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Wednesday, October 30, 2013

Filme - O porteiro (curta metragem)


O curta “O Porteiro” (The Doorman) de Etienne Kallos,  mostra o conturbado  relacionamento entre o estudante Garret (Stephen Sheffer), e Diego (Jamil Mena), porteiro do prédio onde Garret mora.

O lance começa com uns olhares que Garret traduz como uma “abertura” por parte de Diego. Só que não, e o musculoso serviçal latino fica puto com o avanço da biba. 

O interessante é que Garret “avança o sinal” quando desce com Diego para o subsolo do prédio para tirar o lixo. Ou seja, o estudante classe média se sente no direito de dar em cima do boy quando estão no “porão”, na ”área de serviço”(uma mistura de “escondido” com “local de trabalho dos inferiores”), longe dos olhos dos “de bem”. 
 
Mas o porteiro tem uma coceira gay e acaba se achegando a Garret, quando então iniciam uma espécie de caso.  Só que o rôlo é uma coisa atração fatal (pelo menos por parte de Garret). 

Ele vê o empregado como um  estereótipo do “dominador” e  quer uma relação “entre tapas e beijos”.

Só que o prejudicado socialmente não curte os lances de porrada e nem quer “dar” para o estudante moderno.

Então o romance sai do cor de rosa e vira bafão total, e Garret acaba dando um pé na bunda do doorman.

Mas eis que....

Na verdade tava achando o filme uma bosta (uma coisa bem “bibas em conflito”) , mas o final (no subsolo novamente) redime a história.

A revanche do Diego é sensacional.

Muito bom.




Link para o filme (Youtube)


Fotos :






Friday, October 25, 2013

Filme - Gravidade



Gravidade - Poster

Alfonso Cuarón, para o bem ou para o mal, fez história no cinema com seu “Gravidade”.

Combinando computação gráfica, 3D, som surround, câmeras e sistemas de iluminação pré-programadas, robôs de linha de montagem de automóveis,  ângulos de câmera certeiros e inusitados  e a habilidade dos titereiros do (chato) Cavalo de Guerra - mais, é verdade, a disposição dos atores em “contracenar” com tudo isto – Cuarón, lança os espectadores numa experiência única e sensorial quase sem precedentes. 

A “coisa” mais perto que senti com um filme – e numa intensidade bem maior – foi com o  Mal dos Trópicos, do Apichatpong Weerasethakul - , um filme estranho e lentíssimo diante do qual que, quando me dei conta, estava completamente hipnotizado e “dentro” do filme.

Mas em Gravidade a proposta é diferente – e é cumprida com louvor. Aqui se busca o entertainment, com diversas pretensões artísticas-metafísicas  é verdade, mas que, sem a profundidade de um 2001, impressiona e agrada todos. 

Sandra Bullock (na linha canastra-talentosa dela ) faz Ryan Stone, uma astronauta novata que, juntamente com o veterano Matt Kowalski ( o super canastrão George Clooney), são atingidos por uma tempestade de destroços de uma estação russa enquanto realizam serviços de manutenção fora da sua estação espacial. Sem tempo de se abrigarem, eles acabam sendo lançados no espaço completamente livres de qualquer “âncora” (sim, uma coisa tipo eject) .

Não é preciso dizer que a agonia logo toma conta dos espectadores ao perceber a fragilidade, a pequenez  humana diante do “indiferente  infinito”.   

O pânico da Ryan Stone  é transferido de cara para a escuro do cinema. Ainda mais pelo fato de que o  diretor, sem concessões, realiza a proeza de colocar a audiência “dentro da capacete” da protagonista e assim, compartilhar “sob seu ponto de vista” o terror da sua situação. 

Momento de tensão

E assim a coisa vai. A cada vitória – conquistada sempre de forma super arriscada e épica – segue-se um desastre que  coloca os protagonistas frente a opções digamos um tanto “drásticas”.  

E é um rio de emoções. Mêdo, alegrias, esperança, abandono, terror, sacrifício, delírio, bravura, ousadia e coisas do gênero povoam a narrativa.

Assim, com a combinação de uma projeção IMAX, agregada ao 3D perfeito, “Gravidade” torna-se uma espécie de “parque de diversões de horrores” – meio trem fantasma – que sufoca e amedronta a platéia na mesma medida em que estes dramas ocorrem com os personagens. Tensão e sofrimento diretos na boca do estômago.

O final é um primor de pretensão. Não vou dizer o que rola, mas fica claro que o diretor quis tipo “mostrar” -  de forma bem  óbvia , dentro do ponto de vista dele – a “evolução da vida”  no nosso planeta.

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Momento bizarro :

O repórter Carlos "El Capi" Perez, do programa de humor “Deberían Estar Trabajando” (TV Azteca – Mexico) armou uma pegadinha numa entrevista coletiva com o Alfonso Cuarón.

Com a maior cara-dura lascou : “Quais foram as dificuldades técnicas e humanas de gravar no espaço?".

Cuaron “pensou” e devolveu :

"Sim, nós levamos câmeras para o espaço. Ficamos no espaço por três meses e meio. Eu fiquei meio tonto nos ensaios."

Video abaixo :


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Trailer do filme :

Monday, January 07, 2013

Filme - Amour

Amour - Poster
Confesso que para mim não é fácil assistir a um filme do Michael Haneke.   

Só consigo "atacar"  seus longas após uma “preparação”, que inclui entre outras coisas, exercitar um reforço emocional  a fim de não sair arrasado do outro lado.
 

Sim, porque depois de assistir , por exemplo, “A professora de piano”, “Cache”, “O sétimo continente”, “A fita branca” e “Violência Gratuita”, dizer que saí “perturbado” é pouco.
 

O que seus filmes me causam são, digamos, “experiências bizarras”. Isto no sentido de que acabo revolvido, moído e remoído, meio zumbi  no deserto.
 

Então, sabendo disto, porque continuo a ver suas obras ? Porque insisto em praticar este jogo masoquista ?
 

Será por ele  ser  o maior diretor de cinema em atividade ? Será porque , dentro da sua coragem, suas obras transcendem em muito a “arte cinematográfica” e acabam fuçando de forma implacável nas patologias mais darks da alma humana ? Será porque de seus filmes sempre se esperam “supresas” – terríveis é certo – e elas sempre acontecem e nos detonam ?  Será porque ele não tem piedade dos seus espectadores – e nem de seus personagens - e isto acaba nos atraindo de uma forma meio medonha? Será porque ele, de forma absolutamente fria,  muitas vezes ultrapassa os limites do “suportável”  e, mais do que “chocar”, “acaba ” com os miolos das criaturas ? Será porque dentro desta “perversidade”, ele  escancara e joga na nossa cara “naturezas humanas” (instintos, sentimentos, emoções, taras, desvios  e outras amenidades do gênero), que muitas vezes negamos , fingimos desconhecer ?
 

Não sei.
 

Eu diria que é isto tudo e muito mais, e assim permaneço fiel entre a repulsa e a fascinação.
 

Então ao sentar para assistir  “Amour” eu tinha certeza de que não sairia incólume depois de duas horas.
 

E não deu outra.
 

Acabei o filme completamente em frangalhos, totalmente depenado.
 

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Haneke dirige Emanuelle e Jean-Louis
 Premiado com a Palma de Ouro em Cannes, “Amour”  é “apenas” sobre envelhecimento e morte. 
Assim, direto, sem maquiagem nem vaselina.
 

Haneke disse que começou a escrevê-lo depois que se perguntou :  "Como é lidar com o sofrimento de alguém que amamos ?”.
 

E isto é o que o longa explora de forma soberba ao contar  a história  (ou final da ) de Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva),  um casal de cultos músicos octagenários aposentados, que moram sozinhos em um amplo apartamento em Paris ( Eles têm uma filha  - Isabelle Huppert -  que mora no estrangeiro e ocasionalmente os visita).
 

Certo dia Anne sofre  um derrame e fica com um lado do corpo paralisado.  De volta ao lar ela faz Georges prometer que, aconteça o que acontecer, ele não a mandará de volta hospital e que a cuidará em casa.
 

Georges concorda e, a partir daí, - a medida em que a doença avança -  acompanhamos a declínio físico e psíquico de Anne,  ao mesmo tempo em que testemunhamos a luta dolorosa e infrutífera do esposo  para evitar a total decadência da amada.
 

Porém Anne torna-se  cada vez mais incapaz e passa a necessitar de auxilio (profissional ou não) para tudo.  

Aos poucos perde os movimentos, a fala, o raciocínio, a razão.  Gradativamente torna-se uma “criança assustada” e desamparada, que geme, chora e chama pela mãe.
 

George   acompanha atônito a decrepitude da esposa.  Sabe-se derrotado  diante da perda inevitável da companheira mas, mesmo assim, faz tudo o  que pode para ajudá-la.
 

Tudo obviamente inútil,  e o final já é revelado no início : morte.
 

Fim.

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Falar de “interpretação” aqui é quase uma ofensa.
 

Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva estão além de qualquer elogio.
 

Ele  (outrora um ator belíssimo) estampa uma máscara de perplexidade e dor absolutamente real.
 

Ela faz uma Anne  quase “documental “.
 

Não é uma atriz o que está em cena, e sim a explicitação terrível de uma dolorosa  verdade humana.
 

Algumas de suas cenas são quase “inaterpretáveis “ (sic). Então como ela conseguiu? Isto se chama “talento”? .. ou é outra coisa misteriosa?
 

Com Emmanuelle nós praticamente testemunhamos a morte de uma pessoa e não uma atriz interpretando a morte de uma pessoa.
 

Só vendo para acreditar - e dizer mais é desnecessário.

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Georges desperta de um pesadelo
 Haneke diz que seus filmes são “Mais fácil de fazer do que ver”.
 

Isto demonstra que o maldito sabe que o povo vai enfrentar uma barra punk com suas obras, que sabe que vai incomodar e mexer com as pessoas.
 

No caso de  “Amour” , não apenas incomoda e mexe,  mas também arruína corações e mentes dos espectadores.
 

Eu simplesmente chorei.
 

E o mais apavorante é que o filme não tem nenhuma cena piegas, daquele tipo com um personagem debulhado em lágrimas sob uma orquestra de violinos.
 

Muito pelo contrário
 

O estilo frio, lento e minimalista do bruxo é absurdamente eficiente em abrir um pequeno corte através do qual ele vai  pacientemente eviscerando o incauto assistente.
 

De repente tu te pega vazio, murcho, desossado, testemunhando uma tragédia,  e tão impotente quanto os protagonistas diante do inexorável fim da existência.
 

Então o que resta fazer ? Chorar.
 

Mas tu chora  por quem ? 

Pela Anne, pelo Georges, pela morte dos teus amados ou pela certeza da tua própria ?


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Trailer abaixo