Verdades. mentiras, reflexões e insanidades ditadas por forças ocultas Autores : Iuri Palma (iuri.palma@gmail.com)
Monday, June 16, 2014
Livro - Ressurreição (Jason Mott)
Os mortos "ressucitam e voltam casa”.
Quando "Ressurreição" (Jason Mott - Editora Versus) começa, este “milagre” já é conhecido da humanidade e está ocorrendo em todo o mundo.
Os “ressurgidos” aparecem em qualquer lugar do planeta, totalmente desorientados, e contam com o apoio da “Agencia Internacional para os Ressurgidos” (um órgão mundial) que faz a ponte entre os (possíveis) parentes vivos e eles.
Este link pode ou não resultar num resgate das relações e convivência. Tudo vai depender do interesse, do estado emocional - e até físico - dos “bem vivos” em receber os falecidos em seus ambientes.
Neste contexto, temos como protagonistas Harold e Lucille Hargrave, que vêem na porta da sua casa (em Arcadia / EUA) trazido pela Agencia, Jacob seu filho de cinco anos, morto há mais de cinquenta anos.
De início o casal até passa por uma pequena crise com a situação, mas logo são seduzidos pela inocência e amor da criança e se esforçam para restabelecer o convívio familiar e superar seus traumas.
Em paralelo, surgem outros personagens, ressurgidos e “bem vivos” , que – a princípio - coloririam a história com as diversas possibilidades de conflitos oriundas desta instigante idéia.
Só que não.
O livro é um porre só.
Para se ter uma idéia, a fim de criar cenas de impacto – ou sei lá por que- , do nada, sem explicação, os ressurgidos passam a ser trancafiados (juntamente com familiares que não querem separarem-se deles) - pelo governo - em escolas e outros espaços publicos, transformados em algo tipo campos de concentração.
Lá são examinados e interrogados (para quê ?) em sessões intermináveis de conversa inúteis.
Os ressurgidos não falam uma só palavra sobre o “tempo que estiveram dormindo”, não se recordam de nada e todos, invariavelmente, são exemplos de imbecis carinhosos. Todos são um perigo para o diabetes de tão açucarados, de tão doces.
Não há um só diálogo “de resgate”, de “acerto de contas”, de “verdade” no livro inteiro. Tudo se resume a “reencontros” (bem ou mal sucedidos, é verdade) em climas amorosos ridículos.
O pior é que o autor, de forma explicita para encher lingüiça e assim “dar volume à obra” , gasta páginas e páginas com divagações e sonhos - totalmente soporíferos - de vários personagens (numa malograda tentativa de dar “profundidade” aos mesmos), que não levam a nada, não acrescentam nada, não esclarecem nada.
A coisa é tão inútil que o leitor pode tranquilamente pular dezenas de páginas pois a trama não avança um milímetro entre elas
Mas para a coisa não ficar só neste lenga lenga enjoativo (ou purgativo), eis que, de forma absolutamente primária, estabelece-se um clima de guerra na cidadezinha, com um grupo de fanáticos de bem vivos” querendo acabar com os ressurgidos. Esta é a desculpa para “criar tensão” – e surgir cenas de “suspense e violência” -; só que o resultado é constrangedor de tão pífio, tão frouxo, tão murcho.
Nada se salva neste livro. Na verdade é um livro covarde, medroso de ir fundo na sua própria idéia. Tudo é raso, rasteiro, superficial.
Ah, mas espere que tudo tem uma explicação. Na “Nota do Autor”, depois de finalmente ter terminado o suplício do último capítulo, Jason esclarece sua motivação, seus insights envolvidos na escrita de “Ressurreição”.
Ali, fica bem claro por que ele optou por uma linha auto-ajuda para a trama.
Tudo bem, nada contra. Cada qual com seus fantasmas e necessidades emocionais.
Mas confesso que se eu soubesse disto, não teria perdido meu tempo precioso tempo com esta josta total.
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É incrivel que este zumbi-impresso serviu de fonte para a criação de uma série de televisão. Se a adaptação para a telinha seguir suas páginas o resultado só pode ser catastrófico.
Se é para assistir uma série de ressucitados, prefiro mil vezes a francesa Les Revenants, que é porrada pura.
Trailer Abaixo
Tuesday, June 03, 2014
Livro–O Réu e o Rei
| Capa |
O “Eu não sou cachorro...”, indo contra todos os preconceitos, resgata a chamada música brega da lama da história e a analisa como fenômeno sócio-político-cultural legítimo.
Já o “Roberto Carlos em detalhes” - livro que li em apenas um dia- traz um estupendo panorama da vida e obra do Rei, Um biografia exemplar, de fôlego, que celebra RC como o grande ídolo que é.
Ou era, pois todo mundo sabe que esta biografia (“não autorizada”), foi proibida de circular no Brasil por conta do processo de “invasão de privacidade” movida pelo RC contra o autor e a Editora Planeta, num dos mais tenebrosos casos de agressão à liberdade de expressão já perpetrado nas terras brasilis.
Mas agora Paulo dá o troco, e de maneira elegantésima, com o fundamental “O Réu e o Rei - Minha história com Roberto Carlos, em Detalhes" (Companhia das Letras / 2014), onde ele narra sua história desde a infância (cheia de dificuldades financeiras e familiares), passando por seu esforço para trabalhar e cursar o ensino superior (História e Comunicação) até já historiador e escritor consagrado. Tudo tendo como pano de fundo sua “relação” com Roberto (o fâ mirim, o tiete devotado, o historiador sério, o autor responsável e, finalmente, o querelado – aquele que ofende – dentro do processo movido pelo “Rei” contra ele).
| Paulo Cesar de Araujo |
Sim, pois quando o Paulo afirma que algumas músicas do Roberto da década de sessenta eram direcionadas ao público infantil, me vi novamente o menino do interior do RS cuja imaginação era arrebatada pelas cenas fantásticas descritas destas canções, e não teve como não mergulhar na memória afetiva..
Realmente naquela época o que se tinha para crianças, em termos musicais, eram os disquinhos de historinhas (onde rolavam algumas canções), as músicas do Carequinha (algumas tenebrosas, tipo a famigerada “O bom menino”, onde o palhaço, com voz de travesti fumante e decadente, ia enumerando as qualidades que um “menino do bem” , um menino enquadrado e obediente deveria ter). Fora isto mais nada. E o RC vinha com “A História de um homem mau”, “O Brucutu”, “O calhambeque” e outras cinematográficas que incendiavam o imaginário da molecada de então.
Por outro lado, com sua marca de escritor delicioso (no bom sentido), Paulo analisa – novamente, mas incorporando outros enfoques distintos do “RC em detalhes” - a trajetória pública e artística do “Rei”, especialmente lançando luzes sobre a fase horrenda (inaugurada pós 80 e que ainda não acabou- e acho que nem acabará), na qual o ídolo se afundou no TOC, na religiosidade, na ausência de grandes canções, no “mundo azul” e na perseguição à liberdade de expressão, revelando ao público uma personalidade mimada e fanática.
É especialmente tenebrosa a passagem que conta a junta de conciliação promovida entre o querelado Paulo e o querelante RC, em São Paulo, na Vigésima Vara do Fórum Criminal da Barra Funda, em 27 de Abril de 2007.
Ali foi celebrada uma das mais patéticas audiências já engendradas pela nossa justiça. Sob a batuta do hostil juiz Tércio Pires, o jogo já estava definido antes do apito inicial : RC sairia vencedor de qualquer maneira. E para isto o tal juiz usou de pressões e ameaças (tipo passar o cadeado na porta da editora, multa diária de 500 mil reais e outras amenidades tais) até que os advogados do réu, com o paredão às costas, jogaram a toalha e não tiveram saída a não ser assinar um “acordo”.
| Roberto Carlos em Detalhes |
1) RC exigindo indenização em dinheiro numa discussão de enrubecer as faces sobre “paga, não paga” e valores. A coisa toda é altamente constrangedora. Bem vergonha alheia, podem crer.
2) A exigência para recolher todos os livros de todas as livrarias do Brasil (o que não ocorreu devido à dificuldade de operacionalização do plano). Então foi exigido a entrega à RC de todos exemplares que a Planeta ainda tinha em estoque (mais de 10 mil exemplares), a fim de que ele desse o melhor destino aos livros. Isto de fato ocorreu. Quer cena mais 1984 ou Fahrenheit 451?
3) Os advogados de RC querendo fazer constar no texto do “acordo” a exigência da aplicação de uma bela de uma mordaça no Paulo, para impedi-lo permanentemente de falar publicamente qualquer palavra sobre o “Rei”. Neste momento Paulo dispensa seus advogados, toma para si sua própria defesa e, num momento de coragem ímpar, faz valer sua dignidade de historiador .
4) E como se as pérolas anteriores não bastassem, Sua Excelência o juiz Tércio, depois que a assinatura do “acordo” acontece, satisfeito e de surpresa, abre uma sacola e distribuiu a todos os presentes um cd gravado por ele. Paulo descreve a cena : “.. a minha única vontade era sair daquela sala o mais rápido possível. Antes disso, porém, o juiz pegou uma bolsa que estava ao lado da sua mesa e, para supresa de todos, dela retirou um CD que mostrava na contracapa sua imagem segurando um violão, Ele abriu o encarte, autografou e ofereceu a Roberto Carlos, com um pedido que todos ouviram. “Roberto, eu também sou cantor e compositor, com o nome artístico de Thé Lopes. Gostaria muito que você ouvisse esse disco e desse sua opinião sincera. È meu primeiro CD, já estou gravando agora um segundo, e gostaria de ter a sua opinião sobre este trabalho”. O cantor abriu o encarte, leu o autógrafo e agradeceu ao juíz. “Obrigado, dr. Tércio, pode deixar, ouvirei seu disco com a maior atenção e carinho”. Sem seguida o juiz deu um CD de Thé Lopes para cada um dos advogados e um também para mim, com o mesmo pedidode que eu ouvisse e manifestasse a minha opinião. Com o título “Pra te ver voar”, é um CD com onze músicas, a maioria composta pelo próprio juiz”
Ãh ? Simplesmente inacreditável.
| Paulo chora na saída da sessão na qual seu livro foi proibido |
Depois deste encontro revelador com Justiça Brasileira (o qual deve ser objeto de análise de qualquer curso de direito), Paulo buscou outros na tentativa de liberar seu livro, o que, como todos sabemos, não ocorreu.
De qualquer forma, a proibição do “RC em detalhes” suscitou uma grande discussão a respeito da liberdade expressão versus preservação da intimidade. Tipo : O que define uma coisa ou a outra? O que está em jogo em cada um dos assuntos? O que vale mais numa democracia?
A coisa meio que pegou fogo, e teve como ponto culminante a divulgação do manifesto do famigerado grupo “Procure Saber”, cuja porta voz era a “empresária” (??!!) Paula Lavigne e integrado pelos “ídolos” Roberto Carlos, Chico Buarque, Caetano, Gilberto Gil, Djavan e outros “artistas engajados”, o qual numa só voz - e do alto da sua certeza de influência sobre a intelligentsia tupiniquim - esbravejou contra a liberdade de expressão mostrando os dentes contra a publicação de biografias “não autorizadas”. (isto sem falar na chorumela a respeito da grana que os biografados estariam perdendo com tal tipo de publicação, os “pobrezinhos”).
| "Ídolos" do Procure Saber |
Já em outra passagem, conhecemos as estratégias maquiavélicas da Rede Globo de Televisão para ocultar do grande público toda a merda perpetrada pelo Rei na história da proibição do livro, seguida do comovente esforço da Vênus Platinada para reafirmar uma imagem positiva, simpática e doce do Torquemada RC diante de seus desinformados fãs.
Só lendo para acreditar e ver como a mídia realmente manipula corações e mentes dos incautos.
| O Rei no vídeo do Procure Saber |
Enfim, não vou me alongar. Só tenho a dizer que o livro do Paulo é necessário e urgente para todos aqueles que acreditam no respeito e na liberdade de expressão responsável, não só como conceitos, mas, principalmente como direitos de qualquer cidadão.
Livraço !
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Entrevista com o Paulo
Monday, May 26, 2014
Livro–O Drible (Sérgio Rodrigues)
“O que se estendia à sua frente era uma vida de merda, via com clareza agora, mas tudo bem, que fosse. Uma vida de merda. Teria a companhia de multidões.”
Assim Neto percebe seu futuro num momento “turning point” de “O Drible” (Sérgio Rodrigues - Companhia das Letras 2013).
Neto é um “looser total”, interessado em velharias da cultura pop, que se sustenta fazendo revisões de rasteiros livros de auto ajuda e que, após passar por um terrível trauma amoroso, só se envolve com garotas “de classe inferior”, as quais descarta logo que o “caso” começa a entrar perigosamente na categoria de “romance”. Filho do famoso cronista esportivo Murilo Filho, Neto, durante a infância, já órfão de mãe, comeu o pão que o diabo amassou nas mãos do pai agressivo, ausente e cruel.
Já adulto, depois de dez anos sem ver o pai frente a frente, Neto recebe um convite de Murilo para visitá-lo numa chácara no Rocio (Petropolis RJ) onde vive recolhido após abandonar a profissão. “Estou à sua espera, Tiziu. Estou morrendo” – ouve o pai dizer-lhe em tom melodramático ao telefone. Neto surpreende-se tanto pelo convite quanto por o pai chamá-lo pelo apelido que lhe dera na infância e que ninguém mais usava. O filho reluta mas acaba iniciando uma série de encontros com Murilo nos quais espera, de forma quase obsessiva, que o jornalista aposentado demonstre arrependimento por provocar a ruína de sua vida e, desta forma, lhe peça perdão.
Só que Murilo, alternando momentos de lucidez e outros de aparente “desligamento”, desvirtua a conversa toda a vez que o filho lhe coloca contra a parede questionando-o sobre sua desumanidade, sua perversidade como pai. Nestes momentos, o velho cronista, com toda sua bagagem de conhecimento, começa a divagar (ou “dar aulas”) sobre o futebol brasileiro, sua história, times, craques, campeonatos, copas do mundo. Fala sobre o futebol como elemento formador da cultura, da sociedade, do imaginário; o esporte como agregador, como gerador de ódio, violência e morte.
Também Murilo começa a lhe contar a trágica história de Peralvo – sobre a qual escreveu um livro ainda não publicado -, um jogador com determinados dons mágicos, que partiu de uma condição interiorana quase marginal para as glórias nos grandes clubes cariocas, e que se envolve, por vias completamente tortas, nos subterrâneos da ditadura militar.
Neto acaba embarcando neste mundo fictício ou real muito mais para estar perto do velho – e assim ouvir (ou extrair) o tão sonhado pedido de perdão – do que realmente interessado no que está lhe sendo contado.
Só que a velha raposa não embarca nesta tão fácil, e daí se estabelece uma espécie de jogo entre pai e filho, com ataques, recuos, faltas, inúmeros dribles e um assustador golaço final.
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Bem, devo dizer que futebol não faz parte dos meus interesses e, portanto, entrei no livro meio que “sem vontade”.
Mas a coisa já começa muito bem com a descrição entusiástica de Murilo de um drible fantástico e humilhante que Pelé deu no goleiro uruguaio Ladislao Mazurkiewicz, na copa de 1970 (aliás o que este drible envolve, define o livro).
Então, mesmo para quem não é futebolista fanático, as passagens esportivas super bem escritas não incomodam em nada. Pelo contrário, servem como uma espécie de “Introdução ao Fanatismo do Futebol para Leigos”.
Também a mistura de personagens reais dos anos dourados e sessentas (Nelson Rodrigues, Mario Filho, Nara Leão, Garrincha, Pelé, etc) com fictícios é fantástica.
Mas estes e outros recursos utilizados pelo autor seriam elementos “inteligentes” se não estivessem a serviço de uma boa história. No caso de “O Drible” achei, a medida que evolui a leitura, que esta tal história era até “estava legal”, mas não esperava maiores surpresas.
Só que não.
O final é definitivamente esmagador (para usar uma gíria esportiva), elevando a sordidez dos personagens a níveis insuspeitados.
Me caiu os butiá do bolso. Portanto aviso que quem se aventurar neste livro, prepare-se para ficar C-H-O-C-A-D-O.
Imitando a Gleicy Kelly – personagem do livro - : É tipo assim, PÉIM !! na sua cabeça.
Excelente.
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Observação :
Sérgio pisa na bola ao afirmar que (falando de cultura pop na página 71), o Agente 86, Maxwell Smart, trabalhava para a UNCLE, quando na verdade ele trabalhava para o CONTROLE.
Absolutamente nada a ver.
Ele confundiu ”O Agente da UNCLE” com “O Agente 86”.
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Video com o incrível drible de Pelé
Links para os blogs do Sergio Rodrigues
Saturday, May 10, 2014
Livro "O Professor" - Cristovão Tezza
Thursday, May 08, 2014
Livro - Longe da Árvore (Andrew Salomon)
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Excelente entrevista de Salomon para o Milênio (Jorge Pontual)
Clique na imagem abaixo
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Fotos
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| Andrew Salomon |
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| Salomon com seu companheiro e seu filho. |
Tuesday, July 02, 2013
Livro–Lágrimas de Silêncio ( Angélica - Angela Chaves)
É inegável que problemas todo mundo tem.
Uns mais, outros menos, mas todos enfrentam dificuldades em diversas ocasiões da vida.
Frente a estes momentos, dependendo do que acontecer, podemos achar que nosso sofrimento é o maior que alguém pode suportar.
E é mesmo, pois cada um sabe a dor que sente.
Mas, ao lermos a história de vida da Angelica (relatada em “Lagrimas de Silencio”, Suliani Editora ), somos obrigados a olhar nossos “problemas” e reconhecer que se olharmos para o lado vamos ver que nossos percalços tornam-se quase que piadas comparados a situações para nós impensáveis, mas que são dura realidade para outros.
“Lagrimas do Silencio” relata de forma crua e direta (e com uma coragem ímpar) a aterrorizante trajetória de Angélica (nome fictício da autora Angela Chaves), uma menina do interior do RS que teve sua infância destruída por uma família abusiva.
E Angela não doura a pílula. A descrição dos seus tormentos desde criança até adulta atinge níveis cada vez mais angustiantes.
Fome, frio, descaso , abandono, miséria. Surras, maldades. Abusos, ameaças. Rejeição, desprezo, tortura. Estupros, violência, incesto. Zoofilia, pedofilia. Alcoolismo, prostituição, exploração, assassinato. Loucura, depressão, tentativas de suicídio. Tudo isto foi realidade na sua vida.
E ela acabou dando a luz a duas crianças frutos deste universo de desgraças. Uma filha do seu próprio pai e outra de seu meio irmão.
O livro é curto, de poucas páginas, porém assustador, pavoroso.
Senti medo de ir adiante diversas vezes. O espiral de sofrimento da menina parece não ter fim. Quando achamos que o ápice da maldade aconteceu, sucede-se outro, e outro, e mais outro. E somos convidados a testemunhar tudo impotentes, paralisados, incrédulos.
Como Angela mesmo diz, as palavras são insuficientes para expressar sua dor. E ao lermos sua história, concordamos. Se para nós leitores não existem palavras que expressem o choque ao tomarmos o conhecimento da sua infância arruinada, quanto mais para ela que tenta transmitir em texto a tragédia de sua alma dilacerada.
Depois de fechar o livro, acabei me lembrando das palavras finais o personagem Kurtz em “Coração das Trevas” de Joseph Conrad, diante do reconhecimento da maldade humana :
“O horror, o horror”.
E acrescento :
O incompreensível, o inexplicável, o abominável, o execrável, o aterrorizante, o paralisante, o inominável, , o odioso.
Nem mesmo recorrendo a todas as palavras do dicionário que lembrem “inferno” e / ou “sofrimento” serão suficientes para, remotamente, descrever o massacre do corpo, alma e mente da menina gaucha, perpetrado por uma família e circunvizinhos absolutamente doentes.
Angela é uma vencedora.
Tive oportunidade de abraçá-la ao adquirir o livro. Tudo muito rápido e gentil.
Porém o poder de sua história me marcou para sempre.
E isto, afirmo, acontecerá com qualquer um que a conheça.
Para adquirir o livro, envie um mail diretamente para Angela que ela passa as orientações
Friday, May 03, 2013
Livro–Pulmão de Aço / Eliana Zagui
A primeira vista parece ser uma coisa tipo “auto-juda”, pois é óbvio que Eliana (e de lambuja seu grande amigo Paulo e outros mais) é (são) um exemplo de superação, e nós, os “saudáveis”, não nos damos conta de quanto somos abençoados só pelo fato andarmos eretos.
Então ao tomarmos conta da difícil condição física dos protagonistas logo nos vem a mente frases do tipo ”se eles estão neste estado e ainda conseguem ser “felizes”, porque eu tenho que reclamar de qualquer coisinha”?
Isto é verdade, e não há leitor que não imagine como seria sua vida se seu corpo estivesse em alguma das várias situações de restrição física ou de doenças relatadas no “Pulmão”.
E o livro é um compêndio de males do organismo. Até mesmo porque este é universo, é o dia a dia comum onde a garota (hoje uma mulher) foi criada desde os dois anos de idade. Ou seja, sua paisagem de vida, seu mundo é um quarto de hospital e tudo o que ali acontece.
Então somos introduzidos facilmente a termos do seu cotidiano, tais como poliomelite, paralisia, traumatismo, broncopneumonia, atalectasia, traqueostomia, necrose, incubação, placa mioneural, vírus,aspiradores de secreção, aparelhos respiratórios, tapotagem, displasia crania, disformidade congênita, óbitos e muitos outros dos quais queremos manter distância eterna (ou nem saber o que são).
Isto sem falar no relato da dor, muita dor e agonia que envolvem diversos procedimentos.
Este é um lado.
Pelo outro, temos pela frente um ser humano na sua totalidade. Com preferncias, manias, surtos, raivas, birras, esperanças, desejos, sonhos, depressão, tristeza, alegrias, euforia, enfim uma criatura normal.
Mas nós enxergamos um “deficiente” assim?
Não sei.
Creio que a tendência é não, pois de um modo absolutamente digamos, “arrogante”, podemos olhar um corpo paralisado e, na sequência, já definir o que alguém em tal situação poderá atingir ou não em termos de “vida”; podemos julgá-lo “incapaz” e assumir que sua intimidade (emocional, espiritual e intelectual) está automaticamente “comprometida”.
Eliana ousa e vem para, de um modo direto e sem óbvias armadilhas emocionais, provar que as coisas não são assim.
Em “Pulmão de Aço”, ela compartilha sua vida (e a de vários de seus companheiros) trancada dentro do Grande Hospital das Clinicas de São Paulo (seu lar) e revela uma trajetória que, tirando a restrição motora, é semelhante a qualquer uma de nós.
Neste sentido, tirando todo um lado verdadeiramente “lacrimoso” (mas sem pieguismo) de algumas passagens – e não há quem não se emocione com várias (confesso que chorei em algumas ) -, o que me conquistou foi sua bravura em discutir determinados “tabus”, e “assuntos delicados”, tipo a explosão de hormônios na puberdade, suas tentativas de suicídio, sua vontade de “encontrar alguém”, o reconhecimento da sua ingenuidade por acreditar no próximo, sua vontade de ser beijada, o reconhecimento da dura verdade sobre sua família, seu desejo de ser adotada, de ter um lar “normal” e outros mais.
Tudo discutido de forma terna, porém madura e segura.
Mas nem tudo são mazelas. Eliana abre espaço para as piadas, brincadeiras e acontecimentos hilários que rolam no HC e, de forma magistral descreve os sentimentos quase sufocantes de preparativos, expectativas, descobertas e alegrias que envolvem cada passeios e visitas externas.
Isto sem falar num lance tri sinistro envolvendo uma visita do Airton Senna ao local - (que mêda!!) - quase fiquei sem dormir – Um troço bem “Premonição”.
Quando ela fala de religião, o que mais me chocou e que me deixou salivando de ódio, foi a explicação dos “espíritas” (uma das denominações que circulam por lá para “dar apoio”) que afirmaram (em sua “mensagem de amor”) que ela e seus companheiros presos às máquinas estavam “apenas” pagando carma por terem sido “maus” em outras vidas.
Que agora estavam “em fase de resgate” para, na próxima vida, reencarnarem felizes (alguém pode me explicar o que é reencarnar feliz? ) – e que, por isto deveriam agradecer ao Senhor pelo privilégio de estarem nesta existência. condenados a pulmões de aço. Só digo uma coisa: quem é o filho da puta que tem coragem de dizer uma barbaridade destas diante de alguém em tal situação? Com que direito estes escrotos religiosos do mal chegam e vomitam uma … (nem sei dizer o que ), destas diante do outro?
Mas como disse o tal de Jesus: ”Pai, perdoai-os. Eles não sabem o que fazem”.... ou sabem ?
Vejam só...
Mas, felizmente, uma coisa que me caiu os butiá (em termos gaúchos : “fiquei surpreso”) foi perceber – e reconhecer – que existe sim bondade no mundo.
Eliana relata inúmeras situações onde a ação do próximo (sobre si e seus companheiros) revela nada menos do que a bondade nua e crua.Bondade esforçada, desinteressada, direta, sem firulas.
Bondade de alguém que abre mão do seu conforto, do seu lazer, da sua preguiça e do seu umbigo para agir concretamente. Alguém que olha para o outro, se compromete e age.
Isto faz toda a diferença.
Médicos, enfermeiros, ajudantes, religiosos, visitantes, professores, celebridades, familiares (mas não no caso dela. Aliás a família sanguínea dela é muito uó) - e muitos mais.
Quanta gente realmente nobre. Parabéns a todos.
Abaixo alguns.
Não me coloco neste patamar. E estaria sendo tri hipócrita se me comparasse com qualquer um dos “verdadeiros anjos” que Eliana, Paulo e demais companheiros conheceram durante os anos.
Reconheço e afirmo que eu estaria muito mais para os tais de “anjos temporários”, que eles manjam muito bem.
Aquele tipo de criatura que chega toda da “vibe da luz”, cheio de jesus na cachola, prometendo ficar “para sempre ao seu lado”, só para depois de um certo tempo “cansarem” e simplesmente sumirem. Eliana não poupa estes “missionários de vitrine” que mais causam mal do que ajudam.
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Eliana e Paulo, os dois sobreviventes e amigos que ainda estão na área (vistos como exemplos de perseverança e determinação – e até utilizados como modelos de videos motivacionais).
Ela faz parte faz parte da “Associação dos Pintores com a Boca e os Pés”, com sede na Suíça. Só de dizer isto, fica claro “até onde ela chegou” ( e ela não quer parar por aí, não senhor)
Paulo faz trabalho de Web Designer e teve a oportunidade de conhecer o Carlos Saldanha, criador da série “Era do Gelo” e “”Rio”.
Por meu lado, - e isto concretamente – me obriguei a refletir sobre minha infância (60,70), onde o fantasma da poliomelite era real no Brasil. Fui poupado, mas muitas outras crianças não. Eu e Eliana somos contemporâneos. Eu cresci “caminhando”, ela cresceu “deitada”. Eu, como se diz, tô por aí (“realizado” e muitas vezes sofrendo por abobrinhas). E ela onde está? Quem de nós foi “mais longe”? Quem de nós realmente superou as dificuldades e conquistou seu sonho?
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Sem medo de se expor, revela seu maior desejo, seu maior sonho, porém, ao mesmo tempo, oferece uma sólida reflexão sobre as implicações e obstáculos a tal realização.
Não é um final feliz, mas é uma conclusão iluminada pela razão.
Uma conclusão alicerçada na certeza da preservação e continuidade da vida.
Recomendadíssimo.
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Abaixo, excerto do trecho que inicia o livro.
O casal se entreolhou. Não era a primeira vez que Thereza e Carlos Zagui levavam a filha para ser vacinada no posto de saúde de Guariba e ali ouviam a mesma história. Com febre, nada feito. Parecia uma sina. Sempre que era levada, a menina estava com dor de garganta e febre. Garganta, aliás, era seu ponto fraco. Desde os primeiros meses de vida virava e mexia aparecia uma inflamação. Vivia tomando antibióticos.
Naquele dia, o quadro febril foi o argumento dos médicos para negar-lhe as duas gotinhas contra a poliomielite. Achavam melhor não aplicar a vacina em criança com sinais de inflamação. Uma decisão hoje considerada sem embasamento científico. E, como se verá, um terrível engano.
Desde a chegada da pequena, em março de 1974, o casal não cabia em si de felicidade. Era o sonho do pai. Logo depois do nascimento do primogênito, Luiz Carlos, em 1971, ele disse à mulher que se sentiria plenamente realizado se tivessem também uma menina. Mas havia um senão. Thereza encerrara a primeira gravidez com um problema comum a muitas mães: varizes. Teve de passar por uma cirurgia. Dois médicos a advertiram de que uma nova gestação seria arriscada. Era preciso evitar. Mas aconteceu.
Quando a gravidez acidental e inesperada se confirmou, o casal se cercou de cuidados. Thereza passou a maior parte do tempo em repouso. O obstetra sugeriu uma cesariana, a fim de evitar os esforços do parto normal. Mas a menina, afobada, por pouco não nasceu a caminho do hospital
.
Pressa foi sua marca registrada. A pequena, loirinha e de olhos claros, era esperta. Começou a andar e a falar antes de um ano. Não queria saber de colo. Preferia caminhar. De preferência, de mãos dadas com Carlos.
Mãe e filha passaram a noite no hospital sem que os médicos chegassem a um diagnóstico. No dia seguinte, Carlos deixou Luiz Carlos com familiares e foi ao encontro das duas, em busca de informações. Encontrou a filha incomodada com a agulha do soro:
— Pai, tira! Dodói!
As mãozinhas irrequietas haviam sido imobilizadas para evitar que ela removesse a agulha. Instintivamente, Carlos examinou a filha. Estranhou a falta de mobilidade, principalmente nas pernas, e chamou o médico.
Francisco Iglesias, o dr. Chiquinho, ficou preocupado:
— Vocês precisam ir com urgência para Ribeirão Preto.
Distante 60 quilômetros de Jaboticabal, Ribeirão é historicamente uma das cidades mais bem aparelhadas e com mais recursos médicos do interior paulista. Fazia todo o sentido buscar assistência por lá. Mas a ida a Ribeirão consumiria um tempo precioso. Precioso e decisivo para o futuro da menina. Alertado pelo tom aflito na voz do dr. Chiquinho, Carlos colocou mulher e filha num táxi. A corrida até Ribeirão consumiu praticamente todo o dinheiro que tinha.
Chegaram à cidade por volta do meio-dia. Na clínica dos pediatras Mariano, Achê e Raya, o dr. Mariano suspeitou da gravidade do caso e os encaminhou ao pronto-socorro do Hospital Santa Lydia. Depois de examinar o líquor da medula espinhal, a médica que os atendeu em caráter de urgência não teve dúvida do diagnóstico: paralisia infantil.
— Não temos recursos para tratá-la aqui — disse a médica. — Vocês precisam levá-la para o Hospital das Clínicas, em São Paulo. Ela tem no máximo mais oito horas de vida...
A doença avançava depressa. A paralisia já atingira mais de 60% do corpo.
O estado de São Paulo vivia uma epidemia de poliomielite. O último grande surto antes da moléstia ser erradicada do Brasil, em 1989. Doença viral, transmitida pelo contato com fluidos corporais do doente ou por meio de água ou alimento contaminado, a pólio ataca o sistema nervoso e paralisa a musculatura. Só existem dois meios de prevenção: vacinação ou sorte.
Por ignorância, muitos pais e até profissionais da saúde deixavam a vacinação de lado. Quando os surtos ocorriam, logo se disseminavam. Um grupo de médicos que trabalhou no HC de São Paulo contou 5.789 internações entre 1955 e o final da década de 1970.
Conseguir evitar que a filha engrossasse as estatísticas de morte por pólio era questão de tempo. Pouco tempo. Não havia ambulância disponível em Ribeirão Preto. O hospital recomendou que a família retornasse a Jaboticabal e lá buscasse transporte para a capital. Vendo o desespero dos pais, um dos médicos tirou do bolso 200 cruzeiros[1] e ofereceu a Carlos. Com o dinheiro, ele pagou o táxi de volta.
Quando os Zagui conseguiram retornar ao Santa Isabel, já passava das quatro da tarde. O quadro era grave e estava piorando. As más notícias não paravam de surgir. A única ambulância pública da cidade fora deslocada para a zona rural, para atendimento a feridos num acidente. O hospital mobilizou assistentes sociais e até a enfermagem para tentar uma solução. O próprio Carlos telefonou para o prefeito de Guariba, a quem pensava conhecer, e pediu ajuda. A resposta soou como um soco no rosto:
— Não conheço nenhuma família Zagui em Guariba.
A enfermeira Josefina Aparecida Saccani, que naquela tarde trabalhava na recepção do hospital, tentou ajudar. Inconformada, repetiu a ligação para o prefeito e ouviu a mesma resposta.
Conhecida como Fininha — não só pelo nome, mas também pela compleição magérrima —, a enfermeira não sabia o que fazer. Mesmo assim fez — e acabou se transformando no primeiro dos dois anjos que entraram na vida da família Zagui naquela tarde. Eram quase cinco horas, seu turno já havia acabado, mas ela estava determinada a não deixar o hospital enquanto o caso não fosse resolvido.
Quase em pânico, nervosa, ainda pensando sobre como agir, Fininha esbarrou no segundo anjo. No corredor do hospital, encontrou o produtor rural Tercílio Sitta.
A família Sitta e Fininha eram vizinhos. Moravam — e ainda moram — a poucas quadras um do outro. Fininha estudou na mesma escola que os filhos do fazendeiro. Tercílio estava no Santa Isabel por acaso. Havia levado um funcionário para suturar um corte na mão. A enfermeira o cumprimentou e arriscou:
— Seu Tercílio, estamos com um problema. Vou pedir uma coisa, mas sei que o senhor pode me dizer não. Eu vou entender.
— Você nem pediu ainda. Se eu puder, eu faço.
— Temos uma menina com pólio que precisa ir urgentemente para São Paulo. Se não chegar lá até a meia-noite, ela vai morrer.
O homem estava suado, cansado de um longo dia de trabalho. Olhou nos olhos da enfermeira e respondeu:
— Eu levo. Mas antes vou até em casa tomar um banho e avisar a família.
Tercílio conhecia a pólio de perto. Seu filho Tercilinho contraíra a doença anos antes. Tinha como sequela uma redução na mobilidade das pernas.
Voltou pouco depois, de banho tomado. Passava das sete da noite quando acomodou os pais e a menina no banco traseiro da Ford Belina recém-comprada e voou para a capital. Os 350 quilômetros entre Jaboticabal e São Paulo foram cobertos em velocidade máxima. Tercílio ainda parou no primeiro posto da polícia rodoviária e avisou que iria correr muito. Explicou o motivo e pediu para não ser interceptado.
— Peça para seus colegas da rodovia me deixarem passar — disse ao policial.
— Está bem. Mas tenha cuidado. Além da sua, o senhor está colocando em risco a vida dessa família.
Mesmo sem estarem totalmente duplicadas, as rodovias Oswaldo Cruz e Anhanguera eram um bom caminho. Principalmente porque não tinham o volume de tráfego, os radares e os postos de pedágio de hoje. Àquela hora da noite, as pistas estavam praticamente livres.
Chegar a São Paulo foi fácil, mas encontrar o Hospital das Clínicas é que seria difícil. O fazendeiro não conhecia a cidade e decidiu não perder tempo. Ao entrar na capital, parou um táxi e pediu que o guiasse até o HC. Às 23h30, o casal deu entrada nas Clínicas com a filha nos braços e o diagnóstico na ponta da língua.
— É paralisia infantil. Ela tem pouco tempo.
Com atendimento dedicado quase exclusivamente à doença, o socorro no Instituto de Ortopedia e Traumatologia do HC foi imediato.
— O senhor não levou a criança pra São Paulo, seu Tercílio?
— Levei, Fininha. Deixei a menina lá com os pais e vim embora.
Na capital, encerrados os procedimentos de internação, Thereza olhou para o relógio na parede do HC: duas e meia da manhã do dia 10 de janeiro de 1976.
Enquanto isso, os médicos corriam para salvar a vida da menina. Conseguiram evitar que a doença progredisse, mas o tempo havia sido implacável. Quando a família Zagui chegou ao hospital, pouco restava a fazer. A mobilidade do pescoço para baixo estava comprometida.
Dispensado pelos médicos, o casal voltou para Guariba pela manhã, de ônibus. Não demorou a que um vizinho os procurasse — Carlos e Thereza Zagui não tinham telefone. A filha tivera uma crise, e o hospital os chamava de volta. Era preciso correr, caso quisessem ver a filha viva.
Carlos apanhou o primeiro ônibus e voltou sozinho. Chegou ao HC à meia-noite, informou-se da situação e passou em claro a segunda madrugada seguida. Pela manhã, a menina já havia melhorado. Fora colocada num dos muitos pulmões de aço, antigos respiradores mecânicos, em funcionamento ininterrupto.
As idas e vindas se repetiram algumas vezes. Os telefonemas não paravam e, num deles, por engano, a menina foi dada como morta. Mas foi só na quarta ou quinta corrida ao HC que Carlos Zagui se deu conta de que a batalha contra a doença estava perdida. O pulmão de aço não havia sido suficiente: pelo vidro da UTI, viu que a frágil garganta de sua filha agora tinha um orifício e uma cânula. Ela acabara de passar por uma traqueostomia.
A menina alegre não voltaria mais para casa. Correr e brincar pelo quintal eram coisas do passado. Acabara de entrar para outro universo. Um mundo em que pai, mãe, irmão, tios e avós praticamente deixavam de existir. Passaria a integrar uma nova família. Uma família formada por médicos, enfermeiros e um grupo de crianças internadas.
Passados 36 anos desde a internação, a menina é hoje, ao lado do amigo Paulo, um dos dois sobreviventes das dezenas de vítimas graves da poliomielite internadas no Hospital das Clínicas de São Paulo. O HC tem sido sua casa desde então.
Seu nome é Eliana. E esta é sua história.
Os editores
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Algumas pinturas da Eliana

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POST ATUALIZADO EM 26/11/2013
Vejam que bacana. Não sei por que caminhos, mas todo o ano recebo um pacote de cartões natalinos do "Pintores com as Bocas e Pés". Este pacote é acompanhado de um doc que pode ser pago e, deste modo, enviar uma contribuição aos artistas. Para mim foi super legar identificar um dos cartões como da Eliana. Parecia que ela estava enviando diretamente a mim. (Vejam abaixo)
O Site da Organização pode ser acessado no link : Pintores com a Boca e os Pés
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| Cartão 2013 - Eliana Zagui |








