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Hino do Blog : " ...e todas as vozes da minha cabeça, agora ... juntas. Não pára não - até o chão - elas estão descontroladas..."
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Friday, September 19, 2014

Livro - “A condição indestrutível de ter sido”



“Um livro perigoso”. 

Foi assim que defini o “A condição indestrutível de ter sido”, diretamente à autora Helena Terra no encontro de leitores da Livraria Sapere Aude Livros quarta a noite.  

Perigoso ? 

Sim, pois a retratar a paixão de forma tão visceral e real os leitores podem descobrir (ter que enfrentar /  reconhecer ) suas auto fraudes amorosas e  acabarem direto na moldura do desespero.

Helena não deixa pedra sobre pedra ao descrever, com uma escrita absolutamente lapidar, a construção (e desconstrução)  de um castelo de emoções danadas,  impulsionado por uma paixão (imaginária ou não?) que a leva a heroína perigosamente à beira da loucura (ou ela já chafurda o tempo todo nela?).

Sendo assim, é óbvio que “A condição..”  não  se trata de uma história de “amor”, dentro daquilo que poderia ser considerado “romântico”, “belo”, “cor de rosa”. 

Longe disto.
Helena Terra

Na verdade o livro é o quadro de uma obsessão.

A narrativa em primeira pessoa, mostra uma mulher  ensimesmada e com uma forte queda à “vitimização”   (o homem, Mauro / Mau, é um crucificado sem voz),  o que gera áreas nebulosas, incertas, e o resultado é que, mesmo que vejamos a narradora em vários momentos como uma louca e fora da casinha, não há como não nos reconhecermos, em algum ou em vários momentos,  na montanha russa de sentimentos retratados no texto.  

Tipo, quem nunca ?

Tipo quem nunca quis “uma história”, e por isto imagina, cria, afirma, desconfia, engana-se, retrai-se, cai na real e lamenta ?

Livraço.

Sunday, September 07, 2014

Livro–Indefensável

Bruno 001'Indefensável — O Goleiro Bruno e a História da Morte de Eliza Samudio' , de autoria dos repórteres policiaiss Leslie Leitão, Paula Sarapu e Paulo Carvalho (Record 2014), narra de forma brilhante todo o caso do assassinato de Eliza Samudio em 2010, orquestrado pelo ex goleiro Bruno (Flamengo) e seus comparsas (Bola, Macarrão e outros).

O texto é tão vibrante e cinematógráfico que o leitor praticamente se sente como uma testemunha ocular de toda a narrativa.

Nesta vibe super estimulante  acompanhamos a trajetória de um atleta especial, desde sua infância sofrida, passando pela consagração nos campos até a condenação pela morte da ex-amante.

Bruno emerge das páginas como um cara tri esforçado e talentoso (além de carismático e líder) que deslumbrou-se com a grana e a fama (quem não ?) e, a partir daí, acreditou ser um personagem acima do bem e do mal que podia tudo (porém com um cérebro de ervilha); um semi deus intocável que não admitia ser alvo de qualquer tipo de crítica ou cobrança.

Neste quadro de soberba e egocentrismo  (se achando  horrores) o “rei” não admitiu ser alvo das acusações da periguete “maria chuteira”  que foi para a imprensa expor sua situação de mulher grávida e ameaçada.

O poderoso, então, na sua “revolta”, perde completamente a noção e parte para ”eliminar o problema”, que envolveu ameaças, pressão para a realização de um aborto, agressões físicas, tortura e finalmente a morte do incômodo, que foi milimétricamente planejada pelo Macarrão com total aprovação e consciência do capitão rubro negro.

Depois do desaparecimento da garota, acompanhamos as investigações problemáticas, prisões e as sessões dos julgamentos dos criminosos.

Com a descrição dos julgamentos o livro cresce muito,  revelando o quanto as sessões foram conturbadas, com várias idas e vindas de estratégias de defesa (algumas completamente esdrúxulas – tipo a hipótese de romance entre Bruno e Macarrão) , inúmeras manobras jurídicas para botar areia e atrasar ao máximo os processos, troca de advogados a toda hora, etc.

Isto sem falar na absurda tentativa de assassinato do promotor Henri Wagner que teve uma atuação exemplar - a transcrição dos seus discursos são espetaculares - e conseguiu enjaular toda a corja.

Livraço.

Bruno 002

Friday, August 29, 2014

Livro–O Imperador de Todos os Males

O imperador de todos os malesVá entender a criatura que compra um livro com subtítulo de “Uma biografia do Câncer”.

Primeiro, se falamos em “biografia” pensamos na trajetória de vida de uma criatura. Até aí, tudo bem. Mas uma história de vida de uma doença? Ainda mais do câncer, o maior tabu dentre todos os males?

Bem, talvez num momento de “desassociação” (sic) acabei comprando o “O Imperador de Todos os Males”, do Siddhartha Mukherjee (respeitado oncologista da Universidade de Columbia), que pretende traçar um painel da história do Câncer, desde seus primeiros registros históricos, passando pela evolução das formas de tratamento, pesquisas e descobertas , até as mais recentes formas de tratamento.

E não é que o livro é tri bom? Mesmo para um leigo?

De maneira tranquila e sólida,  Mukherjee conduz o leitor através dos tempos e mais variados lugares ilustrando a “luta” do homem contra este inimigo sorrateiro e letal.

E aí se vê de tudo. Desde conclusões e tratamento altamente bizarros, passando pela arrogância de vários “iluminados” que definiam “verdades” absurdas a respeito da doença (o lance das cirurgias invasivas é simplesmente tenebroso), uma mastodôntica fogueira de vaidades (quando se vê que os cientistas – que deveriam trabalhar juntos pelo bem comum – queriam mais é “alcançar o estrelato” com razões bem pouco nobres), esforços e missões pessoais (pioneiros que estudaram e descobriram diversos fenômenos relacionados à doença e que foram rechaçados pela toda poderosa comunidade científica), descaso e disputa da indústria farmacêutica quanto à produção de drogas (sempre com olhos para o ganho / lucro, é claro), além de inúmeras histórias de vida (e morte) de pacientes.

É coisa pra caralho.siddhartha-mulherjee-cancer-size-598

Mas a coisa não fica “só nisto”. Cientista que é (e mirando a diversidade de publico – inclusive o “acadêmico” ), Mukherjee, a partir de certo momento, começa uma viagem fascinante (porém árdua para os leigos – como o meu caso) ao interior da célula, desenhando suas estruturas, fenômenos e funções, num traçado vital para entender a estrutura (da) , o comportamento (da) e o combate à doença (mesmo que várias questões ainda permaneçam obscuras).

E aí tu acaba - de forma aterradora - reconhecendo a “beleza” do câncer - se é que se pode dizer isto -, baseada exatamente no seu poder destrutivo, que na verdade pode ser visto através de outras interpretações e intenções, as quais não tem nada a ver com os interesses do “hospedeiro”.

Livraço.

Trecho do livro pode ser lido Aqui.

Entrevista com o autor pode ser lida Aqui.

Tuesday, August 26, 2014

Livro - Crônicas de um casamento duplamente gay

amazon - crônicasNo final fica a dúvida : O que o Sérgio Viula quer com o “Crônicas de um casamento duplamente gay”?

Pra mim, de cara, ficou a impressão da bicha querer “contar dinheiro na frente de pobre”.  Tipo, olhem como eu sou feliz com meu casamento super bem sucedido, suas invejosas. 

Beijinho no ombro total. 

Sim, pois a real love story de Sérgio com Emanuel é para despertar inveja até na Irmâ Dulce, tamanha é a propaganda do super cor de rosa enlace dos pombinhos.  

Com seu casamento transgressor, os bonitos praticamente  não têm nenhum problema de inserção social, profissional e familiar. São aceitos por todos  indiscriminadamente, e apregoam  aos quatro ventos sua “felicidade blindada”.

Então.sergio viula

…. calma …..

Depois desta leitura inicial maldosa (e, repetindo, invejosa) , surge outra, nova, moderna, libertária, calcada no reconhecimento do desafio, da luta, da queda de barreiras que o livro traz.

Com sua história não isenta de adversidades, o casal mostra que é possível sim o povo lgbt alcançar – desde que comprometido com sua verdade - uma integridade emocional, social e civil e não se enxergar como párias, como condenados a viver à margem.

Neste sentido, então, “Crônicas..”, serve como um farol, uma luz, para todos (gays ou não) que amam e buscam realizar seus sonhos, mesmo expostos a riscos e obstáculos.

Muito bom.

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PS: Sou casado há mais de 12 anos com outro cara (de papel passado e tudo) e nossa relação é assumida perante Deus, Família e Sociedade. Também enfrentamos algumas barreiras, mas afirmo que não existe nada mais recompensador do que viver a verdade.

Tuesday, July 08, 2014

Livro–A Culpa é das Estrelas

a culpa e das estrelasComecei a ler e larguei.

Não me entusiasmei.

Dei um tempo (alguns meses) e retomei.

Gostei.

Gostei principalmente do tom nada melodramático da trama (que por si só já é uma tragédia), da postura dos personagens (que nunca se entregam à autocomiseração), do motivação da ação (literatura - o que deve ser louvado), da relevância das novas tecnologias e suas reflexos (games, internet, email, redes sociais), da linguagem “simples” e “juvenil” ( mas nem tanto, como podem alguns preconceituosos supor).

A história é contada a partir do olhar da Hazel, umaa culpa e das estrelas1 garota de 16 anos condenada pelo câncer, e seu envolvimento com Gus (um garoto que ela conhece no grupo de apoio aos portadores de câncer) e mais uns poucos personagens (família, um escritor, um amigo, uma amiga meio perua).

Neste núcleo, afastado da sociedade dita “normal” (e sim voltado para a impermanência, finitude e morte próxima ) não há grandes cenas de conflito, não há grandes dramas, não há choradeira e desespero.

Todos que estão envolvidos na tragédia mantêm-se -aparentemente - positivos (se é que alguém pode isto) diante do cenário.

E as relações se sustentam - estoicamente - na dor, no sofrimento, no apoio, no viver bem ao máximo, no realizar desejos e sonhos imediatos.

É louvável o talento de John Green, que borda uma trama “simples” porém universal  :  vida e morte.

“Simples” ?

Impossível ficar indiferente.

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Thursday, July 03, 2014

Livro–“Sem medo de falar – Relato de uma vítima de pedofilia” (Marcelo Ribeiro)

marcelo ribeiro sem medo de falar capa“Fui abusado na infância”. Só quando consegui pronunciar esta frase para minha mulher, aos 42 anos, é que pude começar a viagem em busca de meu passado. Ele estava enterrado pelo sofrimento, pela vergonha e pelo medo de falar. O silêncio é o melhor amigo da pedofilia.

Não sofri um abuso apenas sexual – o que já seria muito. Também fui abusado moral e psicologicamente. Sofri violência física. Minha família foi induzida à mentira e aos subterfúgios que me afastaram de meus pais e meus irmãos. Quase perdi minha mulher que é tudo para mim.

A história começa quando eu, ainda menino, comecei a cantar no coral da cidade onde morava com meus pais e meus seis irmãos (...)”

Assim começa “Sem medo de falar – Relato de uma vítima de pedofilia” (Paralela – 2014)  de Marcelo Ribeiro, onde o autor, num corajoso exercício de resgate da sua integridade, relata os abusos físicos, morais e sexuais que viveu sob o jugo do sórdido maestro do coral (vinculado à Igreja Católica), de uma cidade do interior de MG, do qual participou da infância à juventude.

Neste “ambiente cultural” , criado e administrado na verdade como bem delimitado universo no qual o mestre musical reinava absoluto – impondo regras, limites, exigências, ameaças, castigos físicos e recompensas - , Marcelo, além de – obviamente – aprender música, foi alvo da ação criminosa do dirigente que, em movimentos muito bem orquestrados (lentos e certeiros), enredou o garoto numa relação de domínio absoluto (moral, emocional e sexual), na qual o monstro extravasou sua perversidade.

Hábil em manipular a inexperiência e confusão do adolescente, a fera disfarçada de cordeiro (mas que era alvo de “reconhecimento” social pelo seu “trabalho relevante”) , lançou o jovem num trágico pesadelo de culpa e silêncio que resultou (já depois de ter abandonado o coral) num adulto torto, imperfeito, preconceituoso e “destruidor” (ele não conseguia manter a estabilidade das relações amorosas e familiares).

Nesta condição, Marcelo acaba num processo de “perda” (emocional e material) e tormento que culmina numa poderosa experiência extra- corpórea (e eu acredito 100 % nisto, pois passei por algo semelhante que foi um turning point definitivo (sic) na minha vida – e só quem vivencia isto acredita ), a partir da qual ele inicia sua dolorosa trajetória de reconstrução.

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Alternando trechos auto biográficos (indo da indignação ao “perdão”, passando por suas ações de denúncias perante a igreja e judiciário, com transcrições de reportagens sobre pedofilia na Igreja Católica e diversos comentários sobre o assunto (morais, sociais, psicológicos e jurídicos) , “Sem medo de falar..” é um libelo contra o abuso , contra charlatanice, contra a inoperância das autoridades e, sobretudo, um vigoroso alerta para este mal que se esconde muitas vezes nas mais respeitáveis instituições (igrejas, família, escola).

Livraço.

Entrevista com Marcelo aqui

Friday, October 25, 2013

Livro “As Correções” – Jonathan Franzen


As Correções 

As Correções é muito punk. 

O calhamaço de mais de 500 páginas nos brinda com uma trip super-neura pelos subterrâneos de uma típica família classe média americana. 

Alfred é o patriarca egoista, irascível, teimoso e preconceituoso. Engenheiro aposentado de uma estrada de ferro que vive, com Enid, sua esposa, em St. Jude, uma cidade fictícia Super-WASP. Perfeito exemplo dos “valores tradicionais”, trata sua mulher como lixo, um burro de carga sem voz e sem vontade que ele tiraniza, explora e desrespeita. Seguidor da linha “homem forte e macho”, do “homem utilitário e sério”, Alfred fracassa em desenvolver laços emocionais  com quem quer que seja. Assim, afunda-se na solidão e terror ao reconhecer a destruição do seu corpo e de sua mente pelo Mal de Parkinson. E, mesmo diante da crescente decrepitude geral, faz a linha “durão” e se recusa a pedir ajuda ou aceitar qualquer sugestão de mudança em seus velhos hábitos. Neste quadro da dor, o papai – como um pateta total  - passa por momentos de delírio, sedução pelo suicídio, luta pela vida, enfrentamentos com a família e desesperadas  batalhas com suas necessidades fisiológicas

Enid, a matriarca, empenha-se em construir  um mundo de fantasia, um mundo envernizado  onde sua família (completamente fraturada) surje como exemplos de cidadãos, com ótimas profissões, , ótimos relacionamento e ótimas realizações. Para construir e sustentar este universo de mentiras, ela recorre a diversos expedientes (principalmente o auto engano), culminando no uso de uma droga milagrosa, daquele tipo que “traz a felicidade”. Assim como Alfred, ela filtra sua relação com os filhos através de valores – na sua opinião corretos -  que só ocasionam afastamento e rancor. Apegada à felicidade de aparências, a mamãe empenha-se em montar “cenas familiares de felicidade”, e sofre pelo fato dos personagens errarem seus papéis.

Chip, o filho do meio, é um “intelectual de passeata”, como diria Nelson Rodrigues. Um cara – um professor cheio de ideias revolucionárias e “ousadas” -  que soa completamente anacrônico e é incapaz de qualquer ação prática e útil. Marxista naufragado, aproxima-se da completa alienação (e diga-se de passagem também quase torna-se  uma espécie de delinquente – em cenas absolutamente ridículas - ) após envolver-se com num escândalo sexual com uma de suas alunas (uma garota gostosa, disponível e rica). Absolutamente sem perspectivas e sem um tostão no bolso,  acaba na Lituânia, trabalhando – num tipo de atuação falcatrua  - para um vigarista empenhado em locupletar-se e, ao mesmo tempo, num viés patriota, “contribuir para o futuro do país”.

Gary seria o exemplo perfeito de um “vencedor”. Filho mais velho de Alfred e Enid é aquele tipo de cara bem sucedido socialmente, com um bom emprego, boa esposa, bons filhos; tudo emoldurado por uma bela casa repleta de avanços tecnológicos. Nada a reclamar, tudo perfeitamente encaixado numa foto colorida digna de um belo comercial familiar. Porém Gary é depressivo e quase alcoólatra, situações que ele se esforça para ocultar de sua esposa Caroline (uma megera) e dos filhos totalmente imbecilizados (tirando um, o Jonah, Mas que também acaba na vibe dos demais). Gary desconfia  que a esposa e filhos tramam contra ele e, seguidor dos manuais do tipo “como educar seu filho”, mostra-se incapaz de exercer qualquer papel educacional ou de respeito diante da sua plugada prole (devidamente associada à Caroline). Assim como sua infeliz mãe, Gary inventa “cenas de felicidade” ( do tipo churrasco para a família, passeios com o filhos, etc) que acabam sempre em raiva e mais neura. Com o objetivo  de “progredir”, de “levar vantagem” e , ao mesmo tempo “ocultar a infelicidade, o mêdo e a depressão”, Gary acaba  condenado a uma desgraçada existência de mentiras. Amaldiçoado  a sustentar uma  aparência de “realizado”, exatamente dentro daquilo que se espera de um típico vencedor, de um cara que “se deu bem na vida”, Gary é o perfeito quadro de um looser-winner (se é que isto existe).
Jonathan Franzen

Denise, a filha mais nova, segue a linha do pai no que se refere à seriedade profissional desde seu primeiro emprego. Como uma bem sucedida chef, encontra o reconhecimento pleno no alto mundo gastronômico. Porém, como não poderia deixar de ser, sofre de profundas doenças “da alma” e todos seus relacionamentos amorosos fracassam magnificamente. Com uma sexualidade ambígua (com um toque masoquista) ela alterna paixões com homens e mulheres de forma um tanto arriscada e suicida.  Assim,  logo ela se descobre insatisfeita e o “amor” desaparece entre entre brigas, mentiras e traições.

Todo este cenário bizarro vai culminar em uma reunião familiar  para “comemorar o último Natal”. O que rola alí vai desde o mais bizarro até o mais amoroso, passando claramente pela raiva, ódio, desconsideração, egoísmo e desamor. Sim amor e desamor misturados, o que afinal acaba traduzindo o relacionamento da imensa maioria das famílias de qualquer época ou país.

Livraço.

Autor : Jonathan Franzen
Editora : Cia das Letras.

Wednesday, September 11, 2013

Livro - O Deus dos Insetos / Monique Revillion


O Deus dos Insetos - Monique Revillion

O novo livro da Monique Revillion ( O Deus dos Insetos / Editoria Dublinense - 2013)  reafirma seu talento como contista. 

Eu que não sou muito fã do gênero, me rendo aos textos curtos desta escritora de São Leopoldo desde a antologia anterior,  Teresa que esperava as uvas”. 

Aqui, com ecos de Clarice Lispector, Monique  mergulha nas almas dos personagens de modo, digamos,  “paralelo”. 

Explicando : em suas histórias, um evento externo, tipo uma enchente, a queda do Sputnik, um fenômeno na superfície do sol, um resto de maçã podre, o vôo de uma libélula, o trajeto de um avião no céu, etc, são motivos  para os personagens projetarem sobre eles suas dores  e os reinterpretarem  como uma desculpa, uma revelação, uma identificação, uma transferência , uma fuga.   
 Sobre seus dramas vão acumulando camadas  que resultam em espanto, surpresa, desilusão e solidão.

Por fim veem-se  encerrados em momentos de tristeza, desespero,  culpa e abandono.  Presos em estados mentais angustiantes, limítrofes.  Em frágil equilíbrio.  Solidão é o tom.

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Confesso que senti falta de um conto no nível de “Os primeiros que chegaram” (que rendeu uma super polêmica com o Mec em 2010). 

A ausência de um texto no estilo curto e seco de Rubem Fonseca, me passou a impressão de que Monique não quer correr novo risco de ser criticada caso exemplares de  “O Deus dos Insetos” venham a ser adquiridos para o ensino médio. 
 
De qualquer forma, dentre os contos deste novo livro, destaco : “Coronal Mass Ejection” (um primor de ironia), “No avesso” (que me lembrou passagem da minha infância), “Números” (com seu assustador espiral ladeira abaixo) e “Funghi” (surreal total)
.
“Jonatas”  me incomodou  ao descrever a mãe (vendedora de rapaduras)  do protagonista : “Ele também tinha mãe, atrasada na subida da rua íngreme, as muletas ajudando o andar coxo e a mochila vergando-lhe os ombros, ainda cheia naquele sábado de manhã em que tão pouco tinha vendido”. 

Ora,  só o fato de ser uma vendedora de rapadura,  andando nas ruas com o filho pequeno num sábado de manhã já pinta um quadro de dificuldade. 
Monique Revillion

Era necessário acrescentar as tais “muletas ajudando o andar coxo”? 

Achei desnecessário.

Por outro lado, até por estar passando por um momento de luto na família, me debulhei em lágrimas com os petardos “Constelar” e “O Deus dos insetos”.

 Ambos tragicamente perfeitos. 

Livraço.

Thursday, August 29, 2013

Livro - Um gato de rua chamado Bob



Meio que me dá medo estes livros de pets do bem. 

Me cheira sempre a modismo, oportunismo focado nas emoções humanas mais nobres como carinho, devoção, companheirismo, amor incondicional e outras do mesmo naipe.  

 Sei disso, mas confesso que não resisto quando o assunto são gatos. 

Já li vários e “Um gato de rua chamado Bob”, de James Bowen (Editora Novo Conceito – 2013) vem somar-se positivamente a este estilo. 

James Bowen é um musico das ruas de Londres, em programa de recuperação de drogas,  que encontra um gato ferido no corredor do seu alojamento. 

Sem saber de quem é o bichano, James acaba adotando-o meio que a contragosto.  

Bob porém revela-se um gato extremamente especial e torna-se torna-se peça fundamental na vida do músico.

É fantástico acompanhar a as mudanças que bichano introduz na existência de James. 

De alguém não visto na multidão, o músico torna-se uma celebridade só por ter Bob ao seu lado. 

As pessoas passam a considerá-lo, passam a conversar com ele, preocuparem-se, ajudá-lo de alguma forma, o que faz com que ele também repense várias de suas decisões de vida e parta para curar feridas e traumas emocionais do passado.

Bob e James
Assim Bob revela-se uma espécie de “curador”, que revoluciona a vida do humano que ele adotou (sim, porque todo mundo sabe que são os gatos que adotam os humanos, e não vice-versa). 

 
O convívio homem-gato evolui para uma relação que se solidifica numa amizade de compromisso e cuidado mútuos.
 
O livro também acerta em retratar a realidade da vida das pessoas que ganham seu dinheiro nas ruas. 
 
Suas leis, necessidades. Suas regras, perigos e riscos. 

James dá voz e visibilidade a esta gente que olhamos de soslaio na pressa do cotidiano. Que passamos ao largo sem considerar que ali estão pessoas ganhando dinheiro de forma honesta, como qualquer outro trabalhador  “de ambiente fechado”.

No fim temos um belo retrato de uma amizade “escrita nas estrelas”, além de uma bela reflexão social, intima e familiar que compõem o quadro de vida de James.

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Apresentação do livro 
James e Bob num programa de televisao