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Friday, October 03, 2014

Livro - Rin Tin Tin - A Vida e A Lenda


“Rin Tin Tin - A Vida e A Lenda”, de Susan Orlean (Editora: Valentina) é um livro para a terceira idade? Para aquela geração, tipo dos anos 60 e 70, que cresceu assistindo “As aventuras de Rin tin tin” nas velhas televisões preto e branco ?

Crianças que acompanhavam mesmerizadas as aventuras do valente cão pastor alemão, companheiro do garoto Cabo Rusty ( que gritava Yo ho Rinty! Toda vez que necessitava de ajuda), juntamente com o atrapalhado Sargento O`Hara e o Tenente "Rip" Masters ?


Bem, sim e não.

Para mim, que fiz parte desta geração, o livro me levou a reviver emoções e sonhos da infância quando eu meus irmãos e amigos sonhávamos ter um cão tão nobre e inteligente quanto Rinty (e chegamos a ter um pastor alemão, mas ele acabou sendo dado a um fazendeiro depois de morder a bunda de um garoto numa festa de aniversário lá em casa).

Mas o livro não é só para os saudosistas. Na verdade “Rin Tin Tin - A Vida e A Lenda”, é uma saga de obsessão, paixão, sucesso e ruína quase inacreditável, retratada na vida de várias pessoas que dedicaram suas existências a construção e defesa de um sonho, e que sofreram (alguns duramente) as consequências das suas escolhas e caminhos.

E isto, afinal, é universal.

No livro acompanhamos basicamente três figuras :

1) Lee Duncan, um jovem soldado americano (com um forte sentimento de orfandade), que encontra – numa campanha na França durante a Primeira Guerra em 1918 - uma ninhada de cães numa cidade arruinada, e faz das tripas coração para cuidar e transportar dois filhotes para os EUA (um macho e uma fêmea).
Lee e Rinty filhote

Lee fica obcecado com o“machinho” (chama-o de Rin Tin Tin. Como surgiu este nome ? Leiam olivro. É muito legal mesmo sua origem),  e dedica praticamente todo seu tempo para treiná-lo.

Nesta relação, Rin Tin Tin acaba desenvolvendo habilidades extraordinárias e um comportamento “inteligente”, o que leva Lee a crer estar diante de um cão superior, com um diferencial único (o que era verdade).

Nesta época (início dos anos 20), a indústria hollywoodiana crescia nos EUA e Lee – depois de algumas bênçãos do destino – consegue transformar Rinty num astro das capaz de arrastar multidões aos cinemas.

Então dono e cão tornam-se personalidades nacionais com direito a muitos prêmios, red carpet, mordomias e muita grana.

 Mas a coisa não podia durar para sempre e Lee passa da glória à bancarrota com o advento do cinema falado e a morte do pioneiro Rin Tin Tin (a descrição do envelhecimento e últimos anos de vida do primeiro Rinty é “de chorar”).

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Herbert Leonard
2) Herbert “Bert” Leonard, um gerente de produção nova-iorquino (super brigão), que decide investir num programa de TV tendo Rin tin tin como astro, nos anos 50, resgatando o herói canino do ostracismo.

Não preciso dizer que o programa foi um sucesso mundial, o que tornou Leonard um milionário muito influente no negócio de entretenimento televisivo (ele produziu mais duas séries de sucesso “Rota 66” e “Cidade Nua”).

Com a morte de Lee, Bert assume (na verdade herda) o legado de Rin Tin Tin. Porém, a partir daí – com o mundo em mudança, onde a figura do cão herói se torna um tanto anacrônica - , a carreira do produtor só vai ladeira abaixo com uma mistura de “idéias geniais”, fracassos, investimentos, dívidas enormes e decisões absurdas num conjunto de estripulias que o levou cada vez mais ao fundo do poço.

De qualquer forma é impressionante acompanhar a fixação de Bert com a figura de Rin Tin Tin e sua luta para, mesmo causando danos materiais e emocionais a si próprio, manter a integridade da simbologia do cão.
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3) Daphne Hereford uma mulher determinada cuja avó, apaixonada pelo cão, ... “estava tão decidida a ter um herdeiro dele que em 1956 descobriu o endereço de Lee Duncan e enviou-lhe uma carta pedindo um filhote.

 “Toda a vida eu quis ter um Rin Tin Tin”, ela escreveu, acrescentando, antes de perguntar o preço: “Eu não sou uma dessas texanas ricas que tem por aí. Sou uma mulher simples, criada num sítio.” 
Daphne Hereford

Disse que queria começar “um legado vivo de Rin Tin Tins em Houston”, e prometeu que se Lee lhe enviasse um filhote, ela devolveria imediatamente a caixa de transporte por correio. Impressionado com tanta determinação, Lee concordou em conceder-lhe um filhote de Rin Tin Tin IV, “de excelente qualidade”. 

Quando a avó morreu, em 1988, Daphne assumiu a tutela do legado. Ressuscitou o Fã-Clube Rin Tin Tin e registrou todas as patentes que pôde, relativas a Rin Tin Tin. 

Todo o seu dinheiro ia para os cães, o fã-clube e outros projetos relacionados. Morava numa pequena casa de cômodos em Latexo, Texas, e se virava como podia com as despesas.

Para Daphne, tratava-se de preservar a estirpe dos Rin Tin Tins, que se podia traçar passado adentro — cão após cão, geração após geração, com um ou outro percalço, mas jamais interrompida — de Old Man (que era o seu Rinty) até o primeiro Rin Tin Tin e, o mais importante, a ideia original: aquilo que você ama de verdade nunca morre.
 
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Após a morte de Lee, Daphne e Bert, distantes um do outro e cada um a sua maneira, dedicaram suas vidas a preservar a iconografia do cão. Porém, num absurdo acaso do destino, envolvendo o astro Lee Aaker (Cabo Rusty), acabam entrando em conflito.

Lee Aaker - decadência total
E por falar em Lee Aaker e demais atores da série, de modo geral o saldo para todos, depois do encerramento de “As aventuras de Rin Tin Tin”, foi negativo. Principalmente para o astro infantil. Aliás o lance dele com o impostor Paul Klein (leiam o livro) é algo, digamos, “bizarro”.

Mas “A Vida e A Lenda” vai além da história de Rin Tin Tin e os humanos que se envolveram com ele. Vai além e muito. Na narrativa, Susan constrói um fenomenal panorama histórico e social relacionado a relação do homem x cão (e de resto com outros animais domésticos).

É maravilhoso acompanhar as transformações das “utilidades” dos cães através das décadas; partindo de animais de pastoreio e vigilância, passando por “soldados” de guerra e outros usos (principalmente em shows), até transformarem-se em leais companheiros e amigos do homem, no sentido que vemos hoje (com até certo exagero, é verdade).

Enfim, um livro magnífico para qualquer um que se interesse pelo Rin Tin Tin, por história, por cães, por televisão, por cinema, por amizade, por companheirismo e sonho.

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EXCERTOS :
 
A AUTORA FALA DA SUA RELAÇÃO PESSOAL COM RINTY :
 
Naquela época, a década de 1950, Rin Tin Tin era universal: estava em toda a parte, como que impregnado no próprio ar. Eu tinha só 4 anos por ocasião da sua primeira temporada na TV, de modo que a minha lembrança se resume a alguns rabiscos esmaecidos. 

Susan Orlean
Como, porém, meu irmão e minha irmã assistiam ao programa religiosamente, o mais provável é que eu me aboletasse ao lado deles para assistir também. 

Quando se é tão pequena, coisas assim são simplesmente absorvidas: elas se tornam parte de você. A sensação que trago em mim é a de ter conhecido Rin Tin Tin a vida inteira, como que por osmose. 

Ele é parte do meu ser, como uma cantiga de ninar que sou capaz de repetir sem saber de onde tirei. Sobre o ruído de fundo da minha primeira infância, eu percebo nitidamente um toque de corneta, um menino chamando “Yo Rinty” e um cachorrão saltando de um lado para o outro da tela, sempre a postos para salvar a pátria.
 
LEE ENCONTRA A NINHADA NUMA CIDADE ARRUINADA DURANTE A PRIMEIRA GUERRA (1918)


Seu relato nos garante que ele caminhou pelo campo inventariando o lugar (...) Familiarizado com cães, ele notou que a construção de concreto, longa e baixa, localizada na margem do campo era um canil, provavelmente construído pelos alemães para seus soldados caninos. Lee foi até lá dar uma espiada. 

Quando seus olhos se adaptaram à escuridão, o que viu foi uma carnificina infernal: vinte e poucos cães mortos por bombas de artilharia. Entrou no canil, passando por entre os corpos. 

Eram claramente cães militares. Um deles tinha uma gaiola de pombo-correio amarrada às costas, com dois pombos ainda vivos. Lee os libertou. Em meio ao silêncio, escutou ganidos. Seguindo o som até o fundo do canil, encontrou, no canto mais afastado daquela ruína sinistra, uma desesperada fêmea de pastor-alemão com uma ninhada de cinco filhotes.
 
DESCRIÇÃO DO PRIMEIRO RIN TIN TIN 
 
( ...) Rinty tinha 3 anos. Perdera a fofura de filhote, mas adquirira um manto lustroso e escuro, quase  negro, com raias douradas nas patas, mandíbula e peito. 


A cauda era peluda como a de um esquilo. Não era demasiado alto nem demasiado largo, não tinha um peito particularmente profundo nem patas especialmente longas e musculosas, mas era vigoroso e ágil, tão ligeiro quanto um cabrito montês. 

Tinha orelhas comicamente grandes, como duas tulipas, e bastante afastadas pelo largo crânio. 

Seu focinho era mais impressionante do que belo e a expressão preocupada, compassiva e generosa: em lugar da típica excitação canina, expressava um quê de sensibilidade, a melancolia de quem observa com tolerância e resignação a aventura de viver, lutar e ter esperança.
 
O PRIMEIRO RINTY PARTICIPA DE UM CONCURSO DE HABILIDADES, É FILMADO E, COMO SE DIZ, O RESTO É HISTÓRIA
 
Rin Tin Tin e uma fêmea chamada Marie foram os finalistas na competição de salto. A barreira, um muro de pranchas de madeira, foi colocada a 3,50m de altura. Ambos a superaram. A barreira foi, então, elevada 8cm para o desempate. O árbitro e seus assistentes se reuniram ao lado para ver de perto. Marie foi a primeira. 

Ela saltou por sobre o muro, mas bateu na prancha superior com as patas traseiras. Rin Tin Tin se preparou. “Charley Jones manteve o foco da câmera em Rinty enquanto ele levantava voo e aterrissava do outro lado”, escreveu Lee. “Rinty saltou mais alto que a cabeça do árbitro e todos os outros.” 

Vencera um obstáculo de quase 3,60m, um feito impressionante para qualquer cão, que dirá para um que pesava apenas 38kg. Jones ficou encantado com a nova câmera e a filmagem. Lee presumindo tratar-se de um experimento fortuito, pareceu não lhe dar
muita atenção: estava mais interessado nas menções que Rinty recebeu nos jornais de Los Angeles. 

Decidiu, então, iniciar um álbum de recortes, “sem jamais ter sonhado”, como escreveu, “que um dia Rinty estaria nos jornais de todo o mundo”. 

O filme do salto de Rin Tin Tin permaneceu, no entanto, na mente de Lee, porque nas semanas seguintes à exposição ele foi tomado por um renovado desejo de colocá-lo em Hollywood. 

“Eu fiquei tão excitado com a perspectiva do cinema que pensava nisso dia e noite”, escreveu. “Eu estava interessado em filmes, não em armas.”
 
(...) 

O prazer de Lee era o seu cachorro. Pelo que se deduz de seus cadernos, tinha poucos amigos, nenhum interesse por garotas e hobby algum que não incluísse o seu cão. Achava, também, que Rin Tin Tin dava “sinais de gênio”. 

Depois de ler “Por que Não Fazer o seu Hobby Render Dinheiro?” em 1921 e de sentir a influência de Hollywood, que ficava bem perto de sua casa, decidiu fazer exatamente isto: escrever um roteiro para um filme que tivesse Rin Tin Tin como astro. Queria ganhar o concurso da revista, mas começou também a pensar no passo seguinte — convencer um estúdio a fazer um filme “estrelando Rin Tin Tin”.
 
LEE PENSA NO ROTEIRO DO PRIMEIRO FILME DE RINTY (WHERE THE NORTH BEGINS)
 
Lee não só acreditava ter essa “faculdade de escrever histórias” como até já produzira uma, inspirada num conto popular sobre um príncipe e seu amado cão. Dizia o conto que o príncipe Llewellyn caçava lobos em sua propriedade certa manhã quando deu pela ausência de seu cão, Gelert, companheiro de todas as horas. 

Retornando ao castelo, Llewellyn foi ao quarto do filho imaginando que o cão estivesse dormindo ao seu lado. O que encontrou, no entanto, foi uma desgraça: a cama ensopada de sangue e o cão encolhido num canto. 

Entendendo que o cão havia matado o seu filho, o príncipe, furioso, desembainhou a faca de caça e estripou-o. Enquanto o cão agonizava, porém, Llewellyn percebeu um movimento ao lado da cama. 

O menino estava deitado,incólume, junto ao corpo de um lobo, que Gelert obviamente matara para protegê-lo. Llewellyn logo se deu conta do terrível engano, mas era tarde demais para salvar o cão. O ato final de Gelert, antes de sucumbir, foi lamber a mão do príncipe, perdoando-lhe o erro fatal

Lee deu ao seu roteiro o título Where the North Begins. Em lugar do príncipe, seu personagem principal era um caçador de peles; o cão era um animal extraviado que fora criado por lobos. 

O caçador, Dupre, passa a confiar no cão por tê-lo ajudado a enfrentar o proprietário de uma feitoria e seu capanga. Um dia, Dupre é instado a sacrificar o cão por ele ter matado uma criança. Ele concorda, relutante, mas o cão foge e se junta a um bando de lobos. 

Quando, mais tarde, Dupre descobre que a acusação era falsa, vai à floresta e encontra o cão. Em vez de rejeitar Dupre por tê-lo traído, o cão o recebe sem rancor e eles voltam a ser leais companheiros. 

O cenário era outro, mas a história de Lee mantinha intactos os temas da lenda de Llewellyn: a intimidade entre um homem e seu cão; a virtude do cão e sua muda resignação à falsa denúncia; o efeito obnubilante da ira; a capacidade do cão de absolver e perdoar; a necessidade humana de culpar; o generoso martírio do cão, assimilável ao de Cristo.

 Para um homem como Lee, que fora abandonado pelo pai, a história de um pai tão devotado ao filho que seria capaz de matar por ele devia ser uma deliciosa fantasia
 
TRECHOS DE CARTAS DE FÃS A LEE
 
001 . “Esse pastor-alemão teve uma participação tão destacada na minha infância que eu nunca poderei esquecê-lo. Finalmente tenho a oportunidade de agradecer-lhe, Sr. Duncan, por ter tido um papel nessa história tão bonita, por ter tido um papel nos dias felizes da minha infância, por ter encontrado esse prodigioso cão-prodígio que é Rin Tin Tin.”


002. “Caro Sr. Duncan, nós adoraríamos ter um cachorro igual a Rin Tin Tin. Dawn trabalha de babá para juntar dinheiro, e Chris vende manteiga para a gente poder comprar um. Michael economiza tudo o que ganha, e Gail também trabalha de babá e vende manteiga. Já juntamos mais de 22 dólares e 55 centavos. Se não for suficiente, por favor escreva-nos dizendo quanto precisamos economizar.” Lee respondeu-lhes dizendo que eles teriam um filhote se conseguissem juntar 25 dólares no fim do mês. ( ... as crianças ganharam seu cão e ficaram maravilhadas...)

CAROLYN, FILHA DE LEE, QUE SEMPRE TEVE A IMPRESSÃO DE QUE SEU PAI GOSTAVA MAIS DOS CÃES DO QUE DELA.

Em meio à torrente de atenções criada pelo programa (de televisão), Carolyn e sua mãe se esforçavam para se adaptar à versão mais recente da sua vida doméstica.

 Nunca fora fácil conviver com o cão famoso, e com o homem famoso por trás do cão, mas agora era menos ainda, especialmente para Carolyn, que certa vez me disse ter tido “a infância mais estranha do mundo”. 

Todas as crianças que conhecia assistiam ao programa e fantasiavam viver a vida dela, com Rin Tin Tin em seus quintais.  Ela, no entanto, sentia-se perdida, uma espécie de adendo — a reles e deselegante irmãzinha de um cão.

A SÉRIE DE TV PERDEU O SENTIDO DIANTE DAS MUDANÇAS SOCIAIS DA DÉCADA DE 50 E 60
 
(crianças e jovens) ... mudavam de atitude e, sobretudo, que começavam a se tornar independentes de seus pais, elas se convertiam numa força renovada e poderosa, refletida pela cultura popular. Em 1956, surgiram Marlon Brando, Elvis Presley, o American Bandstand e Uivo, de Allen Ginsberg; em 1957, On the Road, de Jack Kerouac, e em 1959, Almoço Nu, de William S. Burroughs. 

Em 1955, o filme Rebelde sem Causa, com James Dean fazendo o papel de um adolescente desajustado, foracelebrado como o retrato definitivo dos subúrbios norte-americanos, e Sementes de Violência, com seu elenco de jovens antissociais e a primeira trilha sonora de rockand-roll da história do cinema, mostrara os adolescentes urbanos como indivíduospredatórios e cruéis. 

A doce promessa do pós-guerra — uma vida cômoda e abastada em comunidades-dormitório povoadas de bebês de bochechas rosadas — vinha azedando. 

As comunidades-dormitório afluentes eram mortalmente enfadonhas, e seus bebês, agora, adolescentes entediados. Um cão herói e uma tropa de cavalaria começaram a parecer relíquias de um passado distante.
(…)
Ele (o seriado) era antiquado, construído sobre a crença na bravura e a afeição inocente de um menino por um cão. Não bastasse, havia também um inabalável respeito pela autoridade oficial — como disse Rip Masters, em mais de um episódio: “Desafiar a autoridade do governo dos Estados Unidos não compensa!” Afinado, em seus primórdios, com o espírito da época, o seriado parecia agora um tanto fora de passo. O mundo vinha mudando. Contestar era a palavra de ordem.

RINTY, VALORES E RECOMPENSAS.


“Essa receptividade universal só pode ser entendida tendo-se em conta que o seriado de TV e os valores que ele projeta e defende — coragem, lealdade e decência — se tornaram tão identificados com a tradição norte-americana de justiça, fraternidade e liberdade quanto o beisebol, o hambúrguer e o futebol das tardes de domingo.”
(…)
“Porque”, disse Bert, vagarosamente, “nós (...) pensávamos — eu, pessoalmente, achava que essa era uma excelente maneira de contar pequenas histórias morais. 

Por isso Rin Tin Tin foi um grande sucesso: durante todos esses anos, ele veiculou experiências de vida simples e positivas que expressam a mais autêntica recompensa pelas boas ações, o amor e a relação com o cão, o menino, a cavalaria e tudo o que há de positivo na vida americana. 

E fizemos isso não apenas... não era só uma questão de dinheiro. Eu sempre acreditei que, se você fizesse uma coisa que valesse a pena, ganharia muito dinheiro. 

E era esse o objetivo, fazer uma coisa maravilhosa com que as pessoas se identificassem, algo de que elas gostassem, e daí viria o sucesso e todas as demais recompensas, morais e financeiras. Foi por isso que eu adotei Rin Tin Tin”.
 
A OBSESSÃO DE ALGUMAS PESSOAS COM O PERSONAGEM.
 
Em que momento a devoção se converte em cegueira? É impossível uma pessoa idolatrar algo, ou alguém, sem ter alguma capacidade de autoengano e esquecimento. 

Afinal, não há nada perfeito neste mundo — nada que, para continuar merecendo o amor de outrem, não exija, de vez em quando, um desvio do olhar, umouvido seletivo ou um bem calibrado lapso de memória. 
Apaixonar-se por algo ou alguém requer capacidade de relevar o que pode haver de errado com o outro. Até onde, porém, é razoável relevar? 

Até que ponto a lealdade supõe a capacidade de esquecer, de gostar de estar apaixonado; até que ponto ela precisa da verdade? 

Saber graduar a nossa devoção — isto é, ter clara a diferença entre insistir em fazer de conta que não vimos e renunciar rápido demais — parece ser uma aptidão vital, um talento. 

Conhecer nosso limite já seria uma bênção. Parece, no entanto, que estamos condenados a pesar as coisas com um dedo na balança, ora loucos para desistir, ora entusiasmados em excesso.

UM CÃO ETERNO

“Sempre haverá um Rin Tin Tin”, disse Lee Duncan, repetidas vezes, a repórteres, visitantes, revistas de fã-clubes, vizinhos, familiares e amigos. No começo, devia soar absurdo — uma doce ilusão a respeito do animal que amenizara a sua solidão e o fizera famoso em todo o mundo. Mas Lee estava certo: sempre houve um Rin Tin Tin. 

 segundo Rin Tin Tin não tinha o talento do pai, mas era assim mesmo Rin Tin Tin, levando adiante o que o primeiro começara. Depois de Rin Tin Tin Jr. houve Rin Tin Tin III, depois outro Rin Tin Tin, depois outro e mais outro: sempre houve mais um. 

E Rin Tin Tin sempre foi mais do que um cão: foi uma ideia e um ideal — um herói, mas também um amigo, guerreiro zeloso, gênio sem fala, ermitão e sociável. 
 
Foi ao mesmo tempo um cão e muitos cães, animal de verdade e personagem inventado, cachorro de estimação e celebridade internacional. 
 
Nasceu em 1918 e nunca morreu.



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VÍDEOS 
 
Abertura da Série (infelizmente com som meio baixo)


 
Episódio “A Última Patrulha (1955)” -  Dublagem Original


 
Trecho do Filme “Where The North Begins” – Primeiro filme de Rin Tin Tin

Friday, September 19, 2014

Livro - “A condição indestrutível de ter sido”



“Um livro perigoso”. 

Foi assim que defini o “A condição indestrutível de ter sido”, diretamente à autora Helena Terra no encontro de leitores da Livraria Sapere Aude Livros quarta a noite.  

Perigoso ? 

Sim, pois a retratar a paixão de forma tão visceral e real os leitores podem descobrir (ter que enfrentar /  reconhecer ) suas auto fraudes amorosas e  acabarem direto na moldura do desespero.

Helena não deixa pedra sobre pedra ao descrever, com uma escrita absolutamente lapidar, a construção (e desconstrução)  de um castelo de emoções danadas,  impulsionado por uma paixão (imaginária ou não?) que a leva a heroína perigosamente à beira da loucura (ou ela já chafurda o tempo todo nela?).

Sendo assim, é óbvio que “A condição..”  não  se trata de uma história de “amor”, dentro daquilo que poderia ser considerado “romântico”, “belo”, “cor de rosa”. 

Longe disto.
Helena Terra

Na verdade o livro é o quadro de uma obsessão.

A narrativa em primeira pessoa, mostra uma mulher  ensimesmada e com uma forte queda à “vitimização”   (o homem, Mauro / Mau, é um crucificado sem voz),  o que gera áreas nebulosas, incertas, e o resultado é que, mesmo que vejamos a narradora em vários momentos como uma louca e fora da casinha, não há como não nos reconhecermos, em algum ou em vários momentos,  na montanha russa de sentimentos retratados no texto.  

Tipo, quem nunca ?

Tipo quem nunca quis “uma história”, e por isto imagina, cria, afirma, desconfia, engana-se, retrai-se, cai na real e lamenta ?

Livraço.

Sunday, September 07, 2014

Livro–Indefensável

Bruno 001'Indefensável — O Goleiro Bruno e a História da Morte de Eliza Samudio' , de autoria dos repórteres policiaiss Leslie Leitão, Paula Sarapu e Paulo Carvalho (Record 2014), narra de forma brilhante todo o caso do assassinato de Eliza Samudio em 2010, orquestrado pelo ex goleiro Bruno (Flamengo) e seus comparsas (Bola, Macarrão e outros).

O texto é tão vibrante e cinematógráfico que o leitor praticamente se sente como uma testemunha ocular de toda a narrativa.

Nesta vibe super estimulante  acompanhamos a trajetória de um atleta especial, desde sua infância sofrida, passando pela consagração nos campos até a condenação pela morte da ex-amante.

Bruno emerge das páginas como um cara tri esforçado e talentoso (além de carismático e líder) que deslumbrou-se com a grana e a fama (quem não ?) e, a partir daí, acreditou ser um personagem acima do bem e do mal que podia tudo (porém com um cérebro de ervilha); um semi deus intocável que não admitia ser alvo de qualquer tipo de crítica ou cobrança.

Neste quadro de soberba e egocentrismo  (se achando  horrores) o “rei” não admitiu ser alvo das acusações da periguete “maria chuteira”  que foi para a imprensa expor sua situação de mulher grávida e ameaçada.

O poderoso, então, na sua “revolta”, perde completamente a noção e parte para ”eliminar o problema”, que envolveu ameaças, pressão para a realização de um aborto, agressões físicas, tortura e finalmente a morte do incômodo, que foi milimétricamente planejada pelo Macarrão com total aprovação e consciência do capitão rubro negro.

Depois do desaparecimento da garota, acompanhamos as investigações problemáticas, prisões e as sessões dos julgamentos dos criminosos.

Com a descrição dos julgamentos o livro cresce muito,  revelando o quanto as sessões foram conturbadas, com várias idas e vindas de estratégias de defesa (algumas completamente esdrúxulas – tipo a hipótese de romance entre Bruno e Macarrão) , inúmeras manobras jurídicas para botar areia e atrasar ao máximo os processos, troca de advogados a toda hora, etc.

Isto sem falar na absurda tentativa de assassinato do promotor Henri Wagner que teve uma atuação exemplar - a transcrição dos seus discursos são espetaculares - e conseguiu enjaular toda a corja.

Livraço.

Bruno 002

Friday, August 29, 2014

Livro–O Imperador de Todos os Males

O imperador de todos os malesVá entender a criatura que compra um livro com subtítulo de “Uma biografia do Câncer”.

Primeiro, se falamos em “biografia” pensamos na trajetória de vida de uma criatura. Até aí, tudo bem. Mas uma história de vida de uma doença? Ainda mais do câncer, o maior tabu dentre todos os males?

Bem, talvez num momento de “desassociação” (sic) acabei comprando o “O Imperador de Todos os Males”, do Siddhartha Mukherjee (respeitado oncologista da Universidade de Columbia), que pretende traçar um painel da história do Câncer, desde seus primeiros registros históricos, passando pela evolução das formas de tratamento, pesquisas e descobertas , até as mais recentes formas de tratamento.

E não é que o livro é tri bom? Mesmo para um leigo?

De maneira tranquila e sólida,  Mukherjee conduz o leitor através dos tempos e mais variados lugares ilustrando a “luta” do homem contra este inimigo sorrateiro e letal.

E aí se vê de tudo. Desde conclusões e tratamento altamente bizarros, passando pela arrogância de vários “iluminados” que definiam “verdades” absurdas a respeito da doença (o lance das cirurgias invasivas é simplesmente tenebroso), uma mastodôntica fogueira de vaidades (quando se vê que os cientistas – que deveriam trabalhar juntos pelo bem comum – queriam mais é “alcançar o estrelato” com razões bem pouco nobres), esforços e missões pessoais (pioneiros que estudaram e descobriram diversos fenômenos relacionados à doença e que foram rechaçados pela toda poderosa comunidade científica), descaso e disputa da indústria farmacêutica quanto à produção de drogas (sempre com olhos para o ganho / lucro, é claro), além de inúmeras histórias de vida (e morte) de pacientes.

É coisa pra caralho.siddhartha-mulherjee-cancer-size-598

Mas a coisa não fica “só nisto”. Cientista que é (e mirando a diversidade de publico – inclusive o “acadêmico” ), Mukherjee, a partir de certo momento, começa uma viagem fascinante (porém árdua para os leigos – como o meu caso) ao interior da célula, desenhando suas estruturas, fenômenos e funções, num traçado vital para entender a estrutura (da) , o comportamento (da) e o combate à doença (mesmo que várias questões ainda permaneçam obscuras).

E aí tu acaba - de forma aterradora - reconhecendo a “beleza” do câncer - se é que se pode dizer isto -, baseada exatamente no seu poder destrutivo, que na verdade pode ser visto através de outras interpretações e intenções, as quais não tem nada a ver com os interesses do “hospedeiro”.

Livraço.

Trecho do livro pode ser lido Aqui.

Entrevista com o autor pode ser lida Aqui.

Tuesday, August 26, 2014

Livro - Crônicas de um casamento duplamente gay

amazon - crônicasNo final fica a dúvida : O que o Sérgio Viula quer com o “Crônicas de um casamento duplamente gay”?

Pra mim, de cara, ficou a impressão da bicha querer “contar dinheiro na frente de pobre”.  Tipo, olhem como eu sou feliz com meu casamento super bem sucedido, suas invejosas. 

Beijinho no ombro total. 

Sim, pois a real love story de Sérgio com Emanuel é para despertar inveja até na Irmâ Dulce, tamanha é a propaganda do super cor de rosa enlace dos pombinhos.  

Com seu casamento transgressor, os bonitos praticamente  não têm nenhum problema de inserção social, profissional e familiar. São aceitos por todos  indiscriminadamente, e apregoam  aos quatro ventos sua “felicidade blindada”.

Então.sergio viula

…. calma …..

Depois desta leitura inicial maldosa (e, repetindo, invejosa) , surge outra, nova, moderna, libertária, calcada no reconhecimento do desafio, da luta, da queda de barreiras que o livro traz.

Com sua história não isenta de adversidades, o casal mostra que é possível sim o povo lgbt alcançar – desde que comprometido com sua verdade - uma integridade emocional, social e civil e não se enxergar como párias, como condenados a viver à margem.

Neste sentido, então, “Crônicas..”, serve como um farol, uma luz, para todos (gays ou não) que amam e buscam realizar seus sonhos, mesmo expostos a riscos e obstáculos.

Muito bom.

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PS: Sou casado há mais de 12 anos com outro cara (de papel passado e tudo) e nossa relação é assumida perante Deus, Família e Sociedade. Também enfrentamos algumas barreiras, mas afirmo que não existe nada mais recompensador do que viver a verdade.

Monday, August 04, 2014

Livro–Marlon Brando–A face sombria da beleza (François Forestier)

Capa_Marlon Brando.inddPara quem gosta de bafão e baixaria (quem não?) é um prato cheio.

“Marlon Brando – A face sombria da Beleza (Objetiva 2014), de François Forestier, é uma biografia demolidora, daquelas de arrasar a reputação do homenageado.

Como um bisbilhoteiro maldito, ávido por uma fofoca bem “carnicenta”, François não deixa pedra sobre pedra na imagem do ícone do cinema.

Lindo, mimado, bissexual, devasso e arrogante, Marlon foi, de acordo com o autor, a quintessência da estrela afetada que perde os limites, se acha horrores e acaba na mais completa ruína física e emocional ( e quase financeira também) .

Um livro perfeito para quem adora um escândalo.

Excertos abaixo (com alguns comentários meus) :

FAMILIA : BRANDON PAI

(...) “O pai é um homem grosseiro. Comanda a casa como um pequeno tirano.

Sempre com uma bronca na boca, o pulso firme sempre pronto, raramente sorri, vende material de construção para firmas de arquitetura e despreza a mulher, que tem pretensões ao prazer (...) Marlon pai só beija as duas filhas e o filho uma vez por ano. No Natal. No resto do tempo, os castiga. O filho lhe dá tédio. Ele o entrega aos cuidados de tias, de outras tias, e em plena Grande Depressão é um dos raros sortudos com um bom emprego (...) E bebe.

BRANDON MÃE (Dorothy / Dodie)

(...) Ela ( a mãe) queria ser atriz, a tolinha ! Em Omaha, onde os Brando vivem, Dorothy Brando negligencia o lar e os três filhos para se apresentar em pequenas peças com um grupo de estudantes, entre eles um jovem chamado Henry Fonda. Apelidada Dodie, ela é bem conhecida no bairro, onde tempera a monotonia de sua vida com coquetéis (...) Quando não está ouvindo rádio, ou acompanhando apaixonadamente o programa Hollywood Salutes Shakespeare, Dodie bebe. (...) Quantas vezes Marlon filho não vai buscar a mãe, embriagada num bar ou adormecida sobre uma mesa. Ele se envergonha. Diante dos outros clientes, ele tenta então erguer Dodie, ela resmunga alguma coisa, ele a acompanha até em casa, ela se deita e adormece enquanto ele a despe. Ela o encara com olhos de desejo (o livro insinua uma relação incestuosa entre Marlon e Dodie) e depois mergulha em seu próprio turbilhão. Ao amanhecer, está de ressaca. Saindo para o escritório, o marido olha para ela com desprezo mal disfarçado. E se queixa das notas do filho na escola. Grita. As vezes, esbofeteia Dodie.

Ela esconde suas garrafas de bebida por trás da lixeira. Acontece às vezes de passar a noite fora de casa, com desconhecidos: ela ainda é bonita, de uma beleza um pouco severa, mas apreciável para alguns. Dorme com caixeiros-viajantes, marinheiros, bêbados, empregados, entregadores, garagistas. Certa vez, foi parar na cama de um aleijado. Não se lembra de nada. O álcool apaga contornos e lembranças, ainda bem. Marlon pai ameaça sair de casa. E viria a fazê-lo, várias vezes.Quando o garoto traz para casa a mãe embriagada, às vezes o pai sobe com ela para o quarto. Um dia, Marlon filho ouve barulho de pancadas. E então ele vai socorrer. Com 14 anos, ele está consumido pela raiva. Declara: "Se encostar nela de novo eu te mato." Não são apenas palavras ao vento. O pai dá meia-volta. O guri levou a melhor (...)

CLIMA FAMILIAR (Marlon Brando e os pais)

A casa dos Brando está constantemente impregnada de uma raiva surda, uma espécie de negrume elétrico, uma amargura desagradável. Marlon Brando filho vinga-se dessa família sem alegria furando pneus de carros, queimando moscas, maltratando pombos e até escrevendo a palavra "merda" em letras de fogo — com gasolina! — no quadro-negro da escola. O garoto treina para se juntar ao que há de pior. Aperfeiçoa a arte de ser insuportável. (...) Marlon tem 14 anos. Detesta o pai, esse pai que bate na mulher, que nunca está satisfeito com nada, que tem tantas aventuras. Ao mesmo tempo, o garoto quer mostrar-lhe que pode tornar-se alguém. Mas está dividido : por um lado, deseja a morte desse sargento doméstico; por outro, gostaria de receber dele um pouco de afeto. Entre a bofetada e o afago, o adolescente segue em zigue-zague. Mas de uma coisa ele tem certeza: é por causa do marido que Dodie enche a cara. Esse pai odiado e amado é um crápula, pensa o adolescente (...)

INICIAÇÃO AO MUNDO GAY (ACADEMIA MILITAR DE MINNESOTA – CHANTAGEM SEXUAL COM O MESTRE)

“(...) Em Shattuck, na adolescência, Marlon Brando rebelou-se. Essa academia militar de Minnesota, onde seu pai havia estudado e chegado a tenente brando_f01pb_2007110941artilheiro, tinha tudo para desagradar ao jovem Marlon: uma arquitetura severa, com uma torre quadrada e seteiras que não serviam para nada; um ensino fortemente religioso, com certa insistência na teologia; uma disciplina de ferro, imposta sem clemência aos quatrocentos alunos matriculados — todos meninos. Pasta de dente nas maçanetas das portas, janelas caindo sem dobradiças, elevador parado, deveres redigidos em rolos de papel higiênico : Marlon Brando tinha-se destacado por uma imaginação inesgotável no terreno das piadas de mau gosto. Mas os alunos — chamados de "cadetes" — podiam participar do curso de teatro, a cargo de Duke Wagner, o drama coach. Que tinha fama de alcoólatra inveterado e de adorar jovens rapazes. Terá sido, então, no ambiente tempestuoso de Shattuck que Brando se iniciou nos prazeres da intimidade entre meninos? Provavelmente. Pois embora o segredo de Wagner fosse conhecido, ninguMarlon-Brando-marlon-brando-6564427-338-438ém fazia o menor comentário. Brando, por sua vez, enquanto ensaiava “O médico à força”, estava em excelente posição para dominar o coach. De sua parte, não hesitaria em se declarar publicamente. Vítima de chantagem subentendida, Duke Wagner submeteu-se. Em vez de ficar em seu papel de diretor, cedeu sua autoridade : “O médico à força” foi interpretado por um Marlon Brando que dirigia a si mesmo. Tomar o poder à força, destronar os monarcas, castrar os mestres, eis o autêntico prazer. Ainda que ao preço de certos favores sexuais. A partir dali, nenhum outro diretor deixaria de se defrontar com esse dilema : combater Marlon Brando ou submeter-se, humilhado. Resistir ou deitar-se. Marlon Brando gosta dos outros deitados. No fim das contas, ele foi expulso de Shattuck. Inicialmente, por ter fumado. Na realidade, pelas bacanais com outros cadetes.”

NOVA YORK – BOEMIA, DIVERSÃO E SEDUÇÃO

“(...) Ele (Marlon) é de uma beleza inacreditável: nenhum gesto, nenhum sorriso, nenhuma entonação que não sejam sedutores. Ele é a encarnação da sensualidade. Logo o cinema haveria de captar essa graça: nunca terá havido um tórax mais erótico que o de Marlon Brando em “Um bonde chamado desejo”. Mas por enquanto ele frequenta vagamente cursos de teatro, toca bongô com os amigos, circula de blue jeans pelos bairros de má fama, dorme com estudantes, garçonetes, costureiras, mães de família. (...) Dispersa-se em hobbies estranhos. Aprende a posição de lótus, houve ritmos africanos nas boates do Harlem e até tenta se convencer de que pode tornar-se um esgrimista. Mas de nada adianta : o que ele sabe fazer tumblr_m392m9foe41rrugdfo1_400melhor é agradar. Às mulheres, aos homens e até aos animais. Basta olhar para ele e qualquer um pensa em sexo. O que é ótimo: ele tem uma libido infernal. O sexo é sua magia, seu poder, sua arte negra. A vida inteira, ele será um serial lover.”

“(...) Brando é como uma chama, sorri, seduz, não parece fazer esforço algum, conta piadas idiotas, frequenta o Rochambeau, o bistrô dos atores. (...) ele aprende, registra, observa. E vive completamente à deriva. Raramente toma banho, muda de meias nos encontros amorosos casuais, experimenta a dança, não tem endereço fixo, come como possível, compartilha um quarto com seu amigo Wally Cox (e seu provável amante). Às vezes, convida uma jovem a dormir em sua casa, em meio a uma bagunça indescritível, e no inverno, num frio de rachar. Secretárias, empregadas domésticas, costureiras, estudantes, vendedoras, qualquer coisa serve. Para ele, o amor é filho da boêmia: que importância pode ter? E por sinal, o clima no Dramatic Workshop, o clube de Stella Adler (professora de teatro) , é propício a esses confrontos e loucuras, a esse troca-troca, a todo esse caos erótico. Marlon Brando, tão belo, tão desejável, tão sexy, aprende a se valer da noite como uma arma. O sexo é uma forma de dominar, de ser o dono da situação. Às vezes, ele atrai até sua casa uma jovem e lhe pede que lave a louça, "antes de comê-la". Ou que troque os lençóis sujos antes de se entregar ao prazer. Ele brinca como um gato atrás do rato. Acha graça. Mas é um jogo cruel, um riso duro. Para se divertir, dorme com apaixonadas feias. E elas se vão de coração partido. Ele seduz dançarinas, burguesas, moças de boa família. Algumas logo entendem que se trata de um homem que vai machucá-las; outras se deixam maltratar. Uma delas, Elaine Stritch, olha o apartamento, vê toda aquela devastação, bebe um pouco de vinho e começa a chorar. Lá fora neva, a noite caiu. Brando mete-se no pijama e a expulsa. Nunca mais voltaria a falar com ela. Ela cometeu o erro imperdoável de não se deixar magnetizar pelo que Brando já então chama de sua "nobre ferramenta". Que costuma brandir como um cetro.”

“(...) Truman Capote, um dos maiores escritores americanos, publicaria um esplêndido artigo sobre Brando, “O duque em seus domínios”, causando tumblr_mfzdhlnrka1qafm1vo1_500indignação no ator, que se sentiu traído. Mas Capote observou tudo muito bem. Sobretudo como Brando agarra sua presas : “Eu me aproximo muito suavemente. Vou fazendo círculos concêntricos, chego perto aos poucos. E me retiro. Espero. Deixo a incerteza. No momento exato, avanço de novo. E toco. Faço círculos. Elas não entendem o que está acontecendo. Quando se dão conta, foram apanhadas, enfeitiçadas. Eu as tenho em meu poder. De repente, descobrem que sou seu único amigo. Em muitos casos, são pessoas inadaptadas. Não são aceitas, sentem-se magoadas, de uma maneira ou de outra incapacitadas. Mas eu quero ajudá-las, elas podem se agarrar a mim. Eu sou o duque em seus domínios (...)”

“(...) Marlon Brando é desejado por todos. Mas náo está nem aí. Antes de entrar em cena, acostumou-se a se masturbar um pouco, para aparecer com uma meia ereção. Sai na rua descalço, acaricia o guaxinim (seu animal de estimação) que leva a toda parte, provoca as meninas, brinca com os rapazes, não se envolve nunca. Ele é encantador, mas indiferente. Não ama ninguém. Nem a si mesmo. (...)

NOVA YORK - BRANDO NA ESCOLA DE TEATRO DE STELLA ADLER (PROFESSORA E AMANTE)

Ela (Stella Adler) pede aos alunos que imitem galinhas que acabaram de ser informadas de que serão trucidadas por uma bomba A, juntamente com a fazenda, o fazendeiro, sua mulher, os cavalos, o carteiro, o leiteiro, os silos, o celeiro e o saleiro. Imediatamente os estudantes começam a cacarejar, bater asas, correr em todas as direções. Só Marlon Brando não é tomado pelo terror atômico. Fica parado, pousado sobre um ovo, calmo. Stella Adler pergunta-lhe: “ Sua galinha não ficou com medo?”, “ Não”. “ Por quê?”. “ Que diabos uma galinha ia saber de Hiroshima?” -

E foi assim que Marlon, aos 19 anos, tornou-se amante de Stella Adler. Ela gosta da fruta ainda verde. A fruta ainda verde põe a diva para dançar (...)

PRIMEIRA PEÇA E INDISCIPLINA (QUE SERIA SUA MARCA REGISTRADA)

Brando é convidado a participar de ”I Remember Mama”, uma peça desinteressante

mostrando os problemas de uma família (...)

No palco, Brando não tem grande coisa a fazer, mas o faz à sua maneira. Põe sal no café dos outros atores, entra comendo uma maçã, desestabiliza todo mundo o tempo todo.

Nos melhores dias, mostra-se cheio de bom humor. Nos maus, é insuportável. Às vezes de mau humor, às vezes alegre, ele é imprevisível. Entedia-se com facilidade, sua concentração se esvai, mas ainda assim ele fascina os espectadores. Realmente, eletriza todo mundo.

Ele é como o flash de uma câmera: quando se acende, tudo se ilumina (...)

ENVOLVIMENTO COM TALLULAH BANKHEAD

No teatro, aumenta a reputação de Marlon Brando. Por que milagre? Ele é venerado pelos que o cercam. Tem um autêntico carisma, uma espécie de magnetismo animal misturado a uma suavidade de fachada. É divertido, inconstante, juvenil. Quando sobe ao palco, a tradição vai para as cucuias. Ele inventa truques, faz o contrário do que se espera, murmura quando seria o caso de berrar, grita quando lhe pedem que sussurre, não obedece a nenhuma regra. Está constantemente eriçado, transforma tudo. E, sobretudo, é de uma sensualidade divina. De tal maneira que, ao interpretar a peça “A águia de duas cabeças”, de Jean Cocteau, ao lado de Tallulah Bankhead, a eletricidade é palpável. Ela é uma atriz que não tem medo de nada: lésbica,

heterossexual, voyeuse, exibicionista, tudo. Aos 45 anos, é conhecida por suas tiradas assassinas e, sempre antecedida por sua longa piteira, com sua voz cavernosa, não hesita em crucificar com uma palavra os que a contrariam. Um pretendente se manifesta num coquetel, ela se vira para ele e, diante dos demais convidados, ordena: "Suba e comece sem mim." - Às vezes, chega sem calcinha ao estúdio de filmagem. E se senta em sua poltrona com um copo de gim rosado. Os diretores às vezes não conseguem entender a falta de atenção da equipe técnica... Ao conhecer Marlon Brando, ela o quer para si. Violentamente. Ele, estranhando aquela mulher masculina (e mais velha), recua, para variar. Mastiga alho, inventa desculpas, sai de fininho. Por fim, na casa dela, permite que ponha a mão sob seu jeans. Por baixo. Explicaria que queria saber se era possível chegar por ali até a nobre ferramenta. Resposta: sim. - E então tira férias em Provincetown.

PROVINCETOWN – COMUNIDADE GAY

(...) O cheiro de província é temperado pelos habitantes locais. Pois há muito tempo Provincetown foi colonizada pelos homossexuais. ( ...) No centro da vida social da cidadezinha, uma bicha louca: Clayton Snow. Ele é dono de um bar, o Ace of Spades, particularmente apreciado pela comunidade lésbica. (...) No Ace of Spades, a fofoca é obrigatória, as ligações longas, desaconselhadas, as aventuras de uma noite, recomendadas, e quando Marlon Brando aparece, todos os olhares se voltam para ele. tumblr_mai9obIAl81rrugdfo1_500Brando entra na minissociedade de Provincetown como uma bomba. E Clayton Snow, conhecido como Claytina, dá a entender a todo mundo que o visitante se mostrou encantador com ele. Brando não diz nada. Ele não tem dinheiro, está à mercê da "generosidade de estranhos". E se deixa levar. "Eu sempre contei com a generosidade de estranhos": é a fala mais famosa de Blanche DuBois em ”Um bonde chamado desejo”. No meio gay, Marlon Brando fica perfeitamente à vontade. Ele se instala na casa de Clayton Snow e deixa o tempo correr. Claytina se vangloria de conhecer as dimensões do instrumento de seu protegido, e faz o gesto: "Deste tamanho!" Os frequentadores e frequentadoras do bar ficam pasmos. E soltam as línguas — em todos os sentidos da expressão. Alguns conhecem Wally Cox, o amigo de Marlon Brando, e imaginam uma love story entre os dois. Outros limitam-se a ficar contemplando todo aquele circo. Uma eternidade depois, em 1976, metido num vestido florido, Marlon Brando interpretaria, em Duelo de gigantes, um travesti assassino. Chamado Clayton.

“UM BONDE CHAMADO DESEJO” NO TEATRO

DIRETOR : Elia Kazan

BLANCE DU BOIS : Jessica Tandy

STELLA : Kim Hunter

(...) Aos poucos, Brando entra na pele de Stanley Kowalski, o valentão de “Um bonde chamado desejo”. Afirma que ele é um homem "de punhos cerrados". Bem sacado. A cada dia que passa, o ator parece estar sofrendo. Kazan o apoia, dá-lhe conselhos, ouve-o. Que será que esse estranho rapaz tem nas entranhas? Ninguém sabe. Mas Kazan pressente o gênio. Choca sua cria. - O problema é que Jéssica Tandy não está acostumada a trabalhar assim. Ela recebe um texto e trata de decorá-lo, recitá-lo, trabalhá-lo, ensaiá-lo; sempre na linha. Marcam um encontro, ela comparece na hora. Mas não Brando. - Jéssica Tandy vê como ele se veste com jeans molhados que, ao secarem, vão modelar sua nobre ferramenta. A figurinista, consciente do

espetáculo, compra sete pares de Levis para Marlon. Que secretamente ensaia com Stella Adler. Ele nunca respeita suas marcas de cena, brinca com acessórios, muda suas entonações, desestabiliza com frequência os outros atores. Não tem a menor generosidade, não cede em nada. Se puder atrair o olhar do público arrotando, ele arrota. Toda noite, quebra o telefone, batendo com muita força, para desespero do contra-regra. Faz barulho com os pratos no momento em que Jéssica Tandy tem uma fala importante. Diz a um repórter que a atriz foi ameaçada de morte (uma mentira). Diz a marinheiros de folga que ela está disponível e que gosta de bacanais (ela teria dificuldade de se livrar desses admiradores no cio). Põe excrementos de cachorro na geladeira. Entra em cena de braguilha aberta. - Às vezes, entre duas cenas, Brando luta boxe com técnicos e dublês. Um dos atores substitutos, irritado, lhe acerta uma direita. Brando fica de nariz quebrado. Falta de sorte: deu com um mal-encarado, que foi mineiro e tem mãos de estrangulador. Ele se chama Jack Palance e viria a se tornar um dos maiores vilões do cinema mundial, (...)

Apesar do nariz quebrado (e rapidamente consertado por um cirurgião plástico), Brando não se acalma. Solta Russell, seu guaxinim, nos camarins. O animal suja tudo. Jéssica Tandy escorrega nos excrementos. Fica revoltada. Mas escreve-lhe um bilhete, para fazer as pazes: "Um dia você poderá ter a estatura de Laurence Olivier, se quiser." Brando exulta. Comporta-se como um marginal, mas ao mesmo tempo dá vida ao texto. Transforma a peça, ilumina-a. Kazan, que adora conflitos represados, ciumeiras de cena, perfídias de bastidores, fica feliz.

(...)

Em 3 de dezembro de 1947, chega a estreia de Um bonde chamado desejo no Ethel Barrymore Theatre, na lendária 47th street. A peça ficaria em cartaz por 855 apresentações. Durante 855 noites, Marlon Brando se esforça para estragar tudo. A maneira de dizer um texto, de se movimentar, a encenação. Diariamente, rema contra a maré. Toda noite, Jéssica Tandy e Kim Hunter saem do Ethel Barrymore Theatre furiosas. Uma delas se inclina em dado momento da representação? Brando mete um cigarro no nariz. Risadas garantidas. Jéssica Tandy vira-se de costas? Ele se coça entre as pernas. Gargalhadas garantidas. Ele é capaz de sair de cena em plena fala, de bocejar enquanto ela lhe dá a réplica. Para ela, é um inferno. Para ele, uma brincadeira. Tanto mais penosa na medida em que ele não toma banho. Cheira a suor, usa camisetas encardidas. O cheiro de transpiração é desagradável. Ou excitante. Varia. Ele agora encarna por completo o personagem de Stanley Kowalski. Detestável, desejável, violento, brilhante.

“UM BONDE CHAMADO DESEJO” - O FILME

DIRETOR : Elia Kazan

BLANCHE : Vivien Leigh

O primeiro dia de filmagem é uma catástrofe. Vivien Leigh aproxima-se de Kazan,

recusa suas orientações e, de queixo erguido, diz: "Não foi assim que meu marido e eu interpretamos esta cena!" (referindo-se ao grande Lawrence Olivier, seu esposo) Brando provoca mais: "Por que você é tão... inglesa?" É o Actors Studio contra o Old Vic. Brando precisa de tempo para resgatar as emoções, buscar em si mesmo. Vivien Leigh interpreta seu texto. Mas sob a direção autoritária de Kazan ela se deixa tomar pelo personagem de Blanche DuBois. O clima de desejo, de sensualidade do texto de Tennessee Williams a transforma. De grande dama, ela se transforma em vendedora de peixe histérica. Enquanto Marlon Brando recebe no camarim visitantes carentes de amor, (...) Uma das frequentadoras assíduas de Brando, conhecida como Irmã Beth, é um caso patológico. Chega sempre vestida de freira, nua por baixo da túnica de tecido grosseiro, e se ajoelha. Abaixa a cabeça e pede perdão por seus pecados. Antes, porém, padre Brando deve ouvir a enumeração. E ela conta com muitos detalhes peripécias eróticas cada vez mais obscenas. Vira-se então, suspende a túnica, oferece seu purgatório. A única penitência imposta pelo ator é uma pequena palmada, ao mesmo tempo que mergulha "a nobre ferramenta na água benta". É o aspersório da absolvição. - Vivien Leigh por sua vez evolui para uma demência que ninguém é capaz de prever aonde vai dar. De tempos em tempos, entra em conflito com Kazan.

E com a mesma regularidade é surpreendida em situações embaraçosas. Brando passa a encará-la com certo desprezo: lembra-lhe as manhãs da adolescência em que ia buscar a mãe em camas de perfeitos estranhos. O clima é de tal ordem que o ator não resiste ao prazer de contar a um jornalista como usou manteiga para sodomizar uma de suas visitantes.(...) Durante oito semanas, assim, Marlon Brando e Vivien Leigh trabalham juntos (...) Para relaxar, Marlon Brando leva Vivien Leigh para passear. Enquanto o carro avança para leste, no deserto de Mojave, ela lhe fala dos problemas com o marido. Conta que a primeira mulher de Laurence Olivier era lésbica. Que ele fica longe do quarto dos dois, e mesmo da vida de casal. Que... Em suma, ela se queixa muito. Brando conhece o remédio. Essa mulher precisa de uma absolvição, como Irmã Beth. (...) Os dois percorrem o Death Valley, o vale da Morte, entre dunas varridas pelo vento e extensões de sal branco (...) Brando para o carro em frente à única hospedaria da região, o Furnace Creek Motel, desce, assina o registro com dois nomes inventados. E comenta que está feliz por ter nos braços a beldade que Clark Gable tanto desejou. Vivien Leigh responde: "Clark Gable nunca botou a mão na minha calcinha." Brando, sim.

FILME O SELVAGEM (FILMAGENS E ESCANDALO GAY ENCOBERTO)

(...) Aparadas algumas arestas no roteiro, o filme começa a ser rodado sob a direção de Lazlo Benedek, um realizador húngaro encontrado por Darryl Zanuck em Budapeste em 1944. Benedek tem 48 anos; para Brando, uma antiguidade. Além disso, é um homem em perigo: tem uma situação frágil, é imigrante e um diretor clássico. Não está ali para fazer barulho. Sentindo sua vulnerabilidade, Brando vai direto na jugular. Exige mudanças no script, alterações nas falas, chama-o de "sem brando-marlon-wild-one-the_04colhões". Resumindo, assume o poder no estúdio de filmagem. A partir daí, seria esse seu comportamento em todos os filmes, exceto na presença de diretores mais fortes que ele: Kazan, Mankiewicz, Huston, Coppola. Todos os outros seriam submetidos ao mesmo regime: humilhações, má vontade, caprichos, preguiça, indisciplina. Toda autoridade será contestada, exceto em caso de confronto violento. Sempre que alguém ameaça quebrar-lhe a cara, Brando recua. (...) Uma atitude de diva, um ego inflado, um egoísmo furioso.

Em O selvagem, Brando configura seu personagem de rebelde. Desde o início, chega atrasado, muito atrasado, e exige que uma das motos lhe seja emprestada, para passear com uma garota que paquerou nessa mesma manhã. Acontece que a companhia de seguros não autoriza esse tipo de brincadeira, que pode custar muito caro em caso de acidente, ainda que sem consequências mais graves. Brando entra no conversível e desaparece com a garota, deixando uma nuvem de poeira. Está furioso. Benedek fica desarmado. No estúdio, só um outro ator seria capaz de resistir: Lee Marvin. Ex-fuzi leiro naval, ferido na guerra, mal-encarado, ele não é do tipo que se deixa impressionar por um falso motoqueiro que, segundo ele, requebra um pouco demais. Chama-o de Marlow Brandy e não perde uma oportunidade de debochar em público do "maricão". Brando, por sua vez, come. Lee Marvin acaba por chamá-lo de "rei do monte de merda". E acrescenta: "E olha que em Hollywood concorrência é o que não falta!" (...) Lazlo Benedek tenta administrar a situação. Mas é polido demais, civilizado demais. Nem Brando nem os motoqueiros o levam a sério. As filmagens se transformam numa bagunça.

De um lado, Brando e seus ataques, seu desejo de bancar o machão com os motoqueiros. Do outro, Lee Marvin, que faz amizade com o líder dos Hells Angels. A tensão é palpável. Visivelmente, Marvin só pensa numa coisa: acertar uma boa direita em Brando, esse... esse... esse ator. Brando por sua vez toma motos emprestadas, sai com elas apesar da proibição, sofre um acidente, como era de se esperar. Nada grave. Lee Marvin bebe, sai com os Angels, busca um tumblr_mepccuqLMe1rrugdfo2_500pretexto. Brando evita encontros com ele — ainda bem. A coisa fica evidente para os motoqueiros: o ator tem medo da violência física, um medo total, absoluto. O nariz quebrado por Jack Palance serviu para alguma coisa. Benedek, cansado, impotente, cai em lágrimas.(...) Brando (pesquisando o personagem) mergulha no mundo dos bikers. Observa, conversa, circula. Em sua maioria os motoqueiros são latinos. Um deles, Luis Ramon, faz amizade com ele. Meses depois, Ramon tentaria vender um artigo sobre Brando a Confidential. Tema: minha noite de amor com Brando. Luis conta sua noitada com o ator. "De manhã, eu disse que o amava." Como sempre, a confidência teve como efeito botar Brando para correr e ele partiu sem olhar para trás, diz Ramon, o biker de coração mole.

O verdadeiro negócio de Confidential não é a informação, mas a chantagem. Rock Hudson, James Dean, Marilyn Monroe e muitos outros ficaram sabendo o que isso significava. Abortos, adultérios, drogas, confidências de donas de bordéis, tudo serve para o tablóide. Para evitar a publicação de uma matéria escandalosa, é preciso soltar a grana, e a revista, assim, é literalmente subvencionada pelos produtores, que compram as fotos comprometedoras ou os artigos embaraçosos. Harry Cohn, o chefão da Columbia, um homem tirânico, também obcecado com a ideia de dormir com suas estrelas, entre elas Rita Hayworth e Kim Novak, resolve então pagar por Brando: 50 mil dólares. O equivalente a 500 mil dólares hoje.

CUBA E O SUPER DOTADO.

(...) Em Cuba, na época, é festa o tempo todo, a feria, e o centro dessa agitação, o Tropicana, está cheio de mulheres, cada uma mais bela que a outra. Quando Brando se acomoda no bar, as moças ficam agitadas. O dono tenta acalmá-las: "íDéjenle tranquilo, putasF, mas de nada adianta. Brando adora a música cubana, quer comprar tumbadoras, tambores ritua- lísticos. No Tropicana, diz ao percussionista da orquestra que quer comprar seus bongôs: "E como é que eu vou tocar?", pergunta o buttmúsico, recusando a oferta. Brando vai embora com duas dançarinas sublimes, Berta Rosen e Sandra Taylor. Elas percorrem com ele as boates underground, acompanhadas do guarda-costas de Lucky Luciano e de um jovem escritor, Guillermo Cabrera Infante, que ficaria famoso em 1967 com seu romance Três tristes tigres. Juntos, eles vão ao Shanghai, famoso por seus sex shows, onde a grande estrela, um mulato conhecido como Superman, exibe uma nobre ferramenta de... 45 centímetros! A atração vale a viagem. Para começar, Superman faz amor com uma corista, depois convida uma espectadora, ao acaso, para se divertir com ele. E então a penetra suavemente, para ver quantos centímetros a moça aguenta, na boca ou em outro lugar. A escolha. Sucesso garantido na sala. - Nessa noite, Brando deixa as duas moças de lado e vai embora com Superman.

FILME “ELES E ELAS” FRANK SINATRA, AVA GARDNER E A MÁFIA

(...) “Eles e elas”, apesar da direção de Joseph Mankiewicz, é uma comédia musical meio pesada. Para começar, o elenco não podia ser mais estranho: Frank Sinatra e annex-brando-marlon-guys-and-dolls_01Marlon Brando. Aquele tem uma voz sublime, uma paciência muito limitada e uma vontade de ferro; este não consegue entender muito bem suas canções, exige horas de preparação e se entrega à preguiça. Sinatra é o homem da primeira tomada; Brando precisa de aquecimento. Sinatra assiste à noite à projeção do copião; Brando, nunca. Sinatra é ma-grinho, Brando está engordando. Os dois não se entendem, nunca se entenderiam. Quando Marlon Brando se queixa de Sinatra a Mankiewicz, ele responde: "Vá dizer você mesmo a Sinatra como deve cantar." Como era de se esperar, Brando se exime de fazê-lo. (...) Ava Gardner vem visitar o set de filmagem. Sinatra, terrivelmente ciumento, está casado com ela. O casal vive brigando, se reconstitui, se afasta, volta a se unir. Ela é de uma beleza absoluta, e em outros tempos teve uma aventura com Brando. O que não chega a ser surpreendente: ela teve aventuras com o planeta inteiro. Nesse dia, ela se fecha no camarim de Brando, que depois sai sorridente.(...) Passam-se alguns dias. Sinatra parece calmo. Nada diz, e na hora devida diz as falas com Brando, dá mostra de paciência. Certa noite, retornando Brando com sua moto, é abordado por cavalheiros de nariz achatado e pescoço imponente, que o convidam a entrar no carro. Ele obedece, devorado pelo medo. Os gorilas o levam para dar uma volta e explicam

tranquilamente o sentido da vida. (...) Ao retornar no dia seguinte, Brando já não está tão sorridente. Quando Sinatra passa, faz-se pequenino. Nunca mais voltaria a criar problemas para Mr. Blue Eyes. Mais tarde se ficaria sabendo que, naquele carro, a palavra "castração" tinha sido pronunciada, como uma eventualidade perfeitamente possível. E mesmo provável, caso Ava Gardner voltasse a ser recebida por Brando em caráter privado. - O que não aconteceria mais. - (...) - “Eles e elas” arrasa nas bilheterias. A partir daí, Marlon Brando faria filmes deprimentes, tolices  inacreditáveis, fracassos retumbantes. Deixada de lado qualquer ambição artística, ele se torna um mercenário, mas um mercenário inerte, que não gosta de seu trabalho e com frequência o deprecia. Nem sequer tem o orgulho do trabalho bem-feito. De A casa de chá ao luar de agosto a Morituri, passando por Saionara, O grande motim e Os deuses vencidos, ele simplesmente colecionaria catástrofes uma depois da outra. O cinema já não o interessa muito (...)

O GRANDE MOTIM (DIÁRIO DE UMA FILMAGEM ATRIBULADA)

Marlon Brando assina contrato para uma refilmagem de O grande motim. (...) Brando já começa anunciando que vai fazer o filme para ganhar dinheiro. (...) A MGM contrata alguém para escrever o roteiro: Eric Ambler, (...) Ele entrega o roteiro a Carol Reed, o diretor, e a Aaron Rosenberg, o produtor da MGM,(..). Acompanhado de Ambler e Reed, Rosenberg faz uma visita a Brando, (...) Vinte anos depois, a lembrança desse encontro ainda era forte. Eric Ambler: "Lá estávamos nós, completamente sem graça, ouvindo aquele merdinha nos dizer como fazer o filme." Erro de escolha, portanto: Ambler com toda a certeza não é o homem certo. E, por sinal, ninguém o é. Pois desta vez Brando vai soltar os cachorros. Em toda a história de Hollywood, jamais se terá visto ator mais caprichoso, filmagens mais catastróficas, má vontade mais evidente, nem mesmo tanta imbecilidade. Com O grande motim., Brando se transforma na estrela mais perniciosa do cinema.

(...) A produção de O grande motim é surrealista. Primeiro, porque Sir Carol Reed, o diretor, é um inglês bem-educado (...) Este cavalheiro teria muito trabalho com Brando. Mas ainda não o sabe. - Curioso que, antes mesmo de receber o roteiro, a produção começa a preparar os cenários: são encomendados tecidos para os trajes, mão de obra para o barco, figurantes para o elenco. (...) Brando, ganhando 5 mil dólares por dia, espera tranquilamente. Acostumou-se a passear de sarongue, descalço, e a levar uma flor na orelha. O clima lhe agrada muito, as garotas, também. Ele se deixa levar, posta-se diante do mar e toma baldes de sorvete. Estão filmando? Pouco importa. No meio de uma tomada, ele se retira e desaparece entre as palmeiras. Não decorou o texto — e, por sinal, qual é mesmo o texto? (...) Para matar o tempo, ele passa em revista as habitantes da ilha. Elas são bonitas, de costumes livres, não sentem ciúme. Como uma criança numa loja de doces, Marlon Brando atira-se nessas garotas açucaradas. Ele as trinca nos dentes, devora, consome, saboreia. Elas têm belos seios, cabelos longos, são exóticas e não têm a menor ideia sobre a identidade desse entusiástico forasteiro. Em suma, são perfeitas. O único problema é que têm os dentes estragados. A produção decide fornecer-lhes dentaduras postiças. São fabricadas 5 mil, a serem devolvidas pelas figurantes no fim do dia. A noite, elas têm sorrisos de teclado de piano. Pouco importa. Brando passa as noites

tocando bongô e contraindo sífilis. A maior parte da equipe do filme também pega a doença. E, no entanto, ao chegar, ele se aconselhou com Bengt Danielsson, um antropólogo que vive na ilha: “— Diga-me, Sr. Danielsson, qual o percentual de jovens com doenças venéreas aqui? “. “ Noventa e cinco por cento.” . “ É mesmo?”. “ Se quiser sair com uma garota, deve levá-la a um hospital e conseguir um atestado de saúde.”. “Caramba!” - O conselho faz sentido. Mas Brando não o leva em conta. (...) - Uma habitante local é escolhida para ser a favorita de Fletcher Christian (personagem de Brando) no filme. Tem 19 anos, é linda de doer e veio de uma aldeia perdida, nunca entrou em avião nem usou um telefone. O responsável pela escolha — no caso, o próprio Brando — fica caidinho por Tarita. Ela não sabe representar? Bobagem. Não se lembra das falas? Brando também não. E, por sinal, não se pode mesmo filmar, pois está chovendo. Tudo tem de ser importado dos Estados Unidos: cimento, dentifrício, as cestas de frutas falsas, penicilina para a gonorreia, hambúrgueres congelados, jornais e até a areia, pois a do promontório Vénus, no Taiti, é negra. (...) O clima no ambiente de trabalho é polar. E o dos momentos de lazer, descontrolado. As figurantes engravidam. Todo mundo esfrega narizes à taitiana, o equivalente a um beijo na boca. Formam-se casais, divórcios são anunciados, casamentos se delineiam, para logo em seguida se dissolverem. (...) ". Todos os dias Brando exige mudanças no roteiro. Está em seu contrato: ele tem direito de veto. O problema é que ele sabe o que não quer, mas não o que quer. Ambler, que jogou a toalha depois de 14 versões diferentes, vai embora, cansado, apesar de um magnífico salário (3 mil dólares por semana). Ele conta a Carol Reed, seu amigo: "Não há o que salvar." Ninguém mais sabe o que filmar. Os 110 técnicos não têm o que fazer, chega a temporada de chuva, e com ela os mosquitos. Passam-se os meses. Brando recusa-se a se apresentar diante da câmera. Nas raras vezes em que ele consente estar presente, é pior ainda. Carol Reed, já agora com uma úlcera no estômago, pede certo dia a Brando que interprete uma cena. Diante de todo mundo, o ator recusa-se. “ Mas por quê?”. “ Não encaro as coisas dessa maneira.” - Reed fica perplexo. Diz: “ Acho que está na hora de ir.” - E se vai. E substituído por Lewis Milestone, cineasta nascido em Odessa antes da revolução de outubro(...) "Recebo às dez horas da noite um telefonema de um amigo, o roteirista Charles Lederer, pedindo-me um favor pessoal. Eu não poderia retomar as filmagens da produção com Brando? Eu digo que sim. O problema é que eles estavam filmando há um ano e tinham... sete minutos de filme." Milestone passaria mais um ano nesse set maldito, com nove outros roteiristas se sucedendo.

images(...) Todos os dias, o script muda. Toda manhã, Brando exige que suas falas sejam coladas em toda parte, nas árvores, na areia, nos cocos, na testa dos outros atores, no próprio vento. Tenta transmitir uma mensagem filosófica, lança mão da caneta, mas em vão. Lewis Milestone joga tudo no lixo. Reação de Brando: cada tomada tem de ser refeita vinte, trinta vezes. O filme é em Panavision 70mm, a película mais cara do mundo. O custo é astronômico. (...) A noite, Brando perde as estribeiras. Dorme com todas as garotas que encontra pelo caminho, dançarinas, garçonetes, figurantes, transeuntes, jovens ou nem tão jovens. Está radiante. Um médico é enviado de Los Angeles para cuidar das doenças venéreas do astro. E dos outros brancos. -Nas duas primeiras semanas que se seguem à chegada de Lewis Milestone, tudo corre bem. Até que um dia, no meio de uma cena, Brando dirige-se ao operador de câmera, dizendo em que momento deve começar a rodar e quando terá de parar. Vira-se então para a equipe: "Silêncio!... Vamos filmar!... Ação!" Milestone deixa o set. "Eu tinha uma revista no bolso, e sentei-me para ler enquanto transcorriam as filmagens. O produtor veio falar comigo: 'Você não vai acompanhar?' E eu respondi: 'Detesto ver filmes aos pedaços. Basta pagar uma entrada e poderei ver o filme inteiro quando ele for lançado. Por que iria ficar vendo agora?'" E assim, então, que passam a transcorrer essas filmagens sem pé nem cabeça : Milestone dirige as cenas com os outros atores, Richard Harris, Trevor Howard, Richard Haydn; Brando cuida de suas próprias cenas. Dois filmes completamente distintos... Em 1969, Lewis Milestone faria um diagnóstico: "Brando é um psicopata. Seu comportamento é totalmente irracional. Ele não se portou dessa maneira apenas comigo, mas também com os outros atores e com outros diretores em outros filmes. Creio que ele não é responsável pelos próprios atos." (...)

MARLON BRANDO

Para atrapalhar o ritmo das falas dos outros atores, Brando recorre a todos os expedientes possíveis: no meio de uma cena, erra seu texto, mexe- se de maneira inesperada, assoa o nariz. Nas cenas em que Trevor Howard, um veterano do teatro e do cinema, tem de recitar várias páginas de diálogos, Brando esquece suas marcações cênicas. Tenta então interpretar seu personagem de oficial amotinado de maneira pessoal. Para ele, Fletcher deve ser mais... inglês. Mais afetado. Quando o produtor Aaron Rosenberg recebe o copião em Hollywood, fica espantado: "Mas por que transformar o personagem numa bicha louca?" O que ele não sabe é que Brando não ouve ninguém. E, por sinal, passa a usar tampões de cera nos ouvidos quando participa de uma cena.

(...) Brando incha, não dorme, fecha-se em sua casa, vai tomar banho de mar com os Brando-marlon-brando-30734820-880-1280trajes do filme, que naturalmente encolhem, ou, quando os outros atores se irritam com ele, diz apenas: "Lembrem-se de que a estrela do filme sou eu." Passam-se os meses. Brando não aceita o fim que consta do roteiro. Inventa um novo fim, no qual os marinheiros amotinados se reúnem numa gruta para filosofar. A produção se opõe. Brando fica amuado. No fim das contas, o filme é montado sem o fim. Que acabaria sendo rodado em Los Angeles : Fletcher Christian é morto, e seu cadáver, exposto num caixão. Brando, como era de se esperar, tem uma ideia genial : quer que o caixão fique cheio de cubos de gelo. Deita-se, então, nu. A figurinista insiste em que as partes íntimas do ator sejam cobertas. "Todo mundo viu minha ferramenta, por que não o público?", pergunta ele. "A censura", responde a figurinista. Brando entende, mas fica decepcionado. Ao ser concluída a cena, Brando está completamente azul.

O filme é lançado em novembro de 1962, sendo um total fracasso. Duração: duas horas e 52 minutos. Interesse dramático: nenhum. A imprensa não perdoa. Bilheteria catastrófica (o filme custou 30 milhões de dólares e arrecadaria 10). A produção põe toda a culpa em Brando. Ele reage exigindo pedidos de desculpas. E, surpreendentemente, os pedidos são feitos. A direção da MGM se inclina. Brando sai vitorioso e... fecha-se dentro de casa.

GUERRA Anna Kashfi (esposa) & Marlon Brando.

(...) Anna Kashfi é de uma beleza incrível. Testa alta, longos cabelos negros repartidos no meio, maçãs do rosto salientes, sobrancelhas em arco perfeito, boca carmim num rosto de pele morena. Ela transmite uma impressão ao mesmo tempo de suavidade, firmeza e sensualidade. É uma presença radiosa. Quer fazer carreira em Hollywood, não tanto no cinema, mas... como esposa de Brando. Foi o que disse a uma amiga pouco antes de deixar Londres. Em suma, é uma mulher com objetivos muito claros.

Logo ela fica sabendo que Brando tem fama de fuck machine. Pior ainda: dizem-lhe que ele é membro do Club Necrophilia e gosta de dar prazer a patos. Em suma, que é um notório pervertido. Ela ignora. E tem razão, pois essas fofocas não passam de invencionices. Por sua vez, ela é considerada intrigante. Afirma que nem sequer sabia quem era Brando, e que ao lhe ser apresentada, na confusão da cantina da Paramount, "eu entendi Marilyn Bongo". Para ela, é um desconhecido. Nunca ouvira falar, garante, piscando os olhinhos.

(...) No terceiro encontro, sem dizer uma palavra, Brando levanta Anna Kashfi, leva-a para a cama e presta-lhe as devidas homenagens. "Eu dormi com Marlon Brando por curiosidade. Sua técnica de sedução era tão sutil quanto o mecanismo de uma guilhotina. Quando perguntei se ele pretendia me violentar, ele respondeu que o estupro é apenas uma agressão com uma arma amigável", diria ela mais tarde. Ou pelo menos foi o que escreveu seu ghost writer, E. P. Stein, num livro de recordações intitulado Brando for Breakfast (Brando no café da manhã). Sob o pseudônimo E. P. Stein esconde-se Richard Arnold Epstein, (...) A esse autor realmente insólito é que Anna Kashfi contaria sua história, que não passaria de um longo acerto de contas.

Conta ela: "Fisicamente, ele não era bem-dotado. Compensava essa deficiência com uma devoção exagerada a sua nobre ferramenta' (...)" Dá para sentir o rancor. Ele se insinua já no início da relação, e meio século mais tarde ainda estaria presente. Em seu solitário trailer, em algum lugar da Califórnia, Anna Kashfi, uma velha senhora, conta para quem quiser ouvir que Brando arruinou sua vida. Diante de sua porta, o vento do deserto de Mojave leva embora essas lembranças azedas. (...) Ela quer casar com Marlon. (...) Brando pede sua mão. (...) O projeto de casamento é mantido em segredo, pois as fofoqueiras estão sempre à espreita. (...) O casamento é marcado para 11 de outubro (...) Anna Kashfi está grávida. Vai começar de verdade a derrota dos deuses.( ...) Em setembro, Anna Kashfi anuncia que entrou com uma ação de divórcio. O casamento terá durado apenas onze meses. Não demoraria, e também ela tentaria o suicídio. (...)

tumblr_m391th1XCu1rrugdfo1_500Ele é intimado a comparecer ao tribunal, intimado mais uma vez, e mais outra. Anna Kashfi quer arrancar sua pele. Ele se sente perseguido. Um de seus amigos o acha "esmigalhado".(...) Anna Kashfi está enlouquecida de raiva. O divórcio é declarado a 22 de abril de 1959. Mas resta a espinhosa questão da guarda do filho. Brando o quer. Kashfi também. Quando Christian Devi está na casa do pai, este se recusa a mandá-lo para a casa da mãe. Quando o menino está com Anna Kashfi, ela "esquece" de mandá-lo passar o fim de semana na casa de Brando. A tensão aumenta, chovem intimações judiciais, batem-se portas (de novo as portas...), sucedem-se ameaças, chovem insultos. Nesse furioso carnaval, a criança fica completamente desorientada.

Kashfi argumenta com o fato de que o ex-marido dorme com todas as "prostitutas" de Hollywood. O juiz mostra-se sensível a este argumento. Brando contra-ataca demonstrando que a ex-mulher se droga com remédios e é alcoólatra. O juiz entende. Kashfi é uma "mãe repreensível", Brando, um "pai imoral".

No tribunal, Anna Kashfi fala de uma visita-surpresa à antiga residência, onde encontrou Brando na cama com "uma beldade asiática". Ela se esquece de esclarecer que tentou furar os olhos da criatura, arrancar seus cabelos e mesmo matá-la. E que Brando foi então à casa de Anna Kashfi, quebrou os móveis e encontrou os diafragmas da ex-mulher, passando a furá-los com alfinetes. E o dinheiro? Ele não paga, diz ela. Eu pago tudo, retruca ele. Circunstância agravante: Marie Cui, a "beldade asiática", está grávida.

No tribunal, Anna Kashfi avança e esbofeteia Brando, com toda a sua força. Consegue 440 mil dólares e uma pensão de mil dólares por mês. O fato é que mostrou no tribunal os filmes pornôs de Brando. E que comunicou ao juiz sua firme convicção: Brando, segundo ela, gosta de rapazes. (...)

Seus problemas com Anna Kashfi adquirem contornos alucinantes: Christian Devi é expulso de todas as escolas, as babás mudam toda hora e o garoto é testemunha da fúria da própria mãe (...) Anna Kashfi engole pílulas e mais pílulas, entra em coma, deixa o filho sozinho. Ao sair do hospital, depois de uma lavagem estomacal, está enfurecida. Vai à residência de Mulholland Drive e destrói tudo. Brando alega que ela o ameaçou com um revólver. Kashfi afirma que foi espancada. Um empregado declara que ela dá tranquilizantes ao filho

(...) o juiz Rittenband enfim chega a uma conclusão. Priva a indiana de seus direitos de visita, alegando seu comportamento incoerente. Ela sai do tribunal aos berros: "Vou interditar esse juiz! Vou interditar esse tribunal!" Está literalmente deformada pela raiva. A imprensa faz a festa.

CHRISTIAN DEVI ( O FILHO QUE TROUXE A TRAGÉDIA `A FAMÍLIA)

Christian Devi é uma criança impossível. Quebra, brutaliza, xinga, rejeita, enfrenta. E, sobretudo, herdou do pai um talento envenenado: o da manipulação. Basta perceber uma fraqueza e se aproveita. Diante de uma resistência, vira um doce. Brando mostra-se igualmente inconsequente com os outros filhos. Presente, ausente, aparece, some... É um homem de eclipses, um pai intermitente (...)

Christian Devi, já agora um garotinho, é insuportável: tortura animais, joga a comida no chão, quebra seus brinquedos, insulta as babás na ausência do pai. Quando ele aparece, o menino vira um docinho.

(...) O garoto, agora já com 12 anos, é matriculado numa escola do Ojai Valley, povoado próximo a Los Angeles, famoso pela qualidade de seus estabelecimentos de ensino. (...) Christian Brando reage bem ao clima em Ojai, onde os filhos de ricos são bem tratados. Suas neuroses são cuidadosamente cultivadas. Christian é um pré-adolescente difícil. Já se rebela, bebe e usa drogas. (...) Christian Brando é expulso de Ojai — o que pode ser considerado uma verdadeira proeza: puxou o sinal de alarme, botando os internos para correr, depois de uma série de brincadeiras de mau gosto. Na verdade, está copiando a atitude de Brando, quando frequentava a academia de Shattuck, nessa mesma idade. As mesmas brincadeiras — livros escondidos, pasta de dente nas maçanetas das portas, cadeiras que desmoronam — e a mesma atitude de constante desafio. Mas falta alguma coisa a Christian Devi: ele não tem a beleza diabólica do pai nem sua inteligência cáustica. Não passa de um garoto perdido. Anna Kashfi considera que o filho é "influenciado pelo pai".

(...) Christian Devi, agora que voltou a morar com a mãe, passa as noites na rua. Anna Kashfi, entupida de calmantes e impregnada de vodca, perde a noção do tempo. Dorme de ressaca durante o dia, levanta-se à noite e, quando encontra o filho, o esbofeteia, recriminando-o por ficar na rua. Aos 13 anos, o adolescente vê-se obrigado vez por outra a levantar a mãe, caída embriagada na cozinha. Pela manhã, às vezes, encontra a porta fechada. Vai então para a casa do pai, que raramente está presente. Depois, volta para a casa da mãe, que está em coma. Quando Brando fica contrariado com a atitude do filho — censurando sua utilização de "drogas recreativas" —, ele se fecha em seu quarto. Quando Anna Kashfi fica irritada com Christian, volta a tomar pílulas. Entre o pai e a mãe, Christian Devi está num vazio.

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Em plena filmagem ( de O Último Tango em Paris), Brando recebeu uma notícia que o deixou enfurecido (...) Anna Kashfi (...) em vez de permitir que Christian ficasse na casa do pai durante o fim de semana, (...) mandou um estranho buscá-lo de carro. Chegando à casa da mãe, o garoto fugiu, voltando à do pai (...) . Enlouquecida por esse gesto de desafio, Anna Kashfi entrega-se a uma fúria descontrolada. Apanha o garoto e desaparece com ele. Na fronteira, faz Christian entrar no México e, bêbada, volta para Los Angeles. Onde está o garoto? Informado por telefone, Brando contrata um detetive particular, Jay J. Armes (...) No set, em Paris, Brando está preocupado. Entra num avião, vai para Los Angeles e fica sabendo que Anna Kashfi está presa por "perturbação da ordem pública", bêbada. J. J. Armes percorre o sul da Califórnia de helicóptero. Com a ajuda da polícia mexicana, ele encontra Christian num acampamento improvisado, guardado por estranhos que reconhecem ter recebido de Anna Kashfi a promessa de 10 mil dólares para cada um. O caso termina bem para todos. Exceto para o adolescente, traumatizado por esse surpreendente sequestro (...) durante a detenção, sofreu abusos sexuais.

FILME – O PODEROSO CHEFÃO

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A escolha de Don Corleone :

(...) Laurence Olivier recusa o papel. George C. Scott, que acaba de receber um Oscar por Patton, também. Coppola ( o diretor) volta-se para Brando. O ator está com 48 anos — não tem ainda a idade necessária para o papel — e, como sempre, tergiversa. Coppola insiste. O diretor tem apenas 31 anos, mas uma ambição feroz.

tumblr_m4dz7wBUhA1rrugdfo1_500A produção hesita em contratar Al Pacino? Coppola se enfurece. Ninguém se entusiasma com a ideia de contratar Brando? Coppola simula uma crise cardíaca. Finalmente, a Paramount aceita, com três condições: que Brando aceite fazer testes (o que é humilhante); que concorde com um salário modesto (pelo bem da economia); que seja multado caso comece com seus caprichos (pelo bem da prudência).

Quando Brando aparece para os testes, maquiado, com as bochechas cheias de enchimento e com uma dentadura falsa, ninguém o reconhece. Ele entra na pele de Don Corleone com uma facilidade incrível. E, para variar, trabalha. Ouve as gravações de Frank Costello. Observa que esse chefão da família Genovese nunca eleva a voz, pois, explica, "quando se tem a verdadeira autoridade, não é necessário gritar". Além disso, Brando decide procurar mafiosos de verdade. Janta com eles, imita seu sotaque, bebe vinho italiano, observa suas mulheres, faz mimo com os bebês. No set, aparece com um gato. Todo mundo fica encantado: mas então é este o astro metido a besta, o insuportável, o neurótico? Como reconhecer nesse ator disciplinado o sabichão de O grande motim? tumblr_m5lqdoVUtf1rrugdfo1_500

A explicação é que sua reputação está em cacarecos, e sua conta bancária, no vermelho. Brando precisa se reconstituir com urgência.

As primeiras semanas de filmagem são febris: Coppola precisa firmar sua credibilidade. Sua maneira de trabalhar não é exatamente a mais apreciada pelos estúdios. Ele muda o cronograma de filmagem, reescreve os diálogos, dá preferência a planos rápidos na cena do baile, parece caótico, joga com as cenas, propõe dez ideias ao mesmo tempo (...)

Não demora, e vem para Brando a recaída: ele espalha lembretes por toda parte, na palma da mão, na gola, numa parede, numa gaveta. Inventa. Sugere, assim, começar a brincar com uma rosa depois de um ato de violência. Bebe vinho em seu jardim. Acaricia o gato sobre os joelhos. Os outros atores, James Caan, Robert Duvall, Al Pacino, são pura admiração. Brando chega a ajudar o maquiador a criar um novo rosto: o látex que seca em suas bochechas forma as rugas de um homem de 65 anos. Insere solas de chumbo nos sapatos para criar um andar mais pesado. Põe tampões de cera nos ouvidos para abafar os ruídos. (...) Pressionado pela falta de dinheiro, Brando negocia sua porcentagem contratual. Troca os 5% da bilheteria por 100 mil dólares em dinheiro. Haveria de se arrepender pelo resto da vida. O poderoso chefão seria um dos maiores sucessos de todos os tempos. E Brando ganharia um Oscar, perfeitamente merecido. Ele retomou a carreira em suas mãos. Voltou a ser o "melhor ator do mundo". King Brando, a volta.

FILME O ÚLTIMO TANGO EM PARIS

thumbza(...) O filme intitula-se Último tango em Paris. É bastante erótico, impregnado da ideia de morte (...) Brando, como era de se esperar, nem lê o roteiro. Bertolucci o conta para ele. Trata-se de um viúvo, Paul, vagando por Paris. Ao visitar um apartamento à venda, conhece uma jovem com quem mergulha momentaneamente numa sexualidade anônima, mas forte. Durante três dias, ainda sob o impacto da morte da jovem esposa, Paul, o personagem interpretado por Brando, se dissolve — ou se reencontra — numa série de encontros com a mesma mulher, cada um mais sexual que o anterior. Em 1972, ninguém fora tão longe na descrição do erotismo.

A escolha da atriz

Bertolucci escolhe (...) uma jovem de ar livre, que parece disponível. Maria Schneider, filha de uma top model, Marie-Christine Schneider, e de Daniel Gélin, participou de dois ou três filmes e, aos 19 anos, tem fama de boêmia. Teria relações tanto com homens quanto com mulheres, assume uma atitude cool.

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Mais tarde, Marie-Christine Schneider seria obrigada a providenciar tratamento psiquiátrico para a filha. A repercussão do Ultimo tango em Paris arruinaria Maria, que seria para sempre a garota subversiva do filme de Bertolucci. Essa imagem de cadela no cio jamais haveria de abandoná-la.  (...)  Logo vem a se estabelecer uma relação paternal entre Brando e Schneider. Para ela, ele é um NPI (um "não passa do inverno", na gíria dos sixties), um senhor de idade. Para ele, ela é apenas mais uma garota. Ele domina o set; ela, não. Para aguentar o ritmo das filmagens — e as cenas difíceis, de masturbação, felação etc. —, Maria Schneider fuma baseados. (...) No papel de Paul, Brando joga tudo: suas frustrações, seu desespero, sua beleza. A relação entre ele e Bertolucci torna-se tortuosa, dançante. Um tango a dois? Muito depois, Maria Schneider esclareceria as coisas: "Bernardo estava apaixonado por Marlon. É este o tema do filme."

tumblr_m2f9oeIFtG1rrugdfo1_500A cena da manteiga — que causaria enorme escândalo, ao mesmo tempo garantindo o sucesso do filme — faz eco a uma ideia de Brando, transmitida a um repórter na década de 1950. Blasfematória e cruel, ela é o próprio cerne do filme. Uma outra cena, igualmente crua, acenderia o barril de pólvora. Paul: “Me passa a tesoura. Corte as unhas. Sobretudo da mão direita. Estas duas aí. "  Jeanne: “OK. Paul: “Quero que você enfie dois dedos no meu cu. Está surda? (Ela começa.) Vou buscar um porco e... ele vai te comer. E quero que o porco vomite no seu rosto e que você engula o vômito. Vai fazer isso por mim? “  Jeanne: “Sim.” Paul: “Hein? “Jeanne: “Sim.”Paul : “Quero que o porco morra enquanto estiver trepando com ele. Você então irá para o traseiro dele cheirar os peidos enquanto ele morre. Vai fazer tudo isso por mim? “Jeanne: “Sim, e farei mais ainda... mais ainda... Pior que isso."  (…) Para os hipócritas, o filme é insuportável. Para os militantes da causa sexual, é tímido demais. (...) Maria Schneider fala aos jornalistas : “Marlon e eu temos algo em comum. “ O quê? “ Somos bissexuais. “ (…)  Ingmar Bergman veria Último tango em Paris com um olhar penetrante: "É a história de dois homossexuais. Esqueçam os seios da jovem, ela é como um garoto. Há no filme um profundo ódio às mulheres, mas se o virem como uma história entre um homem e um menino, entenderão tudo."

BRANDO E A HOMOSSEXUALIDADE - WALLY COX (PROVÁVEL AMANTE GAY DE UMA VIDA INTEIRA)

(...) Ele (Wally) é frágil, divertido e usa grossos óculos tranparentes. Ficaria famoso interpretanto um professor desajeitado numa novela intitulada Mr. Peepers. Mas ele é azarado, atrai infelicidade. Ator à sombra de Marlon, ele jamais seria feliz, apesar da intimidade entre os dois. (...) Como Brando, fugiu de casa. Sua mãe, autora de romances policiais com o pseudônimo Eleanor Blake, é uma total alcoólatra, ainda por cima lésbica. Brandon e Cox formam uma dupla estranha : gostam de convidar (para o apartamento onde moram juntos) personagens insólitos, violinistas de rua, homossexuais pitorescos , solitários e perdidos.

Em 1976, Brando fala numa entrevista sobre sua homossexualidade, velha suspeita. Está com 52 anos, passa o tempo correndo atrás dos cachês, deixou de lado qualquer pretensão artística. Seu amigo de infância, Wally Cox, o da famosa foto (que seria do Brando de boca na ferramenta de Cox) que circula por baixo do pano, morreu. Provável suicídio. Mais um. "Como tantas pessoas, eu tive experiências homossexuais e não sinto a menor vergonha", diz Brando.

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