-novelas. Crianças. Diversão com gibis, cinema e livros. Eu, com menos de 10 anos. Minha irmã, um pouco mais velha, já curtia algumas coisas estranhas tipo : Elvis Presley, Beatles, Marisol, Jovem Guarda, Turma da Praia (Frank Avalon, Anette Funniciello). Fui na onda e comecei a gostar também. Longe de tudo, esperávamos ansiosos pelos filmes que traziam nossos ídolos em imagem e som. Começou ali a influência dela sobre minha vida. Depois, década de 70, já com televisão. Novas brincadeiras : Nacional Kid, Terra de Gigantes, Viagem ao Fundo do Mar e, é óbvio, Jornada nas Estrelas (algo marcante para o resto da vida).
O tempo passando e ela desabrochando. Tornou-se uma das mais belas da cidade. Participou de dois concursos de beleza. Popular e antenada, cheia de amigos, simpática. Leitora voraz - Harold Robbins, J.M. Simmel, Sidney Sheldon, Ira Levin, Irving Wallace-. Amante de mitologia greco-romana, colecionava fascículos de uma coleção a respeito do tema e nos fascinava com aquelas histórias trágicas e belas. Não parava de apresentar novidades; mais e mais descobertas. Na cola vieram : Mercedes Sosa, Elis Regina, Caetano, Chico, isto sem falar na coleção de mais de 50 fascículos (com LP!!) dos Grandes Compositores da MPB. E o rock? Agora era Black Sabath, Nazareth, Susy Quatro, Pink Floyd, Led Zeppelin. Com a perda do meu pai tive que começar a trabalhar cedo. Com um dos primeiros salários que recebi ela “me obrigou” a comprar um LP do Led Zeppelin (aquele que tem Moby Dick). Depois, comigo já seduzido, lembro que compramos em sociedade o clássico “Phisycal Graffity” –um álbum duplo do Led que era muito caro e não dava para um de nós bancar sozinho-.
Muito assediada, logo começou a namorar. Família marcando em cima. Ela, rebelde, dava um jeito de fazer o que queria. Eu, admirando-a. Tínhamos nossos segredos. Mas alguma coisa começou a mudar. Ao entrar na adolescência me tornei introspectivo, encimesmado, mais lua. Ela era toda sol, aberta e agora com novo namorado - talvez algo mais sério. Logo casou e se afastou. Senti falta. Eu não tinha mais em quem me espelhar. Dificuldades, mudanças, novos arranjos.
Depois nos afastamos geograficamente. Os contatos ficaram mais esparsos. Interesses diferentes. Novas vidas. Amor à distância.
Porém quis o destino que nos aproximássemos novamente. Hoje moramos na mesma cidade, estamos perto. Ela uma senhora re-casada e eu ... um senhor re-casado. As pessoas que hoje partilham do nosso viver - maridos, amigos, filhos, parentes e conhecidos – sabem muito de nós (principalmente, é verdade, as neuras). Porém eu e ela vamos ter sempre uma conexão só nossa, a qual ninguém poderá entender, para o resto da vida.