Hino do Blog - Clique para ouvir

Hino do Blog : " ...e todas as vozes da minha cabeça, agora ... juntas. Não pára não - até o chão - elas estão descontroladas..."
Clique para ouvir

Showing posts with label Livros literatura. Show all posts
Showing posts with label Livros literatura. Show all posts

Thursday, December 06, 2012

Revisitando os Clássicos / Encontro II – Dante e Maquiavel



Casa de Ideias - Revisitando os clássicos com Prof. Voiltaire Schilling


Encontro II – Dante e Maquiavel

Dante – A Divina Comédia.



Mais uma super aula com o Mestre Voltaire.  

O cara é um monstro de conhecimento.  Isto tem seu valor, mas o que realmente importa, é o que é que a criatura faz com toda sua bagagem de conhecimento, com  sua erudição. 

Ou pode se tornar um pedante, com um discurso impenetrável – conheci alguns acadêmicos assim- , ou então é abençoado com a arte da didática e transmuta sua erudição num discurso acessível e agradável.  Voltaire é assim. Não dá nem pra perceber o tempo passar. Quando vemos, já está na hora de terminar o encontro.

Em relação ao Dante, o mestre, como não poderia deixar de ser,  fez toda uma explanação da situação sócio-político-cultural-religiosa da Itália na época em que a Divina foi criada.  

Dante, era um poeta e político interessado na unificação da Itália,  tanto pelo lado do poder (foi exilado devido a divergências internas no partido a que pertencia) quanto no lado da cultura  - fez parte do movimento Dolce stil nuovo, um movimento de renovação e afirmação da poesia e da prosa italiana em detrimentoda latina – ainda muito associada a elite e decadência de Roma.  

É impressionante a capacidade do Schilling linkar a obra em discussão com outros assuntos. 

Ontem me caiu os butiá ao saber que um esperto da  KGB, teria se inspirado na descrição do Limbo (ou Primeiro Círculo do Inferno, segundo Dante), para criar, no mundo real uma espécie de gaiola de luxo (na verdade uma prisão), onde, na época do Stalin,  as mentes russas brilhantes – de várias áreas - eram confinadas e condenadas a “produzir”

AlexanderSoljenítsin, foi um dos que passaram um tempo nesta prisão e sua experiência no local inspirou seu livro  “O Primeiro Circulo””.

Para saber mais sobre a Divina Comédia, clique aqui.

Maquiavel – O Principe.

 Aqui o que ficou fixado foi a idéia de que o jogo político não é imoral e sim amoral.  

E isto necessariamente não seria bom ou ruim,  pois o homem público – o imperador, o governante – para se manter no poder,  teria que “se adaptar” de acordo com as mudanças das circunstâncias (do “ambiente”), mesmo que, para isto tenha que ignorar promessas e juramentos feitos anteriormente.

É chocante ouvir isto, mas a coisa  é mesmo assim.  Vide a história recente do país que  mostra  que, neste sentido,  o Lula reza quase ipsis litteris pela cartilha do  Maquiavel.

Segundo Voltaire :

“O Principe” é um “Extraordinário manual de política que se tornou um clássico universal, Seu intento era orientar os chefes do governo (O Príncipe) em como alcançar, manter e estabilizar-se no poder, para tanto descartando as regras da moral comum e da ética religiosa. É uma descrição realista das maneiras de conduzir-se nos negócios públicos internos e externos.

A política é uma prática amora, regulada pelos resultados finaise que pouco segue a ética convencional dos cidadãos ou dos súditos.  Necessariamente um homem bom e honesto não é um político eficaz; deve haver uma fusão entre o homem e o animal, meio homem meio raposa, meio homem e meio leão, e sempre deve ser amparado pela Fortuna (boa sorte)

Para saber mais sobre O Príncipe, clique aqui.

Thursday, November 29, 2012

Oficina "Revisitando os Clássicos"

Iniciou ontem na Casa de Ideias, a oficina “Revisitando os Classicos”, com o professor  Voltaire Schilling que propõe discutir “... alguns dos maiores nomes da cultura ocidental, alinhando-os com a época a que pertenceram e avaliando a notável contribuição de cada um deles para a formação da cultura superior e de uma idéia mais elevada do homem”.

Ontem foi a vez de serem analisadas “A Odisséia” (Homero) e “A Eneida” (Virgilio).

O professor iniciou o encontro explicando as raízes da palavra “clássico”.  

Inicialmente, para os gregos, a palavra “clássico” era utilizada para identificar um modelo de embarcação construído de acordo com determinadas regras.  Se o produto final estivesse totalmente de acordo com tais regras (tipo uma ISO da antiguidade),  recebia a alcunha de “clássico”.  Depois, para os romanos, “clássico”  relacionou-se com “classe”, no sentido social.

Hoje o “clássico”, em termos de arte, identifica uma obra que permanece no tempo (caráter perene) e, ao mesmo tempo, “é superior”  - ou seja,  contem algum elemento que a destaca e “fala”  – talvez – ao inconsciente  (alma ?) humano (a).  

Não se sabe quais são as “regras” para se criar um clássico. 
Uma obra de grande sucesso num determinado período  não necessariamente irá permanecer no tempo . 

Também o clássico não possui caráter universal. Uma obra seminal para determinada cultura,  pode não representar absolutamente nada para outra. Conforme o professor,   “A Odisséia “  não causou impacto algum nas traduções para os povos  árabes e orientais.

Voltaire seguiu falando sobre a “morte” dos clássicos no mundo contemporâneo.  

Citando a revolução industrial, a revolução dos costumes  ocorrida a partir dos 60´s , a imposição das regras do direito anglo-saxão, a dominação ocidental levada a cabo pela Inglaterra e EUA,  a tomada das instituições de ensino  e meios culturais  por profissionais “revolucionários” (que desdenharam a arte “antiga”  feita por “ homens brancos e mortos” – Dead White Men ), a valorização do politicamente correto, etc, o professor afirmou que todo estes movimentos resultaram numa modernidade onde o que vale é a ciência, a tecnologia,  a máquina. 

Um espaço onde o humanismo não tem vez, não tem valor.

No caso da literatura, Schilling criticou os "revolucionários"  que passaram a celebrar obras “de gênero”, tipo literatura “feminista”, “gay”, “confessional”. Ou seja  obras “de palanque”  onde os autores estão mais preocupados em  projetar / registrar experiências e idéias pessoais do que realmente construir “algo maior".  

Ele insinuou  que, para estes obtusos,  uma obra do tipo “eu sou gay e me assumo”  teria mais valor do que um Hamlet.  Que uma obra, num “tom clásico”,  que celebra   o “homem superior”,  já nasce arcaica, ultrapassada.

Porem diante de outra, que enaltece o “homem fraco”,  o povo se ajoelha e cobre de elogios. 

Para exemplificar o sucesso de obras sobre o "homem fraco", o mestre acabou largando um comentário absolutamente preconceituoso ao dizer que o livro mais premiado ultimamente no Brasil (o fantástico “O filho eterno”, do Cristovão Tezza) versa sobre um pai relatando sua experiência com um “filho retardado” (palavras dele), e que agora o Diogo Mainardi embarca nesta linha  tambem largando uma pérola (A queda) sobre seu “filho retardado”. 

Choquei  ! -  ainda mais pelo fato de aparentemente algumas pessoas concordarem – vi alguns risinhos pela sala .

(Obs : particularmente acho o Diogo Mainardi uó. Um boçal, um imbecil que considera o Brasil o fiofó do mundo, mas devo admitir que “A queda” – que estou lendo – é uma “obra superior”)

Mas vamos lá.  

Quando o sábio Voltaire deixou de fazer considerações pessoais infelizes  e passou a ministrar o conteúdo do primeiro encontro, o ambiente se iluminou (mas eu tive um pequeno contratempo auxiliando uma colega que teve uma espécie de AVC light, com direito a cadeira de rodas e tudo, o que me fez perder parte da aula).

Sem dúvida é inegável o domínio absoluto do historiador sobre o tema.

De forma brihante ele dissecou A Odisséia e A Eneida (tanto em relação aos conteúdos, quanto a suas  inserções política e sociais nas épocas em que surgiram e repercussões posteriores ), puxando  paralelos para a Divina Comédia, Os Lusíadas e outros.  

Que maravilha ouvir sobre personagens imaginários (Enéas, Ulisses, Telemaco, Dido, Penelope, Circe e muitos outros) e reais (César, Virgilio, Otávio Augusto, Ovídio, Mecenas, etc).  

Fiquei mesmerizado pela fluência, pela clareza na exposição da beleza das histórias e suas  relações,  influências e conseqüências no “mundo real”, na construção da sociedade,   na geração de arquétipos,  na  definição do homem ocidental.

Fantástico.

Semana que vem continua.

Thursday, July 26, 2012

Livro - Sexo na Lua

Capa - Sexo na Lua
 Apresentação do livro :

“Após ser selecionado para o competitivo programa de estágios da Nasa, o universitário Thad Roberts sonha em ser o primeiro homem em Marte, mas uma paixão avassaladora o tira de órbita. Como muitos homens, ele promete dar a Lua de presente para a amada – e decide cumprir a promessa ao pé da letra. Transforma a fantasia em realidade ao pôr em prática um audacioso plano para roubar amostras lunares trazidas pelas missões Apollo e mantidas em um laboratório aparentemente inexpugnável. Em Sexo na Lua, o jornalista Ben Mezrich reconstitui a história real de um roubo que parece ter sido inventado pela mente criativa de um roteirista de Hollywood. Apoiado em pesquisas meticulosas e entrevistas com os principais envolvidos, Mezrich constrói uma narrativa de ritmo alucinante, que prende o leitor da primeira à última página “

Pois bem, o livro é muito bom mesmo. É incrível acompanhar a trajetória do Thad. 

De um adolescente Mórmom, expulso de casa pelos pais fanáticos religiosos, Thad passa a um estagiário brilhante na Nasa, local onde tem a “brilhante” ideia de roubar e negociar algumas amostras de rochas lunares. 

Thad Roberts & Ben Mezrich
Chega a ser dolorosa a ingenuidade – mas cercada de vaidade – do garoto, juntamente com sua namorada e outra cúmplice,  ao traçar e executar o plano (desde o início condenado ao fracasso). 

O mais interessante da história, habilmente contada por Ben Mezrich, é acompanhar as mudanças, digamos, de personalidade (mas não é bem isto, talvez poderia se dizer mudança de “essência”) de Thad diante de situações “turning point” na sua vida (uma quando ele entra na Nasa e outra na prisão).

Sexo na Lua” vale a leitura. É rápido, leve. A Sony comprou os direitos e um filme, escrito e dirigido por Will Gluck, está prometido para 2013. 

Vale a pena.

Saturday, March 24, 2012

Livro - O Hipnotista (Lars Kepler)

Capa - O Hipnotista

É inacreditável que um livro como  “O hipnotista” seja anunciado com comentários do tipo :

 “Um livro perturbador, uma leitura maravilhosa. Uma reflexão definitiva sobre o mal” (The Washington Post) 
ou 

 “Todas as características de um clássico.  Tenso e bem-feito,  é um romance policial que nos envolve de uma maneira diabólica” (Marie Claire).

Puro engodo.

O livro é ridículo pra dizer o mínimo. 
 
A narrativa aposta  da imbecilidade do leitor com uma história pretensiosa que lança vários laços para não amarrar nenhum de forma  satisfatória.

Senão vejamos :

O livro começa com o assassinato de uma família cujo único sobrevivente é um garoto de 15 anos, esfaqueado, que se encontra no seguinte estado :

 Médica Daniella vendo o garoto pela primeira vez  :

Contracapa
“Um garoto magro está deitado na cama. Apesar dos machucados, tem um rosto atraente. Duas enfermeiras fazem curativos nos ferimentos.  :  há centenas deles (meu comentário : vejam bem,   “CENTENAS !”), cortes e perfurações por todo o corpo, nas solas dos pés, no peito e na barriga, no couro cabeludo, no rosto” .

Depois a mesma médica comentando a situação com o Detetive Joona :

"- Como está o garoto, doutora ?
- Em choque circulatório.
- O que isso significa ?
- Ele perdeu muito sangue . Seu coração está tentando compensar isso e começou a acelerar.
- Conseguiu conter a hemorragia ?
- Acho que sim, espero que sim, e estamos dando sangue a ele o tempo todo, mas a falta de oxigênio pode afetar o sangue e danificar o coração, os pulmões, o fígado, os rins.
- Ele está consciente ?
- Não.
- É urgente que eu tenha uma chance de falar com ele.
- Detetive, meu paciente está por um triz. Se sobreviver aos ferimentos, não será possível falar com ele por várias semanas”.

Bem, eu diria que o garoto ta bem mal, não ?

Então o que acontece ?

- ATENÇÃO  ! – NÃO LEIA OS COMENTÁRIOS ABAIXO CASO TENHA INTENÇÃO DE SE AVENTURAR NESTA BOMBA !

Logo em seguida se revela que o próprio garoto matou toda a família e se auto-infligiu a tal de CENTENAS DE FERIMENTOS!

E isto é SÓ O INÍCIO.  

Logo depois o adolescente assassino foge do hospital (sim, naquele estado  ótimo descrito anteriormente) e sai enlouquecido matando gente pelo caminho.

Mas isto NÃO É O PIOR !.

Para  dar “densidade” à   obra,  os autores (sim, o tal de Lars Kepler é pseudônimo de um casal sueco - Alexandra e Alexander Ahndoril - que comete livros a quatro mãos), montam uma história paralela ao do garoto-assassino-esfaqueado,  onde o filho (Benjamin) do hipnotista (Erik) é seqüestrado. 

Benjamin tem uma doença séria no sangue que o obriga a tomar injeções especiais.  É claro que o tempo corre e todos se desesperam para resgatar o menino antes do prazo de ataque da doença acabar com ele.  

E como ocorrem as descobertas de onde o menino está ?

 Dentre outras coisas, por uma absurda sorte do destino, O GAROTO FOI SEQUESTRADO COM UM TELEFONE CELULAR PENDURADO NO PESCOÇO E OS BANDIDOS NÃO NOTARAM !!!! E assim o garoto usa o celular para se comunicar !!

MAS ISTO NÃO É O PIOR !!!

Para acabar definitivamente com o “livro”, na página 429 acontece uma coisa que, juro, não acreditei quando li.

Tive que parar, me concentrar, acalmar, ler novamente, especular se não era erro de tradução, até me convencer definitivamente de que, sim, os autores “escreveram” aquelas linhas.

O que ocorre ?

O pai finalmente descobre onde o filho doente está preso,  e liga à noite para o detetive encarregado do caso. 

Transcrevo (com vergonha) as tais linhas abaixo :

Pai falando :

“ - Acho que Lydia levou Benjamin para a casa assombrada de Jussi. Fica em algum lugar da periferia de Dorotea, em Vasterbotten, Laponia”

Meu comentário : o pai está dizendo que Lydia, a seqüestradora, levou seu filho para a casa de Jussi (outro personagem) que fica na periferia de Dorotes, Vasterbotten, Laponia, ou seja com todas as dicas de localização  - só falta o Google Earth,  mapa impresso e GPS.

Seguindo a transcrição :

“- Voce acha ? “ – (responde o detetive)

“ – Estou quase certo – responde Erik insistente – Não há mais vôos hoje. Você não precisa ir, mas eu reservei  três passagens para amanhã de manhã” .  (as três passagens seriam para Erik, sua esposa e o detetive)

Então o que eles fazem ?  Erik e sua esposa VÃO DORMIR E O DETETIVE VAI PARA UMA FESTA !

SIM, com TODOS SABENDO O PARADEIRO DO GAROTO AGONIZANTE é isto o que acontece. Nenhum deles se  lembra de telefonar para a polícia de Dorotes, Vasterbotten, Laponia, e pedir que IMEDIATAMENTE MANDEM UMA VIATURA POLICIAL PARA LIBERTAR O MENINO  - Isto só ocorre na MANHÃ SEGUINTE !

Ah, mas atrás disto tinha uma intenção !!  O casalzinho autor quis criar um final apoteótico  e inacreditável envolvendo pai, mãe, detetive, bandidos, o garoto e um velho que aparece do nada no meio da neve;  então por isto eles não podiam pedir ajuda policial na noite anterior.

Bem, dizem que este horror vendeu mais de 1 milhao de exemplares.

Me pergunto : alguém em sã consciência gostou ?

Que medo...

Os "autores"




Saturday, March 10, 2012

A Ausência que seremos - Hector Abad

Hector Abad
(... Este livro é a tentativa de deixar um testemunho dessa dor, um testemunho ao mesmo tempo inútil e necessário. Inútil, porque o tempo não volta atrás, nem os fatos se modificam; mas necessário, pelo menos para mim, porque minha vida e meu ofício perderiam o sentido se eu não escrevesse o que sinto que devo escrever, e que, em quase vinte anos de tentativas, não fui capaz de escrever, até agora..."  Hector Abad - A Ausência que seremos )

Acabei de Ler “A ausência que seremos” , de Héctor Abad, que conta a bela história de vida e a trágica morte de seu pai, Abad Gomez, renomado médico sanitarista, humanista , pensador liberal colombiano, assassinado por sicários a mando de um conjunto de forças políticas, militares, paramilitares, religiosas e elitistas (ou teve seu “cérebro eliminado”, conforme diria Carlos Castano, chefe das Autodefesas Unidas da Colombia – perseguidor e assassino confesso daqueles que eram considerados como “perigo para a sociedade).

Abad desde sempre acreditou que muitas das causas das mazelas da sociedade (violência, doenças, subdesevolvimento, ignorância, atrasos, etc) tinham raízes nas condições miseráveis na qual boa parte da parcela da população colombiana vivia. E para lutar contra isto, dedicou muito da sua vida a desenvolver projetos e campanhas para implementação de saneamento básico, acesso à saúde e educação para populações carentes.

Porém, por esta militância pelas causas dos direitos humanos (de forma liberal e independente), Abad passou a ser mal visto e alvo de perseguição, calúnia e difamação tanto da direita, como da esquerda e de religiosos.

Tudo culmina com sua morte em 1987 que vem a ser mais uma numa cadeia assustadora de assassinatos de intelectuais cometidas naquele período terrível.

Mas o livro não tem “apenas” este caráter político e, o que realmente fascina é a dimensão humana de Abad como pai.

Hector diz que o “A ausência...” é o anti “Carta ao Pai” do Kafka. Tudo aquilo que Kafka registra como uma criação recheada de desamor, indiferença, tortura e sofrimento – num contundente acerto de contas paterno -, Hector traduz em seu pai como amor, dedicação e aceitação incondicional da natureza dos filhos.

“A ausência...” é uma escrita que proporciona conhecimento histórico e social da Colombia, mas também, principalmente, a oportunidade de termos contato com a sabedoria deste homem especial e iluminado que foi Abad Gomez.

É difícil destacar algumas partes deste livro único, mas selecionei algumas que transcrevo abaixo :

==================================================

Aceitação incondicional dos filhos, Natureza Humana e Dissimulação da Personalidade 
( acredito que poucos pais pensam assim)

Antes Hector fala sobre sua adolescência na qual ele estava bem perdido em relação a várias questões, inclusive sexuais.

“ O que eu sentia com mais força era que meu pai confiava em mim fizesse o que eu fizesse, e também que depositava em mim grandes esperanças (sempre apressando-se a dizer que eu não precisava conseguir nada na vida, que minha simples existência bastava para sua felicidade, minha existência feliz, fosse como fosse).


Isso significava, por um lado, certa carga de responsabilidade (para não trair essas esperanças nem frustrar essa confiança), certo peso, mas era um peso suave, não uma carga excessiva, pois qualquer resultado, por menor e mais ridículo que fosse, sempre lhe agradava.


Em matéria sexual foi sempre muito aberto, como no episódio da masturbação e em outros que não vou contar, porque não há nada mais incômodo que misturar o sexo com os pais. Imaginamos nossos pais sempre assexuados, e, como diz um amigo meu, achamos que "as mães nem sequer fazem xixi".


(...)


Eu podia falar com meu pai sobre todos esses assuntos íntimos, e consultá-lo diretamente, porque ele sempre me escutava, sem se escandalizar, com calma, e respondia num tom amoroso e didático, nunca de censura.


No meio da minha adolescência, na escola masculina onde eu estudava, começou a me acontecer uma coisa que achei muito estranha e que me atormentaria por anos a fio. A visão dos genitais de meus colegas, e seus jogos eróticos, me excitava, e cheguei a pensar angustiado que era maricas.


Contei essa minha preocupação ao meu pai, cheio de medo e de vergonha, e ele me respondeu, sorrindo, muito tranquilo, que ainda era cedo para saber definitivamente, que era preciso esperar até ter mais experiência do mundo e das coisas, que na adolescência estamos tão carregados de hormônios, que tudo pode ser motivo de excitação, uma galinha, uma burra, umas salamandras ou uns cachorros copulando, mas que isso não queria dizer que eu fosse homossexual.


Mas acima de tudo deixou claro que, se assim fosse, também não teria a menor importân¬cia, desde que eu escolhesse o que me fizesse feliz, o que minhas inclinações mais profundas me indicassem, porque não devemos contrariar a natureza com que nascemos, seja ela qual for, e ser homossexual ou heterossexual era como ser destro ou canhoto, só que os canhotos eram um pouco menos numerosos que os destros, e que o único problema que eu poderia ter, caso me definisse como homossexual, não era nada de insuportável, apenas uma certa discriminação social, num meio tão obtuso como o nosso, que também poderia ser contornada com doses iguais de indiferença e de orgulho, de discrição e de escândalo, e principalmente com senso de humor, porque a pior coisa na vida é não ser o que se é, e disse essas palavras com uma ênfase e uma firmeza que vinham do fundo mais profundo da sua consciência, e advertindo-me de que, em todo caso, o mais grave, sempre, o mais devastador para a personalidade, eram a simulação ou a dissimulação, esses males simétricos que consistem em aparentar o que não somos ou esconder o que somos, receitas infalíveis para a infelicidade, e também para o mau gosto.


Em todo caso, disse, com uma sabedoria e uma generosidade que até hoje lhe agradeço, e com uma calma que ainda agora me acalma, que eu devia esperar um pouco para ter mais contato com as mulheres e ver se com elas não sentia a mesma coisa, ou mais e melhor”

====================================
Abad Gomez fala sobre injustiça social, o comportamento das elites que querem manter o estado das coisas, a inconsciência dos prejudicados e a luta das pessoas eticamente superiores.

"Uma sociedade humana que aspira a ser justa tem de oferecer as mesmas oportunidades de ambiente físico, cultural e social a todos os seus membros. Se não o fizer, estará criando desigualdades artificiais. São muito diferentes os ambientes físicos, culturais e sociais em que vivem, por exemplo, os filhos dos ricos e os filhos dos pobres na Colômbia.


Hector e familiares estarrecidos
diante do corpo morto do pai
Uns nascem em casas limpas, com bons serviços, com bibliotecas, recreação e música. Outros nascem em barracos, ou em casas sem serviços sanitários, em bairros sem brinquedos, nem escolas, nem assistência médica.


Uns frequentam luxuosos consultórios particulares; outros, abarrotados postos de saúde. Uns vão a escolas excelentes. Outros, a escolas miseráveis.


São-lhes oferecidas assim as mesmas oportunidades? Muito pelo contrário. Desde o nascimento, vivem em injusta desvantagem.


(...)


Essas são verdades irrefutáveis e evidentes, que ninguém pode negar. Por que nos empenhamos, então — negando essa realidade —, em conservar o estado de coisas?


 Porque o egoísmo e a indiferença são características dos cegos às evidências e dos satis¬feitos com suas próprias vantagens, que negam a desvantagem dos demais.


Não querem ver o que está à vista de todos, para assim manterem seus privilégios em todos os campos.


O que fazer diante dessa situação? A quem cabe agir?


E claro que quem deveria agir são os prejudicados. Mas eles, em meio às suas necessidades, angústias e tragédias, dificilmente têm consciência dessa situação objetiva, não a interiorizam, não a tornam subjetiva.


Por mais paradoxal que pareça — mas a história mostra que tem sido assim —, cabe a alguns daqueles que a vida pôs em melhores condições despertar os oprimidos e explorados para que reajam e tentem mudar as injustas condições que os prejudicam.


Foi assim que ocorreram as mais importantes mudanças nas condições de vida dos habitantes de muitos países, e estamos sem dúvida vivendo uma etapa histórica em que, por todo o mundo, há grupos de pessoas eticamente superiores que não aceitam como um fato natural a perpetuação da desigualdade e da injustiça.


Sua luta contra o establishment é uma luta dura e arriscada. Têm de enfrentar a resistência e a ira dos grupos poli tica e economicamente mais poderosos. Têm de enfrentar consequências, com o prejuízo de sua própria tranquilidade com seus interesses individuais, abdicando de alcançar o chamado 'sucesso' na sociedade estabelecida."

==============================================
Hector reflete sobre a escrita do seu próprio livro.


Capa da edição nacional
"É possível que tudo isto não sirva de nada; nenhuma palavra poderá ressuscitá-lo, a história de sua vida e de sua morte não dará novo alento a seus ossos, não trará de volta suas gargalhadas, nem sua imensa coragem, nem sua fala convincente e vigorosa, mas mesmo assim eu preciso contá-la.


Seus assassinos continuam livres, a cada dia são mais e mais poderosos, e minhas mãos não podem combatê-los.


Somente meus dedos, afundando tecla após tecla, podem dizer a verdade e declarar a injustiça.


Uso a mesma arma que ele: as palavras.


Para quê?


Para nada; ou para a mais simples e essencial das coisas: para que saibam."

=============================================

Poema de Borges, transcrito a mão por Abad e encontrado no seu bolso no dia da sua morte.


Capa da edição em ingles.
Mostra Hector e o pai
"Já somos a ausência que seremos.
O pó elementar que nos ignora, que foi o rubro Adão,
e que é agora todos os homens, e que não veremos.
Já somos sobre a campa as duas datas do início e do fim.
O ataúde, a obscena corrupção que nos desnude,
o pranto, e da morte suas bravatas.
Não sou o insensato que se aferra ao som encantatório do seu nome.
Penso com esperança em certo homem
que não há de saber o que eu fui na terra.
Sob o cruel azul do firmamento consolo encontro neste pensamento."





Sunday, March 04, 2012

Nick Vujicick – Uma vida sem limites

“Uma vida sem limites” definitivamente é um livro de autoajuda ( e foi o primeiro que li do tipo). Comprei-o sem conhecer absolutamente nada sobre Nick Vujicick. Minha motivação para a aquisição foi a foto da capa que mostra Nick sorridente em seu corpo atrofiado.
Ao começar a ler confesso que tive o impulso imediato de largá-lo pois fiquei chocado com o tom “cristão-salvação” do moço. Uma coisa bem pregação cristã ferrenha mesmo. Tipo “confia”, “acredita”, “tenha fé”, “persevere” e outras recomendações “fáceis e bíblicas” do tipo.
Porém, a medida que fui lendo, fui me colocando na pele do gajo e percebi que realmente tudo o que ele prega faz sentido e é totalmente coerente dentro da sua vida, da sua realidade.
A religião foi sua salvação e, a partir dela, ele encontrou respostas e consolo para sua condição e definiu sua missão como pregador do evangelho ao redor do mundo.
Fiquei surpreso com seu talento, sua sensibilidade para tocar o espírito, a alma do próximo, e o livro traz alguns casos de pessoas que tiveram suas vidas transformadas ao conhecer sua vida, sua força, sua superação e seu foco na esperança e na fé.
Assim, mesmo não sendo um seguidor assíduo da fé cristã, não posso deixar de reconhecer que a doutrina foi a salvação da vida do moço (e a de outros) , e “apenas por isto” revela seu valor como ferramenta de apoio ao indivíduo em busca de consolo ( … o cristianismo é uma, mas existem diversas outras ferramentas e práticas que cumprem este papel, desde filosofias até drogas....).
De qualquer forma o livro tem seu valor, pois seus “toques” e “conselhos”, apesar de amontoarem um clichê atrás do outro, acabam construindo um discurso positivo que ajuda o povo a enfrentar as mazelas da vida - o que não é pouca coisa.
Duas passagens particularmente me impressionaram. Uma é quando ele fala de empatia e exemplifica com o caso de uma garotinha que o “abraça” em uma festa, e o outra é quando ele fala da necessidade de brincar sempre.
Seguem as duas transcrições abaixo.
EMPATIA
(... antes ele fala sobre sua tentativa de suicídio, da sua dor emocional e da sua frustração física...)
“Minha atitude melhorou consideravelmente quando cresci um pouco e percebi que muita gente enfrenta problemas iguais ou piores que os meus. Quando reconheci isso, comecei a me colocar no lugar das outras pessoas e a oferecer a elas encorajamento com muito mais empatia.
A filhinha de um amigo da minha família me propiciou uma demonstração bastante comovente de empatia. Os pais dela, que estavam visitando a Austrália em 2009 resolveram levá-la com eles a uma festa. Era ma menininha de apenas dois anos de idade, que eu nunca tinha visto antes.
Ela ficou um bom tempo me analisando de longe, como as crianças pequenas invariavelmente fazem. Então quando seus pais já se preparavam para ir embora, perguntei àquela linda criança se queria me dar um abraço. Ela sorriu e, com cautela, caminhou pé ante pé na minha direção.
Quando chegou bem perto, parou, me olhou bem nos olhos e lentamente abriu os braços e os dobrou atrás das costas, como se quisesse mostrar solidariedade com a minha falta de braços. Depois caminhou um pouco mais e encostou a cabeça no meu ombro, abraçando-me com o pescoço exatamente como ela tinha me visto fazer com as outras pessoas.
Todos na sala ficaram abismados pela incrível demonstração de empatia daquela menininha. Já fui abraçado muitas vezes, mas sinceramente posso dizer que jamais vou me esquecer desse abraço em particular, porque aquela menininha obviamente tem o maravilhoso dom de se identificar com os sentimentos dos outros

BRINCANDO PARA SEMPRE
0 Dr. Stuart Brown, psiquiatra e fundador do National Institute for Play [Instituto Nacional para Brincadeiras], diz que somos programados para brincar e que negligenciar esses impulsos brincalhões pode ser tão perigoso quanto não dormir.
Ele estudou condenados no corredor da morte e assas­sinos seriais e constatou que quase todos eles tiveram uma infância com ausência de padrões de brincadeiras. Ele afirma que o contrário de diversão não é trabalho, e sim depressão, e que a diversão pode muito bem ser consi­derada uma ferramenta de sobrevivência.
Brincadeiras arriscadas que envolvem disputa física ajudam crianças e adultos a desenvolver suas habilidades sociais, cognitivas, emocionais e físicas, de acordo com o Dr. Brown, que acredita que devemos inclusive tentar amalgamar trabalho e diversão em vez de reservar tempo específico para a recreação.
Conheci homens que passaram a juventude inteira em busca de reco­nhecimento e riqueza e que, em seus últimos anos de vida, perceberam que chegavam ao fim de uma jornada da qual não tinham gostado. Não permita que isso aconteça com você. Faça o que tiver de fazer para sobreviver, mas, sempre que possível, faça também o que você ama!
É assustador ver que podemos ser tão enredados pela rotina do dia a dia e pela luta para ganhar a vida, que acabamos negligenciando nossa qualidade de vida. 0 equilíbrio não é algo que se alcança "um dia". Não se esqueça de se divertir à beça curtindo atividades e passatempos que o absorvam tanto, que você acaba até perdendo a noção de tempo e espaço.
Estudos demonstram que ficar "no mundo da lua" ou totalmente absorto e envolvido em uma atividade favorita — seja ao jogar Banco Imobiliário, a a pintar uma paisagem ou a correr uma maratona — talvez seja o mais perto que a gente consiga chegar da verdadeira felicidade.”

Falou e disse, Nick
 ===============================================

Abaixo alguns clipes do Nick